Neste mundo dos livros e leitores, há coisas que escapam completamente a um autor, como, por exemplo: Por que razão, um livro que achamos que vai ter sucesso - seja pelo assunto, seja pela personagem ou (também) porque foi uma obra a que demos mais tempo e mais trabalho, que consideramos a mais rica em conteúdos e ligações com outros temas, até por ter tido melhores críticas dos entendidos - acaba afinal por suscitar menos interesse aos leitores do que todas as nossas obras anteriores?
Para meu espanto, e com bastante pena minha, vejo que esse fenómeno parece estar a acontecer com o meu romance "O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto". Pensei que um livro que leva o leitor numa incrível viagem no tempo, por toda a Ásia dos Descobrimentos, haveria de despertar um interesse ainda maior do que o alcançadp pelas duas obras anteriores sobre o tema da Expansão Portuguesa. Com ele, eu dei por concluída a minha saga dos portugueses, fechando-a com chave de ouro, segura que depois dele, os meus leitores ficariam com um bom conhecimento deste período riquíssimo da nossa História.
Por isso escolhi para protagonista Fernão Mendes Pinto, um homem extraordináriao, injustamente tratado pela pelos críticos dos séculos posteriores ao da publicação da sua obra Peregrinação (que foi um bestseller no sec. XVII na Europa, com inúmeras edições em várias línguas).
Será possível que a rábula do «Fernão Mentes? Minto.», tão infame como injusta ( mas que é talvez a única coisa que a maioria dos portugueses ouviu sobre este aventureiro ), se tenha inscrito como um ferrete de eterno desprezo sobre o seu nome, apesar dos estudos actuais que o devolvem à dignidade e valor que merece?
Será por isso que este meu romance, que procurava dar-lhe visibilidade e fazer-lhe justiça, está a ter menos sucesso do que os outros? Por não gostarem da personagerm Fernão Mendes Pinto?
Se for, tenho uma grande mágoa, embora não lamente os quase 4 anos anos que levei a escrevê-lo. Fernão Mendes Pinto vale mesmo a pena e o esforço.
31/05/2015
19/05/2015
Feira do Livro 2015
Feira do Livro de Lisboa - Parque Eduardo VII
Estarei na Praça Leya - Casa das Letras, para conversar com os meus amigos leitores, nos seguintes dias:
- 30 de Maio, 18 horas
- 10 de Junho, 18 horas
Estar convosco, com pessoas que amam os livros e gostam de conversar sobre eles, é um dos grandes prazeres que a escrita me dá. Lá vos espero, com uma surpresa.
Estarei na Praça Leya - Casa das Letras, para conversar com os meus amigos leitores, nos seguintes dias:
- 30 de Maio, 18 horas
- 10 de Junho, 18 horas
Estar convosco, com pessoas que amam os livros e gostam de conversar sobre eles, é um dos grandes prazeres que a escrita me dá. Lá vos espero, com uma surpresa.
Entrevista no Jornal i
Entrevista à escritora Deana Barroqueiro, autora de «O ESPIÃO DE D. JOÃO II», na secção A Minha Estante Corre Mundo, Do «Jornal i».
Precisa de renovar o passaporte. Que livro
leva consigo para suportar a fila de espera?
Uma pequena monografia ou ensaio, de pesquisa para o meu
novo romance.
Qual o sítio mais estranho onde já
encontrou um livro seu?
Em Macau, o meu «Corsário
dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto»
Já perdeu/esqueceu-se de algum livro
durante uma das suas viagens? Se sim, qual e onde? Conseguiu recuperá-lo?
Durante um
cruzeiro ao Estreito de Magalhães, levei O Espião de D. João II, para fazer a
revisão e deixei-o no sofá da biblioteca do navio. Quando voltei para o
recuperar, tinha desaparecido. Havia muitos passageiros lusófonos, espero que
quem o levou tenha gostado do romance.
Vê uma pessoa a roubar um livro na
livraria de um aeroporto. Como reage?
Se for
jovem, peço-lhe discretamente que me permita oferecer-lhe o livro e pago-lho na
caixa. Se for adulto denuncio-o
Ao lado de que autor não se importava de
viajar até ao fim do mundo? Porquê?
De nenhum,
para uma viajem assim tão longa! Preferia dialogar com as suas obras, que são
aquilo que de melhor têm os escritores. Há livros fabulosos de autores que,
como seres humanos, são insuportáveis.
Se pudesse escolher apenas um
sítio/paisagem/país onde passaria o resto da vida a escrever, qual seria e
porquê?
