10/10/2015

Isto é o que vale Alexandre Quintanilha

Que José Rodrigues dos Santos me desculpe, mas comparado com este Senhor, não passa de uma "cigarrazinha cantante". Uma entrevista longa, mas que vale a pena ler até ao fim, como um romance.

 Alexandre Quintanilha: "A minha droga mais potente é o vinho do Porto" 

Alexandre Quintanilha: "A minha droga mais potente é o vinho do Porto"
 por João Céu e Silva, 09 agosto 2015
Fotografia © Orlando Almeida / Global Imagens
As últimas notícias sobre o físico e biólogo tinham sido sobre a sua última aula, que iria ser dada a 3 de julho. Pediu-se-lhe uma entrevista, pois não era uma data qualquer nem se podia deixar o professor fora de uma série de entrevistas como estas.

Combinada a conversa, eis quando as últimas, mesmo as últimas notícias, davam o docente universitário como cabeça de lista do Partido Socialista no Porto... Surpresa total, mesmo que já tivesse tido atividade política anterior. Estava alterado o rumo da conversa, pois não seria apenas sobre moléculas, planetas, experiências científicas, mas também sobre a responsabilidade da vida pública.
Alexandre Quintanilha tem uma qualidade enquanto entrevistado, a de falar serenamente e explicar-se de forma clara sem precisar de gastar muitas palavras. Mesmo que aprecie alongar-se nos vários temas sobre a mesa por verdadeiro prazer em desenvolver as ideias. Como já tinha avisado que tinha um comboio para apanhar e não queria falhar a viagem de regresso ao Porto, cada vez que se distraía no fluxo das palavras havia uma justificação para o interromper. Afinal, terminada a entrevista, ainda se estava a arrumar o equipamento fotográfico, já o táxi estacionava para recolher o passageiro.
Alexandre Tiedtke Quintanilha nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo) num agosto de há 70 anos. Licenciou-se em Física Teórica em 1968 na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo) e doutorou-se em Física do Estado Sólido em 1972 na mesma universidade. Exerceu a docência na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde foi diretor do Centro de Estudos Ambientais. Teve vários cargos até regressar ao Porto, onde dirigiu o Centro de Citologia Experimental, e foi professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. É casado com o escritor Richard Zimler.

Nos tempos em que a clonagem era um tema quente, anos 2000, afirmou que não queria ser clonado. Já mudou de ideias entretanto?
Não. Não mudei de ideias... [pausa] Vamos lá ver [outra pausa]... Não é o desejo de não querer ser clonado porque se o for sem saber não me preocupo. Imagine-se que ficam com células minhas que possam dar origem a um novo ser, isso não me deixaria melindrado.

Mas conscientemente não?
Não tenho interesse nenhum em vir a ser clonado porque a ideia que está por trás do clonado é a de uma vida eterna - clona-se um, depois clona-se outro. O problema é que ninguém sabe se isso é verdade porque há muitas dúvidas ainda sobre o clone. Portanto, não tenho minimamente esse desejo. Até nem tenho vontade de viver mais do que 80 ou 90 anos. Não me interessa.

Confesso que pensei na pergunta quando desconhecia que se ia clonar uma personagem política...
Ah! [risos]

O Quintanilha que vai para a política também não é um clone?
Não, sou eu. E para mim é uma situação nova. Tive uma pequenina experiência enquanto vereador na Câmara do Porto, que não foi uma experiência entusiasmante.

Renunciou rapidamente, não foi?
Logo a seguir porque vi que não estava a fazer grande coisa na câmara. Havia uma maioria absoluta que tomava as decisões todas e nós podíamos pronunciar-nos mas sem impacto no processo. Nem tinha nada para desenvolver que fosse da minha responsabilidade, o que até achei estranho pois podiam ter-me pedido que ficasse à frente de uma área do conhecimento. Não pediram... Acho que os jogos políticos são assim - e saí.

E desta vez aceitou por que razão?
Acho que fui convencido com muitas coisas que se juntaram. Acabei de dar a minha última aula de jubilação e sentia-me muito livre para poder fazer tudo aquilo que gostaria. Só que no dia a seguir o António Costa veio ao Porto, falou comigo e disse-me que tinha percebido que eu estava com uma enorme disponibilidade, desafiando-me para encabeçar a lista do partido no Porto. Reagi da forma normal: "Não tenho experiência política nem sei se era isso de que estava à espera para fazer. Portanto, vou ter de pensar."

Foi realmente inesperado, porque até referiu que poderia ir fazer um curso de Arquitetura...
Era uma possibilidade, mais do que um curso era assistir a algumas aulas e aprender qualquer coisa.

Mas António Costa convenceu-o?
Convenceu-me por uma coisa muito simples. Ele disse que o povo tem uma confiança cada vez menor nos políticos e uma pessoa que não tem o rótulo político, com trabalho feito e que demonstrou estar preocupada com questões sociais e humanas, podia ser uma forma de rejuvenescer. Achei a explicação muito inteligente e concordo.

Não é uma missão complexa?
É muito complexa e até acho que o ano a seguir às eleições vai ser muito complicado.

Começa por ficar sem férias...
Em parte. Só vou começar a fazer alguma coisa a sério em setembro. Neste mês não sei se vai acontecer muita coisa, depois já percebi que vai ser muito envolvente.

Tem criticado muito a situação!
Tenho sido bastante vocal nos últimos tempos em relação ao meu descontentamento com a falta de liderança que existe na área do conhecimento. Fui dos primeiros a contestar muitas das decisões e a alertar para os perigos à nossa frente, daí que numa altura em que me é dada uma oportunidade de poder fazer a mesma coisa num sítio onde o impacto pode ser maior passa a ser uma obrigação. Não se pode andar apenas a criticar.

Irá para um hemiciclo que o povo considera muito fraco. Concorda?
Temos de começar em algum sítio, e talvez a introdução de algumas pessoas possa ajudar. Também ninguém sabe se haverá maioria absoluta ou como é que as forças políticas se vão entender. Sou uma pessoa que acha que não é só em Portugal que há problemas sérios de confiança em relação à política e aos desenvolvimentos políticos que estão a acontecer. As pessoas estão a desinteressar-se cada vez mais, por isso é necessário mudar.

E considera-se um dos que podem ajudar a alterar a descrença?
Não sei se vou ser capaz, porque sou virgem nesta área. A política é uma coisa complexa e tem uma história que não conheço. Também sei que nas universidades existe muita política interna e muita gente a pregar rasteiras ou a dizer aquilo que não pensa.

