05/01/2019

Cronologia das Peregrinações de Fernão Mendes Pinto e outros portugueses, na China, no mítico reino da perfeição

(Ponto de partida para a comunicação oral, no âmbito do Colóquio Internacional da Universidade de Aveiro - Diálogos Interculturais Portugal-China, 2017. O artigo completo pode ler-se em: Deana Barroqueiro-Academia.edu )


Séc. XIII – Marco Polo (c. 1254-1324: Il Milione, de Emilione, seu nome de família ou o Homem dos Milhões) Livro das Maravilhas.
 Séc. XIV – Odorico Pordedone (morre em 1331) – Relatio. 
– Jean de Mandeville (morre em 1372): Livro das Viagens. 
Séc. XV – Paolo dal Pozzo Toscanelli (1397-1483), escreve a carta a Cristóvão Colombo para navegar pelo Ocidente para Cipango e Cataio. 
1502 – O impressor alemão Valentim Fernandes edita em Lisboa o Livro de Marco Paulo, devido à descoberta do caminho marítimo para a Índia.
1508 – O “regimento” de D. Manuel para Diogo Lopes de Sequeira, capitão da armada que partiu de Lisboa com o objectivo de chegar a Malaca.
1511 – Em Malaca, Afonso de Albuquerque vê no porto 5 juncos de mercadores chineses. Depois da conquista, envia cartas ao Imperador Zhengde, por estes chins. 
1513 – Albuquerque envia o capitão Jorge Álvares à China. Fica apenas numa ilha da Veniaga (Tongmen) chantou um padrão na ilha de Tamão, na Boca de Cantão (Guangdong). 
1515 – Parte Rafael Perestrelo que regressa com óptimas notícias sobre as relações futuras com os chineses.
1517 – Partiu de Malaca uma frota de sete (oito) navios comandada por Fernão Peres de Andrade, levando a bordo Jorge Álvares e Tomé Pires. Indo de Tamão para Cantão sem autorização e entrando com estardalhaço no porto, provocam uma escaramuça com a armada do Tutão (almirante). Duarte Coelho salva-os. Tomé Pires vê congelada a autorização de viagem para Norte, que só acontece em Janeiro de 1520. 
1519/1520 – Simão Peres de Andrada chegou a Tamão em Abril de1519, para recolher o embaixador e comete uma série de abusos. 
1520 – Tomé Pires parte para Nanquim, aos vinte e três dias de Janeiro, chamado por Zhengde, sendo bem recebido e mandado para Pequim. 
1521 – Janeiro/Fevereiro – O imperador Zhengde (Wuzong) chega a Pequim. Mas, por esse tempo, a embaixada já estava comprometida, pelas cartas dos mandarins de Pequim e de Cantão contra Simão Peres de Andrada e pelas queixas e cartas dos embaixadores de Malaca e pelas traduções dos 4 jurubaças das Cartas do Capitão-mor Fernão Peres de Andrada e de D. Manuel. E o imperador morre 3 meses depois. 
1521 – Maio/Dezembro – A embaixada regressa a Cantão, sob escolta e fica em semi-cativeiro. Com a subida ao trono de Jiajing, então com treze anos, confirmou-se a perdição da embaixada por ordem dos mandarins. Por essa ocasião já Vasco Calvo fora feito cativo, quando os seus juncos de guerra começaram a dar caça aos estrangeiros e ao contrabando.
1521– Em Abril/Junho – Tinham chegado a Tamão os navios de Diogo Calvo e Jorge Álvares e, mais tarde Duarte Coelho; os mandarins enviavam recado para os portugueses virem a terra fazer veniaga e, mal os incautos punham o pé na praia, logo os prendiam com as suas fazendas. De noite, vinham em batéis ao navio, que tomavam, matando o capitão, os seus oficiais e os mercadores. Os mandarins dividiam entre si os despojos das naus e as mercadorias, registando uma muito pequena parte do saque (10) para o imperador, como se fora espólio de corsários, e roubavam 300. E livram-se de testemunhas: São mortos 23 portugueses. 

OS CATIVOS NA CHINA 

1522-1532 – São 30 anos após a expulsão dos portugueses, mas os chineses das costas recorrem ao contrabando, em Liampó, Sanchão e Lampacau, pois já não conseguem passar sem o comércio com os estrangeiros. 
1522 – Chega a Tamão uma nova frota comandada por (Martim) Afonso Melo Coutinho, para estabelecer relações de amizade com os chins e pedir para fazer uma fortaleza. Há uma nova batalha naval. Traz cerca de 300 homens. Os chineses capturam dois navios e 42 inimigos muitos dos quais foram mortos 
1524 – Cartas de Cristóvão Vieira e de Vasco Calvo – acham que só seriam libertados se a armada portuguesa atacasse Cantão e se assenhoreasse de toda província. Calvo escreveu ao capitão-mor e ao Governador um plano bem esmiuçado para uma fácil conquista.
1540-1544 Pirataria de FMP com António de Faria, perseguindo Coja Acém. Têm base em Liampó. Peregrinação:
Cap. 65 – Com António Faria, num assalto a Nouday (?), em combate com o Mandarim (com 600 homens) o qual estaua encima de hum bom cauallo, com hũas couraças de veludo roxo de crauação dourada do tempo antigo, as quais despois soubemos que foraõ de hum Tomè Pirez que el Rey dom Manoel da gloriosa memoria mandara por Embaixador à China, na nao de Fernão Perez Dandrade, gouernando o estado da India Lopo Soarez Dalbergaria 
Cap. 70 – Na povoação de portugueses em Liampó, o pirata António de Faria é recebido como um herói por Mateus de Brito e Lançarote Pereira, 2 dos principais chefes, por terem morto o corsário Coja Acem.
Cap. 75-77 (1542?) - Assalto a Calempluy (Putuo Shan, isto é Monte Putuo), uma ilha diante de Ningbo, a sul da Baía de Hangzhou, à entrada do Grande Canal. Um dos mais sagrados lugares de culto budista, consagrados à deusa Guanyin protectora contra os perigos dos mares, com 360 templos com os túmulos dos reis e divindades. Fracassam e fogem perseguidos. 
Cap. 79 - 5 de Agosto, 2ª feira - Sofrem uma terrível tempestade, o junco de António Faria desaparece e o de Pinto afunda-se nas costas de Nanquim. 
Cap. 80 – Peregrinação na China: Salvam-se 14 portugueses e 4 moços cristãos pardos. Vão esmolando de terra em terra, ficando reduzidos a 9 portugueses. Presos em Nanquim são levados de barco de para Pequim. 
Cap 90. Ao longo do rio encontram o mausoléu do embaixador do rei de Malaca (estaria na China entre 1512-15). Um monumento com 4 colunas de pedra, coruchéu de azulejos de porcelana pretos e brancos; tinha 7 pelouros portugueses e um letreiro em letras douradas: Aqui jaz Tuão (Tun) Hasan Mudelyar, tio do rei de Malaca, a quem a morte levou antes que Deus o vingasse do capitão Albuquerque, leão dos roubos do mar. 
Cap. 91 - Encontram uma filha de Tomé Pires com uma comunidade de cristãos, quando pedem esmola e contam a sua história de mercadores ricos que naufragaram perdendo tudo na baía de Nanquim. 
Cap. 100 – Chegam à cidade de Pequim e são metidos no tronco, ajudados pelos tanigores vão a julgamento e safam-se da acusação de pirataria e da pena de morte. 
Cap. 115 – Levados para Quansy a comprir o degredo e trabalhos forçados na muralha e do castigo por andarem à pancada. 
Cap. 116 – Encontro com Vasco Calvo em Quansy. 
Cap. 117 – Aos oito meses e meio de cativeiro, um capitão tártaro invade Quansy com as suas tropas e leva os prisioneiros portugueses. Desafio de Jorge Mendes de conquistar o castelo. 
Cap. 123 – Fim da aventura com os Tártaros e com a China. Jorge Mendes fica com Alta Khan.

