DN - Opinião - por Gabriela Canavilhas, deputada do Grupo Parlamentar do PS
A colecção de arte que foi do Banco Português de Negócios (BPN) e que incluiu um fundo constituído por 85 obras do pintor surrealista Joan Miró - um dos nomes maiores da História da Arte Ocidental - passou, finalmente, para a propriedade do Estado após concluído o processo de privatização do BPN, sendo actualmente, portanto, património público de todos os portugueses.
"Activos extravagantes", assim se referia Miguel Cadilhe à colecção de arte do banco a que presidiu no final de 2008, activos que pretendia transformar em "dinheiro fresco", tal como fez saber em entrevistas dadas à comunicação social. Mas o problema era, na altura e até muito recentemente, a efectiva titularidade/propriedade das obras de arte.
Só em novembro de 2011, com a venda do BPN ao Banco BIC, se determinou finalmente quais os activos que transitariam para a posse do Estado. E mesmo assim, o complicado processo de identificação dos bens, das imparidades, das dívidas, bem como da definição do que pertencia ao Grupo SLN/Galilei ou ao Grupo BPN, e ainda do apuramento da titularidade de 104 sociedades offshores dentro do perímetro do BPN, todas estas questões arrastaram o assunto da propriedade jurídica da coleção de arte até ao início de 2013.
Em março de 2012 dá-se a última transação de activos para as empresas públicas criadas para absorver os chamados "activos tóxicos" do BPN, entre elas a Parvalorem, que recebeu 17 quadros de Miró. As remanescentes 68 obras de Miró, registadas como propriedade de 4 offshores pertencentes à Marazion detida pela Galilei/SLN, passaram finalmente para o Estado em dezembro de 2012, após demoradas negociações.
Conclusão, a única herança positiva de todo este inclassificável dossier BPN - do qual o mínimo que se pode dizer é que o erário público acabou a custear os lucros privados de uns quantos cidadãos pertencentes ao inner circle de um certo poder - o único benefício dizia eu, foi ter caído do céu, nos braços do Estado, uma colecção de 85 obras de Joan Miró, algo que Portugal nunca imaginou algum dia poder almejar.
E que faz o Estado? Congratula-se com esta colecção e junta-a ao espólio dos museus portugueses, como o Museu do Chiado ou o Museu do Surrealismo em Famalicão? Transforma-a numa atracção turística de qualidade que nos aproxima de Nova Iorque, Paris, Madrid ou Barcelona com a oferta privilegiada de obras de Miró que ajudarão investigadores, curiosos, turistas, especialistas e público anónimo a compreender os caminhos da arte no século XX? Não. Decide vender em leilão internacional, antes sequer de mandatar a Direcção do Património Cultural para a inventariar e avaliar, e sem nunca a mostrar ao público português, num processo inédito de total opacidade que roça a clandestinidade deliberada.
Em Portugal não existe nenhum acervo de Miró ou de outro pintor deste período com magnitude e grandeza que se lhe compare, quer em valor artístico, quer em valor patrimonial. Infelizmente, da sua dupla dimensão material e imaterial, o governo apenas lhe reconhece o valor patrimonial, ignorando por completo o seu maior valor - aquele que perdura para além dos "mercados" e que continuará a perdurar muito depois de se ter apagado da memória e da História o rasto da passagem destes governantes (e dos seus ajudantes) pelo nosso triste país.
Se Portugal vender a colecção, será aberto um precedente nunca antes visto: obras de arte, públicas, serão vendidas por decisão de contabilistas tecnocratas, sem que tenha havido qualquer avaliação técnica e artística sobre o valor cultural que representam para o País! Nem em Detroit, cidade em bancarrota, as intenções do gestor da dívida pública de vender parte da coleção do Detroit Institute of Arts Museum foram bem-sucedidas - o procurador-geral do Estado do Michigan, Bill Schuette, proibiu a sua venda e o Senado começou a preparar legislação que dará garantias jurídicas a esta decisão.
Por cá, o secretário de Estado da Cultura exibe a sua irrelevância confirmando a falta de prioridade das artes neste governo e o primeiro-ministro, junto com o ex-administrador da Tecnoforma, actual presidente da Parvalorem, esquecem-se que, enquanto gestores da coisa pública, são meros "governantes de turno", não são donos, são apenas cuidadores temporários de algo que é dos portugueses de hoje e que deveria continuar a ser dos portugueses de amanhã.
23/01/2014
21/01/2014
O caso da biblioteca que o conde inglês roubou ao bispo do Algarve
Matéria de Luís Miguel Queirós publicada no site do jornal Público:
Numa concorrida assembleia geral, a Associação Faro 1540 aprovou por unanimidade, no dia 17 de Dezembro, a decisão de pedir à Universidade de Oxford que devolva a importante colecção de incunábulos que pertenceu ao bispo do Algarve D. Fernando Martins Mascarenhas, saqueada do Paço Episcopal, em 1596, pelo aristocrata e corsário inglês Robert Devereux, 2.º conde de Essex.
Criada em 2009 e vocacionada para a defesa do ambiente e do património, a Faro 1540 (o nome evoca a data de elevação a cidade da actual capital algarvia) enviou já a sua petição à Universidade de Oxford – a cuja biblioteca, a Bodleian Library, Devereux doou os livros pilhados –, e também ao Governo britânico e ao Palácio de Buckingham, residência oficial da rainha em Londres.
Além de pedir a devolução da biblioteca do bispo – cerca de 90 volumes –, a associação solicita ainda o regresso do único exemplar conhecido daquela que será a mais antiga obra impressa em Portugal: uma versão hebraica do Pentateuco (compilação dos primeiros cinco livros da Bíblia) impressa em Faro, no ano de 1487, pelo tipógrafo judeu Samuel Gacon. O dito exemplar está hoje na British Library, a biblioteca nacional do Reino Unido, e Bruno Lage, presidente da associação farense, admite que o volume possa ter integrado o saque do conde de Essex, ainda que reconheça não existirem provas que confirmem essa hipótese.
