15/01/2018

Nova Apresentação do «1640»

NA FNAC - COLOMBO, dia 30 de Janeiro, 3ª feira, às 18.30 horas.

Apresentação do  romance «1640», de Deana Barroqueiro, por Francisco Moita Flores, para quem não pôde ir ao lançamento  e estiver interessado.

Serão muito bem recebidos e terão uma surpresa pagradável.



10/01/2018

Entrevista no Jornal de Letras

Deana Barroqueiro Salvar personagens históricas do esquecimento

Tem uma obra "absolutamente singular" no campo do romance histórico, ocupando agora o "lugar da grande mestria do desaparecido Fernando Campos", como assinala Miguel Real na crítica, á frente publicada, a 1640, acabado de sair. E é sobre este romance com mais de 800 páginas sobre o período da Restauração, 2º volume de uma trilogia cujo 3º será sobre os filhos de D. João IV, é sobre 1640 mas também sobre aquele género literário, e muito mais, que falamos com a escritora

Maria Leonor Nunes  

“Não vivo da escrita”, garante. “Vivo para a escrita”. Escrever é mesmo, para ela, uma espécie de bulimia, uma necessidade insaciável que “engole”, “devora” os seus dias. E são dias inteiros, às vezes 12 incansáveis horas, “colada” ao computador, consumidas por essa voragem. Até pela investigação histórica minuciosa e aturada que os seus livros implicam. E escreve-os sempre em simultâneo, pelo menos um par de histórias a correr ao mesmo tempo. Até que uma toma a dianteira e a arrebata de tal modo que a leva até ao fim.
Sempre romances, sempre históricos. Deana Barroqueiro, 72 anos, nem equaciona a hipótese de experimentar outro género. Tem a paixão da História, apesar de ter trabalhado sempre no domínio da Literatura. E procura resgatar ao esquecimento figuras “épicas” do passado, que viram a sua glória desvanecer-se na poeira dos tempos. Tal como enquadrar literariamente determinadas épocas, reconstituindo não apenas factos, mas também os costumes e as mentalidades. É o que faz em 1640, que agora chega às livrarias, numa edição Casa das Letras.
São mais de 800 páginas, em que efabula sobre o período da Restauração, cruzando quatro personagens, todas ligadas à palavra: o poeta Brás Garcia de Mascarenhas, a poetisa Soror Violante do Céu, o prosador Francisco Manuel de Melo e Padre António Vieira. Um romance em que as quis “reviver”, na primeira pessoa.
Deana Barroqueiro nasceu nos Estados Unidos e veio para Portugal com dois anos. Licenciou-se em Literaturas e foi professora. Até que a sua curiosidade se cruzou com a História, situando-se entre os séculos XV e XVII. E sentiu que tinha muito que contar. Começou pelos Descobrimentos, com uma série juvenil e a trilogia de que fazem parte O Navegador da Passagem, O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares. Seguiu-se-lhes S. Sebastião e o Vidente, a que agora acrescenta 1640. Mas já pensa noutras personagens que “dão pano para mangas”.

Jornal de Letras: 1640 completa um díptico sobre a Restauração?
Deana Barroqueiro: Penso mesmo fazer um tríptico. D. Sebastião e o Vidente termina com a batalha de Alcácer Quibir e a consequente perda da nossa independência. Depois, segue-se o período conturbado dos Filipes e a Restauração, em 1640. E aí, pensei numa personagem, Brás Garcia de Mascarenhas.
Um herói da Restauração?
E o grande épico do século XVII, que quis salvar do esquecimento Foi a partir dessa personagem que o romance tomou forma? Comecei a escrever sobre o período que antecedeu 1640 e as convulsões que se seguiram. O tema era fascinante, mas difícil. Entretanto, tinha muito material sobre os Descobrimentos, porque tinha feito os sete volumes da coleção juvenil. E como tenho que estar sempre a trabalhar em mais de um livro ao mesmo tempo…
Porquê?
Para passar para outro, quando fico paralisada num, por causa de algum problema que surja no desenrolar da narrativa, ou porque me enjoo, porque não consigo estar a fazer a mesma coisa durante muito tempo. Por isso, gosto de escrever dois ou três romances em simultâneo. Até que um deles toma o freio nos dentes… Foi o que aconteceu, por exemplo, com O Navegador da Passagem, porque de repente começaram a surgir-me as figuras dos Descobrimentos.
De permeio com a história de 1640?
Sim. Até saíram também O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares, que completaram a trilogia. E entretanto, ia sempre voltando ao Brás Garcia de Mascarenhas. O romance ainda nem tinha nome.
O que a fez interessar-se por essa figura?
Gosto muito de dar aos leitores personagens verdadeiras da nossa História, os grandes valores, quase sempre literatos e que são hoje praticamente desconhecidos. Ainda estudei alguns, no meu tempo de estudante, mas foram caindo no esquecimento. Mas são figuras fantásticas. No D. Sebastião e o Vidente, por exemplo, não comecei por me interessar pelo rei.
Então?
Precisamente pelo vidente, Miguel Leitão de Andrada, escritor do século XVI, que escreveu um livro chamado Miscelânea, tal como Garcia de Resende, mas em prosa. Nele contava a sua ida para Alcácer Quibir com o rei. Apercebi-me que havia grande ligação entre essa figura praticamente desconhecida dos portugueses e o rei. Tinham, aliás, praticamente a mesma idade. Comecei a escrever o livro entrelaçando as vidas de ambos.
E Brás Garcia de Mascarenhas?
Era o mesmo tipo de figura, um pouco mais exacerbada, também desconhecida e injustiçada. Um poeta, guerreiro, apaixonado, com uma vida rocambolesca que se prestava muito à ficção.
Sentiu que tinha todos os ingredientes do herói.
Sim. Não se sabia muito sobre ele, o que me permitia ficcionar muito, mas sempre com a preocupação da História. A certa altura, conseguiram-me arranjar um livro que estava esgotadíssimo sobre ele, de António Vasconcelos. Foi uma fonte fantástica, que me permitiu avançar com o livro
Teve que fazer uma investigação muito apurada?
Até mais do que nos outros livros. Habitualmente, levo pelo menos três anos com cada livro. Este já vinha desde 2004, embora o tivesse interrompido muitas vezes. E sempre que o retomava, tinha que rever o que tinha escrito desde o início.
Por que o interrompeu tantas vezes?
Não sei, havia qualquer coisa que emperrava. Comecei por pôr Brás Garcia de Mascarenhas a contar os acontecimentos da sua perspetiva. Mas gosto sempre de dar vários ângulos, porque a vida tem muitas influências, relações, memórias. São essas correntes diversas que fazem viver também as personagens e os romances.
Como encontrou outras perspetivas?
Surgiu-me D. Francisco Manuel de Melo, um fidalgo militar com todas as questões da guerra associadas. A dada altura, senti que me faltavam as mulheres. E lembrei-me de Soror Violante do Céu, uma poetisa fantástica do tempo. Faltava-me de igual modo a parte diplomática e pensei em Padre António Vieira. Quando os encontrei a todos, senti que tinha quatro guias para fazer mergulhar os leitores naquele tempo riquíssimo e bastante trágico da nossa História. Interessava-me também dar a ideia do barroco, um período tão maltratado e fascinante. Mas para isso, precisava de uma estrutura para o romance, que pudesse dar o luxo e a miséria, as aparências e a realidade trágica das personagens, asfixiadas pelo domínio castelhano, pela Inquisição.
Como o resolveu?
Ocorreu-me a estrutura da Corte na Aldeia. Até porque, como a corte era em Madrid, Lisboa ficou uma verdadeira cidade de província. Os fidalgos mais abastados faziam pequenas cortes nos seus palacetes. E protegiam as artes, os poetas, os músicos. Uma das principais, a do duque de Bragança, em Vila Viçosa.