O MISTÉRIO DOS JUNCOS:
1547-49 –  O vice-rei Zhuhuan armou uma frota para desencorajar os estrangeiros e o contrabando. É o período mais duro. Apesar de acossados e de terem de travar batalha, em 1548, ainda a frota de Diogo Pereira faz contrabando de noite graças à corrupção dos funcionários (loutias) e porque navegavam com chusmas chinesas (de corsários). Porém, em 1549, como ainda não tinham vendido nem comprado toda a fazenda e têm dificuldade em obter alimentos, Diogo Pereira parte com a frota para a Índia, mandando passar toda a carga das mercadorias para dois juncos chineses, que vão ficar na veniaga, comandados por Galiote Pereira e Fernão Borges. São denunciados por gente da terra à armada chim, de que havia muita fazenda e são atacados no sul da província de Fujian, os juncos são tomados. São presos, entre outros, Afonso Ramiro (esp), Galiote Pereira, Mateus de Brito, Amaro Pereira, conduzidos a Fucheu. Chamam aos portugueses Diabos Bárbaros ou só Bárbaros. Armam-lhes uma cilada fingindo provocá-los com armas em terra, enquanto a armada chim os vigia escondida, os portugueses caem na esparrela e vêm a terra combater, a armada apanha os juncos desguarnecidos e mata os portugueses que estão dentro e muitos chineses. Quis o capitão-mor chinês ter maior glória, além da captura dos juncos, e vestiu quatro portugueses com roupões e gorras para os fazer passar por reis de Malaca. Para não ser apanhado em mentiras matou os chineses das chusmas com as famílias. Em 1553, Galiote Pereira consegue fugir para Sanchoão e escreve o seu Tratado publicado só em 1563, tendo grande divulgação graças à tradução italiana. Antecede o tratado de Frei Gaspar da Cruz que o utiliza. É a visão da China perfeita, da terra melhor regida que pode haver no mundo.

OS JESUÍTAS
1552 – Morre Francisco Xavier, em Sanchão. 
1554 – Carta de Fernão Mendes Pinto ou de Mateus de Brito (preso em 1549 e libertado em Cantão em 1555, resgatado pelo Padre Melchior Nunes Barreto, por uma grossa soma, segundo conta em Macau o próprio Fernão Mendes Pinto. Francisco Xavier compila os documentos sobre a China. 
1554 – Desde esta data, graças ao acordo do capitão Leonel de Sousa os portugueses passam a pagar tributos à China, as relações comerciais em Cantão passam a correr sem problema. 
1556-1570 – O dominicano Frei Gaspar da Cruz, chega a Cantão, depois de ter estado no Cambodja para evangelizar em vão. Volta para Portugal em 1569, onde morre de peste, em 1570, o ano em que é publicado o seu Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China. Com 29 capítulos, é considerado o primeiro livro impresso na Europa inteiramente dedicado à China, porque já havia relatos anteriores, mas dentro das crónicas e histórias sobre o Oriente. Ele fala do que viu em Cantão e do quem leu no compêndio do fidalgo cativo Galiote Pereira que andou pela terra dentro. O seu Tratado foi incorporado na famosa Historia de las Cosas Notables, de González Mendonza (Roma 1583), um dos best-sellers do século XVI.

03/01/2019

Revista Sábado - 13 de Dezembro


SOB O SIGNO DE ASMODEUS - CONTOS ERÓTICOS DO VELHO TESTAMENT
  • Sábado
  • EDUARDO PITTA CRÍTICO

  • Autora de romances históricos, Deana Barroqueiro (n. 1945) coligiu num único volume os 21 contos que escreveu a partir da Bíblia. Embora o erotismo seja moderado, a selecção faz jus ao título, Contos Eróticos do Velho Testamento. Discurso directo: “Partindo dos estereótipos do Antigo Testamento, tive a pretensão de escrever uma saga histórica […] das mulheres da Antiguidade…” Trata-se portanto de fixar uma genealogia da mulher pré-emancipada. Numa linguagem escorreita, a autora compõe a narrativa de submissão, abuso, adultério e incesto de mulheres subjugadas à autoridade e aos caprichos dos seus amos, homens que foram príncipes, guerreiros, irmãos e pais, casos de, entre outros, Abraão, David, Jacob e Sansão. Quem, tendo lido os textos sagrados, não reconhece Sarai, Abisag, Raquel, Betsabé, Judite, Rebeca ou Dalila? Algumas foram amadas, outras simplesmente humilhadas ou violentadas, e os contos de Barroqueiro resgatam-nas da subalternidade de género em que todas viveram. Maria Teresa Horta assina o prefácio.

    22/12/2018

    O Crime Intelectual Compensa em Portugal

    Exemplar de O Corsário dos Sete Mares com a cinta que informa da adaptação (não-autorizada) do romance ao cinema
    O crime  de plágio e de roubo da propriedade intelectual compensa, em Portugal, dando mesmo direito a homenagens ao plagiador e a candidatura a prémios nacionais e internacionais.

    Assim, a minha fé na honestidade intelectual, competência e isenção da gente da Cultura e dos Media e dos responsáveis pelas instituições políticas e privadas a ela ligados (que era grande), sofreu um tremendo abalo, neste ano de 2018, de que dificilmente recuperarei. 
    O ano termina e eu encerro o caso do plágio de João Botelho, com a sensação de que, na nossa sociedade e, em particular, nos meios culturais onde esperava encontrar maior integridade, vi, pelo contrário, que o crime compensa.
    Numa cena com personagens e diálogos inventados por mim, a filha do monteo canta um poema que foi musicado no filme
    A mediocridade e falta de conhecimentos dos actuais auto-intitulados «críticos literários» e, neste caso, também de cinema, fazem crítica sem conhecerem as obras. Incluo aqui os que escreveram no Jornal de Letras, num número especial sobre o filme e o realizador, tecendo enormes elogios à adaptação da «obra literária de Fernão Mendes Pinto», mostrando desconhecer a Peregrinação original (que não lessem o meu romance, aceita-se, mas não que considerassem que mais de um terço do filme com as minhas cenas fossem da obra original, como deram a entender, recomendando-o para as escolas).
    Poucos se indignaram com a fraude, outros acobardaram-se com medo de «fazer ondas», cerrando fileiras em volta do protegido «membro do seu clube», mesmo sabendo-o fraudulento. 
    Batalhei sozinha, numa longa e desgastante luta, e só não me afundei de todo porque tive o suporte de um punhado de grandes jornalistas que se interessaram pelo assunto e tiveram coragem para arrostar com a ira da «vaca sagrada» do cinema português. E o apoio sem reservas dos meus leitores e amigos, a quem agradeço de alma e coração.

    Não quero levar esta pesada carga comigo para 2019. Enterro-a aqui hoje.

    A cena em que Meng lava as cicatrizes das costas de Fernão Mendes Pinto, que apenas existe no Corsário dos Sete Mares

    26/11/2018

    Contos Eróticos do Velho Testamento: Agradecimento

    Agradeço à editora Planeta, às  duas apresentadoras - Helena Trindade Lopes e Dulce Garcia - e a todos os amigos que vieram festejar comigo a apresentação desta nova edição dos meus Contos Eróticos do Velho Testamento.

