É um "fartar vilanagem", a corrupção a nível mundial! A maioria destes criminosos acaba por se safar das penas de prisão.

Que podem ter em comum o italiano Silvio Berlusconi, o tailândês
Thaksin Shinawatra, a ucraniana Julia Timoschenko e o paquistanês Raja
Pervez Ashraf? Todos foram primeiros-ministros e acusados de um ou
vários crimes. O primeiro dirigente desta lista costuma dizer que é o
"homem mais perseguido da história" e que já gastou mais de 200 milhões
de euros para se defender nos tribunais. As estatísticas parecem dar-lhe
razão. A personagem que já foi dona da maior fortuna de Itália e da
25.ª do planeta surgiu como arguido em 106 processos, ele e os seus
advogados tiveram de marcar presença em 2 500 audiências e, claro,
sujeitou-se a dezenas de sentenças. Uma das mais recentes impede-o de
assumir cargos públicos até 2017 e obriga-o a prestar serviço
comunitário durante 12 meses - devido a uma fraude fiscal cometida há
duas décadas. Atualmente com 78 anos, trata-se de um balanço notável, se
tivermos em conta a gravidade de algumas das causas em que tem sido
absolvido ou "perdoado" pela idade, pelas amnistias e pelos seus
recursos financeiros. Todavia, no seu currículo penal há ainda casos
pendentes como o de "Ruby", a adolescente marroquina com quem terá
dormido 13 vezes enquanto ainda estava no Palácio Chigi - ou seja, no
poder -, ou o aliciamento de um senador, em 2006, a quem terá oferecido 3
milhões de euros para se mudar para o seu Forza Italia.
Israel: dois ex-PM em sérios apuros
Mas o patrão do Milan nunca foi obrigado a passar uma noite nos
calabouços da polícia. Em rigor, muito poucos países democráticos
tiveram necessidade de colocar os seus dirigentes de topo atrás das
grades. E quando se tentam identificar as exceções há um Estado que se
destaca - seja pela velha e sábia separação de poderes, seja pelo
caráter das condenações: Israel.
Neste momento, os israelitas debatem o que deve ser feito com um
seu antigo primeiro-ministro e herói nacional, Ehud Barak. Esta figura
histórica do Tsahal (forças armadas) está a ser investigado por ter,
alegadamente, recebido subornos em contratos militares enquanto era
ministro da Defesa (2007-2013). Um processo que até pode não dar nada
por ser fruto de uma conveniente denúncia de Ehud Olmert, também ele
antigo chefe do Governo de Telavive - e ex-presidente da Câmara de
Jerusalém. Os escândalos à volta de Olmert já ditaram a sua reforma
política e podem colocá-lo na prisão. Em 2008, teve de abandonar o cargo
de primeiro-ministro por suspeitas de corrupção, fraude fiscal e abuso
de poder enquanto foi autarca e, depois, titular das pastas da Economia,
Indústria e Comércio. Em maio, foi condenado a seis anos de prisão e ao
pagamento de um milhão de shekels (cerca de 207 mil euros) por um
destes casos, o Hollyland affair. Um recurso permitiu--lhe evitar o
cárcere até agora. Talvez venha a partilhar cela com Moshe Katsav. O 8.°
Presidente de Israel teve de renunciar, em 2007, e, três anos depois,
os juízes deram como provado que cometeu os crimes de violação, assédio
sexual, abuso de poder e obstrução à justiça. Uma sentença sem
precedentes em qualquer parte do globo, envolvendo um Chefe de Estado.
Cumpre uma pena de sete anos, em Ramla.
Espanha: Podemos no reino dos indignados
Como é possível que um grupo de amigos e professores da
Universidade Complutense de Madrid se tenha convertido, em apenas 10
meses, num dos maiores partidos políticos de Espanha? Os analistas
apresentam muitas teorias, uma das quais óbvia: a corrupção e o
descrédito das elites governativas fizeram com que o Podemos esteja à
frente do Partido Popular (PP) e do Partido Socialista Operário Espanhol
(PSOE) nas intenções de voto, caso as legislativas se realizassem hoje.
