12/08/2015

JL - Romance Histórico - Um manancial inesgotável

Artigo em resposta a um questionário sobre o romance histórico, publicado no JL de 5 de Agosto, 2015
 Por que escreve romances históricos? Quais entende serem as principais potencialidades do «género» e como explica o crescentge número de obras publicadas desse «género»? Como conjuga nos seus livros, realidade e verdade histórica (que tipo de investigação faz?) com ficção, que «percentagem» de uma e de outra? É dos que usa o passado para falar também do presente?

O romance histórico, quando feito com seriedade, obriga o autor a um longo trabalho de investigação sobre uma enorme diversidade de temas, potenciando, como nenhum outro género literário, além do prazer da leitura, enriquecimento pessoal e mais-valia ao leitor, pelo conhecimento de um passado colectivo, que é também seu, estabelecendo uma ponte com o presente e o futuro, porque o ser humano e a Humanidade existem e são moldados pelo Tempo e Memória.

Portugal tem uma História das mais ricas da Europa, mas o seu ensino foi tão descurado que a fez quase desconhecida dos portugueses. Sendo, todavia, um manancial inesgotável de épocas, lugares, sucessos, tramas e personalidades maiores que a ficção, cedo serviu de tema para inúmeros autores estrangeiros, quando ainda poucos de nós o fazíamos e quase sem eco nos media. O interesse “vindo de fora” teve o mérito de despertar a apetência do leitor nacional pelo romance histórico e a História em si mesma, o que provocou uma explosão do género por parte das editoras, que inundaram o mercado com milhares de obras de escritores nacionais e, sobretudo, estrangeiros, com o rótulo de “romance histórico”, muitas das quais pouco tendo de histórico e ainda menos de qualidade, pela falta de preparação e investigação (portanto de conhecimento de História) dos seus autores, com o perverso efeito de enganar o leitor, ao misturar o trigo e o joio.
A longa experiência de professora de Língua, Literatura e Cultura Portuguesa e de escrita criativa, aliada ao gosto pela investigação e estudo levaram-me a optar pelo romance histórico, por nele poder conciliar a história, a literatura e o mito, criando em cada livro, a partir de personagens e factos reais dos Séculos XV ao XVII, fundamentados por muitos anos de investigação, uma imensa rede de intertextualidades orais, linguísticas, histórico-documentais, políticas, geográficas, religiosas, profanas, ritualistas, musicais, míticas, narrativas, poéticas, de costumes (do trajo à comida ou aos hábitos sexuais), de Portugal e de outras nações (em particular no período dos Descobrimentos), pondo em confronto culturas e mentalidades, dando voz à alteridade. Ficcionando e imaginando sempre, mas sem ceder à facilidade, usando do maior rigor, exactidão e verosimilhança na descrição dos sucessos e lugares, para que o leitor possa fazer a sua própria recriação dessa época e mundos perdidos.

Procuro estabelecer um equilíbrio entre verdade ficcional e verdade histórica, re-interpretando os factos, pondo em evidência as constantes culturais e identitárias portuguesas, como a saudade e o sebastianismo, distanciando-me da tradição clássica pelo recurso a diversos processos literários, como adequar a estrutura do romance ao conteúdo e às tendências literárias da época, diferente em cada obra, ou jogar com categorias de tempo, espaço e narrador, para surpreender o leitor.
Faço questão de manter um diálogo constante com o meu leitor, assumindo-me algumas vezes como autor-narrador; enquanto defensora do papel interventivo do escritor na sociedade, os meus romances tendem a reflectir esse empenhamento social e cultural na escolha de temas ou de personagens que foram marginalizadas pela história oficial, apesar da sua singularidade e de terem contribuído como poucos para a construção da nossa identidade. Personagens e situações que metaforicamente remetem para o nosso presente, permitindo a quem lê tirar ilações e reagir.

É necessário conhecer o passado para melhor interpretar o presente.
Deana Barroqueiro
(não escrevo segundo o AO)

 

07/08/2015

Drama no Mediterrâneo: “É um genocídio causado pelo egoísmo europeu”

 Vários traficantes de seres humanos foram detidos em Palermo. Autarca local lança apelos desesperados. Comissão Europeia pede “coragem coletiva” aos membros da UE


DARRIN ZAMMIT LUPI / EPA
Sobreviventes da embarcação que naufragou quarta-feira ao largo da Líbia acusam grupos de traficantes de serem os responsáveis pela morte de centenas de pessoas. “Testas marcadas com facas para os africanos que não obedeciam a ordens” e “pontapés e murros na cabeça” estão entre os relatos de alguns dos 273 migrantes que sobreviveram ao naufrágio da embarcação, segundo o diário italiano “La Repubblica”.

