A SÁBADO fez um teste básico a 100 alunos em Lisboa
(NOVA VERSÃO ALARGADA, 18-11-2011 )
Por
André Barbosa e
Tânia Pereirinha e imagem de
Joana Mouta e
Bruno Vaz
VER O VÍDEO AQUI: http://www.sabado.pt//Multimedia/Videos/Vox-Pop/VoxPop--A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx?id=411304
Enquanto Portugal se ri da auxiliar de acção médica concorrente da 'Casa
dos Segredos', que julga que África é um país da América do Sul, a
SÁBADO fez um teste básico a 100 alunos de universidades de Lisboa.
Veja o vídeo do Vox Pop com as respostas mais curiosas.
Ana Amaro, de 18 anos, que frequenta a licenciatura com o mestrado
integrado em Psicologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada
(ISPA), está a fumar à porta da faculdade, em Alfama. Aceita participar
no teste de cultura geral da SÁBADO (20 perguntas, divididas por dois
questionários de 10, ambos com um grau de dificuldade mínimo), mas está
mais preocupada em acabar o cigarro. À quinta questão (qual é a capital
dos Estados Unidos?), começa a atrapalhar-se. “Estados Unidos...? A esta
hora é muita mau”, queixa-se. Não são 7h, são 13h30, e os colegas
começam a sair para o almoço. Mas Ana parece ter acordado há 10 minutos,
suspeita que a própria confirma. A partir daí, é sempre a cair.
Não sabe quem escreveu 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo', quem fundou a
Microsoft, quem é Maria João Pires nem que instrumento toca. E não
parece preocupada. Afinal, acabou de acordar.
“Não dei isso no 12.º ano”, “Cinema não é comigo”, “Não me dou bem com a
literatura” – na arte de justificar a ignorância, os estudantes
universitários inquiridos pela SÁBADO têm nota máxima. “Se perguntasse
alguma coisa de psicologia, agora cultura geral...”, diz Janine Pinto,
optando pela desculpa número um.
– Quem pintou o tecto da Capela Sistina?
– Ai, agora... Tudo o que tem a ver com capelas e igrejas não sei (desculpa número dois dos universitários).
– E quem escreveu 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo'?
– Eh pá! Coisas com Jesus Cristo?! Sou fraca em religião ... (desculpa número três).
E se é que isto serve de desculpa, aqui vai a número quatro: Janine, tal
como muitos outros inquiridos, não está num curso de Teologia, nem de
Artes.
Mas Bruno Marques, 18 anos, no 1.º ano de Ciências da Cultura na Faculdade de Letras, escorrega num tema que deveria dominar.
– Quem é Manoel de Oliveira?
– Já ouvi falar, mas não sei quem é.
– Estás em Ciências da Cultura. Dás Cinema?
– Sim, algumas coisinhas, mas não sei...
Pedro Besugo, 18 anos, estreante no curso de Turismo da Lusófona, admite
não saber qual é a capital de Itália. Perante a insistência da SÁBADO
(“Então estás a tirar Turismo e não sabes?”), responde: “Será Florença?”
Não é. Como também não é Veneza, nem Milão ou Nápoles, como outros
responderam.
Não saber quem pintou a Capela Sistina ou Mona Lisa (um aluno responde
Miguel Arcanjo; outro Leonardo DiCaprio) é igualmente grave. Talvez não
tanto como pensar que África é um país da América do Sul ou não fazer
ideia do que é um alpendre. Mas Cátia Palhinhas, do
reality show 'Casa
dos Segredos 2', autora destas e de outras respostas, que põem o
público a rir, não frequenta o ensino superior – é auxiliar de acção
médica e está a tirar o 12.º ano à noite no programa Novas
Oportunidades.
Aos 22 anos, sonha tornar-se “conhecida e vencer na televisão”. Por
isso, não está nada preocupada em saber qual o maior mamífero do mundo –
“É o dinossauro!”, disse há umas semanas.
Há universitários que respondem “mamute” à mesma questão. Catarina, 20
anos, aluna de Psicologia do ISPA, fica na dúvida: “É o elefante. É o
mamute. É o elefante. Acho que é o elefante. O elefante é de África e o
mamute da Antárctida”.
Tal como Cátia, da 'Casa dos Segredos 2', Daniela Rosário, de 20 anos, a
frequentar o 1.º ano de Geografia da Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa, entusiasma-se quando sabe que há
uma câmara de filmar (pode ver algumas das respostas no site da
SÁBADO). É a única em 100 entrevistados que não teme ver registados os
seus disparates. Mas as coisas começam a correr mal assim que se fala em
Capela Sistina: “É melhor nem pensar, nunca me dei bem com História.”
Cinema também não é o seu forte. Questionada sobre quem protagonizou o
filme 'O Padrinho', só se lembra de John. Já seria mau. Mas agrava-se:
“É John qualquer coisa. John... Johnny English!”, diz, a rir-se.
Se Francis Ford Coppola tivesse convidado Rowan Atkinson, o famoso Mr.
Bean e protagonista de Johnny English, para interpretar Don Vito
Corleone na sua obra--prima de 1972, teria hoje um filme sobre a máfia
italiana representado em mímica e com os diálogos resumidos a grunhidos.
Ou uma película de acção descontrolada com Keanu Reeves ou Tom Cruise,
como respondeu Soraia Correia, 19 anos, do 1.º ano de Psicologia do
ISPA.
