07/04/2018

«1640» - Contra o Acordo Ortográfico


No dia 28 de Março passado, participei no 29º Colóquio Internacional da Lusofonia, convidada pela Câmara Municipal de Belmonte, para apresentar o meu novo romance «1640». A minha maior surpresa foi ter verificado, já depois de ter escrito um trabalhoso artigo para as Actas do Colóquio, que os seus organizadores exigiam a todos os participantes que escrevessem segundo o AO, mesmo os daqueles países que não o assinaram, o que é inconcebível. Não podia recusar o compromisso que assumira com a Câmara, por isso adaptei o meu discurso à minha indignação. E deixo-vos aqui os excertos que têm que ver expressamente com o que penso do crime que foi cometido contra a língua escrita que eu amo. Lembro que na sala havia altos responsáveis pela criação do dito AO:



«1640»: Quando a realidade e a lenda se fundem nasce o romance histórico

     Impõe-se-me em modo de introdução um esclarecimento: Sou licenciada em Filologia Românica e fui 35 anos, professora de Língua e Literatura Portuguesa, procurando transmitir a alguns milhares de alunos a minha paixão por este património riquíssimo, que é a nossa Língua, a mais viva expressão da alma portuguesa, que não deve ser aviltada ou corrompida. Razão pela qual sou, como tantos milhões de utilizadores desse património precioso, visceralmente contra o famigerado Acordo Ortográfico, feito no segredo de um gabinete e à revelia das instituições e organismos próprios e da maioria dos que dela fazem profissão, um abuso intolerável cometido por alguns iluminados cuja motivação não foi seguramente a valorização da Língua Portuguesa. Os artífices do Aborto Ortográfico mostram que não a amam, mas acham-se donos dela, tendo a arrogância de a quererem impor a um povo inteiro e aos restantes países da Lusofonia, sem atender à maravilhosa riqueza das suas variantes, cujos aportes têm enriquecido o português de Portugal, a língua-mãe, de onde partiram todas as que são hoje aqui faladas e escritas. Rendo as minhas homenagens aos países irmãos que se recusaram a assinar esse inqualificável acordo e espero que nunca o venham a fazer; tal como vi, com amarga ironia, que dos três países assinantes, o Brasil, como sempre, voltou atrás, recusando-se a aplicá-lo. 
     Assim, também me espantou que, neste colóquio, que é uma ocasião única para se poder apreciar as variantes tão ricas da portuguesa língua, se tenha imposto essa malfadada uniformização da escrita, que não é outra coisa senão uma canhestra mutilação, a todos os participantes dos países que o recusaram: Não perdem ocasião de impor pela força aquilo que não conseguem com a razão. 
     Recuso o corte das consoantes mudas que podem não se ouvir, mas falam na escrita com a linguagem dos sinais, mostrando-nos a sua origem e diferenciação, nos seus étimos e raízes. Esse (Des)Acordo nem toma em consideração as variantes dialectais do nosso próprio país, onde há zonas em que a mesma palavra se pronuncia com C e noutras é muda. 

