27/03/2016

Puestos están frente a frente

A música que Miguel Leitão de Andrada, O Vidente, transcreve na sua obra Miscelânea, a propósito da batalha de Alcácer Quibir, em que participou na Ala dos Aventureiros.

Poema:
Puestos entan frente a frente
Los dos valerosos campos,
Uno es del Rey Maluco,
Otro de Sebastiano
El Lusitano.
Moço, animoso y valiente,
Robusto, determinado,
Aunque de poca experiencia
Y no bien aconsejado,
El Lusitano.
Brama que entrevistan los moros
Y el exercito contrario
Ya se vá llegando cerca
Aellos (dize) Santiago,
El Lusitano.
Dispara la ertelharia,
La nuestra mal disparando
Llueven balas, llueve muerte,
Saetas y mosquetazos.
El Lusitano.

Que por los lados ya todos
Y con sangre de los muertos,
Está echo un grande lago.
El Lusitano.
Todo lo anda el buen Rey,
Dando muertes mui gallardo,
La espada tinta de sangre,
Lança rota, sin cavallo.
El Lusitano.

Que el suyo passado el pecho
Ya no puede dar un passo,
A George Dalbiquerque pide
Le de su rucio rodado.
El Lusitano.
Daselo de buena gana,
Y el Rey cavalga de un salto,
Mirale el Rey como jaze,
De espaldas casi espirando.
El Lusitano.

Mas le dize que se salve,
Pues todo es roto en pedaços,
Y el Rey se vá a los moros,
A los moros Sebastiano
El Lusitano.
Busca la muerte en dar muertes,
Sebastiano el Lusitano,
Diziendo aora es la hora,
Que un bel morir, tuta la vita honora.

Miguel Leitão de Andrada, O Vidente

De personagem real a personagem de ficção - o Vidente - no meu romance «D. Sebastião e o Vidente»:

Miguel Leitão de Andrada, natural da vila de... Pedrogão Grande, é uma personagem de vida fascinante, mas quase desconhecida dos portugueses. Guerreiro e escritor, com fumos de vidente, é o autor de Miscelânea, uma obra que retrata os costumes e sucessos de Portugal, nos finais do século XVI e começos do XVII, sobretudo da região onde nasceu.
Fidalgote de província e irmão de Frei João de Andrada, o secretário do Cardeal D. Henrique, vai participar na batalha de Alcácer Quibir, na Ala dos Aventureiros. Com a derrota dos portugueses, Miguel Leitão de Andrada, que se encontra muito ferido, é feito prisioneiro e vendido, pelo seu primeiro amo, na cidade de Fez.
O aventureiro escreve na sua Miscelânea que, sendo já prisioneiro dos Mouros, viu a eI-Rei D. Sebastião, morto, no campo de batalha, embora não tenha tido coragem para se aproximar e lhe ver o rosto:
«O dia depois da batalha, estando eu na tenda com os feridos companheiros Mouros, seria pelas oito ou nove horas da manhã, ouvi em todo o arraial dos Mouros grandes algazarras, festas e disparar de seus tiros. E veio de fóra a mim meu amo, que Abderehamen se chamava e pegando em mim pera me levantar me disse: Abecor Soltan, Abecor Soltan, do que eu nada entendendo, me disse hum dos feridos, que era Mouro dos de Granada: "dize tu Amo, que vayas ver tu Rey, que va por ali ". E levando-me pera detrás da tenda, vejo passar diante de mim, espaço de cinco ou seis varas, o infelicíssimo Rei D. Sebastião muito interissado, de bruços atravessado em huma sela, vestido em hum gibão de Olanda branca, calções de raxa arenosa, em hum cavallinho castanho, e Sebastião de Rezende seu moço da Câmara do serviço nas ancas delle. O qual deveo tirar de sobre as fronhas que então se costumavão, os ditos calções e despir o gibão pera cobrir o corpo do seu Rei que já achou nu, e despojado como logo todos o forão dos Alarves, nem levava camiza nem cousa na cabeça, e pernas, mas pola grande dor, e magoa me não dar jogar, me não cheguei mais a levantar-lhe o rosto, para o ver bem.».
Afirma ainda o autor que vários fidalgos portugueses, prisioneiros na tenda do rei Mulei Hamet para onde o morto foi levado, juraram ser ele EI-Rei D. Sebastião. A notícia do desastre chega a Portugal por uma carta de Miguel Leitão de Andrada a seu irmão Frei João, levada por um mercador castelhano que se encontrava na estalagem de Alcácer-Quibir, onde o árabe a quem Andrada coubera como escravo fora pernoitar. Esta carta foi mostrada ao Cardeal Rei D. Henrique e crê-se que tenha sido a primeira notícia do desastre em Portugal
Passa ano e meio como escravo de um mouro nobre e de sua irmã, que o julgam rico e lhe exigem um resgate de 12.000 cruzados, maltratando-o para o conseguir. É posto a ferros quando tenta fugir, com um dinheiro enviado por Frei João, um dos seus numerosos irmãos.
Quando vê que vai ser torturado, e temendo pela sua vida, o aventureiro português tenta de novo a fuga, desta vez com sucesso, escondendo-se nos campos, fora da cidade, com a ajuda de outros cativos cristãos e, mais tarde, vai encontrar-se, numa taverna da judiaria de Fez, com alguns judeus que lhe preparam a fuga para Portugal. Tinha então vinte e sete anos.
Chega a Portugal em Janeiro de 1580 e vai ser envolvido nas lutas pela sucessão do reino, pois é fidalgo da casa de D. António, o Prior do Crato, filho do infante D. Luís e um dos pretendentes ao trono. O reinado de D. António dura apenas alguns meses, porque Filipe II de Espanha invade Portugal e Miguel Leitão de Andrada coloca-se ao serviço do rei estrangeiro.
Casa três vezes com mulheres de posses, é acusado de assassínio de uma das esposas o que lhe vale cinco meses de prisão, mas continua a ser respeitado e admirado pelos seus contemporâneos, numa espécie de Corte da Aldeia e morre aos 79 anos, a 7 de Setembro de 1632.

