28/08/2015

No rasto de Fernão Mendes Pinto - I


Crónica Primeira

Sabei, meus caríssimos leitores e leitoras, que me sinto muito obrigada pelas inúmeras mercês e favores com que sempre me haveis agraciado – encorajando-me com boas palavras, lendo e louvando todas as obras que tenho escrito sobre os navegadores e viajantes portugueses, os primeiros europeus que descobriram mundos até então encobertos e ignorados pelas arrogantes e ricas nações da Europa.

É meu dever mostrar-vos gratidão por meio da minha escrita, pois só nela vivo com a mente, a alma e o coração! Tentarei partilhar convosco as minhas impressões do muito que vir, ouvir, cheirar, tocar e degustar, pelos mares da Pestana do Mundo, com a embaixada da nobilíssima Academia de Artes e Letras – CNC, aos reinos de Pegu, Bramá, Arracão, Sirião, Sião e Angkor.
 
 Convido-vos a viajar comigo pela Imaginação, que é o mais cómodo e veloz navio do mundo para vos levar a todas as partes da Terra, e até do Universo, sem sairdes do conforto das vossas casas, do aconchego dos vossos, cadeirões, coxins ou leitos e, sobretudo, sem que sofrais no corpo e na alma os incómodos, achaques e fatalidades que sempre acontecem nas longas peregrinações de quem, como eu, tem de cruzar mares e ventos para passar além da Taprobana, remar contra as marés da Fortuna a fim de pisar portos desconhecidos, podendo sofrer abordagens de corsários e perder ou ver roubada a equipagem, se não mesmo a própria vida. 

Confiando que me sois leais e não me denunciareis ao Tribunal do Santo Ofício (que não hesitará em me lançar na fogueira purificadora de um Auto-de-Fé, por bruxaria e heresia), sou compelido a confessar-vos ter já vivido, nos últimos quinhentos anos, não uma, mas inúmeras vidas, encarnando em diferentes gentes de desvairadas épocas e lugares. Não sou um demónio que possui e suga a vida do seu hospedeiro, nem faço dano àqueles cujos corpos habito, pelo contrário, faço-os reviver para sempre. Limito-me a observar o mundo através dos seus olhos e dos seus restantes sentidos e a interpretar o que sentem e o que fazem.

Fui hoje à reunião do conselho da embaixada, conhecer a Embaixatriz e alguns dos viajantes. Não sei ainda em que corpo viajarei. talvez no de uma mulher, das pioneiras que quiseram ver mais mundos além do da prisão da casa paterna ou de um esposo; ou no de algum letrado, cronista ou oficial de outro ofício, sem futuro em Portugal, nestes conturbados tempos do Século XVII. Sim, meus amigos, estou num limbo, entre dois períodos da História, o do último livro escrito e o do que se está a escrever. 

Escolho este último, o do Seiscentismo, com a nação empobrecida, esburgada até ao osso pelas nações estrangeiras mais ricas, que nos têm governado por meio de uma tríade de mandatários, a quem os nossos governantes dobram a cerviz, vendendo o país ao desbarato e impondo ao povo uma vida miserável e sem esperança, enquanto preservam os privilégios dos ricos e poderosos (os maiores mestres da Arte de Furtar, de todos os tempos). Por mais motins e protestos que os mesteirais e outras gentes tenham feito para impedir a destruição da res publica, nada conseguiram senão a prisão e o desterro.

Partirei dentro de dias e talvez me deixe ficar em qualquer um dos lugares por onde passarmos, que não esteja em guerra, pois o mundo parece ter endoidado e, por todas as partes, se matam as gentes por um chique-mique, por razões de raça ou de credo. Mouros, cristãos e judeus falam de cruzada e de jihad; lançam, uns contra os outros, bombardas, panelas de pólvora e demais engenhos explosivos; afundam navios, atacam caravanas e acampamentos, vilas e cidades, fazendo grande mortandade.
Por tais razões, na embaixada aos reinos de Bramá e de Sião – porque de uma embaixada se trata e não de um acto de guerra ou de espionação – se vai embarcar em grandes cuidados, porque os mais sábios astrólogos da nação (cristãos, judeus e mouros) fizeram uma leitura dos astros nada auspiciosa para esta viagem. A começar pela partida, no fim de Agosto, que nos fará arrostar com o tempo da monção das chuvas que, naquelas partes é basta em tufões e tornados, com ondas tão altas como casas de três sobrados. 