     Trabalhar a nossa língua em todos os seus registos é um prazer divino e a maior motivação da mi  nha escrita. «1640», o meu último romance, levou esse exercício mais longe do que me permiti sonhar. Amo este país e a sua cultura por isso só escrevo romances históricos de temática nacional, a partir das histórias daqueles que souberam criar, desenvolver e manusear a nossa língua com infinita mestria e originalidade, de que nós hoje somos fracos herdeiros. Na minha trilogia dos Descobrimentos – O Navegador da Passagem, O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares – recorri ao estilo e linguagem dos cronistas dos séculos XV e XVI, em que a língua ainda se encontrava em processo de desenvolvimento, transbordante de criatividade; em D. Sebastião e o Vidente, mas, sobretudo, no «1640», que aqui venho apresentar, pude gozar com toda a plenitude a volúpia da Língua Portuguesa, que atingiu as maiores alturas no século XVII. 
     Ao escolher para guias do leitor, quatro dos seus maiores mestres e cultores, fui forçada a meter-me na pele (ou a meter sob a minha pele) o épico Brás Garcia de Mascarenhas, a poetisa lírica Soror Violante do Céu, o maior prosador ibérico seiscentista D. Francisco Manuel de Melo e o pregador António Vieira, que deslumbrava pelo virtuosismo da expressão. Quatro narrações feitas em 1ª pessoa, que constituíram, para a escritora, um tremendo desafio, mas também um prazer sem limites.  
      O romance está construído como um puzzle ou uma teia de intertextualidades documentais, geográficas, literárias, filosóficas, religiosas, sociais e culturais, para envolver o leitor, de modo a que ele possa sentir o prazer estético da leitura, aprofundando em simultâneo o seu conhecimento da época em que decorre a acção. No século XVI, passada a euforia da grande odisseia dos descobrimentos de outros mundos até então encobertos aos europeus, a crise endémica portuguesa, provocada pelos problemas políticos, económicos e sociais, vai culminar no desastre de Alcácer-Quibir e na posterior anexação de Portugal por Espanha. O romance 1640 reflecte esses tempos de crise e da vida problemática das suas gentes. Sendo obra de ficção, tem como principal objectivo o prazer estético da leitura, por isso o escritor frui de uma liberdade criativa que é negada ao historiador; contudo, enquanto género histórico, o romance exige uma componente de informação e conhecimento da História que o distingue e singulariza em relação a todos os outros tipos de romance. O que, para ser feito com honestidade intelectual e respeito pelo leitor, implica da parte do seu autor um estudo de alguns anos, não só dos factos narrados, mas sobretudo da sua contextualização, nos múltiplos aspectos de cada época e da mentalidade dos seus actantes. 
O desastre de Alcácer-Quibir (com que termina o romance D. Sebastião e o Vidente), a crise dinástica, a guerra civil e a anexação do reino por Filipe II de Espanha, numa pretensa União Ibérica, são os antecedentes do romance 1640, em que Portugal foi arrastado para os conflitos do Império espanhol, em particular, da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), uma das mais destrutivas da Europa. A fim de alimentar a guerra em várias frentes, Filipe IV de Espanha e o conde-duque de Olivares, fazendo tábua-rasa dos acordos sobre a autonomia de Portugal, esgotaram os seus recursos humanos e materiais, destruindo a economia e esmagando o povo com impostos, que eram aplicados não em benefício dos portugueses mas dos espanhóis, transformando o reino numa das mais pobres províncias da Península Ibérica.
Olivares contou com os serviços de funcionários portugueses submissos e interesseiros, como Diogo Soares, em Madrid, e Miguel de Vasconcelos, em Lisboa, os bons alunos do Ministro estrangeiro, que não só obedeceram às suas directrizes, como foram mais longe na imposição de sacrifícios aos seus compatriotas, reduzindo-os à miséria e à fome. Ao estudar a crise social, económica e política de Portugal, nos textos deste período, foi possível estabelecer um paralelismo entre este triunvirato de governantes seiscentistas e a Troika que nos veio governar, em 2011, imposta pelo FMI/instituições europeias, com os seus nefastos resultados.
Nestes períodos de crise, Portugal procurou uma panaceia ou incentivo contra o pessimismo e a estagnação do país, na afirmação da sua nacionalidade e identidade colectiva. E nada melhor para valorizar a nação do que atribuir-lhe origens divinas ou tão antigas, que remontassem a um tempo anterior à sua criação, legitimando-a. Assim, como princípio fundador, mais remoto, surge a identificação de Portugal com a Lusitânia e dos portugueses com os Lusos ou Lusitanos, e consequente apropriação do herói Viriato e da sua luta pela autonomia do território, como matriz e origem histórica de Portugal, uma tese veiculada e exaltada pela Literatura, com expressão máxima nos Lusíadas, de Luís de Camões, no século XVI, e no Viriato Trágico, de Brás Garcia Mascarenhas, no XVII.
A reforçar essa legitimidade, uma tese posterior vai atribuir origem divina à fundação do reino de Portugal, por D. Afonso Henriques, sacralizada, em 1139, pelo milagre de Ourique, na sua anunciada visão de Cristo crucificado a prometer-lhe a vitória contra os cinco reis mouros. Um milagre que o consagra rei, em pleno campo de batalha, e que será descrito em futuras crónicas, servindo de argumento para a sua legitimação pelo papa. Sobrepondo-se à valorização política dos dois princípios fundadores, coexistiam três crenças messiânicas, que indicavam 1666 como o annus mirabilis: a dos judeus e cristãos-novos para a vinda do seu Messias; a dos sebastianistas para o regresso d’El-Rei Dom Sebastião; e a dos milenários à espera da destruição do Turco e da instauração de um Quinto Império, cristão e universal, que Bandarra mencionava nas suas Trovas.
O povo oprimido começou a ansiar pelo regresso do rei D. Sebastião, desaparecido sem deixar rasto no campo de batalha e identificado com o Encoberto das profecias do sapateiro santo. Uma crença que foi crescendo, cada vez mais forte, durante o domínio dos três Filipes, alimentando a esperança do povo português na sua libertação. Padre António Vieira defenderá a deia do Quinto Império, o  Império de Cristo, para um período de mil anos, que terá Portugal como guia, quando todos os pagãos, judeus e muçulmanos forem convertidos ao catolicismo, o reino do Deus único e verdadeiro.
O romance 1640, apoiado em inúmeras fontes documentais coevas e actuais, procura fazer um retrato verosímil do Portugal seiscentista, dos seus conflitos internos e das suas difíceis relações internacionais, numa luta pela sobrevivência como nação independente. A acção decorre num período de cinquenta anos (1617-1667), riquíssimo em acontecimentos, dramas e personagens.
No dia 1 de Dezembro de 1640, os portugueses dos três Estados – povo, clero e nobreza – soltaram o grito de liberdade e tomaram o destino do país nas suas mãos, iniciando uma intensa luta para sair da crise pelos seus próprios meios, num Portugal esgotado e acossado por nações inimigas – a Espanha e as suas aliadas –, mas também pelas «amigas», como a Inglaterra e a França, que impuseram condições esmagadoras em troca da sua ajuda. Tal como nos nossos dias.
A estrutura formal da obra foi inspirada na Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo, que, ao estilo da época barroca e em total sintonia com a intriga, recorre aos Diálogos entre várias personagens que discutem, comentam e problematizam os assuntos mais variados, introduzindo os capítulos narrativos dos sucessos que mais os marcaram, preocuparam ou divertiram.
Durante a dominação filipina, os reis e a Corte residiam em Madrid, centro de acção e decisão sobre todos os assuntos do Império Espanhol e das suas relações com o mundo, mas também um lugar privilegiado de criação e promoção de progresso, cultura e entretenimento. Lisboa, a antiga residência da dinastia de Avis, perdeu assim o seu estatuto de Corte régia, transformando-se em mera capital de província.
Cansada de correr para Espanha, a mendigar mercês, parte da nobreza de Portugal retirou-se para os seus domínios, no campo, onde fez florescer as «cortes de aldeia», que procuravam imitar, segundo o estatuto e as posses dos seus senhores, as Cortes régias, com mecenato a escritores, músicos e outros artistas. A mais fulgurante, em dimensão e importância, foi a dos duques de Bragança, em Vila Viçosa, cujo cerimonial cortês era idêntico ao de Madrid.
Uma mentalidade barroca que, segundo Vitorino Magalhães Godinho, “anseia pelo fausto e pela exibição, nos círculos nobres como nos religiosos – uma religião de exuberância decorativa, aquietando-se nos ritos de subterrâneas inquietações, satisfazendo-se na exterioridade de uma insatisfeita interioridade”. Assim, nas cidades, essa função cultural e intelectual é assumida nos conventos pelas freiras, cultas e de nobre ascendência, alguns célebres quer pelos seus Outeiros (representações teatrais, concertos musicais, saraus de poesia e produção literária), quer pelos escândalos de cariz licencioso das suas religiosas.
Na primeira parte do romance, o narrador é o poeta Brás Garcia de Mascarenhas, autor do Viriato Trágico, a grande epopeia seiscentista cujo herói é o pastor dos Montes Hermínios, com a sua luta contra os romanos, que simboliza a revolta dos portugueses contra a ocupação espanhola. Brás é a personagem de maior relevância, embora desconhecida dos portugueses, que pretendi resgatar ao limbo do esquecimento, restituindo-a a um merecido lugar entre os maiores vultos da cultura portuguesa. Nascido em Avô, amante traído, proscrito e aventureiro, Brás vai conduzir o leitor pelo dédalo de sucessos anteriores à Restauração, como as guerras do Brasil contra os holandeses, a sua amizade com António Vieira, as experiências com os índios e a sua complexa vida amorosa.
Na segunda parte, guia-o Soror Violante do Céu, desde o convento da Rosa, em Lisboa. Cultora do conceptismo e cultismo, tanto na poesia de temática religiosa como na de cariz secular/erótico. Celebrada pelos seus contemporâneos, como a Décima Musa e a Fénix dos Engenhos Portugueses, dará a conhecer a situação e vida das mulheres de seiscentos, enclausuradas sem vocação nos conventos, algumas desde a infância, uma prisão que, paradoxalmente, era para muitas uma libertação da tirania masculina castradora, permitindo-lhes estudar e exercer os seus talentos de artistas, letradas ou cientistas, o que de outro modo lhes era vedado pelos homens, sob o pretexto de serem intelectualmente inferiores.
Na terceira parte, os conflitos de ordem militar serão relatados por D. Francisco Manuel de Melo, o grande prosador e poeta do século. Na prisão da Torre, este Fidalgo de Dom, aparentado com a Casa de Bragança, militar e marinheiro, foi vítima de uma Justiça corrupta (um traço comum às quatro personagens) que o condenou a doze anos de prisão e ao exílio no Brasil. O seu testemunho permite tomar conhecimento da intrincada rede de conspirações, espionagem e traições com que Portugal e D. João IV se debateram para ganhar a liberdade.
Na quarta parte, o leitor é levado pelas palavras e reflexões do jesuíta António Vieira, o mais brilhante pensador e pregador de todos os tempos, que o guiará pelos meandros da diplomacia nacional e internacional, em que D. João IV se vai empenhar num dificílimo jogo de custosas alianças, para que Portugal possa recuperar o seu estatuto de nação independente. No cárcere da Inquisição, entre 1663 e 1667, ano em que termina o romance, Padre António Vieira, relembrando a sua vida passada, dará conta dos mais significativos sucessos em que participou até à crise política interna, do reinado de D. Afonso VI.
A complexidade do assunto a tratar implicou o estudo de uma infinidade de temas, porque só no cruzamento de saberes se pode alcançar o multifacetado conhecimento de uma época, um trabalho que se arrastou por treze anos de investigação, embora alternando a sua escrita com a da trilogia dos Descobrimentos.
1640 é uma data fulcral da nossa História, que mudou o destino da nação, pois, sem a Restauração, Portugal não seria o mesmo e talvez não passássemos hoje de uma pobre província espanhola, a falar um dialecto e a sonhar com a independência, como a Catalunha, cuja revolta ajudou então à nossa libertação. Assim como, sem a Expansão Marítima Portuguesa, ou seja, sem os Descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI, os países da Lusofonia não existiriam como tal, nem falariam a Língua Portuguesa em todos os seus ricos matizes e este Colóquio não teria razão para existir. Deo gratias, por isso não ter acontecido.



