08/02/2014

As ilegalidades de um Governo-contra-cultura



  Um alerta de Teresa Rita Lopes, professora universitária e poetisa
85 obras de arte do pintor catalão Joan Miró vão a leilão na terça e quarta-feira em Londres

É importante continuarmos atentos ao desenrolar do caso dos quadros de Miró. Ouvi ontem à noite as declarações daquela estranha criatura que dá a cara como Secretário da Cultura (que fica mal representada! Não acho bem achincalhar alguém pelo rosto que Deus - ou o Diabo – lhe deu, mas a verdade é que há gente que merece mesmo a cara que tem, não sei se de pau se de que outro qualquer inexpressivo material.) 

Está provado e declarado (até pelo Ministério Público) que os quadros saíram clandestinamente de Portugal, em Mala Diplomática – sabe-se lá que outros valores assim saem do país! Honra seja feita às sentinelas vigilantes da Cultura que denunciaram a falcatrua: sobretudo a Gabriela Canavilhas  que deu, ontem à noite, a (bela!) cara , num debate televisivo com a representante do Governo, que usava o argumento que continuam a brandir, todos com o mesmo adjectivo: a cultura não é para eles, PRIORITÁRIA!  E os quadros do Miro também não! 

Hoje, na AR, repetiram-no à exaustão! Até comentadores da sua cor política comentaram ontem na TV a importância da incorporação desses quadros no nosso cabedal cultural – museológico e até turístico! Já que estamos destinados a viver do turismo ( desde a entrada para a U.E., em que nos destruíram a agricultura, pescas e outros meios de subsistência) , desenvolvamos o turismo cultural, associado ao do Sol! (É claro que se o Governo pudesse também  reduziria o Sol a patacos, como não “prioritário”!) Esses 85 quadros são o maior testemunho da arte de um importante pintor ibérico da Modernidade, cobrindo as sucessivas fases da sua criação artística.  Nem o museu que, em Barcelona, recolhe a sua obra dispõe de tal tesouro. O Secretário da Cultura e adjacentes passam a si próprios, por actos e palavras, um explícito atestado da sua escandalosa incultura.

Estas atitudes vêm de trás: também disseram os dessa cor política que as gravuras de Foz Côa eram rabiscos de caçadores, para levarem por diante os seus negócios. Uma historieta: no ano do centenário do nascimento de Pessoa, 1988,  bati-me, com o meu grupo pessoano, para que na casa em que nasceu fosse instalado um Museu Modernista (para pôr espólios vários, não só o de Pessoa mas também o que consegui que o Banco Totta adquirisse num leilão, o do companheiro de lides José Pacheco, director da revista CONTEMPORÂNEA – agora, inactivo, no Centro Nacional de Cultura). 

Assistimos, numa das nossas visitas a esse sítio, à abordagem de um casal estrangeiro ao polícia de giro, perguntando-lhe qual era a casa de Pessoa. O homem, que tinha a tal elementar instrução salazarista para que os actuais governantes nos querem fazer regressar, franziu a cara, puxou pelos seus escassos conhecimentos, e informou:
“Mas olhe que eu acho que esse gajo já morreu há uma data de tempo…!”

A verdade é que o Pessoa é, hoje, fora de portas, quase tão conhecido, pelas criações da  sua cabeça como o Ronaldo, pela habilidade dos seus pés! ( e as criações dessa parte nobre do corpo são mais duráveis que os pontapés!) E que já há muita gente a vir conhecer Lisboa por ser a cidade de Pessoa – como outros, Praga, por ser a de Kafka!
Até já há gente a ir a Tavira por ser a cidade natal de Álvaro de Campos! O que chamo turismo cultural é isto.

