27/08/2010

Cada romance é como um puzzle


Nas minhas conversas com os leitores, é muito frequente surgirem perguntas sobre a motivação e o processo de conceber um romance. Sendo a escrita de um livro de ficção um acto criativo, cada autor terá decerto um modo próprio de o fazer. Assim, só posso falar da minha experiência.

A motivação para a criação de romances históricos surgiu há quase duas décadas (quando em Portugal muito poucos autores se dedicavam a este tipo de obra literária), com o desejo de dar a conhecer aos portugueses uma época espantosa da nossa História e da nossa Literatura - assim como nos restantes domínios da Cultura e da Ciência -, que foi o período dos Descobrimentos, tão injustamente remetidos a um patético tabu, em que era intelectual e politicamente incorrecto dizer-se bem dessa nossa expansão pioneira pelo mundo, durante os Séculos XIV, XV e XVI.

Uma atitude muito portuguesa, essa de desprezar o que é nosso! Tão contrária ao orgulho mostrado por outras nações que nos foram no encalço, para aprenderem connosco e nos roubarem depois, apoderando-se pela força das armas das nossas fortalezas e feitorias, praticando a sua expansão com a ocupação de mundos e de povos descobertos por nós, os quais, durante séculos e até ao início do Séc. XX, escravizaram e exterminaram com muito maior violência e frieza do que as exercidas pelos portugueses nessa época em si mesma brutal e bárbara (basta lembrar os Ingleses na Austrália, um entre muitos exemplos das nações europeias, para já não falar das de outras áreas geográficas).

Não eram, todavia, os feitos militares que me fascinavam neste período, eram sobretudo os heróis da extraordinária saga das Descobertas: navegadores e exploradores aventurando-se, antes de qualquer outra gente, em viagens impossíveis por mar e por terra; sábios descobridores dos astros, dos ventos, das correntes e das rotas marítimas que desenharam cada curva, linha ou ponto dos mapas do mundo moderno; estudiosos dos segredos da natureza, fazendo as primeiras descrições científicas modernas das drogas e das artes de curar os enfermos. E, acima de todos estes, os escritores - poetas e prosadores - com o espírito aberto do Renascimento, capazes de captarem em obras originalíssimas, de prosa e verso, esses mundos novos, essa surpresa contínua e maravilhada da descoberta do Outro, com as suas diferenças e semelhanças. Mundos até então encobertos, onde o insólito e o inexplicável podiam causar um terror supersticioso ou mesmo a morte, sem todavia lograrem destruir a curiosidade e o desejo de saber mais e de ir sempre mais longe.

É esse espírito, essa visão muito particular dos novos mundos (quase sempre fruto de vivências e experiências) e essas obras que eu quero dar a conhecer aos leitores, em cujos genes seguramente ainda perdura a marca desses homens que, na maioria dos casos, nem sequer têm os seus nomes impressos nos arquivos da História, embora tenham ajudado a construir as nossas vidas e o nosso futuro.

Existem muitas definições e teorias sobre o que é ou deve ser um romance histórico, se deve manter-se fiel à verdade das fontes e dos factos que narra, fazendo uma reconstituição rigorosa da época ou se, pelo contrário, sendo uma obra de ficção, o seu autor tem liberdade para reinventar a história a seu bel-prazer, sem as algemas da fidelidade histórica. Entre estes dois extremos creio que caberão todos os romances até hoje publicados.

Talvez por defeito de formação, porque me fiz como sou na convivência dos grandes mestres da Literatura portugueses e estrangeiros, confesso-me, em parte, herdeira de Alexandre Herculano e da sua concepção de romance histórico. Considero que este tipo de romance deve dar ao leitor algo mais do que uma intriga, um enredo; ele é um meio privilegiado para a partilha de conhecimentos, fruto das pesquisas do escritor sobre determinado acontecimento ou personagem da História.

Por estas razões, não só procuro manter-me fiel aos acontecimentos, como tento recriar os ambientes, temporais e espaciais, com grande pormenor (por vezes quase obsessivo, reconheço), porque quero fazer o leitor viajar no tempo até essa época, para ver o que lhe é descrito através do olhar das personagens e as ouça falar com a voz que lhes é própria.