“Foi quase de certeza pilhado nessa época, mas não se pode afirmar que estava no espólio do bispo”, disse ao PÚBLICO o responsável da Faro 1540, observando que este exemplar do Pentateuco “tem um valor simbólico muito elevado para Faro, mas é apenas mais um livro para os ingleses”.
A petição, que a associação também fez chegar ao secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, à Câmara Municipal de Faro e ao actual bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas, termina com um voto de confiança nas instituições inglesas: “Estamos certos de que as autoridades britânicas saberão reconhecer a justiça da nossa pretensão e que farão justiça a um país amigo (onde vigora entre os dois países a mais antiga aliança diplomática do mundo) e a uma cidade que se orgulha da sua história milenar e do seu contributo para a cultura portuguesa e europeia.”
Se se vier a provar que o optimismo da Faro 1540 foi precipitado e os livros continuarem onde têm estado ao longo dos últimos 400 anos, a petição, divulgada na imprensa local e nacional, terá servido pelo menos para chamar a atenção dos farenses para a história da sua cidade. “Depois de aparecerem as notícias, percebemos que muita gente, em Faro, desconhecia este episódio”, diz Bruno Lage.
As armas do bispo
Nem as autoridades portuguesas nem as inglesas responderam até agora à associação algarvia. A Secretaria de Estado da Cultura confirmou ao PÚBLICO a recepção do documento, mas adianta apenas que este será “oportunamente analisado”. Já a Universidade de Oxford não esclarece se recebeu a petição e limita-se a informar que “não fará, neste momento, qualquer declaração ou comentário”.
Nem as autoridades portuguesas nem as inglesas responderam até agora à associação algarvia. A Secretaria de Estado da Cultura confirmou ao PÚBLICO a recepção do documento, mas adianta apenas que este será “oportunamente analisado”. Já a Universidade de Oxford não esclarece se recebeu a petição e limita-se a informar que “não fará, neste momento, qualquer declaração ou comentário”.
De resto, mesmo que considerasse o assunto passível de ponderação, não seria muito provável que pudesse desde já responder positivamente ao pedido da Faro 1540, uma vez que este não foi, por enquanto, assumido pelo Estado português, e não é sequer claro a que concreta instituição deveria a universidade entregar os livros, caso admitisse devolvê-los.
O PÚBLICO pediu também à Bodleian Library uma relação dos livros que pertenceram indubitavelmente à biblioteca do bispo D. Fernando Martins Mascarenhas, mas não recebeu ainda resposta a esta solicitação. Note-se que a petição não inventaria os títulos em causa, adiantando apenas que a colecção é “constituída por 65 títulos (num total de 91 volumes)”. Bruno Lage adianta ainda a informação de que 43 desses títulos seriam obras de carácter teológico – oito dos quais relativos a S. Tomás de Aquino – e 18 teriam natureza jurídica.
Num extenso artigo dedicado ao episódio do saque da biblioteca do bispo do Algarve, Peter Kingdon Booker, um inglês residente em Portugal que se tem dedicado ao estudo e divulgação da história algarvia, adianta que, além destes 65 títulos, que ostentam as armas do bispo gravadas a ouro, a biblioteca de Oxford possui ainda um outro livro e um manuscrito que apresentam dedicatórias a D. Fernando Martins Mascarenhas. Também estes foram doados por Essex ao seu amigo Thomas Bodley, que estava então a refundar a biblioteca da universidade inglesa, pelo que não há grandes dúvidas de que terão sido pilhados na mesma ocasião.
O texto de Booker, publicado no site da Algarve History Association, chama ainda a atenção para o facto de não ser certo que estes livros constituam a totalidade dos que Essex trouxe de Faro, quer porque o conde pode ter conservado alguns, quer porque a biblioteca do bispo pode não ter sido o único local da cidade onde Devereux pilhou livros.
E antes de atacar Faro, em Julho de 1596, Devereux já saqueara a cidade espanhola de Cádis, de onde igualmente trouxera alguns livros que depois ofereceu a Thomas Bodley. Booker precisa que a doação do aventureiro inglês à Bodleian Library totalizou 176 títulos, correspondentes a 215 volumes.
Se as armas do bispo garantem a proveniência das obras que as exibem, a ausência delas não assegura que não tenham sido igualmente pilhadas do Paço Episcopal. Algumas poderiam ter pertencido, sugere Bruno Lage, ao predecessor de D. Fernando Mascarenhas, o bispo D. Jerónimo Osório.
O ataque a Faro
Quando se dá o ataque do conde de Essex, Faro era cidade há pouco mais de meio século, por foral de D. João III, e só em 1577 recebera a sede do bispado algarvio, até então localizada em Silves. E Portugal estava submetido desde 1580 ao monarca castelhano, o que recomenda que se avalie este episódio no contexto do conflito entre Inglaterra e Espanha, que tivera um momento marcante em 1588 com a derrota da chamada Armada Invencível de Filipe II, e que iria prolongar-se pelos primeiros anos do século XVII.
Quando se dá o ataque do conde de Essex, Faro era cidade há pouco mais de meio século, por foral de D. João III, e só em 1577 recebera a sede do bispado algarvio, até então localizada em Silves. E Portugal estava submetido desde 1580 ao monarca castelhano, o que recomenda que se avalie este episódio no contexto do conflito entre Inglaterra e Espanha, que tivera um momento marcante em 1588 com a derrota da chamada Armada Invencível de Filipe II, e que iria prolongar-se pelos primeiros anos do século XVII.
