01/02/2018

Entrevista para Alumni - Faculdade de Letras de Lisboa

Escrever romance histórico é um óptimo pretexto para continuar a estudar"

O período da Restauração está na base do último romance da alumna Deana Barroqueiro. Porque diz que é difícil "escrever em poucas páginas", acaba de lançar 1640, com quase 900.   
Antiga aluna do curso de Filologia Românica da FLUL, diz que o romance histórico é o que prefere e onde quer ficar.  Para 1640 investigou. Muito. Mas revela que a tão recente troika também a ajudou a criar. Os quatro guias que escolheu para personagens fazem o resto.
Deana Barroqueiro escreveu, escreveu, garantindo que foi o romance que lhe disse onde e quando devia parar. A conversa com o FLUL Alumni foi igual, só parando quando chegámos às recordações da FLUL.
Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

pequeno Porque é que se interessou pelo período da Restauração? Onde encontrou a inspiração? 
Deana Barroqueiro (DB): Escrevi o primeiro romance histórico de grande fôlego, D. Sebastião e o Vidente, em 2006, que terminava com o desastre de Alcácer Quibir, um momento negro na História de Portugal, a que se seguiu a perda da nacionalidade sob o domínio espanhol. Começava, então, a sentir que o projecto europeu não se estava a concretizar do modo como fora sonhado e que, apesar de alguns benefícios, Portugal perdera muito da sua autonomia enquanto nação. Talvez fosse isso que me levou a pensar no tema do Sebastianismo, recorrente nos tempos de crise em Portugal, e em Brás Garcia Mascarenhas, um herói da Restauração, poeta e autor “Viriato Trágico”, a suspirar pela independência. Como levo sempre muito tempo de preparação e estudo para cada romance, cheguei a 2011 apenas com um esboço da vida do poeta épico seiscentista. Com a vinda da fatídica troika, sofri com a humilhação a que ela nos sujeitou, enquanto povo, e isso fez-me ver como a História se repete, embora em diferentes moldes ou circunstâncias. Senti que o tema da Restauração podia servir de metáfora para o período cinzento que atravessávamos, um grito de revolta e um aceno de esperança. E o romance começou a tomar forma.
Foto de Sebastiao Barata.

pequenoDemonstra ter um domínio concreto a nível histórico. Ficou “doutorada” neste período?
DB: Fui, durante 35 anos, professora de Língua e Literatura Portuguesa, no tempo em que os programas do ensino secundário eram bastante exigentes e muito vastos, passando por todas as épocas e períodos literários. Assim, para ensinar bem a Literatura, tinha de estudar História, para poder dar aos alunos o enquadramento necessário à sua melhor compreensão. Sempre tive uma curiosidade insaciável e um desejo imenso de aprender, até hoje não parei de estudar e, como tenho 72 anos, fui adquirindo uma boa bagagem.
pequenoTemos 4 personagens guias no livro. Em que medida cada uma das personagens é o melhor cicerone pelo período de 50 anos (1617-1667) que o livro aborda?
DB: Creio que cada uma delas cumpre o seu papel, que é o de apresentarem perspectivas “angulares” e diferentes pontos de vista, que todavia se cruzam e se completam, sobre os sucessos e os actantes daqueles 50 anos tão caóticos e contraditórios, mas também tão vívidos e apaixonantes. O Poeta Brás com a sua vida aventurosa de homiziado narra sucessos de Espanha e Brasil; a Professa-poetisa, Violante do Céu revolta-se contra a ingrata condição da mulher seiscentista e mostra a vivência licenciosa dos conventos; o Prosador D. Francisco Manuel de Melo, fidalgo e militar, dá testemunho dos conflitos e guerras de Espanha com a Europa; por último, o grande Pregador, padre António Vieira, com a sua activa participação na política portuguesa, mostra as relações diplomáticas de Portugal com as outras nações europeias. Deste modo, os guias fornecem aos leitores um conhecimento multifacetado da época, que é a mais-valia do romance histórico, face aos outros tipos de romance.

pequeno
Os seus livros têm sempre personagens muito vivas. Muitas vezes heróis…
DB: Quando comecei a escrever romances, iniciei-me com um projecto que pretendia criar uma saga de aventuras, à maneira de Emílio Salgari, com figuras reais portuguesas, destinado a um público-alvo de jovens pré-universitários e universitários. O período dos Descobrimentos é um inesgotável manancial de “heróis”, ou pelo menos, de figuras singulares, com vivências mais fabulosas do que a própria ficção. Escrevi sete romances, mas desisti, quando uma jornalista, que fazia crítica literária no extinto Mil Folhas, disse que não sabia como havia de classificar os meus romances, se para crianças se para adultos. Ora, se, em vez de escritora portuguesa, eu fosse a J. P. Rowling, tal questão não se punha, seria até uma virtude… Passei a escrever para adultos.
pequeno
Escreve livros grandes… 1640 tem quase 900 páginas. Escreve de seguida? Como fez para não perder o fio condutor?
DB: É impossível, pelo menos para mim, escrever sobre temas ou períodos da História de Portugal, que é riquíssima, em poucas páginas; só a contextualização dos lugares, ambientes, personagens, se for feita com algum pormenor, consome muito espaço. Não escrevo de seguida, concebo os meus romances como puzzles, complexos, por vezes labirínticos, para os quais preciso de encontrar as peças certas, as que se encaixam harmoniosamente no todo, sem serem forçadas. Estou sempre a reler, a fazer e a desmanchar, à medida que vou estudando, procurando e descobrindo, num mar de histórias, a tal peça que o livro aceita, porque é o romance que me comanda e que só termina quando se dá por satisfeito e já não me permite escrever sequer uma palavra.
pequenoPorque é que só escreve romances históricos?
DB: Quando me aposentei e quis retomar a minha escrita, que abandonara para me dedicar ao ensino, percebi que o meu cérebro era uma espécie de biblioteca virtual com uma imensidade de livros sobre variadíssimos temas, sobretudo de Literatura e História, cujo conhecimento eu poderia partilhar com outros. E os portugueses sabiam tão pouco da sua História e do seu passado colectivo, que seria um desafio despertar-lhes a curiosidade e o interesse. Por outro lado, escrever romance histórico é um óptimo pretexto para continuar a estudar. E assim foi…
pequenoO historiador francês Paul Veyne disse que “a história é uma narrativa de eventos: tudo o resto resulta disso; o vivido, tal como sai das mãos do historiador, não é dos actores; é uma narração”. É assim que encara a actividade literária? Acontece o mesmo com o escritor?
DB: O historiador, quando interpreta os documentos em papel, pedra, etc., também ficciona os factos esbatidos pela poeira do tempo, não está isento de subjectividade, sobretudo quando trata de épocas pouco documentadas. Mesmo quando se limita a uma árida transcrição de datas e informações de sucessos, o que pouco mostra sobre o pulsar da vida dos seus actantes. O escritor de romance histórico é muito mais livre, não tem que reinterpretar ou reconstituir a História, segundo o ditame da verdade. O romance é, antes de mais, uma criação estética, com fim lúdico, destinada a dar prazer ao leitor. Contudo, isso não deve significar ignorância, facilitismo ou desleixo do autor, em relação ao tema e matéria que vai tratar. O escritor deve ter um “espírito histórico”, como diz Miguel Real, um grande domínio dos factos históricos da época narrada, das formas de representação e governo, dos conflitos políticos e institucionais”, dos seus ritos e mitos, dos costumes, das mentalidades, da vivência quotidiana, do léxico da época. Só assim, o romance se fará eco das múltiplas verdades e perspectivas sobre os factos históricos. É uma questão de honestidade intelectual e de respeito pelo leitor, o que nem sempre acontece.
deana 1
pequenoO que é que encontra no Renascimento e nos Descobrimentos que não encontra noutros períodos?