Teresa Rita Lopes

07/02/2014

No jardim do bem e do mal

Apesar de se referir a Macau, este adivinho chinês do templo de Nwua parece estar a falar de Portugal.
O Governo vai galopar em confusão e lutas internas com o Cavalo. Há cinco flores a desabrochar.
Sónia Nunes
Há vezes em que no mais recatado dos lugares ouvimos as mais agitadoras revelações. Esta é uma dessas vezes. O futuro chegou como se fosse um tiro, rápido, directo e com consequências ainda por estimar. “‘Wah! Ma fan’”, diz o adivinho em cantonense, quando deita o primeiro olhar ao ‘tsim man’, o papel que decifra o destino que nos calhou. Fizemos uma pergunta: que sorte reserva o Ano do Cavalo para o Executivo e os cinco secretários? ‘Ma fan’, repete o adivinho, que antecipa meses de grande confusão, diferenças irreconciliáveis e muita competição ou não fosse também este o ano em que será formado um novo Governo.
Quem fica? Quem sai? Chan Kam Cheok, o adivinho que toma conta do templo de Nuwa, no arranque da Rua das Estalagens para quem vem da Rua de São Paulo, não quer responder. Pelo menos, não de forma directa. Fala através de alegorias. “Há cinco flores que desabrocham ao mesmo tempo”, diz. E lá confirma que podemos estar a falar das cinco secretarias do Governo. A imagem remete, no entanto, mais para um ambiente de concorrência do que para uma bem-aventurada Primavera. “Quando as flores nascem todas ao mesmo tempo é difícil ver o que é cada uma. Temos apenas uma ideia geral, do todo”, explica.
Chan Kam Cheok está a interpretar o papel trazido pelo pauzinho da sorte, o primeiro a cair do cilindro de madeira, que agitamos de joelhos em frente à deusa Nuwa, que criou a humanidade e mantém a parede que separa o Céu da Terra. Antes de se avançar com as perguntas é preciso primeiro render três vénias com três pauzinhos de incenso na mão aos deuses e saber se estão disponíveis para responder. Nuwa estava.
As cinco flores referidas no ‘tsim man’, prossegue o adivinho, não são da mesma espécie, nem da mesma época. Há duas que foram plantadas juntas e ao mesmo tempo, apesar de uma ser uma flor de damasco japonês e outra de pinheiro. São mais antigas e não se dão com as que aí vêm. A saber: flor de pêssego, de ameixa chinesa e de damasco. Há aqui um confronto. “Estas flores não podem ser plantadas ao mesmo tempo, mas vão florescer ao mesmo tempo”, avisa Chan Kam Cheok.
O dinheiro resolve
Será exagerado presumir que as “três flores” semeadas mais tarde representam três novos secretários no Governo. O ambiente é de tensão, há rivalidades, conflitos e muita competição, mas mais na primeira parte do ano. Entre Julho e Agosto a situação deverá acalmar.
“Será a melhor altura do ano”, diz o adivinho. Foi nesta época, esclarece, que os três guerreiros Liu Bei, Guan Yu e Zhang Fei, as figuras históricas presentes no nosso ‘tsim man’, se tornaram irmãos de sangue. São um símbolo da lealdade fraternal e de união. Será também por esta altura que o Chui Sai On deverá confirmar a reeleição como Chefe do Executivo.
A solução para ultrapassar os conflitos dentro do Governo, indica-nos o oráculo, é já uma das marcas do actual mandato do Chefe do Executivo: “Gastar mais dinheiro”, aconselha o adivinho, que se queixa da falta de subsídios para manter o templo de Nuwa, que conta já com 126 anos. Foi construído durante o reinado do imperador Guangxu da dinastia Qing.
A ideia de “gastar mais dinheiro” pode ser lido com um maior investimento na cidade, já que a segunda parte da solução é fazer com que toda a gente conheça Macau – pela prosperidade económica, no melhor sentido da expressão. A combinação das duas ideias fará com a Primavera volte a ser o melhor de todos os tempos e que “não haja outras flores a concorrer com as que já existem”. A alegoria pode também remeter para uma estratégia de afirmação de Macau como uma cidade única no mundo ou, pelo menos, “diferente das outras”. 
* Com Iris Lei, Ponto Final, 5 de Fevereiro

Parada de ano novo em Macau

Parada de ano novo repete-se sábado


Macau para celebrar Ano Novo 
 A entrada no Ano Novo Lunar foi celebrada em Macau com centenas de pessoas nas ruas. 

 Mais de mil artistas desfilaram no domingo para celebrar a chegada do Ano Lunar do Cavalo. Esta parada repete-se dia 8 de fevereiro, no nono dia do Ano Novo. Na segunda-feira a população saiu à rua para ver passar o dragão dourado de 238 metros de comprimento.

No domingo, entre o Centro de Ciência e a Torre de Macau, num percurso de cerca de um quilómetro, artistas dos grupos locais e do exterior, entre os quais 45 elementos da Marcha de Alfama, abrilhantaram a noite da cidade, inundada de turistas. 

A parada terminou na Torre de Macau com um espectáculo de fogo-de-artifício e um concerto de artistas locais, ao som dos panchões – cartuchos de pólvora semelhantes às bombas de carnaval, mas mais potentes e maiores – que eram queimados numa zona anexa pela população que cumpre rituais de ano novo.

A atracção da parada de 2014, intitulada “Celebrar a Alegria e Abundância do Ano do Cavalo”, prende-se também com cinco viagens a Portugal a sortear entre o público que votar no grupo vencedor e outras três a atribuir a fotógrafos profissionais e amadores que sejam escolhidos pela melhor fotografia. Os resultados das actuações serão conhecidos apenas na terça-feira, dado que a votação decorre até à meia-noite de Sexta-feira.

 Na segunda-feira, as celebrações ficaram marcadas pela passagem do dragão gigante e dos leões no percurso entre as Ruínas de São Paulo e o Largo do Senado. Aqui, decorreu a queima de panchões e o Deus da Fortuna, auxiliado por dirigentes do Turismo, distribuíram lai-sis, envelopes vermelhos com dinheiro, neste caso uma moeda de 10 avos (um cêntimo) como sinal de boa sorte.