Lisboa, Portugal,
que é onde estou, de facto, a passar o resto da minha vida a escrever. Tenho
dupla nacionalidade, mas nunca escolheria os E.U.A. para lugar do meu fim. Conheço
sítios preciosos, no mundo, mas por muito que a maltratem, Lisboa continua a
ser uma cidade belíssima, solarenga e marítima, onde cada rua, casa ou pedra
tem um passado e uma história para contar, e cujo horizonte verde-azul apela à
imaginação e sonho de viagens e aventuras.
Está no estrangeiro e decide enviar um
postal à sua editora. O que escreve?
«Descobri
um verdadeiro filão narrativo para um “best-seller”, mas preciso de seis meses de
pesquisa nos arquivos da cidade. A editora estaria interessada em patrocinar
este projecto?»
Qual a nacionalidade que melhor assenta a
um detective de um romance policial e porquê?
A inglesa,
da velha escola: Detectives fleumáticos, elegantes, sóbrios e de raciocínio
brilhante.
Imagine que no meio do nevoeiro de Londres
encontra uma das suas personagens. Que lhe diria ela?
«Que faço
eu aqui? Este tempo não é o meu! Que raio de escritor de romance histórico és
tu, se não logras recriar o meu mundo, com rigor e verosimilhança, para que eu
possa viver nele como se ele fora real e eu tão de carne e osso como tu?
Contextualiza-me ou apaga-me, ó aprendiz de feiticeiro!».
Passeia pelas ruas estreitas de Veneza
quando o confundem com um escritor que detesta. Como se comporta?
Com a maior naturalidade possível, tratarei de desenganar o leitor
e de me apresentar, dando-me a conhecer e à minha obra, de modo a que ele se
sinta na obrigação de fazer parte do meu clube de leitores
Em que livro saltou antecipadamente para a
última página para saber como acabava a história?
EM NENHUM! Nunca
o fiz, nem quando era menina-devoradora-de-livros. Se alguém me conta o fim de
um romance, já não o leio.
Em 140 caracteres, explique qual é o
enredo do livro que nunca escreverá.
Ascensão e queda de Político
I Girino: das Jotas partidárias a remora colada ao peixe maior que
parasita
II Polvo: predador que tudo devora
III Queda: nas malhas da rede
Deana Barroqueiro
04/05/2015
515º Aniversário do Achamento do Brasil
Foi precisamente há 15 anos que escrevi o meu primeiro romance, "Uraçá. o Índio Branco", para as comemorações do 5º centenário do descobrimento ou achamento do Brasil. Fascinada por este país, cuja Literatura e Cultura estudei durante anos, com paixão, o desafio não podia ser mais gratificante.
Este livro foi também o primeiro de uma colecção de sete romances de viagens e aventuras, com navegadores e exploradores portugueses - a Colecção Cruzeiro do Sul, publicada pela editora Livros Horizonte -, uma saga de personagens históricas eu pretendia dar a conhecer a um público jovem, de preferência universitário e dos últimos anos do ensino secundário.
Os nossos críticos pouca atenção lhes prestaram, ao contrário dos "lá de fora", de França, Itália, Estados Unidos da América e Canadá, que lhes deram o relevo de páginas centrais nos jornais mais lidos pelos portugueses da 1ª e 2ª gerações de emigrantes, e cujos professores os usaram nas aulas de Português das suas universidades.
Essa falta de interesse foi o "empurrão" que me levou a escrever para um público mais alargado, a partir do imenso material de pesquisa que tinha armazenado naqueles cinco anos de trabalho.
Tendo saído agora a nova edição de "O Espião de D. João II - Pêro da Covilhã", recordo aqui essa minha aventura de uma saga, à maneira do Emilio Salgari, com esta cuidadosa análise da crítica literária e grande senhora de cultura que é Maria Fernanda Pinto.
Este livro foi também o primeiro de uma colecção de sete romances de viagens e aventuras, com navegadores e exploradores portugueses - a Colecção Cruzeiro do Sul, publicada pela editora Livros Horizonte -, uma saga de personagens históricas eu pretendia dar a conhecer a um público jovem, de preferência universitário e dos últimos anos do ensino secundário.
Os nossos críticos pouca atenção lhes prestaram, ao contrário dos "lá de fora", de França, Itália, Estados Unidos da América e Canadá, que lhes deram o relevo de páginas centrais nos jornais mais lidos pelos portugueses da 1ª e 2ª gerações de emigrantes, e cujos professores os usaram nas aulas de Português das suas universidades.