DB: 
No Renascimento, a arte, a abertura do espírito para as novas ideias (que a Inquisição sufocou posteriormente), a plêiade de escritores, cientistas e estadistas que fizeram do século XVI, o século de ouro português. Era tudo novo: novos mundos, novas ciências, novas gentes, novas artes, nova História. A Literatura moderna nascia, os escritores eram originais. Nós agora já não inventamos nada, copiamos ou dizemos de outra maneira o que eles disseram, quando não destruímos o que eles criaram de raiz. Os Descobrimentos ou Expansão Marítima Portuguesa, apesar de todos os aspectos negativos que lhes queiramos assacar, foram a Grande Aventura do Desconhecido, uma longa saga de coragem e desafio da morte, a busca do conhecimento e a sua contribuição para a transformação da Europa, influenciando outras nações em todos os continentes. Sem os Descobrimentos Portugueses, o mundo hoje seria outro. Melhor ou pior? Não sei. Diferente, seguramente.
pequenoSei que este não é o ponto final na série sobre o período da Restauração… Que livro se vai seguir?
DB: Penso escrever sobre os filhos de D. João IV, para dar aos meus leitores uma perspectiva mais abrangente do século XVII, as últimas décadas são igualmente apaixonantes, cheias de sucessos picantes.
pequenoO que pode revelar, desde já, sobre os próximos livros que vai lançar?
DB: Estou a terminar um livro de culinário histórico. Embora tenha muitas receitas, com a sua história, o livro tem mais a ver com a evolução de gostos e paladares, desde as suas origens até aos nossos dias, com muitas historietas e curiosidades à mistura, dando preferência às ligações de Portugal com o mundo, no universo da gastronomia. Sairá, espero, a tempo da Feira do Livro de Lisboa. O segundo livro (tenho de ter sempre dois, para desenjoar) é um romance com uma forma diarística e o protagonista é uma figura bastante controversa. Só deve ficar pronto em 2019, e é tudo o que posso dizer por agora.
pequenoEm que medida a FLUL contribuiu para a sua formação e carreira enquanto autora?
DB: Proporcionou-me instrumentos para eu me reconstruir enquanto Ser, abriu-me horizontes culturais, que a modéstia da minha família de baixa escolaridade não podia oferecer-me. Foi como uma rampa de lançamento para quem, como eu, ansiava por voar.
pequenoO que recorda da sua passagem pela FLUL?
DB: Certos professores, como Lindley Cintra e Urbano Tavares Rodrigues, que pelo seu saber, carácter e posição política, face à ditadura, ajudaram à minha formação, como pessoa. E recordo com emoção o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, ao qual pertenci desde a sua formação, sobretudo, a peça O Avejão, em que desempenhei o papel principal feminino, contracenando com os meus queridos amigos Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo e Luís Lima Barreto.

15/01/2018

Nova Apresentação do «1640»

NA FNAC - COLOMBO, dia 30 de Janeiro, 3ª feira, às 18.30 horas.

Apresentação do  romance «1640», de Deana Barroqueiro, por Francisco Moita Flores, para quem não pôde ir ao lançamento  e estiver interessado.

Serão muito bem recebidos e terão uma surpresa pagradável.



10/01/2018

Entrevista no Jornal de Letras

Deana Barroqueiro Salvar personagens históricas do esquecimento

Tem uma obra "absolutamente singular" no campo do romance histórico, ocupando agora o "lugar da grande mestria do desaparecido Fernando Campos", como assinala Miguel Real na crítica, á frente publicada, a 1640, acabado de sair. E é sobre este romance com mais de 800 páginas sobre o período da Restauração, 2º volume de uma trilogia cujo 3º será sobre os filhos de D. João IV, é sobre 1640 mas também sobre aquele género literário, e muito mais, que falamos com a escritora

Maria Leonor Nunes  

“Não vivo da escrita”, garante. “Vivo para a escrita”. Escrever é mesmo, para ela, uma espécie de bulimia, uma necessidade insaciável que “engole”, “devora” os seus dias. E são dias inteiros, às vezes 12 incansáveis horas, “colada” ao computador, consumidas por essa voragem. Até pela investigação histórica minuciosa e aturada que os seus livros implicam. E escreve-os sempre em simultâneo, pelo menos um par de histórias a correr ao mesmo tempo. Até que uma toma a dianteira e a arrebata de tal modo que a leva até ao fim.
Sempre romances, sempre históricos. Deana Barroqueiro, 72 anos, nem equaciona a hipótese de experimentar outro género. Tem a paixão da História, apesar de ter trabalhado sempre no domínio da Literatura. E procura resgatar ao esquecimento figuras “épicas” do passado, que viram a sua glória desvanecer-se na poeira dos tempos. Tal como enquadrar literariamente determinadas épocas, reconstituindo não apenas factos, mas também os costumes e as mentalidades. É o que faz em 1640, que agora chega às livrarias, numa edição Casa das Letras.
São mais de 800 páginas, em que efabula sobre o período da Restauração, cruzando quatro personagens, todas ligadas à palavra: o poeta Brás Garcia de Mascarenhas, a poetisa Soror Violante do Céu, o prosador Francisco Manuel de Melo e Padre António Vieira. Um romance em que as quis “reviver”, na primeira pessoa.
Deana Barroqueiro nasceu nos Estados Unidos e veio para Portugal com dois anos. Licenciou-se em Literaturas e foi professora. Até que a sua curiosidade se cruzou com a História, situando-se entre os séculos XV e XVII. E sentiu que tinha muito que contar. Começou pelos Descobrimentos, com uma série juvenil e a trilogia de que fazem parte O Navegador da Passagem, O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares. Seguiu-se-lhes S. Sebastião e o Vidente, a que agora acrescenta 1640. Mas já pensa noutras personagens que “dão pano para mangas”.