De tudo isto nos deu conta o falecido Fernão Mendes Pinto, na sua Peregrinação – obra publicada no primeiro quartel deste século e muito celebrada por toda a Europa com 23 traduções –, contudo o capitão e o piloto não fizeram caso dos seus avisos, por tomarem por patranhas e fantasias de contador de histórias tudo o que este ilustre varão viu e narrou no seu magnífico livro. Praza a Deus que os meus estimados leitores não pensam tamanha vileza de mim!

E ainda estamos em terra e já houve a primeira baixa, com a troca do embaixador. Em vez dele, irá uma ilustre dona de embaixatriz, por se saber que, naqueles reinos do Oriente, as mulheres nobres são escolhidas para negociar as concertações de paz e amizade entre as nações, por terem mais comedimento nas palavras e nos actos, e mais coração, pelo que logram obter melhores resultados do que os homens, nos tratados.

Não sei quantas crónicas vos poderei enviar dos muitos lugares aonde aportarei. Embora os navios sejam mais velozes do que pássaros de grandes asas, nem sempre há portador, e o antigo uso de deixar cartas e outros papéis, em botas e panelas junto às praias onde se fazia a aguada já não se pode fazer por todos os lugares serem já muito povoados e seria de espantar que alguém que achasse a panela ou a bota a deixasse ficar – olho te vê, mão te pilha!

Mas, tudo farei, para pôr em crónica, impressa em folhas volantes, que podereis ler em muitos lugares onde se publicam tais obras, ou consegui-las dos cegos que as vendem pelas ruas.
Que Deus me guarde e me traga sano e vivo. 

Valete, Frates!

12/08/2015

JL - Romance Histórico - Um manancial inesgotável

Artigo em resposta a um questionário sobre o romance histórico, publicado no JL de 5 de Agosto, 2015
 Por que escreve romances históricos? Quais entende serem as principais potencialidades do «género» e como explica o crescentge número de obras publicadas desse «género»? Como conjuga nos seus livros, realidade e verdade histórica (que tipo de investigação faz?) com ficção, que «percentagem» de uma e de outra? É dos que usa o passado para falar também do presente?

O romance histórico, quando feito com seriedade, obriga o autor a um longo trabalho de investigação sobre uma enorme diversidade de temas, potenciando, como nenhum outro género literário, além do prazer da leitura, enriquecimento pessoal e mais-valia ao leitor, pelo conhecimento de um passado colectivo, que é também seu, estabelecendo uma ponte com o presente e o futuro, porque o ser humano e a Humanidade existem e são moldados pelo Tempo e Memória.

Portugal tem uma História das mais ricas da Europa, mas o seu ensino foi tão descurado que a fez quase desconhecida dos portugueses. Sendo, todavia, um manancial inesgotável de épocas, lugares, sucessos, tramas e personalidades maiores que a ficção, cedo serviu de tema para inúmeros autores estrangeiros, quando ainda poucos de nós o fazíamos e quase sem eco nos media. O interesse “vindo de fora” teve o mérito de despertar a apetência do leitor nacional pelo romance histórico e a História em si mesma, o que provocou uma explosão do género por parte das editoras, que inundaram o mercado com milhares de obras de escritores nacionais e, sobretudo, estrangeiros, com o rótulo de “romance histórico”, muitas das quais pouco tendo de histórico e ainda menos de qualidade, pela falta de preparação e investigação (portanto de conhecimento de História) dos seus autores, com o perverso efeito de enganar o leitor, ao misturar o trigo e o joio.
A longa experiência de professora de Língua, Literatura e Cultura Portuguesa e de escrita criativa, aliada ao gosto pela investigação e estudo levaram-me a optar pelo romance histórico, por nele poder conciliar a história, a literatura e o mito, criando em cada livro, a partir de personagens e factos reais dos Séculos XV ao XVII, fundamentados por muitos anos de investigação, uma imensa rede de intertextualidades orais, linguísticas, histórico-documentais, políticas, geográficas, religiosas, profanas, ritualistas, musicais, míticas, narrativas, poéticas, de costumes (do trajo à comida ou aos hábitos sexuais), de Portugal e de outras nações (em particular no período dos Descobrimentos), pondo em confronto culturas e mentalidades, dando voz à alteridade. Ficcionando e imaginando sempre, mas sem ceder à facilidade, usando do maior rigor, exactidão e verosimilhança na descrição dos sucessos e lugares, para que o leitor possa fazer a sua própria recriação dessa época e mundos perdidos.