O que não invalida o facto de Essex, como Devereux era conhecido em Inglaterra, ser mais um corsário, um aventureiro, do que propriamente um oficial devotado ao cumprimento escrupuloso das ordens da rainha. Espécie deplayboy quinhentista, foi durante muito tempo o favorito de Isabel I e, embora esta tivesse mais 34 anos do que ele, os historiadores acreditam que terá sido também seu amante.
Indisciplinado por natureza, a rainha tratava-o com indulgência, mas Essex irritou-a ao casar-se sem a sua bênção, e voltou a irritá-la quando assinou, sem autorização, uma trégua com o líder da sublevação irlandesa. A gota de água foi a tentativa de golpe de Estado que o conde liderou em 1601, tentando tomar Londres. O facto de em tempos lhe ter dado o seu coração, não impediu Isabel de lhe reclamar a cabeça: Robert Devereux foi a última pessoa a ser decapitada na torre de Londres.
E tendo em conta que só em 1600, um ano antes de perder literalmente a cabeça, doou a Thomas Bodley os livros que roubara no Algarve, foi uma sorte que a valiosa colecção do bispo acabasse na biblioteca de Oxford. Se Essex tivesse esperado um pouco mais, não se sabe que destino poderia ter tido o espólio de um aristocrata caído em desgraça e executado.
Juntamente com o conde de Nottingham, Devereux liderou as tropas que desembarcaram perto de Faro, na barra então chamada Ferrobilhas, no dia 23 de Julho de 1596. Os ingleses dirigiram-se à cidade, que encontraram mal defendida, já que boa parte da guarnição fora enviada a reforçar as defesas de Lagos. Depois de ter conseguido um valiosíssimo saque em Cádis, que atacara no início desse mesmo mês de Julho, Essex ficou deveras desapontado com a pouca riqueza que encontrou em Faro, e terá sido por isso que, irritado, mandou atear uma série de fogos, que destruíram igrejas e conventos e deixaram a cidade em muito mau estado.
Um “triste incidente que mancha a memória das boas relações que Portugal mantém com a Inglaterra desde a assinatura do Tratado de Windsor” em 1386, lê-se na petição enviada às instituições britânicas pela Faro 1540. E a própria Bodleian Library, num conjunto de documentos nos quais apresenta a sua colecção de incunábulos, refere o assalto a Faro como um “ataque corsário” (“buccaneering raid”). E diz expressamente que Essex “saqueou” (“looted”) a biblioteca do bispo.
Caso a Universidade de Oxford se venha a sentir obrigada a responder a esta petição, é improvável que tente defender a legitimidade das acções do conde de Essex à luz do conflito anglo-espanhol. Mas há vários argumentos que pode esgrimir em favor da conservação dos livros em Oxford, e o texto de Peter Kingdon Booker já adianta alguns deles.
Booker conta que conheceu em 2007 uma inglesa, a quem trata apenas pelo nome próprio Dorothy, que já então andava a tentar convencer a Bodleian Library a devolver os livros saqueados por Essex em Faro. Dorothy cedeu a Booker as cartas que recebeu de um responsável da biblioteca de Oxford, nas quais este defende que a devolução generalizada de peças como estas levaria a que as bibliotecas e museus em todo o mundo entrassem num período de tumulto.
Booker conta que conheceu em 2007 uma inglesa, a quem trata apenas pelo nome próprio Dorothy, que já então andava a tentar convencer a Bodleian Library a devolver os livros saqueados por Essex em Faro. Dorothy cedeu a Booker as cartas que recebeu de um responsável da biblioteca de Oxford, nas quais este defende que a devolução generalizada de peças como estas levaria a que as bibliotecas e museus em todo o mundo entrassem num período de tumulto.
Lembrando que os séculos XVI e XVII assistiram a grandes convulsões políticas, o bibliotecário, cujo nome Booker não cita, recorda que algumas das obras da biblioteca original de Oxford estão hoje em São Petersburgo ou em Roma. E conclui (na transcrição de Booker): “Se virmos estes volumes como parte de uma vasta colecção europeia, não pode ter importância em que zona da Europa estão, desde que sejam bem preservados, que a sua localização seja conhecida e que estejam disponíveis para consulta.”
É claro que, estando assegurado que os livros disporiam de idênticas condições em Faro, se poderia observar que o mesmo argumento, na sua indiferença por comezinhas questões de propriedade, deveria levar os responsáveis pela Bodleian Library a considerar que não havia nenhum motivo importante para os manter em Oxford.
Embora a biblioteca não pareça ter disponível no seu site uma lista dos livros provenientes da colecção do bispo, a consulta dos catálogos de incunábulos permite ir encontrando alguns, como uma compilação de obras de Guilelmus Alvernus – ou seja, o teólogo e filósofo escolástico Guillaume d’Auvergne (c.1180-1249), bispo de Paris –, cuja “encadernação do século XVI” tem gravadas, reza a respectiva descrição, “as armas de Fernando Martins Mascarenhas, bispo de Faro, às quais foi sobreposto, em ambas as capas, o brasão da Bodleian Library”.
Outro exemplo é o das Visiones de Cataldus Parisius Siculus, um humanista siciliano que viveu e ensinou em Portugal a partir dos finais do século XV. O livro foi impresso em Lisboa, em 1500, pelo impressor e tradutor Valentim Fernandes, natural da Morávia. Chegado a Portugal em 1495, Fernandes, editor do livro de Marco Polo e correspondente de Albrecht Dürer, foi uma das figuras mais importantes dos primórdios do livro impresso em Portugal.