No entanto, a tragédia portuguesa não está próxima da grega?
Não. Um continente que se descreve como herdeiro de conceções cristãs e está a humilhar a Grécia desta forma escandalosa é coisa que não consigo perceber. Eles fizeram muitos erros, podem não ser de confiança... É estranho que as nações humilhadas sejam aquelas que humilham ainda mais as outras em vez de aprenderem com o desastre. Parece mais um revanchismo.

É o que se passa com a Alemanha?
Tenho a sensação de que a Alemanha, que passou por momentos muito difíceis como o da reunificação, deveria ter mais sensibilidade para o que é humilhar e espezinhar.

Falando de humilhação. A sua opinião é a de que os portugueses também o foram nos últimos quatro anos de forma muito violenta?
Foram. Foram.

Mesmo assim não teme a reeleição desta coligação?
Não sei. Tenho muito pouco jeito para profeta.

Ponderou a hipótese da coligação?
Não pensei muito nisso. Aquilo sobre o que tenho pensado muito é que há momentos na nossa vida em que somos sujeitos a uma enorme austeridade. Quando fui para os Estados Unidos não tinha salário nos primeiros seis meses, vivia dos três mil dólares que levara. E passei por momentos muito complicados. Por isso, a austeridade pode incomodar menos a maior parte das pessoas se for para todos e não como o que está a acontecer no mundo, e mais recentemente em Portugal, em que 0,1% da população está a ficar cada vez mais rica enquanto 99,9% das pessoas estão sob austeridade.

Há pouco disse era um virgem nestas coisas da política...
Sou um pouco.

Vai tentar perder a virgindade política antes das eleições?
Há uma área em que ainda sou virgem, a das drogas. Nunca fumei nada nem tomei nada. A minha droga mais potente é o vinho do Porto. Quanto à política, eu vou aperceber-me do que me espera e as pessoas também não me veem a obedecer às ordens do Partido Socialista - como já se escreveu, aliás.

Até onde conseguirá ir?
Existem determinadas questões em relação às quais tenho princípios éticos que não me permitem ultrapassar a barreira. Sinto que vai haver da parte de todos uma necessidade de discutir os assuntos até ao ponto em relação ao qual eu não conseguirei abdicar. E não abdicarei, é muito simples.

Os partidos não gostam disso.
Se o partido achar que isso não é aceitável, vou-me embora. Sei que há muitas áreas na política, como em todas as coisas, em que tem de haver compromissos. Não sou aquele que tem a verdade toda na cabeça. Tenho imenso medo das pessoas que acham que sabem tudo, aliás tenho muito mais dúvidas do que certezas. Portanto, mesmo na política, vai ser a mesma coisa. Vou ter de balançar as variáveis e as incógnitas porque isto é o que faz um cientista.

Politicamente não irá viver acima das suas possibilidades!
Creio que não. Acho que não só não sei viver acima das possibilidades como pretendo adotar uma atitude inicial de precaução. Vou tentar perceber o que é que se está a passar e aprender muito.

Então, sempre vai fazer um curso de Arquitetura, só que de arquitetura política?
Sim, é isso mesmo.

Sexualmente tem um posicionamento muito conhecido. Acha que os eleitores do Porto vão aceitar isso no seu cabeça de lista?
Como já disse, tenho muita dificuldade em ser profeta. Creio que pela forma como vivi estes vinte e tal anos em que estou no Porto transmiti uma noção do que sou. Acho que deixei as pessoas conhecerem quem sou. Não há nada que esteja escondido, não tenho esqueletos no armário, e digo sempre aquilo que penso. E há uma outra coisa muito importante: não devo nada a ninguém nem quero trepar pelo sistema político. São duas condições que devem apaziguar os que estão à minha volta. Não é isto que vai finalmente dar ao Alexandre Quintanilha aquilo que ele queria. Não andei à procura disto, aceitei porque é um dever cívico.

Logo após as eleições legislativas vêm as presidenciais. Já formou opinião sobre o candidato?
Não, não formei.

Não tem um candidato, nem o professor Sampaio da Nóvoa?
Eu ouvi um discurso do Sampaio da Nóvoa no Porto e gostei do que ouvi. Mas não tenho opinião formada, até porque não sei quem são os outros candidatos.

Percebeu o discurso dele?
O Sampaio da Nóvoa é uma pessoa da universidade e percebo melhor a sua linguagem. Ou seja, também aí preciso de uma aprendizagem política para compreender o que está nas entrelinhas.

No caso do desinvestimento na ciência não pode alegar desconhecimento. O que vai fazer?
Penso que na área do conhecimento em geral, não é só na ciência, havia quando cheguei a Portugal uma fase de enorme esperança e entusiasmo, principalmente devido à atuação do José Mariano [Gago]. Mas não só, houve outras pessoas que o ajudaram, e o que estava a acontecer tinha uma trajetória em que se transmitia aos portugueses que o conhecimento não só não era um luxo como estava na base da cidadania. Para sabermos quem é que queremos ser e em que sociedade queremos viver precisamos de conhecimento, não é só em engenharia, saúde, física ou química... Não. Provavelmente temos um número muito pequeno de livros, filmes e experiências que nos mudaram a forma de olhar para o mundo e para nós próprios. Aquilo que o Zé Mariano fez foi encorajar todas as áreas do conhecimento para que crescessem e teve outra decisão mais importante, que era a Ciência Viva, uma aposta para o futuro em miúdos de 4, 10 ou 15 anos, que começaram a chegar às universidades com essas experiências.

Com a diminuição do orçamento não é esforço deitado para o lixo?
A questão que se põe é a seguinte: numa área em que Portugal estava a ter sucesso e em que o investimento público para a ciência continuava a ser relativamente reduzido - nunca chegou a 1% -, tal como o investimento privado nunca ultrapassou 1%; que estava a funcionar muito bem e era reconhecido e invejado por muitos países, porquê fazer alterações drásticas?

Não se deveria ter interrompido esse investimento?
Percebo que os governos têm o direito de reorientar o investimento mas porquê numa das poucas áreas em que Portugal estava a ter um sucesso indiscutível? Creio que houve muito aquela discussão de que estávamos a fazer bastante ciência aplicada e pouca ciência fundamental. Isso é um mito, porque estas duas ciências não são diferentes. Se se estiver a fazer ciência aplicada muito boa, imediatamente precisaremos de ciência fundamental para dar as bases e vice-versa.

