23/03/2020

Camões e a Grande Peste de 1569

O flagelo da Peste Negra era uma constante ameaça dos povos, durante a Idade Média e épocas seguintes. Em 1569, a Grande Peste matou 60.000 pessoas só em Lisboa. Luís de Camões regressou da Índia, nesse ano, um episódio que recrio no meu romance "D. Sebastião e o Vidente", de que transcrevo parte do Cap. 47, para quem tiver paciência de me ler possa ver as semelhanças: 

Cap. 47

      Quando a nau Santafé surgiu no porto de Cascais, tanto os tripulantes, como os passageiros sentiram o medo nos gestos das gentes que se azafamavam nos cais ou faziam serviço nos botes, que iam e vinham entre os molhes e os navios fundeados ao largo, a transportar mercadorias e viajantes. 
     – Que se passa? – perguntou Luís Vaz aos amigos que encontrou na coberta, debruçados na amurada a falar com os tripulantes de uma barcaça. Trazia ainda o rosto marcado pela dor da inesperada morte do poeta Heitor da Silveira, seu grande amigo e companheiro de viagem, cujo coração não resistira à emoção de avistar a pátria. 
     – É a Peste Grande, pesar do Diabo! – respondeu-lhe Diogo de Couto, o cronista, com uma ruga de profunda preocupação a vincar-lhe a testa. – Matou mais de metade da população de Lisboa! Duarte de Abreu acrescentou: – E dizem-nos aqueles dois que é um perigo entrarmos na cidade, pois a pestilência ainda causa mortes. Na zina do furor, ceifou por dia quinhentas a seiscentas pessoas! Deixou de haver sítio e gente para enterrar os mortos. 
     – Mau pecado! Assim, tão cedo não poderei imprimir os meus Lusíadas! – exclamou, com profunda mágoa, fazendo sorrir os companheiros apesar da gravidade da catástrofe. 

*** 
     Afligidos pelo seu sofrimento, haviam-lhe pagado as dívidas, a passagem e o fato para regressar a Lisboa, onde os esperavam a desolação e a morte. Por isso, não era de admirar que o seu primeiro pensamento fosse para Os Lusíadas, único tesouro, salvo a duras penas, durante um naufrágio em que perdera todos os seus bens, incluindo a formosa escrava que lhe adoçava o desterro. O desastre valera-lhe uma acusação de fraude, com o dinheiro dos órfãos, pela qual teria de responder na justiça.
       – Terás de te quedar em Lisboa, apesar da peste, enquanto esperas pelo julgamento – lembrou Couto, preocupado. – Trataremos de mover influências para que se faça depressa justiça e te vejas absolvido e livre de falsas acusações. 
     Uma sombra perpassou pelo rosto do poeta, desfigurado pela perda do olho em Ceuta. 
     – A troco de descansos que esperava, / das capelas de louro que me honrassem, / trabalhos nunca usados me inventaram / com que em tão duro estado me deitaram! 
     Os amigos concordaram em silêncio, admirando a arte com que aquele génio, tão humilhado e desprezado, esculpia os versos atormentados da sua dor. Diogo de Couto despediu-se e partiu para Almeirim, a fim de solicitar a el-rei licença para a nau poder entrar no Tejo e nos portos de Lisboa, encerrados por causa da peste. 
     Recebida a autorização real, o navio lançou âncora ao largo do Cais da Ribeira e os passageiros embarcaram nos escaleres que os levaram para terra. Sem o buliçoso fervilhar dos matalotes, estivadores e mariolas, Luís Vaz teve dificuldade em reconhecer, nos desolados molhes, o porto da capital portuguesa, centro de um riquíssimo comércio e destino final de inúmeros navios da Europa, da Carreira da Índia ou das Terras de Vera Cruz, comummente designadas por Brasil. 
     – Para onde ides agora? – perguntou-lhe Luís da Veiga. – Tendes pousada? 
     – Irei para casa de minha mãe, Ana de Sá. 
     – Acautelai-vos, Luís – falou António Serrão, sabendo que nada fazia recuar o poeta, nem mesmo o medo da morte. – Tratai de vos resguardar dos maus ares desta peste. Lembrai-vos d’Os Lusíadas! 
     Seguido pelo fiel escravo jau, que lhe transportava o modesto fato, Camões dirigiu-se para a sua antiga casa, na Calçada de Santana, atravessando a zona da Ribeira, outrora enxameada de gente – com os seus mercados, as tavernas e hospedarias, as tendas de malcozinhado, onde comera tantas vezes antes da sua partida para a Índia –, agora deserta e sem vida. Nas estreitas ruas e vielas, os prédios silenciosos, sem vizinhas às janelas nem roupas penduradas nas cordas, pareciam ameaçar os raros viandantes com as terríficas cruzes brancas pintadas nas portas, indiciadoras da passagem mortífera do Quarto Cavaleiro do Apocalipse. 
     Um físico, precedido de dois ajudantes empunhando archotes acesos, meteu-se num beco para dar passagem a Camões e poupá-lo ao perigo de contágio, pois a peste manifestava-se agora por outros sintomas mais perigosos do que os bubões, atacando os pulmões e o sangue, propagando-se com a velocidade de um raio. 
     O médico segurava numa das mãos a esponja embebida em vinagre, destinada a purificar o ar que respirava, usava a máscara de bico comprido, cheio de substâncias aromáticas, os vidros redondos sobre os olhos, para evitar a transmissão do mal pelo olhar dos enfermos, a veste violeta e o bastão vermelho de S. Roque que o mostravam à população como Mestre da Peste. O poeta agradeceu e cortejou-o à passagem, sentindo admiração pelo físico que, ao contrário de muitos outros, não fugira da cidade, nem abandonara os doentes à sua sorte. 
     – Luís Vaz, que fazes aqui, nesta terra desventurada? 
     O homem magro, de roupas sujas e desalinhadas, saíra de uma das casas e parara diante dele, olhando-o com espanto. Tinha o rosto macilento, parecendo um morto-vivo, e Camões não o reconheceu. 
     – Sou o Gonçalo Fernandes, o mestre de escrita de Trancoso. Não me reconheces? – Não havia alegria nem calor na sua voz. – Também não é para admirar, com tudo o que passei... 
     Gonçalo Fernandes de Trancoso, o homem que gostava de escrever histórias de proveito e exemplo! Nem parecia o mesmo e o poeta mentiu: 
     – Como não havia de te conhecer, homem?! Mas acabo de chegar da Índia e ainda não me recompus do abalo de ver Lisboa em estado de sítio. Graças a Deus que te encontro são e vivo, meu amigo! 
     – Preferia mil vezes a morte ao castigo que Deus me deu! – revoltou-se, e as faces afoguearam-se de vermelho, que as lágrimas grossas depressa descoloriram. – A peste roubou-me em poucos dias uma filha e um filho moços, um neto e, por último, para meu maior desespero, a minha adorada mulher. Vai-te daqui, homem, enquanto é tempo. Eu fico, que ando a buscar a morte. 
     Cheio de mágoa, ficou a vê-lo afastar-se, correndo, com o olhar perdido de um louco. Os sinos dobravam em sinal de luto e só os condenados, com vestes de bocaxim, a arrastar as suas grilhetas, se viam nas ruas transportando em carroças os empestados para o hospital e casas de saúde ou os cadáveres para as enormes valas comuns, onde se chegavam a enterrar sessenta corpos na mesma cova. 
     Tal como acontecera em outros anos de peste negra, estes criminosos, a quem os reis ofereciam o perdão em troca de tão perigoso serviço, não deixariam de se aproveitar da função para assassinar e roubar os moribundos que achassem sozinhos dentro das suas casas. O poeta tapou a boca e o nariz com um lenço, para evitar o cheiro a pestilência e morte, que lhe revolvia as entranhas, entontecendo-o de mareio. 