Para lá da relevância da obra, este é um caso interessante por se tratar de um volume que não exibe as armas do bispo, mas que, mesmo assim, os próprios bibliotecários de Oxford admitem que possa ter-lhe pertencido. Os registos de doações indicam que a Bodleian terá recebido dois exemplares deste livro, mas apenas um chegou ao presente. E não se sabe se o que se conserva foi comprado com o auxílio de uma mecenas, Alice Chamberlain, ou se é “o exemplar de Fernando Martins Mascarenhas, bispo de Faro, doado por Robert Devereux”.
Publicado por Eduardo Coelho em Autores e Livros
Maria João Pires - No Silêncio de uma Nota
Maria
João Pires está nomeada para os Grammy Award. Nunca nenhum português
ganhou aquele que é o mais prestigiado prémio internacional da música.
Vamos ver dia 26 de Janeiro, em Los Angeles, se a melhor intérprete
mundial é portuguesa.
Veja aqui o documentário que a Panavideo realizou para a RTP2 sobre aquela que é considerada uma das melhores pianistas da atualidade a nível mundial.
Veja aqui o documentário que a Panavideo realizou para a RTP2 sobre aquela que é considerada uma das melhores pianistas da atualidade a nível mundial.
Maria João Pires começou a tocar aos 3 anos, interpretando de memória peças que ouvia a sua irmã mais velha tocar. Aos 5 anos deu o seu primeiro concerto com obras de Bach e Mozart e aos 16 concluiu o curso de piano no Conservatório com nota 20 valores. Isto foi apenas o início de um percurso que a levou até à Alemanha, que a fez conquistar vários prémios e que a tornou numa das maiores intérpretes da atualidade.
Mas Maria João Pires não é de todo uma pianista convencional. Paralelamente à sua performance nas maiores salas de espetáculo mundiais, Maria João Pires conduz um trator, amassa pão e cultiva a sua ligação a Terra.
20/01/2014
As Imagens Tempestuosas de Portugal no mundo
As Imagens Tempestuosas de Veselin Malinov
19/01/2014
Acordo ortográfico: acabar já com este erro antes que fique muito caro
O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser
tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever
português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é
uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um
instrumento de cultura e criação.
O acordo
vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da
memória e da história, de que a ortografia é um elemento fundamental, a
que assistimos todos os dias. E como os nossos governantes, salvo raras
excepções, pensam em inglês “economês”, detestam as humanidades, e
gostam de modas simples e modernices, estão bem como estão e deixam as
coisas andar, sem saber nem convicção.
O mais espantoso é que muitos do que atacaram o “eduquês” imponham este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, e que nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar. Ninguém que saiba escrever em português o quer usar, e é por isso que quase todos os escritores de relevo da língua portuguesa, sejam nacionais, brasileiros, angolanos ou
moçambicanos, e muitas das principais personalidades que têm intervenção pública por via da escrita, se recusam a usá-lo. As notas de pé de página de jornais explicando que, “por vontade do autor”, não se aplicam ao seu texto as regras da nova ortografia são um bom atestado de como a escrita “viva” se recusa a usar o acordo. E escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência na negação que devia obrigar a pensar e reconsiderar.
Se voltarmos ao lugar-comum em que se transformou a frase pessoana de que a “minha pátria é a língua portuguesa”, o acordo é um acto antipatriótico, de consequências nulas no melhor dos casos para as boas intenções dos seus proponentes, e de consequências negativas para a nossa cultura antiga, um dos poucos esteios a que nos podemos agarrar no meio desta rasoira do saber, do pensar, do falar e do escrever, que é o nosso quotidiano.
Aos políticos que decidiram implementá-lo à força e “obrigar” tudo e todos ao acordo, de Santana Lopes a Cavaco Silva, de Sócrates a Passos Coelho, e aos linguistas e professores que os assessoraram, comportando-se como tecnocratas – algo que também se pode ter do lado das humanidades, normalmente com uma militância mais agressiva até porque menos "técnicas" são as decisões –, há que lembrar a frase de Weber que sempre defendi como devendo ser inscrita a fogo nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo, morto pelo “ruído” do mundo. O acordo ortográfico nas suas intenções proclamadas de servir para criar uma norma do português escrito, de Brasília a Díli, passando por Lisboa pelo caminho, acabou por se tornar irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo de querer obrigar a escrita desses países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra.
O problema é que sobra para nós, os aplicantes solitários da ortografia do acordo. O acordo, cuja validade na ordem jurídica nacional é contestável, que nenhum outro país aprovou e vários explicitamente rejeitaram, só à força vai poder ser aplicado. A notícia recente de que, nas provas – que acabaram por não se realizar – para os professores contratados, um dos elementos de avaliação era não cometerem erros de ortografia segundo a norma do acordo mostra como ele só pode ser imposto por Diktat, como suprema forma de uma engenharia política que só o facto de não se querer dar o braço a torcer explica não ser mudado.
Porém, começa a haver um outro problema: os custos de insistirem no acordo. A inércia é cara e no caso do acordo todos os dias fica mais cara. A ideia dos seus defensores é criar um facto consumado o mais depressa possível. É esta a única força que joga a favor do acordo, a inércia que mantém as coisas como estão e que implica custos para o nosso défice educativo e cultural.
É o caso dos nossos editores de livros escolares que começaram a produzir manuais conforme o acordo e que naturalmente querem ser ressarcidos dos seus gastos. Mas ainda não é um problema insuperável e, acima de tudo, não é um argumento. Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e muita da “má despesa”. Porque será isso que o acordo será, se não se atalhar de imediato os seus estragos no domínio cultural.