ELOS DE LIGAÇÃO
Que dificuldades sentiu com o curso da narrativa?
Sobretudo as ligações entre as diferentes personagens. Foi o que mais demorou a fazer, para não cair em falhas graves. Foi preciso perceber em cada momento onde estavam. A dada altura encontrei um elo de ligação.
Qual?
O facto de estarem todos presos. Pe. António Vieira está a contas com a Inquisição em 1663-1967, quando acaba o meu romance. Francisco Manuel de Melo esteve 12 anos preso na Torre de Belém e em Almada. Brás Garcia Mascarenhas também esteve preso várias vezes, embora escapasse sempre das formas mais fantásticas. E Soror Violante estava ‘presa’ no convento.
No caso de Soror Violante do Céu, o que a interessou?
Queria dar o domínio dos homens, a castração das mulheres, a vida dos conventos, onde, de resto, algumas mulheres iam encontrar alguma liberdade que não tinham em casa, nem na sociedade, o que lhes permitia realizarem-se como músicas ou poetisas. Quando tinham pais permissivos, quando muito frequentavam as universidades, mas vestidas de homens. Como sou muito feminista e acho que ainda estamos a pagar a fatura dos velhos testamentos e afins, tinha que dar o ponto de vista das mulheres, o seu sofrimento e também todo o lado cómico dos freiráticos, que é a parte mais atrevida do meu livro. Às vezes, quase coro ao lê-la… (riso) No fundo, procuro sempre tentar reviver as personagens da nossa História, que é riquíssima.
O que mais a estimulou, do ponto de vista literário, em 1640?
O grande desafio foi pôr as personagens-guias a falar na primeira pessoa, sendo um poeta épico, uma poetisa lírica, um prosador e homem de teatro e o maior pregador de todos os tempos. Não podia ser maior o desafio. A dificuldade foi não usar uma linguagem demasiado contemporânea e, por outro lado, não complicar para que os leitores possam entrar bem nas suas falas. Por isso tive que ter mil cuidados e estar sempre a ver e rever as palavras, questionando-me se na altura já utilizariam determinado termo.
Uma espécie de reconstituição histórica também da linguagem?
Sim. Por exemplo, a hoje tão usada ‘geringonça’ apareceu-me num texto oficial do séc. XVII e caiu como sopa no mel…
Uma ‘piscadela de olho’ à atualidade?
Até senti que havia muitos pontos de contacto com a nossa época.
Políticos?
Na verdade, enquanto escrevia o livro, estivemos sob uma ‘troika’ e, na altura, também havia a ‘troika’ castelhana a apertar a garganta do país, as pessoas a viverem na miséria, com muitas dificuldades, desprezadas, humilhadas e uma enorme revolta. E sempre aquela velha história que era preciso passar-se mal para o país ir para a frente. Afinal, o país estava a ser roubado e explorado por Espanha e por todos os países que até tinham sido nossos aliados, mas então exploraram o mais que puderam. Luísa de Gusmão disse que Portugal era como um pássaro a quem estavam a arrancar as penas das asas. E, por outro lado, está agora muito em voga um tema que é muito explorado no meu romance, a independência da Catalunha. Foi graças à revolta catalã que conseguimos levar a nossa avante.

ESPÍRITO DA ÉPOCA
Afirma que só escreve romances históricos. Porquê?
Divirto-me imenso, e escrever romances históricos permite-me estudar, que é uma coisa que mesmo aos 72 anos não consigo parar de fazer. Sempre tive essa curiosidade e vontade de conhecer.
E como veio do mundo da Literatura para o da História? Como era professora de Português, de língua e de Literatura, senti a necessidade de saber História para saber ensinar sobre os autores e as suas épocas. Tinha que saber muita História para ser uma boa professora de Literatura. Sobretudo das mentalidades. É isso que quero passar para os meus romances, não só os factos, os pormenores dos acontecimentos, mas o espírito da época, a maneira como as pessoas pensavam, sentiam e reagiam no seu tempo. E que evidentemente era muito diferente da nossa.
Não gostaria de experimentar outro tipo de romance?
Não. Vou escrever romance histórico até ao fim da minha vida. Mas interessa-me o género tal como aprendi, como se classificava na Literatura, um romance que permite ao leitor conhecer uma época, um acontecimento, uma determinada mentalidade. Não aceito as correntes modernas, segundo as quais o romance histórico pode ser tudo. Claro que, de alguma maneira, tudo é histórico, inclusive um romance sobre o que se passou esta semana. Mas, para mim, tem que passar conhecimento. Até para que o leitor acredite no autor da obra. Para isso, é preciso muita investigação. Ideias nunca me faltaram, mas o conhecimento de uma época leva-me sempre anos e anos. Fico colada ao computador por vezes 12 horas por dia e muitas vezes leio um volume de 400 páginas só para confirmar uma ideia ou tirar uma frase.
 
Por que escolheu trabalhar sempre o período entre os séculos XV e XVIII?

Apesar de conhecer bem igualmente a época medieval, apaixonou-me o Renascimento, o Barroco, os Descobrimentos, por ser o nosso século de ouro. Apesar de não ser tão conhecido como se possa pensar e de muitas vezes ser encarado como um período negativo. O português tem muito o costume de falar daquilo que não sabe. A ‘achologia’ é uma ciência muito nossa, e é uma pena. Porque temos que reconhecer os nossos erros e falhas, mas assumir o nosso passado. Sem o fazer, não conseguimos estar seguros no presente e perspetivar o futuro. Se os nossos políticos soubessem mais da nossa História, talvez nos governassem melhor.

Por exemplo, o que se passou em 1640….
Com o meu romance podiam aprender muito. Até devia ser uma cartilha para o Governo… (riso) Mas talvez não tenham coragem para ler um livro tão grande. Porque não sei se escrevo bem ou mal, mas faço um trabalho seríssimo de investigação e esse é o meu orgulho e a mais-valia dos meus romances.
Já está a escrever o terceiro romance da trilogia?
Ainda não comecei. Será sobre os filhos de D. João IV, o que dará também muito pano para mangas. São figuras que já foram tratadas por outros autores, mas espero fazê-lo de uma forma diferente. E cada escritor fará, como se sabe, o que lhe dita o coração ou a alma. E muitas vezes a moda. Nem todos, felizmente. Mas já estou a escrever outros livros. Não posso estar sem escrever. Não vivo da escrita, mas para a escrita. A escrita é que me engole e me gasta.

Que outros livros?
Um livro histórico de culinária. Não é, claro, um livro de cozinha, apesar de ter receitas, porque há muitos livros de cozinha e bons chefs por aí. Também não tem a ver com a história das receitas, antes das sensações ligadas à comida e que podem ligar à arte, por exemplo. Ou ao cinema… Já vai em 300 páginas. Espero que saia na altura da Feira do Livro. O outro é um diário de um navegador de que, por enquanto, vou guardar segredo.JL
Deana Barroqueiro “Vou escrever romance histórico até ao fim da vida”
Gosto muito de dar aos leitores personagens verdadeiras da nossa História, os grandes valores, quase sempre literatos e que são hoje praticamente desconhecidos

05/01/2018

Crítica de Miguel Real ao «1640»

Miguel Real - Os Dias da Prosa - 03-01-2018

TEMPO BARROCO

Deana Barroqueiro substitui, no campo do romance histórico, o lugar da grande mestria de Fernando Campos. Apenas suportada na investigação histórica e num incansável labor de escrita tem criado uma obra singular neste género literário


1. 1NTRODUÇÃO. Com os seus recentes livros, nomeadamente O Corsário dos Sete Mares. Fernão Mendes Pinto (2012), a edição revista de D. Sebastião e o Vidente (2016) e o ora publicado, 1640, Deana Barroqueiro (DB) substitui, no campo do romance histórico, o lugar da grande mestria do desaparecido Fernando Campos. Sem grandes aparatos de imprensa, apenas suportada na investigação histórica e num incansável labor de escrita, DB tem vindo a criar uma obra absolutamente singular neste género literário. Com efeito, a escrita de um romance histórico exige do autor um espírito histórico, um domínio de factos históricos da época narrada, de formas de representação e governo, de conflitos políticos e institucionais e sua expressão militar, de hinos, canções guerreiras, uniformes, mitologia heroica, trajes… E DB possui e transmite para o leitor esse espírito de historiador, antes de mais na fidelidade ao domínio do léxico da época retratada, evidenciando uma imensa amplidão vocabular, talvez a maior entre os cultores deste tipo de romance. Depois, conhece em pormenor as roupas, a higiene pessoal, a alimentação, os períodos de atividade e inatividade, as profissões, os instrumentos de trabalho, os modos de culto do sagrado, as orações, as liturgias, os rituais de nascimento e morte, as formas de socialização, de divertimento, os espetáculos, os comportamentos marginais, os hábitos alternativos, heterodoxos e heréticos, a topografia e a toponímia da época. Estas são, digamos, as bases sérias e rigorosas em que assenta a escrita da autora.
       O romance histórico, antes de ser classificado como “histórico”, é um romance, isto é, possui um fim em si mesmo – o prazer estético da escrita e da leitura, adicionado à informação e ao conhecimento da história. Só secundariamente este género de narrativa serve para reconstruir a história, para a reinterpretar ou para a ensinar. Diferentemente, o prazer estético da leitura é sempre superior a outro propósito. O romance histórico não reinterpreta ou reconstrói a história segundo um ditame de verdade – tal como fora pensado no século XIX e na primeira metade do século XX (cf. Maria José Marinho, O Romance Histórico em Portugal, 1999). A sua função consiste em abrir um horizonte estético e lúdico às possibilidades contidas na História, fazendo-se eco das múltiplas verdades e das múltiplas perspetivas por que se desenrolam os factos sociais, algumas delas nunca acontecidas. Neste sentido, afastam-se da definição de romance histórico termos limitadores como “fidelidade”, “verdade”, “reprodução” ou “reconstituição”, “dados rigorosamente históricos”… Ainda que possa comportar essas categorias, eminentemente científicas, o seu sentido primeiro e último, e, portanto, a sua definição estatuidora, envolve sobretudo um fim estético. Se, de facto, o romance histórico envolve, pela sua natureza, um quantum de conhecimento, o seu quid, porém, é eminente e absolutamente estético.