Jornal de Letras: 1640 completa um díptico sobre a Restauração?
Deana Barroqueiro: Penso mesmo fazer um tríptico. D. Sebastião e o Vidente termina com a batalha de Alcácer Quibir e a consequente perda da nossa independência. Depois, segue-se o período conturbado dos Filipes e a Restauração, em 1640. E aí, pensei numa personagem, Brás Garcia de Mascarenhas.
Um herói da Restauração?
E o grande épico do século XVII, que quis salvar do esquecimento Foi a partir dessa personagem que o romance tomou forma? Comecei a escrever sobre o período que antecedeu 1640 e as convulsões que se seguiram. O tema era fascinante, mas difícil. Entretanto, tinha muito material sobre os Descobrimentos, porque tinha feito os sete volumes da coleção juvenil. E como tenho que estar sempre a trabalhar em mais de um livro ao mesmo tempo…
Porquê?
Para passar para outro, quando fico paralisada num, por causa de algum problema que surja no desenrolar da narrativa, ou porque me enjoo, porque não consigo estar a fazer a mesma coisa durante muito tempo. Por isso, gosto de escrever dois ou três romances em simultâneo. Até que um deles toma o freio nos dentes… Foi o que aconteceu, por exemplo, com O Navegador da Passagem, porque de repente começaram a surgir-me as figuras dos Descobrimentos.
De permeio com a história de 1640?
Sim. Até saíram também O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares, que completaram a trilogia. E entretanto, ia sempre voltando ao Brás Garcia de Mascarenhas. O romance ainda nem tinha nome.
O que a fez interessar-se por essa figura?
Gosto muito de dar aos leitores personagens verdadeiras da nossa História, os grandes valores, quase sempre literatos e que são hoje praticamente desconhecidos. Ainda estudei alguns, no meu tempo de estudante, mas foram caindo no esquecimento. Mas são figuras fantásticas. No D. Sebastião e o Vidente, por exemplo, não comecei por me interessar pelo rei.
Então?
Precisamente pelo vidente, Miguel Leitão de Andrada, escritor do século XVI, que escreveu um livro chamado Miscelânea, tal como Garcia de Resende, mas em prosa. Nele contava a sua ida para Alcácer Quibir com o rei. Apercebi-me que havia grande ligação entre essa figura praticamente desconhecida dos portugueses e o rei. Tinham, aliás, praticamente a mesma idade. Comecei a escrever o livro entrelaçando as vidas de ambos.
E Brás Garcia de Mascarenhas?
Era o mesmo tipo de figura, um pouco mais exacerbada, também desconhecida e injustiçada. Um poeta, guerreiro, apaixonado, com uma vida rocambolesca que se prestava muito à ficção.
Sentiu que tinha todos os ingredientes do herói.
Sim. Não se sabia muito sobre ele, o que me permitia ficcionar muito, mas sempre com a preocupação da História. A certa altura, conseguiram-me arranjar um livro que estava esgotadíssimo sobre ele, de António Vasconcelos. Foi uma fonte fantástica, que me permitiu avançar com o livro
Teve que fazer uma investigação muito apurada?
Até mais do que nos outros livros. Habitualmente, levo pelo menos três anos com cada livro. Este já vinha desde 2004, embora o tivesse interrompido muitas vezes. E sempre que o retomava, tinha que rever o que tinha escrito desde o início.
Por que o interrompeu tantas vezes?
Não sei, havia qualquer coisa que emperrava. Comecei por pôr Brás Garcia de Mascarenhas a contar os acontecimentos da sua perspetiva. Mas gosto sempre de dar vários ângulos, porque a vida tem muitas influências, relações, memórias. São essas correntes diversas que fazem viver também as personagens e os romances.
Como encontrou outras perspetivas?
Surgiu-me D. Francisco Manuel de Melo, um fidalgo militar com todas as questões da guerra associadas. A dada altura, senti que me faltavam as mulheres. E lembrei-me de Soror Violante do Céu, uma poetisa fantástica do tempo. Faltava-me de igual modo a parte diplomática e pensei em Padre António Vieira. Quando os encontrei a todos, senti que tinha quatro guias para fazer mergulhar os leitores naquele tempo riquíssimo e bastante trágico da nossa História. Interessava-me também dar a ideia do barroco, um período tão maltratado e fascinante. Mas para isso, precisava de uma estrutura para o romance, que pudesse dar o luxo e a miséria, as aparências e a realidade trágica das personagens, asfixiadas pelo domínio castelhano, pela Inquisição.
Como o resolveu?
Ocorreu-me a estrutura da Corte na Aldeia. Até porque, como a corte era em Madrid, Lisboa ficou uma verdadeira cidade de província. Os fidalgos mais abastados faziam pequenas cortes nos seus palacetes. E protegiam as artes, os poetas, os músicos. Uma das principais, a do duque de Bragança, em Vila Viçosa.

ELOS DE LIGAÇÃO
Que dificuldades sentiu com o curso da narrativa?
Sobretudo as ligações entre as diferentes personagens. Foi o que mais demorou a fazer, para não cair em falhas graves. Foi preciso perceber em cada momento onde estavam. A dada altura encontrei um elo de ligação.
Qual?
O facto de estarem todos presos. Pe. António Vieira está a contas com a Inquisição em 1663-1967, quando acaba o meu romance. Francisco Manuel de Melo esteve 12 anos preso na Torre de Belém e em Almada. Brás Garcia Mascarenhas também esteve preso várias vezes, embora escapasse sempre das formas mais fantásticas. E Soror Violante estava ‘presa’ no convento.
No caso de Soror Violante do Céu, o que a interessou?
Queria dar o domínio dos homens, a castração das mulheres, a vida dos conventos, onde, de resto, algumas mulheres iam encontrar alguma liberdade que não tinham em casa, nem na sociedade, o que lhes permitia realizarem-se como músicas ou poetisas. Quando tinham pais permissivos, quando muito frequentavam as universidades, mas vestidas de homens. Como sou muito feminista e acho que ainda estamos a pagar a fatura dos velhos testamentos e afins, tinha que dar o ponto de vista das mulheres, o seu sofrimento e também todo o lado cómico dos freiráticos, que é a parte mais atrevida do meu livro. Às vezes, quase coro ao lê-la… (riso) No fundo, procuro sempre tentar reviver as personagens da nossa História, que é riquíssima.
O que mais a estimulou, do ponto de vista literário, em 1640?
O grande desafio foi pôr as personagens-guias a falar na primeira pessoa, sendo um poeta épico, uma poetisa lírica, um prosador e homem de teatro e o maior pregador de todos os tempos. Não podia ser maior o desafio. A dificuldade foi não usar uma linguagem demasiado contemporânea e, por outro lado, não complicar para que os leitores possam entrar bem nas suas falas. Por isso tive que ter mil cuidados e estar sempre a ver e rever as palavras, questionando-me se na altura já utilizariam determinado termo.
Uma espécie de reconstituição histórica também da linguagem?
Sim. Por exemplo, a hoje tão usada ‘geringonça’ apareceu-me num texto oficial do séc. XVII e caiu como sopa no mel…
Uma ‘piscadela de olho’ à atualidade?
Até senti que havia muitos pontos de contacto com a nossa época.
Políticos?
Na verdade, enquanto escrevia o livro, estivemos sob uma ‘troika’ e, na altura, também havia a ‘troika’ castelhana a apertar a garganta do país, as pessoas a viverem na miséria, com muitas dificuldades, desprezadas, humilhadas e uma enorme revolta. E sempre aquela velha história que era preciso passar-se mal para o país ir para a frente. Afinal, o país estava a ser roubado e explorado por Espanha e por todos os países que até tinham sido nossos aliados, mas então exploraram o mais que puderam. Luísa de Gusmão disse que Portugal era como um pássaro a quem estavam a arrancar as penas das asas. E, por outro lado, está agora muito em voga um tema que é muito explorado no meu romance, a independência da Catalunha. Foi graças à revolta catalã que conseguimos levar a nossa avante.

ESPÍRITO DA ÉPOCA
Afirma que só escreve romances históricos. Porquê?
Divirto-me imenso, e escrever romances históricos permite-me estudar, que é uma coisa que mesmo aos 72 anos não consigo parar de fazer. Sempre tive essa curiosidade e vontade de conhecer.
E como veio do mundo da Literatura para o da História? Como era professora de Português, de língua e de Literatura, senti a necessidade de saber História para saber ensinar sobre os autores e as suas épocas. Tinha que saber muita História para ser uma boa professora de Literatura. Sobretudo das mentalidades. É isso que quero passar para os meus romances, não só os factos, os pormenores dos acontecimentos, mas o espírito da época, a maneira como as pessoas pensavam, sentiam e reagiam no seu tempo. E que evidentemente era muito diferente da nossa.
Não gostaria de experimentar outro tipo de romance?
Não. Vou escrever romance histórico até ao fim da minha vida. Mas interessa-me o género tal como aprendi, como se classificava na Literatura, um romance que permite ao leitor conhecer uma época, um acontecimento, uma determinada mentalidade. Não aceito as correntes modernas, segundo as quais o romance histórico pode ser tudo. Claro que, de alguma maneira, tudo é histórico, inclusive um romance sobre o que se passou esta semana. Mas, para mim, tem que passar conhecimento. Até para que o leitor acredite no autor da obra. Para isso, é preciso muita investigação. Ideias nunca me faltaram, mas o conhecimento de uma época leva-me sempre anos e anos. Fico colada ao computador por vezes 12 horas por dia e muitas vezes leio um volume de 400 páginas só para confirmar uma ideia ou tirar uma frase.
 
Por que escolheu trabalhar sempre o período entre os séculos XV e XVIII?