19/03/2016

D. Sebastião: o rei o mito e a intriga

Esta entrevista para o JL - Jornal de Letras, sobre o D. Sebastião e o Vidente, foi feita oralmente, por telefone. Como falo muito (foi uma longa conversa) e muito depressa, torna-se difícil ao entrevistador captar e recolher o essencial sem truncar algumas frases ou cometer incorrecções. Para quem tiver interesse e pachorra para ler.


A obra de Deana Barroqueira foca-se sobretudo em figuras históricas e na era dos Descobrimentos como Bartolomeu Dias, Pêro da Covilhã ou Fernão Mendes Pinto. No seu romance D. Sebastião e o Vidente, agora reeditado, faz uma abordagem mítica ao reinado de D. Sebastião. A autora, que venceu o Prémio Máxima de Literatura-Prémio Especial do Júri em 2007, também escreveu vários livros de aventuras para jovens, que focavam a História de Portugal.

Jornal de Letras: Quando começou a interessar-se por D. Sebastião?
Deana Barroqueiro: quando andava à procura de figuras da literatura e das ciências. A certa altura, descobri um fidalgo, Miguel Leitão de Andrada, que tinha ido parar a Alcácer Quibir e tinha tido uma fuga rocambolesca. Casou três
vezes e teve uma vida muito acidentada e engraçada. A partir do livro dele tive a percepção de uma personagem fantástica para se fazer um romance. Ao começar a desmontar a época e o tempo, vi que era quatro meses mais velho do que D. Sebastião. Miguel Andrada de Leitão andou muito enredado com o rei e tinham muitos pontos em comum. Perderam os pais muito cedo e vão juntos na ala do aventureiros para Alcácer Quibir. E o irmão mais velho de Leitão de Andrada estava muito próximo do rei e por isso este tem sempre uma percepção muito próxima desta figura histórica.

O que é que esta nova edição revista do seu livro tem de novo?
Simplesmente melhorei o livro em termos de linguagem. O livro teve a primeira edição há 10 anos, quando a Porto Editora se lançou na área da ficção. Não quis modificar a história e mantive a estrutura, que eu concebi à maneira
do século XVI.

Nessa estrutura destaca-se o papel do narrador. É fundamental para perceber este romance?
Quis que fosse. Não é o fundamental, porque nos diálogos e nas situações o leitor percebe a história, mas lança uma constante piscadela de olho. Vai sempre interferindo, pontuando, comentando e fazendo observações acerca do futuro, se será ou não de uma maneira ou de outra. O romance histórico é sempre um manancial de informação, inclusivamente
para os políticos, para não repetirem os erros, mas não é só um livro de história seco, puro e duro.

O objetivo deste livro é entender quem é D. Sebastião?
É tentar entender D. Sebastião como ser humano na sua complexidade através de tudo o que passou nas suas experiências de vida. Dos seus traumas, da forma como foi educado, como foi apaparicado, como ninguém o contrariava quando foi rei absoluto aos 14 anos. E depois todas as intrigas daquele tempo, incluindo os espiões  de D. Filipe II que mexia as peças e governava. A estas, acrescentei a minha: sobre a forma como D. Sebastião ficou doente.

O Vidente ajuda perceber quem é D. Sebastião?
Creio que sim. Ele descreve no seu próprio livro que viu D. Sebastião morto no cavalo. Ele é uma das testemunhas da batalha de Alcácer Quibir. Ele vai comentando sempre, é muito crítico no livro.

Qual foi o período mais importante da vida de D. Sebastião, para perceber a personagem?
Eu acho que é a primeira fase da vida dele até ser rei aos 14 anos. Essa fase raramente é falada, sabe-se que ele perdeu o pai. Mas é importante saber que o próprio Pedro Nunes foi professor dele, que era amante de xadrez, que contraria a ideia que ele era um idiota. A sua generosidade, há muitos relatos de que ele era capaz de oferecer a sua camisa se visse um pobre a pedir esmola. A sua coragem incrível, ele ia na proa dos navios quando havia tempestades. O seu sofrimento, aquela ideia de ser capitão de Deus, formada pela religião e pelos romances de cavalaria. O idealismo que faz dele uma personagem extraordinária no  aspecto de ser humano ou então do mito. Acho que consigo dar a personagem mais próxima do real através de tudo o consegui  ler dele.

Qual o significado de D. Sebastião na História portuguesa?
Não há melhor significado do que o Desejado permanecer na nossa memória colectiva ao longo de 500 anos. O único rei que todos os portugueses conhecem. É o mítico. É muito comum D. Sebastião ser o mais amado ou mais odiado.

JL. Rodrigo Vaz Pinto

Deana Barroqueiro
D. SEBASTIÃO E O VIDENTE
Casa das letras, 692pp , 21,90 euros

13/03/2016

A nova edição da Casa das Letras-Leya

Já está nas livrarias a nova edição do D. Sebastião e o Vidente, revista e melhorada, com a chancela da Casa das Letras/Leya. Para festejar o seu 10º aniversário. Foi o meu maior sucesso, com várias edições esgotadas e cerca de 17.000 exemplares vendidos. Espero que haja agora novas gerações de leitores (os que há 10 anos não gostavam de ler e presentemente já gostam).  

Efeméride 2006: !º edição de D. Sebastião e o Vidente

Entrevista feita nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto, para apresentação da 1ª edição do romance D Sebastião e o Vidente. Em voz-off, Paulo Rebelo Gonçalves, um amigo muito querido.

Efeméride 2006-2016

2006 Lançamento da 1º edição do D. Sebastião e o Vidente

Espero que a minha actual Editora Casa das Letras não me leve a mal, o recordar hoje, o nascimento e apresentação  do D. Sebastião e o Vidente, há 10 anos, nos Jerónimos, naquele dia que foi um dos mas felizes da minha vida, pelo que serei sempre grata à Porto Editora.