2. O TEMPO. Assim, resta perguntar como DB transforma o vastíssimo conjunto de conhecimentos históricos em narrativa estética. A resposta parece ser, como já assinalei na recensão a O Corsário dos Sete Mares-Fernão Mendes Pinto, na “complexidade estrutural” por que envolve os seus romances, anulando a "narrativa linear" (introdução da autora a O Espião de D. João II, 2009, p. 10), ou seja, o elemento estético prevalecente na narrativa evidencia-se através do trabalho sobre a categoria de tempo. É o tempo (e não o espaço) que domina e é fortemente valorizado nos últimos romances de DB. Dito de outro modo, através da manipulação do Tempo a autora cria “um puzzle cujas inúmeras peças concorrem para formar um quadro final coerente e possível…” (introdução da autora a O Navegador da Passagem, 2008).
       O título do seu novo romance indicia esta valorização do trabalho sobre a categoria de tempo: 1640, o ano da Restauração. Por um lado, o ano emblemático denuncia o tema e todo o envolvimento histórico em seu torno; por outro, porque não reduz o romance ao acto político da Restauração, desencadeia o modo “labiríntico” ou “puzzlístico” pelo qual o trabalha, desdobrando o romance em quatro diferentíssimos quadros: o estético (“A professa”), a vida de soror Violante do Céu no convento da Rosa, em Lisboa; a vida de Brás Garcia Mascarenhas (“O poeta”) em Madrid, no Brasil e em Portugal, autor da epopeia Viriato Trágico e combatente de D. João IV nas Beiras; a vida de Francisco Manuel de Melo (“O prosador”) em Lisboa, em Madrid, na Flandres, no Brasil, na prisão e em liberdade; finalmente, a vida de padre António Vieira (“O pregador”) na Bahia, em Lisboa, na Europa, no Maranhão e Grão-Pará e de novo na Bahia para morrer.
       Como se constata, com a narração de tantos e tão diversificados territórios, a importância da unidade de espaço é diminuída e sobrevalorizada a de tempo. E como o sobrevaloriza DB? Narrando as diversas camadas por que se desdobra o tempo barroco da Restauração – o estético, o religioso, o social, o político, o militar, o diplomático, o institucional, o propriamente histórico. Usando um léxico da época, evidenciando a autora uma sólida erudição, cada um dos quatro quadros refere-se aos restantes três por via de ligações secundárias, gerando cruzamentos “labirínticos” numa escrita rendilhada ao nível da filigrana, própria da representação barroca.
       Isto é, 1640, centrando-se nas quatro personagens, recria labirinticamente o conhecimento e a representação da totalidade do século XVII, o século do Barroco: Violante do Céu expressa a poesia como refrigério e deleite e evidencia a vida hedonística das freiras no interior dos conventos ricos; Brás Garcia Mascarenhas narra a sua vida aventurosa e de como ela se transformou em poesia “trágica”, reiterando o nacionalismo e o independentismo então presentes em Portugal; D. Francisco Manuel de Melo mostra como Portugal se libertou do jugo de Castela e enfatiza a injustiça (ciúmes levantados por D. João IV?) que o levou à prisão e ao exílio; padre António Vieira denuncia fervorosamente o Santo Ofício como o grande, grande responsável pelo atraso europeu do país e missiona os índios tupi, convertendo-os ao cristianismo.
       Compondo um “xadrez de palavras” (Padre António Vieira), Deana Barroqueiro, valorizando o trabalho romanesco sobre o tempo, transmite no seu livro uma perfeita representação da escrita barroca, simultaneamente conceptista e cultista, jogando com os argumentos paradoxais, as antíteses, as comparações metafóricas, a retórica da persuasão, cruzando simultaneamente o lirismo de Violante do Céu, o estilo epopeico de Brás Garcia Mascarenhas, o criticismo galante e maneirista de D. Francisco Manuel de Melo (o camoniano “desconcerto do mundo, a ironia face ao fracasso existencial, a ambiguidade ontológica), bem como a eloquência expressiva do Padre António Vieira.

02/01/2018

Entrevista no SMOOTH fm


Entrevista para a radio SMOOTH FM

http://smoothfm.iol.pt/leya-com-a-smoothfm/601/1640

21/11/2017

O novo romance de Deana Barroqueiro - 1640

Quatro guias singulares conduzem o leitor nesta viagem ao passado, através dos seus dramas pessoais e colectivos: o poeta proscrito Brás Garcia Mascarenhas, autor da epopeia Viriato Trágico; a professa Violante do Céu, a Décima Musa da poesia barroca, enclausurada no convento; D. Francisco Manuel de Melo, o maior prosador ibérico do século XVII, prisioneiro na Torre; e o Padre António Vieira, o mais brilhante pregador do seu tempo, a contas com a Inquisição.

17/11/2017

Peregrinação, de João Botelho e O Corsário dos Sete Mares, de Deana Barroqueiro

Fui ver o filme Peregrinação, de João Botelho, não só por gostar do trabalho do realizador, mas, sobretudo, com a curiosidade de ver como teria ele adaptado ao cinema a complexa obra de Fernão Mendes Pinto, a fim de o cotejar também com o meu próprio romance, O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto.
Pude constatar que João Botelho criou o guião a partir de textos da Peregrinação – a obra-prima deste anti-herói do século XVI, adaptada por Aquilino Ribeiro –, dos poemas de Fausto e do meu romance, o que muito me lisonjeou, embora João Botelho nunca me tenha contactado, nem à editora Leya, para pedir permissão para o fazer.
Porém, o que me deixou perplexa, foi não ver, na ficha técnica do filme,  qualquer menção ao romance O Corsário dos Sete Mares, atendendo a que o realizador adaptou um número muito considerável de personagens e episódios, em alguns casos com grande pormenor. Só o meu nome aparece, no final da ficha técnica, nos agradecimentos.
Mais espantada fiquei ao constatar, que em todas as informações do filme e  entrevistas do realizador, que tenho lido e ouvido, João Botelho nunca menciona o meu romance quando se refere às fontes a que recorreu para o guião, indicando apenas a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, a sua adaptação para crianças, por Aquilino Ribeiro e os poemas de Fausto. 
Participei o caso à minha editora e espero que, das reuniões que tem tido com os representantes de João Botelho, essa falha seja corrigida e que, o meu romance passe a ser referido, nos textos escritos e nas entrevistas sobre o filme.

Gostei da adaptação que João Botelho fez dos episódios do meu livro, em particular, nas cenas com personagens femininas, que não existem na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e que eu criei, a fim de fazer a minha narrativa mais realista, atribuindo ao “herói” algumas paixões, humanizando-o.
Os que leram O Corsário dos Sete Mares encontrarão no filme a minha personagem Meng, a amante chinesa, na cena do banho, com a bacia de água perfumada de flores; e a filha do «monteo», o capitão chinês que vai levar Pinto e os companheiros para a Muralha da China, a moça que toca e canta um belo poema, que ensina Pinto a ler mandarim e a conhecer os usos da terra. 
E também a violação da “noiva roubada”, por Pinto, que o realizador faz cometer a António Faria, o seu alter ego, no filme; as cenas das prostitutas e a da Senhora adúltera, assassinada pelo marido, ou o casamento de Pinto com a moça japonesa Wakasa, filha do armeiro, que também não fazem parte da Peregrinação, mas que os meus leitores reconhecerão do meu “Corsário dos Sete Mares”. 
O narrador do filme é, tal como na sua obra, o próprio Fernão Mendes Pinto, sendo o enredo tecido por vários episódios das suas viagens nos mares e reinos da Arábia, Samatra, China e Japão, excluindo muitos outros onde a sua acção deixou profundas marcas, como Burma e Sião. Uma opção compreensível, atendendo à escassez de meios para dar corpo às fabulosas narrativas de Pinto, o qual é retratado no filme de forma um tanto redutora, apenas como um miserável e esfarrapado pirata, mesmo nos episódios em que vai como embaixador a Samatra ou como rico comerciante ao Japão.
O passado e o presente do aventureiro entrelaçam-se, pontuados pela fabulosa música de Fausto. Gostei da adaptação de Botelho, embora sinta que o realizador poderia ter-se aventurado mais, indo um pouco mais longe.



18/10/2017

1640 - Novo romance de Deana barroqueiro


Caríssimos Leitores e Leitoras
Recebi ontem o primeiro exemplar do meu romance "1640". A ilustração da capa é um pormenor d o quadro da recuperação de Baía, por Juan Bautista Maíno (por volta de 1633), que corresponde a uma parte importante do livro e pode ter várias interpretações, porque a figura do almirante espanhol Dom Fradique (que aponta para o retrato de Dom Filipe IV), parece D. João IV, na sua pintura mais conhecida.

1640 é um marco fundamental na História de Portugal, o da Restauração da Independência, após 60 anos de domínio espanhol, quando os portugueses se revoltaram e elegeram um rei natural, D. João IV.
O romance surge na sequência do D. Sebastião e o Vidente, depois do trágico fim da monarquia de Avis e anexação de Portugal pela Espanha. A acção decorre entre 1617 e 1667, período riquíssimo em factos, dramas e personagens, que lutam pela sua libertação e sobrevivência, face a uma crise social, económica e política, imposta por Filipe IV/Olivares, coadjuvados por Diogo Soares e Miguel de Vasconcelos, um triunvirato que só terá paralelo na Troika de 2011.

Quatro guias singulares conduzem o leitor nesta viagem ao passado, através dos seus dramas pessoais e colectivos: o poeta proscrito Brás Garcia Mascarenhas, autor da epopeia Viriato Trágico; a professa Violante do Céu, a Décima Musa da poesia barroca, enclausurada no convento; D. Francisco Manuel de Melo, o maior prosador ibérico do século XVII, prisioneiro na Torre; e o Padre António Vieira, o mais brilhante pregador do seu tempo, a contas com a Inquisição.