Ponto Final, 5 de Fevereiro

O Ano Novo Lunar em Pequim

A vida dos outros

ponto final, 5 de fevereiro 2014
Durante o Ano Novo Lunar, Pequim ficou vazia quando comboios partiram, aviões levantaram voo e carros fizeram-se à estrada. No bairro de Babaoshan, a oeste da cidade, ficaram os migrantes que não puderam viajar.
Catarina Domingues, em Pequim
tabacaria_putos a brincar
A tabacaria
Parecem bandos de pardais à solta, os miúdos, a lançar bombinhas à frente da tabacaria do pai. O governo avisou, este ano é para poupar no fogo-de-artifício, e assim poupar o ambiente. Mas os fogos afastam os maus espíritos, e a má sorte, e é tradição. Aqui em Babaoshan, a luta do governo parece inglória. O ar conserva um cheiro acre a enxofre.
“As crianças não vivem sem isso, é uma tradição com mais de mil anos, não se pode alterar nem pode desaparecer”, diz Yu Jiangtao, dono da tabacaria Guohua Dukang.
E o barulho das pequenas explosões sempre alivia a saudade da aldeia, lá para os subúrbios de Zhoukou, na província de Henan. “Aqui não conhecemos ninguém. Na aldeia, temos o calor da família, as pessoas saem todas à rua para festejar”, explica.
Mas negócio é negócio, e Yu tem as prateleiras vermelhas repletas de vinho de arroz e volumes de tabaco. O ano novo é boa altura para despachar as mercadorias. “Agora só regresso a casa para as colheitas de Outono.”
A semana de festa não tem sido bem de festa, diz. E nota-se indiferença no tom. “Estou um ano mais velho, acho que é tudo”. Yu até comprou enfeites para a loja, mas já não sabe por onde andam.
De que é que sente mais falta? “Dos meus pais, já telefonei a desejar tudo de bom”. E logo os olhos de Yu parecem não querer aguentar. Conta como chegou com a mulher a Pequim há quinze anos. Eram trabalhadores migrantes (são cerca de sete milhões em Pequim) e foi aqui que começou uma nova vida. Tiveram dois filhos e apostaram no tabaco. “É um bom negócio, apesar da proibição de fumar em muitos sítios”.
Yu espera a reforma para regressar à terra. A filha, Yu Xiao Xiao, diz que quer ficar em Pequim. E volta a concentrar-se no computador.
Os Yu fizeram da tabacaria, casa. Dormem ali atrás de uma cortina e de um pequeno altar, um espaço exíguo, um esconderijo. Yu quer mais dinheiro para o ano do cavalo. “Para a próxima, a festa é na aldeia.”
O salão de beleza
Ninguém está no salão de beleza do supermercado Huapu. Um grande aquário com dois peixes, que se distraem de um lado para o outro, o mais pequeno colado à barbatana do maior. Uma tartaruga tenta trepar as paredes de vidro, mas sem conseguir alcançar a superfície.
Ao longe, as três mulheres gritam e riem alto, enquanto aproveitam a hora vaga para cuidar das próprias unhas; cor vermelha, pequenas impressões prateadas, outras douradas, para combinar com a Festa da Primavera.
Ninguém daria a Li Yuan Jie trinta anos. Parece uma miúda, pernas finas, e longas, e a felicidade de um novo verniz.
Ao longo desta semana, trabalha onze horas por dia. Arranja as mãos e os pés para as festas do Ano Novo Lunar. “Nesta altura faz-se mais dinheiro e na minha terra natal tenho dois filhos para alimentar e contas para pagar”.
Li é de Zhengzhou, província de Henan, e vai a casa duas vezes por ano. Foi aí que o marido e os dois filhos – de onze e nove anos – ficaram quando, há sete anos, se aventurou pela grande cidade.
Em Pequim, o que interessa é o trabalho, mais nada. Tem amigas, “mas não são bem amigas, são só colegas de trabalho”. A passagem de ano foi sozinha. “Com quem mais? Comprei ‘jiaozi’ (dumplings), fruta fresca, e fiquei presa ao telemóvel a enviar mensagens para a família”.
Li ainda espreitou a gala da CCTV, que chega às televisões chinesas desde 1983 e já se tornou numa tradição da noite de ano novo. Mas nem as acrobacias, nem os truques de magia entretiveram a esteticista. “Não gostei do ambiente, pus-me a jogar ao telemóvel.”
Agora resta esperar mais um pouco. Quando Li voltar a casa, estão milhões de chineses a regressar a Pequim.
A agência funerária
Liu Bingchen não gosta de carne e só cozinha ‘jiaozi’ vegetarianos. “Na China, na passagem de ano, sejas pobre ou sejas rico, vais comer ‘jiaozi’”. Os dumplings são uma tradição milenar com origem no norte do país. Comem-se entre a última hora do ano e a primeira hora do novo calendário lunar. Uma moeda lá dentro pode significar sorte e fortuna na vida, assegura a tradição.
Liu tem 59 anos e diz que não precisa de fortuna, nem de sorte, diz que está contente com o governo, com a pensão que recebe, e com a pequena agência funerária que abriu há doze anos (começava então o ano do cavalo). “Abri o negócio para ter uma ocupação.”
Vai passeando de um lado da loja para o outro, passa a tarde a bebericar um chá Longjing, a brincar com duas nozes na mão esquerda. “Faz bem à circulação”, garante. E depois senta-se, e volta ao chá, e dá tempo à caligrafia chinesa. “A caligrafia educa uma pessoa, pode torná-la mais culta, obriga a treinar o cérebro”, explica.
Durante a Festa da Primavera, a agência não fechou as portas. Porque a morte também sai à rua num dia assim, de festa. “Alguém tem de fazer este trabalho, eu trato de tudo, compro a roupa, o caixão, vendo dinheiro falso para queimar. No Ocidente é a igreja que faz este serviço, aqui sou eu”, nota Liu, oriundo de Pequim.
O ano novo é feliz, porque “fui lançar fogos e depois fui dormir”, mas solitário, “a minha mulher está no céu, os meus filhos já são crescidos e têm a sua vida”.
E o que espera do ano do cavalo? “Saúde é o mais importante. Há pessoas que querem enriquecer, mas a verdadeira riqueza está aqui”. E leva o indicador à cabeça.
TRADIÇÕES DO ANO NOVO LUNAR
Dança do Dragão
Tradição antiga, que se tem desenvolvido ao longo dos anos e que é mais comum entre as comunidades rurais da China. Segundo a crença chinesa, a dança atrai prosperidade, sorte e renovação.
Fogo-de-artifício
Os chineses lançam fogo-de-artifício e rebentam bombinhas para espantar os maus espíritos. Acredita-se que todos aqueles que o fazem vão ter sorte ao longo do ano.
Hong Bao/ Lai Si
Envelopes vermelhos com dinheiro lá dentro. Tradicionalmente é oferecido por adultos aos mais jovens. Acredita-se que o dinheiro vai proteger as crianças dos maus espíritos, trazer saúde e longa vida.
Jiaozi (dumplings)
Diz-se que os jiaozi foram cozinhados pela primeira vez há 1600 anos e são obrigatórios à mesa dos chineses na noite de passagem de ano. Em certas áreas adiciona-se um pouco de açúcar, o que pode simbolizar uma vida mais doce. Também podem ser colocadas moedas no interior. Quem comer este dumpling, pode contar com fortuna e sorte.
Limpeza
Uns dias antes das celebrações do Ano Novo Lunar, é feita uma limpeza às casas para eliminar as energias velhas e renová-las. A limpeza deve ter início antes do nascer-do-sol e terminar antes do pôr-do-sol.
Decoração
Depois da limpeza, as casas são decoradas com lanternas vermelhas, desenhos recortados em papel e enfeites à porta de entrada como forma de dar as boas-vindas ao novo ano.
Feiras
Durante estes dias, feiras vão abrir as portas para vender tudo o que é necessário para o Ano Novo Lunar. Fogo-de-artifício, enfeites, comida e artesanato são alguns dos produtos disponíveis. Os mercados são também palco de actuações e costumam estar decorados com grandes lanternas vermelhas.
Shou Sui
Shou Sui significa ‘ficar acordado até tarde na passagem de ano’. Diz a lenda que um monstro mítico chamado ‘Nian’ (Ano) saía à rua para caçar animais e pessoas. Por ser sensível a ruídos e à cor vermelha, os chineses começaram a decorar as casas de vermelho e a lançar fogo-de-artifício. As pessoas ficam acordadas até tarde para fazer frente ao ‘Nian’.