Deana Barroqueiro – D. Sebastião e o Vidente


18/03/2020

Receita de Cozinha para Quarentena 4

QUARENTENA COM DOÇURA 
Permite fazer uma parte de véspera e é delicioso! 

Creme fofo de Ananás 

Ingredientes: 
Para o creme: Leite 5 dl; açúcar 200 g; ovos: 3 gemas separadas das 3 claras; farinha Maizena para engrossar 1 c. de sopa; ananás ou abacaxi às rodelas, fresco (ou de lata, mas o fresco fica melhor), escorrido e em pedacinhos; raspa de 1 limão. 
Para o Chantilly: natas 125 g; açúcar em pó (Icing Suggar) 100 g (menos é melhor para a saúde); baunilha umas gotas. 

Preparação do Chantilly: Bata as natas com o açúcar (que deve ir juntando aos poucos) até engrossar e “fazer estrada”, ou seja, riscos no creme, mas com cuidado para não bater demasiado e fazer manteiga). No fim, junte umas gotas de baunilha e ponha no frigorífico. 

Preparação do creme: Pode fazê-lo de véspera e deixar no frigorífico. Num tacho médio, leve a lume brando a mistura do leite com o açúcar, as gemas, a farinha Maizena; vá mexendo sempre até engrossar. Deve ferver suavemente e apenas 2 ou 3 minutos. Tire do fogo e junte raspa de um limão e deixe arrefecer um pouco; deite o creme na taça de vidro onde será servido e meta no frigorífico para ficar bem frio. 
Cerca de meia hora antes de servir, misture no creme, com mil cuidados, as claras batidas em castelo bem firme, espalhando por cima os pedaços do ananás escorridos. Cubra este preparado com as natas batidas com o açúcar (Chantilly) 

Bom proveito!

A Criação do Mundo e os Portugueses

Das "Crónicas de Monções e de Marés:  A Criação do Mundo e os Portugueses  
A "professora-sibila" tem uma visão da criação do Mundo e profetiza o papel dos portugueses e dos Descobrimentos nesse Universo.

O FOGO E A ÁGUA

No início…
…as Moiras, ao fiarem desleixadas o destino da Sibila, emaranharam de nós cegos o fio da sua vida. Para sempre preso ao Tudo e ao Nada, o ser da pitonisa nunca encontrou paz ou equilíbrio, mas viveu cada momento com nervos e linfa de mil vidas. 

À medida que o Tempo ia mordendo de sombra os olhos da Sibila, mais clara e profunda se tornava a visão da sua mente. Via agora para além da realidade próxima e, através da opacidade tranquilizadora dos corpos, penetrara nas fráguas e abismos da alma humana. 

A profetiza abrira a caixa de Pandora e chorava a perda da inocência. De si já nada tinha. Como a esponja do mar, absorvera gotas de memória, espumas de sentir, sal de risos e sargaços de agonia. Quando falava, as palavras já não eram as suas, eram vozes roubadas às divindades mortas e a pitonisa sentia como Cassandra o vazio dos seus oragos. 

Amara o mundo e quisera partilhar com ele o dom da sua visão, mas aos olhos dos outros apenas trazia o estigma da loucura que provocava o riso ou a piedade. Ferida, buscara a solidão do mundo das sombras e, da sua descida aos Infernos, a Sibila renascera como um ser crepuscular, cujas visões pressagiavam Dor e Desastre, pois a luz pura de Apolo cedera lugar à chama negra de Hades . 

O Cabo, batido por ventos e marés, ferido no guincho das gaivotas, era o santuário onde, a cada Poente, a Pitonisa recebia o dom pavoroso da Visão. Quando o sol baixava à linha do horizonte, a Vidente fitava sem pestanejar a bola de fogo cada vez mais próxima, até os olhos se lhe incendiarem de dor. 

Cerradas as pálpebras, a negra película da retina explodia num Caos de cores: os ocres, verdes e castanhos de Terra; os vermelhos, laranjas e amarelos de Fogo; os azuis e cinzas de Água; e a insustentável transparência do Ar fundiam-se, para fluir ou refluir em amálgamas de tons e de matérias. A Fénix renascia das cinzas e o Universo tomava forma aos olhos da Sibila. 

Primeiro separavam-se as duas faces das Trevas do Mundo _ Nyx, a Noite e o irmão Érebo, o escuro Mundo dos Infernos. A Pitonisa via a Noite tornar-se côncava, o óvulo primordial fecundado pela força espiritual de Eros, o Amor, para criar Urano, o Céu infinito, e Geia , a Terra geradora de vida. Depois Urano cobriu Geia para nela gerar os seis pares de Titãs, as forças elementares e naturais do Universo. 

O Titã Oceano, a água primordial que rodeia o Mundo, tomou assento a Oriente, no país vermelho das ilhas da Tarde, para lá das Colunas de Hércules, no Mar Roxo ou além do Golfo Pérsico. Uniu-se a Tétis, a caprichosa energia feminina dos mares do Ocidente, vivendo ambos uma relação de tumultos e reconciliações, salvaguardando a ordem do mundo e preparando as rotas dos mares para futuros navegadores. 

A Sibila, no seu transe, viu surgir Hélios, o Sol, Selene, a Lua e Eos, a Aurora para iluminar o caminho dos viajantes, mas também Arges, a luz do relâmpago, Esteropes, as nuvens da tempestade e Brontes , o ronco do trovão, para semear de mistério e terror o esteiro dos navegantes. Depois vieram Zeus, Hades e Posídon e jogaram aos dados a partilha do Universo: para Zeus, senhor do raio que fulmina, ficaram o Olimpo e as zonas celestiais; para Hades, senhor do capacete invisível da Morte, as regiões subterrâneas e o reino dos Mortos; a Posídon, senhor do tridente que abala a terra e as águas, coube o domínio dos Mares. 

Cansados da harmonia do Universo, os deuses divertiram-se a criar os homens. Moldaram uma nova raça de criaturas à sua imagem, mas os bonecos de barro, embora animados, não deixaram de ser bonecos e continuaram de barro e a Sibila estremeceu no horror da sua vivência. Mas Prometeu, o mais generoso dos Titãs, roubou a chama divina do Olimpo e deu-a aos homens para que, no futuro, pudessem desafiar os deuses. E os homens dominaram o Fogo e sentiram-se mais perto do Céu, mas os deuses coléricos com a ousadia infligiram à raça humana os mais terríveis castigos, lançando contra ela a fúria dos elementos. 

Agora a Pitonisa tinha olhos de água e espumas, corpo de areia ao sabor de marés e monções, ouvidos de búzio com gritos de gaivotas e gentes. Arrastada pela força das correntes, estranhava aqueles mares escavados de abismo e remorso. Não havia neles o brilho esmeralda do Egeu, o ónix irisado do Jónico, o safira do Adriático ou o lápis-lazúli do Tirreno. Estes eram turvos e espessos como mosto de sargaços, fechando-se em sudários de tons baços de hematite, ágata sombria ou ametista sangrenta. 

Nuvens de tempestade cegavam mar e terra, ondas erguiam-se como penhascos e os ventos contrários lutavam entre si, esgaçando velas e mastros e as vestes da Sibila. Euros lançava do Este uma bafagem maléfica e doentia contra os tornados e furacões com que Noto, o vento Sul, tentava derrubá-lo e Bóreas estendia do Norte os seus dedos de gelo para estrangular na garganta de Zéfiro, o vento do Oeste, a fúria desatada do seu fôlego. 
A Sibila era um escolho no jogo das monções. Búzios sopravam por sobre as ondas o grito prolongado e lúgubre dos seus avisos e medos ancestrais gelaram o coração da Vidente. A água tinha um sabor a sal e sofrimento, cristais de vidas evaporadas, consumidas em sonhos desfeitos, inquietudes de alma e miragens de Infinito. 