Quando a embarcação começou a ter dificuldades, os traficantes fecharam os migrantes de etnia africana num compartimento do barco e ordenaram aos de outras etnias que se sentassem em cima das portas para os impedir de sair. "Os cerca de 200imigrantes africanos trancados tiveram um fim horrível", relata o jornal.
À chegada ao porto italiano de Palermo dos 373 sobreviventes da embarcação, vários traficantes foram detidos. O autarca local defendeu que o drama dos migrantes no Mediterrâneo é um “genocídio causado pelo egoísmo europeu” e que as máfias aproveitam-se deste problema para explorarem cidadãos ilegais.
Leoluca Orlando apelou aos líderes europeus para responderem de forma mais eficaz a esta crise humanitária, que só este ano já causou mais de 2200 vítimas. Segundo o presidente da câmara de Palermo, é fundamental que os países europeus autorizem a entrada de mais refugiados nos seus países, evitando casos como os de Itália, em que os membros da máfia acabam por reencaminhar estes migrantes ilegais para a atividade criminosa.

“O atual sistema está a alimentar o crise organizado, está a gerar mais mortes e violência, forçando os migrantes ilegais a atuarem fora da lei”, afirmou o autarca, citado pelo jornal “The Telegraph.”
Leoluca Orlando realçou que este migrantes são explorados pelos crimininosos enquanto aguardam pedidos de asilo e vivem em condições desumanas, sem possibilidade de conseguirem um emprego ou uma casa. “Isto permite aos migrantes participarem em novas formas de crime organizado - traficantes e membros da máfia correm para centros de migrantes.”

Entretanto, a Comissão Europeia apelou na quinta-feira aos membros da UE para encontrarem uma “coragem coletiva” de forma a cumprirem o que foi acordado no passado mês de maio relativamente ao drama dos migrantes.

“A migração não é um tópico popular ou bonito. É fácil chorar em frente à televisão quando assistimos a estas tragédias. É mais difícil levantarmo-nos e assumirmos responsabilidades”, declarou o organismo comunitário, em comunicado. Cerca de 2 mil pessoas terão morrido desde o início do ano até terça-feira, de acordo com o último balanço da Organização Internacional para as Migrações, a que se juntam mais de duas dezenas de vítimas no naufrágio de quarta-feira.

Por seu turno, cerca de 224 mil migrantes e refugiados conseguiram este ano chegar ao velho continente através do Mediterrâneo, segundo as Nações Unidas.

25/07/2015

"A dor mente" - Um poema pelas pessoas com Esclerose Múltipla

Através do poeta João Negreiros, algo que vale a pena ver, ouvir e participar.


09/07/2015

Deana Barroqueiro na Feira do Livro de Cascais

Feira do Livro de Cascais
Sexta-feira, dia 10, a partir das 18.30 h.

 
Vou estar na feira, na sexta-feira (amanhã), às 18.30 h,  para conversar com os leitores.
O jardim é simpático e eu amo feiras de livros. Espero que apareçam alguns dos meus muitos amigos que gostam de livros como eu.