Essa falta de interesse foi o "empurrão" que me levou a escrever para um público mais alargado, a partir do imenso material de pesquisa que tinha armazenado naqueles cinco anos de trabalho.
Tendo saído agora a nova edição de "O Espião de D. João II - Pêro da Covilhã", recordo aqui essa minha aventura de uma saga, à maneira do Emilio Salgari, com esta cuidadosa análise da crítica literária e grande senhora de cultura que é Maria Fernanda Pinto.
Deana Barroqueiro, ou a Arte de Contar
por Maria Fernanda Pinto, para o Jornal Encontro, Paris
A
arte de contar, não se aprende. É um
dom natural, nasce com a pessoa. Como
no velho Oriente, onde “contador
de histórias” era uma profissão
das mais respeitadas, à volta
do qual se reuniam todos aqueles
que queriam saber como foi o início
das eras, como tal coisa deu origem
a uma outra, e o porquê dos usos e
costumes que eles maquinalmente efectuavam
de geração em geração
sem
saber porquê.
Pela
voz, pela escrita, à medida que vão
contando, conseguem seduzir-nos
a imaginação levando-nos até nossa
adolescência, infância, e mesmo
a latitudes reais ou imaginárias
onde nunca pusemos os pés.
Deana Barroqueiro possui uma força
de expressão e uma elegância de
estilo dignos de nota, ao mesmo tempo
que mantém uma linguagem compreensível
a todos.
A
sua escrita é perfeita e colorida, descritiva
de uma maneira que nos transporta
para a época em questão, ficando
sempre com vontade de saber mais.
Já era tempo que se falasse da expansão
dos portugueses para além dos
mares, desta maneira. Já
não sonhávamos, desde a época de Stephan Zweig, Jules Vernes ou Emílio
Salgari que fizeram as delícias
das nossas infâncias.
Claro
que justamente as pessoas possuindo
este dom raro, porque é raro,
são sempre olhadas um pouco de
esguelha pelos “puros literatas”, que
chamam ao seu estilo, romance histórico.
Nem todos!
Nós
continuamos admiradores incondicionaisde
Júlio Dinis, Almeida Garrett, Deana
Barroqueiro e dos outros!
(...)
Deana Barroqueiro afirma-nos com muita convicção
“o que pretendo fazer é escrever
romances de aventuras com fundo histórico e
nunca biografias
históricas, se fosse isso, estes
meus livros tinham de ser vistos como
uma caricatura do romance histórico,
transformando os nossos aventureiros em heróis de ficção. E foi
exactamente isso que interessou as
editoras por este projecto. Foi
no fundo a sua “originalidade”, pegar nas
figuras intocáveis do nosso passado
histórico e transformá-las em Indiana Jones ou James Bond portugueses, contando
ao mesmo tempo o melhor
possível a sua história”.
Mas
é necessário especificar aqui, que
os mestres principais da autora, são
os próprios cronistas da época dos
Descobrimentos e que nesse campo, ela tem 15 anos de estudo e leu quase tudo o que tem sido publicado,
na sua maioria deportugueses,
entre os Séculos XV-XVII,
mas também de estrangeiros como
António Pigafetta, cujos textosprocura
dar a conhecer, como pano de fundo
dos seus romances.
29/04/2015
"O Espião de D. João II" já está nas livrarias
A nova edição, revista e aumentada, de O Espião de D. João II, com a chancela da Casa das Letras/Leya, já se encontra nas livrarias.
Será «O ESPIÃO DE D. JOÃO II» um romance histórico ou um livro de viagens exploratórias de mundos reais há muito desaparecidos?
Creio que é ambas as coisas. Tem como suporte, além da historiografia contemporânea, crónicas, diários e itinerários escritos pelos padres, cronistas, cientistas e aventureiros do século XV ao XVII.
São históricos os indivíduos, os factos e as datas, como são históricos os costumes dos povos e os lugares que me servem para criar a intriga e pôr o herói em acção, pois «O Espião de D. João II» é, sobretudo, uma obra de ficção que permite a efabulação e a transformação da realidade em mito.
Será «O ESPIÃO DE D. JOÃO II» um romance histórico ou um livro de viagens exploratórias de mundos reais há muito desaparecidos?
Creio que é ambas as coisas. Tem como suporte, além da historiografia contemporânea, crónicas, diários e itinerários escritos pelos padres, cronistas, cientistas e aventureiros do século XV ao XVII.