O livro é grande (879 páginas com a bibliografia e as introduções), mas não foi possível fazer uma obra mais pequena, depois de tão longa pesquisa, apesar de ter cortado muito do que queria contar, de um período riquíssimo e fascinante da nossa História.
Ressalvo que a letra também é grande, para não tornar a leitura difícil.
Dedico este romance aos meus Leitores, porque sem eles (sem vós todos), esta parte fundamental da minha vida e do meu ser não teria razão de existir. Assim, bem hajam, com a minha imensa gratidão.
O lançamento do livro será no palácio Galveias (Campo Pequeno - Lisboa), no dia 23 de Novembro, às 18.30 h, apresentado por Miguel Real e Hélder Fernando.

08/09/2017

«1640» - o novo romance de Deana Barroqueiro

Caríssimos Amigos/Leitores:

Terminei ontem a última revisão do meu novo romance «1640». O livro foi uma verdadeira odisseia que terminou numa maratona, em termos de trabalho de pesquisa, de escrita, de fazer e desmanchar e voltar a escrever, desde 2004, com interrupções pelo meio, com incursões por uma época que eu conhecia bem, a dos Descobrimentos. Este romance vem na sequência do «D. Sebastião e o Vidente».

Dedico-vos a obra, meus queridos Leitores, porque, sem vós, meus Amigos, o meu mundo teria sido muito estreito e pequenino. Foi graças ao vosso interesse e prazer na minha escrita, que os meus horizontes se alongaram até onde não julguei possível chegar, em viagens inacreditáveis pelos caminhos da História e do Conhecimento. E me deu o incentivo de, apesar dos meus 72 anos, querer ir sempre mais além, não me deixar cair na tentação de fazer coisas mais fáceis, procurar antes fazer cada vez melhor, porque vos devo isso (e também a mim mesma). 

O tempo da narração vai de 1617 a 1667, o antes e o depois da Restauração de Portugal, quando, em 1640, se libertou de sessenta anos de domínio espanhol, um período riquíssimo de sucessos, porém, com uma crise que nos evoca a que sofremos há bem pouco tempo, e a que nem sequer falta uma espécie de troika, com a qual o leitor não deixará de fazer comparações e encontrar semelhanças.

A história do «1640» é contada por quatro personalidades apaixonantes, de grande renome entre os seus contemporâneos – o poeta épico Brás Garcia Mascarenhas, a freira poetisa Soror Violante do Céu, o fidalgo e grande prosador Dom Francisco Manuel de Melo e o pregador António Vieira. Quis iluminá-los, tirando-os do esquecimento, a que os tempos posteriores os condenaram, exceptuando Vieira.

Espero que os meus leitores achem prazer nas histórias que os protagonistas lhes narram, há-as para todos os gostos, mas, uma certeza tenho: ficarão a conhecer muito bem a mentalidade, os costumes e os grandes momentos nacionais e internacionais desse período do Século XVII. 

Também a estrutura do romance pretende evocar os modelos da época, construído em diálogos que introduzem os capítulos narrativos, como na obra Cortes na Aldeia, de Rodrigues Lobo, que os leitores da minha geração decerto conhecerão.

O livro sairá em Novembro. Ainda não vos posso mostrar a capa, que está em construção, mas espero poder fazê-lo, antes de partir de férias (merecidas, juro!) para a Índia. Neste momento sinto-me vazia. Tive de começar com a próxima obra que tenho em embrião, senão fico insuportável para quem me rodeia.

03/08/2017

Incêndios: Colónia de grifos nas Portas de Ródão reduzida a metade

José Lagiosa
A principal colónia de grifos que estava no monumento natural de Portas de Ródão, no concelho de Vila Velha de Ródão, ficou reduzida a menos de metade após o incêndio, disse hoje a Quercus à agência Lusa.
“Infelizmente, foi tudo destruído. A principal colónia [de grifos] ficou reduzida a menos de metade, com 11 ou 12 casais. Há ainda outras colónias mais pequenas que desapareceram. Desapareceram ainda um casal de abutre do Egito, dois de cegonha preta, vários de bufo real e depois todo um conjunto de outros animais que foi afetado”, afirmou Samuel Infante, da Quercus.
Apesar de a fauna ter sido bastante afetada pelo incêndio que lavrou na semana passada em Vila Velha de Ródão, no distrito de Castelo Branco, e que afetou o monumento natural de Portas de Ródão, o ambientalista sublinha que, apesar de grave, há capacidade de mobilidade e a sua regeneração é mais fácil.
Contudo, ao nível da flora, voltou a sublinhar que os zimbrais existentes nas Portas de Ródão, únicos no país, ficaram praticamente destruídos: “Vão
levar 200 anos a recuperar”.
Os ambientalistas estão ainda preocupados com a chegada das primeiras chuvas, uma vez que as cinzas impermeabilizam muito os solos.
“Vamos ver se não vai haver ali enxurradas, se não vai haver deslizamentos”, frisou.
A agência Lusa enviou, por escrito, no dia 27 de julho, um conjunto de questões ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade responsável pela gestão do monumento natural de Portas de Ródão, mas, até ao momento, não obteve qualquer resposta.
*Lusa / Foto: Eduardo Realinho

11/06/2017

Feira do Livro de Lisboa

Vou estar hoje, 11 de Junho, a partir das 17 horas, na Feira do Livro de Lisboa, na Praça Leya, para conversar com os leitores. Venham fazer-me companhia.


01/06/2017

3 de Junho - Feira do Livro de Lisboa

Venham conversar comigo no próximo Sábado, dia 3 de Junho, a partir das16 horas, no espaço LEYA.


Como não tenho livro novo, será mesmo conversa sobre o meu próximo romance que há-de sair em Outubro.


Apareçam, caros amigos, para mim, estar convosco, é o melhor dsta aventura da escrita. Um grande abraço.

Voltarei lá, no dia, no dia 11 de Junho, às 17 horas 



23/04/2017

Saiu no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 12 de Abril de 2017, o meu artigo sobre o romancista Fernando Campos, uma modesta homenagem àquele que eu considero ser um dos mestres do Romance Histórico, que muito me influenciou.


À Memória de Fernando Campos
«Sempre preferi ao conhecimento pessoal dos escritores, cujas obras admiro, a intimidade da sua escrita, a nudez de alma das personagens, a geografia encoberta de mundos criados para regalo do meu imaginário. Como escritora de romance histórico, sem jamais me ter cruzado com Fernando Campos, considero-o uma das influências maiores que me levaram a optar por este género literário que, além da imaginação criativa e do domínio das técnicas narrativas, mais exige do seu autor, em termos de tempo, trabalho de investigação e sacrifício pessoal.

Identifiquei-me de tal modo com a sua concepção de romance, aturada investigação documental, estilo, linguagem e universo ficcional que, por quatro vezes, tive de renunciar a temas e personagens sobre os quais pesquisara longamente e estava já a escrever, por Fernando Campos se ter adiantado a dar vida a D. Francisco Manuel de Melo, Damião de Góis, D. João II e ao falso D. Sebastião. A minha frustração e agastamento esfumavam-se, todavia, na leitura dessas obras que nunca me desiludiam.

«Não quero imitar ninguém, embora saiba que temos sempre em nós algo dos outros. Por isso leio muito pouco de quem poderia imitar». Fiz o mesmo com ele, por isso só mencionarei nesta memória os romances que mais me marcaram.

Apesar da qualidade inquestionável da sua obra e da sua importância como autor de referência, talvez tenha sido o perfil discreto de Fernando Campos, avesso a festivais literários, tertúlias e conferências, a impedi-lo de receber a merecida atenção dos media, que nas últimas décadas, exceptuando o JL, praticamente o ignoraram, privando-o de um maior reconhecimento público.
Bastou uma consulta à internet, para constatar como, fora do breve período do lançamento de um novo livro e, agora, as notícias da sua morte, são escassíssimos os textos sobre o escritor – recolhi cerca de uma dezena, sendo os mais relevantes uma curta entrevista e duas teses de mestrado, uma portuguesa e outra brasileira –, gritante testemunho da pequenez do nosso «universo cultural».

Campos sabia que o esquecimento dos seus maiores faz parte do ADN dos portugueses, um erro que procurou redimir com os seus romances, ao convocar do limbo Damião de Góis, D. Francisco Manuel de Melo, Frei Pantaleão de Aveiro, Gonçalo Mendes da Maia, a Beltraneja e outras personagens femininas, gente injustiçada no seu tempo e ignorada no Portugal dos nossos dias. Quis, assim, «fazer justiça ao esquecimento, (porque) nós esquecemo-nos de nós, somos preguiçosos, não gostamos de nós próprios. Somos uns infelizes e desgraçados, que dizemos mal de nós e não cuidamos das nossas coisas».