A Vidente deixou-se embeber do espírito das águas, memória líquida dos Oceanos, e chamou a si imagens de Argonautas perdidos, de Ulisses astuciosos, de Eneias buscando uma nova pátria, fábulas imortais de glória e castigo. Mas a Visão trouxe-lhe uma multidão anónima de seres partindo em busca das terras do Sonho, do Prazer e da Fama, para percorrer as rotas do Medo, da Dor e da Morte. 

A Sibila sentia-se impregnar de terrores e heroísmos obscuros, devoções sublimes e paixões mesquinhas, humildes e nobres sacrifícios. Peões miseráveis no Xadrez dos deuses, ao sabor do lance e da jogada, sacrificados ao Rei e à Rainha, movidos no interesse do Bispo, derrubados sob as patas do Cavalo ou esmagados nos assaltos à Torre, deixaram não o nome mas a marca das suas vidas, pelos mundos repartidas em sangue, sémen, suor e lágrimas. 

A Sibila mergulhou mais fundo no abismo do Tempo e recordou… 

Deana Barroqueiro. 1998 

(Em 1998, a minha visão piorou, com o descolamento do vítreo e eu tive de exorcizar o meu terror da cegueira e os meus exorcismo e terapias são sempre a escrita) 

Receita de Cozinha para Quarentena 3

QUARENTENA - Receita para os que se amam: 

Bolo de Namorados 
Ingredientes
9 c. de sopa de leite; 9 c. de sopa de açúcar; 9 c. de sopa de farinha; 3 c. de sopa de manteiga; 2 ovos; 1 c. (chá) de fermento. 
Preparação 
Bata muito bem o açúcar com a manteiga, até obter um creme branco; sempre a bater junte-lhe as gemas e o leite aos poucos e com muito cuidado para não talhar (se começar a talhar, junte-lhe um pouco da farinha em continue a bater). Adicione então a farinha peneirada com o fermento e, por fim, as claras batidas em castelo. Leve ao forno em forma bem untada, durante cerca de 25 minutos.

Comam-no namorando!


Esconjuro dos medos

"Crónicas de Monções e de Marés" Neste tempo de doença e morte, cabe bem o meu poema que introduzia os contos dos alunos, ilustrados com pinturas pelos próprios ou por colegas de Artes. Eram 12 contos, de 12 heróis que correspondiam a 12 mitos e 12 desastres ou tragédias:

Lengalenga dos Medos 

Em dias de nevoeiro, 
Em noites de lua cheia, 
Junto ao Cabo Carvoeiro 
As bruxas tecem a teia, 
Ao som do velho pandeiro 
Cantam sua melopeia: 
Doze horas tem o dia, 
Outras doze tem a noite, 
Sol e Lua dão magia, 
Ouro e prata a quem se afoite.
Na gruta medonha e fria 
E entre os monstros se acoite. 
Doze meses tem o ano, 
Zodíaco doze signos, 
Neste mapa portulano 
Doze desastres malignos, 
Doze heróis no Oceano 
Encontraram seus destinos. 
As bruxas vão remexendo 
Num caldeiro a fumegar, 
Suas rezas remoendo 
Maus filtros de enfeitiçar 
Nas mezinhas vão metendo 
Terra, Fogo, Água e Ar. 
Vinte e quatro diabinhos 
(Doze mais doze a somar) 
Fazem feitos tão maninhos 
Nesta gruta de espantar 
Qu’ os pobres dos marujinhos 
Foram todos naufragar. 
Fortes monções vão sofrendo 
Com as marés a voltear 
Doze contos vão tecendo 
Suas mortes d’assombrar 
Tantos mares percorrendo 
Sem um porto onde arribar. 
Outros seis diabos chegam, 
As penas são a dobrar, 
Na caverna todos pintam 
Malefícios de abrasar 
E os que no mar navegam 
Nunca mais se hão-de salvar. 
A Ursa tem sete estrelas, 
Outras cinco o Cruzeiro, 
Indicando duas delas 
Os Pólos, ao marinheiro 
Que de noite espera vê-las 
E seguir o seu roteiro. 
Mas as bruxas fazem meia 
Com feitiços de luar 
E o canto da sereia 
Já se ouve em alto mar, 
Contra os baixios d’areia 
Lá vão as naus soçobrar. 
Tantos homens perdidos 
E donzelas por casar! 
Tantos lares destruídos 
E órfãos para criar, 
Quanta mulher sem marido 
Fica pela vida a chorar! 

Deana Barroqueiro, 1998

ESCRITA CRIATIVA SEM DAR POR ISSO

Há mais de 20 anos, na Escola Secundária Passos Manuel, fiz muitos projectos de escrita com os alunos, de que resultaram várias publicações, entre as quais 2 livros de contos e 2 peças de teatro (autos, à maneira de Gil Vicente, que me permitiam aplicar o programa). 
Então não se falava em escrita criativa, mas era afinal aquilo que eu fazia.

 "Crónicas de Monções e de Marés", uma colectânea de contos escritos pelos alunos, com a minha participação, foi, assim, um projecto que me deu um pretexto para pesquisar novos temas e conceitos, me permitiu passar mais de duas centenas de horas de deleite criativo, partilhando com os alunos o gosto pela escrita e o prazer do texto, mas, além disso, também a capacidade de admirar e procurar a beleza, o simbolismo e a riqueza das palavras, das sonoridades e das imagens de uma língua extraordinária que, por fortuna, é a nossa, em que tudo pode ser dito, da realidade mais simples e concreta, à emoção mais subtil, ou ao pensamento mais transparente ou complexo. 

Que foi uma experiência de enorme impacto para os alunos, não tenho dúvidas, porque eles a definiram assim: 
«Estávamos preparados para seguir o mesmo ritmo monótono de aulas, quando nos propuseram um desafio. Na verdade o desafio de fazer algo diferente dava um brilho aos olhos de cada aluno e um sorriso resplandecente, vindo da professora. Pensávamos que não íamos conseguir, mas, no fundo, todos tínhamos aquela tal esperança. 
Acabou por despertar em nós uma certa curiosidade. De início, achávamos não estar à altura de algo tão grandioso, o tempo surgiu e a caneta não conseguia escrever, por vezes a esperança desaparecia, mas, conforme as ideias iam saindo, tudo ia tomando forma. até que, um dia, não conseguimos parar de escrever. 
O monótono das aulas transformou-se num livro cheio de contos maravilhosos, onde a imaginação não deixou de existir. Quando vimos o resultado final, demo-nos conta de que, o que nos parecia impossível tornara-se numa coisa concreta e educativa. 
Afinal valeu a pena… porque a alma não é pequena!» 
Os autores da Turma do 10º Ano 4A 
30 de Abril de 1998 

Os temas principais estavam ligados à História e à Literatura, narrativas sobre personagens e acontecimentos históricos ou inspiradas em obras literárias do programa. Exploraram também a mitologia clássica e, como este foi um dos temas preferidos, irei "postar" alguns aqui para os partilharem com os vossos filhos, se gostarem, tal como fiz no Facebook, para ajudar a passar algum tempo, durante a quarentena da Covid-19. 
Deana Barroqueiro 

O Humor contra o Medo

Os que não podem trabalhar virtualmente nas suas profissões, podem seguir o exemplo de Newton e aproveitar a quarentena para lerem bons livros e fazerem ou criarem coisas que habitualmente não têm tempo para fazer. A quarentena da Peste Negra permitiu a Newton produzir o seu melhor trabalho.