São históricos os indivíduos, os factos e as datas, como são históricos os costumes dos povos e os lugares que me servem para criar a intriga e pôr o herói em acção, pois «O Espião de D. João II» é, sobretudo, uma obra de ficção que permite a efabulação e a transformação da realidade em mito.
01/04/2015
Crítica de Guilherme de Oliveira Martins a "O Espião de D. João II"
Esgotadas as três primeiras edições, A Casa das Letras, publica, em Abril 2015, uma nova edição, revista e aumentada de «O Espião de D. João II», o segundo romance da sua trilogia dos Descobrimentos Portugueses.
A VIDA DOS LIVROS (CNC)
"O Espião de D. João II" de Deana Barroqueiro (Casa das Letras/Leya, Abril 2015) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.
UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE
Em 1487, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança. Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era), aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus.
Para compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso) se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito referenciado mas nunca descoberto.
Afinal, o que era o mito do Preste João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza, humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático. Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim.
Estas duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia.
Acresce que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão.
D. João II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos portugueses.
UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA
Seguimos, a partir de todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão, Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia.
A autora procura, assim, dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor, segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo.
Deana Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos, concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial, não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E este romance prenuncia-a.
DIPLOMACIA E AVENTURA
A um tempo, estamos perante os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos, Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões…
O Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia, sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação.
Estamos, assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da sua importância fundamental...

A VIDA DOS LIVROS (CNC)
"O Espião de D. João II" de Deana Barroqueiro (Casa das Letras/Leya, Abril 2015) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.
UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE
Em 1487, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança. Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era), aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus.
Para compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso) se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito referenciado mas nunca descoberto.
Afinal, o que era o mito do Preste João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza, humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático. Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim.
Estas duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia.
Acresce que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão.
D. João II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos portugueses.
UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA
Seguimos, a partir de todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão, Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia.
A autora procura, assim, dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor, segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo.
Deana Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos, concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial, não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E este romance prenuncia-a.
DIPLOMACIA E AVENTURA
A um tempo, estamos perante os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos, Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões…
O Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia, sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação.
Estamos, assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da sua importância fundamental...
Guilherme d'Oliveira Martins
30/03/2015
Bloguer morto à facada no Bangladesh
Um bloguer foi morto à facada em Dacca,
capital do Bangladesh, um mês depois de outro escritor, um ateísta
norte-americano, ter sido assassinado com uma catana, num ataque
similar.
Washikur
Rahman, que escrevia sob o pseudónimo "Kucchit Hasher Channa" (Patinho
Feio, na tradução para português), tinha 27 anos e era bastante crítico
do fundamentalismo religioso. Foi abordado, esta manhã, a 500 metros de
casa, na área de Begunbari.
Segundo
relata a polícia, Rahman foi "brutalmente esfaqueado até à morte" por
dois estudantes de um seminário islâmico, detidos pela polícia local
depois de serem apanhados a tentar fugir do local do crime.
O mês passado, o norte-americano Avijit Roy, conhecido por criticar a intolerância religiosa, morreu quando visitava Dacca, espoletando uma investigação por parte do FBI.
Um homem, tido como um bloguer fundamentalista com ligações ao grupo islâmico Hizb ut-Tahrir (banido no Bangladesh), é o principal suspeito deste caso, depois de ter ameaçado, nas redes sociais, que ia matar o escritor.
A esposa de Roy também ficou gravemente ferida durante o ataque.
O incidente provocou diversos protestos no país e além-fronteiras, especialmente por parte de estudantes e ativistas, que acusam as autoridades de não protegerem convenientemente as vítimas.
O mês passado, o norte-americano Avijit Roy, conhecido por criticar a intolerância religiosa, morreu quando visitava Dacca, espoletando uma investigação por parte do FBI.
Um homem, tido como um bloguer fundamentalista com ligações ao grupo islâmico Hizb ut-Tahrir (banido no Bangladesh), é o principal suspeito deste caso, depois de ter ameaçado, nas redes sociais, que ia matar o escritor.
A esposa de Roy também ficou gravemente ferida durante o ataque.
O incidente provocou diversos protestos no país e além-fronteiras, especialmente por parte de estudantes e ativistas, que acusam as autoridades de não protegerem convenientemente as vítimas.