É uma questão de mentalidade?
É preciso não esquecer que estamos num país que teve 300 anos de Inquisição e 48 de ditadura. Que teve instabilidade política entre esses dois tempos. Fica difícil querer em 20 anos mudar a cultura portuguesa, tornar as pessoas curiosas e imaginativas quando durante esses séculos tudo o que era imaginativo e curiosidade foi coartado. Não se faz uma mudança destas numa geração. Não se faz! Podemos gostar de que os nossos filhos em vez de estudarem a espirogira estejam a fazer relógios no quintal. Isto leva tempo porque é uma alteração cultural, além de que deve ser implantada com insistência em vez de se impor. Dizer quais são as áreas em que se deve ser bom é um disparate total. Até porque não sei se nós somos bons em alguma coisa.

Não existe uma ilusão exagerada sobre o potencial nacional ao nível de cientistas?
Não. Poderá existir no sentido de que estamos convencidos de que o processo que estava a ser desenvolvido ia criar instituições robustas - porque nós temos muito poucas ainda -, ou uma atitude em relação ao conhecimento que seria de não só manter algumas pessoas nessas áreas mas atrair gente de fora.

Mesmo quando se vê tantos portugueses a partir?
Não vejo problema em que as pessoas se vão embora. Eu fui-me embora durante 30 anos da minha vida.

Não há fuga de cérebros, nem o conselho do primeiro-ministro teve qualquer efeito?
Não tenho medo algum da fuga de cérebros. Acho muito bem que vão para outros sítios - só lhes faz bem -, ver outras situações em vez de só comerem o caldinho de galinha de manhã e o bacalhau não sei de quê ao almoço. Devem perceber que há outras formas de estar no mundo e de viver. Isso é ótimo. O que lamento é que deixámos de transmitir a ideia de que existem estruturas robustas que podem atrair outras pessoas. Não nos iludamos se vier meia dúzia de pessoas para cá, porque aquela ideia de poder chegar gente muito capaz, que substitua os cérebros que estamos a perder, não existe.

É rara a semana em que não ouvimos uma notícia sobre um prémio ou um financiamento extraordinário concedidos a cientistas portugueses. O que se passa?
Exato. Não só temos pessoas muito boas como também apareceram instituições. E acho muito bem que sejam avaliadas. Mas muitas dessas instituições estão agora a sentir uma fragilidade enorme porque, primeiro, têm dificuldade em atrair pessoas de fora. Segundo, com isto não se quer dizer que não tenhamos gente também muito boa no país. O problema é que a ciência hoje em dia é universal e necessita de pessoas com ideias e imaginação diferentes, que venham misturar-se connosco. E não é só na ciência, é em tudo.

Como é que fica o orçamento?
Considero que para fazer o necessário não é preciso triplicar ou quadruplicar o investimento na ciência. A política em curso é uma política em que as pessoas decidem quais são as áreas em que querem apostar e eu acho que isso é adolescente. Por outro lado, também acho que esta noção de excelência tem o risco de acabarmos por ter na sociedade do conhecimento a mesma coisa que está a acontecer na sociedade em geral: temos 0,1% que tem tudo e 99,9% que tem cada vez menos para produzir. Essa é a receita para o desastre! E não estou a pensar que se tem de quadruplicar o financiamento, até porque não se reduziu assim tanto o financiamento para a ciência.

Como assim?
Nos primeiros três anos disseram que não tinham reduzido nada, que até aumentaram. Não era bem verdade, mesmo que agora no fim haja alguma diminuição. O que quer dizer que se voltássemos à curva em que estávamos, a par do continuar do investimento privado, poderíamos continuar numa trajetória menos acelerada que confirmava, para o mundo em geral, para os nossos jovens e para os de lá de fora, que Portugal continuava a apostar na ideia de que o conhecimento é essencial.

Nestes últimos meses, o ministro da Educação não tem tentado passar a ideia de que essa busca pelo conhecimento se mantém?
É óbvio que quando se aproximam as eleições há toda uma série de rebuçados que nos são oferecidos. Todos os partidos fazem isso. Quer dizer, quando tem de haver austeridade carregam muito nos primeiros dois ou três anos, às vezes até de mais, para no fim darem uns rebuçaditos. Porque a memória das pessoas é muito curta.

Acredita que continuamos a ter uma memória curta?
Os portugueses já se esqueceram... Dou um exemplo: o meu salário foi cortado em 30%. Eu nem me importaria que tivesse sido cortado em 30%, agora gostaria que esses 30% que foram cortados não acabassem no 0,1% que está rico. Gostava que fossem mais bem utilizados no processo.

Deu há pouco mais de um mês a sua última aula. Já sente saudades de preparar e dar aulas?
Eu não sou muito de saudades, nem nunca tive muitas saudades. Quer dizer, tenho saudades de pessoas mas não de sítios, porque acho que os lugares são para ser descobertos.

Pode dar um exemplo?
Não gosto, por exemplo, particularmente de Lisboa. Odeio o calor de lá e nem quero pensar que tenho de estar em Lisboa dias seguidos e que vou estar fechado em sítios onde haja ar condicionado. Talvez seja porque também não conheço bem a cidade, afinal todos os meus amigos estrangeiros acham Lisboa um sítio fabuloso. Eu gosto imenso de Nova Iorque, de São Francisco, de cidades, mas acho que todos os sítios têm encantos para serem descobertos. É como as pessoas.

Nem tem saudades de Moçambique?
Não. Não tenho saudades. Se me dissessem: "Agora vai viver para Maputo." Não tenho qualquer intenção de o fazer porque penso que voltar ao passado é coisa que não existe. É como as pessoas agora estarem a dizer - é muito usado em política - que se voltar o PS é voltar ao passado. E é impossível voltar ao passado, porque já passou muito tempo e há muitas coisas a acontecer.

Nem saudades dos últimos anos na universidade?
Aprendi muito e crescei bastante durante estes anos que estive em Portugal a ensinar. Tive experiências fabulosas. Por isso, a última mensagem que recebi dos meus alunos comoveu-me imenso. Eles deixaram ficar um bilhete em que diziam: "Obrigado professor por nos ensinar a distinguir o verdadeiro do óbvio." E não consigo pensar em frase mais profunda do que esta, porque o que queremos na nossa vida é saber distinguir o verdadeiro do óbvio. E que esta mensagem venha de miúdos de 18 anos ainda é mais extraordinário. Isto não é uma geração rasca! É uma geração extraordinariamente madura para a idade. Às vezes até tenho pena porque são maduros de mais.