Receitas de Cozinha para a Quarentena 2

Paté de Sardinhas (aperitivos ou entrada) 

Ingredientes: 
1 lata de sardinhas sem peles nem espinhas; 2 gemas de ovos; 1 c. de sopa de salsa picada; 1 c. de sopa de maionese; 3 c. de sopa de vinagre; sal e pimenta q.b.
Preparação: 
Separe as gemas das claras (que pode usar para outra coisa), sem as rebentar, e deite-as com muito cuidado num tachinho com água a fervilhar docemente, para não rebentarem; deixe cozer só até ficarem firmes por fora (cerca de 3 minutos). 
Escorra-as e no copo da varinha mágica, misture-as com o resto dos ingredientes, até obter uma pasta homogénea. Ponha este creme numa pequena taça, no frigorífico e sirva fria com tostinhas de pão. 
Variantes: Pode substituir as sardinhas por atum ou salmão. 




15/03/2020

O COVI-19 E AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO


Não há nada pior, nem mais perverso, do que inventar teorias da conspiração em tempo de crise grave, como esta que apanhou o mundo desprevenido. Aumentar o "ruído" e o pânico, dizendo que já há muitos mortos que as autoridades não divulgam, é um acto irresponsável, porque contribui apenas para dificultar o trabalho de governantes, pessoal dos serviços de Saúde e de todos os que estão a trabalhar para minorarem e, se possível, porem fim a esta terrível doença. É um acto vergonhoso, senão criminoso! 

Enquanto escritora, não posso passar sem as redes sociais, como o Facebook ou o linked-in, por serem o melhor instrumento para comunicar com os meus leitores ou promover as minhas obras. Mas este "instrumento", como qualquer outro, tanto pode ser usado para o bem como para o mal, pois depende do carácter e do estofo moral daqueles que o usam No caso das redes sociais, para muita gente de baixo estofo moral, este instrumento serve, de modo mais ou menos anónimo, como veículo para as suas frustrações, ódios, invejas, que, sem ele, jamais seriam ouvidos. 

Enquanto nas minhas páginas e nas dos meus amigos, o convívio é são, inteligente, sensível, solidário e amistoso, causando-me um enorme prazer (fora de qualquer interesse em relação a vendas de livros, não vivo da escrita, vivo para a escrita), se passarmos em revista por outras páginas ao acaso, podemos ver o que de pior há no ser humano, pois é um esgoto a céu aberto. Forjam e propagam mentiras, notícias, fotos e vídeos falsos que enganam as pessoas de bem, acirram ódios e desconfianças sobre aqueles em quem devíamos confiar (e que são enviados por pessoas bem-intencionadas mas crédulas, que acabam por ajudar a propagar esta desgraçada poluição ou vírus). 

Circulam por aí vídeos e textos de inúmeros "gurus de meia-tigela", de "cientistas da universidade da vida" a promoverem remédios e tratamentos milagrosos para o Covid-19, como faziam na Idade Média para a Peste Negra, aconselhando as pessoas a desprezarem os avisos e conselhos dos médicos e outros cientistas sérios. Estamos no séc. XXI, no 3º Milénio, temos toda a informação possível, não nos desinfectamos com vinagre, mas com álcool, não curamos pneumonias com chás de ervas, tomamos vacinas que erradicaram doenças de que a humanidade morria aos milhões, voamos em aviões e foguetões, coisa tão sonhada por Leonardo da Vinci no séc. XV. 

Por favor, não divulguem essas imbecilidades criminosas, não enviem esses vídeos e textos com curas de perlimpimpim. Deixem os responsáveis dos serviços próprios fazerem o seu trabalho e ajudem-nos, cumprindo as regras, conselhos e ordens que nos dão, para o bem nosso e de todos.
Deana Barroqueiro

14/03/2020

Receitas de cozinha para a quarentena

2 RECEITAS PARA A CLAUSURA
Se tiverem em casa costeletas de porco (ou de vaca), aconselho qualquer destas receitas - a primeira é mais fácil - Pode usar também bifanas 

COSTELETAS À SALSICHEIRO 
Ingredientes: Costeletas de porco 4; Margarina 2 c. de sopa; Farinha I c. de sopa; Concentrado de tomate 2 c. de sopa; Vinho branco 1,5 dl; Caldo de carne 1,5 dl; Cebola1; Pepinos de conserva 4; mostarda, sal e pimenta. 
Preparação: Polvilhe as costeletas com sal grosso e pimenta. Pique a cebola para dentro de um tacho, deixe alourar muito ligeiramente com urna colher de sopa de margarina. Polvilhe com a farinha e mexa para que a cebola fique bem envolvida. Regue com o caldo e o vinho misturados e deixe o molho cozer sobre lume muito brando. Adicione um pouco de mostarda, o concentrado de tomate e os pepinos de conserva muito picadinhos. Conserve quente. 
Entretanto derreta a restante margarina numa frigideira, deixando-a aquecer. Introduza as costeletas, deixando-as fritar e alourar bem dum dos lados. Vire-as e deixe alourar do outro lado. Disponha as costeletas num prato de serviço e cubra-as com o molho. Acompanhe com puré de batata. 

COSTELETAS PANADAS COM CREME 
Ingredientes: Costeletas de vitela ou porco 6; Ovos 2; Farinha qb; Pão ralado qb; Manteiga 100 g. Creme: Farinha 70 g; Manteiga 20 g; Leite 2 dl; Queijo parmesão qb; Gema 1. 
Preparação: Bata as costeletas com o maço para as espalmar, e passe-as por um pouco de manteiga na frigideira. Faça o creme, pondo os 20 g. de manteiga num tacho e, quando derreter, junte-lhe farinha, mexa e depois acrescente o leite, mexendo sempre até obter um creme; tire do lume e deite-lhe a gema e o queijo ralado, tempere com sal e pimenta. Deixe arrefecer para engrossar. 
Ponha as costeletas em cima de uma tábua e cubra-as com uma porção de creme, espalmando-o muito bem com uma espátula untada com óleo. Volte as costeletas para cima de uma tábua polvilhada com uma mistura de pão ralado e farinha, e cubra-as do outro lado com uma camada de creme, como se fez da primeira vez. Embrulhe-as numa boa camada de farinha e pão ralado, passe-as por ovo batido, depois novamente na mistura de pão ralado e frite-as em óleo fervente, mas em lume brando para não as queimar. 

BOM PROVEITO!

13/03/2020

Enclausurados nas caravelas e naus

Encerrados nas caravelas e naus dos Descobrimentos iam os portugueses, durante meses. Aqui vos deixo um rol de produtos alimentares, que eles levavam para a viagem e que recomendo aos açambarcadores:

Gerido directamente pela coroa, o Complexo Real de Vale de Zebro era constituído por 27 fornos de cozer biscouto, armazéns de trigo, cais de embarque e um moinho de maré de 8 moendas – o Moinho d’ElRei, o maior da região -, além de vastas áreas de pinhal circundante.. A sua instalação deve remontar ao reinado de D. Afonso V, e era comparável a um outro existente em Lisboa, os Fornos da Porta da Cruz. Em conjunto constituíam as duas unidades régias que asseguravam o fabrico de todo o biscoito necessário aos empreendimentos marítimos da expansão e dos descobrimentos. Estas actividades exigiam grandes quantitativos de mão-de-obra.
Nesse contexto, a Coroa recorreu à importação de escravos, empregues quer no Complexo Real, quer como escravos domésticos nas casas senhoriais. Em 1553 a quantidade de escravos era tal, que existia na Igreja de Nª Sª da Graça uma «Confraria do Rosário dos Homens Pretos».

Uma fábrica de biscoutos do século XV
Esta fábrica de biscoitos situava-se nas proximidades do rio, podendo assim dispor de um moinho para a moagem do trigo e junto à mata da Machada, fornecendo lenha para manter os fornos. Os biscoutos (bis significa duas vezes e couto significa cozido) ali confeccionados, em formas de barro com um diâmetro semelhante ao de uma pizza, dariam para conservar durante várias semanas.