Herberto Hélder: "E já nenhum poder destrói o poema"
SAPO
No adeus àquele que era o maior poeta português vivo, lembramos quatro poemas do último livro de Helberto Hélder, A Morte sem Mestre.
a última bilha de gás durou dois meses e três dias
a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!
queria fechar-se inteiro num poema
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
Herberto Helder lido por Herberto Helder (Renascença)
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
Herberto Helder lido por Herberto Helder (Renascença)
tão fortes eram que sobreviveram à língua morta
tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda
tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda
que um nó de sangue na garganta
que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno, o inverno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)
que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno, o inverno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)
27/03/2015
Mudança da Hora - 29 de Março
E lá vamos outra vez adiantar os relógios. Será que ainda é para "poupar cera"?
Mais uma vez chega aquela altura do ano em que as pessoas confundem se hão de mover os ponteiros do relógio para frente ou para trás, se dormem mais ou menos uma hora, o que faz alguns andar rabugentos. Mas nada que não se compense com a mais longa duração dos dias, que proporciona momentos extra de lazer e descontração. O Expresso conta-lhe a história por trás do fenómeno.
Março está a chegar ao fim, e apesar de a primavera andar mascarada é tempo de mudar a hora no relógio, mais uma vez. Todos os anos a pergunta é a mesma, é uma hora para lá ou uma hora para cá nos ponteiros do relógio?, dormimos mais ou dormimos menos?
Pois bem, cá vai a cábula: na madrugada deste sábado para domingo, 29 de março, em Portugal continental e na Madeira, à 1h00 deste domingo, 29 de março, adiante o relógio 60 minutos, passando para as 2h00. Nos Açores, a mudança é feita à meia-noite. Ou seja, teremos um dia com apenas 23 horas de duração, e a hora agora "comida" será recuperada lá mais para diante, em outubro, na mudança para o horário de inverno.
Para aqueles que gostam de dormir não é fácil passar a "acordar mais cedo", mas o facto de "os dias parecerem maiores" compensará o esforço.
Os pais agradecem
Anoitece mais tarde e os dias parecem proporcionar todo um conjunto interminável de atividades de lazer. Dá para ficar até mais tarde na rua, com os amigos a beber uma cerveja, passear e ver as vistas, correr e andar de bicicleta. Enfim, até os pais parecem mais descansados.
É essa opinião de Manuela Subtil, professora de matemática do ensino básico, que diz ficar mais descansada quando a sua filha "sai da explicação quando ainda é de dia". De acordo com a sua experiência, "os miúdos" preferem este tipo de horário, pois têm "mais tempo para brincadeiras."
As opiniões são igualmente positivas entre os "miúdos" mais velhos. Sérgio Santos, estudante universitário de 23 anos, diz que apesar de se tratar de um efeito ilusório, o dia "passa a ter mais horas, e com a chegada do verão isso é muito importante, porque dá para estar mais tempo na praia."
Para Inês Rodrigues, médica de 29 anos, o "desaparecimento" de uma hora na madrugada de sábado para domingo é positiva, não acarretando quaisquer consequências físicas para as pessoas, a não ser "a preguiça de acordar cedo nos primeiros dias após a alteração do horário".
Benjamin Franklin, o autor da ideia que queria "poupar cera"
É sabido que o horário de verão estica a luz diurna, pelo menos até à entrada da época mais quente do ano. Mas saberá o leitor a história que está por trás desta ideia?
A primeira vez que se falou na hipótese de alteração da hora foi nos Estados Unidos da América, e logo pela boca de um dos nomes incontornáveis da História deste pais: Benjamin Franklin. O antigo político propôs esta ideia ao seu governo como uma medida de poupança de "cera das velas", chamando-a de "Daylight Savings Time" (DST).
Mas apesar de vários artigos publicados um pouco por todo o mundo, a ideia só foi adotada cerca de 130 anos depois, durante a I Guerra Mundial, pela mão do último kaiser alemão, para poupar carvão. A mudança da hora começou por ser, nessa altura, uma necessidade, para permitir reajustar os horários de trabalho de forma a poupar combustível, fortemente racionado no período de guerra.
Depois da Alemanha seguiram-se a Rússia e os Estados Unidos, todos em busca de uma poupança energética. O mesmo aconteceu durante a II Grande Guerra. Contudo, após os conflitos, a maioria dos países deixou de "dar voltas às cordas do relógio", ignorando as mudanças da hora.
Então, como é que chegámos à prática dos últimos anos? Com a crise energética de 1973, os países árabes aumentaram os preços do petróleo em 400% e provocaram um pânico mundial. A partir dessa altura, a mudança de hora duas vezes por ano começou a generalizar-se, uma vez mais tendo em vista a poupança de recursos com a maior longevidade da luz diurna.