05/02/2014

A ignorância dos nossos universitários

A SÁBADO fez um teste básico a 100 alunos em Lisboa 
(NOVA VERSÃO ALARGADA, 18-11-2011 ) 
Por André Barbosa e Tânia Pereirinha e imagem de Joana Mouta e Bruno Vaz

 A ignorância dos nossos universitários (NOVA VERSÃO ALARGADA)
VER O VÍDEO AQUI: http://www.sabado.pt//Multimedia/Videos/Vox-Pop/VoxPop--A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx?id=411304

Enquanto Portugal se ri da auxiliar de acção médica concorrente da 'Casa dos Segredos', que julga que África é um país da América do Sul, a SÁBADO fez um teste básico a 100 alunos de universidades de Lisboa. Veja o vídeo do Vox Pop com as respostas mais curiosas.

Ana Amaro, de 18 anos, que frequenta a licenciatura com o mestrado integrado em Psicologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), está a fumar à porta da faculdade, em Alfama. Aceita participar no teste de cultura geral da SÁBADO (20 perguntas, divididas por dois questionários de 10, ambos com um grau de dificuldade mínimo), mas está mais preocupada em acabar o cigarro. À quinta questão (qual é a capital dos Estados Unidos?), começa a atrapalhar-se. “Estados Unidos...? A esta hora é muita mau”, queixa-se. Não são 7h, são 13h30, e os colegas começam a sair para o almoço. Mas Ana parece ter acordado há 10 minutos, suspeita que a própria confirma. A partir daí, é sempre a cair.

Não sabe quem escreveu 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo', quem fundou a Microsoft, quem é Maria João Pires nem que instrumento toca. E não parece preocupada. Afinal, acabou de acordar.

“Não dei isso no 12.º ano”, “Cinema não é comigo”, “Não me dou bem com a literatura” – na arte de justificar a ignorância, os estudantes universitários inquiridos pela SÁBADO têm nota máxima. “Se perguntasse alguma coisa de psicologia, agora cultura geral...”, diz Janine Pinto, optando pela desculpa número um.

– Quem pintou o tecto da Capela Sistina?
– Ai, agora... Tudo o que tem a ver com capelas e igrejas não sei (desculpa número dois dos universitários).
– E quem escreveu 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo'?
– Eh pá! Coisas com Jesus Cristo?! Sou fraca em religião ... (desculpa número três).

E se é que isto serve de desculpa, aqui vai a número quatro: Janine, tal como muitos outros inquiridos, não está num curso de Teologia, nem de Artes.

Mas Bruno Marques, 18 anos, no 1.º ano de Ciências da Cultura na Faculdade de Letras, escorrega num tema que deveria dominar.

– Quem é Manoel de Oliveira?
– Já ouvi falar, mas não sei quem é.
– Estás em Ciências da Cultura. Dás Cinema?
– Sim, algumas coisinhas, mas não sei...

Pedro Besugo, 18 anos, estreante no curso de Turismo da Lusófona, admite não saber qual é a capital de Itália. Perante a insistência da SÁBADO (“Então estás a tirar Turismo e não sabes?”), responde: “Será Florença?” Não é. Como também não é Veneza, nem Milão ou Nápoles, como outros responderam.

Não saber quem pintou a Capela Sistina ou Mona Lisa (um aluno responde Miguel Arcanjo; outro Leonardo DiCaprio) é igualmente grave. Talvez não tanto como pensar que África é um país da América do Sul ou não fazer ideia do que é um alpendre. Mas Cátia Palhinhas, do reality show 'Casa dos Segredos 2', autora destas e de outras respostas, que põem o público a rir, não frequenta o ensino superior – é auxiliar de acção médica e está a tirar o 12.º ano à noite no programa Novas Oportunidades.

Aos 22 anos, sonha tornar-se “conhecida e vencer na televisão”. Por isso, não está nada preocupada em saber qual o maior mamífero do mundo – “É o dinossauro!”, disse há umas semanas.

Há universitários que respondem “mamute” à mesma questão. Catarina, 20 anos, aluna de Psicologia do ISPA, fica na dúvida: “É o elefante. É o mamute. É o elefante. Acho que é o elefante. O elefante é de África e o mamute da Antárctida”.