Nega que a atual geração de estudantes seja uma geração rasca?
Nada! Quer dizer, há bons e maus como em todo o lado. Antigamente achava-se que quando os alunos vinham conversar com o professor era para dar graxa. Eu nunca senti isso, porque também gosto de manter uma certa distância. O facto de chegar ao fim e ter estas palavras escritas num bilhete até me fez chegar as lágrimas aos olhos e disse para mim o seguinte: "Como professor, não consigo pensar numa recompensa mais importante do que isto."

Participou numa conferência sobre os 40 anos do 25 de Abril e escolheu como tema a "Potenciação Cognitiva: Desafios Futuros". Não é uma abordagem estranha?
Ainda bem que se estranha. O que é a potenciação cognitiva? O melhor exemplo é o da educação. As pessoas passam 20 anos a estudar porque se acha que melhora a forma de pensar, mas agora existem novas tecnologias que podem ser usadas e que estão a ser testadas como terapia, por exemplo, no mal de Parkinson. Imagine-se que um dia é possível colocar um chip no cérebro e que através dele se tem a possibilidade de transmitir pensamentos sem usar telemóvel ou computador. Isto é melhoramento.

Essa intrusão no cérebro não é perigosa?
Perigosíssima, mas já estão a estudar isso. Tive um aluno no Porto, que esteve a trabalhar nos Estados Unidos, onde fizeram experiências com chips em ratos. E eles conseguem que a aprendizagem de um ratinho seja comunicada a outro através do chip. Tal como juntar vários ratos para resolverem problemas em conjunto através da comunicação de chips. Isto ainda é um mundo de ciência e ficção mas quando apareceu a anestesia também era considerada uma coisa muito perigosa.

Não representa um controlo cada vez mais total das pessoas?
Hoje em dia há muitas empresas que antes de contratarem os funcionários querem ver a imagem de ressonância magnética do cérebro. E há quem diga que o copiloto alemão da German Wings não teria despenhado o avião nos Alpes franceses se tivesse havido uma ressonância magnética. Não lhe teriam dado esse emprego. Todo o conhecimento tem possíveis vantagens ou desvantagens, depende da maneira como se usa.

O seu interesse pelo universo é conhecido. Como viu a recente passagem da primeira sonda humana por Plutão?
Acho fascinante que nos consigamos aproximar e tirar imagens. Lembro-me de o meu pai ir passear comigo para a praia, mostrar-me as constelações e dizer os seus nomes.

Uma vez fizeram-lhe uma pergunta e não respondeu. Tinha que ver com a coincidência de ter nascido no dia em que os americanos deitaram a bomba atómica sobre Nagasaki e se isso o marcara. Volto a fazer a pergunta.
Às vezes digo a brincar: "Eu nasci no dia em que explodiu a bomba atómica e, enquanto há príncipes e reis que nascem com tiros de canhão, eu nasci com a bomba atómica. Se isso teve alguma influência em mim? Duvido, foi mais o fim da Segunda Guerra Mundial que teve mais que ver com a minha juventude, porque alterou a forma de as pessoas estarem e influenciou a forma de os meus pais olharem para o mundo e para mim, a forma de pensarem que eu tinha o mundo aberto à minha frente e que não teria de andar a fugir como eles.

"Eu e o Richard decidimos: se a política começar a afetar a nossa relação, paro logo"
Se não houvesse esta "oportunidade política" não tencionava ir viver para outro país?
Não sei. Eu e o Richard [Zimler] falámos muitas vezes sobre isso. A intenção era viajar por uns meses. Nós gostamos imenso do deserto americano, das Montanhas Rochosas, e iríamos de certeza passar uma parte do ano lá. Alugávamos uma casinha muito baratinha no meio de nenhures e ficávamos lá uns meses. Também gostava de conhecer mais a Europa - não gostava de ir para muito longe. O Oriente não me interessa muito. Não tenho grande curiosidade pela China.

Ele não ficou aborrecido com esta decisão?
Ficámos ambos apreensivos. Porque esta nova situação é uma coisa que envolvia duas pessoas que têm 37 anos de vida em conjunto e que não permitem o que quer que seja que altere as suas vidas. A nossa decisão foi a de que se isto começar a afetar a nossa relação ou a minha saúde eu pararei instantaneamente. Aí não há qualquer discussão.

Isso é uma forma de estar que vem de família?
Nasci muito tarde. Os meus pais estiveram casados 15 anos antes de eu nascer porque estavam na guerra e a única coisa que desejaram para mim foi que fosse feliz.

Esse era um melhor posicionamento para com os filhos?
Toda a vida deles acharam que a única coisa que era importante era eu sentir-me realizado naquilo que estava a fazer. Isso era assim porque eram pais mais velhos e que já tinham vivido os desafios todos anteriormente. Houve uma sabedoria profunda que aprecio imenso, daí que não vá permitir o que quer que seja que interfira na minha vida de um modo indesejado. Não é uma forma de egoísmo, pois estou muito interessado nos problemas sociais e nas minhas preocupações em muitas áreas sociais fraturantes em Portugal. Mas essa necessidade de também comparticipar deve-se a sentir que recebi dos meus pais, da sociedade e dos meus amigos muitas coisas valiosas. Isto pode parece um bocadinho chacha mas não é.

Ainda sente curiosidade em estudar?
Tenho imensos livros que gostaria de ler. Principalmente na área do risco e perceber como é que entendemos o risco, como é que se o comunica e usa para tomar decisões. É uma área fascinante.

Tem que ver com as suas áreas de estudo?
Está entre as ciências sociais e as ciências humanas. Vejamos: para tomarmos uma decisão arriscada precisamos de três componentes: saber tudo sobre aquele assunto - e fica-se logo a perceber de imediato que há muita coisa que não sabe ou não se sabe; a segunda é perceber ou estar convencido de que se está a viver num mundo ou muito frágil ou muito robusto porque aí arrisca-se em função da própria capacidade; a terceira é a confiança. A confiança nas instituições que lhe dão a informação. Tem ou não confiança? E cada vez há menos confiança, como é o caso da discussão em torno das alterações climáticas.