Apesar de conhecer bem igualmente a época medieval, apaixonou-me o Renascimento, o Barroco, os Descobrimentos, por ser o nosso século de ouro. Apesar de não ser tão conhecido como se possa pensar e de muitas vezes ser encarado como um período negativo. O português tem muito o costume de falar daquilo que não sabe. A ‘achologia’ é uma ciência muito nossa, e é uma pena. Porque temos que reconhecer os nossos erros e falhas, mas assumir o nosso passado. Sem o fazer, não conseguimos estar seguros no presente e perspetivar o futuro. Se os nossos políticos soubessem mais da nossa História, talvez nos governassem melhor.

Por exemplo, o que se passou em 1640….
Com o meu romance podiam aprender muito. Até devia ser uma cartilha para o Governo… (riso) Mas talvez não tenham coragem para ler um livro tão grande. Porque não sei se escrevo bem ou mal, mas faço um trabalho seríssimo de investigação e esse é o meu orgulho e a mais-valia dos meus romances.
Já está a escrever o terceiro romance da trilogia?
Ainda não comecei. Será sobre os filhos de D. João IV, o que dará também muito pano para mangas. São figuras que já foram tratadas por outros autores, mas espero fazê-lo de uma forma diferente. E cada escritor fará, como se sabe, o que lhe dita o coração ou a alma. E muitas vezes a moda. Nem todos, felizmente. Mas já estou a escrever outros livros. Não posso estar sem escrever. Não vivo da escrita, mas para a escrita. A escrita é que me engole e me gasta.

Que outros livros?
Um livro histórico de culinária. Não é, claro, um livro de cozinha, apesar de ter receitas, porque há muitos livros de cozinha e bons chefs por aí. Também não tem a ver com a história das receitas, antes das sensações ligadas à comida e que podem ligar à arte, por exemplo. Ou ao cinema… Já vai em 300 páginas. Espero que saia na altura da Feira do Livro. O outro é um diário de um navegador de que, por enquanto, vou guardar segredo.JL
Deana Barroqueiro “Vou escrever romance histórico até ao fim da vida”
Gosto muito de dar aos leitores personagens verdadeiras da nossa História, os grandes valores, quase sempre literatos e que são hoje praticamente desconhecidos

05/01/2018

Crítica de Miguel Real ao «1640»

Miguel Real - Os Dias da Prosa - 03-01-2018 - Jornal de Letras

TEMPO BARROCO

Deana Barroqueiro substitui, no campo do romance histórico, o lugar da grande mestria de Fernando Campos. Apenas suportada na investigação histórica e num incansável labor de escrita tem criado uma obra singular neste género literário


1. 1NTRODUÇÃO. Com os seus recentes livros, nomeadamente O Corsário dos Sete Mares. Fernão Mendes Pinto (2012), a edição revista de D. Sebastião e o Vidente (2016) e o ora publicado, 1640, Deana Barroqueiro (DB) substitui, no campo do romance histórico, o lugar da grande mestria do desaparecido Fernando Campos. Sem grandes aparatos de imprensa, apenas suportada na investigação histórica e num incansável labor de escrita, DB tem vindo a criar uma obra absolutamente singular neste género literário. Com efeito, a escrita de um romance histórico exige do autor um espírito histórico, um domínio de factos históricos da época narrada, de formas de representação e governo, de conflitos políticos e institucionais e sua expressão militar, de hinos, canções guerreiras, uniformes, mitologia heroica, trajes… E DB possui e transmite para o leitor esse espírito de historiador, antes de mais na fidelidade ao domínio do léxico da época retratada, evidenciando uma imensa amplidão vocabular, talvez a maior entre os cultores deste tipo de romance. Depois, conhece em pormenor as roupas, a higiene pessoal, a alimentação, os períodos de atividade e inatividade, as profissões, os instrumentos de trabalho, os modos de culto do sagrado, as orações, as liturgias, os rituais de nascimento e morte, as formas de socialização, de divertimento, os espetáculos, os comportamentos marginais, os hábitos alternativos, heterodoxos e heréticos, a topografia e a toponímia da época. Estas são, digamos, as bases sérias e rigorosas em que assenta a escrita da autora.
       O romance histórico, antes de ser classificado como “histórico”, é um romance, isto é, possui um fim em si mesmo – o prazer estético da escrita e da leitura, adicionado à informação e ao conhecimento da história. Só secundariamente este género de narrativa serve para reconstruir a história, para a reinterpretar ou para a ensinar. Diferentemente, o prazer estético da leitura é sempre superior a outro propósito. O romance histórico não reinterpreta ou reconstrói a história segundo um ditame de verdade – tal como fora pensado no século XIX e na primeira metade do século XX (cf. Maria José Marinho, O Romance Histórico em Portugal, 1999). A sua função consiste em abrir um horizonte estético e lúdico às possibilidades contidas na História, fazendo-se eco das múltiplas verdades e das múltiplas perspetivas por que se desenrolam os factos sociais, algumas delas nunca acontecidas. Neste sentido, afastam-se da definição de romance histórico termos limitadores como “fidelidade”, “verdade”, “reprodução” ou “reconstituição”, “dados rigorosamente históricos”… Ainda que possa comportar essas categorias, eminentemente científicas, o seu sentido primeiro e último, e, portanto, a sua definição estatuidora, envolve sobretudo um fim estético. Se, de facto, o romance histórico envolve, pela sua natureza, um quantum de conhecimento, o seu quid, porém, é eminente e absolutamente estético.

2. O TEMPO. Assim, resta perguntar como DB transforma o vastíssimo conjunto de conhecimentos históricos em narrativa estética. A resposta parece ser, como já assinalei na recensão a O Corsário dos Sete Mares-Fernão Mendes Pinto, na “complexidade estrutural” por que envolve os seus romances, anulando a "narrativa linear" (introdução da autora a O Espião de D. João II, 2009, p. 10), ou seja, o elemento estético prevalecente na narrativa evidencia-se através do trabalho sobre a categoria de tempo. É o tempo (e não o espaço) que domina e é fortemente valorizado nos últimos romances de DB. Dito de outro modo, através da manipulação do Tempo a autora cria “um puzzle cujas inúmeras peças concorrem para formar um quadro final coerente e possível…” (introdução da autora a O Navegador da Passagem, 2008).
       O título do seu novo romance indicia esta valorização do trabalho sobre a categoria de tempo: 1640, o ano da Restauração. Por um lado, o ano emblemático denuncia o tema e todo o envolvimento histórico em seu torno; por outro, porque não reduz o romance ao acto político da Restauração, desencadeia o modo “labiríntico” ou “puzzlístico” pelo qual o trabalha, desdobrando o romance em quatro diferentíssimos quadros: o estético (“A professa”), a vida de soror Violante do Céu no convento da Rosa, em Lisboa; a vida de Brás Garcia Mascarenhas (“O poeta”) em Madrid, no Brasil e em Portugal, autor da epopeia Viriato Trágico e combatente de D. João IV nas Beiras; a vida de Francisco Manuel de Melo (“O prosador”) em Lisboa, em Madrid, na Flandres, no Brasil, na prisão e em liberdade; finalmente, a vida de padre António Vieira (“O pregador”) na Bahia, em Lisboa, na Europa, no Maranhão e Grão-Pará e de novo na Bahia para morrer.
       Como se constata, com a narração de tantos e tão diversificados territórios, a importância da unidade de espaço é diminuída e sobrevalorizada a de tempo. E como o sobrevaloriza DB? Narrando as diversas camadas por que se desdobra o tempo barroco da Restauração – o estético, o religioso, o social, o político, o militar, o diplomático, o institucional, o propriamente histórico. Usando um léxico da época, evidenciando a autora uma sólida erudição, cada um dos quatro quadros refere-se aos restantes três por via de ligações secundárias, gerando cruzamentos “labirínticos” numa escrita rendilhada ao nível da filigrana, própria da representação barroca.
       Isto é, 1640, centrando-se nas quatro personagens, recria labirinticamente o conhecimento e a representação da totalidade do século XVII, o século do Barroco: Violante do Céu expressa a poesia como refrigério e deleite e evidencia a vida hedonística das freiras no interior dos conventos ricos; Brás Garcia Mascarenhas narra a sua vida aventurosa e de como ela se transformou em poesia “trágica”, reiterando o nacionalismo e o independentismo então presentes em Portugal; D. Francisco Manuel de Melo mostra como Portugal se libertou do jugo de Castela e enfatiza a injustiça (ciúmes levantados por D. João IV?) que o levou à prisão e ao exílio; padre António Vieira denuncia fervorosamente o Santo Ofício como o grande, grande responsável pelo atraso europeu do país e missiona os índios tupi, convertendo-os ao cristianismo.
       Compondo um “xadrez de palavras” (Padre António Vieira), Deana Barroqueiro, valorizando o trabalho romanesco sobre o tempo, transmite no seu livro uma perfeita representação da escrita barroca, simultaneamente conceptista e cultista, jogando com os argumentos paradoxais, as antíteses, as comparações metafóricas, a retórica da persuasão, cruzando simultaneamente o lirismo de Violante do Céu, o estilo epopeico de Brás Garcia Mascarenhas, o criticismo galante e maneirista de D. Francisco Manuel de Melo (o camoniano “desconcerto do mundo, a ironia face ao fracasso existencial, a ambiguidade ontológica), bem como a eloquência expressiva do Padre António Vieira.