05/03/2016

AGENDA 2016 - Março na FIL


Dia 6 de Março, às 17.30, na FIL – Parque das Nações

Deana Barroqueiro vai estar à conversa com Miguel Real e António Pedro Vasconcelos, na Feira Internacional de Turismo, Pavilhão 2C, no “stand” de Viseu (nº 22), sobre histórias e personagens da nossa História.
É um bom pretexto para visitar a Feira que oferece muitas actividades e tem muitos atractivos.

04/03/2016

«Há muita gente que reage estupidamente quando se fala em Descobrimentos».

Entrevista a Deana Barroqueiro, escritora

A escritora de romances históricos Deana Barroqueiro tem novo livro na calha. O Clarim foi ouvi-la falar dessa sua nova obra e do desinvestimento nas áreas da Educação e da Cultura por parte do Estado Português, que, no decorrer de 2015, não assinalou devidamente duas importantes efemérides: os 600 anos da tomada de Ceuta e os Quinhentos anos da morte de Afonso de Albuquerque. E é por aí mesmo que iniciamos a nossa conversa.
O CLARIM  O que acha do Governo de um país que ignora efemérides destas?
DEANA BARROQUEIRO – Demonstra ignorância. Refiro-me ao Governo anterior, pois o actual ainda mal teve tempo de respirar. Foi dos mais medíocres em termos culturais que a minha longa vida presenciou. Substituir um Ministério da Cultura por uma Secretaria de Estado da Cultura é querer um povo inculto, ignorante, incapaz de se inteirar da sua mediocridade e do Governo que os governa. Um Governo que só pensa no próprio estatuto e não no interesse comum.
CL  Os povos nem sempre convivem bem com a sua História. Concorda com esta afirmação?
D.B. – Em absoluto. Portugal é um bom exemplo disso, embora essa atitude seja mais frequente nos países que foram colonizados. Têm esse péssimo hábito de imiscuir a história actual com a história passada e não conseguem digerir esse facto, esquecendo algo de fundamental, e que é: conhecer o passado auxilia a entender o presente, permitindo uma melhor projecção no futuro. Evitam-se asneiras anteriores, por exemplo. Uma nação é composta de passado, presente e futuro. Estou a falar de continuidade, e se cortamos uma parte ficamos incompletos. No caso português, urge fazer as pazes com determinados aspectos do nosso passado. E se houve violência, a verdade é que também houve imensa coisa positiva. É isso que é importante realçar.
CL  Será que a violência de que fala tinha razão de ser? Justificava-se?
D.B. – A violência no tempo de Afonso de Albuquerque, já que serve de exemplo, era uma “violência necessária”, ou seja era a fruta da época. Todos os povos a praticavam. Impunha-se o poder através do medo. Como é que acha que os muçulmanos, no seu processo de islamização do continente asiático, tratavam os povos com quem se deparavam? Para lá desse lado tenebroso, não esqueçamos, houve actos de grande generosidade e até actos verdadeiramente revolucionários para a época. Por exemplo, nas regiões sob a jurisdição de Albuquerque os indianos estavam impedidos de praticar o sati – o sacrifício ritual das viúvas nas piras dos maridos defuntos – e aos infractores eram aplicadas penas duríssimas. Além disso, não esqueçamos que Albuquerque foi o grande promotor dos casamentos mistos. Não só entre portugueses desclassificados, ou seja, os degredados e bandidos, mas também entre os soldados comuns. O almirante oferecia terras e postos administrativos a quem casasse com as mulheres indígenas cristianizadas. Mas o mais admirável era a sua incorruptibilidade. Era um indivíduo de uma honestidade e de uma lealdade a toda a prova. Por isso foi posteriormente amarfanhado, aviltado, e, na hora da morte, viu-se substituído por aqueles que tinha mandado acorrentados, como ladrões, para o Reino e que depois D. Manuel – certamente influenciado por maus conselheiros, amigos desses corruptos – libertou, reconduzindo-os nos cargos anteriores ou premiando-os com outros postos de chefia. Mas disso não falam os detractores dos feitos dos portugueses; por desconhecimento, ou porque não lhe interessa, pois a «lenda negra» vende sempre mais. Se fossemos a comparar a violência daquela época com a da agora, então é que não há justificação alguma. Além disso, se compararmos o que os portugueses de mal fizeram pelo mundo, por exemplo, com o que de mal fizeram espanhóis, holandeses ou ingleses, parecemos uns anjos. Essa dor, essa animosidade, essa má vontade, está um bocado fora do contexto, não faz sentido. Assumir os erros e as virtudes, faz parte do reencontro de um povo com a sua história e a história dos demais.
CL – Qual foi para si o factor mais admirável nessa descoberta iniciada há 600 anos?
D.B. – Foram muitos; é difícil escolher. O contorno dos continentes foi em grande parte descoberto e desenhado pelos portugueses, que ali deixaram uma vasta toponímia. Grande parte das ilhas e lugares onde os portugueses aportaram foram na realidade descobertas, no sentido em que não havia lá ninguém. Era um descobrir para a Europa, como é óbvio. Mas há ainda muita gente que reage estupidamente quando se fala em Descobrimentos, maldosamente deturpando o sentido. Já no século XVI a presença das pessoas nesses locais “descobertos” não era escamoteada, como as crónicas coevas o confirmam. Os cronistas fazem essa própria crítica.
CL  Com é que surgiu essa sua paixão pelos romances históricos que valorizam os feitos dos portugueses de antanho?
D.B. – Respondo com uma pergunta. Será que é possível conhecer um pouco de História de Portugal e da Literatura Portuguesa sem ficar completamente apaixonado e maravilhado? Acho que não. Temos uma História e uma Literatura, em todos os períodos, verdadeiramente rica e fabulosa. Fui durante muitos anos professora de Literatura Portuguesa no Ensino Secundário e tínhamos um programa riquíssimo, que depressa viria a ser destruído, com a perda de todo o conteúdo e a triunfante entrada do facilitismo repugnante que ainda impera. Ou seja, enquanto era um programa a sério eu era obrigada a estudar História para poder leccionar literatura de viagens. A partir da Idade Média verificamos que temos autênticos génios em todos os géneros literários e em todos os tipos de literatura, além dos factos históricos em si. Comecei a fazer escrita criativa quando ainda não se falava de escrita criativa. Ensinei os meus alunos a escrever contos, apenas com o material dos programas obedecendo à veracidade dos factos, os que os obrigava a explorar todas as técnicas narrativas. Quando se optou pelo no facilitismo no Ensino, vim-me embora, e resolvi fazer aquilo que mais amava na vida, a escrita, a minha escrita. Optei pelo romance histórico, precisamente porque era considerado um género menor, quando é, na realidade, o género literário mais difícil de concretizar. Quando este é levado a sério.
CL  Como assim?
D.B. – Para escrever um romance histórico intelectualmente honesto é preciso estudar muitíssimo. Não se pode enganar o leitor. Romances históricos feitos em seis meses ou num ano, peço imensa desculpa mas considero-os uma fraude.
CL  Mas há muita gente a fazer isso…
D.B. – Sim, mas é outra coisa. Romance histórico não é, de certeza. Como dizia o Almeida Garret, vão buscar «uns figurões», uns nomes à História, pintam-nos, acachapam-nos – «grudam-nos», como ele diz, e bem, «no papel da moda» – e, pronto, está a coisa feita. Infelizmente isso acontece com a cumplicidade das editoras e eu lamento imenso que tal aconteça, porque depois quem faz romances a sério, com anos e anos de trabalho – nenhum livro dos meus tem menos de três ou quatro anos de trabalho – é metido no mesmo saco dos “escritores de romances históricos a metro”. Considero isso muito injusto.
CL  Quer falar-nos do seu próximo romance?
D.B. – A trama desse romance tem lugar no século XVII, no período da Restauração e pós-Restauração. Um período difícil que coincide com a decadência do Império Português. Nele aplico, tal como nos romances anteriores, a minha componente literária, neste caso o barroco, próprio do século XVII. É um romance a quatro vozes, todas elas distintas, com um linguajar muito próprio, representativo da mentalidade da época. São eles: Brás Garcia de Mascarenhas, autor da grande epopeia do século XVII, “O Viriato Trágico”, e um dos guerreiros da Restauração. Temos depois a poetisa Soror Violante do Céu, que dá a perspectiva das mulheres e dos freiráticos, que era uma das componentes do século XVII que não se pode deixar de fora. Temos ainda Francisco Manuel de Melo, outro ponto de vista, completamente guerreiro, embora além militar fosse também político e escritor. E termino com a voz do padre António Vieira, que dará a parte diplomática.
CL  Já tem título?
D.B. – Não. Essa questão fica habitualmente a cargo do editor. Digo que estou na parte final, mas a minha parte final é sempre muito comprida. Estou com quatrocentas e cinquenta páginas, mas isso ainda é dois terços do total. É impossível meter a nossa riquíssima História em poucas páginas.
Joaquim Magalhães de Castro