É um descrente nestas ameaças ambientais?
Será que devemos acreditar no que andam a dizer sobre as alterações climáticas? Como é que se constroem os cenários na nossa cabeça para escolhermos a vida que queremos ter e a sociedade em que queremos viver. Essa equação fascina-me e acho que a Assembleia da República pode ser um laboratório interessantíssimo para estudar este assunto.

08/10/2015

AGENDA

Clube de Leitores da Bulhosa das Amoreiras

Dia 2o de Outubro, Terça-feira, às 18.30 horas, 



Estarei nesta livraria à conversa com os meus amigos leitores, sobre o romance O Espião de D. João II - Pêro da Covilhã, edição da Casa das Letras/Leya, e outras histórias.
Estar convosco, com pessoas que amam os livros e gostam de conversar sobre eles, é um dos maiores prazeres que a escrita me dáLá vos espero.

Moderação: Olga Marques

Livraria Bulhosa Amoreiras
Centro Comercial Amoreiras, Loja 1129
Entrada Livre

25/09/2015

No Rasto de Fernão Mendes Pinto - VII

Crónica Sétima: Uma escola num povoado de Myanmar

 Perdido o rasto de Fernão Mendes Pinto e dos portugueses aqui chegados no seu tempo e mesmo dos que vieram depois, como Sebastião Manrique, esmagados pela chuva torrencial da monção, alguns da desbaratada embaixada foram refugiar-se no alpendre de uma escola que mais parecia um armazém de mercadorias, mas de onde saía um coro de vozes de anjos, que me fizeram esquecer a desilusão das ruínas inexistentes e as vestes e corpo molhados até aos ossos.
  Espreitei pela abertura que servia de janela e vi mais de uma centena de crianças, meninos e meninas, sentados em filas de bancos, separados segundo as classes e idades, com diferentes professores, que prosseguiam com as suas lições, indiferentes ao enorme alvoroço que a presença de tantos estrangeiros causava aos seus alunos. Viram-me a espreitá-los e a debuxar a cena para futura memória e sorriram-me e acenaram-me, enquanto   a professora escrevia no quadro frases que pareciam todas feitas só de ós:
Sample text in Burmese (Article 1 of the Universal Declaration of Human Rights)

Não resisti e, chegando-me à porta, fiz uma súplica muda à professora, juntando as mãos ao modo da terra, para que me deixasse entrar para lhe falar. Conversámos por gestos pois ela não conhecia nenhuma das línguas que eu sabia, mas consegui dizer-lhe de onde vinha, que também era professor. Gesticulou informando-me de que tinha aquela classe dos mais pequenos e pouco mais. Desejámos-nos sorte e agradeci-lhe, juntando as mãos diante do peito e curvando-me. 
 
Virei-me para as dezenas de pequenitos  - que, boquiabertos, mantinham os seus belos olhos amendoados fixos em mim,  sem dizerem uma palavra - e saudei-os do mesmo modo que fizera à professora, curvando-me de mãos postas a agradecer.
 
Não se moveram, varados de espanto. Ouvi a professora, atrás de mim, falar com uma ponta de severidade. De imediato, todo o conjunto dos quarenta alunos se curvou na minha frente, unindo as mãos numa carinhosa despedida.
Já não fizeram nada, enquanto não partimos, pois os professores preferiram dar-lhes uma folga momentânea. Vieram ter comigo e rodearam-me, dando-me um papel e pediram-me para escrever na minha língua. Disse-lhes o meu nome repetidamente e escrevi-o no paopel, que desapareceu num engalfinhamento de braços pela  sua posse.
Despediram-se de nós com entusiásticos adeuses. Foi um dos melhores momentos da minha viagem.

21/09/2015

No Rasto de Fernão Mendes Pinto - VI


Crónica Sexta: De como os pegus e os siões usam cascavéis nas suas naturas

                – Elefantes iguais podem enganar (tâmil)
ou Com papas e bolos se enganam os tolos (português)
 
O estrangeiro recém-chegado disse:
– Nós gostaríamos de nos estabelecer aqui para fazer tratos.
Ao que o rei de Pegu respondeu:
– Eu tenho muitos inimigos. Os Shans atacam-nos constantemente. Se combaterdes ao nosso lado, para derrotar o inimigo, eu darei permissão para vos estabelecerdes aqui.
[Quando os Shans atacaram Pegu os portugueses combateram com as suas armas e artilharia, fazendo o inimigo bater em retirada]. Então, o capitão português fez  um pedido a el-rei:– Dai-nos apenas um pedaço de terra que uma pele de búfalo possa abarcar que com ela nos satisfaremos.
O rei de Pegu deu-lhes permissão para tomarem o terreno que pediam. O capitão mandou cortar a pele em tiras finíssimas [e liga-las umas às outras como uma corda], de modo a poder cercar um extenso território no Sirião.
 
– As casas que ficam no terreno circundado pela corda têm de ser desmanteladas e transferidas – ordenou aos moradores. –  Este lugar pertence ao território que el-rei nos concedeu.
Os desalojados bradaram contra a expulsão:
– Os Portugueses prometeram tomar um terreno do tamanho de uma pele de búfalo, mas cortando-a em tiras finas tomaram muitas terras!
O rei de Pegu respondeu-lhes:
– Nós prometemos dar aos Portugueses um pedaço de terra medida pela pele de um búfalo. Eles procederam com sabedoria, não há nada a dizer da sua conduta. Estes homens ajudaram os nossos guerreiros a combater o inimigo e concertámos com eles uma paz duradoura. Deixemos que se estabeleçam e construam a sua cidade.
 (Da crónica bramaa Potugui Yazawin)
Quando queriam fazer um juramente solene, os naturais punham-se de pé, levantavam a ponta do pano da parte direita, e descobrindo-se até meia coxa, punham a mão sobre a imagem de um ídolo que tinham gravada na pele, segundo a sua seita, confirmando com este gesto o que haviam dito. Faziam esta sorte de juramentos raras vezes e só quando era muito necessário. Assim juram várias nações gentílicas, como Mogos, Pegus, Bramas, Siamês, Calaminans, Champàs,Tunquines e outras muitas, que trazerem os ídolos, de quem são devotos, pintados nos braços, coxas ou espaldas.
O que resta de uma feitoria que, ao que parece, nem foi portuguesa

Eu lera em muitos escritos e ouvira contar a muitos viajantes um estranhíssimo costume destes povos que me deixara assaz maravilhado e muito desconfiado de serem patranhas de quem se quer fazer mais do que os outros, pelo muito que viu e andou pelo mundo. Ora escutai e pasmai do que aqui lerdes:

Os naturais da raça mon ou talaing eram gente fraca para pelejar, mais dada à sensualidade e aos prazeres da vida do que às agruras da guerra, bons trabalhadores. Meãos de corpos, com traços semelhantes aos chins, embora de cor mais baça, tinham os cabelos tosquiados em cercilhos, à roda da cabeça como tigela emborcada, ao modo dos antigos clérigos, com os cabelos mais crescidos na moleira. Andavam descalços e cingiam-se com uns panos, como as mulheres, por baixo de umas cabaias curtas e nas cabeças traziam beatilhas com as pontas levantadas para cima como carochas de bispo. As mulheres eram mais brancas do que os homens e as mais nobres e regaladas sobressaíam pela formosura, com as suas cabaias compridas e transparentes de linho e seda.
Embora não falassem a mesma língua, os pegus diziam que os siameses descendiam da sua linhagem, o que não era de estranhar porque usavam do mesmo modo, metidos no instrumento da sua geração entre a carne e a pele, de um até cinco, ou mesmo nove, cascavéis do tamanho de ameixas alvares – os dos fidalgos de ouro ou prata, os da gente baixa de chumbo e fuzileira – fazendo alegre som por onde quer que fossem, de maviosos tons de tiple, contralto e tenor, os preciosos, mais roufenhos e desafinados os de ouropel e fancaria, um uso que António Correia jamais vira a outro povo das Índias. Homens, mulheres e crianças usam estes amuletos para virem a ter uma vida feliz e grande geração, fazendo até umas grandes cerimónias e procissões, no chamado Phi Ta Khon festival.
Derivava este costume, segundo a lenda da sua criação, do ajuntamento de uma mulher com um cão, cuja prole povoara aquela terra que até então fora erma. A mulher e o cão haviam sido os únicos sobreviventes de um junco da China atirado por uma tormenta para aquelas costas e destruído; a mulher tivera então cópula com o cão e parira filhos que depois copularam com ela, gerando novos rebentos que se multiplicaram de contínuo, propagando-se depois pelas terras do Sião.
Os pegus usavam os guizos em memória do cão mítico e a razão das suas mulheres serem mais bem-parecidas do que os homens, segundo elas próprias diziam, devia-se às fêmeas terem saído à primeira mãe e os machos ao perro, o pai primordial. Em Malaca, António Correia preparara-se bem para a sua missão, informando-se dos costumes destes gentios com os malaios e judeus, que lhe tinham contado muitas história fantasiosas como a do coito da mulher com o cão e outras mais credíveis como Pegu e Arracão terem sido povoados por degredados, cujas autoridades impuseram o uso de cascavéis como castigo pelo pecado da sodomia que cometiam.
 
Quanto a nós, os da nova embaixada, tenho de vos confessar que, pelo menos eu, não ouvi nenhum som de cascavéis, guizos ou badalos, vindos das naturas dos siões, pegus ou bramás que se cruzaram connosco em todos os lugares por onde passámos, mas não deixo de imaginar que devia ser cousa assaz bonita de se ouvir, só comparável ao chilreio dos muitos passarinhos que povoam aquelas selvas.
E embora não tivéssemos achado nenhuns vestígios visíveis da antiga feitoria portuguesa (apenas um monte de pedras coberto de ervas, impossível de se achar se não se soubesse que fora ali), umas meninas, naturais do lugar, fizeram questão de saber, com muitos sorrisos, sinais e chamamentos, se os homens da nossa embaixada também usavam cascavéis, como os da sua nação.
Antes que passe adiante, quero dar-vos uma descrição de Arracão, esta Régia Cidade, a qual toma o nome do Reino, segundo descreveu Sebastião Manrique na sua Relação. Metrópole dos Reinos de Arracão, no séc. XV, sujeitos à sua coroa, esteve esta grande Cidade edificada em um formoso vale, que terá de circuito quinze léguas, e todo circundado de altas e ásperas montanhas que, servindo-lhe de naturais muralhas escusaram as artificiais. A estas montanhas, as foram igualando ao picão e, abrindo-as de alto abaixo, fabricaram portas para as entradas e saídas, e sobre elas alguns baluartes providos de Artilharia com o que queda a Cidade naturalmente inexpugnável, se estivera em poder de outra nação mais beligerante.
Está a Cidade cortada por meio de um grande, e caudaloso Rio o qual repartindo-se por várias partes dela, faz que a maior parte de seus canais sejam navegáveis de váriassortes de embarcações grandes, e pequenas, nas quais consiste o maior peso do serviço comum e particular. Em estas se trazem a vender por as aquáticas ruas toda sorte de mantimentos e provisões, assim de arrozes, vinhos da terra, carnes, pescados, fresco, salgado, e seco, manteigas, hortaliças, frutas, e outras cousas comestíveis e como também várias mercancias, e cousas utensílias; e todas estas cousas, maxime as comestíveis, por preços mui baratos. Afora esta comodidade, há também muitas praças, a que chamam Bazares, donde se vendem as mesmas cousas. Sai este Rio ao mar por duas partes, uma pelo porto de Oriatan, outra pela parte do Dobazi, onde habitam mercadores de várias nações.
Foi sob uma pesada chuva de monção, viajámos numa embarcação local, desde o Golfo de Bengala até à capital Mrauk-U.

17/09/2015

No rasto de Fernão Mendes Pinto – V

Crónica Quinta: 

António Correia e o Tratado de Pegu (1519)