Um dos aspectos aliciantes dos seus romances resulta do modo como estabelece as difíceis relações do tempo passado da diegese, com o tempo presente da escrita. Entendia que, se o autor não respeitasse a veracidade dos factos e documentos, os vários níveis de contextualização e o espírito de época (que reflecte a atmosfera humana do tempo passado), acabaria por desacreditar e comprometer o r. histórico, enquanto género literário, ao despojá-lo da sua matriz, daquilo que o distingue dos outros tipos de romance. Campos recorre à ironia e à sátira para se distanciar e desmistificar a História, mas sem nunca cair no grotesco da paródia, tão nociva ao r. histórico como a exaltação cega dos heróis, que essa corrente desconstrutiva repudia.

No âmbito do confronto de ideias e teorias, cabe a discussão das relações da História e da Literatura, em que a verdade histórica, documentada, de uma época passada é confrontada, no tempo presente, pela verdade da ficção que a critica, contraria ou desmente. Campos arroga-se a liberdade de preencher os lapsos, lacunas, rasuras e silêncios da História, criando teses, interpretando e narrando aquilo que a historiografia não pode contar por falta de provas. «Respeito o que está documentado, o resto, invento», disse a propósito da pesquisa de anos para cada romance e do rigor que pautava a sua recriação de factos, ambientes, espaços, costumes, mentalidades e personagens.

Uma concepção de r. histórico mais ligada à História da Literatura do que à Historiografia, construindo em cada obra uma teia de intertextualidades documentais, literárias, filosóficas, religiosas, culturais, que envolvem o leitor e o transportam, em espírito e coração, para essa outra realidade, ficcionada contudo verosímil, onde ele se perde e se reencontra, numa viagem por universos paralelos de Passado/Presente.

  Campos afirmou que não buscava imitar outros escritores, mas tinha consciência de existirem nas suas obras «características aprendidas com os demais». Contudo, se a sua formação clássica foi, nas origens, beber inspiração a Alexandre Herculano, o criador do romance histórico português do Séc. XIX, o seu espírito criativo seguiu-lhe a sugestão para a inovação: O noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do que passa.

A Casa do Pó é exemplar. Encantou-me, e a milhares de leitores, pela qualidade do texto, da linguagem primorosa, dúctil e variada, próxima das suas fontes, mas também pela novidade do tratamento do r. histórico e pela coragem do autor em escolher personagens e temas portugueses, considerados menores pela elite intelectual.

A partir do texto quinhentista Itinerário da Terra Santa, de Frei Pantaleão de Aveiro, o autor concebe um r. histórico, na sua perspectiva mais abrangente, de género híbrido que, à recriação rigorosa de uma época passada, alia a narrativa de viagens na peregrinação a Jerusalém, a decifração de um enigma e a dolorosa busca do conhecimento do eu por Frei Pantaleão. O relato histórico é feito em 1ª pessoa, com monólogos interiores, descrições subjectivas da intimidade da personagem, que o aproximam do leitor e, simultaneamente, num processo de metaficção, criam um outro Itinerário – o de A Casa do Pó – livre da censura da Inquisição e das convenções do romance tradicional.

Um processo retomado com Damião de Góis, na sua narrativa dentro da narrativa, em A Sala das Perguntas, ou ainda, em A Esmeralda Partida, a partir de dois narradores, Garcia de Resende e a Tia Filipa, em que o primeiro apresenta a versão oficial dos factos, com a sua Crónica de D. João II, uma das fontes históricas de Campos, e a segunda mostra a «verdade íntima» dessa história, indizível no tempo das personagens. E, em O Lago Azul, crónica de menor fôlego, num registo mítico ou fantástico, a voz do vento relata uma vertiginosa sucessão de factos históricos, ao modo de um Tratado dos Descobrimentos de António Galvão, os quais deixam de ser o pano de fundo para a história da família do Prior do Crato, assumindo o estatuto de personagem principal. Narradores que dialogam com o leitor, reflectindo e questionando a história e a sua escrita.

O universo ficcional de Campos não é povoado de heróis épicos, sem mácula, mas de personagens sofridas, de carne e osso, sejam reis e rainhas em luta pelo poder (D. João II e D. Leonor em A Esmeralda Partida), um enigmático vagabundo-rei (A Ponte dos Suspiros), princesas pindéricas a viver de aparências, em O Lago Azul, livres-pensadores perseguidos e amordaçados, como Damião de Góis (A Sala das Perguntas) e D. Francisco Manuel de Melo (O Prisioneiro da Torre Velha) ou gente humilde e extraordinária na sua pequenez, vagamundos da vida percorrendo a senda de um sonho, em busca da felicidade num mundo melhor.
Como qualquer de nós.»
Deana Barroqueiro

19/04/2017

Revista Nova Águia

Saiu ontem o Nº 19 da Revista Nova Águia, na qual participei com o artigo

«AFONSO DE ALBUQUERQUE, DAREALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS»

19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
http://novaaguia.blogspot.pt/





06/04/2017

Os segredos do negócio de Fátima

O recinto sagrado moderniza-se para o centenário e deverá atingir o melhor resultado financeiro de sempre com a vinda do Papa Francisco. Como se expandiram os negócios de Fátima e se prepara o futuro? Qual é o poder do santuário? Que polémicas e preconceitos ensombram a terra dos “milagres”? A VISÃO levanta o manto sobre a face materialista da cidade que, este ano, espera recer mais de 8 milhões de visitantes.

A poucos meses do momento alto do ano (da visita do Papa Francisco), as ambições tocam o céu.  O Centenário das Aparições inspirou vários filmes sobre Fátima: duas produções de ficção internacional, uma nacional, dois documentários e uma película de animação 3D com o treinador José Mourinho e atriz Dalila Carmo a darem voz ao Papa e à Nossa Senhora.

“Promover” e “aumentar” são os verbos mais conjugados e abençoados por empresários e pela autarquia de Ourém. “Promover” a procissão das velas como potenciadora de mais noites de alojamento, “aumentar” a taxa de ocupação, a estada e o preço médio, e “promover” Fátima nos destinos emergentes: Ásia (Coreia do Sul e Filipinas) e a América (EUA, Brasil, Colômbia e México). “O esforço de promoção não se deve focar no País”, adverte Alexandre Marto. A ACISO tem quase 700 mil euros para “vender” Fátima ao mundo, com a maior fatia do projeto a ser assegurada por dinheiros públicos, nacionais e europeus.

As sombras do negócio

Por estes dias, abundam as notícias de que a capacidade hoteleira de Fátima está há muito lotada para a visita do Papa. A novidade não seria sequer essa – o destino sempre esgota nos dias 12 e 13 de maio “mas sim os valores praticados. Na verdade, porém, persistem alguns mistérios.

Na Casa das Irmãs Dominicanas, um três estrelas onde a VISÃO se instalou na noite de 15 para 16 de janeiro, os pacotes de três dormidas no fim de semana da deslocação papal, a 190 euros cada noite, já não estavam, de facto, disponíveis, mas avisaram que poderia haver desistências.

Esta segunda, 23, a pesquisa no Booking, sítio de reservas hoteleiras na internet, devolvia ainda três unidades em Fátima com quartos entre os 750 e os 4200 euros por noite. “Há sempre quem se aproveite, mas o que é justo cobrar aqui na época alta é o preço de veraneio no Algarve em agosto. Acima disso, não faz sentido”, assume Alexandre Marto, para quem Fátima “continua a ser o destino turístico mais barato do País”.

Na residencial de Júlio Moreira e Maria Rosa, por cima da loja de artigos religiosos e regionais na avenida que leva o nome do mais importante bispo de Fátima (D. José Alves Correia da Silva), ainda se disponibilizavam quartos para duas pessoas, com WC no corredor, mas a reserva era para um mínimo de três noites, a 200 euros.

De onde vem, pois, a ideia de que Fátima já esgotou? “É a maneira que os habilidosos têm de guardar alguns quartos e, chegada a altura da visita do Papa, pedirem o preço que lhes der na gana”, garante Helena Cardinali, dirigente da delegação de Fátima do Sindicato dos Trabalhadores da Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Centro, que reclama 500 pessoas sindicalizadas na freguesia. “Há hotéis a fazer acordos com apartamentos de particulares, alugam-se varandas para dormir ou ver passar o Papa, entre 1000 e 1200 euros, e, em maio, sabe-se sempre de casos de turistas a dormir no chão ou de suítes onde ficam sete pessoas. Enfim, um autêntico faroeste”, resume.

Como o seu próprio apelido indica, Helena veio da área do espetáculo.  Largou 36 anos de vida circense e empregou-se num hotel gerido por freiras. Primeiro no refeitório, depois noutras tarefas. Está em Fátima há 18 anos, seis deles no sindicalismo. No início, quando se deslocava a plenários e congressos, a plateia franzia as sobrancelhas mal ouvia o apelido Cardinali, enquanto ela subia ao púlpito. Então dizia: “Não venho aqui falar da minha vida no circo, mas do circo da vida que é passado em Fátima.” Ilusionista profissional, Helena conhece os truques da economia clandestina. “Das 5 mil pessoas que, na época alta, trabalham em Fátima, cerca de mil são precárias.”

O ordenado mínimo é regra: uma rápida consulta ao portal do Instituto de Emprego e Formação Profissional confirma-o. Mas também se paga abaixo do contratualizado. Ao sindicato chegam relatos de bradar aos céus: mães impedidas de amamentar em instituições privadas e da Igreja, jovens a ganhar um euro por cada cliente angariado para o restaurante, gente a trabalhar das seis da manhã à meia-noite, idas à casa de banho descontadas no ordenado, ou seja, “Fátima é quase um offshore para os direitos dos trabalhadores”, denunciou o sindicato.