27/02/2016

Nova Edição de D. Sebastião e o Vidente

Já está nas livrarias a nova edição, revista, do meu romance D. Sebastião e o Vidente, com a chancela da Casa das Letras/Leya. Para festejar o seu 10º aniversário, pois foi em 2006 que a Porto Editora o escolheu para se lançar na ficção, apresentando-o com imensa pompa, brilho e circunstância no Mosteiro dos Jerónimos. Aqui vos deixo a minha Carta ao Leitor, que serve de introdução ao livro.

  “La pluma es lengua del alma: cuales fueren los conceptos

                              que en ella se engendraren, tales serán sus escritos”

(El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha
Miguel de Cervantes 1605)
Caríssimo leitor(a)

 «D. Sebastião e o Vidente» foi o meu primeiro romance histórico de longo fôlego, a obra que a Porto Editora escolheu, em 2006, para iniciar o seu projecto editorial de ficção. Constitui um marco no percurso da minha escrita, porque, embora já tivesse publicado sete romances juvenis e dois livros de contos, foi este livro, premiado e com várias edições esgotadas, que me tornou conhecida como romancista.  
“D. Sebastião e o Vidente” representou não um corte com a obra anterior, mas um ponto de viragem, uma mudança em termos de objectivos, de destinatários e de maturidade da escrita. Teve uma longa gestação (cerca de três anos) e um parto difícil, com muitas versões destruídas. Talvez porque, inconscientemente, a antiga professora de literatura que ainda me habita se insurgisse contra a liberdade da escritora e lutasse para impor a sua vontade, ansiosa por partilhar com os leitores esse tesouro extraordinário de personagens, sucessos e obras do Renascimento português, que lhe serviram de modelo.
Creio que o tema do sebastianismo me surgiu de uma visão pessimista de Portugal, do marasmo do nosso presente e da incerteza do nosso futuro colectivo. Acabávamos de entrar no terceiro milénio da nossa era, um tempo que se esperava de grande Descoberta, Progresso e Conhecimento, para maior felicidade do homem; contudo, no mundo, sopravam cada vez mais fortes os ventos do desencanto, da violência, da pobreza e da superstição. Portugal, avesso à mudança, continuava à espera de um D. Sebastião que o viesse salvar do pântano da mediocridade e imobilismo em que vegetava.
Neste contexto, assume primordial importância no romance um narrador que dialoga, num registo irónico e crítico, com o leitor/a, permitindo-lhe estabelecer uma relação de distanciação e/ou proximidade entre as duas épocas, cotejando o passado com o presente. «A Literatura e a História não dividem o seu património», afirma uma máxima chinesa, porque uma obra literária dá sempre testemunho de um determinado tempo, espaço e civilização. E esse conhecimento é, na minha concepção, a mais-valia do romance histórico.
Assim, o leitor é convidado a sair do seu tempo pessoal e a mergulhar num outro tempo, efabulado, porém, recriado a partir de uma rigorosa investigação de fontes documentais, que se reflecte na contextualização da acção, da linguagem, das mentalidades, dos lugares e dos costumes do século XVI.
De igual modo, as personagens históricas do rei D. Sebastião (o mais desejado e caluniado de Portugal) e de Miguel Leitão de Andrada (um fidalgote de Pedrógão Grande, com fama de vidente e autor da Miscelânea, uma das fontes do romance) são retratadas de forma realista, por vezes crua, mas humanizada, procurando fazer-lhes a justiça que lhes foi negada. Duas vidas entrelaçadas pelo Destino, desde o nascimento até ao desastre de Alcácer-Quibir, que reflectem o espírito da época, esse binómio do idealismo-materialismo, magistralmente encarnado em D. Quixote e Sancho Pança, de Miguel de Cervantes.
D. Sebastião é, apesar de todas as esperanças da nação, um órfão privado de afectos, criado e educado por velhos, como a avó sedenta de poder e o tio cardeal, ambicioso e fraco. Caprichoso e insolente, cresce atormentado pelos seus traumas e complexos de adolescente, sublimados nos sonhos de glória de mancebo visionário, senhor de um poder absoluto (alimentado pela corrupção dos cortesãos e dos políticos) que o arrasta ao desastre, profetizado pelas dolorosas visões de Miguel Leitão de Andrada.
E como todo o autor de romances históricos é por natureza um criador de mitos, ofereço aos meus leitores uma complexa intriga palaciana, feita de conspiração, mistério e revelação… que, dez anos depois da sua criação – uma década preenchida pela trilogia de romances de viagens e descobrimentos, «O Navegador da Passagem», «O Espião de D. João II» e «O Corsário dos Sete Mares: Fernão Mendes Pinto» –, surge em nova edição, revista e melhorada, com a chancela da Casa das Letras/Leya.
Se a leitura vos proporcionar algumas horas de prazer e contribuir para um melhor conhecimento deste período da nossa História, o romance terá cumprido a sua missão e a autora seguirá novo caminho, na senda da sua escrita.