Templo de Shwedagon

 Os pegus não queriam consentir os feringhis, os estrangeiros, nos seus portos e António Correia enviara ricos presentes ao rei – em que sobressaíam uma tapeçaria de Veneza, pimenta no valor de alguns contos de reis, peças de brocado, drogas, essências e porcelanas da China –, assim como ao toledão barja que era uma espécie de primeiro ministro, com cerca de metade da valia do presente real e, embora mais modestas, a outros mandarins influentes de Pegu.
Contudo, se Malaca não podia dispensar a aliança com Pegu, que a provia de alimentos, principalmente de arroz, e também de ajuda militar contra os assaltos do rei de Bintão ou dos achens, em caso de necessidade, o contrário também era verdadeiro, pois este reino tão pouco poderia prosperar sem os portugueses. Os Governadores da Índia e os Capitães de Malaca estavam muito mais interessados na aliança com o reino de Pegu do que com o de Sião, que começava a ser engolido pelas nações vizinhas.
António Correia fizera tudo para que o tratado fosse assinado e o seu esforço fora recompensado: el-rei acedera a concertar as pazes com os portugueses e o tratado ia ser assinado em cerimónia soleníssima no templo da cidade que se enchera de gente.
  – A cidade engalanou-se com toda a pompa – veio dizer-lhe o espia que Correia enviara ao templo, para não ser apanhado de surpresa por qualquer ardil de última hora. – O pagode reluz de ouro e pedraria e até os livros sagrados são dourados. O sacerdote e o ministro já vos esperam.
As varredeiras do Templo, descritas pelos nossos viajantes quinhentistas
          O embaixador percebeu que os pegus esperavam deslumbrá-lo com o fausto e a riqueza da parafernália usada no ritual.   Escreviam da esquerda para a direita, como na Europa, gravando com estilete de ferro as folhas de palma, ou em placas de marfim finas como folhas de papel e também de bambu, chapeadas e envernizadas, com a superfície revestida de folha de ouro e pintadas e com iluminuras nas margens a vermelho e verde com letras a negro brilhante.
– Esses livros dos templos são preciosos e nós não trazemos Bíblia ou missal com iluminuras que se lhes possa comparar – lamentou-se.
Ao ver um singelo breviário nas mãos do capelão da nau, que o iria acompanhar na função de Rolim, disse-lhe numa voz que não admitia réplica:
– Não posso fazer o juramento sobre esse livro, meu padre, porque haveria de parecer de pouca valia aos gentios, como se não nos importasse a nossa religião. Temos aí outra obra que servirá melhor a este propósito.
Desembarcaram com grande aparato, trajados com as suas melhores galas e exibindo espadas e punhais de cerimónia com os punhos dourados e, os dos mais nobres, cravejados de pedras preciosas. Abriam o cortejo dois capitães que transportavam, à maneira de relicário, uma almofada de brocado dourado, onde repousava um grande livro coberto por um pano de veludo carmesim; a seguir ia o embaixador, de chapéu emplumado e vestido como para uma audiência com o Papa, ladeado pelo capelão, de sobrepeliz branca e com uma cruz de prata nas mãos; por último, formando uma lustrosa comitiva, os oficiais, os mercadores principais e um corpo de guardas armados. 
 No templo havia uma gigantesca estátua de Buda deitado, com um braço por cima do rosto. Diante dela, no chão, tinham estendido um espesso tapete onde fizeram sentar o embaixador e o padre, junto do Rolim-mor e do Cemim Bolegão que já os esperavam. 
 O ministro tirou de uma caixa de marfim a folha de ouro batido onde vinham escritas as capitulações, que um dos seus oficiais leu em voz alta, em língua mon, por duas vezes para ser entendido pela assistência, tendo António Correia dado a sua folha também de ouro escrita em português. Assinadas ambas pelo ministro e pelo embaixador, procedeu-se ao juramento, feito com muita reverência e ouvido pela assistência com tal acatamento e silêncio, que deixaram os portugueses pasmados com a sua devoção.
O Rolim leu no magnífico livro, trabalhado a folha de ouro, a lenda da origem de Pegu que o língua trasladou; acabada a leitura queimou uns papéis amarelos perfumados, com inscrições, sobre cujas cinzas o ministro pôs as mãos, dizendo:
– Em nome d’el-Rei juro que tudo o que aqui foi assentado é firme e valioso.
Chegara a vez do embaixador do reino de Portugal de prestar o seu. O capelão tomou o livro da almofada e levou-o para junto do Rolim, abrindo-o à sorte para António Correia ler. Era a única obra de folha de papel inteira que tinham na nau, um Cancioneiro de trovas de fidalgos e pessoas principais que Garcia de Resende, o escrivão da puridade d’el-rei D. João II, tinha mandado imprimir e servia nas viagens para desenfadamento da tripulação, sendo lido aos serões ou por ocasião de alguma festa, pelo capelão ou por quem o soubesse fazer.

Sabendo como aquele povo só guardava juramento enquanto lhe convinha o negócio, para mais depois da leitura que o Rolim fizera da lenda como se fora um texto sagrado, o Cancioneiro Geral até vinha a propósito. O embaixador pôs os olhos na página aberta e começou a ler a trova de Luís da Silveira, o Conde de Sortelha:
Vaidade das vaidades
e tudo é vaidade,
assi passam as vontades
com’às cousas da vontade.
Tudo se já desejou
e tudo s’avorreceu
e tudo se já ganhou
e tudo se já perdeu.
O poeta glosava a sentença de Salomão, no Eclesiastes, Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade e, à medida que ia lendo as palavras da trova, o embaixador sentia um arrepio de medo supersticioso a trespassar-lhe o corpo. Não fora talvez por acaso que o livro se abrira naquela precisa página, pois o poema soava-lhe aos ouvidos como um aviso ou uma censura por estar a fazer uma farsa daquele juramento. Esforçou-se para que a voz não tremesse, prosseguindo com a leitura:
(…) O sisudo e o sandeu
tudo vi que tinha fim,
e disse então entre mim:
– Que me presta o saber meu?
Ignorantes e prudentes
todos têm ūa medida,
na morte nem nesta vida
não nos vejo diferentes.
Um suor frio corria da testa de António Correia, parecendo-lhe estas palavras tão poderosas como se estivesse a jurar sobre as da Bíblia. Leu a última estrofe, com uma voz que ressumava de emoção que não logrou conter, enquanto prometia para si próprio, a fim de apaziguar o bater assustado do coração, que cumpriria o seu juramento com custo da sua vida, porque não podia invocar a Deus com falsidade e enganos, mesmo em negócios com gentios de outra fé:
(…) O justo, o sabedor
e o mais cheio de fé
nenhum não sabe se é
dino d’ ódio se d’ amor.
Quantos isto faz perder,
porqu’ a quem a fé não dura
encomenda-s’ à ventura
e deixa de merecer.
Palavras proféticas, as do poeta, decerto inspiradas por esse sopro divino que dizem ser o alento dos vates. O silêncio que se fizera no templo era quase religioso, talvez devido à emoção com que lera os versos e que encontrara eco no coração dos pegus. Porém, no coração de alguns mouros mercadores que estavam presentes ao acto do juramento, a paixão era outra, de puro ódio, com medo de perderem os grandes lucros que tinham com os tratos das suas fazendas se os portugueses começassem a vir ao Pegu. E logo juraram de fazer quebrar as pazes assinadas pelos seus inimigos.
 (Adaptado de "O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto". Fotos do templo Shwedagon Paya ou Pagode de Degom, por Deana Barroqueiro)

No rasto de Fernão Mendes Pinto – IV

Crónica Quarta

No dia 31 de Agosto, segunda-feira, partimos manhã cedo, em carroça, para Thanlyin (a feitoria dos portugueses no Sirião, onde, no meu século XVII, se instalou Filipe de Brito e Nicote (c. 1566-1613), achando-se já em 1590 na região como comerciante de sal e tendo depois ficado ao serviço do rei de Arracão (que, nos vossos dias, se denomina Rackine e cuja capital é Mrauk-u), a quem serviu bem e lealmente, trazendo bem-estar ao povo. 