Tal como Cátia, da 'Casa dos Segredos 2', Daniela Rosário, de 20 anos, a frequentar o 1.º ano de Geografia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, entusiasma-se quando sabe que há uma câmara de filmar (pode ver algumas das respostas no site da SÁBADO). É a única em 100 entrevistados que não teme ver registados os seus disparates. Mas as coisas começam a correr mal assim que se fala em Capela Sistina: “É melhor nem pensar, nunca me dei bem com História.” Cinema também não é o seu forte. Questionada sobre quem protagonizou o filme 'O Padrinho', só se lembra de John. Já seria mau. Mas agrava-se: “É John qualquer coisa. John... Johnny English!”, diz, a rir-se.

Se Francis Ford Coppola tivesse convidado Rowan Atkinson, o famoso Mr. Bean e protagonista de Johnny English, para interpretar Don Vito Corleone na sua obra--prima de 1972, teria hoje um filme sobre a máfia italiana representado em mímica e com os diálogos resumidos a grunhidos. Ou uma película de acção descontrolada com Keanu Reeves ou Tom Cruise, como respondeu Soraia Correia, 19 anos, do 1.º ano de Psicologia do ISPA.

Ao longo de 100 entrevistas, conclui-se que as aparências iludem e as ideias preconcebidas também: as miúdas de óculos não são mais cultas do que os rapazes de aspecto alternativo, e a cultura geral de futuros engenheiros ou médicos não é mais escassa do que a de potenciais advogados, linguistas ou psicólogos. No fundo, os conhecimentos são idênticos.

Uma aluna do 2.º ano da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, carregada de dossiês, não hesita em responder. Mas, minutos depois de ter terminado o questionário, volta atrás e exige que o seu nome não apareça na SÁBADO e que as suas fotografias sejam apagadas. Tem motivos para isso: não sabe o que é “a Capela Sistina nem o tecto”, nem quem é Maria João Pires; acha que Nova Iorque é a capital dos Estados Unidos; e dá um apelido alentejano à chanceler alemã: “Ai! Eu sei essa, eu sei essa. É qualquer coisa Mércola, Mértola, Mércola. O primeiro nome não sei.”

À porta desta faculdade, no Campo Mártires da Pátria, passa Alexander Weber, estudante alemão de Erasmus na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Depois de vários alunos terem respondido à pergunta “Quando se deu a revolução do 25 de Abril?” com os anos de 1973 e 1975, arriscamos perguntar o mesmo a um estrangeiro, que acerta logo nesta pergunta e em mais cinco.

Esta questão teve aquela que poderia receber o prémio da desculpa mais esfarrapada. António Lopes, no 2.º ano de Economia e Gestão da Universidade Católica, diz logo que não sabe em que ano foi o 25 de Abril. E justifica: “Estudei 15 anos numa escola inglesa.” Mas o facto é que vive em Portugal há 19 anos e não tem sequer ideia da década em que se registou um dos acontecimentos mais marcantes da História recente do país.

Pedro João, 30 anos, aluno do curso de Contabilidade e Auditoria, o mais velho a ser inquirido, alcança o recorde de respostas erradas: oito em 10. Só sabe o símbolo químico da água e quem é o Presidente dos Estados Unidos. Para este estudante, LOL, a sigla de laughing out loud, ou laugh out loud, que todos usam em conversas de mensagens instantâneas ou em SMS, significa “brincadeira”. Mas dá respostas piores:

– Quem é o presidente da Comissão Europeia?
– A francesa? Penso que é belga, a senhora...

Joana Costa, no 4.º ano de Psicologia Social, tem 25 anos. Responde a tudo com simpatia. Mas o inquérito corre-lhe pior do que a muitos alunos de 18 anos. Sobre quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo: “Gabriel García? Não... Tem a ver com a Bíblia. Eu não sou católica, sou ateia.” Quando informada sobre a resposta correcta, revela surpresa total: “Não foi o Saramago! Não foi, pois não?”

Já outra entrevista decorre e ainda Joana continua perto da equipa da SÁBADO a justificar-se: “Eh pá! Que horror! E eu que li quase tudo do Saramago. Li o Ricardo Reis... Pronto, pá, foi terrível.” Corada, continua a tentar explicar porque é que, no nome da chanceler alemã, não conseguiu passar de uma marca de chocolate: “Mars... Mars... Mars qualquer coisa.”

Só por uma vez a SÁBADO conseguiu antecipar que o teste ia correr bem: Miguel Borges, 21 anos, estudante de Psicologia, foi o único que questionou por que raio andava a SÁBADO a testar universitários. “Qual é o objectivo? É para dizerem que os estudantes são todos burros?”

Acertou em todas as perguntas e ainda indagou, com ar de entendido, não fosse haver rasteira: “Quem pintou a Mona Lisa? Ou quem pintou a Gioconda?” É a mesma coisa. Pena não haver pontos para premiar conhecimentos extra.

Igualmente bom foi o desempenho de Luís Pestana, 20 anos, no 2.º ano do mestrado de Relações Internacionais da Universidade Católica. As respostas fluíram--lhe com rapidez e em segundos passou com distinção no teste. Ele e Miguel fazem parte de um grupo de cinco alunos que acertaram em todas as respostas.

Depois, há aquelas questões que se acreditou que todos iriam responder correctamente, mas apareceu alguém que arruinou a percentagem. Miguel, 25 anos, no 3.º ano de Design, quando questionado sobre o nome do homem mais poderoso do mundo, foi peremptório: “É o Bush!”

Aos estudantes, nunca faltaram pistas. Ainda sobre Marlon Brando (a quem alguns chamaram Orlando e Al Capone), a SÁBADO chegou a propor um sinónimo para o apelido: “Ameno.” Não adiantou.

Nenhuma pergunta obteve respostas tão divertidas como a que tenta encontrar o autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. “Ui, perguntas religiosas é que não dá, embora eu tenha estudado no Sagrado Coração de Maria e no São João de Brito”, tentou Francisco Neto, 19 anos, no 2.º ano de Economia da Universidade Católica.