O biscoito era a base alimentar das tripulações na época dos Descobrimentos Portugueses. Consistia num pão de farinha de trigo, de forma achatada, cozido no forno duas, três ou mais vezes para ficar duro "duro como corno" e assim durar muito tempo. A ração diária de cada tripulante era de 400 gramas. Como o biscoito estava muito rijo para se comer, mergulhavam-no em água – fazendo uma espécie de açorda – e comiam assim ou acrescido de outros condimentos, quando era possível.

“Do rol dos mantimentos que recebeu Miguel Luiz Romeu, escrito nos Açores (Angra), datado em 5 de Outubro de 1645”: “Setenta e cinco quintais em arroba de biscoito; vinte e quatro arrobas de bacalhau em duas pipas; setenta e duas arrobas e vinte arráteis de carne em oito barris de seis almudes; seis pipas de vinho da Canárias; um quarto de vinagre; cinquenta cestos de alhos; um cento de cabo de cebola; seis alqueires de lentilhas; um moio de favas”.

Receitas de cozinha para a clausura

Para ajudar a ocupar os tempos de clausura, vou passar a deixar-vos aqui algumas receitas, enquanto espero a publicação da minha História dos Paladares. Podem fazer esta Açorda à Italiana com os vossos filhos, porque os produtos usados são fáceis de achar em qualquer cozinha. Aprendi esta receita num Curso de Culinária que fiz aos 16 anos, no Liceu D. Filipa de Lencastre:



  AÇORDA ITALIANA 
Ingredientes: 1 pão de forma; queijo Gruyère 150 g fatiado; fiambre 150 g em fatias; leite q.b.; ovos inteiros 2; manteiga q.b.; molho de tomate q.b.; nata 100 g. 

Preparação: Unte uma forma (de preferência quadrada ou rectangular)e encha-a com fatias de pão de forma untadas de manteiga, alternando com fatias fininhas de queijo e fiambre. A primeira e a última camadas devem ser de pão que se borrifa com leite. Quando a forma estiver cheia, deite-lhe a nata batida com os ovos. Esta mistura deve penetrar bem em todas as fatias de pão. Leve ao forno em banho-maria. Quando estiver bem douradinha, retire do forno, desenforme e sirva coberta com molho de tomate. 
Bom proveito!

Nota: Banho-maria é o processo de aquecer ou de cozinhar iguarias delicadas, mantendo o tacho em que se cozinham meio mergulhado dentro ou sobre outro maior com água a ferver levemente, mas de maneira que os fundos não se toquem. Pode pôr-se no forno ou directamente no lume; O mesmo processo pode ser efectuado com água fria, com o intuito de arrefecer os alimentos.

PORTO EDITORA - ESCOLA VIRTUAL

Sendo o objectivo do encerramento das escolas manter as crianças e os jovens estudantes dentro das suas casas (de contrário será uma medida inútil e só ajudará a disseminar o vírus) a Porto Editora vai prestar uma ajuda, facilitando acesso gratuito à sua escola virtual.  Aqui:

https://www.portoeditora.pt/noticias/covid-19-porto-editora-da-acesso-gratuito-a-escola-virtual-para-1-5-milhoes-de-alunos/163426

12/03/2020

COVID-19 A BANHOS EM CARCAVELOS


CELEBRAR O  CORONA VÍRUS  EM CARCAVELOS E OUTRAS PRAIAS PORTUGUESAS 

Ontem, 11 de Março, quando foi declarada a pandemia do Covid-19 e continuavam as recomendações cada vez mais prementes de se evitarem ajuntamentos, com as escolas e empresas a fecharem, para as pessoas se manterem em casa em «distanciamento social», pois o número de casos duplicou, entrando já na 2ª fase de propagação, o que fizeram os lisboetas?

Foram para as praias, aos milhares, gozar o sol e o mar, «protegendo-se» do vírus com protector solar e comendo nos restaurantes apinhados, em alegre companhia. É assim que vai funcionar a quarentena dos portugueses (feita para evitar contágios do próprio e dos outros) que, em vez de ficarem em casa com os filhos, aproveitaram o facto de não irem trabalhar ou de não poderem frequentar as escolas e universidades, para irem conviver com outras centenas de chicos-espertos, nas praias, restaurantes, parques infantis, bares, etc?

Nas próximas semanas, quantas mais cadeias de infecção iremos ter à conta da inconsciência, oportunismo e falta de sentido cívico desta gente? Só porque ainda não morreu ninguém, está tudo bem? Quando houver mortos, a culpa vai ser do Governo e do SNS? Não ir trabalhar, com grande prejuízo das empresas e do Estado, é para ficar em casa, porque isso é um dos meios mais eficazes de evitar o contágio e a propagação da doença.

Por isso se fala no pagamento dos salários às pessoas isoladas. Mas os mesmos que infringiram as regras e aproveitaram as ´férias" inesperadas serão seguramente os primeiros a exigirem aos patrões o pagamento total dos salários pelo sacrifício de terem de ficar fechados em casa.

Dizem que não têm nada que fazer? Eu estou quase sempre em casa e falta-me tempo para tudo o que tenho de fazer... Aproveitem para conviver com os filhos, leiam livros - uma actividade que a maioria dos portugueses há muito deixou de praticar, infelizmente, porque ler bons livros torna-nos mais cultos, mais informados e menos receptivos às falsas notícias e imbecilidades veiculadas nas redes sociais; trabalhem em casa, vejam filmes e documentários, cultivem algum hobby, como cozinhar em família, etc.

Vejam a tragédia de Itália, em que o vírus tomou freio, graças a essa indisciplina e bruteza egoísta tão própria dos povos latinos. Ou será que só com medidas draconianas, como as que foram tomadas na China (em que prendiam ou entaipavam os prevaricadores), para que os portugueses obedeçam às leis e saibam viver em sociedade?

Viver em democracia não é fazer apenas o que nos dá na real gana, borrifando-se para os outros.

07/03/2020

Homenagem à Mulher

Contos Eróticos do Velho Testamento e 
Novos contos Eróticos do Velho Testamento 

Os dois livros que eu escrevi para as mulheres (mas de que os homens também gostam), agora reunidos num único volume, na nova edição da Planeta.

05/03/2020

Romance Histórico - Mesa redonda

Na sexta-feira, dia 6,  pelas 16 h, no Auditório A14 do Colégio Almeida Negreiros (Campus da Universidade Nova)

Vou participar, com outros escritores, numa mesa-redonda sobre o romance histórico em Portugal: “(Re)Writing Historical Fiction and Fictionalizing History in Portuguese", no âmbito do Congresso Internacional Historical Fiction, Fictional History, and Historical Reality, da Universidade Nova (org. Rogério Miguel Puga).

Os títulos estão em inglês, mas a discussão será em português.



13/02/2020

Programa do Encontro de Escritores Lusófonos

Hoje, dia 13, às 18 h, na Biblioteca Camões - Lisboa: 

Programa
18.00 Recepção aos participantes.
18.15 Sessão de Abertura
Lithales Soares (Biblioteca Camões); Delmar Maia Gonçalves (Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD); Renato Epifânio (Presidente do Movimento Internacional Lusófono - MIL); João Micael (Presidente da Matriz Portuguesa); Roberto Moreno (Presidente da Fundação Geo-Língua - Brasil)

19.00 Painel 1
Deana Barroqueiro (Portugal)
Ernesto Dabo (Guiné-Bissau)
Manuela Gonzaga (Portugal)
Filipa Vera Jardim (Portugal)
Carlota de Barros Cabo Verde)
Rui Maurício (Portugal)
Carlos Reis (Portugal)
Maria Dovigo (Galiza)
Moderação: Delmar Maia Gonçalves (Moçambique)

19.30 Painel 2
Luís Ochoa (Portugal)
Luísa Fresta (Angola)
Regina Correia (Angola)
Francisco Fadul (Guiné-Bissau)
Carlos Carneiro (Portugal)
Conceição Rocha (Portugal)
Susana Bravo (Portugal)
Moderação: Filipa Vera Jardim (Portugal)

 A segunda fase (após a intervenção dos autores convidados) dos debates (1,2) será aberta ao público presente.