Procuro estabelecer um equilíbrio entre verdade ficcional e verdade histórica, re-interpretando os factos, pondo em evidência as constantes culturais e identitárias portuguesas, como a saudade e o sebastianismo, distanciando-me da tradição clássica pelo recurso a diversos processos literários, como adequar a estrutura do romance ao conteúdo e às tendências literárias da época, diferente em cada obra, ou jogar com categorias de tempo, espaço e narrador, para surpreender o leitor.
Faço questão de manter um diálogo constante com o meu leitor, assumindo-me algumas vezes como autor-narrador; enquanto defensora do papel interventivo do escritor na sociedade, os meus romances tendem a reflectir esse empenhamento social e cultural na escolha de temas ou de personagens que foram marginalizadas pela história oficial, apesar da sua singularidade e de terem contribuído como poucos para a construção da nossa identidade. Personagens e situações que metaforicamente remetem para o nosso presente, permitindo a quem lê tirar ilações e reagir.

É necessário conhecer o passado para melhor interpretar o presente.
Deana Barroqueiro
(não escrevo segundo o AO)

 

07/08/2015

Drama no Mediterrâneo: “É um genocídio causado pelo egoísmo europeu”

 Vários traficantes de seres humanos foram detidos em Palermo. Autarca local lança apelos desesperados. Comissão Europeia pede “coragem coletiva” aos membros da UE


DARRIN ZAMMIT LUPI / EPA
Sobreviventes da embarcação que naufragou quarta-feira ao largo da Líbia acusam grupos de traficantes de serem os responsáveis pela morte de centenas de pessoas. “Testas marcadas com facas para os africanos que não obedeciam a ordens” e “pontapés e murros na cabeça” estão entre os relatos de alguns dos 273 migrantes que sobreviveram ao naufrágio da embarcação, segundo o diário italiano “La Repubblica”.

Quando a embarcação começou a ter dificuldades, os traficantes fecharam os migrantes de etnia africana num compartimento do barco e ordenaram aos de outras etnias que se sentassem em cima das portas para os impedir de sair. "Os cerca de 200imigrantes africanos trancados tiveram um fim horrível", relata o jornal.
À chegada ao porto italiano de Palermo dos 373 sobreviventes da embarcação, vários traficantes foram detidos. O autarca local defendeu que o drama dos migrantes no Mediterrâneo é um “genocídio causado pelo egoísmo europeu” e que as máfias aproveitam-se deste problema para explorarem cidadãos ilegais.
Leoluca Orlando apelou aos líderes europeus para responderem de forma mais eficaz a esta crise humanitária, que só este ano já causou mais de 2200 vítimas. Segundo o presidente da câmara de Palermo, é fundamental que os países europeus autorizem a entrada de mais refugiados nos seus países, evitando casos como os de Itália, em que os membros da máfia acabam por reencaminhar estes migrantes ilegais para a atividade criminosa.

“O atual sistema está a alimentar o crise organizado, está a gerar mais mortes e violência, forçando os migrantes ilegais a atuarem fora da lei”, afirmou o autarca, citado pelo jornal “The Telegraph.”
Leoluca Orlando realçou que este migrantes são explorados pelos crimininosos enquanto aguardam pedidos de asilo e vivem em condições desumanas, sem possibilidade de conseguirem um emprego ou uma casa. “Isto permite aos migrantes participarem em novas formas de crime organizado - traficantes e membros da máfia correm para centros de migrantes.”

