05/11/2018

CONVITE - TERTÚLIA COM DEANA BARROQUEIRO

Caros amigos e amigas, não querem vir tomar um café comigo e com o meu marido no dia do meu 45º aniversário de casamento? Pode ser divertido…

Dia 10.Nov - 19 h.
Restaurante Larg’O Tacho
Largo Agostinho da Silva, 1A - Lisboa
(ao Príncipe Real)

A Junta de Freguesia da Misericórdia, tem o prazer de o(s) convidar para a apresentação do livro “1640”, com a participação da autora, Deana Barroqueiro, integrado nos “Encontros com Autores” da Semana do Livremente.

01/11/2018

Apresentação dos Contos Eróticos do Velho Testamento

Caríssimos Amigos/Leitores

Como podem ver, pela ilustração, no dia 16 de Novembro, pelas 18.30 h, na Biblioteca Galveias (Campo Pequeno), a brilhante Prof. Dra. Helena Trindade Lopes, especialista em temas da Antiguidade Pré-clássica, vai apresentar a nova edição dos meus Contos e dos Novos Contos Eróticos do Velho Testamento, reunidos num único volume. Teria muitíssimo prazer em vos ver naquele simpático espaço, se estiverem por Lisboa Aos que estão longe fica a notícia e a sugestão para prenda de Natal, se quiserem oferecer um livro ao/à amado(a).
Um grande abraço
Deana Barroqueiro

Contos Eróticos do Velho Testamento - Entrevista a Deana Barroqueiro

Deana Barroqueiro: “Aquela gente do Velho Testamento era faminta de sexo” 

MARTA CERQUEIRA - OBSERVADOR - CARLA OLIVEIRA - Fotos

Casou virgem aos 27 anos, numa união que dura 45. 
Escreveu "Contos Eróticos do Velho Testamento" e vai processar João Botelho por plágio. 

Deana Barroqueiro tem 73 anos e foi desde que se reformou, aos 55, que se dedicou por inteiro à escrita - Carla Oliveira

A entrevista começou mais tarde do que o previsto porque tinha em mãos uma pilha de livros para assinar. “Sou incapaz de escrever apenas obrigado e está feito. A dedicatória tem que ser feita com tempo”, justifica. O atraso perdoa-se assim que se senta connosco e, sem filtro nem barreiras, fala de sexo, de homens, de mulheres, de uma Bíblia enfadonha, do seu casamento de 45 anos, dos jantares temáticos que prepara para os amigos, dos livros que ainda espera escrever e do plágio de que foi vítima e que, ainda que lhe tivesse tirado a concentração necessária à escrita, nunca lhe tolheu a capacidade de criar.
Assim é Deana Barroqueiro, uma mulher de 73 anos que viaja na história para explicar o presente. Assim o fez nos livros “Contos Eróticos do Velho Testamento” e no “Novos Contos Eróticos do Velho Testamento”, reeditados agora pela Editora Planeta num único volume a que voltou ao nome original “Contos Eróticos do Velho Testamento” e que diz ser de leitura obrigatória para quem quer perceber a raiz da discriminação sexual.

Serve este livro para explicar esta relação de inferioridade/superioridade entre homem e mulher? 
O que as mulheres têm sofrido ao longo de séculos vai buscar as suas raízes aos preconceitos, aos maus exemplos e à prepotência masculina que aparece no livro dito sagrado do Velho Testamento. São nessas histórias de exemplo, e que eu considero péssimos exemplos, habitadas por aqueles velhos patriarcas, libidinosos, hipócritas e cheios de vícios, que vemos as mulheres serem tratadas como se fossem objectos.

Indo à génese, conseguiu encontrar uma explicação para esta relação de superioridade masculina?
Eu não pretendia chegar a uma explicação, eu queria sim chegar de uma maneira quase física, quais as sensações das mulheres face a um mundo masculino que as aprisionou. Os homens escritores têm a mania que sabem muito sobre as sensações das mulheres, mas duvido que tenham o conhecimento tão profundo que qualquer uma de nós possa ter”.

E ainda aprisiona?
Aprisiona, claro. Basta olhar para o islamismo, ou o fundamentalismo judaico. Eu queria também mostrar a mulher, literariamente falando, do ponto de vista de uma mulher. Ou seja, não só através de personagens mulheres, mas também da escritora mulher. Foram poucas as mulheres com a ousadia de pegar nestes temas ditos sagrados.

Este livro podia ter sido escrito por um homem? 
Acho que não. Os homens escritores têm a mania que sabem muito sobre as sensações das mulheres, mas duvido que tenham o conhecimento tão profundo que qualquer uma de nós possa ter.