O erro, insisto, foi no domínio da nossa política externa com os países de língua portuguesa, e esse erro é hoje mais do que evidente: os brasileiros, em nome de cuja norma ortográfica foram introduzidas muitas das alterações no português escrito em Portugal, nunca mostraram qualquer entusiasmo com o acordo e hoje encontram todos os pretextos para adiar a sua aplicação. No Brasil já houve vozes suficientes e autorizadas para negar qualquer validade a tal acordo e qualquer utilidade na sua aplicação. Os brasileiros que têm um português dinâmico, capaz de absorver estrangeirismos e gerar neologismos com pernas para andar muito depressa, sabem que o seu “português” será o mais falado, mas têm a sensatez de não o considerar a norma.
Nós aqui seguimos a luta perdida dos franceses para a sua língua falada e escrita, também uma antiga língua imperial hoje em decadência. Querem, usando o poder político e o Estado, manter uma norma rígida para a sua língua para lhe dar uma dimensão mundial que já teve e hoje não tem. Num combate insensato contra o facto de o inglês se ter tornado a língua franca universal, legislam tudo e mais alguma coisa, no limite do autoritarismo cultural, não só para protegerem as suas “indústrias” culturais, como para “defender” o francês do Canadá ao Taiti. Mas como duvido que alguém que queira obter resultados procure no Google por “logiciel”, em vez de “software”, ou “ordinateur”, em vez de “computer”, este é um combate perdido.
Está na hora de acabar com o acordo ortográfico de vez e voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para outros lados onde melhor se defende o português, como por exemplo não deixar fechar cursos sobre cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em livro, incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras. Tenho dificuldade em conceber que quem escreve aspeto – o quê? – em vez de aspecto, em português de Portugal, o possa fazer.
Público18/01/2014
É um acto político falhado
na área da política externa, cujas consequências serão gravosas
principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da
língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de
um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que
vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele.
O mais espantoso é que muitos do que atacaram o “eduquês” imponham este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, e que nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar. Ninguém que saiba escrever em português o quer usar, e é por isso que quase todos os escritores de relevo da língua portuguesa, sejam nacionais, brasileiros, angolanos ou
moçambicanos, e muitas das principais personalidades que têm intervenção pública por via da escrita, se recusam a usá-lo. As notas de pé de página de jornais explicando que, “por vontade do autor”, não se aplicam ao seu texto as regras da nova ortografia são um bom atestado de como a escrita “viva” se recusa a usar o acordo. E escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência na negação que devia obrigar a pensar e reconsiderar.
Se voltarmos ao lugar-comum em que se transformou a frase pessoana de que a “minha pátria é a língua portuguesa”, o acordo é um acto antipatriótico, de consequências nulas no melhor dos casos para as boas intenções dos seus proponentes, e de consequências negativas para a nossa cultura antiga, um dos poucos esteios a que nos podemos agarrar no meio desta rasoira do saber, do pensar, do falar e do escrever, que é o nosso quotidiano.
Aos políticos que decidiram implementá-lo à força e “obrigar” tudo e todos ao acordo, de Santana Lopes a Cavaco Silva, de Sócrates a Passos Coelho, e aos linguistas e professores que os assessoraram, comportando-se como tecnocratas – algo que também se pode ter do lado das humanidades, normalmente com uma militância mais agressiva até porque menos "técnicas" são as decisões –, há que lembrar a frase de Weber que sempre defendi como devendo ser inscrita a fogo nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo, morto pelo “ruído” do mundo. O acordo ortográfico nas suas intenções proclamadas de servir para criar uma norma do português escrito, de Brasília a Díli, passando por Lisboa pelo caminho, acabou por se tornar irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo de querer obrigar a escrita desses países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra.
O problema é que sobra para nós, os aplicantes solitários da ortografia do acordo. O acordo, cuja validade na ordem jurídica nacional é contestável, que nenhum outro país aprovou e vários explicitamente rejeitaram, só à força vai poder ser aplicado. A notícia recente de que, nas provas – que acabaram por não se realizar – para os professores contratados, um dos elementos de avaliação era não cometerem erros de ortografia segundo a norma do acordo mostra como ele só pode ser imposto por Diktat, como suprema forma de uma engenharia política que só o facto de não se querer dar o braço a torcer explica não ser mudado.
Porém, começa a haver um outro problema: os custos de insistirem no acordo. A inércia é cara e no caso do acordo todos os dias fica mais cara. A ideia dos seus defensores é criar um facto consumado o mais depressa possível. É esta a única força que joga a favor do acordo, a inércia que mantém as coisas como estão e que implica custos para o nosso défice educativo e cultural.
É o caso dos nossos editores de livros escolares que começaram a produzir manuais conforme o acordo e que naturalmente querem ser ressarcidos dos seus gastos. Mas ainda não é um problema insuperável e, acima de tudo, não é um argumento. Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e muita da “má despesa”. Porque será isso que o acordo será, se não se atalhar de imediato os seus estragos no domínio cultural.
O erro, insisto, foi no domínio da nossa política externa com os países de língua portuguesa, e esse erro é hoje mais do que evidente: os brasileiros, em nome de cuja norma ortográfica foram introduzidas muitas das alterações no português escrito em Portugal, nunca mostraram qualquer entusiasmo com o acordo e hoje encontram todos os pretextos para adiar a sua aplicação. No Brasil já houve vozes suficientes e autorizadas para negar qualquer validade a tal acordo e qualquer utilidade na sua aplicação. Os brasileiros que têm um português dinâmico, capaz de absorver estrangeirismos e gerar neologismos com pernas para andar muito depressa, sabem que o seu “português” será o mais falado, mas têm a sensatez de não o considerar a norma.