Deana Barroqueiro



18/02/2016

Uma fotografia “assombrosa” e mais um português premiado no World Press Photo 2015



O maior concurso de fotojornalismo do mundo foi dominado pela crise dos refugiados. A imagem do ano encontra-os, de madrugada, na fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Mário Cruz, fotógrafo da Agência Lusa, ganhou um dos primeiros prémios.

É uma fotografia a preto e branco, cheia de grão e com pouco contraste. A falta de luz é testemunha da precaridade da situação – dois refugiados na fronteira entre a Sérvia e a Hungria fazem passar um bebé pelo buraco na vedação de arame farpado.

Warren Richardson, o fotógrafo australiano que com esta imagem acaba de receber o prémio principal do World Press Photo 2015, acompanhava há horas um grupo de 200 pessoas que tentavam atravessar a fronteira e que tinham passado toda a noite a fugir da polícia. Não podia usar flash porque se o fizesse denunciaria os refugiados. Eram três da manhã e só a lua lhes permitia ver onde punham os pés. Richardson tinha passado os últimos dias acampado ali, entre os refugiados.
“Eles mandaram as mulheres e as crianças primeiro, depois os homens com filhos e os mais velhos. Devo ter estado com este grupo umas cinco horas. Passámos a noite toda a brincar ao gato e ao rato com a polícia”, disse Richardson, um freelancer que tem a Hungria por base, quando explicou em que circunstância fez aquela que é agora a Fotografia do Ano 2015, segundo o júri do mais importante concurso de fotojornalismo do mundo. “Estava exausto quando tirei a fotografia”, recorda o australiano, citado no comunicado que anuncia os premiados.

Na longa lista dos prémios deste ano, distribuídos por oito categorias, volta a haver um português. Mário Cruz, da agência Lusa, fotografou os talibés no Senegal e na Guiné-Bissau, rapazes entre os cinco e os 15 anos que vivem em escolas islâmicas e que, a pretexto de receberem uma educação corânica, são obrigados a mendigar pelas ruas, entregando os seus ganhos diários – dinheiro, arroz, açúcar  aos professores, que muitas vezes lhes batem e os violam. Alguns são confiados a estes falsos mestres pelos pais, sem meios para lhes garantirem outro tipo de educação, muitos são raptados.
"Talibes, Modern-day Slaves" MÁRIO CRUZ
As fotografias que valeram a Mário Cruz, de 28 anos, o primeiro prémio na categoria de Temas Contemporâneos, um ensaio sobre uma forma de escravatura contemporânea a que deu o nome deTalibés, Modern-day Slaves, acabam de ser publicadas pela revista norte-americana Newsweek, são a preto e branco e mostram, por exemplo, crianças a dormir sobre um chão de cimento numa escola islâmica em Saint Louis, no Senegal, onde vivem mais de 30 “discípulos”. Noutra vê-se um adolescente de 15 anos, Abdoulaye, num quarto com uma grade que o impede de fugir ao seu marabu (professor).
Fugir foi precisamente o que fizeram os meninos que o fotógrafo encontrou na margem de um rio, também em Saint Louis, numa zona conhecida como a cidade dos talibés, dado o elevado número de rapazes que trocam os abusos de que são alvo nas escolas islâmicas pelas ruas, vivendo também na miséria mas em liberdade. A imagem captada por Mário Cruz parece transformá-los em espectros, como se os seus corpos não tivessem peso e não pudessem ser tocados, como se estivessem junto à água, à espera que algo aconteça.

Outra das fotografias desta série viaja até Bafatá, na Guiné-Bissau. Foi tirada num centro de acolhimento para rapazes que escaparam aos seus marabus ou que lhes foram retirados pelos tribunais, nos raros casos em que estes professores são julgados. Só em 2014 este centro recebeu 45 talibés fugidos da escravatura. No texto publicado no site da revista norte-americana, Mário Cruz acrescenta que, segundo dados recentes da ONG Human Rights Watch, mais de 30 mil rapazes são forçados a mendigar só na região de Dacar. São na maioria senegaleses mas, em virtude do crescente tráfico de pessoas, o número de meninos de países vizinhos como a Guiné-Bissau tem vindo a aumentar.