01/04/2018

NO JORNAL HOJE MACAU


Cinema
 João Botelho assume plágio de romance histórico no filme “A Peregrinação”
ANDREIA SOFIA SILVA - 29 MAR 2018 
O cineasta João Botelho assumiu o plágio do livro “O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto”, na escrita do argumento do filme “A Peregrinação”, rodado parcialmente em Macau. A autora da obra, Deana Barroqueiro, não esconde a revolta e denunciou o caso na sua página pessoal do Facebook
Afinal, o cineasta português João Botelho não escreveu o argumento do seu filme “A Peregrinação” com base na obra original do escritor Fernão Mendes Pinto, mas sim a partir do romance histórico de Deana Barroqueiro, intitulado “O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto”. O filme foi parcialmente filmado em Macau e ambos os autores estiveram presentes no território a convite do festival literário Rota das Letras.
Foi a própria autora que fez a denúncia do caso na sua página pessoal de Facebook, depois de ter recebido uma carta de João Botelho, também endereçada à sua editora, Casa das Letras/Leya.
Na missiva, o cineasta explicou que tentou, durante meses, contactar Deana Barroqueiro, mas que nunca conseguiu. “Sou o autor do filme “A Peregrinação” e durante meses, nesta ‘arte de vampiro’ que é afinal o cinema, li, consultei, adaptei e reescrevi cenas para a minha curta adaptação da vida e do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto. Na verdade, o seu romance, o Corsário dos Sete Mares, foi forte inspiração para algumas cenas do filme, as da China”, pode ler-se.
Botelho adiantou ainda que pensou que a autora estaria nos Estados Unidos, pois tentou “contactar a editora e não conseguiu à primeira nem à segunda”. “É evidente que devia ter insistido três, quatro vezes. Mas meteu-se a produção – trabalhosa, longa e difícil. Tive o cuidado de colocar em primeiro lugar nos agradecimentos, no genérico final do filme, o seu nome. É pouco, eu sei. Eu e o produtor aceitamos a sugestão da sua editora para colocar uma cinta com os dizeres: ‘Inclui episódios adaptados do romance O Corsário dos Sete Mares’. Perdoe-me”, conclui a carta.
Na sua resposta, que também partilhou no Facebook, Deana Barroqueiro não escondeu a indignação. “A sua justificação de que não me conseguiu contactar nem à editora Leya é inverosímil, bastava que algum dos seus ajudantes pusesse o meu nome no Google e acharia diversos meios para o fazer – sou figura pública, tenho blogues, várias páginas no Facebook, e-mails e telefones e passo meses sem sair de casa, a escrever; do mesmo modo, a Leya não é uma editora de vão de escada, que não atende o telefone.”
Uma das mais conhecidas autoras de romance histórico em Portugal defendeu ainda, na sua resposta, que o cumprimento dos direitos de autor nem sempre é cumprido no seu país. “João Botelho, se eu vivesse na América, o senhor não se atreveria a usar a minha obra do modo como o fez, porque lá os direitos de autor são sagrados. Em Portugal, as leis existem, mas só são cumpridas por alguns.”
Deana Barroqueiro confessou ainda ter tido conhecimento da situação de plágio depois de ter sido avisada por leitores mais atentos. “Fui alertada por leitores que comentaram a ‘adaptação cinematográfica do Corsário dos Sete Mares’, convencidos de que o realizador usara o meu romance e que eu sabia. Perplexa, fui pesquisar na internet. O primeiro texto/entrevista que li foi o de Nuno Pacheco, no Ípsilon. E passei da admiração ao pasmo. O senhor fala das personagens que eu inventei no meu romance, como se fossem da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. E refere como fontes a obra do próprio aventureiro, as canções do Fausto e a adaptação do Aquilino, de onde tirou a conhecida e rebatida ideia do alter ego de Fernão, sem nunca mencionar o meu livro, que tantas personagens e ideias lhe deu.”
A autora viu o filme e gostou “bastante” dele, mas viu nele todo o romance que escreveu. “Fiquei com a sensação de que o senhor seguiu mais de perto o guião do meu romance (porque de um guião se trata) do que o da Peregrinação, que é confuso e de tal maneira intrincado, que me levou muitíssimo tempo a destrinçar.”
CENAS DA CHINA COPIADAS
Segundo as declarações do cineastas, as partes do romance histórico que mais usou no filme são as que dizem respeito à China. A respostas da escritora nessa matéria é peremptória. “Sabe bem que não foram apenas as cenas da China que adaptou do meu romance ou nas quais se inspirou, João Botelho. A japonesa Wakasa também não existe na Peregrinação, foi com muita pesquisa que encontrei a história e as crónicas japonesas, ficcionei o seu casamento com Fernão, fazendo dela uma espécie de Madame Butterfly.”
A autora dá ainda outros exemplos de plágio. “A ‘Senhora’ adúltera foi também uma ficção minha a partir de um crime do tempo, que encontrei num arquivo e numa genealogia. Até o ‘número mágico nove’, de que fala nas entrevistas, é o leit-motiv do meu livro. Assim, é de facto muitíssimo pouco o seu reconhecimento.”
Além disso, “não há nenhuma namorada ou amante de Pinto na sua obra, só existem no meu romance (exceptuando a rainha da Etiópia)”, sendo que “a violação da chinesa, por António de Faria, não existe de todo na Peregrinação”.
Deana Barroqueiro escreveu também que criou a personagem da amante chinesa, “assim como o nome Meng e os seus amores”. “Inventei-os a partir da menção feita por Pinto aos filhos do português Vasco Calvo – ‘dois meninos e duas moças’ -, no cap. 116 da sua Peregrinação. Ora, a cena que se vê no filme de ‘Meng’ com uma bacia de água perfumada de flores, a lavar as cicatrizes que Pinto tem nas costas, das chicotadas na prisão, é um dos episódios do meu romance que considero melhor conseguidos. A diferença é que João Botelho coloca a cena em Pequim e não na aldeia onde vão viver os portugueses junto à muralha da China, como condenados a trabalhos forçados”, escreveu ainda a autora, que deu outros exemplos.
O caso já gerou reacções nas redes sociais, nomeadamente do escritor Rui Zink, que também esteve no festival literário Rota das Letras. “Por que motivo os gajos que fazem filmes são amiúde tão desrespeitadores para com quem escreve os livros que, ora com autorização, ora surripiando, vampirizam?”, questionou.
“Curiosamente, no teatro acontece menos. Há um desejo de apropriação (já vi cartazes de peças sem nome do autor, e faz-me espécie a moda dos «a partir de», e uma cultura do DJ quase como quase verdadeiro compositor das musiquetas que ‘sampla’) mas é em menor grau. No caso do cinema, o abuso torna-se tão natural como, em tempos idos, o realizador casar com a estrela do filme. É chato”, escreveu ainda Zink.
O HM tentou chegar à fala com a autora, mas até ao fecho da edição não foi possível estabelecer contacto. Nos prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, o filme “Peregrinação” foi um dos nomeados em várias categorias, incluindo a de melhor argumento.