Nós aqui seguimos a luta perdida dos franceses para a sua língua falada e escrita, também uma antiga língua imperial hoje em decadência. Querem, usando o poder político e o Estado, manter uma norma rígida para a sua língua para lhe dar uma dimensão mundial que já teve e hoje não tem. Num combate insensato contra o facto de o inglês se ter tornado a língua franca universal, legislam tudo e mais alguma coisa, no limite do autoritarismo cultural, não só para protegerem as suas “indústrias” culturais, como para “defender” o francês do Canadá ao Taiti. Mas como duvido que alguém que queira obter resultados procure no Google por “logiciel”, em vez de “software”, ou “ordinateur”, em vez de “computer”, este é um combate perdido.
Está na hora de acabar com o acordo ortográfico de vez e voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para outros lados onde melhor se defende o português, como por exemplo não deixar fechar cursos sobre cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em livro, incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras. Tenho dificuldade em conceber que quem escreve aspeto – o quê? – em vez de aspecto, em português de Portugal, o possa fazer.
Público18/01/2014
15/01/2014
Suicídio de jovem em Braga alvo de inquérito - Portugal - DN
O caso de bullying ocorreu na EB 2,3 de Palmeira, Braga
Fotografia © Gonçalo Delgado / Global Imagens
A Inspeção-Geral de Educação e Ciência vai abrir um inquérito para identificar eventuais situações de "bullying" numa escola de Braga, que poderão estar na origem do suicídio de um aluno de 15 anos, anunciou o ministro Nuno Crato. Autoridades policiais suspeitam que terá havido outras motivações para o suicídio de Nelson Antunes.
"Queremos apurar os factos", disse o ministro da Educação, quando questionado pelos jornalistas sobre o caso, que terá resultado pelo menos em parte dos maus tratos a que os colegas o terão sujeitado.
Nuno Crato classificou o "bullying" como "um fenómeno intolerável" nas escolas: "Temos de o atacar desde o princípio. É uma falta de respeito pelos colegas, pela comunidade escolar e, como tal não o podemos tolerar".
O ministro não quis comentar o caso, embora tenha manifestado preocupação com o reportado.
"Não queria falar, nem tirar lições deste caso antes de conhecer os factos reais", disse, transmitindo condolências à família.
"As nossas preocupações vão também para os colegas, para os professores e para a escola. Está nomeada uma comissão de inquérito e o inquérito vai começar", indicou.
A GNR tomou conta da ocorrência mas não faz qualquer ligação entre um suposto caso de "bullying' na Escola EB 2,3 de Palmeira, Braga, e o suicídio.
Fonte da guarda garante que não chegou àquela força qualquer queixa dos pais ou dos responsáveis da escola, mas sublinhou que essa não é condição indispensável para o avanço das investigações, porque o crime de violência escolar, que inclui o "bullying", é público. No entanto terá de ser o tribunal a decidir, tendo o caso já sido participado ao Ministério Público.
O aluno suicidou-se no sábado, tendo alegadamente deixado uma carta destinada à mãe e outra à namorada.
Amigos contam que, entre outras situações, o jovem chegou a ser despido no recreio da escola.
Entretanto a escola indica já ter aberto uma investigação a um incidente que terá envolvido o estudante, sepultado esta tarde em Adaúfe, nos arredores de Braga.
O novo crime de violência escolar, aprovado em outubro de 2010, na generalidade, em Conselho de Ministros, é punido com pena de um a cinco anos de prisão, segundo anunciou na altura a então ministra da Educação, Isabel Alçada.
No caso dos menores de 16 anos, são aplicadas, em alternativa, medidas tutelares educativas, já que estes jovens são "inimputáveis para efeitos da lei penal" portuguesa. Quanto aos restantes agressores, a moldura penal é semelhante à aplicada nos casos de violência doméstica.
O projeto de lei do PS que criou aquele crime foi aprovado na Assembleia da República a 21 de janeiro de 2011.
Nuno Crato classificou o "bullying" como "um fenómeno intolerável" nas escolas: "Temos de o atacar desde o princípio. É uma falta de respeito pelos colegas, pela comunidade escolar e, como tal não o podemos tolerar".
O ministro não quis comentar o caso, embora tenha manifestado preocupação com o reportado.
"Não queria falar, nem tirar lições deste caso antes de conhecer os factos reais", disse, transmitindo condolências à família.
"As nossas preocupações vão também para os colegas, para os professores e para a escola. Está nomeada uma comissão de inquérito e o inquérito vai começar", indicou.
A GNR tomou conta da ocorrência mas não faz qualquer ligação entre um suposto caso de "bullying' na Escola EB 2,3 de Palmeira, Braga, e o suicídio.
Fonte da guarda garante que não chegou àquela força qualquer queixa dos pais ou dos responsáveis da escola, mas sublinhou que essa não é condição indispensável para o avanço das investigações, porque o crime de violência escolar, que inclui o "bullying", é público. No entanto terá de ser o tribunal a decidir, tendo o caso já sido participado ao Ministério Público.
O aluno suicidou-se no sábado, tendo alegadamente deixado uma carta destinada à mãe e outra à namorada.
Amigos contam que, entre outras situações, o jovem chegou a ser despido no recreio da escola.
Entretanto a escola indica já ter aberto uma investigação a um incidente que terá envolvido o estudante, sepultado esta tarde em Adaúfe, nos arredores de Braga.
O novo crime de violência escolar, aprovado em outubro de 2010, na generalidade, em Conselho de Ministros, é punido com pena de um a cinco anos de prisão, segundo anunciou na altura a então ministra da Educação, Isabel Alçada.
No caso dos menores de 16 anos, são aplicadas, em alternativa, medidas tutelares educativas, já que estes jovens são "inimputáveis para efeitos da lei penal" portuguesa. Quanto aos restantes agressores, a moldura penal é semelhante à aplicada nos casos de violência doméstica.
O projeto de lei do PS que criou aquele crime foi aprovado na Assembleia da República a 21 de janeiro de 2011.