Cruz, que já viu o seu trabalho elogiado pelo New York Times  o prestigiado diário americano chegou a publicar na sua edição impressa internacional algumas das fotografias de Roof, série em que acompanha pessoas que, por vários motivos, vivem hoje em edifícios abandonados de Lisboa , já recebeu também o maior prémio de fotojornalismo português, o Estação Imagem, em 2014, com a reportagem Cegueira RecenteO repórter da Lusa junta-se, agora, aos outros quatro portugueses que também já foram distinguidos pelo World Press Photo: Eduardo Gageiro (retrato do general Spínola, 1974), Carlos Guarita (indústria de armamento, 1994), Miguel Barreira (bodyborder nas ondas da Nazaré, 2007) e Daniel Rodrigues (rapazes a jogarem à bola na Guiné-Bissau, 2013). 

20/01/2016

Aniversário d'El-Rei D. Sebastião

Hoje, 20 de Janeiro, faz 562 anos que nasceu el-Rei D. Sebastião (1554-1578), na cidade de Lisboa. Este ano comemoro também o 10º aniversário da publicação do meu primeiro romance histórico de longo fôlego, precisamente, D. Sebastião e o Vidente. Em Março sairá uma nova edição, revista e melhorada, com a chancela da Casa das Letras/Leya.
Deixo-vos aqui a minha Carta ao Leitor(a), que, como sempre, me permite manter com quem me lê uma conversa de amigos.







19/01/2016

Try Art – Viagens com História e Artes é o novo conceito da Tryvel

É com imenso prazer e grande expectativa que vou participar neste fantástico projecto!

David Coelho, o criador  da Tryvel

A agência de viagens Tryvel, com escritórios em Lisboa e no Porto, acaba de apresentar o seu novo projecto, a Try Art dedicada a viagens culturais temáticas, sejam ao nível da História, sejam relacionadas com as mais diversas artes.
Este projecto destina-se a itinerários mais culturais, mas com carácter científico e todos os itinerários serão acompanhados por um especialista de uma determinada área, e a viagem será sobre a temática que esse especialista desenvolverá. Estão a trabalhar neste novo projecto da Tryvel vários escritores, historiadores de arte, especialistas em música, jornalistas, arqueólogos, antropólogos e cineastas. A ideia é, pegando nos destinos, apesar de conhecidos, mostrar-lhes numa perspectiva diferente, diversificando o foco de interesse e procurando novas áreas de conhecimento.

O catálogo vai estar disponível já no início do mês de Fevereiro. Do conjunto de viagens programadas ao longo do ano de 2016, destacam-se em Junho, “Os Caminhos de Santiago”, com o historiador Joel Cleto, “A Viagem à Rússia do Dr. Anastácio Gonçalves”, com a historiadora de arte Ana Mântua, ou os “BBC Prons – Londres Musical”, com André Cunha Leal, em Agosto.
“O Egipto na Europa” – França e Itália, com o egiptólogo Luís Manuel de Araújo, em Agosto, “As Flores de Lótus” – Japão, com o jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos, em Setembro, “Algarve D’Além Mar” – Marrocos, com o professor catedrático João Paulo Oliveira e Costa, em Abril, “Terra dos Deuses, Pátria dos Heróis” – Grécia, em Setembro, com o arqueólogo Álvaro Figueiredo, “Missões Jesuitas” – Brasil, Paraguai e Argentina, em Setembro, com o Padre João Vila-Chã, também em Setembro, e “Corsário dos 7 Mares” – Malásia, Indonésia e Timor, com a escritora e romancista histórica, Deana Barroqueiro, em Outubro, são apenas algumas da vasta proposta da Tryvel.

De acordo com o director da Tryvel, que apresentou este novo conceito aos seus clientes, durante uma viagem que os levou à cidade do Porto, “Learn, Explore and Try” é “o nosso desafio para quem procura conciliar o prazer de viajar com enriquecimento cultural pessoal”.

05/01/2016

O estranho caso do sumiço dos livreiros

Hong Kong 

As autoridades da vizinha Região Administrativa Especial querem saber se algum dos cinco livreiros desaparecidos foi detido pelas autoridades do Continente. O caso continua a incendiar os ânimos na antiga colónia britânica.
O secretário para a Segurança em exercício da vizinha Região Administrativa Especial de Hong Kong, Jonh Lee Ka-chiu, garante que as forças de segurança da antiga colónia britânica está a conduzir uma investigação “aprofundada e profissional”, com o objectivo de esclarecer o desaparecimento de Lee Bo, o responsável pela livraria de Hong Kong cujo paradeiro é desconhecido desde meados da semana passada.
A polícia da RAEHK visualizou as imagens das câmaras de vigilância instaladas na zona da livraria onde Lee foi visto pelo última vez. As autoridades da antiga colónia britânica interrogou ainda as últimas pessoas com as quais o livreiro contactou: “Através de um mecanismo estabelecido, a polícia de Hong Kong pode apresentar questões às agências de aplicação da lei do interior da China sobre se houve pessoas de Hong Kong que foram detidas” , afirmou o mesmo responsável. John Lee Ka-chiu garantiu ainda que as forças de segurança de Hong Kong já conduziram tais averiguações junto das autoridades do Continente: “A polícia de Hong Kong já fez isto (…) Estamos à espera de uma resposta”, garantiu o dirigente.
O desaparecimento de Lee Bo e de outros quatro livreiros associados à publicação de obras críticas do Partido Comunista tem desencadeado uma onda de revolta e preocupação face à suspeita de que foram ilegalmente detidos pelas autoridades da China.
Aproximadamente meia centena de pessoas, incluindo figuras públicas como deputados, manifestaram-se no domingo junto ao Gabinete de Ligação da República Popular da China em Hong Kong para exigir respostas sobre o paradeiro dos desaparecidos e pediram que os desaparecimentos sejam investigados.
O mais recente caso envolve Lee Bo, um dos responsáveis da livraria Causeway Books. No estabelecimento podem encontrar-se obras críticas do regime e do Partido Comunista chinês e, portanto, popular entre muitos turistas provenientes do interior da China, dado que lhes veem vedado o acesso a este tipo de leituras.
Lee Bo, de 65 anos, foi visto pela última vez na quarta-feira, dia 30 de Dezembro, no armazém da Mighty Current, a casa editora proprietária da livraria. O desaparecimento de Lee decorreu semanas depois de quatro dos seus associados terem desaparecido em circunstâncias idênticas.
Gui Minhai – que tem passaporte sueco e é dono da casa editora – desapareceu enquanto estava de férias na Tailândia em meados de Outubro. O mesmo aconteceu a três outros funcionários associados à livraria ou à editora :Lam Wing-kei, Lui Bo e Cheung Jiping.
A mulher de Lee Bo afirmou que o marido lhe telefonou a partir da cidade vizinha de Shenzhen na noite em que desapareceu, tendo-lhe dito que “estava a colaborar com a investigação” relativa aos colegas desaparecidos, e achou estranho que tenha falado em mandarim em vez de cantonês.
Os misteriosos desaparecimentos despertaram em Hong Kong o receio de que as autoridades do Continente tenham recorrido a agentes clandestinos e a métodos ilícitos para operar a detenção dos livreiros, o que constituiria uma grave violação do princípio “Um país, dois sistema”.
A ativista Agnes Chow, de 19 anos, do movimento estudantil ‘Scholarism’ – um dos grupos que participou nos protestos pró-democracia que tomaram as ruas de Hong Kong em Novembro de 2014 – publicou um vídeo apelando a uma maior cobertura por parte do caso dos cinco livreiros desaparecidos dos ‘media’ internacionais que se tornou viral.
A livraria Causeway Books, entretanto de portas fechadas, vende obras muito críticas do regime comunista, proibidas no interior da China.