Teresa Pereira, aluna do 3.º ano de Direito da mesma universidade, responde: “Calma, então temos o São João, São Marcos, São Lucas e São Mateus, agora dos quatro… Foi o São João!”

Inesperada foi também a resposta de Rita Silva, 21 anos, aluna do 3.º ano de Direito da Universidade Católica quando inquirida sobre “quem é o fundador da Microsoft”.

– É o senhor que morreu há pouco tempo... o Gill Bates.

Christie's cancela leilão da colecção Miró

Cláudia Carvalho, Público, 04/02/2014 - 16:28
A leiloeira Christie's anunciou esta tarde em comunicado que retirou as 85 obras de Joan Miró da colecção do Banco Português de Negócios do leilão que estava marcado para se iniciar esta noite.

"A venda da colecção dos 85 trabalhos de Joan Miró foi cancelada como resultado da disputa no tribunal português, do qual a Christie’s não é parte interessada”, escreve Matthew Paton, director de comunicação da leiloeira, no comunicado enviado ao PÚBLICO, explicando que, apesar de o tribunal não ter impedido a venda desta noite, “as incertezas legais criadas por esta disputada significam que não somos capazes de oferecer com segurança estes trabalhos para venda”.

Na mesma nota, Matthew Paton explica que a Christie’s “tem a responsabilidade” de oferecer aos seus clientes as condições máximas de segurança nas transacções, o que significa que tanto a leiloeira como os interessados em comprar as obras “têm de ter a certeza legal que as podem transferir sem problema”.
“Uma vez que a decisão do tribunal questiona isto nesta altura, a Christie’s é obrigada a retirar as obras da venda”, escreve ainda o responsável da leiloeira, esperando que “as partes nesta disputa consigam resolver as suas diferenças no devido tempo”.

O Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa decidiu esta terça-feira de manhã que o leilão, marcado desde Novembro de 2013, se poderia realizar, admitindo no entanto que parte dos procedimentos legais a que a Lei de Bases do Património Cultural obriga não tinham sido cumpridos. As obras viajaram inclusive ilegalmente para Londres, onde estão expostas, não tendo nunca a Direcção-Geral do Património Cultural autorizado a sua saída. São estas as questões legais levantas nestes últimos dois dias que levaram a que a leiloeira retirasse as obras.
Lê-se no acórdão do tribunal que a “expedição das obras é manifestamente ilegal”, não sendo “necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie's das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos" pela Lei de Bases do Património "e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural".

O que o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, retira deste acordão é que "a venda foi considerada aceitável", escusando-se a responder aos jornalistas que convocou ao Palácio da Ajuda, sobre a "ilicititude" do despacho assinado por si, de 31/01/2014 e que "declara extintos os procedimentos administrativos de autorização de expedição das obras". "Não consigo perceber bem o que é o tribunal quer dizer quando aquilo que fiz em termos de decisão foi, considerando que poderia de facto haver ilegalidades no modo como decorreu a expedição das obras, pedir à Direcção-Geral do Património Cultural para avançarem com um procedimento contra-ordenacional em relação às entidades que o fizeram", explicou Barreto Xavier. "É poder ou competência do secretário de Estado da Cultura determinar sobre um assunto que não é da sua competência?".

O Estado esperava arrecadar com esta venda cerca de 35 milhões de euros, segundo a avaliação da leiloeira. No entanto, como é habitual nestas situações, no contrato celebrado entre a Christie’s e a Parvalorem e Parups, sociedades criadas no âmbito do Ministério das Finanças para recuperar créditos do BPN e que são proprietárias das obras, existe uma cláusula que pressupõe o pagamento de uma indemnização caso o leilão não aconteça. Não sendo conhecido este contrato, lê-se no acórdão do tribunal que neste caso "a Parvalorem, S.A. por força do contrato celebrado, constituir-se-á na obrigação de indemnizar a Christie’s em montante cujo valor se situará entre os 4,7 milhões e os 5 milhões de euros”. Uma vez que foi a própria leiloeira a cancelar o leilão não se sabe se esta cláusula se aplicará.

Depois de conhecida esta decisão da leiloeira, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, voltou a reiterar que manter a colecção Miró em Portugal "não é uma prioridade", sendo mais importante "minorar a dívida do BPN". Aos jornalistas, no Palácio da Ajuda, Barreto Xavier explicou ainda que se estas obras não forem alienadas, como incialmente previsto, "no contexto dos problemas" que nacionalização [do BPN] trouxe, será preciso que "o dinheiro venha de mais algum sítio". "Eu calculo que os portugueses não queiram que vamos buscar 35/40 milhões de euros a um outro sítio. À saúde? À educação?", acrescentou o secretário de Estado, não afastando a hipótese de um novo leilão. A decisão, no entanto, terá de ser tomada pela Parvalorem, que até agora não respondeu às perguntas do PÚBLICO.

02/02/2014

Berardo está interessado em comprar os "Miró"

por Dinheiro Vivo30 janeiro 201420 comentários
Joe Berardo garantiu hoje ao Dinheiro Vivo que está interessado em adquirir os quadros de Miró que o Estado português quer levar a leilão.

O dono da maior coleção de arte privada em Portugal adianta que vai tentar adquirir apenas parte da coleção, "porque toda é impossível, já que os preços em leilão serão astronómicos".

Isto, partindo do princípio que as obras vão mesmo a leilão. O leilão da Christie's está marcado para os dias 4 e 5 de fevereiro e o Estado vai tentar vender os 85 quadros de Juan Miró que faziam parte do acervo do BPN. Mas a intenção de vender as obras está a gerar polémica e há já uma petição para manter os quadros em Portugal, que já conta com quase 9 mil assinaturas.