NO PÚBLICO


Peregrinação: João Botelho acusado de adaptar romance sem autorização

Deana Barroqueiro, a autora de O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto,  garante que o realizador retirou do seu livro várias personagens e cenas que aparecem no filme em que conta a história do célebre explorador português do século XVI sem que ela ou a sua editora soubessem que o ia fazer. A escritora pondera processar o cineasta.

30 de Março de 2018, 17:12


Deana Barroqueiro, a autora de O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto, está indignada. Na quinta-feirao jornal Hoje Macau tornou públicas as acusações que a escritora fez ao realizador João Botelho na sua página no Facebook. Barroqueiro garante que o cineasta que em 2017 estreou Peregrinação, filme em que diz adaptar a obra homónima do explorador do século XVI que é o mais célebre dos títulos da literatura de viagens portuguesa, usou, sem a sua autorização, alguns personagens e episódios que não constam do original, mas do romance que a escritora lançou em 2012, na Casa das Letras (chancela do grupo LeYa).

“É mesmo uma adaptação só que o João Botelho esqueceu-se de falar comigo ou com a editora”, disse Deana Barroqueiro ao PÚBLICO esta sexta-feira, acrescentando ainda, como fizera já por escrito na rede social, que, em momento algum, o realizador terá reconhecido publicamente que o seu livro fora uma das fontes de Peregrinação.


Foi quando os leitores de O Corsário dos Sete Mares começaram a dizer-lhe que o livro era melhor do que o filme e que o seu nome aparecia na ficha técnica, nos agradecimentos, que tomou conhecimento do que se passava, conta. Até aí não tinha visto Peregrinação. Resolveu então, e antes de se sentar numa sala de cinema, ler as entrevistas que Botelho dera a propósito do filme e começou a constatar que o cineasta atribuía cenas e personagens que ela criara à obra escrita por Fernão Mendes Pinto e que falava de outras fontes, sem nunca tocar no seu nome: “Ele menciona o Aquilino Ribeiro, menciona o Fausto e não faz uma referência ao meu livro nunca, em nenhuma entrevista, em nenhum artigo.”
Para tornar mais claro até que ponto o seu romance é importante para a Peregrinação de Botelho, a autora exemplifica – Meng, a amante chinesa que aparece em muitas das fotografias de promoção do filme a lavar as cicatrizes das costas de Fernão Mendes Pinto, é uma criação sua, só que Barroqueiro coloca a cena numa aldeia junto à Muralha da China e Botelho transporta-a para Pequim. "Eu estava a assistir ao filme e a ver as minhas cenas com os pormenores todos. Quase que estaria encantada se não estivesse tão indignada. Senti-me violada.”

João Botelho e o produtor de Peregrinação, Alexandre Oliveira, não estão disponíveis para prestar declarações, mas a Ar de Filmes fez chegar ao PÚBLICO por email o seguinte esclarecimento: “Na construção do guião João Botelho inspirou-se em variadíssimos ensaios e referências à obra de Fernão Mendes Pinto. Um deles, efectivamente, foi um livro de Deana Barroqueiro, fonte de inspiração para duas ou três cenas dos episódios na China.”
Barroqueiro contesta, abertamente, esta leitura redutora que a produtora faz das cenas adaptadas do seu romance e elenca vários exemplos, muitos deles também referidos na sua página no Facebook, cenas que resultaram de cinco anos de investigação: o amor e o desejo não correspondidos de Fernão Mendes Pinto por uma chinesa que os companheiros tinham comprado; a filha do capitão que o ensina e ler mandarim; as cenas com as prostitutas, que permitiram “criar episódios cómicos”; a cortesã que fala sobre “o Yin e o Yang no sexo” a Cristóvão Borralho; as referências à rua dos cavalos magros, que era onde se iam comprar as concubinas e as esposas na China; ou o adultério de Joana Aires da Silva com Manuel Freire, que a escritora foi buscar a outras fontes da época, que dão conta de um escândalo semelhante. “Ele fez uma adaptação não autorizada porque não pediu a ninguém”, defende. “As únicas cenas que não estão no meu livro e estão no filme são as da morte do Pinto com a família porque, no meu romance, fiquei com o Pinto no Oriente, em 1577/1578. Também não está a cena das mantas a voarem. São as únicas, porque as de lutas também lá estão.”

Antes das filmagens, continua a mesma nota breve da Ar de Filmes, a produtora tentou contactar a escritora, “mas a verdade é que não foi possível”: “Houve o cuidado de mencionar o nome da autora em primeiro lugar nos agradecimentos do filme e, posteriormente, a produtora foi contactada pela editora do livro em questão para que, em forma de retribuição, fosse possível utilizar imagens do filme para promover a nova edição, ao que simpaticamente acedeu. Sobre o assunto não faremos mais comentários."
De acordo com a autora, durante este processo, Botelho ter-lhe-á escrito uma carta, que a sua produtora lhe fez chegar através da LeYa. Nela o realizador assume ter-se inspirado no romance de Barroqueiro e diz ter tentado contactá-la antes, sem ter insistido o que devia. “Sou o autor do filme Peregrinação e durante meses nesta ‘arte de vampiro’ que é afinal o cinema, li, consultei, adaptei e reescrevi cenas para a minha curta adaptação da vida e do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto. Na verdade o seu livro O Corsário dos Sete Mares foi forte inspiração para algumas cenas do filme, as da China”, diz-lhe o realizador que já adaptou ao cinema obras de Fernando Pessoa e de Eça de Queirós, numa carta que começa com uma admissão de culpa – “escrevo-lhe para reparar um mal e, ao mesmo tempo, agradecer tardiamente um bem” – e termina com um pedido de desculpas: “Perdoe-me”.
Da editora de Barroqueiro, os comentários à situação por ela denunciada também chegaram por email, via direcção de comunicação: “A LeYa e a Casa das Letras colocaram-se, naturalmente, ao lado da autora Deana Barroqueiro desde que, há alguns meses, foram detectadas evidentes semelhanças entre o filme e o livro O Corsário dos Sete Mares. Essa posição mantém-se.”
A LeYa não menciona qualquer possibilidade de vir a avançar com um processo judicial no domínio dos direitos de autor, mas a escritora não se coíbe de o fazer: “Não sei se no cinema se considera plágio quando se pega numa grossa parte de um livro e se aplica como guião de um filme… […] Mas eu estou muito indignada e sinto-me injustiçada. Levei cinco anos a fazer investigação, ponho tudo na bibliografia - tenho uma bibliografia extensíssima - e depois vem alguém que se apodera da minha obra e que nem a menciona? Eu não admito isto e, se a LeYa não for para o tribunal, vou eu.”
Deana Barroqueiro, que tem uma já longa carreira como professora, teme ainda que o filme e o que sobre ele disse Botelho, misturando o original de Mendes Pinto com aquilo que saiu do seu romance, possam vir a dar origem a equívocos perigosos: “O [crítico de cinema] João Lopes disse que o filme é muito didáctico para ir para as escolas e é isso que eu, com 35 anos de ensino, me recuso a aceitar. As minhas cenas, que são imensas, vão passar nas escolas como se fossem do Fernão Mendes Pinto? Não pode ser.”
Editado em 2012, O Corsário dos Sete Mares vendeu até hoje, segundo a editora, cerca de 2500 exemplares.
Notícia actualizada às 18h30 para acrescentar a tomada de posição da Casa das Letras/LeYa, editora de O Corsário dos Sete Mares, e outras declarações de Deana Barroqueiro.