    Entrevista na revista «Delas»


    Deana Barroqueiro: “O jogo da sensualidade é uma maravilha, melhor do que o truca-truca”
    Ana Tomás - revista Delas
    Lisboa 06/11/2018 - Entrevista com a escritora Deana Barroqueiro , a propósito do livro Contos Eróticos do Velho Testamento (João Silva/Global Imagens )
    O movimento #Metoo fez a reputada escritora de romances históricos, Deana Barroqueiro, recuar 15 anos e decidir recuperar para um mesmo volume ‘Contos Eróticos do Velho Testamento’ e os ‘Novos Contos Eróticos do Velho Testamento’. A nova edição, sob o título único do primeiro (‘Contos Eróticos do Velho Testamento’, com edição da Planeta), foi revista e traz um prefácio da poetiza Maria Teresa Horta. Nestes contos, erotismo e violência alternam, reflectindo a condição das mulheres da época a que reportam as narrativas contidas no Velho Testamento, de onde o livro parte. Desconstroem-se mitos e heróis masculinos e desvendam-se as raízes ancestrais da discriminação das mulheres. Não mudámos assim tanto na forma como, enquanto humanidade, olhamos para a sexualidade e a sua vivência pelos géneros, com brutalidade e vitimização a surgirem frequentemente nas complexas equações do erotismo.
    Mas há que ter cuidado com os excessos e com os extremismos, avisa a escritora, de 73 anos, em entrevista ao Delas.pt, a propósito do movimento que contextualiza esta reedição. “Acho que o #Metoo tem de ter cuidado, porque senão qualquer dia estamos castradas como antigamente. Na relação de amor entre homem e mulher, entre dois homens ou duas mulheres, o jogo da sensualidade é uma maravilha, melhor do que o truca-truca”, diz sem papas na língua. Nesta entrevista, a escritora fala também da linguagem poética que usou para amenizar cenas mais violentas a que o texto bíblico faz referência, de como as grandes religiões monoteístas formataram e condicionaram a liberdade e os direitos das mulheres e da sua paixão pela história de Portugal. “Quando dizem muito mal dos Descobrimentos, não sabem nada [do assunto], quando começam a falar, vejo logo que não sabem nada, não leram nada”.

    Esta é uma reedição de dois livros num só volume – os ‘Contos Eróticos do Velho Testamento’ e os ‘Novos Contos Eróticos do Velho Testamento’. Por que quis, 15 anos depois, das primeiras edições juntar estes dois livros num só volume?  
    Esses dois livros já tiveram várias edições, mas sempre relativamente pequenas. Actualmente, o movimento #Metoo fez-me pensar que há 15 anos eu estava a fazer o meu movimento #Metoo sozinha. Sempre me bati contra qualquer tipo de discriminação, sobretudo a das mulheres. E na minha geração batalhámos muito contra isso. Era preciso trabalhar muito mais para conseguir ficar em pé de igualdade, quer no trabalho, quer noutras situações, com o homem. E há uma coisa que sempre me incomodou: as três principais religiões do Ocidente e do Médio Oriente (o Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo) têm uma concepção da mulher muito castradora, sobretudo em relação ao sexo, em relação às sensações das mulheres, que nos leva até à mutilação genital e a toda a brutalidade a que estão sujeitas as mulheres. E essas três religiões e essas concepções vão buscar a sua génese ao Velho Testamento, sobretudo ao livro de Génesis. São dadas como bom exemplo, mas são histórias de muito mau exemplo, onde os homens aparecem sempre como protegidos de Deus, justos, quando são violentos, dominadores, hipócritas, sempre com o nome de Deus na boca para justificarem as brutalidades que fazem. Têm um terror em relação à mulher e uma necessidade de a dominar. E as mulheres são sempre as culpadas de tudo, desde o Pecado Original, em que o homem se deixou tentar; aparentemente, eles pecam, mas elas é que são as culpadas.
    Mas a opção de reunir os dois livros num, deveu-se a quê exactamente? 
    Eu já tive uma edição em que os contos apareciam cronologicamente e faziam uma espécie de romance – publicados como ‘Tentação da Serpente’ e o ‘Romance da Bíblia’ –, mas perdiam a estrutura que eu lhes quis dar: no primeiro livro, ‘Os Contos Eróticos do Velho Testamento’ são as histórias das mulheres sofridas, as vítimas, e nos ‘Novos Contos Eróticos do Velho Testamento’ são as mulheres que sobreviviam – sendo, às vezes, mais perversas do que os homens. Portanto, neste livro há de novo esse contraponto entre essas mulheres vítimas e vencedoras.
    Neste livro, Deus também é retratado como uma figura temperamental e constantemente frustrada com a sua criação – a humanidade – e daí estar sempre a castigá-la. 
    Este Deus do Velho Testamento é um Deus feito à imagem dos homens bárbaros de então.
    Não é o Homem que é feito à imagem de Deus? 
    Não é Deus que cria o homem. As divindades, os deuses são criados pelos homens. Portanto, este Deus é criado à imagem do homem de há 4000 anos. É um Deus cruel, temperamental, que está sempre a desculpar o homem e a culpar a mulher. Segundo a minha concepção de divindade, Deus não podia ser assim. Tinha de ser um ente absolutamente divino, generoso para todos os seres – se é o Criador como é que despreza tanto a sua própria criação, a destrói, de tal maneira lhe impõe tantos castigos, fazendo vítimas inocentes? É absolutamente arbitrário. Como é que podem dizer que aquele livro é sagrado, quando a maior parte das suas histórias, obviamente, são escritas por homens, a partir dos mitos da Mesopotâmia, do Egipto e outros? Basicamente, o meu livro é um livro de contos históricos. Depois, o elo de ligação é esse erotismo, que perpassa através das histórias do Velho Testamento, porque o erotismo devia ser qualquer coisa de delicioso, mas aqueles homens fanáticos queriam repudiá-lo e é através do castigo das mulheres que isso acontece. Eu tentei recriar as histórias dessas tribos, de acordo com aquilo que conhecemos historicamente, através dos documentos – até li um livro de medicina egípcio de há 3000 anos. Li tudo o que consegui apanhar. Foi escrito com o máximo de realismo que consegui dar, através do olhar de uma espécie de cronista ateu, que se limita a contar as histórias, de um ponto de vista feminino.