Entretanto, a Comissão Europeia apelou na quinta-feira aos membros da UE para encontrarem uma “coragem coletiva” de forma a cumprirem o que foi acordado no passado mês de maio relativamente ao drama dos migrantes.

“A migração não é um tópico popular ou bonito. É fácil chorar em frente à televisão quando assistimos a estas tragédias. É mais difícil levantarmo-nos e assumirmos responsabilidades”, declarou o organismo comunitário, em comunicado. Cerca de 2 mil pessoas terão morrido desde o início do ano até terça-feira, de acordo com o último balanço da Organização Internacional para as Migrações, a que se juntam mais de duas dezenas de vítimas no naufrágio de quarta-feira.

Por seu turno, cerca de 224 mil migrantes e refugiados conseguiram este ano chegar ao velho continente através do Mediterrâneo, segundo as Nações Unidas.

09/07/2015

Deana Barroqueiro na Feira do Livro de Cascais

Feira do Livro de Cascais
Sexta-feira, dia 10, a partir das 18.30 h.

 
Vou estar na feira, na sexta-feira (amanhã), às 18.30 h,  para conversar com os leitores.
O jardim é simpático e eu amo feiras de livros. Espero que apareçam alguns dos meus muitos amigos que gostam de livros como eu.

20/06/2015

 
Caros,
1. Foi lançada uma Iniciativa de Referendo ao “Acordo Ortográfico” de 1990.
Entre os Mandatários, estão anti-acordistas, em particular figuras públicas de todos os quadrantes.
A iniciativa partiu da Moção do Fórum “Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico” de 1990”.
2. A Iniciativa de Referendo é obrigatoriamente votada no Parlamento.
Assim, os promotores da Iniciativa e os portugueses em geral pretendem indagar, junto das forças políticas e dos Candidatos presidenciais, que digam o que pensam acerca do “Acordo Ortográfico” de 1990; se o utilizarão no exercício do cargo, caso sejam eleitos; de que forma tencionam fazer com que Portugal se desvincule do Acordo Ortográfico de 1990, fazendo o retrocesso; em que sentido votarão a Iniciativa de Referendo na Assembleia da República.
3. Esse folheto para assinar está disponível “on line” em https://referendoao90.wordpress.com/, bem como no evento, marcado como 1.ª publicação, no Grupo do Facebook “Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990” (https://www.facebook.com/cidadaoscontraAO90?fref=ts); na Página "Referendo ao "Acordo Ortográfico" de 1990 (https://www.facebook.com/pages/Referendo-ao-Acordo-Ortográfico-de-1990/431340920377492fref=ts).
Para a recolha de assinaturas para uma Iniciativa de Referendo, basta colocar o nome, n.º de BI/CC e assinatura no folheto.
Estão disponíveis duas versões do folheto:
i) Folheto na vertical – fazer a descarga em https://referendoao90.files.wordpress.com/2015/06/folha-de-assinaturas_vertical.pdf; ou, no Grupo, em https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/604144323022361/ (ou directamente em
https://attachment.fbsbx.com/file_download.php?id=1095161897166192&eid=AStShKxg3PbBTe3Z6AkEBX_bflSRXSZdIKHq9ATqH8wthVgE7Rk--_Wx1IgffpeQYqY&inline=1&ext=1434732117&hash=ASsk0NEjdCzzdE3o);
ii) e na horizontal - fazer a descarga em https://referendoao90.files.wordpress.com/2015/06/folha-de-assinaturas_horizontal.pdf; ou em https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/604633376306789/

4. Após o folheto ser impresso, preenchido e assinado, tais subscrições deverão obedecer a duas formas de envio:

RESUMO:
1.ª forma - Imprima o folheto numa folha (frente e verso); se quiser, fotocopie também quantas vezes queira.
Preencha o nome e BI/CC; assine; digitalize. Convide o maior número de pessoas a fazer o mesmo, se puder. Envie por email o ficheiro anexado para referendoao90@gmail.com.