NO OBSERVADOR



João Botelho acusado de adaptação não autorizada. Filme é “presente envenenado”, acusa escritora
30/3/2018, 18:53416
por bruno  horta

Realizador diz que adaptou "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, mas Deana Barroqueiro contesta. “Fiquei siderada, era o meu romance plasmado na tela." Botelho e a produtora admitem inspiração.


De repente, alguma coisa não batia certo. Em novembro do ano passado, Deana Barroqueiro começou a receber mensagens de leitores que lhe falavam do novo filme de João Botelho. A película tinha-se estreado no primeiro dia daquele mês e os leitores diziam-lhe, através do Facebook, que se tratava de uma versão do romance que a escritora tinha publicado alguns anos antes. Mas ela não sabia de nada.
Começou a pesquisar na internet, encontrou entrevistas e artigos sobre o filme e verificou que o realizador afirmava ter feito uma versão da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto – o mesmo livro que a inspirou na escrita do romance O Corsário dos Sete Mares, de 2012. Ficou espantada. Decidiu ir a uma sala de cinema na zona de Alvalade, em Lisboa, para ver o filme com os próprios olhos. E gostou pouco do que viu.
“Fiquei siderada, era o meu romance plasmado na tela. Senti-me espantada e ao mesmo tempo violada. Aquilo foi um presente envenenado”, classifica Deana Barroqueiro, em conversa com o Observador.
Tenho uma escrita bastante visual e os pormenores que dou no meu livro, as expressões que uso, as personagens, está tudo no filme do Botelho. Ele até segue a ordem dos capítulos do meu livro. Não copiou uma uma pequena coisa. Sem o meu livro, aquele filme não existia.”

“Peregrinação”, de João Botelho, foi financiado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual, através de um concurso a que o realizador se candidatou em 2015 com um pedido de 600 mil euros. Também a RTP, a Câmara de Lisboa e Câmara de Almada contribuíram para o financiamento. A obra integra uma sequência que João Botelho tem dedicado à literatura portuguesa, iniciada em 2001 com uma adaptação de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, a que se seguiram versões de obras de Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa e Eça de Queirós.
Em abril do ano passado, o realizador explicou à Agência Lusa que o filme “não é” a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, mas apenas uma parte. “Como se fosse uma introdução à leitura” da obra impressa pela primeira vez em 1614. 
Os documentos distribuídos à imprensa quando da estreia incluem um texto de Botelho onde este explica: “Aceitei de Aquilino Ribeiro a ideia genial e tão justa cinematograficamente de que o corsário António Faria é um heterónimo de Fernão Mendes Pinto. E roubei a Fausto, com a devida autorização, os originais de ‘Por Este Rio Acima’, que o Luís Bragança Gil e o Daniel Bernardes transformaram em polifonias para voz.” O livro de Deana Barroqueiro não é referido.
A autora, de 72 anos, é conhecida por escrever romances históricos, sendo um dos mais conhecidos D. Sebastião e o Vidente, publicado em 2006 pela Porto Editora e do qual se venderam mais de 18 mil exemplares, dizem os números oficiais. Filha de portugueses, nasceu nos EUA, em New Haven, estado do Connecticut, e vive em Portugal desde os dois anos. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora de português e de literatura no Liceu Passos Manuel e publica regularmente desde a década de 90.
Ao escrever O Corsário dos Sete Mares quis afastar-se do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto e romancear cenários, pessoas e situações.
Li quatro vezes a ‘Peregrinação’ de uma ponta à outra para fazer o terceiro volume da minha saga sobre os Descobrimentos. As cenas que o João Botelho filmou não existem na ‘Peregrinação’, simplesmente não existem. As cenas com prostitutas, a amante, o casamento. É inegável que as foi buscar ao meu livro, mas agora apresenta-as como se fossem de Fernão Mendes Pinto. A Meng foi uma personagem inventada por mim e no filme do Botelho também há uma Meng [interpretada pela atriz Jani Zhao]. ”
A autora entende que o realizador não pode descrever o filme como uma adaptação do livro do século XVII e que deveria ter incluído na ficha técnica uma referência explícita a O Corsário dos Sete Mares”. Acredita que a película “pode induzir em erro” o público, desde logo os estudantes – até porque o filme foi recomendado pela Direção-Geral da Educação.
Não quero dinheiro, estou-me nas tintas para os direitos de autor. Vivo para a escrita, não vivo da escrita. Bastava-me que ele tivesse referido que adaptou o meu romance”, sublinha.


30/03/2018

Cenas adaptadas do meu romance por João Botelho no seu filme Peregrinação

As principais cenas de O Corsário dos Sete Mares que João Botelho adaptou no seu filme Peregrinação:
1. Não há nenhuma namorada ou amante de Pinto na sua obra, só existem no meu romance (exceptuando a rainha da Etiópia). 
2. A violação da chinesa, por António de Faria, não existe de todo na Peregrinação – refere-se ao cap. 47, o episódio da «noiva roubada», que é levada com os irmãos meninos para ser vendida ou resgatada por dinheiro, como era costume. Como o seu destino ficava em aberto eu parti deste episódio para ficcionar uns supostos amores de Pinto que a compra aos companheiros e, despeitado pelo seu desprezo, acaba por a violar, algum tempo depois, no barco.
3. A personagem da amante chinesa, assim como o nome Meng e os seus amores, inventei-os, a partir da menção feita por Pinto aos filhos do português Vasco Calvo - «dois meninos e duas moças” -, no cap. 116 da sua Peregrinação. Ora a cena que se vê no filme de «Meng» com uma bacia de água perfumada de flores (na foto), a lavar as cicatrizes que Pinto tem nas costas, das chicotadas na prisão, é um dos episódios do meu romance que considero melhor conseguidos. A diferença é que João Botelho coloca a cena em Pequim e não na aldeia onde vão viver os portugueses junto à muralha da China, como condenados a trabalhos forçados)
4. Em Pequim, a cena da filha do «monteo», o capitão chinês que vai levar Pinto e os companheiros para a Muralha da China. A moça toca e canta e convive com Pinto, ensinando-o a ler mandarim. Nada disto existe na Peregrinação, não há referência a qualquer filha, mas apenas à “mulher do monteo”. No meu romance inventei esta personagem e estas cens, incluindo poemas e canções chinesas, de que fiz a tradução.
5. As cenas das prostituas também não existem na Peregrinação e sim no meu livro, permitindo-me criar episódios cómicos com elas.
– A fala da prostituta a Cristóvão Borralho sobre o Yin e Yang no sexo (obra citada Cap. X), a menção ao Mercado dos Cavalos Magros, etc., são do meu romance.
6. Na obra de FMP, nos episódios do Japão, não existe qualquer referência ao suposto casamento de Fernão ou de Zeimoto, nem a Wakasa, que eu encontrei em outras fontes japonesas, depois de grande pesquisa. Ficcionei a história desse casamento, com a ida da personagem ao barco, fazendo dela uma espécie de Madame Butterfly.
7. No filme, Fernão narra a sua 1ª viagem, ainda adolescente, quando servia em casa de uma senhora e teve de fugir para salvar a vida. Apenas isto. Os amores adúlteros e o assassínio da Senhora, Joana Aires da Silva e de Manuel Freire, o amante, são do meu romance, cuja fonte foram arquivos sobre um escândalo da época. Botelho leva este episódio para o seu filme, embora fazendo de Pinto um 2º amante, a quem a senhora pede que leve um recado … ao amante Manuel Freire.
8. Na entrevista a Nuno Pacheco, Botelho refere-se à magia do número nove, embora cometendo uma imprecisão, que é um leitmotiv no meu romance.