20/06/2015

 
Caros,
1. Foi lançada uma Iniciativa de Referendo ao “Acordo Ortográfico” de 1990.
Entre os Mandatários, estão anti-acordistas, em particular figuras públicas de todos os quadrantes.
A iniciativa partiu da Moção do Fórum “Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico” de 1990”.
2. A Iniciativa de Referendo é obrigatoriamente votada no Parlamento.
Assim, os promotores da Iniciativa e os portugueses em geral pretendem indagar, junto das forças políticas e dos Candidatos presidenciais, que digam o que pensam acerca do “Acordo Ortográfico” de 1990; se o utilizarão no exercício do cargo, caso sejam eleitos; de que forma tencionam fazer com que Portugal se desvincule do Acordo Ortográfico de 1990, fazendo o retrocesso; em que sentido votarão a Iniciativa de Referendo na Assembleia da República.
3. Esse folheto para assinar está disponível “on line” em https://referendoao90.wordpress.com/, bem como no evento, marcado como 1.ª publicação, no Grupo do Facebook “Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990” (https://www.facebook.com/cidadaoscontraAO90?fref=ts); na Página "Referendo ao "Acordo Ortográfico" de 1990 (https://www.facebook.com/pages/Referendo-ao-Acordo-Ortográfico-de-1990/431340920377492fref=ts).
Para a recolha de assinaturas para uma Iniciativa de Referendo, basta colocar o nome, n.º de BI/CC e assinatura no folheto.
Estão disponíveis duas versões do folheto:
i) Folheto na vertical – fazer a descarga em https://referendoao90.files.wordpress.com/2015/06/folha-de-assinaturas_vertical.pdf; ou, no Grupo, em https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/604144323022361/ (ou directamente em
https://attachment.fbsbx.com/file_download.php?id=1095161897166192&eid=AStShKxg3PbBTe3Z6AkEBX_bflSRXSZdIKHq9ATqH8wthVgE7Rk--_Wx1IgffpeQYqY&inline=1&ext=1434732117&hash=ASsk0NEjdCzzdE3o);
ii) e na horizontal - fazer a descarga em https://referendoao90.files.wordpress.com/2015/06/folha-de-assinaturas_horizontal.pdf; ou em https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/604633376306789/

4. Após o folheto ser impresso, preenchido e assinado, tais subscrições deverão obedecer a duas formas de envio:

RESUMO:
1.ª forma - Imprima o folheto numa folha (frente e verso); se quiser, fotocopie também quantas vezes queira.
Preencha o nome e BI/CC; assine; digitalize. Convide o maior número de pessoas a fazer o mesmo, se puder. Envie por email o ficheiro anexado para referendoao90@gmail.com.

2.ª forma - Ou, em alternativa, imprima (e/ou fotocopie quantas vezes quiser) o folheto. Preencha o nome, BI/CC; assine; peça a mais pessoas para fazer o mesmo, se puder. Envie o impresso por Correio, para uma das duas moradas mencionadas de seguida:

i) Centro de Estudos Clássicos
ao cuidado de Maria Cristina Pimentel
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
1649-014 Lisboa;
Ou
ii) Centro de Estudos Comparativos
Ao cuidado de Helena Buescu
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
1649-014 Lisboa

5. Mais informações em https://referendoao90.wordpress.com/

Apelamos a todos os anti-acordistas que assinem esta Iniciativa e que façam o favor de angariar assinaturas.


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Informações complementares:
Os Mandatários da iniciativa incluem figuras públicas da área política, do meio científico, académico, artístico e literário, cujas intervenções públicas anti-acordistas são conhecidas, designadamente:

Da área política do PS: António Arnaut, Eduardo Lourenço, Helena Roseta, Manuel Alegre;

Da área política do PSD: Pacheco Pereira, Barbosa de Melo (ex-Deputado à Assembleia Constituinte; ex-Presidente da AR, na década de 90), Manuel da Costa Andrade (reputado Professor Penalista da Faculdade de Direito de Coimbra, ex-Deputado à Assembleia Constituinte e ex-Deputado); Manuela Ferreira Leite, Mota Amaral;

Da área política do CDS: Bagão Félix e António Lobo Xavier;

Garcia Pereira (Advogado; PCTP/MRPP);

Entre as personalidades públicas independentes estão: o realizador António-Pedro Vasconcelos; a Jornalista e Professora Constança Cunha e Sá; o Sociólogo Eduardo Cintra Torres; José Sasportes, ex-Ministro da Cultura no Governo do PS de A. Guterres; Marcello Duarte Matias, ex-diplomata (designadamente em Brasília) e ex-Embaixador da UNESCO, agora jubilado; Júlio Machado Vaz, Matilde Sousa Franco, Miguel Sousa Tavares, Pedro Mexia.