E um dia bateu à porta Armindo Vieira... Homem de feições rudes, rosto sulcado pelo sofrimento, uma doença degenerativa obrigou-o a abandonar a construção civil e a reformar-se por invalidez. Mas ele pretendia trabalhar, “sentir-se útil”. Aos 51 anos, o guarda-noturno do Consolata Hotel não contém as lágrimas. Uma e outra vez. As frases saem a custo, entrecortadas por um choro sufocado.

A história é simples: durante sete anos, Armindo Vieira não gozou férias, não recebeu subsídios de qualquer espécie, prémios de antiguidade, nada. Contas feitas, cerca de 30 mil euros terão ficado para trás. Casado, dois filhos, levava para casa cerca de 520 euros. “Sempre que levantava problemas mostravam-me a porta de saída”, recorda.

A unidade hoteleira de Fátima para a qual Armindo ainda trabalha é gerida por uma sociedade que tem como sócio individual maioritário o Instituto Missionário da Consolata. O presidente da administração é o padre Elísio de Assunção. A instituição religiosa dedica-se “à tarefa evangelizadora da Igreja, vivendo em comunhão fraterna e professando a pobreza, a castidade e a obediência no espírito das bem-aventuranças evangélicas”, lê-se na sua página oficial.

Num intervalo dessa missão, entre julho de 2004 e agosto de 2005, teve uma conta no BPN. Mas uma burla praticada pelo gestor bancário, a pretexto de aplicações financeiras, obrigou o Estado e os contribuintes a devolver aos missionários da Consolata cerca de 4,5 milhões de euros.

Armindo Vieira sempre ouvira dizer que padres e freiras “tinham leis diferentes”. Viu-se desesperado. A mulher com ordenado mínimo, a filha a estudar em Lisboa, ele sem poder esticar o dinheiro. “Sabe o que é chegar ao fim do mês, abrir o porta-moedas e só lá ter mesmo moedas? Até a bica deixei de beber...” Tentaram iludi-lo, sentiu-se pressionado a aceitar uma bagatela para esquecer o passado. Recusou “esmolas”. Humilhado, insultado, diz, de olhos rasos de água, ter sofrido retaliações. Passou-lhe então tudo pela cabeça e quase iniciou uma greve de fome. Encaminharam-no para o sindicato e filiou-se.

Pressionada, a entidade patronal regularizou tudo desde 2015 para cá, exceto a antiguidade. Armindo teve direito a férias, aumento no ordenado. O resto, “que é muito”, continua por liquidar, embora o advogado da sociedade garanta terem sido cumpridas todas as obrigações contratuais. O caso foi também denunciado aos serviços da Autoridade para as Condições de Trabalho em Tomar, mas esta nem à VISÃO respondeu.

Armindo Vieira continua, por estes dias, sob o efeito de antidepressivos. Chora, suplica atenção quando desfia o seu rosário. “Aqui, o trabalhador é carne para canhão. Quem vem de fora pensa que isto é uma terra santa, mas quem trabalha com estas instituições é que sofre. O Deus desta gente é o dinheiro”, atalha, por ele, a sindicalista Helena Cardinali, ressalvando as exceções, para as quais “chegam os dedos de uma mão”.

Católico praticante, Armindo continua a ir à missa. “Mas senti um grande abalo na minha fé”, reconhece. Sentado na igreja, escuta as homilias e revolvem-se as tripas. “O discurso é o mesmo do sindicato, mas os padres não fazem nada, é só treta. Para mim, não há milagres”, desabafa, enxugando as lágrimas sem cessar e tentando recuperar o fôlego. “Isto aqui em Fátima não é só rosas, há muitos espinhos. Se andasse toda a gente descalça era uma tragédia”, desabafa. O caso de Armindo foi o mais grave que passou pelas mãos de Helena Cardinali. Mas ela jamais esquecerá a resposta ouvida durante um encontro na reitoria, com os responsáveis do santuário, quando tentava solucionar o problema de outra trabalhadora: “Isto aqui é zona branca. Não se aplicam leis.”

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05/03/2017

Sapo envia mensagens com palavrões

Com que direito é que os serviços  SAPO enviam mensagens com palavrões para o meu telemóvel?

Recebi esta manhã uma mensagem em que me transcreviam uma frase de um dirigente de um clube de futebol, que, depois de vencer as eleições, expressava a sua satisfação com palavrões e insultos. Ora eu,  que não me interesso por futebol e ainda gosto menos de palavrões, que não cultivo relações com gente grosseira, sinto-me profundamente indignada com o envio destas mensagens, que considero um abuso e uma ofensa da parte de quem as manda. Uma empresa de comunicação não deve ter  critérios de valor e de civismo?

E os ditos serviços impedem que lhe demos resposta, exigindo outro critério de escolha, apenas posso bloquear a mensagem... que já recebi, o que não me impedirá de receber outras do mesmo jaez.

Como é que se pode impedir que a SAPO ou outras empresas enviem este lixo? Prefiro não receber notícias de todo.

Parece que a civilidade e a educação deixaram de ser valores em Portugal, em particular, em serviços de comunicação que se deviam pautar pela qualidade e bom gosto.

 Deana Barroqueiro

25/02/2017

A afronta de nos tomarem por parvos

Em O Público, 25 de Fevereiro de 2017
A mentira, seja sob forma directa ou rebuscada, em matérias públicas é inaceitável. Sobre isso não vale a pena dizer mais nada. Os governantes não tem obrigação de dizer a verdade — sim, há razões de Estado que podem implicar a mentira — mas nenhuma cobre os casos recentes. Mentir pode ser legítimo, por exemplo, para esconder, até ao momento do seu anúncio, uma desvalorização da moeda, ou quando está em curso uma qualquer operação com riscos para as pessoas ou para o Estado, sensível à revelação irresponsável da verdade. São excepções, mesmo muito excepcionais, e precisam de ser muito explicadas a posteriori, quando finalmente se pode saber a verdade sem custos. Há matérias delicadas cobertas pelo segredo do Estado que justificam que um governante, quando interrogado directamente, tenha que mentir. Não deixa de ser mentira no momento em que é proferida, mas trata-se de uma mentira instrumental, destinada a proteger um bem maior. É um estatuto que pode ser alvo de abuso, e é-o muitas vezes, mas os limites éticos do dilema verdade/mentira não se aplicam neste tipo de “sombras”.
Mas não é, de todo, o caso da história dos SMS, nem do misterioso caso das estatísticas dos offshores, que nada justifica serem cobertos por qualquer “manto diáfano” de mentiras, meias-mentiras, sugestão de mentiras e omissões da verdade. A cabeça de um ministro ou a honra de há muito perdida de um ex-governo estão em causa? Não mentissem, nem nos enganassem. Mas, dito isto, também é preciso ter muito cuidado, para que a mediatização medíocre das redes sociais e de alguma imprensa não confunda questões sérias com outras de menor gravidade. E o caso Centeno e os milhões dos offshores não são comparáveis em importância, sendo que toda a gente já percebeu o que se passou no primeiro caso, e ainda muito pouco se percebeu do segundo.
O que sabemos sobre o dinheiro saído para os offshores durante a governação PSD-CDS? Sabemos que foi muito, muitos milhares de milhões de euros, de que os dez mil milhões de que se fala agora são apenas uma parte. Sabemos que uma parte saiu legalmente e também sabemos, por vários processos em curso, que outra parte saiu ilegalmente. Vamos deixar para já a parte ilegal, de dinheiro de pagamento de subornos, de corrupção, de negócios à margem da lei, e vamos apenas falar do que saiu legalmente, e nessa parte podemos apenas ficar-nos por esta magra fatia de dez milhares de milhões que não foram devidamente incluídos nas estatísticas e sobre os quais não sabemos ainda até que ponto os procedimentos de verificação habituais pelo fisco se realizaram, ou seja, se são resultado de actividades legais sem mácula fiscal. Por que é que isso aconteceu e o que é que isso significa?
Vamos seguir a mais benévola das hipóteses, de que tudo estava legal, e que apenas não se fez o registo estatístico. Comecemos por um ponto prévio que é verdade para todas as histórias que envolvem offshores. Já ouvi dezenas de explicações esforçadas para justificar por que razão as pessoas e as empresas colocam o dinheiro nos offshores, desde a fuga ao conhecimento do património nos divórcios milionários até à protecção de património face a credores, aos pagamentos a jogadores de futebol, passando pelas necessidades de pagamentos no comércio internacional. Tudo é coberto por dois mantos: um é de que se trata de processos legais, por isso incontestáveis pela crítica; o outro é que, havendo paraísos fiscais em qualquer outra parte exótica do mundo, não é possível acabar com eles em qualquer outro sítio. Mas isso não implica que se considere normal o uso de offshores e, numa sociedade em que os governantes se indignam com os direitos “adquiridos” dos mais fracos, tenham uma soberana indiferença face a práticas dos mais ricos que roçam a ilegalidade e que prejudicam, e não pouco, a riqueza do país. E quando isto se passa em tempos em que os governantes fazem um discurso de austeridade contra os que não podem fugir aos impostos e aos cortes, e são indiferentes às práticas dos mais ricos de tirar dinheiro, riqueza, do seu país, revolta. Este é o pano de fundo em que podemos discutir esta questão, e aplica-se como uma luva ao Governo PSD-CDS, onde o ataque aos mais fracos foi a regra, e a complacência com os mais poderosos foi também a regra.
No fundo, no fundo, o núcleo duro de ideias sobre a sociedade e a economia do Governo Passos-Portas foi que a recuperação do país passava pelo aumento da riqueza dos mais ricos, que traria por arrasto uma melhoria das condições de vida dos mais pobres. Era em cima que deveria haver “liberdade”, enquanto em baixo deveria haver “ajustamento” e cortes, até porque os de baixo já estavam mais acima do que deviam e tinham que ser postos na ordem e devolvidos “às suas posses habituais”. Da legislação laboral ao “ajustamento”, este era o programa. Dêem as voltas que derem, esta era a concepção e ainda o é, como se vê na questão do salário mínimo. Qualquer ideia, aliás na base do ideário social-democrata, de que o Estado deveria garantir um equilíbrio social, era e é tida como uma violação das regras da “economia”, com os de baixo a quererem mais do que a “economia” lhes pode dar. Em cima, não há essas restrições e, por isso, a indiferença face ao que acontece com os offshores é completamente natural.
Este é, insisto, o pano de fundo da interpretação mais benévola da falta de dados sobre os offshores: que saíssem dezenas de milhares de euros do país, não interessava aos governantes porque não estava no centro das suas preocupações, como estava cortar reformas e salários e levar o fisco até aos cabeleireiros e aos biscates. Tratava-se de uma prática normal da “economia”. Mas se esta é a interpretação mais benévola, não é a mais sensata, como se vê pelas explicações atabalhoadas que governantes do tempo do PSD-CDS têm vindo a dar sobre o que aconteceu. E aqui é que, como no caso de Centeno, entendo que é uma afronta para os portugueses tomá-los por parvos, só que neste caso num assunto muito mais grave.