2.ª forma - Ou, em alternativa, imprima (e/ou fotocopie quantas vezes quiser) o folheto. Preencha o nome, BI/CC; assine; peça a mais pessoas para fazer o mesmo, se puder. Envie o impresso por Correio, para uma das duas moradas mencionadas de seguida:

i) Centro de Estudos Clássicos
ao cuidado de Maria Cristina Pimentel
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
1649-014 Lisboa;
Ou
ii) Centro de Estudos Comparativos
Ao cuidado de Helena Buescu
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
1649-014 Lisboa

5. Mais informações em https://referendoao90.wordpress.com/

Apelamos a todos os anti-acordistas que assinem esta Iniciativa e que façam o favor de angariar assinaturas.


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Informações complementares:
Os Mandatários da iniciativa incluem figuras públicas da área política, do meio científico, académico, artístico e literário, cujas intervenções públicas anti-acordistas são conhecidas, designadamente:

Da área política do PS: António Arnaut, Eduardo Lourenço, Helena Roseta, Manuel Alegre;

Da área política do PSD: Pacheco Pereira, Barbosa de Melo (ex-Deputado à Assembleia Constituinte; ex-Presidente da AR, na década de 90), Manuel da Costa Andrade (reputado Professor Penalista da Faculdade de Direito de Coimbra, ex-Deputado à Assembleia Constituinte e ex-Deputado); Manuela Ferreira Leite, Mota Amaral;

Da área política do CDS: Bagão Félix e António Lobo Xavier;

Garcia Pereira (Advogado; PCTP/MRPP);

Entre as personalidades públicas independentes estão: o realizador António-Pedro Vasconcelos; a Jornalista e Professora Constança Cunha e Sá; o Sociólogo Eduardo Cintra Torres; José Sasportes, ex-Ministro da Cultura no Governo do PS de A. Guterres; Marcello Duarte Matias, ex-diplomata (designadamente em Brasília) e ex-Embaixador da UNESCO, agora jubilado; Júlio Machado Vaz, Matilde Sousa Franco, Miguel Sousa Tavares, Pedro Mexia.

Do meio artístico, o Maestro António Victorino d’Almeida; os Pianistas Artur Pizarro e Olga Prats; os Cantores Lena d’Água, Pedro Abrunhosa, Pedro Barroso; a Actriz Lídia Franco; a ex-Apresentadora da RTP Isabel Wolmar;

Do meio literário, os Poetas Casimiro de Brito e Gastão Cruz; os Escritores Afonso Reis Cabral (Prémio Leya 2015) e Teolinda Gersão (também Professora Universitária Aposentada);

Do meio científico e académico: António Feijó (Vice-Reitor da Universidade de Lisboa); Vítor Aguiar e Silva (ex-Reitor da Universidade do Minho; Professor de Literatura) António Fernando Nabais (Presidente da Associação Nacional de Professores de Português); o cientista Henrique Leitão (Prémio Pessoa 2014); os Professores Universitários Ana Isabel Buescu, Cristina Pimentel, Helena Buescu, José Pedro Serra, Maria Filomena Molder, Miguel Tamen, Teresa Cadete (Presidente do PEN Club Português), Teresa Cid e Ivo Miguel Barroso. E os Especialistas, Autores de obras em matéria do “Acordo Ortográfico” de 1990, Fernando Paulo Baptista e Francisco Miguel Valada.

12/06/2015

13 de Junho Sábado, na Feira do Livro

Vou estar de novo na Feira do Livro, no dia 13, Sábado, às 17 horas, para conversar com os amigos, na Praça Leya, pavilhão Casa das Letras, no cimo do Parque, à direita de quem sobe.

09/06/2015

Dia 10 de Junho, na Feira do Livro

Os amigos que quiserem ver-me e trocar impressões sobre os Descobrimentos Portugueses, o Renascimento ou sobre o período de D. Sebastião, encontrar-me-ão amanhã, na Feira do Livro, a partir das 18 h., na Praça LeYa, em frente do pavilhão da Casa das Letras.
 Tenho uma surpresa para os meus leitores.

31/05/2015

Que se passa com este livro?