20.00 horas Encerramento com um pequeno Cocktail (Cortesia do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora- CEMD)

11/02/2020

Conversa com escritores lusófonos

Na Biblioteca Camões, dia 13, às 18 h. 

Largo do Calhariz, 17 - 1º Esq. Lisboa 

Deana Barroqueiro vai participar neste encontro de escritores da lusofonia em que se falará do LIVRO e da sua circulação. Um tema menos comum que, por isso mesmo, poderá ser interessante. Serão muito bem-vindos à bonita Biblioteca

18/12/2019

Deana Barroqueiro à conversa com Paulo Vahia

Duas horas de amena cavaqueira, em que se falou de tudo, sem papas na língua, dos aspectos pessoais aos temas literários e outros bem mais polémicos.

À conversa na Rádio Movimento

Fechamos a emissão desta terça-feira, dia 17 de Dezembro, com mais uma edição do “Pedra de Toque”, no ar entre as 22h00 e a meia-noite. Paulo Vahia convida a escritora Deana Barroqueiro. Vamos conversar sobre literatura e as histórias que a nossa convidada nos conta nos seus livros. Vamos também abordar as polémicas recentes em torno do seu romance, "O Corsário Dos Sete Mares".
Para ver e ouvir EM DIRECTO, agora em cinco plataformas, nos nossos canais do Facebook, YouTube, Twitch, Twitter e Mixer:
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Ainda podem ouvir-nos, apenas em áudio, no player do nosso renovado site:
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30/11/2019

1 de Dezembro de 1640 - Portugal Restaurado

Sucesso da Restauração: 


«Morto o secretário e presa a duquesa no paço, era necessário fazer caucionar a nossa acção pelos três estados. Temíamos que o povo se distanciasse de nós, desconfiado de uma conjura feita por nobres, essa nobreza que o deixara desamparado, aquando dos motins de Évora e Porto, onde tanta da sua boa gente fora justiçada na forca ou condenada às galés. Era urgente trazer para as ruas esse povo, que aos primeiros rumores do golpe se tinha refugiado com medo em suas casas e nas igrejas, levando-o a aclamar Dom João. Dividimo-nos em grupos e fomos percorrer a cidade aos gritos de “Liberdade! Viva El-Rei Dom João, o Quarto!”, a que todos respondiam com muitos “Real, real por El-Rei Dom João, Rei de Portugal!”.

Eu fui, com o meu bando, buscar o senhor Arcebispo de Lisboa, Dom Rodrigo da Cunha, que estava prevenido desde a véspera e saiu logo em procissão com o seu clero, levando um padre na dianteira uma grande cruz alçada, com um Cristo. Soubemos que o Senado da Câmara estava reunido e para lá nos dirigimos, a fim de anunciar que já havia um Rei natural. Encontrámos as portas cerradas por ordem do presidente, que tomara o tumulto por um motim popular e quisera salvaguardar o palácio. Ameaçámos deitar as portas abaixo, mas, mal soube da Restauração, Dom Pedro de Meneses abriu as portas e aclamou El-Rei à janela, dando-me a bandeira da cidade para ser hasteada no Castelo de São Jorge. Podeis imaginar a minha emoção, quando montei a cavalo com ela na mão, seguido por uma multidão que começou a gritar “Milagre! Milagre!”.

A voz de Brás soa emocionada, ao declamar a oitava, contagiando-nos a todos com o seu sentimento: – Chegado em procissão à porta santa / do melhor Português, ergue influído / a vista a um crucifixo com fé tanta, / quanto está de perigos combatido, / pergunta: Se é o Rei que se levanta, / e por ele, ao primeiro prometido? / Em sinal de que o é, descrava um braço, / ditosa procissão, ditoso abraço. 
– Foi assim mesmo, até parece que estiveste lá connosco! – exclama Dom Álvaro, retomando a sua narração:

 «A imagem do Cristo pregado na cruz, com toda aquela agitação, soltara o braço direito e movia a mão um lado para o outro, como a abençoar-nos.
– É um milagre e obra de Deus que tenhamos rei! Viva o nosso Rei Dom João IV», bradava Dom Rodrigo da Cunha, sobre as cabeças da multidão ajoelhada.
Foi uma ajuda verdadeiramente providencial, esta bênção à nossa causa! Em Madrid disseram mais tarde que fora o próprio arcebispo que tinha desprendido o braço da imagem, para comover o povo, até aí irresoluto. Houve, todavia, uma notícia na Gazeta sobre um homem que duvidou deste milagre e a parede, junto da qual conversava com alguns companheiros, mostrando o seu descrédito, caiu-lhe em cima e matou-o.

Hasteei a bandeira no Castelo de São Jorge, depois de o tomarmos à guarnição espanhola, libertando Matias de Albuquerque e Rodrigo Botelho, conselheiros da Fazenda, que o Secretário ali fizera prender. Também no supremo Senado da Casa da Suplicação, Aires Saldanha e Dom Gastão Coutinho abriram as cadeias e deram liberdade a todos os presos que lá se achavam encarcerados por serem contrários a Castela. Os que, como eu, percorriam a cidade anunciando a boa nova – e também com o fito de impedir quaisquer desmandos do povo –, volveram ao Paço tendo deixado a cidade tão sossegada, como se aquele dia primeiro de Dezembro fosse igual a todos os outros e não o da Restauração de um reino perdido havia sessenta anos.».

 – Também dei conta desse raríssimo sucesso no meu poema: Sobem graças ao Céu enquanto a terra / com lágrimas devotas se regava, / publica-se o milagre, e se desterra / o grão pavor que os peitos ocupava: / troca-se em branda paz a dura guerra, / e qual, se não passara o que passava, / teve Lisboa cheia de alegria, / dous pacíficos Reis em um só dia.

– Por último, nomeámos governadores do reino o arcebispo de Lisboa, o arcebispo de Braga (apesar da sua reconhecida fidelidade a Castela) e o visconde Dom Lourenço de Lima, enquanto Dom João não chegasse a Lisboa. Dez dias mais tarde, criámos um Conselho de Guerra, para estarmos prevenidos e tratarmos da defesa das fronteiras contra a invasão do exército espanhol que o conde-duque não tardaria em ordenar – termina, Dom Álvaro, com um suspiro fatigado, o seu longo relato.

(«1640» - de Deana Barroqueiro)

1640 - Restauração (cont.)

Defenestração de Miguel de Vasconcelos 

– Não duvido de que Deus nos ajudou porque fizemos uma revolta quase sem derramamento de sangue, coisa raríssima que espantou todas as nações da Europa – diz Dom Álvaro, assim que o alvoroço sossega, retomando o fio à sua história. – Não podíamos deixar Miguel de Vasconcelos com vida, mas queríamos evitar mortes desnecessárias. 
« Dom António Telo entrou na Secretaria, a fim de cumprir o juramento que fizera de o matar com as suas próprias mãos, mas não achou rasto dele. Quando se preparava para prosseguir com a busca em outras salas do paço, uma escrava que, se refugiara assustada a um canto, apontou para um armário de papéis contra o qual disparou dois tiros. Ouviu-se uma restolhada e o traidor, perdida toda a arrogância e a tremer de medo, saltou de dentro como uma mola, escancarando as portas, com uma clavina engatilhada, atirando à toa, antes de cair ferido ou moribundo. Muitas mãos apoderaram-se dele e, erguendo-o no ar, defenestraram-no. 