Do meio artístico, o Maestro António Victorino d’Almeida; os Pianistas Artur Pizarro e Olga Prats; os Cantores Lena d’Água, Pedro Abrunhosa, Pedro Barroso; a Actriz Lídia Franco; a ex-Apresentadora da RTP Isabel Wolmar;

Do meio literário, os Poetas Casimiro de Brito e Gastão Cruz; os Escritores Afonso Reis Cabral (Prémio Leya 2015) e Teolinda Gersão (também Professora Universitária Aposentada);

Do meio científico e académico: António Feijó (Vice-Reitor da Universidade de Lisboa); Vítor Aguiar e Silva (ex-Reitor da Universidade do Minho; Professor de Literatura) António Fernando Nabais (Presidente da Associação Nacional de Professores de Português); o cientista Henrique Leitão (Prémio Pessoa 2014); os Professores Universitários Ana Isabel Buescu, Cristina Pimentel, Helena Buescu, José Pedro Serra, Maria Filomena Molder, Miguel Tamen, Teresa Cadete (Presidente do PEN Club Português), Teresa Cid e Ivo Miguel Barroso. E os Especialistas, Autores de obras em matéria do “Acordo Ortográfico” de 1990, Fernando Paulo Baptista e Francisco Miguel Valada.

12/06/2015

13 de Junho Sábado, na Feira do Livro

Vou estar de novo na Feira do Livro, no dia 13, Sábado, às 17 horas, para conversar com os amigos, na Praça Leya, pavilhão Casa das Letras, no cimo do Parque, à direita de quem sobe.

09/06/2015

Dia 10 de Junho, na Feira do Livro

Os amigos que quiserem ver-me e trocar impressões sobre os Descobrimentos Portugueses, o Renascimento ou sobre o período de D. Sebastião, encontrar-me-ão amanhã, na Feira do Livro, a partir das 18 h., na Praça LeYa, em frente do pavilhão da Casa das Letras.
 Tenho uma surpresa para os meus leitores.

31/05/2015

Que se passa com este livro?

Neste mundo dos livros e leitores, há coisas que escapam completamente a um autor, como, por exemplo: Por que razão, um livro que achamos que vai ter sucesso - seja pelo assunto, seja pela personagem ou (também) porque foi uma obra a que demos mais tempo e mais trabalho, que consideramos a mais rica em conteúdos e ligações com outros temas, até por ter tido melhores críticas dos entendidos - acaba afinal por suscitar menos interesse aos leitores do que todas as nossas obras anteriores?

Para meu espanto, e com bastante pena minha, vejo que esse fenómeno parece estar a acontecer com o meu romance "O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto". Pensei que um livro que leva o leitor numa incrível viagem no tempo, por toda a Ásia dos Descobrimentos, haveria de despertar um interesse ainda maior do que o alcançadp pelas duas obras anteriores sobre o tema da Expansão Portuguesa. Com ele, eu dei por concluída a minha saga dos portugueses, fechando-a com chave de ouro, segura que depois dele, os meus leitores ficariam com um bom conhecimento deste período riquíssimo da nossa História.

Por isso escolhi para protagonista Fernão Mendes Pinto, um homem extraordináriao, injustamente tratado pela pelos críticos dos séculos posteriores ao da publicação da sua obra Peregrinação (que foi um bestseller no sec. XVII na Europa, com inúmeras edições em várias línguas).

Será possível que a rábula do «Fernão Mentes? Minto.», tão infame como injusta ( mas que é talvez a única coisa que a maioria dos portugueses ouviu sobre este aventureiro ),  se tenha inscrito como um ferrete de eterno desprezo sobre o seu nome,  apesar dos estudos actuais que o devolvem à dignidade e valor que merece?

Será por isso que este meu romance, que procurava dar-lhe visibilidade e fazer-lhe justiça, está a ter menos sucesso do que os outros? Por não gostarem da personagerm Fernão Mendes Pinto?

Se for, tenho uma grande mágoa, embora não lamente os quase 4 anos anos que levei a escrevê-lo. Fernão Mendes Pinto vale mesmo a pena e o esforço.

19/05/2015

Feira do Livro 2015

Feira do Livro de Lisboa - Parque Eduardo VII

Estarei na Praça Leya - Casa das Letraspara conversar com os meus amigos leitores, nos seguintes dias:

- 30 de Maio, 18 horas

- 10 de Junho, 18 horas 

Estar convosco, com pessoas que amam os livros e gostam de conversar sobre eles, é um dos grandes prazeres que a escrita me dá. Lá vos espero, com uma surpresa.