Miguel Real - Jornal de Letras

02/01/2018

21/11/2017

O novo romance de Deana Barroqueiro - 1640

Quatro guias singulares conduzem o leitor nesta viagem ao passado, através dos seus dramas pessoais e colectivos: o poeta proscrito Brás Garcia Mascarenhas, autor da epopeia Viriato Trágico; a professa Violante do Céu, a Décima Musa da poesia barroca, enclausurada no convento; D. Francisco Manuel de Melo, o maior prosador ibérico do século XVII, prisioneiro na Torre; e o Padre António Vieira, o mais brilhante pregador do seu tempo, a contas com a Inquisição.

17/11/2017

Peregrinação, de João Botelho e O Corsário dos Sete Mares, de Deana Barroqueiro

Fui ver o filme Peregrinação, de João Botelho, não só por gostar do trabalho do realizador, mas, sobretudo, com a curiosidade de ver como teria ele adaptado ao cinema a complexa obra de Fernão Mendes Pinto, a fim de o cotejar também com o meu próprio romance, O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto.
Pude constatar que João Botelho criou o guião a partir de textos da Peregrinação – a obra-prima deste anti-herói do século XVI, adaptada por Aquilino Ribeiro –, dos poemas de Fausto e do meu romance, o que muito me lisonjeou, embora João Botelho nunca me tenha contactado, nem à editora Leya, para pedir permissão para o fazer.
Porém, o que me deixou perplexa, foi não ver, na ficha técnica do filme,  qualquer menção ao romance O Corsário dos Sete Mares, atendendo a que o realizador adaptou um número muito considerável de personagens e episódios, em alguns casos com grande pormenor. Só o meu nome aparece, no final da ficha técnica, nos agradecimentos.
Mais espantada fiquei ao constatar, que em todas as informações do filme e  entrevistas do realizador, que tenho lido e ouvido, João Botelho nunca menciona o meu romance quando se refere às fontes a que recorreu para o guião, indicando apenas a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, a sua adaptação para crianças, por Aquilino Ribeiro e os poemas de Fausto. 
Participei o caso à minha editora e espero que, das reuniões que tem tido com os representantes de João Botelho, essa falha seja corrigida e que, o meu romance passe a ser referido, nos textos escritos e nas entrevistas sobre o filme.

Gostei da adaptação que João Botelho fez dos episódios do meu livro, em particular, nas cenas com personagens femininas, que não existem na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e que eu criei, a fim de fazer a minha narrativa mais realista, atribuindo ao “herói” algumas paixões, humanizando-o.
Os que leram O Corsário dos Sete Mares encontrarão no filme a minha personagem Meng, a amante chinesa, na cena do banho, com a bacia de água perfumada de flores; e a filha do «monteo», o capitão chinês que vai levar Pinto e os companheiros para a Muralha da China, a moça que toca e canta um belo poema, que ensina Pinto a ler mandarim e a conhecer os usos da terra. 
E também a violação da “noiva roubada”, por Pinto, que o realizador faz cometer a António Faria, o seu alter ego, no filme; as cenas das prostitutas e a da Senhora adúltera, assassinada pelo marido, ou o casamento de Pinto com a moça japonesa Wakasa, filha do armeiro, que também não fazem parte da Peregrinação, mas que os meus leitores reconhecerão do meu “Corsário dos Sete Mares”. 
O narrador do filme é, tal como na sua obra, o próprio Fernão Mendes Pinto, sendo o enredo tecido por vários episódios das suas viagens nos mares e reinos da Arábia, Samatra, China e Japão, excluindo muitos outros onde a sua acção deixou profundas marcas, como Burma e Sião. Uma opção compreensível, atendendo à escassez de meios para dar corpo às fabulosas narrativas de Pinto, o qual é retratado no filme de forma um tanto redutora, apenas como um miserável e esfarrapado pirata, mesmo nos episódios em que vai como embaixador a Samatra ou como rico comerciante ao Japão.
O passado e o presente do aventureiro entrelaçam-se, pontuados pela fabulosa música de Fausto. Gostei da adaptação de Botelho, embora sinta que o realizador poderia ter-se aventurado mais, indo um pouco mais longe.



18/10/2017

1640 - Novo romance de Deana barroqueiro


Caríssimos Leitores e Leitoras
Recebi ontem o primeiro exemplar do meu romance "1640". A ilustração da capa é um pormenor d o quadro da recuperação de Baía, por Juan Bautista Maíno (por volta de 1633), que corresponde a uma parte importante do livro e pode ter várias interpretações, porque a figura do almirante espanhol Dom Fradique (que aponta para o retrato de Dom Filipe IV), parece D. João IV, na sua pintura mais conhecida.

1640 é um marco fundamental na História de Portugal, o da Restauração da Independência, após 60 anos de domínio espanhol, quando os portugueses se revoltaram e elegeram um rei natural, D. João IV.
O romance surge na sequência do D. Sebastião e o Vidente, depois do trágico fim da monarquia de Avis e anexação de Portugal pela Espanha. A acção decorre entre 1617 e 1667, período riquíssimo em factos, dramas e personagens, que lutam pela sua libertação e sobrevivência, face a uma crise social, económica e política, imposta por Filipe IV/Olivares, coadjuvados por Diogo Soares e Miguel de Vasconcelos, um triunvirato que só terá paralelo na Troika de 2011.

Quatro guias singulares conduzem o leitor nesta viagem ao passado, através dos seus dramas pessoais e colectivos: o poeta proscrito Brás Garcia Mascarenhas, autor da epopeia Viriato Trágico; a professa Violante do Céu, a Décima Musa da poesia barroca, enclausurada no convento; D. Francisco Manuel de Melo, o maior prosador ibérico do século XVII, prisioneiro na Torre; e o Padre António Vieira, o mais brilhante pregador do seu tempo, a contas com a Inquisição.

O livro é grande (879 páginas com a bibliografia e as introduções), mas não foi possível fazer uma obra mais pequena, depois de tão longa pesquisa, apesar de ter cortado muito do que queria contar, de um período riquíssimo e fascinante da nossa História.
Ressalvo que a letra também é grande, para não tornar a leitura difícil.
Dedico este romance aos meus Leitores, porque sem eles (sem vós todos), esta parte fundamental da minha vida e do meu ser não teria razão de existir. Assim, bem hajam, com a minha imensa gratidão.
O lançamento do livro será no palácio Galveias (Campo Pequeno - Lisboa), no dia 23 de Novembro, às 18.30 h, apresentado por Miguel Real e Hélder Fernando.