Ponto Final | 5 de Janeiro de 2016 às 9:43 am | Categorias:

23/12/2015

Artigo do JL: Afonso de Albuquerque - Da realidade à ficção

Saiu hoje, 23 de Dezembro, no JL, o meu artigo sobre a palestra que fiz na Biblioteca Nacional, durante o Colóquio sobre Afonso de Albuquerque. Só lamento que o JL siga o odioso Acordo Ortográfico e me tenham "corrigido" o texto com erros. Caso queiram (e tenham paciência) para ler o texto e não consigam na imagem, deixo-vos aqui a minha versão, anterior ao AO:
«Afonso de Albuquerque - Da realidade à Ficção

Em 16 e 17 de Dezembro, o MIL–Movimento Internacional Lusófono comemorou com a Biblioteca Nacional de Portugal, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, o 500º aniversário da morte de Afonso de Albuquerque (Goa16/12/1515) com o colóquio Afonso de Albuquerque, 500 anos depois: Memória e Materialidade, em que reputados historiadores e especialistas analisaram várias facetas do César do Oriente. Eu fui excepção, convidada por ser escritora com dez romances históricos sobre os Descobrimentos.
Escolhi falar de «Afonso de Albuquerque, da realidade à ficção – A matéria de que são feitos os mitos», a partir da sua presença nas minhas obras como personagem literária ou mito.

Os mitos etno-religiosos primitivos eram o modo como o pensamento inconsciente dos povos representou a natureza e o mundo que os maravilhava e atemorizava, não eram uma mistificação deliberada, um engano conscientemente criado com a intenção de manipular e atingir determinados fins, como veio a acontecer nas civilizações modernas. Sempre que há uma crise de identidade ou se pretende despertar o nacionalismo de um povo, os governantes criam mitos político-heróicos destinados a glorificar uma personalidade ou um grupo, como aconteceu no Estado Novo, com a mitificação dos Descobrimentos e de figuras como Afonso de Albuquerque ou Viriato e os Lusitanos, para servirem de exemplo e inspiração aos soldados que combatiam nas colónias. Instrumentos da ideologia de um falso grande Império Ultramarino Português, tais mitos foram usados até à exaustão por Salazar.

Essa mistificação provocou, após o 25 de Abril, a uma rejeição quase visceral dos Descobrimentos, sendo, até há bem pouco tempo, considerado politicamente incorrecto falar ou escrever sobre este período que é dos mais fascinantes e fecundos da nossa História, a todos os níveis: científico, literário, cultural, artístico, transformador da mentalidade e do saber europeus, dando origem à 1ª globalização da Idade Moderna. Um tabu absurdo, pois um povo não pode nem deve apagar o seu passado, embora desagradável, porque essa irradicação terá graves repercussões no seu presente e também no seu futuro, em termos de identidade e de maturidade, porque só conhecendo e compreendendo os erros evitamos repeti-los.
Para contrariar esta corrente, dediquei-me a recriar a saga da Expansão Portuguesa, cujos actantes se enquadram no cânone dos heróis épicos, reclamando para mim o papel de criadora de mitos literários, porque a literatura sem mitos seria uma arte muito árida, um corpo sem alma.

Mas será aceitável a um romancista efabular sobre um ser real, como Albuquerque e fazer dele um mito literário ou deverá cingir-se às regras da biografia histórica?
Usei de ambos os processos na construção das personagens do mundo virtual da minha escrita, segundo a minha concepção de romance histórico, muito próxima das fontes e de acordo com as características individuais do ser real cuja vida me propus recriar.
Concepção que nada tem a ver com a publicação desenfreada de ficção de baixíssima qualidade com rótulo de romance histórico, cujos autores pecam por um desconhecimento total de História, cometendo imperdoáveis incongruências, anacronismos e erros de palmatória, que prejudicam e aviltam um dos géneros mais nobres e exigentes da literatura.

Embora o romancista não deva estar sujeito ao colete-de-forças de fidelidade às fontes e aos documentos, próprio de quem está a escrever uma tese em História, tem o dever de ser fiel ao período ou época que trata, de usar do maior rigor na contextualização da vida e mentalidade das personagens, da linguagem às acções, nas descrições dos ambientes, lugares, usos, trajos, comidas, profissões ou divertimentos. E, sobretudo, não pode deturpar os factos nem cometer erros fora do tempo e dos costumes, porque se o fizer está a enganar, a trair um leitor que quer conhecer um assunto, mas não tem apetência por ler um tratado de História.
Literatura e História são indissociáveis, sendo o romance histórico, quando feito com seriedade e honestidade intelectual, o mais difícil e trabalhoso de todos os géneros literários, tanto mais que, além de divertir o leitor com uma intriga, deve aportar-lhe uma mais-valia em conhecimento sobre os sucessos de uma dada época.