Suicídio de jovem em Braga alvo de inquérito - Portugal - DN
«EXPLOSÃO» DE VÍTOR PEREIRA EM CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
As ditaduras muçulmanas e a censura:
Depois das já célebres conferências de imprensa de Toni quando orientava os iranianos do Tractor, outro treinador português faz furor online. Vítor Pereira, ex-técnico do FC Porto, irritou-se com o responsável de comunicação do Al Ahly durante a conferência de rescaldo após a derrota frente ao Al Ittifaq, na Arábia Saudita.
02/01/2014
Os porcos da Europa que compram Bimbys
Há dois grandes jornais americanos - o Wall Street Journal e o Financial Times - que nomeiam os Portugueses por PORCOS, tendo criado e promovido a sigla PIGS para referir de forma sucinta e humorística (?) os países do sul da Europa que se defrontam com a crise (que os Estados Unidos criaram) - Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain).
De vez em quanto ressuscitam a sigla racista para nos ridicularizarem e nos mostrarem como porcos, preguiçosos, gente que só gosta de comer mas não de trabalhar, opinião bem documentada pela reportagem sobre os portugueses e os robôs alemães de culinária Bimbys, que transcrevi no post anterior. É uma pena que não vejam os esqueletos nos seus armários!
Creio que uma das razões para tão grande escândalo e motivo de sarcasmo se deve ao facto de ignorarem que, ao contrário do que acontece com a maioria das mulheres americanas (e ainda há bem pouco tempo as alemãs) que são domésticas, as portuguesas trabalham fora de casa todo o dia, tendo também o trabalho da casa e dos filhos, como as americanas ou as europeias ricas. É pena que as estatísticas destes jornais não mostrem, por comparação, o número de mulheres trabalhadoras num e noutro país. Espantar-se-iam, decerto!
Deixo-vos aqui a crónica de Pedro Tadeu sobre o tema. Pode ser que os PIGS se indignem e façam um sério boicote às Bimbys e a outros robôs alemães e americanos.
De vez em quanto ressuscitam a sigla racista para nos ridicularizarem e nos mostrarem como porcos, preguiçosos, gente que só gosta de comer mas não de trabalhar, opinião bem documentada pela reportagem sobre os portugueses e os robôs alemães de culinária Bimbys, que transcrevi no post anterior. É uma pena que não vejam os esqueletos nos seus armários!
Creio que uma das razões para tão grande escândalo e motivo de sarcasmo se deve ao facto de ignorarem que, ao contrário do que acontece com a maioria das mulheres americanas (e ainda há bem pouco tempo as alemãs) que são domésticas, as portuguesas trabalham fora de casa todo o dia, tendo também o trabalho da casa e dos filhos, como as americanas ou as europeias ricas. É pena que as estatísticas destes jornais não mostrem, por comparação, o número de mulheres trabalhadoras num e noutro país. Espantar-se-iam, decerto!
Deixo-vos aqui a crónica de Pedro Tadeu sobre o tema. Pode ser que os PIGS se indignem e façam um sério boicote às Bimbys e a outros robôs alemães e americanos.
O respeitado, influente e aparentemente empenhado em arruinar a nossa vida Wall Street Journal publicou uma reportagem sobre o que leva muitos portugueses a comprarem Bimbys. Avia-nos com uma frase-chavão: "Os portugueses adoram gadgets e, apesar dos tempos difíceis, parecem determinados em manter a sua tradição de se juntarem regularmente para jantar."
Acontece que neste 2013 que agora termina (já agora: bom ano de 2014, caro leitor ou leitora) esse robô de cozinha, que custa 966 euros, bateu um recorde de vendas. Exclama o WST ser caso único na Europa pois, em ano de crise, esta máquina "vende mais do que os últimos iPads em Portugal e é mais popular no Facebook do que a banda de rock mais conhecida do país".
Este é o mesmo WST que com o Financial Times popularizou a sigla PIGS (que, se for lida como palavra em inglês, significa "porcos") para definir os países europeus com problemas de dívida pública: Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain).
Os jornais adoram chavões. Quando um acontecimento se pode explicar através de um clichê, o jornalista, o editor e toda a cadeia alimentar do comércio da comunicação exultam: não há que investigar, não há que analisar, não há que pôr os neurónios a trabalhar. Basta mergulhar no lugar-comum, facilitador e útil na diminuição do trabalho dos leitores em conseguir entender o que lhes está a ser dito.
Quando não há chavões disponíveis para sintetizar uma situação, a tendência é tentar criá-los.
Já criei inúmeras frases ou adotei simples palavras postas em títulos de jornais que vieram a transformar-se em chavões. Não me gabo disso porque, à distância, essa capacidade profissional (hoje em dia tecnicamente inevitável) me embaraça pois, invariavelmente, um chavão reduz uma pessoa, uma situação, uma empresa, um partido, um governo ou até um país ao menor denominador comum e, consequentemente, à ridicularização perigosamente simplificadora da complexidade da vida.
Mas os jornais não são tratados de política, de sociologia ou de história e tentar fazer neles algo que ultrapasse a ambição do que é ilustrável com um simples chavão é, provavelmente, uma impossibilidade e, receio, um perigo ainda maior.
Reparo que os chavões do norte-americano Wall Street Journal sobre os portugueses podem ser descodificados assim: "porcos sem dinheiro, viciados em luxo e comida". É verdade que antes da vinda da Bimby já cá havia bimbos mas também é verdade que outros velhos chavões afirmam que os americanos são doidos consumistas, não sabem comer e exploram o mundo... Dá vontade de retaliar, não dá?