Por outro lado, a minha formação em Literatura e o conhecimento das obras e dos autores deste período, levam-me a construir cada romance segundo os modelos e recursos narrativos que então vigoravam, como por exemplo, quando dou particular relevo ao papel do narrador-comentador e ao entrelaçamento das vidas das duas personagens em capítulos curtos, no D. Sebastião e o Vidente, ou escolho a estrutura de romance de cavalaria e busca do Graal para O Espião de D. João II cujo herói é o errante e solitário cavaleiro Pêro da Covilhã (à procura do mítico Preste João), ou ainda o labirinto das viagens e recordações de Bartolomeu Dias em O Navegador da Passagem, cujo contexto é a intrincada rede de jogos políticos de D. João II e D. Manuel.

25/08/2010

D. João II e "O Navegador da Passagem"


Ganhei um grande número de novos leitores graças ao título do meu romance O Espião de D. João II, por nele vir explícito o nome daquele que é considerado, se não o melhor, pelo menos um dos melhores reis da História de Portugal, e que ultimamente tem despertado muito interesse nos portugueses que gostam de conhecer a sua História.

Contudo, o meu romance que trata em pormenor da vida e obra deste rei é não "O Espião de D. João II", mas O Navegador da Passagem, porque o seu reinado serve de contextualização às viagens do grande Navegador Bartolomeu Dias (outra personalidade portuguesa extraordinária e quase ignorada). Neste romance, são descritos os dramas pessoais do Príncipe Perfeito, os seus empreendimentos, as conspirações de que foi vítima ou que urdiu, a sua política de grande visão e a rede de de espiões e de relações internacionais (incluindo algumas personagens e episódios espantosos pouco conhecidos que tive a sorte de descobrir nas minhas pesquisas em obras de autores coevos).

Nas conversas que tenho tido com esses novos leitores, procuro informá-los de que em O Espião de D. João II - que se seguiu a O Navegador da Passagem -, procurei complementar a informação deste reinado, desenvolvendo, a propósito das viagens de Pêro da Covilhã (outro herói também injustiçado, por ignorado), o sonho do Príncipe Perfeito, uma espécie de busca do Graal a que devotou muitos anos da sua vida: a descoberta do Preste João e também da rota das especiarias da Índia.

A escolha de um título, por estranho que pareça, pode ajudar a determinar o sucesso ou o insucesso de um livro, atraindo os leitores ou afastando-os. Creio que isso aconteceu, de certo modo, com O Navegador da Passagem, um título que achei poético e capaz de sintetizar o conteúdo do romance. Todavia, creio que o facto de não nomear Bartolomeu Dias ou el-rei D. João II - o que não quis fazer por me parecer demasiado óbvio - deve ter funcionado um pouco contra esta obra, em relação aos novos leitores.

Talvez me engane, no entanto julgo pertinente deixar aqui este esclarecimento.

23/08/2010

Pechincha: D. Sebastião e o Vidente

Como há muitos leitores apaixonados pelo meu romance D. Sebastião e o Vidente (a ponto de terem criado esta Página no Facebook), venho informar que a Porto Editora está a vendê-lo, com 50% desconto, por 9,49 €, nas suas Páginas on-line. Ver Aqui e na WOOK.

20/08/2010

Feira do Livro de Sesimbra 2010


No dia 15 de Agosto, encerrou-se a VII Feira do Livro de Sesimbra. Não era um grande certame com pavilhões de editoras, era apenas um salão comprido, contudo parecia imenso, assim povoado de palavras, sentimentos e sonhos. Abria-se sobre o mar, com promessas de viagens por novos mundos ou antigas paisagens revisitadas.


É de louvar o esforço feito pela Câmara Municipal de Sesimbra e por pessoas como Rui Graça e seus colaboradores, para promoverem a leitura, levando os livros e os seus autores ao encontro de potenciais leitores. E esta actividade cultural, tão necessária, tem sido prática corrente, durante o Verão, em inúmeras vilas e cidades. E atrai público - adultos e jovens -, por vezes famílias inteiras, para comprar com desconto a obra desejada, só ver as novidades ou simplesmente sentir o prazer de folhear um livro. E para conhecer e conversar com os escritores.