Christie's explica que venda de 'Mirós' "causa estrondo"

Deputados ouvem autores da petição pelas obras de Miró 
Vender ao mesmo tempo as 85 obras de Joan Miró, que pertenceram ao banco BPN, "causa um grande estrondo" no mundo da arte e atrai mais interesse mundial, garantiu um diretor da leiloeira Christie's à agência Lusa.

 Olivier Camu, diretor internacional e vice-presidente do departamento de Arte Moderna e Impressionista, disse que esta é a melhor estratégia para valorizar a coleção, cujas receitas vão reverter para o Estado português, proprietário dos quadros desde a nacionalização do antigo Banco Português de Negócios (BPN), em 2008.
"É possível ver Mirós em leilão com regularidade. Neste caso, as 85 obras causam um grande estrondo no mercado. Chamou a atenção de muitas pessoas por causa disso. Se tivesse sido repartido em pequenas partes perder-se-ia a magia da história e o fôlego da coleção", afirmou.
O perito está também convencido de que o número de obras em leilão criará um efeito de "embalo" para as obras menos valiosas e conhecidas: "Algumas pessoas que não conseguirem comprar as mais caras farão consequentemente licitações nas mais pequenas".
A estrela do lote é "Femmes et oiseaux" ("Mulheres e Pássaros"), de 1968, um óleo sobre tela avaliado entre quatro e sete milhões de libras (cerca de 4,8 milhões a 8,5 milhões de euros), no qual se observam as influências que Miró trouxe de um período que passou no Japão.
Olivier Camu valoriza, no entanto, igualmente, "obras menos importantes, que se destinarão a coleções particulares de pessoas com menos posses, que são as obras de papel dos anos 1960 e 1970, muito minimalistas de caligrafia asiática".

Providência cautelar contra venda de "Miró" foi entregue

 Gabriela Canavilhas 
 Uma providência cautelar para impedir que o Governo venda em leilão a coleção de 85 obras de Joan Miró foi hoje entregue no Tribunal Administrativo de Lisboa, indicou hoje fonte do Grupo Parlamentar do PS.
 
 Em declarações à agência Lusa, a deputada Gabriela Canavilhas confirmou o envio da providência cautelar, anunciado na quarta-feira, no parlamento, para o Tribunal, para "evitar a venda lesiva para o Estado" da coleção proveniente da nacionalização do Banco Português de Negócios (BPN).
"Esgotámos toda a nossa capacidade de alertar para o cumprimento da lei. Restou-nos recorrer ao tribunal", apontou Gabriela Canavilhas sobre esta nova iniciativa para tentar suspender o processo, depois de o PS ter apresentado no parlamento um projeto de resolução contra a venda, chumbado pela maioria, tal como outro, no mesmo sentido, apresentado pelo PCP.
"Estamos certos de que há irregularidades no processo", disse, convicta, a deputada socialista e ex-ministra da Cultura, sobre as expectativas do resultado da providência cautelar.
O PS alerta para o facto de a coleção de 85 quadros de Miró, provenientes do ex-BPN, ter passado a "constituir propriedade definitiva do Estado a partir de 2012", tendo o pintor uma importância "absolutamente inquestionável, não havendo em Portugal nenhum acervo deste pintor - ou de qualquer outro deste período com esta magnitude e grandeza -- que se lhe compare em valor".
Lembra ainda que a Lei de Bases do Património Cultural estabelece "responsabilidades inequívocas" ao Estado, como "a inventariação, classificação e ainda normas específicas quanto à exportação, expedição, importação, admissão e comércio de obras de arte", "requisitos legais" que entende não terem sido salvaguardados.

Romance inédito de Saramago editado antes do verão

por Lusa, publicado por Ana Meireles29 janeiro 2014


Romance inédito de Saramago editado antes do verão
Fotografia © Orlando Almeida/Global Imagens
O romance inédito de José Saramago "Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas" será editado "antes do verão" pela Porto Editora (PE), que passa a publicar as obras do Nobel da Literatura, disse hoje à Lusa fonte editorial.
O editor Manuel Alberto Valente, da PE, que passa a ser o editor de Saramago, disse à Lusa que "se chegou hoje a acordo e parte-se hoje" para o que será a publicação da obra de José Saramago, na Porto Editora, "conforme caduquem os contratos de cada um dos seus títulos".
O editor salientou que "é necessário debater com as herdeiras -- a filha Violante Saramago de Matos e a viúva, Pilar del Río --, e também com a Fundação Saramago, a calendarização dos livros.
"Há que estudar um grafismo próprio e ver a fixação muito cuidada do texto", disse à Lusa Manuel Alberto Valente, que vaticinou a saída de três ou quatro títulos, com a nova chancela editorial do escritor, "por alturas da Feira do Livro de Lisboa", em finais de maio.
A obra de José Saramago passa agora a ser tratada pelo editor Manuel Alberto Valente, da Porto Editora, depois de mais de 30 anos de relação com o editor Zeferino Coelho, da Editorial Caminho, atualmente no grupo LeYa.
Hoje, um comunicado difundido pela Fundação José Saramago, informou que "as herdeiras de José Saramago escolheram a Porto Editora para editar e distribuir a obra literária de José Saramago, em Portugal e nos demais países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, à exceção do Brasil".

Os Jotas e o "Discurso geracional" e guerra aos "velhos"

A moção de Passos Coelho ao Congresso do PSD nada tem que ver com a matriz social-democrata do partido, nem com o seu programa genético definido pelos fundadores, em particular Sá Carneiro, mas já tem mais que ver com a história concreta dos partidos portugueses nos últimos anos, em particular nas “jotas” e o seu papel na ascensão de políticos profissionais dentro dos partidos.