Entrevista no Jornal i

Entrevista à escritora Deana Barroqueiro, autora de «O ESPIÃO DE D. JOÃO II», na secção A Minha Estante Corre Mundo, Do «Jornal i». 


Precisa de renovar o passaporte. Que livro leva consigo para suportar a fila de espera?
 Uma pequena monografia ou ensaio, de pesquisa para o meu novo romance.

Qual o sítio mais estranho onde já encontrou um livro seu?
Em Macau, o meu «Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto»

 Já perdeu/esqueceu-se de algum livro durante uma das suas viagens? Se sim, qual e onde? Conseguiu recuperá-lo?
Durante um cruzeiro ao Estreito de Magalhães, levei O Espião de D. João II, para fazer a revisão e deixei-o no sofá da biblioteca do navio. Quando voltei para o recuperar, tinha desaparecido. Havia muitos passageiros lusófonos, espero que quem o levou tenha gostado do romance.

Vê uma pessoa a roubar um livro na livraria de um aeroporto. Como reage?
 Se for jovem, peço-lhe discretamente que me permita oferecer-lhe o livro e pago-lho na caixa. Se for adulto denuncio-o

Ao lado de que autor não se importava de viajar até ao fim do mundo? Porquê?
 De nenhum, para uma viajem assim tão longa! Preferia dialogar com as suas obras, que são aquilo que de melhor têm os escritores. Há livros fabulosos de autores que, como seres humanos, são insuportáveis.

Se pudesse escolher apenas um sítio/paisagem/país onde passaria o resto da vida a escrever, qual seria e porquê?
 Lisboa, Portugal, que é onde estou, de facto, a passar o resto da minha vida a escrever. Tenho dupla nacionalidade, mas nunca escolheria os E.U.A. para lugar do meu fim. Conheço sítios preciosos, no mundo, mas por muito que a maltratem, Lisboa continua a ser uma cidade belíssima, solarenga e marítima, onde cada rua, casa ou pedra tem um passado e uma história para contar, e cujo horizonte verde-azul apela à imaginação e sonho de viagens e aventuras.

Está no estrangeiro e decide enviar um postal à sua editora. O que escreve?
 «Descobri um verdadeiro filão narrativo para um “best-seller”, mas preciso de seis meses de pesquisa nos arquivos da cidade. A editora estaria interessada em patrocinar este projecto?»

Qual a nacionalidade que melhor assenta a um detective de um romance policial e porquê?
 A inglesa, da velha escola: Detectives fleumáticos, elegantes, sóbrios e de raciocínio brilhante.

Imagine que no meio do nevoeiro de Londres encontra uma das suas personagens. Que lhe diria ela?
 «Que faço eu aqui? Este tempo não é o meu! Que raio de escritor de romance histórico és tu, se não logras recriar o meu mundo, com rigor e verosimilhança, para que eu possa viver nele como se ele fora real e eu tão de carne e osso como tu? Contextualiza-me ou apaga-me, ó aprendiz de feiticeiro!».

Passeia pelas ruas estreitas de Veneza quando o confundem com um escritor que detesta. Como se comporta?
Com a maior naturalidade possível, tratarei de desenganar o leitor e de me apresentar, dando-me a conhecer e à minha obra, de modo a que ele se sinta na obrigação de fazer parte do meu clube de leitores 


Em que livro saltou antecipadamente para a última página para saber como acabava a história?
EM NENHUM! Nunca o fiz, nem quando era menina-devoradora-de-livros. Se alguém me conta o fim de um romance, já não o leio.

Em 140 caracteres, explique qual é o enredo do livro que nunca escreverá.
 Ascensão e queda de Político
I Girino: das Jotas partidárias a remora colada ao peixe maior que parasita
II Polvo: predador que tudo devora
III Queda: nas malhas da rede

Deana Barroqueiro

04/05/2015

515º Aniversário do Achamento do Brasil

Foi precisamente há 15 anos que escrevi o meu primeiro romance, "Uraçá. o Índio Branco", para as comemorações do 5º centenário do descobrimento ou achamento do Brasil. Fascinada por este país, cuja Literatura e Cultura estudei durante anos, com paixão, o desafio não podia ser mais gratificante.