08/09/2017

«1640» - o novo romance de Deana Barroqueiro

Caríssimos Amigos/Leitores:

Terminei ontem a última revisão do meu novo romance «1640». O livro foi uma verdadeira odisseia que terminou numa maratona, em termos de trabalho de pesquisa, de escrita, de fazer e desmanchar e voltar a escrever, desde 2004, com interrupções pelo meio, com incursões por uma época que eu conhecia bem, a dos Descobrimentos. Este romance vem na sequência do «D. Sebastião e o Vidente».

Dedico-vos a obra, meus queridos Leitores, porque, sem vós, meus Amigos, o meu mundo teria sido muito estreito e pequenino. Foi graças ao vosso interesse e prazer na minha escrita, que os meus horizontes se alongaram até onde não julguei possível chegar, em viagens inacreditáveis pelos caminhos da História e do Conhecimento. E me deu o incentivo de, apesar dos meus 72 anos, querer ir sempre mais além, não me deixar cair na tentação de fazer coisas mais fáceis, procurar antes fazer cada vez melhor, porque vos devo isso (e também a mim mesma). 

O tempo da narração vai de 1617 a 1667, o antes e o depois da Restauração de Portugal, quando, em 1640, se libertou de sessenta anos de domínio espanhol, um período riquíssimo de sucessos, porém, com uma crise que nos evoca a que sofremos há bem pouco tempo, e a que nem sequer falta uma espécie de troika, com a qual o leitor não deixará de fazer comparações e encontrar semelhanças.

A história do «1640» é contada por quatro personalidades apaixonantes, de grande renome entre os seus contemporâneos – o poeta épico Brás Garcia Mascarenhas, a freira poetisa Soror Violante do Céu, o fidalgo e grande prosador Dom Francisco Manuel de Melo e o pregador António Vieira. Quis iluminá-los, tirando-os do esquecimento, a que os tempos posteriores os condenaram, exceptuando Vieira.

Espero que os meus leitores achem prazer nas histórias que os protagonistas lhes narram, há-as para todos os gostos, mas, uma certeza tenho: ficarão a conhecer muito bem a mentalidade, os costumes e os grandes momentos nacionais e internacionais desse período do Século XVII. 

Também a estrutura do romance pretende evocar os modelos da época, construído em diálogos que introduzem os capítulos narrativos, como na obra Cortes na Aldeia, de Rodrigues Lobo, que os leitores da minha geração decerto conhecerão.

O livro sairá em Novembro. Ainda não vos posso mostrar a capa, que está em construção, mas espero poder fazê-lo, antes de partir de férias (merecidas, juro!) para a Índia. Neste momento sinto-me vazia. Tive de começar com a próxima obra que tenho em embrião, senão fico insuportável para quem me rodeia.

03/08/2017

Incêndios: Colónia de grifos nas Portas de Ródão reduzida a metade

José Lagiosa
A principal colónia de grifos que estava no monumento natural de Portas de Ródão, no concelho de Vila Velha de Ródão, ficou reduzida a menos de metade após o incêndio, disse hoje a Quercus à agência Lusa.
“Infelizmente, foi tudo destruído. A principal colónia [de grifos] ficou reduzida a menos de metade, com 11 ou 12 casais. Há ainda outras colónias mais pequenas que desapareceram. Desapareceram ainda um casal de abutre do Egito, dois de cegonha preta, vários de bufo real e depois todo um conjunto de outros animais que foi afetado”, afirmou Samuel Infante, da Quercus.
Apesar de a fauna ter sido bastante afetada pelo incêndio que lavrou na semana passada em Vila Velha de Ródão, no distrito de Castelo Branco, e que afetou o monumento natural de Portas de Ródão, o ambientalista sublinha que, apesar de grave, há capacidade de mobilidade e a sua regeneração é mais fácil.
Contudo, ao nível da flora, voltou a sublinhar que os zimbrais existentes nas Portas de Ródão, únicos no país, ficaram praticamente destruídos: “Vão
levar 200 anos a recuperar”.
Os ambientalistas estão ainda preocupados com a chegada das primeiras chuvas, uma vez que as cinzas impermeabilizam muito os solos.
“Vamos ver se não vai haver ali enxurradas, se não vai haver deslizamentos”, frisou.
A agência Lusa enviou, por escrito, no dia 27 de julho, um conjunto de questões ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade responsável pela gestão do monumento natural de Portas de Ródão, mas, até ao momento, não obteve qualquer resposta.
*Lusa / Foto: Eduardo Realinho

11/06/2017

Feira do Livro de Lisboa

Vou estar hoje, 11 de Junho, a partir das 17 horas, na Feira do Livro de Lisboa, na Praça Leya, para conversar com os leitores. Venham fazer-me companhia.


01/06/2017

3 de Junho - Feira do Livro de Lisboa

Venham conversar comigo no próximo Sábado, dia 3 de Junho, a partir das16 horas, no espaço LEYA.


Como não tenho livro novo, será mesmo conversa sobre o meu próximo romance que há-de sair em Outubro.


Apareçam, caros amigos, para mim, estar convosco, é o melhor dsta aventura da escrita. Um grande abraço.

Voltarei lá, no dia, no dia 11 de Junho, às 17 horas 



23/04/2017

Saiu no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 12 de Abril de 2017, o meu artigo sobre o romancista Fernando Campos, uma modesta homenagem àquele que eu considero ser um dos mestres do Romance Histórico, que muito me influenciou.


À Memória de Fernando Campos
«Sempre preferi ao conhecimento pessoal dos escritores, cujas obras admiro, a intimidade da sua escrita, a nudez de alma das personagens, a geografia encoberta de mundos criados para regalo do meu imaginário. Como escritora de romance histórico, sem jamais me ter cruzado com Fernando Campos, considero-o uma das influências maiores que me levaram a optar por este género literário que, além da imaginação criativa e do domínio das técnicas narrativas, mais exige do seu autor, em termos de tempo, trabalho de investigação e sacrifício pessoal.

Identifiquei-me de tal modo com a sua concepção de romance, aturada investigação documental, estilo, linguagem e universo ficcional que, por quatro vezes, tive de renunciar a temas e personagens sobre os quais pesquisara longamente e estava já a escrever, por Fernando Campos se ter adiantado a dar vida a D. Francisco Manuel de Melo, Damião de Góis, D. João II e ao falso D. Sebastião. A minha frustração e agastamento esfumavam-se, todavia, na leitura dessas obras que nunca me desiludiam.

«Não quero imitar ninguém, embora saiba que temos sempre em nós algo dos outros. Por isso leio muito pouco de quem poderia imitar». Fiz o mesmo com ele, por isso só mencionarei nesta memória os romances que mais me marcaram.

Apesar da qualidade inquestionável da sua obra e da sua importância como autor de referência, talvez tenha sido o perfil discreto de Fernando Campos, avesso a festivais literários, tertúlias e conferências, a impedi-lo de receber a merecida atenção dos media, que nas últimas décadas, exceptuando o JL, praticamente o ignoraram, privando-o de um maior reconhecimento público.
Bastou uma consulta à internet, para constatar como, fora do breve período do lançamento de um novo livro e, agora, as notícias da sua morte, são escassíssimos os textos sobre o escritor – recolhi cerca de uma dezena, sendo os mais relevantes uma curta entrevista e duas teses de mestrado, uma portuguesa e outra brasileira –, gritante testemunho da pequenez do nosso «universo cultural».