    Deana Barroqueiro é autora de vários romances históricos. Os contos que agora reedita neste “Contos Eróticos do Velho Testamento” tiveram a sua primeira edição há 15 anos [João Silva/Global Imagens]
    Como é que converteu aquilo que, como disse, é um erotismo que perpassa no Velho Testamento, em contos efectivamente eróticos, como mostra este livro? 
    Eu queria dar uma visão das mulheres daquele tempo, também do ponto de vista de uma mulher. Poucas mulheres têm tido a coragem de falar sobre a sua sexualidade e da sexualidade feminina. Esta é mais falada por homens, que eu acho que não têm assim tanto conhecimento como nós poderemos ter das nossas sensações. E eu quis tratar dessas sensações. As mulheres têm uma capacidade imaginativa enorme.
    Mas, como referiu já nesta entrevista e o seu livro também faz notar, esta é uma obra que também mostra muita violência sexual contra as mulheres e que ainda existe, um pouco por todo o mundo. Como é que no meio dessa violência consegue extrair esse erotismo e, ainda mais, do ponto de vista feminino? 
    Eu quis pôr todas as mulheres do Velho Testamento, portanto usei outros textos além do livro do Génesis, como os provérbios em que a mulher é muito mal tratada; e o desafio era não esconder nenhuma daquelas violências, embora trantando-as com uma linguagem que fosse poética. Mostrando a situação, mas sem entrar na pornografia. E nas poucas cenas em que realmente há uma relação saudável – e são pouquíssimas, há o lavrador Boaz que é uma figura normal, simpática, sensível – nessas cenas eu descrevo as sensações com maior poesia. Uso a linguagem poética porque também estão ali as minhas sensações. É através dos olhos das mulheres, mas é através do meu olhar também. As sensações humanas são iguais desde o princípio dos tempos, nós podemos verbalizá-las de maneira mais elegante, mais filosófica ou mais intelectual, mas as nossas sensações são as mesmas desde que a primeira mulher olhou para um barbudo, peludo, meio macaco e o achou sexy. É físico, embora depois o cérebro nos pregue grandes partidas.
    Um livro como este terá de ter uma vertente de ficção quase em proporção equivalente com a histórica, ou não?
    [Risos] Eu fui um bocadinho perversa. Tenho uma Bíblia muito boa, comentada cientificamente pelos [Frades] Capuchinhos, aproveitei essas explicações científicas para as pôr em situação. Depois imaginei essas mulheres num contexto em que não houvesse milagres. Agora a Igreja diz que é tudo simbólico, mas quando eu era miúda e dei catequese, os padres apresentavam aquelas histórias como se fossem reais. Eu procurei, no primeiro conjunto de contos, perceber como é que aquelas mulheres sofredoras viam aqueles patriarcas, aqueles maridos, aqueles amantes. Portanto, são oito patriarcas vistos por nove mulheres diferentes, cada conto é um olhar feminino. O Abraão tem direito a dois, porque é o ‘cafajeste’ maior, vende Sara duas vezes para se salvar da morte, porque como ela é tão bela tem medo que o matem para que fique viúva. E expulsa Agar para o deserto com o filho. Os segundos contos têm mais a ver com casos clínicos.
    Como assim? 
    Porque, como é que se explica, se não se acreditar nos milagres, como por exemplo, que uma jovem fica possessa do demónio Asmodeu, que se apaixona por ela? Ora casam a menina com um velho, depois o velho morre na noite de núpcias e ela, pela lei do levirato, é obrigada a casar sucessivamente com outros seis homens da família. Isto é uma violência brutal para uma mulher. Na época actual, como é que se explica que uma jovem possa matar sete maridos e continue virgem? Seria uma histérica-esquizofrénica? Fartei-me de ler casos de psiquiatria, para explicar certos comportamentos aberrantes. Como o de Sansão. Sansão, nos filmes de Hollyood, é aquela figura épica e simpática, no entanto tem uma enorme apetência de matar, vê-se que ele provoca até gente inocente para a matar. Há uma série de casos assim, uma série de vigarices e de enganos, que Deus justifica. Esses Novos Contos já são mais irónicos do que propriamente eróticos, embora também tenham erotismo. No último conto do segundo livro, o da Ester, eu já estava fartíssima de pôr cenas de banhos e outras situações eróticas. A imaginação também tem limites. Então surgiu-me uma ideia salvadora: “esta mulher não se despe”. E o conto tornou-se no mais erótico de todos. São truques que as mulheres fazem e as escritoras também [risos]
    Lendo o seu livro, conclui-se que, em muitos casos, a humanidade, ou boa parte dela, não mudou muito a maneira como vê o sexo e a sexualidade da mulher. 
    Não. Falando da agressão sexual, que não é só física, mas verbal e psicológica. Quando eu era jovem, e eu tenho 73 anos, não havia piropos, havia obscenidades, raramente se ouvia um piropo, os homens diziam-nos coisas ordinaríssimas. Depois era o apalpar. O objectivo era ofender e humilhar a mulher que não podiam ter.
    Directa e com um sentido de humor jovial e desarmante, a escritora e antiga professora de liceu é uma defensora da criação de um museu sobre os descobrimentos, que assuma as barbáries mas também as personagens “fabulosas” da história portuguesa [Fotografia: João Silva/Global Imagens]
    Na pesquisa para escrever estes contos eróticos encontrou mulheres ou culturas onde as mulheres fossem de alguma forma empoderadas? 
    Sim, havia muitas zonas de África em que a sociedade era matriarcal e elas tinham muita força. A rainha Ginga em Angola, por exemplo, ou noutro contexto as persas e as indianas, antes do domínio do islamismo. Havia sociedades em que se via essa força e importância das mulheres, como guerreiras, estando ao lado dos homens [noutras actividades] que depois se perdem completamente com o islamismo. Quando os muçulmanos, que também dominaram os povos pela violência (e não apenas pelo comércio), ao imporem o islamismo, foram colocando as mulheres nesse segundo ou terceiro plano.
    Como é que se escrevem contos eróticos sem confundir erotismo com pornografia, sobretudo, num contexto temporal como o do Velho Testamento? Às vezes, a fronteira pode ser ténue.
    É. Há duas ou três cenas que são tórridas, mas a ideia era é essa [diferenciar], porque o erotismo não é pornografia. Por isso eu também acho que o #Metoo tem de ter cuidado, porque senão qualquer dia estamos castradas como antigamente. Na relação de amor entre homem e mulher, ou entre dois homens ou duas mulheres, o jogo da sensualidade é uma maravilha, melhor do que o truca-truca. Como digo aos miúdos, quando vou a uma escola e eles me perguntam sobre isso, truca-truca fazem os bichos, o jogo da sedução, sentir a flor da pele, olhar nos olhos, o toque, o namoro, tudo isso é uma maravilha. Normalmente, os miúdos estão muito obcecados por ir para a cama e perdem todo o jogo da sedução. Antes do 25 de Abril, aqui em Portugal, as mulheres não beijavam homens, toda a gente se beija actualmente. Se for beijar um jovem estou a cometer uma agressão sexual? Não estou, estou a beijá-lo como se ele fosse um filhote ou um neto. Não se pode destruir isso e os exageros, os fundamentalismos, às vezes, são desgraçados, tal como o politicamente correcto.
    Mas por vezes há uma confusão de conceitos entre o que é violência sexual, de assédio e depois entre o assédio e a sedução, tal como há entre piropo e obscenidade. Não acha que #Metoo também veio um pouco pôr o dedo na ferida sobre isso e pôr as pessoas a pensar sobre isso? Sim. Qualquer pessoa tem direito a dizer não e o indivíduo tem de parar. Há ocasiões, e as feministas ficam muito furiosas quando se diz que alguém ‘pôs-se a jeito’, mas é um facto, às vezes “pôs-se mesmo a jeito’ e, ao longo dos tempos, a mulher usou a sexualidade e o corpo para subir na vida. Quando olhamos para o cinema americano, ninguém fechou as actrizes numa casa de banho e as violou. Isso é outra coisa. Houve também as que queriam um papel num filme, porque queriam subir na carreira. Como diz a Maria Teresa Horta, nós inauguramos uma era em que se subia na vida pelo talento e trabalho, não de costas numa cama. Dormir com o chefe? Apostava-se o emprego, mas podia-se dizer não. Perdia-se o emprego. Isso é um risco, mas é uma escolha. Quando se calam, quando recebem dinheiro e 30 anos depois é que vão falar disso, guardam os vestidos com sémen e depois dizem que foram violadas, numa ocasião que dê jeito? Eu essas coisas não aceito, porque depois mete-se tudo no mesmo saco e a verdadeira tragédia e a verdadeira canalhice deixa de ter a visibilidade que devia ter. E eu sou visceralmente contra a violação e contra a violência sobre as mulheres.
    Nasceu nos Estados Unidos da América, embora tenha vindo para Portugal muito pequena. Acompanha, ainda assim, com especial interesse o que se vai passando lá? 
    Sim. Tenho família na América, tenho duas sobrinhas e duas sobrinhas-netas também. E elas são todas activistas, por isso vejo com muito interesse.
    As mulheres assumiram, em muitos casos, a dianteira dos protestos contra Donald Trump. A manifestação da Women’s March, pouco depois da tomada de posse como presidente, foi exemplo disso. Nas últimas eleições intercalares, as mulheres também fizeram história… 
    Pois, isso é muito importante. A América é feita de contrastes e isso, em certa medida, fascina-me. Trump realmente encarna tudo aquilo que é de mais primário, mais primitivo. Ele lembra-me muito uma figura do Velho Testamento, embora transposto para uma época moderna.
    Voltando às religiões. São as únicas responsáveis pela matriz cultural que impõe discriminações ou desigualdades entre os sexos, não há outros motivos? 
    Há outros motivos, a própria civilização, a civilização patriarcal, há montes, montes de razões. Mas a religião formatou-nos, durante séculos. Não é Deus, não estou contra um Deus em que as pessoas acreditam. As pessoas precisam de Deus e da religião. É o mau uso da religião feita pelos homens, que eu combato.
    O que é que ainda a fascina na história de Portugal? Sobre que mistérios é que gostaria de escrever? 
    São tantos, eu não tenho é idade para os fazer todos. Comecei muito tarde, comecei aos 55 anos. A nossa História é riquíssima, puxa-se uma personagem ou um sucesso e vêm atrás outras 50 figuras fabulosas. Eu não sei como é que os portugueses dizem tanto mal de Portugal. Acho que desconhecem o seu próprio país. A ignorância é muito atrevida. Quando dizem mal dos Descobrimentos, a maioria dos críticos desconhece esse período, quando começam a falar, vejo logo que não sabem nada, não leram nada ou leram umas coisas na internet e já se acham uma grande autoridade. “Fomos esclavagistas”. E toda a parte científica, toda a parte das relações que nós vamos encontrar no mundo ainda, os vestígios da nossa passagem, a maneira como falam dos portugueses, como não se fala dos espanhóis. Eu tinha de dizer no México que era portuguesa, porque quando falava espanhol não me respondiam ou respondiam de forma bruta. Assim que dizia que era portuguesa o tom mudava completamente. A história da Tailândia, a história daqueles povos do Oriente, antes de os portugueses irem para lá era uma história oralizada, mítica. Os portugueses, como o Fernão Mendes Pinto, é que escreveram a história daqueles povos. Quando os muçulmanos começaram a espraiar-se por essas zonas, foram apagando toda a influência portuguesa e, depois, reescreveram a história, o que nos faz lembrar aquele documentário que a Al Jazeera cortou. É pôr os portugueses como vilões e apagar a sua própria vilania.
    Mas não acha que nós, portugueses, também temos um certo tabu em relação à escravatura? Pois temos. E isso tem de ser assumido. Eu acho um disparate a discussão sobre o museu, chamem-lhe da Expansão ou das Descobertas. Houve mesmo expansão e descobrimento, no sentido que nós, no Ocidente, desconhecíamos toda aquela parte do mundo, que os portugueses descobriram para o Ocidente. É tão simples como isto. Tem de se assumir a escravatura, como era nesse tempo em que fazia parte do sistema, na maioria das nações do mundo. Os que não transportavam escravos compravam os escravos. Era o sistema económico no Ocidente e não só no Ocidente, era na África, entre os próprios africanos, era no Oriente, com os muçulmanos. Os muçulmanos começaram com a escravatura muito antes de nós. De repente é tudo virgem? Tem de se assumir a brutalidade comum a todas as nações nesse tempo. Eu assumo isso nos meus romances, vem sempre a parte violenta e a parte da canalhice, mas há também gente fabulosa. Afonso de Albuquerque era brutal para os muçulmanos, mas protegia os indianos, desde que respeitassem as regras. Ele proibiu em todos os lugares sob domínio dos portugueses que as indianas que fizessem o sati – o sacrifício das viúvas, que se lançavam na pira com os maridos. Promoveu os casamentos das mulheres locais – indianas, chinesas, javas, etc. – desde que fossem cristãs, com os portugueses. No entanto, houve gente que dizimou populações também.
    Falta contar a história toda? 
    Ui, há tanta coisa para contar e sem complexos. Porque, se não conhecermos o passado, o presente não vale muito e nós não teremos futuro. Isto é uma continuidade. Temos de olhar para trás para não fazermos as mesmas asneiras. Eu acho que os nossos políticos perdem muito por isso. Não conhecem a História do que ficou para trás.