Fala no livro de mulheres “consideradas mercadorias e inferiores aos animais, conceito que perdura até hoje”. Será mesmo assim? 
Em muitos sítios, sim. As mulheres ainda são vendidas. A escravatura sexual, o tráfico humano, são tudo temas muito atuais. E se formos a outras tradições, como a indiana, ainda há crianças que são vendidas pelos próprios pais e forçadas a casar. Mas basta recuar ao tempo da minha mãe, em que a liberdade das mulheres era quase nula e se formos buscar os assédios sexuais, isso aí então, era o pão nosso de cada dia. Em Portugal, não existia o piropo, existia a obscenidade.

A Deana diz no livro que sofreu na pele o assédio sexual e a violência física e psicológica que é comum a muitas mulheres. 
Todas sofremos. Tivemos foi que aprender a dizer que não e a levar com as consequências, como perder os empregos.

Foi o seu caso? 
Ninguém me fechou numa casa de banho para me violar. Eu até casei virgem, embora só tenha casado aos 27 anos. Mas o assédio do dia a dia, nos transportes públicos, os apalpões, vivi isso tudo. Só não senti isso no trabalho, talvez por ser professora. Como a Maria Teresa Horta disse uma vez, a nossa geração inaugurou o subir na vida pelo nosso talento e não deitadas de costas numa cama.

O movimento #metoo é algo de inevitável? 
Chegámos ao momento de dizer basta. Foi bom esse movimento aparecer para que se fale abertamente do assunto, mas, como todos os movimentos, tenho sempre muito medo dos excessos. O que vejo acontecer é meterem no mesmo saco a violência sexual praticado sobre crianças que não tinham voz na altura e que anos mais tarde conseguem dominar o trauma e falar, outras que foram violadas sem se poderem defender e outras ainda, essas sim, que se aproveitam desses casos. Há muitas mulheres perversas, muitas mulheres que exercem um jugo sobre os homens.

Houve algum momento da história em que a mulher tenha sido figura dominante? 
As persas na antiguidade, antes de aparecerem os muçulmanos, eram mulheres livres e guerreiras. Na nossa história, era tudo uma questão de posses. Se uma mulher tinha posses, tinha poder. Mas no geral, foram sempre subjugadas. Aliás, sobretudo no século XVII, as mulheres vão para o convento para poderem ser livres, por estranho que isto pareça. Era a única forma de poderem estudar, para poderem ser músicas, médicas, cientistas, literatas.

O novo livro "Contos Eróticos do Velho Testamento" vai estar à venda a partir de dia 16 de novembro por €18,85

 E hoje em dia essa inferioridade feminina vê-se em quê?
Basta ver que foi preciso arranjar quotas para que as mulheres tenham lugar na sociedade. Eu defendo as quotas enquanto as coisas não se modificarem de vez, visto que o processo é longo. O que libertou a mulher em Portugal foi o ter que trabalhar, o ter que ajudar o marido. A história do homem ganhar o pão e a mulher ter que ficar com os filhos acaba com as dificuldades financeiras que obrigam a mulher a começar a trabalhar. Esse dinheiro trouxe-lhe uma liberdade, mesmo quando subjugadas ao poder masculino.

Essa inferioridade é só culpa dos homens? 
Não, as mulheres aceitam. Eu, por exemplo, quando casei, pensei para mim: ‘Vou dar-lhe três meses para que mostre as qualidades do dia a dia’. Se tentasse aprisionar-me não durava mais do que esses três meses.

E dura há quantos anos? 
Faço 45 anos de casada no dia 10 de Novembro.

Passou no teste.
Com distinção [risos].

Em Portugal temos muitas famílias matriarcais. Como é que se vive essa dualidade entre mulheres dominantes, mas subjugadas ao poder masculino? 
A minha família é um exemplo disso. Eu fui filha de emigrantes e a minha mãe era viúva de um vivo, uma vez que o meu pai viveu praticamente toda a vida nos Estados Unidos e foi ela que criou os três filhos, completamente independente do meu pai.

Essa superioridade masculina vê-se mais cá fora do que em casa? 
É um preconceito herdado deste livro sagrado que os padres promoveram por todo o lado. Uma vez quase que saí a meio da cerimónia de casamento de uma amiga quando ouço o padre dizer que ela tinha que obedecer ao marido, nem que ele lhe batesse. Quando ouvi isso, tive que me segurar para não sair porta fora ou dizer alguma coisa ao padre.

Isso já foi há muito tempo? 
Não há tanto tempo quanto isso. Aconteceu na minha geração. Só depois do 25 de Abril é que os horizontes se abriram, não sei como é que ainda há quem diga mal do 25 de Abril. Por amor de Deus, parece que não conheceram a ditadura.