Even in Straitened Times, Portugal Loves Its Bimby Cooking Robots
O artigo sobre os portugueses (nomeados pelo jornal Wall Street e pelo Financial Times como fazendo parte dos PIGS, os "PORCOS", os paises do sul da Europa em dificuldades com a crise: Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha/Spain) e as Bimbys. A preguiça das portuguesas, gastadoras que não abdicam dos luxos desnecessários, apesar da crise (na opinião da jornalista). À parte o racismo desta sigla de PIGS, gostaria de saber quantos destes números são reais e verificáveis... Temos apanhado tanta aldrabice nos MEDIA americanos, que não me fio muito nos seus jornalistas. Lembram-me as Agências de Rating...
Números como: 3.7 milhões de lares portugueses terão a "prodigiosa" maquineta até ao fim de 2014!!! Das minhas relações familiares e próximas ninguém tem o dito objecto.
Quanto terá pago a marca Bimby à jornalista ao jornal americano ou apenas a uma tal "Mrs. Brito" portuguesa para ter esta promoção fantástica à nossa custa?

Números como: 3.7 milhões de lares portugueses terão a "prodigiosa" maquineta até ao fim de 2014!!! Das minhas relações familiares e próximas ninguém tem o dito objecto.
Quanto terá pago a marca Bimby à jornalista ao jornal americano ou apenas a uma tal "Mrs. Brito" portuguesa para ter esta promoção fantástica à nossa custa?
Segue o artigo:
German-Made Appliance Promises to Make Cooking Cheap and Easy
by PATRICIA KOWSMANN - Dec. 25, 2013 Wall Street Journal
LISBON—When Marta Brito lost her job, she says, she was rescued by a machine she is now so fond of, she almost considers it a friend. It is a multitasker that outsells high-end iPads in Portugal and is more popular on Facebook than the country's best-known rock band.
Bimby, a German-made cooking robot, has become an obsession in Western Europe's poorest country by promising to make cooking cheap and easy.
Bimby looks like a food-processor with a stainless-steel container and a steaming unit that weighs ingredients, chops, grates, blends, beats, mixes and cooks, all under the control of a timer that lets the cook step away from the kitchen until the food is ready.
Its popularity might seem surprising in a country that nearly defaulted on its debt in 2011 and had to accept painful budget slashing in return for an international bailout. But the Portuguese love gadgets and seem determined, despite hard times, to maintain their tradition of regularly getting together for dinner.y
"Bimby's maker has done a great job selling the machine as a money and time saver…particularly in a time restaurants have become prohibitive for many," said Joaquim Silva, a marketing lecturer at the University of Minho who used Bimby as a case study for his doctoral thesis on marketing.
Mr. Silva also pointed out that the Portuguese love fashionable items and respond readily to word-of-mouth advertising. No long infomercials here promising bliss are needed.
Vorwerk & Co., Bimby's manufacturer, has reported record sales in Portugal in each of the past three years, despite a $1,327 price that is nearly twice the monthly minimum wage. Last year the Portuguese bought more than 35,000 Bimbys, compared with 22,000 iPads priced above $700. According to Vorwerk's forecasts, 8% of the country's 3.7 million households will own a Bimby by the end of 2014.
Bimby was introduced here in 2000 and is sold in about 60 countries. Its market penetration in Portugal is particularly high.
Bimby has more than 100,000 likes on Facebook; the super-popular rock band Xutos & Pontapés has about 83,000. A Bimby magazine sells 35,000 copies a month in Portugal, more than fashion icon Vogue's Portuguese edition.
Owners tend to think of the robot as a feminine helper and, in conversations, refer to it as "she." The name has also morphed into a verb—bimbar. A member of Parliament recently called Deputy Prime Minister Paulo Portas "a governing Bimby" for taking on too many tasks under the various government positions he has held.
Ms. Brito, who three years ago barely had the patience to make soup, now calls herself a "bimbyholic." She bought her machine to help her juggle motherhood and a full-time job as a travel agent. When she lost her job in late 2010, she turned to her newfound taste for cooking. Now she spends a good part of her day trying new recipes, posting them on her blog—"Donabimby," or Mrs. Bimby—and answering questions from more than 9,000 fans. She sells jams at fairs and has acquired sponsorship deals with bakeware companies. "You can say Bimby changed my life," said Ms. Brito.
Ms. Brito said her family now spends a lot less for groceries. This is one of the main reasons Bimby's maker gives for the record sales. In Ms. Brito's home, mayonnaise and ketchup are both handmade. She can't remember the last time she bought a birthday cake or canapés for parties. If Bimby broke and had to get fixed, Ms. Brito said she would be lost.
"Just to think of all the boxes I would have to go through in the garage to find all my retired appliances, it gives me a headache," she said.
Bimby, which now has some competition from a device called Yammi introduced by Portuguese supermarket chain Continente in September, reported record sales of more than 5,000 of the robots in November.
Of course, Bimby has its critics. Sandra Simões, a lawyer from Lisbon, recently saw a cooking demonstration and wasn't impressed.
"There is no spontaneity buying the ingredients, cooking and even seasoning food, since everything is already measured, programmed and mechanized through their recipes," said Ms. Simões. "Plus I don't ever want to be dependent on an appliance."
Ms. Brito herself puts the machine aside to make some things, including rice, which she says turns out much better cooked cordlessly on the stove.
Bimby was created in 1970.
Bimbys aren't sold in stores. Instead, Ms. Arimathea and about 1,400 other agents go door to door to show prospective buyers how to make juices, soups, sauces, ice creams, dough and even a traditional cod dish in less than two hours.
Bom Ano 2014!
Queridos amigos e amigas, leitores que me têm acompanhado, virtual e também fisicamente, com carinho, simpatia e humor, quero desejar-vos um Ano 2014 sem infortúnios (da crise ou outros), com saúde, alegria e harmonia junto daqueles que mais amam. Obrigada por serem meus amigos.
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