União Europeia muda a hora em uníssono
Não se sabe ao certo se a alteração dos horários ainda se justifica com a "poupança de energia". Não há dados suficientes que permitam tirar conclusões concretas, e isso confirma-se com o último relatório sobre o tema emitido pela Comissão Europeia (CE), em 2007, onde se lê que: "A hora de verão contribui para uma poupança de energia pelo facto de se utilizar menos eletricidade em iluminação ao fim do dia, visto haver mais luz natural. No entanto, desta poupança é necessário deduzir o maior consumo de energia devido à necessidade de aquecimento de manhã, quando da mudança horária, e o consumo de combustível suplementar gerado pelo possível aumento do tráfego ao fim do dia quando há mais luz natural."
Os países membros da União Europeia partilham uma diretiva respeitante à mudança da hora desde 2001, e no mesmo relatório da CE lê-se: "A maioria dos Estados-membros sublinha a importância da harmonização do calendário da hora de verão na UE, nomeadamente em relação aos transportes." E isso é um fator muito positivo, todos mudam a hora.
Expresso
25/03/2015
Mia Couto entre os finalistas do Man Booker International Prize
Mário Lopes Público
É a primeira vez que um escritor moçambicano surge entre os
finalistas do prémio, emanado do Man Booker e atribuído bienalmente numa
escolha aberta a autores de todo o mundo.
Mia Couto está entre os finalistas do Man
Booker International Prize. A lista de 10 escritores foi anunciada esta
terça-feira na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, e inclui
também o argentino César Aira, a libanesa Hoda Barakat, Maryse Condé, de
Guadalupe, a americana Fanny Howe, o líbio Ibrahim Al-Koni, o húngaro
László Krasznahorkai, o congolês Alain Mabanckou, a sul-africana Marlene
van Niekerk e o indiano Amitav Gosh.
Atribuído bienalmente, o prémio
emana do Booker Prize, um dos mais prestigiados prémios literários britânicos.
Está aberto a escritores de todo o mundo, desde que traduzidos para inglês, e
premeia um corpo de obra e não um título específico. O vencedor da edição de
2015 será anunciado em Londres dia 19 de Maio.
O júri destaca o carácter “preciso” e “profundo” com que a língua é utilizada nas “histórias de civilização e barbárie” de Mia Couto, o primeiro moçambicano a figurar na lista final do Booker International. “Ele tece em conjunto a tradição viva da lenda, poesia e canção. As suas páginas estão cravejadas de imagens surpreendentes”, referiu o júri, que destaca entre a sua obra livros traduzidos para inglês como Terra Sonâmbula, O Último Voo do Flamingo ou Jesusalém.
Este ano, oito dos dez finalistas são autores traduzidos para inglês, algo inédito na história do prémio. Marina Warner, a presidente do júri, destacou precisamente a abrangência geográfica e diversidade cultural formada pelos finalistas. “A ficção pode aumentar o mundo para todos nós e expandir a nossa compreensão e compaixão”, comenta no comunicado emitido pela organização.
Edwin Frank, editor chefe da New York Review Classics, referiu, citado pelo Guardian, ter sido intenção do júri ter em atenção “o mundo vasto da literatura”, destacando a presença da literatura árabe, representada pelas histórias do deserto de Ibrahim Al-Koni, bem como os restantes autores africanos "escrevendo em línguas e tradições literárias muito diferentes”.
Segundo Marina Warner, escritora e académica londrina, a literatura dos finalistas é prova de que o romance está actualmente em “boa forma” enquanto “campo para questionamento, tribunal da história, mapa do coração, antena da psique, estímulo do pensamento, fonte de prazer e laboratório de linguagem”. Nenhum dos finalistas tinha surgido anteriormente entre os finalistas do prémio.
Nas suas três últimas edições o Man Booker International Prize foi atribuído a autores do norte do continente americano. A contista Lydia Davis foi distinguida em 2013, Philip Roth foi o vencedor de 2011, e a contista canadiana Alice Munro, que seria nobelizada quatro anos depois, em 2009.
Atribuído pela primeira vez em 2005 (o albanês Ismail Kadare foi o distinguido), o Man Booker International atribui um prémio monetário de 60 mil libras (cerca de 82 mil euros) ao vencedor. Caso este seja um autor traduzido, pode escolher um tradutor para inglês da sua obra a quem é atribuído em paralelo um prémio de 15 mil libras (cerca de 20 mil euros).
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