09/02/2017

Diálogos Interculturais Portugal-Chin: Congresso Internacional

Fui convidada, pela Universidade de Aveiro,  para participar no  Congresso Internacional / Diálogos Interculturais Portugal-China, que terá lugar nos dias 15, 16 e 17 de Fevereiro 

A minha palestra será no dia
16 de Fevereiro 15h00 – 16h30
MESA 9 (sala 40.3.17)
Moderador: António Manuel Ferreira
DEANA BARROQUEIRO (escritora e investigadora): Peregrinações de Fernão Mendes Pinto e outros portugueses na China, o mítico Reino da Perfeição 
MARIA HELENA DO CARMO (escritora e docente de História na Academia Cultural Sénior de Lagoa, Algarve): O Romance Histórico na Relação Luso-chinesa
PAULO JOSÉ MIRANDA (escritor): O problema da identidade humana em Macau ou a experiência de uma existência quântica



O Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro (IC-UA), em parceria com vários Departamentos da Universidade de Aveiro (DLC, DeCA, DCSPT, DEGEIT), vai organizar, nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro de 2017, o Congresso Internacional “Diálogos Interculturais Portugal-China”

Programa 

15 de fevereiro – DeCA (edifício 40 da UA) 

8h15 – Receção dos participantes e entrega de documentação (DeCA, Edifício 40 da UA)
8h55 – Música da dança do leão, por alunos do DeCA
9h00 – Sessão de abertura
9h30 – Diálogos musicais entre a guitarra e a pipa

09h45 - 10h45 – Conferências de Abertura (Auditório do DeCA - CCCI)
Moderadora: Maria Fernanda Brasete
JOSÉ CARLOS SEABRA PEREIRA (Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra): Travessias literárias: da acomodação multicultural à experiência intercultural 
FERNANDA ILHÉU (ChinaLogus / ISEG, Universidade de Lisboa): A Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI e Perspetivas de Cooperação de Portugal

10h45 – Intervalo

11h15 – 12h45 – Sessões simultâneas A
MESA 1 (Auditório do DeCA – CCCI)
Moderador: António Lázaro
PAULO SILVA PEREIRA (Universidade de Coimbra – Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas): Os Jesuítas, a Letra e o Evangelho. Missionação, materialidades da escrita e acomodação cultural na China do século XVII
ISABEL MURTA PINA (Centro Científico e Cultural de Macau): Escrever sobre a China no século XVII: Álvaro Semedo e a obra Imperio de la China
RUI D’ÁVILA LOURIDO (Observatório da China): Preservar o passado, construir o futuro: Narrativas Históricas em Português sobre a China

MESA 2 (sala 40.3.09)
Moderador: António Graça de Abreu
PAULO SÁ MACHADO (Investigador e ensaísta): Incursões no mundo da cultura chinesa
KEVIN CARREIRA SOARES (PIUDHist - ICS-UL): A criação da Diocese de Macau no contexto da política régia da Coroa Portuguesa para a Ásia do Sueste: projeções e contextos (1576-1623)
ODETE F. SAMPAIO PEREIRA (Mestre em estudos chineses, Universidade de Aveiro) & ÁLVARO ROSA (ISCTE/Instituto Universitário de Lisboa): A influência da filosofia tradicional chinesa no espaço construído

MESA 3 (sala 40.3.16)
Moderador: António Valente
RUI MANUEL MARTINS DE SOUSA TORRES (Instituto do Oriente, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa): Identidade e Cinema no tempo da cidade ecrã
IGOR RAMOS & HELENA BARBOSA (DeCA, Universidade de Aveiro): Os cartazes dos filmes asiáticos de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata: um estudo comparativo
MARIA DO CÉU GUERRA (Mestre em Estudos Chineses) & ÁLVARO ROSA (ISCTE/Instituto Universitário de Lisboa): A Adaptação das marcas ocidentais na transmissão da mensagem publicitária na China
14h30 – 16h30 – Sessões simultâneas B


MESA 4 (Auditório do DeCA – CCCI)
Moderadora: Ana Maria Ramalheira
ANTÓNIO MANUEL FERREIRA (CLLC/DLC, Universidade de Aveiro): Encontrar o norte no oriente: alguma poesia de A. M. Couto Viana 
MARIA DO CARMO MENDES (ILCH/CEHUM, Universidade do Minho): Cores e fragrâncias do Oriente: as Histórias de Macau de Altino do Tojal 
PAULO JORGE TEIXEIRA CAVACO & ROSA MARIA SEQUEIRA (CEMRI, Universidade Aberta): O Conto dos Chineses de Cardoso Pires: imigrantes chineses na Literatura Portuguesa
EDUARDO RIBEIRO (jurista, investigador): Camões e Macau

 MESA 5 (sala 40.3.09)
Moderadora: Zélia Breda
SUSANA BARRETO (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto): Fading Legacy of the Macanese: Towards a Collective Visual Identity
RUI PEREIRA (Direção-Geral das Atividades Económicas, Ministério da Economia): A atual realidade das relações económicas luso-chinesas e perspetivas futuras
SÉRGIO MARTINS ALVES (Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa): PortugalChina: Oportunidades e Desafios
LUÍS FILIPE TOMÁS BARBEIRO (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria): Encontros interculturais: Fraturas e continuidades nos diálogos entre estudantes chineses e portugueses 

16h30 – Intervalo

 17h00-18h30 – Museu de Aveiro (Santa Joana)
 17h00 – Champanhe de honra

17h00-18h30 – Sessões plenárias
Moderadora: Shao Ling
17h30 – MÁRIO JORGE PEIXOTO TEIXEIRA (DeCA, Universidade de Aveiro): A postura corporal do Taichi aplicada à performance instrumental
18h00 – ÉNIO SOUZA (Instituto de Etnomusicologia - Música e Dança/FCSH/UNL; Centro Científico e Cultural de Macau, Lisboa): Música chinesa e instrumentos musicais em Portugal

18h45 – Inauguração da Exposição de instrumentos musicais chineses
 
 16 de fevereiro – DeCA (edifício 40 da UA)

9h15 - 10h15 – Sessão plenária (Auditório DeCA – CCCI) Moderadora: Maria Teresa Cid
9h15 – ZHU YUAN (School of Foreign Languages, Renmin University of China): Classical Translation and Hermeneutic Dimensions 
9h45 – ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU (DCSPT, Universidade de Aveiro): 1977 a 2017, quatro décadas de atribulações de um Português em viagens por toda, toda a China


10h15-10h45 – Intervalo 
Sessão de pósteres
Exposição O encontro das línguas. Tradutores e traduções de escritores portugueses para chinês


10h45 – 12h45 – Sessões simultâneas C

MESA 6 (Auditório DeCA – CCCI)
Moderadora: Maria Teresa Roberto
ANA CRISTINA ALVES (Universidade de Lisboa): Tendências na tradução sinológica portuguesa
WEI MING (Instituto Confúcio da Universidade de Coimbra): A criação do conceito intercultural na aula de tradução português-chinês
VANESSA SÉRGIO (Université Paris Ouest Nanterre La Défense, França): Ou-Mun KeiLeok (1950) ou Breve Monografia de Macau (2009): uma obra original e única, traduzida por Luís Gonzaga Gomes e Jin Guo Ping