Este livro foi também o primeiro de uma colecção de sete romances de viagens e aventuras, com navegadores e exploradores portugueses - a Colecção Cruzeiro do Sul, publicada pela editora Livros Horizonte -,  uma saga de personagens históricas eu pretendia dar a conhecer a um público jovem, de preferência universitário e dos últimos anos do ensino secundário.

Os nossos críticos pouca atenção lhes prestaram, ao contrário dos "lá de fora", de França, Itália, Estados Unidos da América e Canadá, que lhes deram o relevo de páginas centrais nos jornais mais lidos pelos portugueses da 1ª e 2ª gerações de emigrantes, e cujos professores os usaram nas aulas de Português das suas universidades.

Essa falta de interesse foi o "empurrão" que me levou a escrever para um público mais alargado, a partir do imenso material de pesquisa que tinha armazenado naqueles cinco anos de trabalho.

Tendo saído agora a nova edição de "O Espião de D. João II - Pêro da Covilhã", recordo aqui essa minha aventura de uma saga, à maneira do Emilio Salgari, com esta cuidadosa análise da crítica literária e grande senhora de cultura que é Maria Fernanda Pinto.

 



Deana Barroqueiro, ou a Arte de Contar
 por Maria Fernanda Pinto, para o Jornal Encontro, Paris


A arte de contar, não se aprende. É um dom natural, nasce com a pessoa. Como no velho Oriente, onde “contador de histórias” era uma profissão das mais respeitadas, à volta do qual se reuniam todos aqueles que queriam saber como foi o início das eras, como tal coisa deu origem a uma outra, e o porquê dos usos e costumes que eles maquinalmente efectuavam de geração em geração
sem saber porquê.

Pela voz, pela escrita, à medida que vão contando, conseguem seduzir-nos a imaginação levando-nos até nossa adolescência, infância, e mesmo a latitudes reais ou imaginárias onde nunca pusemos os pés. Deana Barroqueiro possui uma força de expressão e uma elegância de estilo dignos de nota, ao mesmo tempo que mantém uma linguagem compreensível a todos.

A sua escrita é perfeita e colorida, descritiva de uma maneira que nos transporta para a época em questão, ficando sempre com vontade de saber mais. Já era tempo que se falasse da expansão dos portugueses para além dos mares, desta maneira. Já não sonhávamos, desde a época de Stephan Zweig, Jules Vernes ou Emílio Salgari que fizeram as delícias das nossas infâncias.

Claro que justamente as pessoas possuindo este dom raro, porque é raro, são sempre olhadas um pouco de esguelha pelos “puros literatas”, que chamam ao seu estilo, romance histórico. Nem todos! 
Nós continuamos admiradores incondicionaisde Júlio Dinis, Almeida Garrett, Deana Barroqueiro e dos outros!
  (...)

Deana Barroqueiro afirma-nos com muita convicção “o que pretendo fazer é escrever romances de aventuras com fundo histórico e nunca biografias históricas, se fosse isso, estes meus livros tinham de ser vistos como uma caricatura do romance histórico, transformando os nossos aventureiros em heróis de ficção. E foi exactamente isso que interessou as editoras por este projecto. Foi no fundo a sua “originalidade”, pegar nas figuras intocáveis do nosso passado histórico e transformá-las em Indiana Jones ou James Bond portugueses, contando ao mesmo tempo o melhor possível a sua história”.

Mas é necessário especificar aqui, que os mestres principais da autora, são os próprios cronistas da época dos Descobrimentos e que nesse campo, ela tem 15 anos de estudo e leu quase tudo o que tem sido publicado, na sua maioria deportugueses, entre os Séculos XV-XVII, mas também de estrangeiros como António Pigafetta, cujos textosprocura dar a conhecer, como pano de fundo dos seus romances.


29/04/2015

"O Espião de D. João II" já está nas livrarias

A nova edição, revista e aumentada, de O Espião de D. João II, com a chancela da Casa das Letras/Leya, já se encontra nas livrarias.



Será «O ESPIÃO DE D. JOÃO II» um romance histórico ou um livro de viagens exploratórias de mundos reais há muito desaparecidos?

Creio que é ambas as coisas. Tem como suporte, além da historiografia contemporânea, crónicas, diários e itinerários escritos pelos padres, cronistas, cientistas e aventureiros do século XV ao XVII.