Campos sabia que o esquecimento dos seus maiores faz parte do ADN dos portugueses, um erro que procurou redimir com os seus romances, ao convocar do limbo Damião de Góis, D. Francisco Manuel de Melo, Frei Pantaleão de Aveiro, Gonçalo Mendes da Maia, a Beltraneja e outras personagens femininas, gente injustiçada no seu tempo e ignorada no Portugal dos nossos dias. Quis, assim, «fazer justiça ao esquecimento, (porque) nós esquecemo-nos de nós, somos preguiçosos, não gostamos de nós próprios. Somos uns infelizes e desgraçados, que dizemos mal de nós e não cuidamos das nossas coisas».

Um dos aspectos aliciantes dos seus romances resulta do modo como estabelece as difíceis relações do tempo passado da diegese, com o tempo presente da escrita. Entendia que, se o autor não respeitasse a veracidade dos factos e documentos, os vários níveis de contextualização e o espírito de época (que reflecte a atmosfera humana do tempo passado), acabaria por desacreditar e comprometer o r. histórico, enquanto género literário, ao despojá-lo da sua matriz, daquilo que o distingue dos outros tipos de romance. Campos recorre à ironia e à sátira para se distanciar e desmistificar a História, mas sem nunca cair no grotesco da paródia, tão nociva ao r. histórico como a exaltação cega dos heróis, que essa corrente desconstrutiva repudia.

No âmbito do confronto de ideias e teorias, cabe a discussão das relações da História e da Literatura, em que a verdade histórica, documentada, de uma época passada é confrontada, no tempo presente, pela verdade da ficção que a critica, contraria ou desmente. Campos arroga-se a liberdade de preencher os lapsos, lacunas, rasuras e silêncios da História, criando teses, interpretando e narrando aquilo que a historiografia não pode contar por falta de provas. «Respeito o que está documentado, o resto, invento», disse a propósito da pesquisa de anos para cada romance e do rigor que pautava a sua recriação de factos, ambientes, espaços, costumes, mentalidades e personagens.

Uma concepção de r. histórico mais ligada à História da Literatura do que à Historiografia, construindo em cada obra uma teia de intertextualidades documentais, literárias, filosóficas, religiosas, culturais, que envolvem o leitor e o transportam, em espírito e coração, para essa outra realidade, ficcionada contudo verosímil, onde ele se perde e se reencontra, numa viagem por universos paralelos de Passado/Presente.

  Campos afirmou que não buscava imitar outros escritores, mas tinha consciência de existirem nas suas obras «características aprendidas com os demais». Contudo, se a sua formação clássica foi, nas origens, beber inspiração a Alexandre Herculano, o criador do romance histórico português do Séc. XIX, o seu espírito criativo seguiu-lhe a sugestão para a inovação: O noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do que passa.

A Casa do Pó é exemplar. Encantou-me, e a milhares de leitores, pela qualidade do texto, da linguagem primorosa, dúctil e variada, próxima das suas fontes, mas também pela novidade do tratamento do r. histórico e pela coragem do autor em escolher personagens e temas portugueses, considerados menores pela elite intelectual.

A partir do texto quinhentista Itinerário da Terra Santa, de Frei Pantaleão de Aveiro, o autor concebe um r. histórico, na sua perspectiva mais abrangente, de género híbrido que, à recriação rigorosa de uma época passada, alia a narrativa de viagens na peregrinação a Jerusalém, a decifração de um enigma e a dolorosa busca do conhecimento do eu por Frei Pantaleão. O relato histórico é feito em 1ª pessoa, com monólogos interiores, descrições subjectivas da intimidade da personagem, que o aproximam do leitor e, simultaneamente, num processo de metaficção, criam um outro Itinerário – o de A Casa do Pó – livre da censura da Inquisição e das convenções do romance tradicional.

Um processo retomado com Damião de Góis, na sua narrativa dentro da narrativa, em A Sala das Perguntas, ou ainda, em A Esmeralda Partida, a partir de dois narradores, Garcia de Resende e a Tia Filipa, em que o primeiro apresenta a versão oficial dos factos, com a sua Crónica de D. João II, uma das fontes históricas de Campos, e a segunda mostra a «verdade íntima» dessa história, indizível no tempo das personagens. E, em O Lago Azul, crónica de menor fôlego, num registo mítico ou fantástico, a voz do vento relata uma vertiginosa sucessão de factos históricos, ao modo de um Tratado dos Descobrimentos de António Galvão, os quais deixam de ser o pano de fundo para a história da família do Prior do Crato, assumindo o estatuto de personagem principal. Narradores que dialogam com o leitor, reflectindo e questionando a história e a sua escrita.

O universo ficcional de Campos não é povoado de heróis épicos, sem mácula, mas de personagens sofridas, de carne e osso, sejam reis e rainhas em luta pelo poder (D. João II e D. Leonor em A Esmeralda Partida), um enigmático vagabundo-rei (A Ponte dos Suspiros), princesas pindéricas a viver de aparências, em O Lago Azul, livres-pensadores perseguidos e amordaçados, como Damião de Góis (A Sala das Perguntas) e D. Francisco Manuel de Melo (O Prisioneiro da Torre Velha) ou gente humilde e extraordinária na sua pequenez, vagamundos da vida percorrendo a senda de um sonho, em busca da felicidade num mundo melhor.
Como qualquer de nós.»
Deana Barroqueiro

19/04/2017

Revista Nova Águia

Saiu ontem o Nº 19 da Revista Nova Águia, na qual participei com o artigo

«AFONSO DE ALBUQUERQUE, DAREALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS»

19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
http://novaaguia.blogspot.pt/





06/04/2017

Os segredos do negócio de Fátima

O recinto sagrado moderniza-se para o centenário e deverá atingir o melhor resultado financeiro de sempre com a vinda do Papa Francisco. Como se expandiram os negócios de Fátima e se prepara o futuro? Qual é o poder do santuário? Que polémicas e preconceitos ensombram a terra dos “milagres”? A VISÃO levanta o manto sobre a face materialista da cidade que, este ano, espera recer mais de 8 milhões de visitantes.

A poucos meses do momento alto do ano (da visita do Papa Francisco), as ambições tocam o céu.  O Centenário das Aparições inspirou vários filmes sobre Fátima: duas produções de ficção internacional, uma nacional, dois documentários e uma película de animação 3D com o treinador José Mourinho e atriz Dalila Carmo a darem voz ao Papa e à Nossa Senhora.

“Promover” e “aumentar” são os verbos mais conjugados e abençoados por empresários e pela autarquia de Ourém. “Promover” a procissão das velas como potenciadora de mais noites de alojamento, “aumentar” a taxa de ocupação, a estada e o preço médio, e “promover” Fátima nos destinos emergentes: Ásia (Coreia do Sul e Filipinas) e a América (EUA, Brasil, Colômbia e México). “O esforço de promoção não se deve focar no País”, adverte Alexandre Marto. A ACISO tem quase 700 mil euros para “vender” Fátima ao mundo, com a maior fatia do projeto a ser assegurada por dinheiros públicos, nacionais e europeus.

As sombras do negócio

Por estes dias, abundam as notícias de que a capacidade hoteleira de Fátima está há muito lotada para a visita do Papa. A novidade não seria sequer essa – o destino sempre esgota nos dias 12 e 13 de maio “mas sim os valores praticados. Na verdade, porém, persistem alguns mistérios.

Na Casa das Irmãs Dominicanas, um três estrelas onde a VISÃO se instalou na noite de 15 para 16 de janeiro, os pacotes de três dormidas no fim de semana da deslocação papal, a 190 euros cada noite, já não estavam, de facto, disponíveis, mas avisaram que poderia haver desistências.