    16/11/2018

    Apresentação dos Contos Eróticos do velho Testamento

    Hoje, 6ª feira, dia 16 de Novembro, pelas 18.30 h, na Biblioteca do Palácio das Galveias, estaremos à vossa espera para a apresentação dos Contos e Novos Contos Eróticos do Velho Testamento, pela voz, graça e talento da Professora Maria Helena Trindade Lopes. Serão muito bem-vindos a esta divertida e ousada apresentação.

    05/11/2018

    CONVITE - TERTÚLIA COM DEANA BARROQUEIRO

    Caros amigos e amigas, não querem vir tomar um café comigo e com o meu marido no dia do meu 45º aniversário de casamento? Pode ser divertido…

    Dia 10.Nov - 19 h.
    Restaurante Larg’O Tacho
    Largo Agostinho da Silva, 1A - Lisboa
    (ao Príncipe Real)

    A Junta de Freguesia da Misericórdia, tem o prazer de o(s) convidar para a apresentação do livro “1640”, com a participação da autora, Deana Barroqueiro, integrado nos “Encontros com Autores” da Semana do Livremente.

    01/11/2018

    Apresentação dos Contos Eróticos do Velho Testamento

    Caríssimos Amigos/Leitores

    Como podem ver, pela ilustração, no dia 16 de Novembro, pelas 18.30 h, na Biblioteca Galveias (Campo Pequeno), a brilhante Prof. Dra. Helena Trindade Lopes, especialista em temas da Antiguidade Pré-clássica, vai apresentar a nova edição dos meus Contos e dos Novos Contos Eróticos do Velho Testamento, reunidos num único volume. Teria muitíssimo prazer em vos ver naquele simpático espaço, se estiverem por Lisboa Aos que estão longe fica a notícia e a sugestão para prenda de Natal, se quiserem oferecer um livro ao/à amado(a).
    Um grande abraço
    Deana Barroqueiro

    Contos Eróticos do Velho Testamento - Entrevista a Deana Barroqueiro

    Deana Barroqueiro: “Aquela gente do Velho Testamento era faminta de sexo” 

    MARTA CERQUEIRA - OBSERVADOR - CARLA OLIVEIRA - Fotos

    Casou virgem aos 27 anos, numa união que dura 45. 
    Escreveu "Contos Eróticos do Velho Testamento" e vai processar João Botelho por plágio. 

    Deana Barroqueiro tem 73 anos e foi desde que se reformou, aos 55, que se dedicou por inteiro à escrita - Carla Oliveira

    A entrevista começou mais tarde do que o previsto porque tinha em mãos uma pilha de livros para assinar. “Sou incapaz de escrever apenas obrigado e está feito. A dedicatória tem que ser feita com tempo”, justifica. O atraso perdoa-se assim que se senta connosco e, sem filtro nem barreiras, fala de sexo, de homens, de mulheres, de uma Bíblia enfadonha, do seu casamento de 45 anos, dos jantares temáticos que prepara para os amigos, dos livros que ainda espera escrever e do plágio de que foi vítima e que, ainda que lhe tivesse tirado a concentração necessária à escrita, nunca lhe tolheu a capacidade de criar.
    Assim é Deana Barroqueiro, uma mulher de 73 anos que viaja na história para explicar o presente. Assim o fez nos livros “Contos Eróticos do Velho Testamento” e no “Novos Contos Eróticos do Velho Testamento”, reeditados agora pela Editora Planeta num único volume a que voltou ao nome original “Contos Eróticos do Velho Testamento” e que diz ser de leitura obrigatória para quem quer perceber a raiz da discriminação sexual.

    Serve este livro para explicar esta relação de inferioridade/superioridade entre homem e mulher? 
    O que as mulheres têm sofrido ao longo de séculos vai buscar as suas raízes aos preconceitos, aos maus exemplos e à prepotência masculina que aparece no livro dito sagrado do Velho Testamento. São nessas histórias de exemplo, e que eu considero péssimos exemplos, habitadas por aqueles velhos patriarcas, libidinosos, hipócritas e cheios de vícios, que vemos as mulheres serem tratadas como se fossem objectos.

    Indo à génese, conseguiu encontrar uma explicação para esta relação de superioridade masculina?
    Eu não pretendia chegar a uma explicação, eu queria sim chegar de uma maneira quase física, quais as sensações das mulheres face a um mundo masculino que as aprisionou. Os homens escritores têm a mania que sabem muito sobre as sensações das mulheres, mas duvido que tenham o conhecimento tão profundo que qualquer uma de nós possa ter”.