Uma das cenas tirada em pormenor do meu romance (inexistente na Peregrinação)

A minha resposta a João Botelho

Lisboa, 13 de Dezembro 2017
Excelentíssimo Sr. João Botelho:
Confesso que aguardava por um pedido de desculpa da sua parte, porque o aprecio como realizador, admiro o seu trabalho de adaptação cinematográfica de obras literárias portuguesas e sempre o considerei uma pessoa de princípios. Por isso, estranhei que, estando em falta para comigo, preferisse entregar um assunto tão delicado a outrem, em vez de o fazer pessoalmente.
E, de novo, por via indirecta, em terceira mão, me chegou a sua mensagem. É um bonito texto, literário mesmo, escrito com aquela subtilíssima ironia que faz o seu encanto, nas entrevistas. Fez-me pensar naqueles versos que ambos conhecemos bem, «O poeta é um fingidor/ finge tão completamente»… Porque é difícil de crer no que diz, quando tudo o que fez o contradiz.
A sua justificação de que não me conseguiu contactar nem à editora LEYA é inverosímil, bastava que algum dos seus ajudantes pusesse o meu nome no Google e acharia diversos meios para o fazer – sou figura pública, tenho blogues, várias páginas no facebook, e-mails e telefones e passo meses sem sair de casa, a escrever; do mesmo modo, a Leya não é uma editora de vão de escada, que não atende o telefone.
Quanto a pensar que eu pudesse estar nos EUA, também me custa a crer, pois o romance que usou traz a minha biografia na badana ou, ainda, bastava pôr o meu nome no Google, para me ver no activo. Além disso, João Botelho, se eu vivesse na América, o senhor não se atreveria a usar a minha obra do modo como o fez, porque lá os direitos de autor são sagrados. Em Portugal, as leis existem, mas só são cumpridas por alguns.
Se me tivesse falado do seu desejo de usar o meu livro como uma das fontes do filme, eu teria ficado desvanecida com a honra e nunca deixaria a editora pedir-lhe direitos de autor, nem ela tinha intenção disso. Bastava-nos que fizesse o que é costume e a ética impõe, quando se usa a obra de outrem, sobretudo se o autor ainda está vivo (e eu, ao contrário do Aquilino, ainda estou viva e lúcida). Ou seja, citar o título da obra e o autor nos materiais de promoção, cartazes, DVDs, documentos e também nas entrevistas em que se fale das fontes, como seguramente sabe.
Nada disto aconteceu. Fui alertada por leitores que comentaram a “adaptação cinematográfica do Corsário dos Sete Mares”, convencidos de que o realizador usara o meu romance e que eu sabia. Perplexa, fui pesquisar na internet. O primeiro texto/entrevista que li foi o de Nuno Pacheco, no Ípsilon. E passei da admiração ao pasmo. O senhor fala das personagens que eu inventei no meu romance, como se fossem da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. E refere como fontes a obra do próprio aventureiro, as canções do Fausto e a adaptação do Aquilino, de onde tirou a conhecida e rebatida ideia do alter ego de Fernão, sem nunca mencionar o meu livro, que tantas personagens e ideias lhe deu.
Vi e li mais textos, entrevistas e vídeos, com o mesmo resultado. O senhor nunca menciona o meu romance e tem falado sempre das minhas personagens, cenas e ideias, como se fossem suas ou da Peregrinação de FMP, mostrando, desculpe-me que lhe diga, conhecer muito mal esta obra. Eu, pelo contrário, conheço-a “como as minhas mãos” por a ter lido quatro vezes na íntegra e ter trabalhado nela e no meu livro quase cinco anos. Com o aplauso de jornalistas que nunca a leram nem ao meu livro e propagam o erro.
Tão reiterada é esta atitude, João Botelho, que contraria claramente a sua afirmação de querer “reparar um mal e, ao mesmo tempo, agradecer tardiamente um bem”, apesar da beleza poética da frase. Contudo, justiça poética, apesar de doce, não me consola.
Vi o filme, de que gostei bastante, mas fiquei com a sensação de que o senhor seguiu mais de perto o guião do meu romance (porque de um guião se trata) do que o da Peregrinação, que é confuso e de tal maneira intrincado, que me levou muitíssimo tempo a destrinçar.
Em O Corsário dos Sete Mares, a tarefa de desbravamento está, portanto, simplificada, com todos os erros e falhas corrigidos: dividido em mares, os episódios desenrolando-se em cenas, com diálogos, monólogos/pensamentos e flashbacks das personagens, tanto da obra de FMP, como ficcionados por mim, a partir de meras sugestões, como a de Joana e de Manuel Freire – enfim, um trabalho fácil de transpor para o cinema, como são todos os meus romances dos Descobrimentos.
Sabe bem que não foram apenas as cenas da China que adaptou do meu romance ou nas quais se inspirou, João Botelho. A japonesa Wakasa também não existe na Peregrinação, foi com muita pesquisa que encontrei a história e as crónicas japonesas, ficcionei o seu casamento com Fernão, fazendo dela uma espécie de Madame Butterfly. E a “Senhora” adúltera foi também uma ficção minha a partir de um crime do tempo, que encontrei num arquivo e numa genealogia. Até o “número mágico nove”, de que fala nas entrevistas, é o leit-motiv do meu livro. Não tenho acesso ao seu guião original, mas, quando o filme aparecer em DVD, vou poder compará-lo em pormenor, com a Peregrinação de FMP e com o meu romance, para tirar teimas.
Assim, é de facto muitíssimo pouco o seu reconhecimento. No fim da ficha técnica, na penúltima entrada, a dos agradecimentos, mal consegui ler o meu nome envergonhado. Para se salvaguardar, talvez, de uma natural reacção da editora ou da autora. Os textos de Fausto são identificados, os meus não. Não estranhe que eu me sinta usada por si.
O filme vai ser passado para as escolas, apresentando aos alunos muitas cenas de O Corsário dos Sete Mares, de Deana Barroqueiro, como se pertencessem à Peregrinação de Pinto, o que é nocivo e antipedagógico, uma coisa que, enquanto professora, com 35 anos de serviço, não posso aceitar.
Se, de facto, pretende «reparar um mal e, ao mesmo tempo, agradecer tardiamente um bem», João Botelho, faça-me a justiça de indicar a minha obra como uma das suas fontes. Ainda está muito a tempo de reparar a injustiça. Se não o fizer, saberei que agiu, conscientemente, de má-fé.
Tenho muitos milhares de leitores, o seu filme até seria beneficiado por essa indicação. Aliás, com a cinta que a editora vai pôr no romance, o senhor irá lucrar muito mais com a publicidade do que eu. Chama-se a isto pagar o mal com o bem.
Atentamente
Deana Barroqueiro

Reconheceram o plágio...com reservas e arrogância

Nos contactos com a editora (nunca comigo) os produtores "concederam-me o favor" (como se o acto abusivo fosse meu), de permitir que a Leya pusesse uma cinta nos exemplares do meu romance indicando que o cineasta adaptara algumas cenas dele. Não podem negar aquelas que não existem na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, embora procurem fugir ao facto de que, mesmo as partes que são da obra renascentista, estão todas no meu livro (assim, só tiravam algumas?). Aliás, em todas as entrevistas que deu, João Botelho comete erros de palmatória sobre a obra de Pinto, confundindo-o com o meu romance, o que mostra não ter lido de facto a Peregrinação, mas o meu livro.