Neste mundo dos livros e leitores, há coisas que escapam completamente a um autor, como, por exemplo: Por que razão, um livro que achamos que vai ter sucesso - seja pelo assunto, seja pela personagem ou (também) porque foi uma obra a que demos mais tempo e mais trabalho, que consideramos a mais rica em conteúdos e ligações com outros temas, até por ter tido melhores críticas dos entendidos - acaba afinal por suscitar menos interesse aos leitores do que todas as nossas obras anteriores?

Para meu espanto, e com bastante pena minha, vejo que esse fenómeno parece estar a acontecer com o meu romance "O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto". Pensei que um livro que leva o leitor numa incrível viagem no tempo, por toda a Ásia dos Descobrimentos, haveria de despertar um interesse ainda maior do que o alcançadp pelas duas obras anteriores sobre o tema da Expansão Portuguesa. Com ele, eu dei por concluída a minha saga dos portugueses, fechando-a com chave de ouro, segura que depois dele, os meus leitores ficariam com um bom conhecimento deste período riquíssimo da nossa História.

Por isso escolhi para protagonista Fernão Mendes Pinto, um homem extraordináriao, injustamente tratado pela pelos críticos dos séculos posteriores ao da publicação da sua obra Peregrinação (que foi um bestseller no sec. XVII na Europa, com inúmeras edições em várias línguas).

Será possível que a rábula do «Fernão Mentes? Minto.», tão infame como injusta ( mas que é talvez a única coisa que a maioria dos portugueses ouviu sobre este aventureiro ),  se tenha inscrito como um ferrete de eterno desprezo sobre o seu nome,  apesar dos estudos actuais que o devolvem à dignidade e valor que merece?

Será por isso que este meu romance, que procurava dar-lhe visibilidade e fazer-lhe justiça, está a ter menos sucesso do que os outros? Por não gostarem da personagerm Fernão Mendes Pinto?

Se for, tenho uma grande mágoa, embora não lamente os quase 4 anos anos que levei a escrevê-lo. Fernão Mendes Pinto vale mesmo a pena e o esforço.

19/05/2015

Feira do Livro 2015

Feira do Livro de Lisboa - Parque Eduardo VII

Estarei na Praça Leya - Casa das Letraspara conversar com os meus amigos leitores, nos seguintes dias:

- 30 de Maio, 18 horas

- 10 de Junho, 18 horas 

Estar convosco, com pessoas que amam os livros e gostam de conversar sobre eles, é um dos grandes prazeres que a escrita me dá. Lá vos espero, com uma surpresa.


Entrevista no Jornal i

Entrevista à escritora Deana Barroqueiro, autora de «O ESPIÃO DE D. JOÃO II», na secção A Minha Estante Corre Mundo, Do «Jornal i». 


Precisa de renovar o passaporte. Que livro leva consigo para suportar a fila de espera?
 Uma pequena monografia ou ensaio, de pesquisa para o meu novo romance.

Qual o sítio mais estranho onde já encontrou um livro seu?
Em Macau, o meu «Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto»

 Já perdeu/esqueceu-se de algum livro durante uma das suas viagens? Se sim, qual e onde? Conseguiu recuperá-lo?
Durante um cruzeiro ao Estreito de Magalhães, levei O Espião de D. João II, para fazer a revisão e deixei-o no sofá da biblioteca do navio. Quando voltei para o recuperar, tinha desaparecido. Havia muitos passageiros lusófonos, espero que quem o levou tenha gostado do romance.

Vê uma pessoa a roubar um livro na livraria de um aeroporto. Como reage?
 Se for jovem, peço-lhe discretamente que me permita oferecer-lhe o livro e pago-lho na caixa. Se for adulto denuncio-o

Ao lado de que autor não se importava de viajar até ao fim do mundo? Porquê?
 De nenhum, para uma viajem assim tão longa! Preferia dialogar com as suas obras, que são aquilo que de melhor têm os escritores. Há livros fabulosos de autores que, como seres humanos, são insuportáveis.