    E ainda aprisiona?
    Aprisiona, claro. Basta olhar para o islamismo, ou o fundamentalismo judaico. Eu queria também mostrar a mulher, literariamente falando, do ponto de vista de uma mulher. Ou seja, não só através de personagens mulheres, mas também da escritora mulher. Foram poucas as mulheres com a ousadia de pegar nestes temas ditos sagrados.

    Este livro podia ter sido escrito por um homem? 
    Acho que não. Os homens escritores têm a mania que sabem muito sobre as sensações das mulheres, mas duvido que tenham o conhecimento tão profundo que qualquer uma de nós possa ter.

    Fala no livro de mulheres “consideradas mercadorias e inferiores aos animais, conceito que perdura até hoje”. Será mesmo assim? 
    Em muitos sítios, sim. As mulheres ainda são vendidas. A escravatura sexual, o tráfico humano, são tudo temas muito atuais. E se formos a outras tradições, como a indiana, ainda há crianças que são vendidas pelos próprios pais e forçadas a casar. Mas basta recuar ao tempo da minha mãe, em que a liberdade das mulheres era quase nula e se formos buscar os assédios sexuais, isso aí então, era o pão nosso de cada dia. Em Portugal, não existia o piropo, existia a obscenidade.

    A Deana diz no livro que sofreu na pele o assédio sexual e a violência física e psicológica que é comum a muitas mulheres. 
    Todas sofremos. Tivemos foi que aprender a dizer que não e a levar com as consequências, como perder os empregos.

    Foi o seu caso? 
    Ninguém me fechou numa casa de banho para me violar. Eu até casei virgem, embora só tenha casado aos 27 anos. Mas o assédio do dia a dia, nos transportes públicos, os apalpões, vivi isso tudo. Só não senti isso no trabalho, talvez por ser professora. Como a Maria Teresa Horta disse uma vez, a nossa geração inaugurou o subir na vida pelo nosso talento e não deitadas de costas numa cama.

    O movimento #metoo é algo de inevitável? 
    Chegámos ao momento de dizer basta. Foi bom esse movimento aparecer para que se fale abertamente do assunto, mas, como todos os movimentos, tenho sempre muito medo dos excessos. O que vejo acontecer é meterem no mesmo saco a violência sexual praticado sobre crianças que não tinham voz na altura e que anos mais tarde conseguem dominar o trauma e falar, outras que foram violadas sem se poderem defender e outras ainda, essas sim, que se aproveitam desses casos. Há muitas mulheres perversas, muitas mulheres que exercem um jugo sobre os homens.

    Houve algum momento da história em que a mulher tenha sido figura dominante? 
    As persas na antiguidade, antes de aparecerem os muçulmanos, eram mulheres livres e guerreiras. Na nossa história, era tudo uma questão de posses. Se uma mulher tinha posses, tinha poder. Mas no geral, foram sempre subjugadas. Aliás, sobretudo no século XVII, as mulheres vão para o convento para poderem ser livres, por estranho que isto pareça. Era a única forma de poderem estudar, para poderem ser músicas, médicas, cientistas, literatas.

    O novo livro "Contos Eróticos do Velho Testamento" vai estar à venda a partir de dia 16 de novembro por €18,85

     E hoje em dia essa inferioridade feminina vê-se em quê?
    Basta ver que foi preciso arranjar quotas para que as mulheres tenham lugar na sociedade. Eu defendo as quotas enquanto as coisas não se modificarem de vez, visto que o processo é longo. O que libertou a mulher em Portugal foi o ter que trabalhar, o ter que ajudar o marido. A história do homem ganhar o pão e a mulher ter que ficar com os filhos acaba com as dificuldades financeiras que obrigam a mulher a começar a trabalhar. Esse dinheiro trouxe-lhe uma liberdade, mesmo quando subjugadas ao poder masculino.

    Essa inferioridade é só culpa dos homens? 
    Não, as mulheres aceitam. Eu, por exemplo, quando casei, pensei para mim: ‘Vou dar-lhe três meses para que mostre as qualidades do dia a dia’. Se tentasse aprisionar-me não durava mais do que esses três meses.

    E dura há quantos anos? 
    Faço 45 anos de casada no dia 10 de Novembro.

    Passou no teste.
    Com distinção [risos].

    Em Portugal temos muitas famílias matriarcais. Como é que se vive essa dualidade entre mulheres dominantes, mas subjugadas ao poder masculino? 
    A minha família é um exemplo disso. Eu fui filha de emigrantes e a minha mãe era viúva de um vivo, uma vez que o meu pai viveu praticamente toda a vida nos Estados Unidos e foi ela que criou os três filhos, completamente independente do meu pai.

    Essa superioridade masculina vê-se mais cá fora do que em casa? 
    É um preconceito herdado deste livro sagrado que os padres promoveram por todo o lado. Uma vez quase que saí a meio da cerimónia de casamento de uma amiga quando ouço o padre dizer que ela tinha que obedecer ao marido, nem que ele lhe batesse. Quando ouvi isso, tive que me segurar para não sair porta fora ou dizer alguma coisa ao padre.

    Isso já foi há muito tempo? 
    Não há tanto tempo quanto isso. Aconteceu na minha geração. Só depois do 25 de Abril é que os horizontes se abriram, não sei como é que ainda há quem diga mal do 25 de Abril. Por amor de Deus, parece que não conheceram a ditadura.

    Este livro, além de uma viagem histórica, é também uma viagem sexual. 
    É uma viagem maravilhosa feita através das sensações. O pretexto para o erotismo foi-me dado pelo próprio Velho Testamento. Aquelas histórias estão imbuídas de sexo, aquela gente era faminta de sexo. O sexo está em todo o livro do Génesis com uma força incrível. Quando comecei a escrever o primeiro livro tinha 55 anos, tinha acabado de me reformar e pensei: ‘Isto é capaz de ser um bocado escandaloso’. Mas era um desafio. Estas histórias contam as sensações das mulheres através dos olhares dos homens, algo que sempre me irritou. De maneira que decidi dar uma perspetiva diferente.

    É fácil escrever sobre sexo? 
    Quando comecei a escrever o primeiro livro, escrevi cinco contos em 15 dias. Achei que tinha descoberto uma grande veia ou então era a raiva de ver a injustiça com que as mulheres eram tratadas naqueles textos. Entretanto rebentou o escândalo da Casa Pia e tudo aquilo enojou-me a tal ponto que deixei de escrever. Só quando a história acalmou é que escrevi os outros três contos e acabei o primeiro livro. E se este primeiro livro se focava na história dos homens, no segundo decidi dar voz às mulheres vencedoras, as mulheres que conseguiram dar a volta. Foi aí que surgiu “Os novos contos eróticos do Velho Testamento”.

    Este novo livro é uma junção dos dois?
    Mais do que uma junção dos dois, tentei fazer uma oposição dos dois. A primeira parte é sobre as mulheres sofridas, a segunda parte são as mulheres mais valentes, as sobreviventes.

    Recorrer à história é uma forma de perceber melhor o presente?
    Sim, nada como ler a Bíblia para ter essa noção. Aliás, considero a Bíblia um texto muito fraco, muito repetitivo, com exemplos muito inferiores a obras como a Odisseia ou a Ilíada. Basta ver os provérbios bíblicos, que são arrasadores, e de onde vêm os nossos próprios provérbios. ‘Quanto mais me bates mais eu gosto de ti’ ou ‘ Entre marido e mulher ninguém mete a colher’. Como é que é possível alguém dizer isto? Só pode ser um homem a dizer isto. Aliás, basta ver a história daquele juiz anormal que disse que as mulheres na Bíblia eram apedrejadas e que justificou uma agressão dizendo que a Bíblia pune o adultério com a morte. Pois pune, é isso mesmo que quero denunciar com estas histórias. Acho que vou sugerir à editora que envie os meus contos eróticos para o tribunal da Relação do Porto para eles lerem.