Quanto a mim, no dia 1 de Agosto, passei uma noite de animado convívio com os leitores e veraneantes de Sesimbra. Conheci um professor, natural de Pedrógão Grande que veio à Feira de propósito para me ver, trazendo um exemplar do meu D. Sebastião e o Vidente para eu assinar: queria saber se eu era sua conterrânea, pois não seria possível descrever a terra e os costumes de Pedrógão Grande, do modo como fiz no romance, não sendo nada e criada na terra da minha personagem, o aventureiro Miguel Leitão de Andrada.
E conversei com muitos outros que conheciam parte ou até todos os meus romances e gostavam da minha escrita!
Tenho de confessar, todavia, que morri de inveja do autor desconhecido que conseguiu prender desta forma, com o seu livro, a atenção do leitor.


Procurei enviar as fotos deste amante da leitura à sua mãe, mas o endereço do e-mail que me deu deve estar errado, porque não recebi resposta.

28/07/2010

A minha gratidão...

...a todos os que transformaram o dia dos meus anos em festa gloriosa, por se lembrarem de mim, enviando-me mensagens através do Facebook, por telefone, telemóvel ou e-mail. Foram mais de cem, um espanto! Fico-vos imensamente reconhecida por essa mostra de carinho que tanto me emocionou.

Na impossibilidade de as transcrever a todas, gostaria de vos deixar aqui um exemplo dessas mensagens fora do Facebook e que, portanto, foram lidas apenas por mim. Espero que a autora não se importe, pois agradecendo-lhe, faço-o também aos restantes amigos. Ei-la:

Neste dia...
As flores de espuma e sargaço, no ocidente canteiro do mar,
desabrocharam com o madrugar da cotovia; o rio saiu das margens
confundindo as pedrinhas redondas, lisas e brilhantes com uma qualquer alegoria; alindou-se de Verão o verso que abriu a cancela para a romaria passar. E todos exclamaram em uníssono que eram horas de festejar. Viva a Deana, viva!

Feliz Aniversário, Navegadora!

Um grande abraço e um beijinho.

Isabel



Muito obrigada, "Poetisa Encoberta das Terras do Minho".
Muito obrigada, queridos amigos. Um grande beijo a todos.
Deana

26/07/2010

Feira do Livro de Sesimbra


Estarei à Conversa com os Leitores e a assinar os meus livros a quem quiser, no dia 1 de Agosto, Domingo, às 21.30 h, na 7ª Feira do Livro de Sesimbra.

Espero-vos, para uma amena cavaqueira, no recinto destinado aos eventos, à entrada da Feira, na Praça da Califórnia (junto ao Hotel & Spa de Sesimbra).

O Espião de D. João II é Livro do Dia.

Página do Facebook

Programa

24/07/2010

O Google repôs o meu blogue

Amigos Leitores

Ao fim de 13 longos dias - talvez por ser o dia dos meus anos - o Google devolveu-me a identidade virtual: cédula de nascimento, bilhete de identidade, cadastro, curriculum vitae e passaporte de internauta, ou seja, restaurou o meu blogue http://deanabarroqueiro.blogspot.com/, que é tudo isso e muito mais.

Durante duas semanas, senti-me ostracizada (homiziada como diriam as minhas personagens do Renascimento), como se de repente tivesse sido declarada apátrida (o que já me sucedeu na vida real, essa outra vida minha sempre recheada de imprevistos e de sucessos absurdos, dignos dos meus romances de aventuras)!

Porém, tendo prevalecido a rebelde persistência humana (minha) sobre a cegueira implacável dos robots googleanos, a justiça foi por fim reposta: revalidaram a minha existência, enquanto ser virtual, já inseparável deste imenso universo que é a Blogosfera e aqui me tendes, ressuscitada e inteira, de novo entre vós.

16/07/2010

Viagens bíblicas


Julgo que o Google apagou a minha Página Principal, sob a acusação de "violação por SPAM" por eu ter os meus três blogues interligados e os robots, pouco inteligentes, tomaram-nos por SPAM.
Assim mesmo, vou correr o risco de ficar de novo sem estes dois blogues de comunicação com os meus amigos, ao indicar-vos a minha última postagem do blogue "O Romance da Bíblia", por aí descrever um dos meus modos de pesquisa para a recriação dos ambientes e da vida dessas gentes. Ver em Terras, gentes e usos do Romance da Bíblia

13/07/2010

O meu romance e a Moda Lisboa


Tenho febre e dores de garganta. Sinal seguro de que vou ficar mais de um mês a contas com uma dessas gripes que nos minam todas as capacidades de trabalho e de prazer e nos deixam com um humor de cão.
Incapaz de escrever, passeio-me pelas alamedas, ruas e ruelas desta cidade virtual que se abre, no monitor, diante dos meus olhos distraídos, à procura de algo que me alegre. E vejo esta passagem de uma entrevista feita, há já alguns meses, pelo autor do blogue "Conceito de Homem" ao criador Nuno Gama, durante o certame da Moda Lisboa:

Conceito de Homem - Gosta de ler ?