Esta segunda, 23, a pesquisa no Booking, sítio de reservas hoteleiras na internet, devolvia ainda três unidades em Fátima com quartos entre os 750 e os 4200 euros por noite. “Há sempre quem se aproveite, mas o que é justo cobrar aqui na época alta é o preço de veraneio no Algarve em agosto. Acima disso, não faz sentido”, assume Alexandre Marto, para quem Fátima “continua a ser o destino turístico mais barato do País”.

Na residencial de Júlio Moreira e Maria Rosa, por cima da loja de artigos religiosos e regionais na avenida que leva o nome do mais importante bispo de Fátima (D. José Alves Correia da Silva), ainda se disponibilizavam quartos para duas pessoas, com WC no corredor, mas a reserva era para um mínimo de três noites, a 200 euros.

De onde vem, pois, a ideia de que Fátima já esgotou? “É a maneira que os habilidosos têm de guardar alguns quartos e, chegada a altura da visita do Papa, pedirem o preço que lhes der na gana”, garante Helena Cardinali, dirigente da delegação de Fátima do Sindicato dos Trabalhadores da Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Centro, que reclama 500 pessoas sindicalizadas na freguesia. “Há hotéis a fazer acordos com apartamentos de particulares, alugam-se varandas para dormir ou ver passar o Papa, entre 1000 e 1200 euros, e, em maio, sabe-se sempre de casos de turistas a dormir no chão ou de suítes onde ficam sete pessoas. Enfim, um autêntico faroeste”, resume.

Como o seu próprio apelido indica, Helena veio da área do espetáculo.  Largou 36 anos de vida circense e empregou-se num hotel gerido por freiras. Primeiro no refeitório, depois noutras tarefas. Está em Fátima há 18 anos, seis deles no sindicalismo. No início, quando se deslocava a plenários e congressos, a plateia franzia as sobrancelhas mal ouvia o apelido Cardinali, enquanto ela subia ao púlpito. Então dizia: “Não venho aqui falar da minha vida no circo, mas do circo da vida que é passado em Fátima.” Ilusionista profissional, Helena conhece os truques da economia clandestina. “Das 5 mil pessoas que, na época alta, trabalham em Fátima, cerca de mil são precárias.”

O ordenado mínimo é regra: uma rápida consulta ao portal do Instituto de Emprego e Formação Profissional confirma-o. Mas também se paga abaixo do contratualizado. Ao sindicato chegam relatos de bradar aos céus: mães impedidas de amamentar em instituições privadas e da Igreja, jovens a ganhar um euro por cada cliente angariado para o restaurante, gente a trabalhar das seis da manhã à meia-noite, idas à casa de banho descontadas no ordenado, ou seja, “Fátima é quase um offshore para os direitos dos trabalhadores”, denunciou o sindicato.

E um dia bateu à porta Armindo Vieira... Homem de feições rudes, rosto sulcado pelo sofrimento, uma doença degenerativa obrigou-o a abandonar a construção civil e a reformar-se por invalidez. Mas ele pretendia trabalhar, “sentir-se útil”. Aos 51 anos, o guarda-noturno do Consolata Hotel não contém as lágrimas. Uma e outra vez. As frases saem a custo, entrecortadas por um choro sufocado.

A história é simples: durante sete anos, Armindo Vieira não gozou férias, não recebeu subsídios de qualquer espécie, prémios de antiguidade, nada. Contas feitas, cerca de 30 mil euros terão ficado para trás. Casado, dois filhos, levava para casa cerca de 520 euros. “Sempre que levantava problemas mostravam-me a porta de saída”, recorda.

A unidade hoteleira de Fátima para a qual Armindo ainda trabalha é gerida por uma sociedade que tem como sócio individual maioritário o Instituto Missionário da Consolata. O presidente da administração é o padre Elísio de Assunção. A instituição religiosa dedica-se “à tarefa evangelizadora da Igreja, vivendo em comunhão fraterna e professando a pobreza, a castidade e a obediência no espírito das bem-aventuranças evangélicas”, lê-se na sua página oficial.

Num intervalo dessa missão, entre julho de 2004 e agosto de 2005, teve uma conta no BPN. Mas uma burla praticada pelo gestor bancário, a pretexto de aplicações financeiras, obrigou o Estado e os contribuintes a devolver aos missionários da Consolata cerca de 4,5 milhões de euros.

Armindo Vieira sempre ouvira dizer que padres e freiras “tinham leis diferentes”. Viu-se desesperado. A mulher com ordenado mínimo, a filha a estudar em Lisboa, ele sem poder esticar o dinheiro. “Sabe o que é chegar ao fim do mês, abrir o porta-moedas e só lá ter mesmo moedas? Até a bica deixei de beber...” Tentaram iludi-lo, sentiu-se pressionado a aceitar uma bagatela para esquecer o passado. Recusou “esmolas”. Humilhado, insultado, diz, de olhos rasos de água, ter sofrido retaliações. Passou-lhe então tudo pela cabeça e quase iniciou uma greve de fome. Encaminharam-no para o sindicato e filiou-se.

Pressionada, a entidade patronal regularizou tudo desde 2015 para cá, exceto a antiguidade. Armindo teve direito a férias, aumento no ordenado. O resto, “que é muito”, continua por liquidar, embora o advogado da sociedade garanta terem sido cumpridas todas as obrigações contratuais. O caso foi também denunciado aos serviços da Autoridade para as Condições de Trabalho em Tomar, mas esta nem à VISÃO respondeu.

Armindo Vieira continua, por estes dias, sob o efeito de antidepressivos. Chora, suplica atenção quando desfia o seu rosário. “Aqui, o trabalhador é carne para canhão. Quem vem de fora pensa que isto é uma terra santa, mas quem trabalha com estas instituições é que sofre. O Deus desta gente é o dinheiro”, atalha, por ele, a sindicalista Helena Cardinali, ressalvando as exceções, para as quais “chegam os dedos de uma mão”.

Católico praticante, Armindo continua a ir à missa. “Mas senti um grande abalo na minha fé”, reconhece. Sentado na igreja, escuta as homilias e revolvem-se as tripas. “O discurso é o mesmo do sindicato, mas os padres não fazem nada, é só treta. Para mim, não há milagres”, desabafa, enxugando as lágrimas sem cessar e tentando recuperar o fôlego. “Isto aqui em Fátima não é só rosas, há muitos espinhos. Se andasse toda a gente descalça era uma tragédia”, desabafa. O caso de Armindo foi o mais grave que passou pelas mãos de Helena Cardinali. Mas ela jamais esquecerá a resposta ouvida durante um encontro na reitoria, com os responsáveis do santuário, quando tentava solucionar o problema de outra trabalhadora: “Isto aqui é zona branca. Não se aplicam leis.”

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05/03/2017

Sapo envia mensagens com palavrões

Com que direito é que os serviços  SAPO enviam mensagens com palavrões para o meu telemóvel?

Recebi esta manhã uma mensagem em que me transcreviam uma frase de um dirigente de um clube de futebol, que, depois de vencer as eleições, expressava a sua satisfação com palavrões e insultos. Ora eu,  que não me interesso por futebol e ainda gosto menos de palavrões, que não cultivo relações com gente grosseira, sinto-me profundamente indignada com o envio destas mensagens, que considero um abuso e uma ofensa da parte de quem as manda. Uma empresa de comunicação não deve ter  critérios de valor e de civismo?

E os ditos serviços impedem que lhe demos resposta, exigindo outro critério de escolha, apenas posso bloquear a mensagem... que já recebi, o que não me impedirá de receber outras do mesmo jaez.

Como é que se pode impedir que a SAPO ou outras empresas enviem este lixo? Prefiro não receber notícias de todo.

Parece que a civilidade e a educação deixaram de ser valores em Portugal, em particular, em serviços de comunicação que se deviam pautar pela qualidade e bom gosto.

 Deana Barroqueiro