    Saber mais sobre a condição feminina alterou a forma como olha para os homens?
    Eu gosto muito dos homens, um mundos sem homens era uma seca. Sou totalmente defensora do casamento homossexual, ainda que seja heterossexual e não ache piada nenhuma às mulheres, fisicamente falando. Quer dizer, sei apreciar um corpo bonito, mas aprecio muito mais o corpo de um homem, mesmo que não seja tão bonito. O meu marido é feio, mas é um homem inteligentíssimo, qualidade que aprecio muito num homem.

    Entre romances e poemas, Deana Barroqueiro tem já 14 obras editadas
    Entre romances e poemas, Deana Barroqueiro tem já 14 obras editadas. Como é que faz a pesquisa histórica para os seus livros?
    Viajo muito através dos rodapés dos textos, que me levam sempre a novos textos. Além disso, tenho uma grande biblioteca em casa e uma maior online. São gigas e gigas de documentos. Para este livro, por exemplo, cheguei a ler um livro do Egipto sobre medicina com mais de três mil anos. Sou uma espécie de rato de biblioteca, ainda que não vá a bibliotecas porque vejo muito mal, sou praticamente cega. É através do computador que consigo chegar a tudo o que preciso. Acho que se as pessoas lessem mais, falavam menos, principalmente de coisas que não conhecem.

    João Botelho e o caso do plágio Em março, acusou João Botelho de plágio, depois de ter visto no filme “Peregrinação”, personagens que existem apenas no seu romance “O Corsário dos Sete Mares”. 
    Passei os piores momentos da minha vida por causa dessa história. Estive sujeita a ameaças da ArtFilms, produtora do João Botelho, que diziam que me iam processar e pedir uma indemnização, à grosseria do Botelho, que escreveu uma crónica no jornal Público, na qual chamou aos jornalistas hienas porque me apoiaram. O problema é que ele esquece-se que me escreveu uma carta a admitir o plágio e a pedir desculpas.

    Só descobriu que tinha sido plagiada quando foi ao cinema ver o filme?
    Não. Eu fui contactada por dois leitores que me escreveram a dizer que tinham gostado mais do livro do que do filme e eu, de boca aberta, questionei: ‘Mas que filme?’. Era o “Peregrinação”, de João Botelho. ‘Até tem o seu nome no genérico’, disseram-me. E eu sem saber de nada. Começo a pesquisar na internet e leio as entrevistas do João Botelho em que fala das minhas personagens e episódios sem nunca referir o meu nome.

    São personagens que só existem no seu livro? 
    Sim. Até chamei o meu marido, para que visse comigo que aqueles nomes, aquelas personagens não existiam na “Peregrinação”. Aquilo era meu. Fui imediatamente ver o filme e nem lhe sei explicar a sensação que é começar a ver as cenas que eu tinha inventado passadas à tela. As lágrimas caíam-me e, ao mesmo tempo, sentia-me violada.

    Se tivesse sido avisada, aceitaria participar no filme? 
    Seria uma honra. Eu admirava o João Botelho. Mas assim, senti-me atropelada, porque, basicamente, o João Botelho não tinha filme se cortasse a parte que adaptou do meu romance. São 18 minutos de filme seguidos baseados na minha história. Se dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, imagine a quantidade de imagens que estão naqueles 18 minutos.

    O que fez? 
    Cheguei à Leya, a editora do meu livro, e apresentei o caso. Eu não queria direitos de autor, não era isso que eu pedia.

    O que queria então? 
    Queria que me dessem os créditos. O meu nome aparecia no final de toda a ficha técnica, na parte dos agradecimentos, quando, na verdade, o meu livro serve de guião ao filme. Eu não lhe pedi para alterar o filme, porque isso não era possível. Pedi-lhe apenas que, nas entrevistas, dissesse que o meu livro era uma das fontes de inspiração. Nunca fez isso.

    E o filme é agora o candidato português ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. 
    Eu não deixo esta história morrer precisamente por causa disso. Em março, a Academia Portuguesa de Cinema nomeou o João Botelho para o prémio Sophia de melhor adaptação de uma obra literária, neste caso a “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto. Mas a obra que ele adaptou é “O Corsário do Sete Mares” de Deana Barroqueiro. Escrevi para a Academia, decidi denunciar a história nas redes sociais e a comunicação social acabou por pegar no caso. É que de repente, eu passei a ghostwriter.

    Vai a tribunal?
    Finalmente a Leya decidiu pegar no caso e acabou de me dizer que sim.

    Que conclusões tira desta história?
    Conclusões muito tristes. Isto foi uma canalhice, não tem outro nome.

    Nada nesse episódio a fez ter vontade de parar de escrever?
    Não. Bem, no início sim, eu nem me conseguia concentrar. Mas eu sem escrever morro. E há uma coisa que ninguém me pode tirar, que é a capacidade de criar.

    E essa capacidade vai levá-la, em 2019, a lançar para o mercado mais um livro histórico, desta vez sobre cozinha, que sei ser uma das suas muitas paixões. 
    Costumo fazer uns jantares temáticas para os meus amigos, nos quais recrio pratos do século XVI ou XVII. Eu até cozinho bem e adoro organizar jantares, mas este não é será um livro de receita, será sim um livro de cozinha. Histórico, claro.

    O novo livro "Contos Eróticos do Velho Testamento" vai estar à venda a partir de dia 16 de Novembro por €18,85 

    19/09/2018

    Tirar a nódoa

    Tirar a nódoa


    Artigo do jornalista João Gobern sobre o plágio de João Botelho que, agora, terá de tratar deste triste caso com os advogados da editora Leya.

    15/09/2018

    POESIA, UM DIA - 21 DE SETEMBRO

    A minha primeira sessão com os leitores, neste início de ciclo de actividades Outono/Inverno. Se os meus amigos das Beiras estiverem por perto e quiserem conversar comigo, ficarei felicíssima por matar saudades. Em Vila Velha de Ródão, 21 de Setembro, às 15.30.
    POESIA, UM DIA - 21 DE SETEMBRO 15H30 - A NATURÁGORA recebe uma conversa com a escritora Deana Barroqueiro intitulada «TRÊS POETAS E UM PREGADOR NA RESTAURAÇÃO DE 1640». Os poetas e o pregador de que nos falará, muito bem como sempre, Deana Barroqueiro são personagens do seu mais recente livro «1640». Trata-se dos poetas Soror Violante do Céu, D. Francisco Manuel de Melo, Brás Garcia de Mascarenhas e do pregador Padre António Vieira. Se gosta de história não pode faltar. Se gosta de poesia e quiser conhecer uma extraordinária comunicadora também não. Entrada Livre Local: Zona de Lazer junto ao cais do Tejo. Uma organização da BMJBM no ano do seu 10º aniversário.

    28/08/2018

    Festa do Livro em Belém

    No dia 31 de Agosto, sexta-feira, a partir das 18 horas, vou estar aqui, nos jardins do Palácio Nacional de Belém, no stand da Leya, para conversar com os leitores que aparecerem. Agora já consigo assinar autógrafos, o que não pude fazer na Feira do Livro de Lisboa, por ter o braço direito partido.

    25/08/2018

    Repórter TVI: "Compadrio" em Pedrógão

    Repórter TVI: "Compadrio" em Pedrógão
    22 de Agosto 2018

    Uma investigação TVI releva um alegado esquema de compadrio na atribuição de donativos para as vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande. As suspeitas de uso fraudulento de donativos já eram conhecidas, mas agora a investigação da TVI revela que essas fraudes foram cometidas com o consentimento e com a ajuda de poderes públicos locais. O presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande e o então vereador Bruno Gomes sabem, desde o ano passado, da existência de irregularidades no processo que envolveu a atribuição de donativos para a recuperação das casas que arderam no incêndio. Testemunhos inéditos, na primeira pessoa, garantem que tiveram mesmo indicações para adulterar os processos de candidatura, forjando moradas de residência, com a conivência dos poderes públicos locais. "Compadrio" é uma investigação da jornalista Ana Leal para ver na íntegra esta noite no Jornal das 8.