Nuno Gama - Eu gosto imenso de ler, gosto imenso de História, em particular História de Portugal. Estou a terminar um livro e estou a ficar tristíssimo porque não tenho nada para ler a seguir, que é o D Sebastião e o Vidente , que é fabuloso e recomendo a toda a gente, ficamos com uma visão global com relação ao D. Sebastião, e à nossa história, ainda há muita gente que associa o saudosismo entre a Amália Rodrigues, Salazar e D Sebastião… o livro é profundamente envolvente.


Obrigada Nuno Gama! Um afago destes ao meu ego, se não me cura, pelo menos ajuda a melhorar a minha disposição.

O resto da Entrevista pode ser vista AQUI.

10/07/2010

A barbárie do Islão fundamentalista


A morte por apedrejamento

Quando o poder religoso, em mãos de fanáticos, domina o poder político, implanta-se a barbárie e volta-se à Idade Média. Em nome de Deus e de uma falsa moral, os mullahs e imãs do mundo muçulmano fundamentalista - gente sacrílega e ávida de mando - arrogam-se o poder divino de dar vida e morte aos que lhe estão sujeitos, mesmo quando inocentes e, em particular, a mulheres indefesas. Como cidadã do mundo, mulher e escritora, sinto o dever de denunciar a infâmia e o crime. Faço-o nos meus livros. E um dos crimes mais infames do Islão é a morte por apedrejamento de mulheres a quem não é dada a possibilidade de se defenderem, pois os julgamentos não passam de uma farsa obscena (se homens e mulheres são igualmente incriminados por adultério e relações sexuais, porque será que no Irão há 12 mulheres e apenas 3 homens, nas prisões, à espera desta pena de morte?).
Podem ver em pormenor, neste excerto do meu livro "O Espião de D. João II", a morte por lapidação de uma "adúltera", nos finais do Século XV, um modelo de "justiça" posto novamente em prática nos inúmeros países fundamentalistas muçulmanos:


"– É chegada a hora! – anuncia numa voz sem cor. – O Conselho requer a tua presença durante o castigo da adúltera.
O escudeiro (Pêro da Covilhã) faz um esforço para se dominar e as palavras sibilam-lhe de raiva por entre os dentes cerrados:
– Mina Atef não cometeu adultério e eu recuso-me a assistir ao assassínio de uma mulher inocente.
O velho faz um sinal ao mercenário que prontamente se acerca do português.
– A mulher foi julgada e condenada segundo as leis do Mensageiro de Allah (a paz seja com ele) – diz Saed com voz dura. – A lei la Taqrabuz zina ordena ao crente que não chegue sequer próximo do adultério, não precisa de o cometer! Por isso o acto de Mina Atef mereceu o haad , como castigo. E tu tens de assistir ou acabarás por partilhar da sua sorte.

Obedece. Sacode com brusquidão a mão do mercenário que lhe segura o braço e sai da tenda, caminhando entre o imã e o guerreiro para o local do sacrifício. Em volta do buraco, está desenhado um círculo com um raio de cerca de seis passos. Dois imãs verificam as pedras, retirando as que lhes parecem impróprias para o castigo: as muito pequenas por não fazerem dano e as muito grandes pelo risco de a matarem depressa demais.
Enterram as pedras rejeitadas e observam a multidão que se vai juntando na parte exterior do sulco de areia e, num vozear exaltado, abre alas para dar passagem a Pêro e à sua escolta. Os murmúrios cessam de chofre e o silêncio torna-se ameaçador e maligno quando Mina é trazida por dois homens para junto do buraco, dentro do círculo. O rosto da mulher está pálido, vazio de vida e o olhar sem brilho fixa-se nos olhos acesos de revolta do escudeiro que não sabe se é a febre do deserto ou a pedra da Vidente que lhe queima o peito e lhe faz escorrer fios de suor pelo corpo, num arrepio de sezões.