MESA 7 (sala 40.3.09)
Moderador: Carlos Rodrigues
VÍTOR RODRIGUES (CETRAD, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), ZÉLIA BREDA (DEGEIT, Universidade de Aveiro) & MAFALDA VALÉRIO (Consultora de negócios, no sector do turismo): Estarão os destinos preparados para o acordar do dragão? Adaptação de serviços e produtos turísticos ao mercado chinês
ANA MARÍLIA HENRIQUES (DCSPT, Universidade de Aveiro) & ZÉLIA BREDA (DEGEIT, Universidade de Aveiro): Viajantes chineses a nível internacional: A ascensão do turista independente
JIAWEI XING (doutoranda, DCSPT, Universidade de Aveiro) & ZÉLIA BREDA (DEGEIT, Universidade de Aveiro): Políticas públicas de turismo na República Popular da China: Uma revisão da sua evolução ao nível do turismo emissor

MESA 8 (sala 40.3.16) Moderador: Fernando Martinho
CARLOS MORAIS & ROSA LÍDIA COIMBRA (DLC/CLLC, Universidade de Aveiro): Aprendendo português em Portugal: perfil dos alunos chineses do DLC-UA
CATARINA XU YIXING (Universidade de Estudos Internacionais de Xangai): A Leitura e o Ensino de PLE 
HAN YING (Universidade de Línguas Estrangeiras de Dalian): A Importância da Introdução de Conteúdos Culturais e Comunicativos para o Ensino-Aprendizagem de PLE na China
MICAELA RAMON (ILCH/CEHUM, Universidade do Minho): Diálogo intercultural Portugal-China. Alguns desafios colocados no âmbito do ensino de PLE a sinofalantes

14h00-15h00 – Sessão plenária (sala 40.3.17) Moderadora: Fernanda Ilhéu
14h00 – ANTÓNIO DOS SANTOS QUEIRÓS (Centro de Filosofia. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa / Câmara de Cooperação e Desenvolvimento PortugalChina): O socialismo chinês para o século XXI: O sonho chinês. A china formosa e a nova Rota da Seda para a Paz.
14h30 – YAO JING MING (Universidade de Macau): Entre o possível e o impossível: a tradução de poesia de português para chinês


15h00 – 16h30 – Sessões simultâneas D

MESA 9 (sala 40.3.17) Moderador: António Manuel Ferreira
DEANA BARROQUEIRO (escritora e investigadora): Peregrinações de Fernão Mendes Pinto e outros portugueses na China, o mítico Reino da Perfeição 
MARIA HELENA DO CARMO (escritora e docente de História na Academia Cultural Sénior de Lagoa, Algarve): O Romance Histórico na Relação Luso-chinesa
PAULO JOSÉ MIRANDA (escritor): O problema da identidade humana em Macau ou a experiência de uma existência quântica


MESA 10 (sala 40.3.09) Moderadora: Maria Luís Pinto
JORGE TAVARES DA SIVA (DCSPT, Universidade de Aveiro): As vicissitudes do modelo meritocrático sociopolítico chinês
CARLA ISABEL FERNANDES (Instituto Português de Relações Internacionais – IPRI-UNL): Desafios e estratégias da segurança energética Chinesa
ANABELA RODRIGUES SANTIAGO (Universidade de Aveiro): A China e a sua nova normalidade à luz do 13.º Plano Quinquenal
Y PING CHOW (Liga dos Chineses em Portugal): Os chineses em Portugal

MESA 11 (sala 40.3.16)
Moderadores: Francisco Providência e Mai Ran
RUI COSTA (DECA, Universidade de Aveiro) & EDUARDO NORONHA (DeCA, Universidade de Aveiro): Design da China para produção Portuguesa
BINGMING SUN (Departamento de Arte e Design, Universidade de Yanshan): Alma da “podridão” – a linguagem artística e o conceito da arte da madeira podre 
LIHUI GUO & MO GUO (doutoranda, DLC-UA): A beleza da caligrafia chinesa

16h30 - 16h50 – Intervalo
Exposição Design da China para produção Portuguesa
16h50-18h20 – Workshop de arte chinesa (átrio do edifício 40)
Moderadora: Mai Ran
Workshop de arte chinesa (pintura e caligrafia) – “Viajando pela cultura chinesa” por BINGMING SUN (Departamento de Arte e Design, Universidade de Yanshan) & LIHUI GUO
18h30 – Espetáculo de teatro
ZHENG HE – quando os navios-dragão chegaram, pelo Karin Schäfer Figuren Theater (Áustria)

20h30 – Jantar do Congresso
 
17 de fevereiro – DeCA (edifício 40 da UA)


9h00 – 10h30 – Mesa redonda: Diálogos Musicais entre Portugal e a China Moderadora: Helena Santana
ADRIANO JORDÃO (pianista, fundador do Festival Internacional de Música de Macau)
ABEL MOURA (DeCA, Universidade de Aveiro)
ÉNIO SOUZA (Instituto de Etnomusicologia - Música e Dança/FCSH/UNL; Centro
Científico e Cultural de Macau, Lisboa)
ISABEL ALCOBIA (DeCA, Universidade de Aveiro) 
MÁRIO JORGE PEIXOTO TEIXEIRA (DeCA, Universidade de Aveiro):
SHAO XIAO LING (DeCA, Universidade de Aveiro)

10h30 – Anúncio dos premiados no Concurso “Lendas da China – Prémio Instituto Confúcio Artes 2016”
10h45-11h15 – Intervalo Exposição dos trabalhos premiados no Concurso “Lendas da China – Prémio Instituto Confúcio Artes 2016”

11h15-12h45 – Sessões simultâneas E 

MESA 12 (Auditório DeCA – CCCI) Moderadora: Rosário Pestana
ABEL ALEXANDRE MARQUES DE MOURA (DeCA, Universidade de Aveiro): Introdução e implementação da Música Tradicional Portuguesa em Macau
DAI DINGCHENG (Macao Polytechnic Institute) & SHAO XIAO LING (DeCA, Universidade de Aveiro): Introduction of the Catholic music culture in Macao: musical existence in Colégio de São Paulo (1594-1762)
ISABEL ALCOBIA (DeCA, Universidade de Aveiro) & NAN RI (Universidade de Línguas Estrangeiras de Dalian): A problemática da vocalidade na canção Chinesa enquanto cantor Europeu


MESA 13 (sala 40.3.09) Moderador: Nuno Rosmaninho
WANG SUOYING (DLC, Universidade de Aveiro), Eufemismo na tradução 
MO GUO (doutoranda, DLC-UA): A porcelana entre dois mundos. Reinterpretações portuguesas da paisagem chinesa shanshui
JIAQI ZHU (doutoranda, DCSPT, Universidade de Aveiro): O café e o chá nas culturas da China e de Portugal
JOÃO MARCELO MESQUITA MARTINS (Universidade do Minho): O Papel Criador da Deusa Nüwa: O Mito da Criação da Humanidade como Diálogo Intercultural entre China e Ocidente

14h30 – Sessão plenária (Auditório do DeCA, CCCI)
Moderadora: Rosa Lídia Coimbra
14h30 – ELISABETTA COLLA (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa): Beijing: from city planning to acceptance 
15h00 – RUI LOUREIRO (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes & Centro de História d'Aquém e d'Além-Mar, FCSH-UNL / UAç): Impressões da China nos Colóquios dos simples de Garcia de Orta (Goa, 1563)


15h30 – Intervalo

16h00 – Sessão de encerramento (Auditório do DeCA, CCCI)
Moderador: Carlos Morais
LUÍS FILIPE BARRETO (CCCM e Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa): Portugal-China: a Distância que Aproxima
16h45 – Sarau Musical
 
Atividades paralelas Workshops de arte chinesa (pintura e caligrafia) – “Viajando pela cultura chinesa” por BINGMING SUN (Departamento de Arte e Design, Universidade de Yanshan) & LIHUI GUO
Dia 13 | 10h00-16h00: Escolas Secundárias Soares Basto (Oliveira de azeméis) e Oliveira Júnior (S. João da Madeira)
Dia 13 | 18h00-19h00: Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro.
Dia 14 | 12h00-13h30: Escola Secundária D. Duarte (Coimbra)
Dia 14 | 18h00-19h00: Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro no IC (formação dos professores Chinês) 
Dia 15 | 11h50-13h15: Escola Secundária José Estêvão (Aveiro) 
Workshops de música e de instrumentos chineses, por ÉNIO SOUZA (Instituto de Etnomusicologia - Música e Dança/FCSH/UNL; Centro Científico e Cultural de Macau, Lisboa)
Museu de Aveiro (Santa Joana) | 21-23 de fevereiro de 2017: 
14 oficinas para alunos do ensino básico e secundário da região, Universidade Sénior (academia de saberes) e Sociedade Musical Santa Cecília 
Espetáculos de teatro – ZHENG HE – quando os navios-dragão chegaram, pelo Karin Schäfer Figuren Theater (Áustria)
Dia 15 | 14h30: Casa da Criatividade (S. João da Madeira), para alunos do ensino básico de S. João da Madeira
Dia 17 | 14h30: Multimeios de Espinho, para alunos do ensino básico de Espinho