Depois de muitas lutas e rivalidades entre os senhores da guerra, foi proclamado rei do Pegu ou de Sirião (Thanlyin), conhecido como Nga Zingar, após ter tomado a cidade, com o apoio dos naturais que lhe chamavam Changá ou Homem Bom. Com a tomada da praça pelos bramás, em 1613, Filipe de Brito foi empalado e degolado. 

Neste vosso futuro, que me é dado ver por ter encarnado num dos seguidores da embaixada, a igreja portuguesa há muito deixou de existir, as três paredes que vimos (umas tristes ruínas abandonadas na floresta e que os naturais desconhecem) são de construção italiana em tijolo, de meados do século XVIII, que pouco ou nada tem a vr com a nossa herança e património. Vale a placa, enquanto memória «Antiga Igreja portuguesa / Era cristã (1749-1750) e dois túmulos de luso-descendentes da mesma época.
As relações com Pegu estabeleceram-se após a tomada de Malaca, por Afonso de Albuquerque, que tratou imediatamente de enviar embaixadores a estes reinos, assim como à China. Destes primeiros encontros chegou notícia a Portugal.
 
Carta de Garcia de Sá (?) a El-Rei D. Manuel:


(…) “O ano passado foi daqui por mandado do capitão-mor Francisco Lampreia e Jorge de Pina a Pegu por embaixadores, e depois partiu daqui António Correia na [nau] Brandoa para Malaca e de lá havia d’ir a Pegu, onde foi e se acharam lá todos, donde vieram desavindos e mal aviados com a gente da terra, e assi [com] guzarates que lá estavam com suas naus. Dizem ser terra muito rica e abastada de todalas riquezas, ouro, almíscar, beijoim, rubis, outras e muitas cousas ricas, aos quais se não quis consentir na terra que se vendesse nada porque têm já sabido se tratarem com nosco que logo serão destruídos, e por este respeito se mostraram pobres e tiranos e de pouco gasalhado, depois que receberam [os portugueses]. É gente de pouco poder e muita, por que lhe parecia que fazendo o que faziam que lhe não tornássemos lá mais;(…) faça V. Alteza bom fundamento desta terra e aproveite-se cedo dela, antes que se dane com nosco, e de fazer fundamento de pousar gente nela e grandes defesas ainda que já lá vão fustas de João Moreno.” Malaca, 1520.
 Foi, porém, António Correia – que chegou a Pegu em 1519 – quem logrou concertar o primeiro tratado…graças a um poema.  Sim, um poema, crede que não zombo de vós, meus estimados leitores e caríssimas leitoras!


Os primeiros encontros com os pegus não foram muito auspiciosos, apesar de os pilotos locais terem acorrido em paraus a remos para rebocarem a nau, onde tinha deflagrado fogo, pelo impetuoso rio Saluém até à barra. Ali esperaram treze dias pela autorização do rei, trazida pelo mandarim Cemim Bolegão, para poderem desembarcar. Por aquelas bandas nada se fazia sem peitas ou odiás – os presentes oferecidos não só ao rei como aos ministros, oficiais e a quem quer que mexesse uma palha ao serviço do requerente –, a fim de amaciar vontades, afastar escolhos e acelerar os negócios.


Sempre que a nossa embaixada desembarcava para tratar dos negócios ou das suas visitas, éramos rodeados por um enxame de vendilhões, pegadiços como moscas, zumbindo à nossa volta a oferecer os seus produtos. E mal partíamos de um lugar, corriam com as suas montadas atrás da nossa carroça, até ao lugar onde sabiam que havíamos de ir e ali nos esperavam e cercavam de novo até lhe comprarmos qualquer cousa. 


Só não vieram os alcovetos a oferecer esposas a prazo, como a António Correia e aos seus homens, apresentando-lhes moças de vários tamanhos, formas e idades, que os saudavam com muitos sorrisos e meneios provocantes, saracoteando-se de modo a que os panos que lhes cobriam as vergonhas, se abrissem na frente e permitissem vislumbrar os seus tesouros mais íntimos, fazendo gala em provocar desejo nos homens com uma descarada promessa de delícias e prazeres. 
Os alcovetos apresentavam-nas uma a uma, enunciando os predicados e dons das beldades, a fim de acrescentarem o interesse dos clientes que olhavam embasbacados para o magote de filhas de gente honrada que, com licença de seus pais, vinham oferecer-se seminuas, como vulgares mulheres de partido, para maridar com eles, durante uns dias ou meses, em troca de dinheiro, sem que por isso se sentissem desonradas. Desde que fizessem um contrato com os pais das moças que mais lhes agradassem, pelo tempo que ali estivessem, que elas os serviriam dia e noite como esposas no navio ou na pousada em terra; antes de partir, os portugueses pagariam a quantia acordada. 


Mas este conto, que é cousa de muito espanto, deixo para a próxima crónica, onde o poderei narrar com mais lazer e menos desprazer de vossas mercês...

À Conversa com os Leitores

Clube de Leitores da Bulhosa de Entrecampos 


Estarei na livraria à conversa com os meus amigos leitores, sobre o romance O Espião de D. João II - Pêro da Covilhã, edição da Casa das Letras/Leya, e outras histórias:

 Dia 22 de Setembro, Terça-feira, às 18 horas 

 Livraria Bulhosa de Entrecampos
Campo Grande, 10-B
(Metro de Entrecampos, saída do jardim do Campo Grande)

Estar convosco, com pessoas que amam os livros e gostam de conversar sobre eles, é um dos maiores prazeres que a escrita me dá. Lá vos espero.