Os dois sacerdotes acercam-se de Mina e atam-lhe as vestes em volta do corpo, imobilizando-a, sem que a mulher emita um protesto ou um gesto de rebeldia, numa aceitação resignada do seu destino ou da vontade de Allah. Os dois coveiros erguem-na como se fora um fardo e metem-na, de pé, dentro do buraco, cobrindo-a até ao peito com areia que calcam em volta.
Os preparativos são, em si mesmos, uma cruel tortura infligida à condenada, como se os seus algozes procurassem causar-lhe, pelo opróbrio e pública humilhação, outra punição antes da morte. A cabeça de Mina, emergindo do solo, como um estranho fruto, é uma visão insuportável. Os seus olhos muito abertos ganham a pouco e pouco a expressão de um pequeno animal acossado, como se o desamparo e a solidão daquele enterramento a fizessem tomar, por fim, consciência da provação que a espera.

Pêro cerra os dentes, com repulsa e remorso. Era ele que devia estar ali, em vez de Mina, já que fora ele o causador da sua desgraça. Talvez até lograsse escapar. Saed dissera-lhe que a lei da Shariah concedia a liberdade ao condenado que, durante o castigo, se soltasse do buraco e fugisse. E um homem tinha mais vantagens do que uma mulher, posto que, enquanto ela era enterrada até ao pescoço, o homem era-o apenas até à cintura, podendo assim libertar-se com mais facilidade se fosse forte e ágil. Mina não tem salvação.
– Que os parentes do ofendido atirem as primeiras pedras – ordena o imã mais velho para a turba que segura nas mãos impacientes as pedras que apanhara no monte e acrescenta num tom de melopeia: – Allah hu Akbar!

É o sinal. Homens, mulheres e crianças começam a entoar em coro Allah hu Akbar! Allah hu Akbar! O irmão do ofendido, com os pés a tocarem o risco na areia, inclina o corpo e, visando a cabeça da cunhada, lança a primeira pedra e falha. A seu lado, a esposa mais velha de Ahmed Atef solta uma exclamação de despeito e arremessa com fúria um calhau de arestas cortantes que acerta em cheio na fronte de Mina, com um ruído surdo, seguido de um grito lancinante que parece sair das entranhas da terra. O sangue borbulha da ferida e escorre pelo rosto contorcido de dor.
– Allah hu Akbar! Allah hu Akbar! – a melopeia do coro sobe de tom, fervorosa.
Duas pedras falham o alvo e duas rasgam-lhe os lábios e o sangue salta de mistura com os dentes que Mina cospe por entre gritos e súplicas, enquanto forceja em vão por se libertar da prisão de areia que lentamente se tinge de vermelho:
– Perdão! Perdão! Allah amerceia-te de mim!
Pêro balbucia em português:
– Jesus Cristo! Virgem Maria! Tende piedade dela!
Na sua perturbação, só se dá conta de que orara a Cristo e à Virgem, quando a seu lado o imã Saed, ensurdecido pelo cântico, lhe pede para repetir a sua fala. O escudeiro empalidece de agonia. O mais pequeno incidente que o denuncie como cristão dar-lhe-á morte imediata esfandangado por aquela horda sedenta de sangue.

Os gritos de Mina enfraquecem, mudando-se em gemidos e num cuinchar abafado. Já não é possível reconhecer uma cabeça humana naquela massa palpitante e ensanguentada que oscila de um lado para o outro, para trás e para a frente, sob o impacto dos golpes. O olho direito foi arrancado e pende do buraco da órbita como um sinal esbranquiçado numa pasta de sangue, pele e ossos esmagados, de onde desapareceram os contornos do rosto. As pedras que continuam a cair sobre a pecadora já não fazem o ruído surdo do início, têm agora o som líquido dos seixos que, nas suas brincadeiras de comparar pontarias, os rapazes atiram à água dos rios e lagos.

O suplício eterniza-se e o corpo do espião treme ora de calor, ora de frio e um suor pegajoso ensopa-lhe as roupas e só a duras penas consegue dominar os vómitos que lhe sobem à boca, como uma maré azeda. A massa sangrenta parece ter diminuído de tamanho, já quase não faz relevo no tapete vermelho de areia molhada. Já não há movimento, nem sequer um tremor ou arrepio. Nenhum som. Só um cheiro quente e peganhento de uma vida que se escoa em dor e solidão. As pedras caem sempre e o grito de “Allah hu Akbar!” – Deus é grande! – continua incansável a subir aos céus para chegar aos ouvidos divinos. O mareio traz-lhe novamente à boca um cuspo ácido e amargo e o escudeiro sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés e tomba desacordado, meio sufocado pelo vómito".