Mal o corpo caiu na praça, a regateira Brígida d’Alfama, à frente de um magote de petintais, agarrou-o pelos cabelos e levou-o de rojo para o meio da turba, que o golpeou com pedras, paus e navalhas, socos e pontapés, rasgando-lhe as roupas para levar mementos, até dele não restar senão uma massa sangrenta sem forma humana. Acabava, de modo ignominioso, o ministro prepotente que tantas vidas pisara e a tantos desdenhara, calcado a pés e cuspido de desprezos, como o mais miserável dos criminosos. Na sua escrivaninha achámos uma carta com uma denúncia da conspiração com os nomes de todos os conjurados, que ele não chegara a ler e, por isso, não tomou medidas para a fazer abortar.». 

– Ele não acreditava numa revolta da nobreza e o golpe apanhou-o desprevenido – zomba Dom Rodrigo. – Da mesma arrogância comungava Olivares, achando que nos podia humilhar à sua guisa. Quando teve notícia de que perdera o reino de Portugal, foi pedir alvíssaras a Dom Filipe pela boa nova, dizendo-lhe: “Tem Vossa Majestade mais um grande Estado, dentro da Espanha, o de Bragança, para possuir ou dar, como for servido”. Queria com isto dizer, que agora já podiam dispor de Portugal como mais uma província ou coutada espanhola, porque os vastíssimos domínios do duque de Bragança passariam para a coroa, por crime de lesa-majestade. Chamaram “rei de um inverno” a Dom João, seguros de que o seu reinado só duraria uns meses. 
– Pelas leis da guerra era forçoso matar a Miguel de Vasconcelos – insiste Dom Álvaro, prosseguindo com a sua narrativa. – Se o deixássemos vivo, haveria de ser causa de maior infelicidade para Portugal, que aquela que já havia causado. 

«Dom Miguel de Almeida e um bom número de companheiros foram pelo interior do paço, em busca de Dona Margarida de Sabóia, achando-a junto a uma janela da Casa da Galé, muito assustada com o tumulto e a rogar ao povo que a socorresse e livrasse das mãos dos amotinados. Afastaram-na da janela com muita cortesia e, com igual decoro, impediram-na de descer para o Terreiro do Paço. 
– Senhores, já estais satisfeitos e vingados com a morte do ministro culpado – arengou ela, recuperando o alento. – Ele foi castigado. Não passe adiante o furor, que não deve entrar em corações tão nobres. Prometo-vos que El-Rei perdoará a todos, vendo a obediência com que respeitais o seu serviço. 
D Sebastião de Matos de Noronha, o arcebispo de Braga, irrompeu na sala a vociferar contra os conjurados. O presidente do Tribunal do Paço era conhecido por ser do partido de Castela e pelo seu génio violento. 
– Peço a Vossa Reverência que se cale – atalhou Dom Miguel, num tom nada respeitoso. – Muito me tem custado livrá-lo da morte, porque os portugueses leais o tomam por traidor e já ontem à noite o queriam matar. 

O arcebispo achou prudente obedecer e retirar-se em silêncio para lugar seguro, longe da vista dos homens armado. A duquesa de Mântua, vendo que a tratavam com grande acatamento, retomou a sua sobranceria e as promessas:
 – Eu rogarei a El-Rei Dom Filipe pelo perdão… 
Não chegou a terminar a frase, interrompida por muitas vozes:
 – Já não conhecemos outro rei, senão Dom João IV. 
– Aclamámos ao duque de Bragança por nosso Rei natural. 
– O reino de Portugal está de novo livre e restaurado! 

Dona Margarida enfureceu-se ao ouvi-los e, perdendo o ar conciliatório que usara até àquele momento, insultou-os de modo tão destemperado que Dom Carlos de Noronha lhe disse em voz dura, mais de mando que de cortesia: 
– Rogo a Vossa Alteza que se retire, porque desta sorte posso perder-lhe o respeito!
 – A mim? E como? – desafiou, empertigando-se. 
– Obrigando Vossa Alteza, se não quiser entrar por esta porta, a sair por aquela janela. 
Sentindo na voz de Dom Carlos que este não hesitaria em cumprir a ameaça, a duquesa sufocou os protestos e retirou-se com as suas damas para a capela, não sem antes ter assinado uma ordem ao governador do Castelo, para que não saísse em armas contra os revoltosos. Dom Antão de Almada montou guarda com alguns homens aos seus aposentos, para a impedir de comunicar com Madrid e dar notícia da Restauração. 
(«1640» - Deana Barroqueiro)

«1640» - Preliminares do golpe

Amanhã é o Aniversário da Restauração de 1640. Eis o relato dos preliminares  da revolução pela voz da minha personagem e protagonista dos acontecimentos reais: 

«Quarenta confederados, não muitos para tão difícil empresa, mas assim o exigia o segredo. Cada um de nós tinha às suas ordens um punhado de parentes e amigos leais para levar a bom porto a tarefa que lhe fora destinada, porque se alguém falhasse poderia comprometer toda a missão. Reuníamo-nos, pela calada da noite e no maior segredo, nunca na mesma casa, que mantínhamos às escuras, usando apenas uma sala ou quarto interior; na rua tomávamos as maiores precauções para não levantar suspeitas, indo cada um por sua vez e embuçados, para não sermos reconhecidos. E sempre em pequeno número, para minorar o desastre se fôssemos descobertos, transmitindo em seguida as informações ou ordens aos nossos aliados e restantes conjurados.

O ponto de encontro para o derradeiro lance foi o Terreiro do Paço e a hora aprazada as nove da manhã de Sábado, dia primeiro de Dezembro. O palácio, onde se alojava a Vice-Rainha e Vasconcelos tinha o seu ofício, estava protegido por uma força de alabardeiros alemães e pela guarnição castelhana do forte. Era a cabeça da hidra que precisava de ser decepada, logo de início, conquanto a surpresa jogasse a nosso favor. Esperava-nos a morte, se fôssemos mal sucedidos, e para ela nos preparámos, na véspera, uns fazendo o seu testamento, todos confessando-se e comungado com os padres, nossos companheiros.

Houve momentos de grande emoção, como aquele que presenciei na casa do falecido Luís da Silva, o comendador e alcaide-mor de Seia, quando às sete horas da manhã fui buscar os seus filhos, António e Fernão, porque, sendo assaz moços, iriam comigo para o Terreiro do Paço. Fizeram-me entrar para a capela, onde Dona Mariana de Lencastre, uma fervorosa crente na vinda do Encoberto, com varonil inteireza e procurando manter firmes as mãos que seguravam a espada, armava os dois filhos para a luta que se avizinhava, exortando-os a cumprirem o seu dever, para maior honra dos seus antepassados. Anunciou-me, com muito orgulho, que também havia mulheres patriotas que queriam participar na Restauração da Pátria, mesmo as viúvas como ela e Dona Filipa de Vilhena, a condessa de Atouguia, que na falta do marido, armara igualmente os filhos, Dom Jerónimo e Dom Francisco. Devemos muito a inúmeras mulheres, cujos nomes injustamente esquecemos. Injustiça maior não terem sido cantadas como mereciam, nem terem os seus nomes registados para futura memória, por mais cronistas e poetas da fibra de Brás Garcia».

Que inda tem Portugal tão generosas / matronas, que não somente guardaram / segredo varonil, mas animosas / seus próprios filhos com suas mãos armaram; / imitando as antigas valorosas, / que aos maridos nas guerras ajudaram, / que brotou sempre a planta portuguesa / assombros de valor e de beleza. –  recita o poeta.
– Assim mesmo, Brás, sem tirar nem pôr! Fomos chegando ao Terreiro do Paço, sós ou em pequenos grupos, a pé, a cavalo ou em coches, dispondo-nos em bandos pela praça, em lugares estratégicos, desde o Arco dos Pregos ao do Ouro, de modo a acorrer prestes ao chamado.