Ao longo de 100 entrevistas, conclui-se que as aparências iludem e as
ideias preconcebidas também: as miúdas de óculos não são mais cultas do
que os rapazes de aspecto alternativo, e a cultura geral de futuros
engenheiros ou médicos não é mais escassa do que a de potenciais
advogados, linguistas ou psicólogos. No fundo, os conhecimentos são
idênticos.
Uma aluna do 2.º ano da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
Nova de Lisboa, carregada de dossiês, não hesita em responder. Mas,
minutos depois de ter terminado o questionário, volta atrás e exige que o
seu nome não apareça na SÁBADO e que as suas fotografias sejam
apagadas. Tem motivos para isso: não sabe o que é “a Capela Sistina nem o
tecto”, nem quem é Maria João Pires; acha que Nova Iorque é a capital
dos Estados Unidos; e dá um apelido alentejano à chanceler alemã: “Ai!
Eu sei essa, eu sei essa. É qualquer coisa Mércola, Mértola, Mércola. O
primeiro nome não sei.”
À porta desta faculdade, no Campo Mártires da Pátria, passa Alexander
Weber, estudante alemão de Erasmus na Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa. Depois de vários alunos terem respondido à
pergunta “Quando se deu a revolução do 25 de Abril?” com os anos de 1973
e 1975, arriscamos perguntar o mesmo a um estrangeiro, que acerta logo
nesta pergunta e em mais cinco.
Esta questão teve aquela que poderia receber o prémio da desculpa mais
esfarrapada. António Lopes, no 2.º ano de Economia e Gestão da
Universidade Católica, diz logo que não sabe em que ano foi o 25 de
Abril. E justifica: “Estudei 15 anos numa escola inglesa.” Mas o facto é
que vive em Portugal há 19 anos e não tem sequer ideia da década em que
se registou um dos acontecimentos mais marcantes da História recente do
país.
Pedro João, 30 anos, aluno do curso de Contabilidade e Auditoria, o mais
velho a ser inquirido, alcança o recorde de respostas erradas: oito em
10. Só sabe o símbolo químico da água e quem é o Presidente dos Estados
Unidos. Para este estudante, LOL, a sigla de laughing out loud, ou laugh
out loud, que todos usam em conversas de mensagens instantâneas ou em
SMS, significa “brincadeira”. Mas dá respostas piores:
– Quem é o presidente da Comissão Europeia?
– A francesa? Penso que é belga, a senhora...
Joana Costa, no 4.º ano de Psicologia Social, tem 25 anos. Responde a
tudo com simpatia. Mas o inquérito corre-lhe pior do que a muitos alunos
de 18 anos. Sobre quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo:
“Gabriel García? Não... Tem a ver com a Bíblia. Eu não sou católica, sou
ateia.” Quando informada sobre a resposta correcta, revela surpresa
total: “Não foi o Saramago! Não foi, pois não?”
Já outra entrevista decorre e ainda Joana continua perto da equipa da
SÁBADO a justificar-se: “Eh pá! Que horror! E eu que li quase tudo do
Saramago. Li o Ricardo Reis... Pronto, pá, foi terrível.” Corada,
continua a tentar explicar porque é que, no nome da chanceler alemã, não
conseguiu passar de uma marca de chocolate: “Mars... Mars... Mars
qualquer coisa.”
Só por uma vez a SÁBADO conseguiu antecipar que o teste ia correr bem:
Miguel Borges, 21 anos, estudante de Psicologia, foi o único que
questionou por que raio andava a SÁBADO a testar universitários. “Qual é
o objectivo? É para dizerem que os estudantes são todos burros?”
Acertou em todas as perguntas e ainda indagou, com ar de entendido, não
fosse haver rasteira: “Quem pintou a Mona Lisa? Ou quem pintou a
Gioconda?” É a mesma coisa. Pena não haver pontos para premiar
conhecimentos extra.
Igualmente bom foi o desempenho de Luís Pestana, 20 anos, no 2.º ano do
mestrado de Relações Internacionais da Universidade Católica. As
respostas fluíram--lhe com rapidez e em segundos passou com distinção no
teste. Ele e Miguel fazem parte de um grupo de cinco alunos que
acertaram em todas as respostas.
Depois, há aquelas questões que se acreditou que todos iriam responder
correctamente, mas apareceu alguém que arruinou a percentagem. Miguel,
25 anos, no 3.º ano de Design, quando questionado sobre o nome do homem
mais poderoso do mundo, foi peremptório: “É o Bush!”
Aos estudantes, nunca faltaram pistas. Ainda sobre Marlon Brando (a quem
alguns chamaram Orlando e Al Capone), a SÁBADO chegou a propor um
sinónimo para o apelido: “Ameno.” Não adiantou.
Nenhuma pergunta obteve respostas tão divertidas como a que tenta
encontrar o autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. “Ui, perguntas
religiosas é que não dá, embora eu tenha estudado no Sagrado Coração de
Maria e no São João de Brito”, tentou Francisco Neto, 19 anos, no 2.º
ano de Economia da Universidade Católica.
Teresa Pereira, aluna do 3.º ano de Direito da mesma universidade,
responde: “Calma, então temos o São João, São Marcos, São Lucas e São
Mateus, agora dos quatro… Foi o São João!”
Inesperada foi também a resposta de Rita Silva, 21 anos, aluna do 3.º
ano de Direito da Universidade Católica quando inquirida sobre “quem é o
fundador da Microsoft”.
– É o senhor que morreu há pouco tempo... o Gill Bates.