Esgotadas as três primeiras edições,
A Casa das Letras, publica, em Abril 2015, uma nova edição, revista e aumentada de
«O Espião de D. João II», o segundo romance da sua trilogia dos Descobrimentos Portugueses.
A VIDA DOS LIVROS (CNC)
"O Espião de D. João II" de
Deana Barroqueiro
(Casa das Letras/Leya, Abril 2015) é um romance baseado em factos reais, que nos permite
acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João.
Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”,
travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro
do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras
(“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao
público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica
experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com
uma evidente vivacidade.
UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE
Em 1487, Pêro da
Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe
Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao
mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança.
Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam
procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias
do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa
peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia
de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até
Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia,
descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer
essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira
identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era),
aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus.
Para
compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior
de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a
missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a
Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do
Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso)
se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de
Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do
Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito
referenciado mas nunca descoberto.
Afinal, o que era o mito do Preste
João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a
nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa
referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a
condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza,
humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela
Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a
comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático.
Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos
cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século
IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim.
Estas
duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de
influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do
desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu
célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o
mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda
de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano
situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia.
Acresce
que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII
ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel
Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa
assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino
maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara
aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre
as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão.
D. João
II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação
suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de
África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no
Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a
tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que
fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O
plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e
diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos
portugueses.
UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA
Seguimos, a partir de
todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há
vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem
perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona,
Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão,
Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto
Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia.
A autora procura, assim,
dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o
centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos
testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição
minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus
olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em
Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se
separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor,
segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a
Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco
Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental
de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a
Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo.
Deana
Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos,
concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da
narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial,
não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como
nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os
povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge
de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E
este romance prenuncia-a.
DIPLOMACIA E AVENTURA
A um tempo, estamos perante
os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos
descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das
navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias
trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora
inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no
fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística
que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do
espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos,
Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região
que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã
conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões…
O
Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à
embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia,
sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde
confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma
espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender
qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da
apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo
diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação.
Estamos,
assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e
relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a
que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia
sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita
a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da
sua importância fundamental...
Guilherme d'Oliveira Martins