«Decididos a arriscar a vida pela mais nobre das empresas, sabíamos o que estava em jogo e como a responsabilidade de muitas vidas pesava nos nossos ombros, por isso o sentimento era de apreensão e temor. O que também deu azo a algumas anedotas, de que não posso deixar de vos dar um exemplo, protagonizado por alguém que todos conhecemos. Quando nos cruzávamos com algum conhecido, para sabermos se era do nosso partido, perguntávamos o santo-e-senha. Ora aconteceu que passou por nós Dom Manuel Pereira da Cunha e parou para nos falar, porém, ao ouvir a pergunta “Quem vive?”, em vez de dar a contra-senha “El-Rei Dom João IV”, respondeu num tom agastado, Quem vive? Vive minha sogra, que por meus pecados ninguém vive mais que ela! O infeliz era malcasado e vivia infernizado pela sogra, embora esperasse dela uma boníssima herança.

Ainda nos ríamos quando o relógio deu a primeira badalada das nove e João Pinto Ribeiro bradou: Ide então ali, à sala dos tudescos, a tirar um Rei e pôr outro, para logo nos tornarmos para casa! Todos vós, mesmo os que não estivestes presentes, sabeis o que então se passou. Saltámos dos cavalos e coches e corremos para o Paço, onde alguns dos nossos já tinham entrado na sala da guarda real (como se fazia, de ordinário, enquanto se esperava para ser recebido por Vasconcelos) e, em ouvindo o sino, dominaram os archeiros e os guardas tudescos, após uma breve mas renhida luta.

Houve poucos feridos de parte a parte e apenas um morto, o corregedor Francisco Albergaria, que levou dois tiros por ter gritado Viva El-Rei Dom Filipe, em resposta a Dom Miguel de Almeida, que bradava, de espada em punho e com uma força de espantar num ancião de oitenta anos, Liberdade, liberdade! Viva El-Rei Dom João o IV! A multidão ia engrossando na praça: aprendizes, oficiais e mestres de desvairados ofícios, atraídos pelo alvoroço ou convocados pelos Vinte e Quatro dos Mesteres e também pelo Juiz do Povo, gente que o padre Nicolau da Maia trouxera para a nossa causa. Dom Miguel apareceu na varanda e repetiu o grito: Valorosos Lusitanos, viva El-Rei Dom João, o quarto de Portugal, até agora duque de Bragança. Viva! Morram os traidores, que nos arrebataram a liberdade! E o Terreiro do Paço estremeceu com o estrondo dos grandes vivas dados em resposta.»
(Deana Barroqueiro - «1640»)

29/11/2019

Contos Eróticos do Velho Testamento - Cursos e Tese de Doutoramento

Os meus Contos Eróticos do Velho Testamento são objecto de estudo e de Doutoramento na Universidade de Minas Gerais, Brasil. 


Na quinta-feira, 14 de Novembro de 2019 | das 14 às 16h:00 teve lugar no Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, o Curso "Mulheres que Matam" ministrado pela Professora Doutora Lyslei Nascimento, da Universidade Federal de Minas Gerais. 


Ementa: Leitura de alguns contos da coletânea Contos eróticos do Velho Testamento, de Deana Barroqueiro, publicada em 2018. Nessa antologia, a escritora se apropria de episódios, personagens e histórias da Bíblia e as reescreve, ironicamente, a partir de uma atmosfera de sedução e de mistério. Dedicadas a todas as mulheres, maltratadas ou assassinadas, lutadoras e pertinazes, essas narrativas promovem um olhar que retira da mulher a tradicional condição de vítima, alçando-a a uma posição ativa. Nesse sentido, o delito cometido por mulheres parece, também mudar de estatuto. 


Acompanha essa leitura o conto “Emma Zunz”, de Jorge Luis Borges, e os textos teóricos: “Os agentes de Satã: III. A mulher”, de Jean Delumeau, em História do medo no Ocidente, 1993, e “Mulheres que matam”, de Josefina Ludmer, em O corpo do delito: um manual, 2002. 


Programa: 

1 A mulher como agente de Satã: religião, medicina, justiça. 

2 Mulheres e crimes na Bíblia: personagens e histórias quase invisíveis. 


3 Os contos eróticos de Deana Barroqueiro. 


4 Judite: a viúva casta (da Bíblia à Literatura). 


5 Um contraponto: Emma Zunz, de Jorge Luis Borges. 


6 De vítimas a vingadoras: às margens do Éden. 


Bibliografia básica: 

A BÍBLIA de Jerusalém. Judite. Vários tradutores. São Paulo: Paulinas. 1985. 
BARROQUEIRO, Deana. Os langores de Holofernes. In: Contos eróticos do Velho Testamento. Lisboa: Planeta, 2018. 
BORGES, Jorge Luis. Emma Zunz. In:. Jorge Luis Borges: Obras completas. v. 1. Trad. Flávio José Cardozo. São Paulo: Globo, 1998. p. 627-631. (O Aleph, 1949). 
DELUMEAU, Jean. Os agentes de satã: III. A mulher. In: História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 462-522. 
LUDMER, Josefina. Mulheres que matam. In: O corpo do delito: um manual. Trad. Maria Antonieta Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 329-374. 
NASCIMENTO, Lyslei. Mulheres que matam: Judite, crime e redenção. In: JEHA, Julio; JUÁREZ, Laura; 
NASCIMENTO, Lyslei (Org.). Crime e transgressão na literatura na literatura e nas artes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. p. 155-172. Informações: (21) 2221-3138 | gabinete@realgabinete.com.br

26/11/2019

O Museu do Prado Feesteja os seus 200 anos

Quando o Museu do Prado faz anos, a festa é também da rainha portuguesa que o criou: Isabel de Bragança teve uma vida curta e muito infeliz, mas isso não a impediu de criar uma das melhores pinacotecas do mundo. 

(Edição Público Porto19 Nov 2019 Artes - Lucinda Canelas)

Nada mais apropriado do que o museu que deve em boa parte a sua existência a uma mulher celebre o dia exacto do seu 200.º aniversário com uma das suas principais exposições dedicada a duas pintoras, coisa inédita na sua história. Falamos do Museu do Prado, em Madrid, da rainha que o fundou, a portuguesa Isabel de Bragança, e de Sofonisba Anguissola e Lavinia Fontana, duas artistas italianas dos séculos XVI e XVII. Francisco de Goya também lá está (e por direito), numa exposição saída de um projecto mais vasto para o novo catálogo raisonné dos seus desenhos ( fica até 16 de Fevereiro).

Estas são praticamente as últimas propostas de um intenso ano de festa marcado por conferências, restauros e exposições, com destaque para a de Fra Angelico e a que juntou Velázquez, Rembrandt e Vermeer. Foi há precisamente 200 anos que uma colecção destinada à esfera da corte se transformou num importante instrumento de democratização da arte, embrião daquela que viria a ser uma das melhores pinacotecas do mundo, hoje visitada por três milhões de pessoas por ano.

Na sua génese está uma princesa portuguesa, Isabel de Bragança (1797-1818), a primeira de nove fi lhos de um casal eternamente desavindo, o rei D. João VI e D. Carlota Joaquina. Para reforçar as alianças entre Portugal e Espanha, a infanta viria a tornar-se mulher de um dos seus tios maternos em 1816. Fernando VII tinha, então, 31 anos, Isabel apenas 19. Pouco tempo depois, engravidou da sua primeira filha, que morreu aos cinco meses, tornando ainda mais difícil a sua vida na capital espanhola. O marido, de “gesto antipático” e “modos camponeses”, conta Marsilio Cassotti no livro Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha, desprezava-a. (Jornal Público)

Embora não fosse feliz no casamento, Isabel terá conseguido levar Fernando VII a investir na criação de um museu, com as centenas de obras que encontrou armazenadas no Mosteiro do Escorial , convencendo o marido a recuperar o degradado edifício do Gabinete de História Natural. Isabel conseguiu o seu intento, mas morreu do seu segundo parto em 1818, um ano antes da inauguração do seu museu.