São históricos os indivíduos, os factos e as datas, como são históricos os costumes dos povos e os lugares que me servem para criar a intriga e pôr o herói em acção, pois «O Espião de D. João II» é, sobretudo, uma obra de ficção que permite a efabulação e a transformação da realidade em mito.

- por DEANA BARROQUEIRO

01/04/2015

Crítica de Guilherme de Oliveira Martins a "O Espião de D. João II"

Esgotadas as três primeiras edições, A Casa das Letras, publica, em Abril 2015, uma nova edição, revista e aumentada de «O Espião de D. João II», o segundo romance da sua trilogia dos Descobrimentos Portugueses.



A VIDA DOS LIVROS (CNC)
 

"O Espião de D. João II" de Deana Barroqueiro (Casa das Letras/Leya, Abril 2015) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.


UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE

Em 1487, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança. Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era), aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus.

Para compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso) se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito referenciado mas nunca descoberto.

Afinal, o que era o mito do Preste João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza, humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático. Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim.

Estas duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia.

Acresce que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão.

D. João II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos portugueses.

UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA 

Seguimos, a partir de todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão, Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia.

A autora procura, assim, dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor, segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo.

Deana Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos, concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial, não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E este romance prenuncia-a.

DIPLOMACIA E AVENTURA

A um tempo, estamos perante os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos, Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões…

O Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia, sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação.

Estamos, assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da sua importância fundamental...
Guilherme d'Oliveira Martins

30/03/2015

Bloguer morto à facada no Bangladesh

Um bloguer foi morto à facada em Dacca, capital do Bangladesh, um mês depois de outro escritor, um ateísta norte-americano, ter sido assassinado com uma catana, num ataque similar.


Washikur Rahman, que escrevia sob o pseudónimo "Kucchit Hasher Channa" (Patinho Feio, na tradução para português), tinha 27 anos e era bastante crítico do fundamentalismo religioso. Foi abordado, esta manhã, a 500 metros de casa, na área de Begunbari.
Segundo relata a polícia, Rahman foi "brutalmente esfaqueado até à morte" por dois estudantes de um seminário islâmico, detidos pela polícia local depois de serem apanhados a tentar fugir do local do crime.

O mês passado, o norte-americano Avijit Roy, conhecido por criticar a intolerância religiosa, morreu quando visitava Dacca, espoletando uma investigação por parte do FBI.

Um homem, tido como um bloguer fundamentalista com ligações ao grupo islâmico Hizb ut-Tahrir (banido no Bangladesh), é o principal suspeito deste caso, depois de ter ameaçado, nas redes sociais, que ia matar o escritor.

A esposa de Roy também ficou gravemente ferida durante o ataque.

O incidente provocou diversos protestos no país e além-fronteiras, especialmente por parte de estudantes e ativistas, que acusam as autoridades de não protegerem convenientemente as vítimas.
 

Herberto Hélder: "E já nenhum poder destrói o poema"

SAPO
No adeus àquele que era o maior poeta português vivo, lembramos quatro poemas do último livro de Helberto Hélder, A Morte sem Mestre
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a última bilha de gás durou dois meses e três dias

a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!
 
queria fechar-se inteiro num poema
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

Herberto Helder lido por Herberto Helder (Renascença)
 
tão fortes eram que sobreviveram à língua morta
tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda
 
que um nó de sangue na garganta
que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno, o inverno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro

(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)

27/03/2015

Mudança da Hora - 29 de Março

E lá vamos outra vez adiantar os relógios. Será que ainda é para "poupar cera"? 

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Mais uma vez chega aquela altura do ano em que as pessoas confundem se hão de mover os ponteiros do relógio para frente ou para trás, se dormem mais ou menos uma hora, o que faz alguns andar rabugentos. Mas nada que não se compense com a mais longa duração dos dias, que proporciona momentos extra de lazer e descontração. O Expresso conta-lhe a história por trás do fenómeno.

Março está a chegar ao fim, e apesar de a primavera andar mascarada é tempo de mudar a hora no relógio, mais uma vez. Todos os anos a pergunta é a mesma, é uma hora para lá ou uma hora para cá nos ponteiros do relógio?, dormimos mais ou dormimos menos?