João Botelho reconheceu o plágio, mas não fez nada para o corrigir

Esta é a "carta" de João Botelho, à qual respondi. Não se deu ao trabalho de me escrever uma carta privada, mandou-me a mensagem num email que a Produção enviou à representante da minha editora para que ma enviassem. Eles diziam que se queriam reunir comigo, mas nunca o fizeram, apenas trataram com a Leya. Como foi uma mensagem em quarta mão, e não uma carta privada, aqui deixo o email:
From: Ar de Filmes Lda [mailto:ardefilmesgeral@gmail.com]
Subject: Re: PEREGRINAÇÃO e o livro CORSÁRIO DOS SETE MARES (nova proposta para a cinta do livro)

Cara Helena, pediu-me o realizador João Botelho para que transmitisse o seguinte texto à autora Deana Barroqueiro,
"Excelentíssima Senhora,
Escrevo-lhe para reparar um mal e, ao mesmo tempo, agradecer tardiamente um bem.
Sou o autor do filme "Peregrinação" e durante meses nesta "arte de vampiro" que é afinal o cinema, li, consultei, adaptei e rescrevi cenas para a minha curta adaptação da vida e do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto. Na verdade o seu romance, o Corsário dos Sete Mares, foi forte inspiração para algumas cenas do filme, as da China.
Tentei contactar a editora e não consegui, à primeira e à segunda e pensei que a Dr. Deana Barroqueiro ainda estivesse nos E.U.A. É evidente que devia ter insistido três, quatro vezes. Mas meteu-se a produção - trabalhosa, longa e difícil. Tive o cuidado de colocar em primeiro lugar dos agradecimentos, no genérico final do filme, o seu nome. É pouco, eu sei.
Eu e o produtor aceitamos a sugestão da sua editora para colocar uma cinta com os dizeres: "Inclui episódios adaptados do romance O Corsário dos Sete Mares".
Perdoe-me.
Com os meus respeitosos cumprimentos e sobretudo agradecimentos tardios,
João Botelho"
Obrigado pela atenção,
Cumprimentos,
Pedro Augusto Almeida
Produção

Meus amigos e amigas, isto parece-vos um pedido de desculpa sincero ou uma troça e um insulto à minha inteligência?
Deana Barroqueiro

Silêncio cúmplice dos jornalistas face ao plágio de João Botelho

Os nossos jornalistas preferem manter o erro a reconhecer que erraram, mesmo quando prejudicam outros, como neste uso indevido da minha propriedade intelectual e dos meus direitos de autor. 
Quando o cineasta João Botelho adaptou, no seu Peregrinação, parte do meu romance O Corsário dos Sete Mares, em vez da obra do Fernão Mendes Pinto, sem autorização minha ou da editora, em todas as entrevistas que deu falou do meu livro e das cenas que eu inventei como se fossem da obra do aventureiro ou de sua própria invenção (referindo as minhas personagens fictícias pelo nome e tudo o mais). Os jornalistas dos vários "media" (incluindo os do JL, o jornal literário de referência) propagaram entusiasticamente a fraude, porque desconheciam a "Peregrinação" do Fernão Mendes Pinto (um dos maiores clássicos da Literatura Portuguesa), assim como o meu romance.
Eu e a editora enviamos cartas a todos os jornalistas/críticos que tinham sido enganados, enviando-lhes o meu romance e os detalhes dos episódios "adaptados" (mais de metade do filme). Pois , de entre tantos, só Nuno Pacheco teve a cortesia e a honestidade intelectual de me responder. Os outros preferiram calar-se e ignorar-me, porque se me respondessem teriam de dar a mão à palmatória pela sua ignorância e mau jornalismo.
Esta foi a pior "subvalorização" que me fizeram os "media", porque é crime punido por lei, embora se safem porque a nossa Justiça não funciona.

22/03/2018

29º Colóquio da Lusofonia - Belmonte

Apresentação do romance «1640», no Centro Cultural de Belmonte, 28 de Março (4ª feira), às 16.40 h.

A convite da Câmara Municipal de Belmonte, irei apresentar o meu novo livro e falar do romance histórico, no âmbito do 29º Colóquio da Lusofonia


01/02/2018

Entrevista para Alumni - Faculdade de Letras de Lisboa

Escrever romance histórico é um óptimo pretexto para continuar a estudar"

O período da Restauração está na base do último romance da alumna Deana Barroqueiro. Porque diz que é difícil "escrever em poucas páginas", acaba de lançar 1640, com quase 900.   
Antiga aluna do curso de Filologia Românica da FLUL, diz que o romance histórico é o que prefere e onde quer ficar.  Para 1640 investigou. Muito. Mas revela que a tão recente troika também a ajudou a criar. Os quatro guias que escolheu para personagens fazem o resto.
Deana Barroqueiro escreveu, escreveu, garantindo que foi o romance que lhe disse onde e quando devia parar. A conversa com o FLUL Alumni foi igual, só parando quando chegámos às recordações da FLUL.
Entrevista: Tiago Artilheiro       |       Fotografia: Direitos Reservados

pequeno Porque é que se interessou pelo período da Restauração? Onde encontrou a inspiração? 
Deana Barroqueiro (DB): Escrevi o primeiro romance histórico de grande fôlego, D. Sebastião e o Vidente, em 2006, que terminava com o desastre de Alcácer Quibir, um momento negro na História de Portugal, a que se seguiu a perda da nacionalidade sob o domínio espanhol. Começava, então, a sentir que o projecto europeu não se estava a concretizar do modo como fora sonhado e que, apesar de alguns benefícios, Portugal perdera muito da sua autonomia enquanto nação. Talvez fosse isso que me levou a pensar no tema do Sebastianismo, recorrente nos tempos de crise em Portugal, e em Brás Garcia Mascarenhas, um herói da Restauração, poeta e autor “Viriato Trágico”, a suspirar pela independência. Como levo sempre muito tempo de preparação e estudo para cada romance, cheguei a 2011 apenas com um esboço da vida do poeta épico seiscentista. Com a vinda da fatídica troika, sofri com a humilhação a que ela nos sujeitou, enquanto povo, e isso fez-me ver como a História se repete, embora em diferentes moldes ou circunstâncias. Senti que o tema da Restauração podia servir de metáfora para o período cinzento que atravessávamos, um grito de revolta e um aceno de esperança. E o romance começou a tomar forma.
Foto de Sebastiao Barata.

pequenoDemonstra ter um domínio concreto a nível histórico. Ficou “doutorada” neste período?
DB: Fui, durante 35 anos, professora de Língua e Literatura Portuguesa, no tempo em que os programas do ensino secundário eram bastante exigentes e muito vastos, passando por todas as épocas e períodos literários. Assim, para ensinar bem a Literatura, tinha de estudar História, para poder dar aos alunos o enquadramento necessário à sua melhor compreensão. Sempre tive uma curiosidade insaciável e um desejo imenso de aprender, até hoje não parei de estudar e, como tenho 72 anos, fui adquirindo uma boa bagagem.
pequenoTemos 4 personagens guias no livro. Em que medida cada uma das personagens é o melhor cicerone pelo período de 50 anos (1617-1667) que o livro aborda?
DB: Creio que cada uma delas cumpre o seu papel, que é o de apresentarem perspectivas “angulares” e diferentes pontos de vista, que todavia se cruzam e se completam, sobre os sucessos e os actantes daqueles 50 anos tão caóticos e contraditórios, mas também tão vívidos e apaixonantes. O Poeta Brás com a sua vida aventurosa de homiziado narra sucessos de Espanha e Brasil; a Professa-poetisa, Violante do Céu revolta-se contra a ingrata condição da mulher seiscentista e mostra a vivência licenciosa dos conventos; o Prosador D. Francisco Manuel de Melo, fidalgo e militar, dá testemunho dos conflitos e guerras de Espanha com a Europa; por último, o grande Pregador, padre António Vieira, com a sua activa participação na política portuguesa, mostra as relações diplomáticas de Portugal com as outras nações europeias. Deste modo, os guias fornecem aos leitores um conhecimento multifacetado da época, que é a mais-valia do romance histórico, face aos outros tipos de romance.