Se pudesse escolher apenas um sítio/paisagem/país onde passaria o resto da vida a escrever, qual seria e porquê?
 Lisboa, Portugal, que é onde estou, de facto, a passar o resto da minha vida a escrever. Tenho dupla nacionalidade, mas nunca escolheria os E.U.A. para lugar do meu fim. Conheço sítios preciosos, no mundo, mas por muito que a maltratem, Lisboa continua a ser uma cidade belíssima, solarenga e marítima, onde cada rua, casa ou pedra tem um passado e uma história para contar, e cujo horizonte verde-azul apela à imaginação e sonho de viagens e aventuras.

Está no estrangeiro e decide enviar um postal à sua editora. O que escreve?
 «Descobri um verdadeiro filão narrativo para um “best-seller”, mas preciso de seis meses de pesquisa nos arquivos da cidade. A editora estaria interessada em patrocinar este projecto?»

Qual a nacionalidade que melhor assenta a um detective de um romance policial e porquê?
 A inglesa, da velha escola: Detectives fleumáticos, elegantes, sóbrios e de raciocínio brilhante.

Imagine que no meio do nevoeiro de Londres encontra uma das suas personagens. Que lhe diria ela?
 «Que faço eu aqui? Este tempo não é o meu! Que raio de escritor de romance histórico és tu, se não logras recriar o meu mundo, com rigor e verosimilhança, para que eu possa viver nele como se ele fora real e eu tão de carne e osso como tu? Contextualiza-me ou apaga-me, ó aprendiz de feiticeiro!».

Passeia pelas ruas estreitas de Veneza quando o confundem com um escritor que detesta. Como se comporta?
Com a maior naturalidade possível, tratarei de desenganar o leitor e de me apresentar, dando-me a conhecer e à minha obra, de modo a que ele se sinta na obrigação de fazer parte do meu clube de leitores 


Em que livro saltou antecipadamente para a última página para saber como acabava a história?
EM NENHUM! Nunca o fiz, nem quando era menina-devoradora-de-livros. Se alguém me conta o fim de um romance, já não o leio.

Em 140 caracteres, explique qual é o enredo do livro que nunca escreverá.
 Ascensão e queda de Político
I Girino: das Jotas partidárias a remora colada ao peixe maior que parasita
II Polvo: predador que tudo devora
III Queda: nas malhas da rede

Deana Barroqueiro

04/05/2015

515º Aniversário do Achamento do Brasil

Foi precisamente há 15 anos que escrevi o meu primeiro romance, "Uraçá. o Índio Branco", para as comemorações do 5º centenário do descobrimento ou achamento do Brasil. Fascinada por este país, cuja Literatura e Cultura estudei durante anos, com paixão, o desafio não podia ser mais gratificante.

Este livro foi também o primeiro de uma colecção de sete romances de viagens e aventuras, com navegadores e exploradores portugueses - a Colecção Cruzeiro do Sul, publicada pela editora Livros Horizonte -,  uma saga de personagens históricas eu pretendia dar a conhecer a um público jovem, de preferência universitário e dos últimos anos do ensino secundário.

Os nossos críticos pouca atenção lhes prestaram, ao contrário dos "lá de fora", de França, Itália, Estados Unidos da América e Canadá, que lhes deram o relevo de páginas centrais nos jornais mais lidos pelos portugueses da 1ª e 2ª gerações de emigrantes, e cujos professores os usaram nas aulas de Português das suas universidades.

Essa falta de interesse foi o "empurrão" que me levou a escrever para um público mais alargado, a partir do imenso material de pesquisa que tinha armazenado naqueles cinco anos de trabalho.

Tendo saído agora a nova edição de "O Espião de D. João II - Pêro da Covilhã", recordo aqui essa minha aventura de uma saga, à maneira do Emilio Salgari, com esta cuidadosa análise da crítica literária e grande senhora de cultura que é Maria Fernanda Pinto.

 



Deana Barroqueiro, ou a Arte de Contar
 por Maria Fernanda Pinto, para o Jornal Encontro, Paris


A arte de contar, não se aprende. É um dom natural, nasce com a pessoa. Como no velho Oriente, onde “contador de histórias” era uma profissão das mais respeitadas, à volta do qual se reuniam todos aqueles que queriam saber como foi o início das eras, como tal coisa deu origem a uma outra, e o porquê dos usos e costumes que eles maquinalmente efectuavam de geração em geração
sem saber porquê.