(...)  Mas, na sua moção, há um interessante ponto que, embora formulado na actual vulgata ideológica, remete para outras “histórias”. Refiro-me à afirmação de que existe uma “apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações”. Ou seja, o ataque a reformas e pensões, aos direitos adquiridos e a outros aspectos daquilo que consideram o statu quo, não é uma consequência conjuntural das imposições da troika, mas uma revolução estrutural destinada a impor uma justiça “geracional” entre “gerações actuais” e “futuras”, ou seja, uma luta social assente na idade.

A formação do actual discurso governamental sobre os “jovens” e os “velhos” vem de bastante atrás. Veio das “jotas” nos anos oitenta e noventa do século passado e chamava-se “discurso geracional”. Tratava-se de um discurso reivindicativo de mais lugares, mais funções, mais poderes, e funcionava como legitimação política para assegurar a autonomia das juventudes partidárias e dar-lhes um espírito de corpo. (...)

Foi preciso passar alguns anos e assistir à ascensão destes grupos através da política profissionalizada, que foi e é a sua impressão digital, para que os partidos adultos lhes caíssem nas mãos. Primeiro, as secções, depois as distritais ou as federações, e por fim as direcções partidárias. Pelo caminho, este processo de controlo político crescente dos partidos pelas “jotas” implicava a sua ocupação cada vez mais significativa dos cargos a que os partidos políticos tinham acesso por via eleitoral ou, mais comummente, por via da partidarização das estruturas do Estado.

O fenómeno dos boys institucionalizava essa ocupação do Estado (...). Os lugares nas autarquias, nas empresas municipalizadas, nas assessorias, nos sectores regionalizados da saúde e da educação, em certas áreas governamentais consideradas propriedade das “jotas”, como o Instituto da Juventude, o desporto, nas múltiplas nomeações governamentais em que as “jotas” tinham uma quota, nos grupos parlamentares, no Parlamento, no Parlamento Europeu, nos gabinetes ministeriais, faziam parte do currículo desse novo tipo de carreiras profissionais a que se acedia pelas “jotas” dentro dos partidos. Este processo ia a par com a ausência de estudos, a falta de uma experiência verdadeira no mundo do trabalho, nenhuma carreira profissional, ou mesmo profissão fora da política, e muitas vezes cursos desqualificados ou apenas “frequência” de cursos, e profissões ambíguas nos registos biográficos como “consultor”. 
  
Foi esta a escola de Passos Coelho e Miguel Relvas, mas também de Seguro e de muita da sua equipa. (...) O “discurso geracional” era um discurso muitas vezes horizontal, em que os responsáveis da JSD e da JS diziam substancialmente o mesmo e muitas vezes se entendiam, sempre numa afirmação de comunidade geracional alheia a qualquer consideração política e ideológica. Era a idade que os unia,  (...) e o seu plano de vida era fazer carreira nos partidos políticos e foi nisso que se especializaram e foi aí que tiveram sucesso. 

 Faziam muitas vezes a rábula dos “jovens irreverentes”, mas isso, com o tempo, tornou-se apenas o modo como se tornavam disponíveis para fazer o“trabalho sujo” dos partidos políticos, que eram encomendados pelas direcções partidárias às suas “jotas” e que estas faziam com agrado. (...)

Na verdade, a única identidade política que unia os autores do “discurso geracional” era a defesa das suas carreiras dentro dos partidos e através dos partidos o acesso ao poder económico, social e político. Hoje, um governo de antigos “jotas” é um maná para as “jotas” actuais que estão por todo o lado no governo e à sua volta. O mesmo se passa na oposição do PS, com a esperança de ocupação do estado com peso idêntico ou maior do que a outra “jota”.

Embora sejam hoje homens de meia-idade, já velhos para o mercado de trabalho se quisessem entrar nele, estes antigos “jotas” do “discurso geracional” que hoje estão no poder moldaram a política partidária nos últimos anos e são a encarnação viva de um dos grandes problemas da democracia portuguesa, a partidocracia. Numa altura de gravíssima crise política e social, eles são a única “oferta” que os partidos políticos têm para dar aos seus eleitores e essa oferta é má e a milhas do que era preciso. Mas a hegemonia dos partidos da vida pública, defendida com unhas e dentes, garante a sua manutenção.

(...)  A frase da moção de Passos Coelho sobre a “apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações” é prenhe de significado político e ideológico, mas deve ser combatida sem transigências. É má no plano político e falsa no seu conteúdo. Quem define o que é “excessivo”? Como se pode arrogar de “defender” os “jovens” quem degrada as suas condições de vida actual, inclusive ao atirar os seus pais e avós para a pobreza, e quem empurrando-os para o desemprego, a emigração ou para a precariedade, lhes estraga o presente e o futuro? E que “futuro” vão ter, sendo menos qualificados e com salários mais baixos, “ajustados”? É retórica que usa a juventude para garantir uma nova hierarquia social de poder, mas nada mais do que isso. 

 Mas não é só isso. A frase também é má no plano da moralidade social, gera gente má e indiferente aos estragos que faz na vida alheia, gente que perante qualquer problema tende a de imediato culpabilizar sempre os mais fracos, e assenta no uso do poder do Estado para atacar quem tem pouca defesa e nenhum recuo no meio ou no fim da vida. Até porque a juventude defende sempre os mais jovens, dá-lhes mais mobilidade e oportunidades, por poucas e difíceis que sejam, e a idade adulta, que é a do “desemprego de longa duração” e a da velhice, que é a dos cortes nas reformas e pensões, essas não dão oportunidade nenhuma. Para eles, não há “impulso” nenhum, são aqueles para quem existe apenas uma sanção moral pelo seu “culto da gratificação imediata e da consideração de curto prazo em desfavor da reflexão prospectiva”. Este é o produto de gente mal formada, como se dizia antigamente. Linguagem do passado, bem sei, sem “reflexão prospectiva”.