O fenómeno Pablo Iglesias, líder do movimento, parece ser a figura
redentora de todos os males peninsulares, como demonstra a sondagem El
Mundo/sigma Dos, publicada esta segunda-feira, 24, com uma previsão de
28,3 por cento. Um annus mirabilis que pode muito bem prolongar-se e
escancarar-lhe as portas da Moncloa, no final do 2015, como contraponto
ao annus horribilis que o Governo de Mariano Rajoy tem conhecido - seja
pela "questão catalã", seja pelos sucessivos escândalos que envolvem
altos dignitários do PP. Exemplos: Luis Barcenas, antigo tesoureiro do
PP, manteve uma contabilidade paralela e suspeita de ter beneficiado
vários barões do partido; Rodrigo Rato, ex-diretor do FMI e
ex-vice-chefe do Executivo liderado por José María Aznar figura entre os
86 dirigentes e gestores que terão desviado 15 milhões da Caja Madrid -
entidade resgatada com verbas públicas - através de despesas e cartões
de crédito não declarados ao fisco; Francisco Granados, antigo
vice-presidente da Comunidade autónoma de Madrid é um dos principais
envolvidos na Operação Púnica, uma rede em que políticos, autarcas e
construtores civis traficavam muitos euros e influências; José Manuel
Monago, atual presidente da comunidade autónoma da Extremadura deu-se ao
luxo de, enquanto foi senador, embarcar em 32 viagens, em classe
executiva, rumo às Canárias, onde o aguardavam assuntos de alcova, e de
apresentar as faturas ao próprio Senado; José Ángel Fernández Villa,
histórico líder sindicalista das Astúrias, está a ser investigado por
ter "legalizado" 1,4 milhões de euros de origem desconhecida; Isabel
Pantoja, estrela do jet set e do cançonetismo, começou esta semana a
cumprir dois anos de prisão por branqueamento de capitais.
A lista poderia continuar, porque, só em outubro, a justiça
implicou 141 personalidades em casos de corrupção. No total, quase 2 mil
pessoas aguardam julgamento. Um recorde que confirma as conclusões de
um estudo da Universidade de Las Palmas, divulgado em julho de 2013: o
custo social da corrupção em Espanha ascende a 40 mil milhões de euros
anuais.
Itália: as mãos sujas de Craxi e Berlusconi
O mesmo se passa com os italianos, cada vez menos tolerantes com as
promessas de quem os governa. No entanto, ao contrário de Espanha, onde
um primeiro-ministro nunca foi indiciado por qualquer crime, Itália
está, neste momento, a "celebrar" duas décadas do maior cataclismo
político que o país viveu desde a Segunda Guerra. Entre fevereiro de
1992 e dezembro de 1994, os velhos partidos quase desapareceram e
milhares de senadores, deputados, autarcas, empresários e tutti quanti
foram varridos, na Operação Mãos Limpas, iniciada por um juiz de Milão
chamado Antonio Di Pietro.
Tudo começou quando um socialista chamado Mario Chiesa foi apanhado
com um envelope de 7 milhões de liras (8 mil euros). Era o preço a pagar
pela cascata de comissões relacionada com os alvarás de um projeto de
construção. Nas semanas e meses que se seguiram, multiplicaram-se as
investigações, as detenções e até os suicídios - pelo menos quarenta. A
lei do silêncio deixa de vigorar e a máfia efetua dezenas de atentados,
com socialistas e democratas-cristãos a perceberem que o perverso modo
de funcionamento do país tem os dias contados. A opinião pública põe-se
do lado dos juízes e Di Pietro processa o primeiro--ministro socialista
Bettino Craxi. A ele e a mais 2 500 pessoas. Mani Pulite culmina na
eleição de um empresário amigo de Craxi - Silvio Berlusconi. O primeiro
seria condenado a 27 anos de prisão - à revelia, por se ter exilado na
Tunísia. O segundo viria a conquistar, depois, o seu lugar na história.