Afonso de Albuquerque, logo após a sua morte, assume um estatuto de herói mítico, quer nos «Comentários de Afonso de Albuquerque», publicados pelo filho Brás, quer nas «Lendas da Índia», do seu escrivão Gaspar Correia, quer nas crónicas oficiais, ao ser glorificado como o Grande Cruzado (que queria arrasar Meca e roubar o corpo de Maomé), o Capitão-mor que pretendeu fechar os mares, o “Terríbil” Governador e Vice-Rei, que cometeu façanhas guerreiras à altura de um Agamemnon ou de um Alexandre, mas também mostrou traços de um ser humano de excepção, como raramente se encontra entre os detentores do poder.

A par da ferocidade com que flagelou os mouros, muitas vezes como represália, nele se reconhece o sentido de justiça com que julgou grandes e pequenos por igual; o governante de visão que promoveu os casamentos mistos, dotou as noivas gentias com dinheiro e terras e proibiu o sati, com castigos às famílias que fizessem morrer as viúvas na pira funerária dos maridos; de uma honradez e lealdade inquebrantáveis que lhe trouxeram o ódio dos corruptos, lhe ganharam a admiração de reis e povos, tanto inimigos como aliados, e deram causa a que morresse na pobreza, apesar dos anos passados na Índia e do seu estatuto de Vice-Rei; a sua revolta contra a inveja e as intrigas dos seus pares; o desânimo e frustração pelas contínuas desobediências e traições dos oficiais sob o seu comando que o impediram de conquistar Adem e completar o seu desígnio; o desgosto e a humilhação, sofridos à hora da morte, por, em vez de ser recompensado pelo rei a quem sempre servira fielmente, se ver caído em desgraça, substituído por medíocres corruptos que ele enviara ao reino sob prisão; o reconhecimento póstumo, no pranto e nas honras que lhe fizeram os gentios de Goa após a sua morte.
Igualmente ou todavia mais apaixonante, para um romancista, é o mistério da sua vida familiar e afectiva de que muito pouco se conhece, do filho Brás que teve fora do casamento e legitimou fazendo-o seu herdeiro.

O meu plano de recriação da saga dos Descobrimentos concretizou-se numa trilogia de romances: «O Navegador da Passagem – Bartolomeu Dias», navegações pela costa ocidental de África e Brasil; «O Espião de D. João II –Pêro da Covilhã», viagens pela Arábia, Índia, África Oriental e Preste João; e «O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto», com as suas peregrinações pelo Oriente longínquo. Personagens excepcionais, porém das mais injustiçadas pelos seus compatriotas ou mais esquecidas pela História, que me permitiram dar voz ao marinheiro e aventureiro sem nome capaz de chegar primeiro aonde mais ninguém ousara e de fazer o que antes mais ninguém fizera.

No 3º volume da saga, pude inserir uma micro-narrativa de Afonso de Albuquerque, feita em várias analepses, por diferentes personagens que se cruzam com o andarilho Fernão Mendes Pinto.
No reino do Preste João. Afonso de Albuquerque é evocado pelo feitor Henrique Barbosa, que está a proteger a rainha etíope com um troço de quarenta portugueses. Fala da embaixada de Mateus a Portugal, em 1514, da qual a velha rainha Eleni encarregou Albuquerque que estava na Índia e dos trabalhos por que o Terríbil passou com Lopo Soares de Albergaria, seu inimigo, que o ia substituir, não por merecimento mas por influências.
Durante uma navegação da Arábia ao Malabar, um antigo soldado conta os confrontos de Albuquerque com D. Francisco de Almeida e posteriormente com o “bando de Cochim”, comandado por António Real, o capitão da fortaleza, que não queria ver Cochim substituída por Goa, como capital dos territórios portugueses na Índia. Nos capítulos de Goa, narra-se a conquista da ilha e da protecção que aquele guerreiro tão duro dava às mulheres, libertando as escravas que se faziam cristãs, promovendo os casamentos mistos e distribuindo os melhores cargos e postos da administração aos homens honrados que com elas casassem.

A própria estrutura do romance ajuda à compreensão da personagem, porque cada capítulo começa por um provérbio, seguido de um documento, português ou de qualquer outra nação que tenha a ver com o assunto tratado, sendo usadas cartas de Albuquerque e de António Real a D. Manuel, expondo-lhe a situação, com cuja leitura se pode verificar a inteireza moral do primeiro face à baixeza de vil caluniador do segundo. Ou ainda a sua comovente carta ao rei, ditada à hora da morte.
Ao logo de muitos capítulos o nome de Albuquerque torna-se recorrente, sendo por exemplo recordadas as primeiras embaixadas que ele enviou ao Sião e à China logo após a conquista de Malaca e as várias viagens que ele organizou às ilhas das Especiarias, Banda e Moluco, assim como o naufrágio da Flor de La Mar, à saída de Malaca, em 1511, evocado por Pinto.

A micro-narrativa de Afonso de Albuquerque termina quando, num dos seus aparatosos naufrágios, Fernão Mendes Pinto é feito prisioneiro e condenado a trabalhos forçados na Grande Muralha da China. Em Quansy encontra Vasco Calvo, um português prisioneiro a viver ali há mais de vinte anos, com a sua esposa chinesa e os filhos, que lhe relata a conquista de Goa e Malaca, em que participou juntamente com Fernão de Magalhães e Francisco Serrão.

Sou uma autora que vos confessa ter embarcado também nessa tendência, embora sem intenção mistificadora, para a mitificação dos vultos que admiro, sobretudo quando os comparo com as figuras ditas famosas, da actualidade, que de tão medíocres, poucas ou nenhumas conseguem sequer chegar à altura dos seus coturnos, como diriam as minhas personagens quinhentistas.»

Deana Barroqueiro
(Não escrevo segundo o AO)