Pela voz, pela escrita, à medida que vão contando, conseguem seduzir-nos a imaginação levando-nos até nossa adolescência, infância, e mesmo a latitudes reais ou imaginárias onde nunca pusemos os pés. Deana Barroqueiro possui uma força de expressão e uma elegância de estilo dignos de nota, ao mesmo tempo que mantém uma linguagem compreensível a todos.

A sua escrita é perfeita e colorida, descritiva de uma maneira que nos transporta para a época em questão, ficando sempre com vontade de saber mais. Já era tempo que se falasse da expansão dos portugueses para além dos mares, desta maneira. Já não sonhávamos, desde a época de Stephan Zweig, Jules Vernes ou Emílio Salgari que fizeram as delícias das nossas infâncias.

Claro que justamente as pessoas possuindo este dom raro, porque é raro, são sempre olhadas um pouco de esguelha pelos “puros literatas”, que chamam ao seu estilo, romance histórico. Nem todos! 
Nós continuamos admiradores incondicionaisde Júlio Dinis, Almeida Garrett, Deana Barroqueiro e dos outros!
  (...)

Deana Barroqueiro afirma-nos com muita convicção “o que pretendo fazer é escrever romances de aventuras com fundo histórico e nunca biografias históricas, se fosse isso, estes meus livros tinham de ser vistos como uma caricatura do romance histórico, transformando os nossos aventureiros em heróis de ficção. E foi exactamente isso que interessou as editoras por este projecto. Foi no fundo a sua “originalidade”, pegar nas figuras intocáveis do nosso passado histórico e transformá-las em Indiana Jones ou James Bond portugueses, contando ao mesmo tempo o melhor possível a sua história”.

Mas é necessário especificar aqui, que os mestres principais da autora, são os próprios cronistas da época dos Descobrimentos e que nesse campo, ela tem 15 anos de estudo e leu quase tudo o que tem sido publicado, na sua maioria deportugueses, entre os Séculos XV-XVII, mas também de estrangeiros como António Pigafetta, cujos textosprocura dar a conhecer, como pano de fundo dos seus romances.


29/04/2015

"O Espião de D. João II" já está nas livrarias

A nova edição, revista e aumentada, de O Espião de D. João II, com a chancela da Casa das Letras/Leya, já se encontra nas livrarias.



Será «O ESPIÃO DE D. JOÃO II» um romance histórico ou um livro de viagens exploratórias de mundos reais há muito desaparecidos?

Creio que é ambas as coisas. Tem como suporte, além da historiografia contemporânea, crónicas, diários e itinerários escritos pelos padres, cronistas, cientistas e aventureiros do século XV ao XVII.

São históricos os indivíduos, os factos e as datas, como são históricos os costumes dos povos e os lugares que me servem para criar a intriga e pôr o herói em acção, pois «O Espião de D. João II» é, sobretudo, uma obra de ficção que permite a efabulação e a transformação da realidade em mito.

- por DEANA BARROQUEIRO

01/04/2015

Crítica de Guilherme de Oliveira Martins a "O Espião de D. João II"

Esgotadas as três primeiras edições, A Casa das Letras, publica, em Abril 2015, uma nova edição, revista e aumentada de «O Espião de D. João II», o segundo romance da sua trilogia dos Descobrimentos Portugueses.



A VIDA DOS LIVROS (CNC)
 

"O Espião de D. João II" de Deana Barroqueiro (Casa das Letras/Leya, Abril 2015) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.


UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE

Em 1487, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança. Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era), aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus.

Para compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso) se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito referenciado mas nunca descoberto.

Afinal, o que era o mito do Preste João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza, humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático. Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim.

Estas duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia.

Acresce que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão.

D. João II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos portugueses.

UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA 

Seguimos, a partir de todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão, Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia.

A autora procura, assim, dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor, segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo.

Deana Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos, concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial, não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E este romance prenuncia-a.

DIPLOMACIA E AVENTURA

A um tempo, estamos perante os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos, Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões…

O Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia, sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação.

Estamos, assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da sua importância fundamental...
Guilherme d'Oliveira Martins