28/06/2010

Vencedores do Passatempo

O passatempo "O Romance da Bíblia", realizado pelo Marcador de Livros de parceria com a Editora Ésquilo, terminou no Domingo, dia 27, com um total de 154 participações.

Os vencedores foram:
Agostinho Gonçalves - Monção
Nuno Ricardo Moreira Gonçalves - Vila de Punhe
Nelson Frias Amaral - Sátão, Viseu

Parabéns aos vencedores e os meus agradecimentos, a todos os leitores que participaram, pelo interesse que manifestaram pela minha obra. Bem hajam!

27/06/2010

Passatempo Marcador de Livros - Lembrete

Não se esqueçam que termina à meia-noite de hoje, Domingo, a possiblidade de ganhar um dos 3 exemplares d'O Romance da Bíblia, a minha obra preferida. Observei em alguns blogues sobre passatempos que houve dificuldade em encontrar as respostas, mas elas estão no excerto dado no Marcador de Livros e também na Página de O Romance da Bíblia e na minha Página Principal. Ainda vão a tempo de concorrer. Boa sorte!

22/06/2010

Passatempo: Quer ganhar O Romance da Bíblia?

Passatempo Ésquilo / Marcador de Livros

O blogue Marcador de Livros, em parceria com a Editora Ésquilo, lançou um passatempo, onde serão oferecidos três exemplares da minha última obra, O Romance da Bíblia.

O desafio está já a decorrer e terminará às 23.59 h. do dia 27 de Junho. Basta responder acertadamente às perguntas de Maria Manuel Magalhães, a autora do blogue.

Se se virem aflitos, consultem a página do romance (http://romancedabiblia.blogspot.com/) que decerto vos prestará alguma juda.

Vejam como participar AQUI

80ª Feira do Livro de Lisboa e Porto

Terminaram as Feiras do Livro de Lisboa e do Porto e, embora leia nos jornais e na internet a satisfação de alguns editores e livreiros, por terem facturado mais do que no ano anterior, sinto o mesmo desconsolo de sempre.

Pouco mudou num certame que devia ser um dos maiores eventos portugueses em prol dos livros, dos autores e dos leitores e, todavia, continua a parecer uma mero arraial de província, quer a nível de qualidade, exposição e informação, quer a nível de eventos culturais. Pobre, insignificante, revelando incompetência na organização. Na de Lisbos, no dia anterior à sua abertura, ainda não havia qualquer informação na Página do certame, rigorosamente nada; na do Porto, indicavam-se alguns livros do dia e umas raras sessões de autógrafos.

Copiamos tudo do estrangeiro, já agora porque não fazer algo semelhante às Feiras do Livro europeias ou até brasileiras? Este ano (valha-nos isso!) não houve as habituais tricas entre os participantes, que só prejudicam os leitores que eles afirmam querer servir e beneficiar.

Valeu pelo contacto com os leitores, que é a parte mais gostosa, para além da escrita, aos quais rendo aqui a minha homenagem e agradeço a amável companhia:

18/06/2010

Sessões de Autógrafos Invisíveis

Não existe na Página da Feira do Livro do Porto um e-mail ou um telefone para contactos com os seus responsáveis.

Vou estar na Feira a assinar autógrafos ao Romance da Bíblia e ao Espião de D. João II, no dia 19, das 15 às 18 h. e não vejo lá qualquer indicação da minha sessão, nem de O Espião de D. João II ser Lvro do Dia da Ésquilo.

Não se compreende que haja tão poucas indicações da presença de escritores, até parece que há editoras privilegiadas e outras parentes pobres que não merecem referência. Procurei em vão contactá-los, pois gostaria que os meus leitores do Porto soubessem da minha ida e da minha vontade de os receber no Pavilhão A20 da Ésquilo.

Por isso deixei o meu apelo na sua Página do Facebook, todavia tenho poucas esperanças de que alguém responsável o leia e resolva o lapso até amanhã. O que será de lamentar!