    São 36 minutos de boa reportagem que vale a pena ver NESTA PÁGINA

    23/08/2018

    Al Jazeera corta papel dos muçulmanos na escravatura e culpa portugueses


     Canal do Qatar elimina primeiro episódio de série documental, co-produzida pela RTP e LX Filmes, onde se falava do papel dos muçulmanos no tráfico de escravos. E diz que foram os portugueses a "estabelecer" este comércio.

    « Para expandirem a sua riqueza, os portugueses estabeleceram o comércio de escravos, em que África era o centro». É desta forma que o canal de notícias Al Jazeera, do Qatar, anuncia na sua página de Internet o "primeiro episódio" das Rotas da Escravatura, uma série europeia, apoiada por fundos comunitários, de cuja lista de produtores, encabeçada pelo canal francês Arte, fazem parte a RTP e a LX Filmes.

    O problema, como confirmou Luís Correia, diretor da LX Filmes, depois de ter sido confrontado pelo DN com esta versão, é que o alinhamento apresentado pelo canal "está alterado, não corresponde ao original". Desde logo por apresentar como primeiro episódio aquele que, na realidade, "é o episódio dois", de uma série de quatro, em que se "conta toda a história da escravatura, desde a antiguidade, passando pelos séculos XIV e XV, em que Portugal esteve mais envolvido", até à abolição. "O que fizeram foi não exibir o episódio um e exibir o episódio dois como se fosse o primeiro", disse.

    De facto, confirmou também Luís Correia, a Al Jazeera não só suprimiu o primeiro episódio como alterou "o lettering do segundo, que também não é o original", para que o episódio exibido passasse a ser identificado como o primeiro. E sobre o que versava o episódio desaparecido na versão exibida pela televisão do Qatar? De acordo com a apresentação original do documentário, enviada ao DN pelo diretor da LX Filmes, o referido capítulo inaugural, intitulado: "641-1375 - Para Além do Deserto", examina "o processo que levou o Império Muçulmano a tecer de forma duradoura uma imensa rede de tráfico de escravos pela África, Médio Oriente e Ásia". "É esse alinhamento de quatro episódios, que foi já exibido em França e que a RTP tem previsto agendar em breve para emissão, que corresponde ao documentário", acrescenta ao DN Luís Correia, lamentando a opção do canal árabe: "É muito desagradável e triste. Põe problemas para quem vê isto fora de contexto. No documentário, é explícito que há uma lógica de rigor histórico, de compreender a escravatura como um todo", diz.

    Infante D. Henrique, o "salteador"

    No episódio transmitido no passado dia 16 pela Al Jazeera - canal seguido por largos milhões de espectadores em todo o mundo, sobretudo nos países islâmicos -, a escravatura em África é assim apresentada como uma prática fundada pelos portugueses: "O pequeno Reino foi o primeiro a assaltar a costa de África", é assegurado na narração, acompanhada de imagens de Lisboa, da Costa de Lagos e Sagres e de São Tomé - todas captadas pelas produtoras nacionais que produziram o documentário.

    Entre os historiadores ouvidos neste capítulo consta António de Almeida Mendes, da Universidade de Nantes, que descreve Henrique, O Navegador, como tendo sido inicialmente "o líder de um bando de salteadores, de piratas que fazem cativos". O DN perguntou a Almeida Mendes, através do seu endereço de e-mail na universidade francesa, se se revê nas conclusões gerais sobre o papel de Portugal apresentadas pelo documentário, em particular considerando o enquadramento feito pela Al Jazeera. Até ao momento, não obteve resposta.

     Quem não tem dúvidas de que a opção da Al Jazeera "não é inocente" é João Pedro Marques, historiador e romancista especializado na história da escravatura. "É evidente que tem razões ideológicas e políticas. Querem, no fundo, arranjar um bode expiatório: dar a ideia de que os muçulmanos não tiveram intervenção nenhuma neste assunto e colocarem o odioso da questão todo do lado dos europeus", critica. "Isto é um ato de censura e um ato de censura com um objetivo ideológico", acrescenta. "É na altura da expansão muçulmana e da conquista pelos árabes [de novos territórios em África] que o tráfico cresce imenso", conta. "No somatório total deverá ter sido até maior do que o transatlântico".

    Sobre o episódio relativo a Portugal e ao tráfico transatlântico, envolvendo o envio para as Américas, ao longo dos séculos, de mais de 10 milhões de escravos africanos, além dos cerca de 1,5 milhões que se estima terem morrido na travessia do Atlântico, o historiador não minimiza o "papel fundador" que os portugueses efectivamente neste tiveram. Mas defende que esse não pode ser dissociado do contexto geopolítico da época, sobretudo a partir da assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494: "É a divisão do mundo entre os países ibéricos, com o beneplácito da Santa Sé, que faz com que Portugal tenha durante 200 anos, até ao século XVII, o usufruto exclusivo do negócio africano, no qual se inclui o tráfico de escravos".

    João Pedro Marques tem também dificuldades em aceitar a descrição do papel do Infante D. Henrique feita por Almeida Mendes. "É uma transposição das nossas categorias de avaliação para o século XV, o que não é correto", diz. "Ele é historiador e há termos próprios do século XV para dizer o que as pessoas faziam. Os escudeiros do Infante D. Henrique iam em busca de honra, de façanhas, de cativos, de pessoas que pudessem encontrar. Piratas e salteadores não eram".

    A pirataria, recorda, "tinha uma classificação própria". Os homens do Infante D. Henrique, defende, "tinham carta de corso [corsários], o que lhes dava autorização para atacar e capturar. Mas não eram só as pessoas do Infante D. Henrique", acrescenta. "Por toda a Europa e no mundo muçulmano havia coisas equivalentes. Havia uma tradição de corso que os muçulmanos continuaram a praticar até ao século XVIII, XIX. Assaltaram, por exemplo, as costas do Algarve e de outras partes da Europa para capturar escravos até muito tarde".

    No entanto, acrescenta ainda, entre os portugueses, "o número de viagens de captura e a prática de desembarque foi limitadíssima. Usou-se nos primeiros contactos mas foi abandonado medida que se foi avançando para o Sul. O desembarque tinha enormes riscos, até do ponto de vista sanitário, devido às doenças", explica, acrescentando que os portugueses encontraram uma alternativa para o tráfico de escravos entre residentes dispostos a fazer negócio. "Acredita-se que os primeiros negros foram provavelmente comprados a uma caravana árabe que seguia para Norte, para o mediterrânico, para a zona de Marrocos".

    Tráfico transatlântico começou há 500 anos

    De acordo com os relatos históricos, os primeiros cativos africanos chegaram a Portugal em 1441, trazidos ao Infante D. Henrique por Antão Gonçalves e Nuno Tristão. A primeira venda decorreu em Lagos, em 1444, envolvendo 235 homens, mulheres e crianças. A chegada é descrita por Gomes Eanes de Zurara na Crónica da descoberta e conquista da Guiné. O relato, que não esconde o sofrimento evidenciado pelos escravos, é reproduzido no episódio dois da série Rotas da Escravatura.
    Mais tarde, Portugal, Espanha e outros países começaram a enviar escravos da metrópole para vários destinos, como as Caraíbas.Já o primeiro transporte de escravos directamente de África para as Américas - como recordou o jornal britânico The Independent foi aprovado há exactamente 500 anos, no dia 18 de Agosto de 1518, pelo rei Carlos I de Espanha. Os primeiros escravos a fazerem esse percurso terão sido obtidos através de um dos entrepostos que os portugueses, já na altura possuíam na costa africana.