Pois bem, cá vai a cábula: na madrugada deste sábado para domingo, 29 de março, em Portugal continental e na Madeira, à 1h00 deste domingo, 29 de março, adiante o relógio 60 minutos, passando para as 2h00. Nos Açores, a mudança é feita à meia-noite. Ou seja, teremos um dia com apenas 23 horas de duração, e a hora agora "comida" será recuperada lá mais para diante, em outubro, na mudança para o horário de inverno.

Para aqueles que gostam de dormir não é fácil passar a "acordar mais cedo", mas o facto de "os dias parecerem maiores" compensará o esforço.

Os pais agradecem

Anoitece mais tarde e os dias parecem proporcionar todo um conjunto interminável de atividades de lazer. Dá para ficar até mais tarde na rua, com os amigos a beber uma cerveja, passear e ver as vistas, correr e andar de bicicleta. Enfim, até os pais parecem mais descansados.

É essa opinião de Manuela Subtil, professora de matemática do ensino básico, que diz ficar mais descansada quando a sua filha "sai da explicação quando ainda é de dia". De acordo com a sua experiência, "os miúdos" preferem este tipo de horário, pois têm "mais tempo para brincadeiras."

As opiniões são igualmente positivas entre os "miúdos" mais velhos. Sérgio Santos, estudante universitário de 23 anos, diz que apesar de se tratar de um efeito ilusório, o dia "passa a ter mais horas, e com a chegada do verão isso é muito importante, porque dá para estar mais tempo na praia."

 Para Inês Rodrigues, médica de 29 anos, o "desaparecimento" de uma hora na madrugada de sábado para domingo é positiva, não acarretando quaisquer consequências físicas para as pessoas, a não ser "a preguiça de acordar cedo nos primeiros dias após a alteração do horário".

Benjamin Franklin, o autor da ideia que queria "poupar cera" 
É sabido que o horário de verão estica a luz diurna, pelo menos até à entrada da época mais quente do ano. Mas saberá o leitor a história que está por trás desta ideia?

 A primeira vez que se falou na hipótese de alteração da hora foi nos Estados Unidos da América, e logo pela boca de um dos nomes incontornáveis da História deste pais: Benjamin Franklin. O antigo político propôs esta ideia ao seu governo como uma medida de poupança de "cera das velas", chamando-a de "Daylight Savings Time" (DST).

Mas apesar de vários artigos publicados um pouco por todo o mundo, a ideia só foi adotada cerca de 130 anos depois, durante a I Guerra Mundial, pela mão do último kaiser alemão, para poupar carvão. A mudança da hora começou por ser, nessa altura, uma necessidade, para permitir reajustar os horários de trabalho de forma a poupar combustível, fortemente racionado no período de guerra.

Depois da Alemanha seguiram-se a Rússia e os Estados Unidos, todos em busca de uma poupança energética. O mesmo aconteceu durante a II Grande Guerra. Contudo, após os conflitos, a maioria dos países deixou de "dar voltas às cordas do relógio", ignorando as mudanças da hora.

Então, como é que chegámos à prática dos últimos anos? Com a crise energética de 1973, os países árabes aumentaram os preços do petróleo em 400% e provocaram um pânico mundial. A partir dessa altura, a mudança de hora duas vezes por ano começou a generalizar-se, uma vez mais tendo em vista a poupança de recursos com a maior longevidade da luz diurna.

União Europeia muda a hora em uníssono

Não se sabe ao certo se a alteração dos horários ainda se justifica com a "poupança de energia". Não há dados suficientes que permitam tirar conclusões concretas, e isso confirma-se com o último relatório sobre o tema emitido pela Comissão Europeia (CE), em 2007, onde se lê que: "A hora de verão contribui para uma poupança de energia pelo facto de se utilizar menos eletricidade em iluminação ao fim do dia, visto haver mais luz natural. No entanto, desta poupança é necessário deduzir o maior consumo de energia devido à necessidade de aquecimento de manhã, quando da mudança horária, e o consumo de combustível suplementar gerado pelo possível aumento do tráfego ao fim do dia quando há mais luz natural."

 Os países membros da União Europeia partilham uma diretiva respeitante à mudança da hora desde 2001, e no mesmo relatório da CE lê-se: "A maioria dos Estados-membros sublinha a importância da harmonização do calendário da hora de verão na UE, nomeadamente em relação aos transportes." E isso é um fator muito positivo, todos mudam a hora.

Expresso