pequeno
Os seus livros têm sempre personagens muito vivas. Muitas vezes heróis…
DB: Quando comecei a escrever romances, iniciei-me com um projecto que pretendia criar uma saga de aventuras, à maneira de Emílio Salgari, com figuras reais portuguesas, destinado a um público-alvo de jovens pré-universitários e universitários. O período dos Descobrimentos é um inesgotável manancial de “heróis”, ou pelo menos, de figuras singulares, com vivências mais fabulosas do que a própria ficção. Escrevi sete romances, mas desisti, quando uma jornalista, que fazia crítica literária no extinto Mil Folhas, disse que não sabia como havia de classificar os meus romances, se para crianças se para adultos. Ora, se, em vez de escritora portuguesa, eu fosse a J. P. Rowling, tal questão não se punha, seria até uma virtude… Passei a escrever para adultos.
pequeno
Escreve livros grandes… 1640 tem quase 900 páginas. Escreve de seguida? Como fez para não perder o fio condutor?
DB: É impossível, pelo menos para mim, escrever sobre temas ou períodos da História de Portugal, que é riquíssima, em poucas páginas; só a contextualização dos lugares, ambientes, personagens, se for feita com algum pormenor, consome muito espaço. Não escrevo de seguida, concebo os meus romances como puzzles, complexos, por vezes labirínticos, para os quais preciso de encontrar as peças certas, as que se encaixam harmoniosamente no todo, sem serem forçadas. Estou sempre a reler, a fazer e a desmanchar, à medida que vou estudando, procurando e descobrindo, num mar de histórias, a tal peça que o livro aceita, porque é o romance que me comanda e que só termina quando se dá por satisfeito e já não me permite escrever sequer uma palavra.
pequenoPorque é que só escreve romances históricos?
DB: Quando me aposentei e quis retomar a minha escrita, que abandonara para me dedicar ao ensino, percebi que o meu cérebro era uma espécie de biblioteca virtual com uma imensidade de livros sobre variadíssimos temas, sobretudo de Literatura e História, cujo conhecimento eu poderia partilhar com outros. E os portugueses sabiam tão pouco da sua História e do seu passado colectivo, que seria um desafio despertar-lhes a curiosidade e o interesse. Por outro lado, escrever romance histórico é um óptimo pretexto para continuar a estudar. E assim foi…
pequenoO historiador francês Paul Veyne disse que “a história é uma narrativa de eventos: tudo o resto resulta disso; o vivido, tal como sai das mãos do historiador, não é dos actores; é uma narração”. É assim que encara a actividade literária? Acontece o mesmo com o escritor?
DB: O historiador, quando interpreta os documentos em papel, pedra, etc., também ficciona os factos esbatidos pela poeira do tempo, não está isento de subjectividade, sobretudo quando trata de épocas pouco documentadas. Mesmo quando se limita a uma árida transcrição de datas e informações de sucessos, o que pouco mostra sobre o pulsar da vida dos seus actantes. O escritor de romance histórico é muito mais livre, não tem que reinterpretar ou reconstituir a História, segundo o ditame da verdade. O romance é, antes de mais, uma criação estética, com fim lúdico, destinada a dar prazer ao leitor. Contudo, isso não deve significar ignorância, facilitismo ou desleixo do autor, em relação ao tema e matéria que vai tratar. O escritor deve ter um “espírito histórico”, como diz Miguel Real, um grande domínio dos factos históricos da época narrada, das formas de representação e governo, dos conflitos políticos e institucionais”, dos seus ritos e mitos, dos costumes, das mentalidades, da vivência quotidiana, do léxico da época. Só assim, o romance se fará eco das múltiplas verdades e perspectivas sobre os factos históricos. É uma questão de honestidade intelectual e de respeito pelo leitor, o que nem sempre acontece.
deana 1
pequenoO que é que encontra no Renascimento e nos Descobrimentos que não encontra noutros períodos?

DB: 
No Renascimento, a arte, a abertura do espírito para as novas ideias (que a Inquisição sufocou posteriormente), a plêiade de escritores, cientistas e estadistas que fizeram do século XVI, o século de ouro português. Era tudo novo: novos mundos, novas ciências, novas gentes, novas artes, nova História. A Literatura moderna nascia, os escritores eram originais. Nós agora já não inventamos nada, copiamos ou dizemos de outra maneira o que eles disseram, quando não destruímos o que eles criaram de raiz. Os Descobrimentos ou Expansão Marítima Portuguesa, apesar de todos os aspectos negativos que lhes queiramos assacar, foram a Grande Aventura do Desconhecido, uma longa saga de coragem e desafio da morte, a busca do conhecimento e a sua contribuição para a transformação da Europa, influenciando outras nações em todos os continentes. Sem os Descobrimentos Portugueses, o mundo hoje seria outro. Melhor ou pior? Não sei. Diferente, seguramente.
pequenoSei que este não é o ponto final na série sobre o período da Restauração… Que livro se vai seguir?
DB: Penso escrever sobre os filhos de D. João IV, para dar aos meus leitores uma perspectiva mais abrangente do século XVII, as últimas décadas são igualmente apaixonantes, cheias de sucessos picantes.
pequenoO que pode revelar, desde já, sobre os próximos livros que vai lançar?
DB: Estou a terminar um livro de culinário histórico. Embora tenha muitas receitas, com a sua história, o livro tem mais a ver com a evolução de gostos e paladares, desde as suas origens até aos nossos dias, com muitas historietas e curiosidades à mistura, dando preferência às ligações de Portugal com o mundo, no universo da gastronomia. Sairá, espero, a tempo da Feira do Livro de Lisboa. O segundo livro (tenho de ter sempre dois, para desenjoar) é um romance com uma forma diarística e o protagonista é uma figura bastante controversa. Só deve ficar pronto em 2019, e é tudo o que posso dizer por agora.
pequenoEm que medida a FLUL contribuiu para a sua formação e carreira enquanto autora?
DB: Proporcionou-me instrumentos para eu me reconstruir enquanto Ser, abriu-me horizontes culturais, que a modéstia da minha família de baixa escolaridade não podia oferecer-me. Foi como uma rampa de lançamento para quem, como eu, ansiava por voar.
pequenoO que recorda da sua passagem pela FLUL?
DB: Certos professores, como Lindley Cintra e Urbano Tavares Rodrigues, que pelo seu saber, carácter e posição política, face à ditadura, ajudaram à minha formação, como pessoa. E recordo com emoção o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, ao qual pertenci desde a sua formação, sobretudo, a peça O Avejão, em que desempenhei o papel principal feminino, contracenando com os meus queridos amigos Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo e Luís Lima Barreto.