Este livro, além de uma viagem histórica, é também uma viagem sexual. 
É uma viagem maravilhosa feita através das sensações. O pretexto para o erotismo foi-me dado pelo próprio Velho Testamento. Aquelas histórias estão imbuídas de sexo, aquela gente era faminta de sexo. O sexo está em todo o livro do Génesis com uma força incrível. Quando comecei a escrever o primeiro livro tinha 55 anos, tinha acabado de me reformar e pensei: ‘Isto é capaz de ser um bocado escandaloso’. Mas era um desafio. Estas histórias contam as sensações das mulheres através dos olhares dos homens, algo que sempre me irritou. De maneira que decidi dar uma perspetiva diferente.

É fácil escrever sobre sexo? 
Quando comecei a escrever o primeiro livro, escrevi cinco contos em 15 dias. Achei que tinha descoberto uma grande veia ou então era a raiva de ver a injustiça com que as mulheres eram tratadas naqueles textos. Entretanto rebentou o escândalo da Casa Pia e tudo aquilo enojou-me a tal ponto que deixei de escrever. Só quando a história acalmou é que escrevi os outros três contos e acabei o primeiro livro. E se este primeiro livro se focava na história dos homens, no segundo decidi dar voz às mulheres vencedoras, as mulheres que conseguiram dar a volta. Foi aí que surgiu “Os novos contos eróticos do Velho Testamento”.

Este novo livro é uma junção dos dois?
Mais do que uma junção dos dois, tentei fazer uma oposição dos dois. A primeira parte é sobre as mulheres sofridas, a segunda parte são as mulheres mais valentes, as sobreviventes.

Recorrer à história é uma forma de perceber melhor o presente?
Sim, nada como ler a Bíblia para ter essa noção. Aliás, considero a Bíblia um texto muito fraco, muito repetitivo, com exemplos muito inferiores a obras como a Odisseia ou a Ilíada. Basta ver os provérbios bíblicos, que são arrasadores, e de onde vêm os nossos próprios provérbios. ‘Quanto mais me bates mais eu gosto de ti’ ou ‘ Entre marido e mulher ninguém mete a colher’. Como é que é possível alguém dizer isto? Só pode ser um homem a dizer isto. Aliás, basta ver a história daquele juiz anormal que disse que as mulheres na Bíblia eram apedrejadas e que justificou uma agressão dizendo que a Bíblia pune o adultério com a morte. Pois pune, é isso mesmo que quero denunciar com estas histórias. Acho que vou sugerir à editora que envie os meus contos eróticos para o tribunal da Relação do Porto para eles lerem.

Saber mais sobre a condição feminina alterou a forma como olha para os homens?
Eu gosto muito dos homens, um mundos sem homens era uma seca. Sou totalmente defensora do casamento homossexual, ainda que seja heterossexual e não ache piada nenhuma às mulheres, fisicamente falando. Quer dizer, sei apreciar um corpo bonito, mas aprecio muito mais o corpo de um homem, mesmo que não seja tão bonito. O meu marido é feio, mas é um homem inteligentíssimo, qualidade que aprecio muito num homem.

Entre romances e poemas, Deana Barroqueiro tem já 14 obras editadas
Entre romances e poemas, Deana Barroqueiro tem já 14 obras editadas. Como é que faz a pesquisa histórica para os seus livros?
Viajo muito através dos rodapés dos textos, que me levam sempre a novos textos. Além disso, tenho uma grande biblioteca em casa e uma maior online. São gigas e gigas de documentos. Para este livro, por exemplo, cheguei a ler um livro do Egipto sobre medicina com mais de três mil anos. Sou uma espécie de rato de biblioteca, ainda que não vá a bibliotecas porque vejo muito mal, sou praticamente cega. É através do computador que consigo chegar a tudo o que preciso. Acho que se as pessoas lessem mais, falavam menos, principalmente de coisas que não conhecem.

João Botelho e o caso do plágio Em março, acusou João Botelho de plágio, depois de ter visto no filme “Peregrinação”, personagens que existem apenas no seu romance “O Corsário dos Sete Mares”. 
Passei os piores momentos da minha vida por causa dessa história. Estive sujeita a ameaças da ArtFilms, produtora do João Botelho, que diziam que me iam processar e pedir uma indemnização, à grosseria do Botelho, que escreveu uma crónica no jornal Público, na qual chamou aos jornalistas hienas porque me apoiaram. O problema é que ele esquece-se que me escreveu uma carta a admitir o plágio e a pedir desculpas.

Só descobriu que tinha sido plagiada quando foi ao cinema ver o filme?
Não. Eu fui contactada por dois leitores que me escreveram a dizer que tinham gostado mais do livro do que do filme e eu, de boca aberta, questionei: ‘Mas que filme?’. Era o “Peregrinação”, de João Botelho. ‘Até tem o seu nome no genérico’, disseram-me. E eu sem saber de nada. Começo a pesquisar na internet e leio as entrevistas do João Botelho em que fala das minhas personagens e episódios sem nunca referir o meu nome.

São personagens que só existem no seu livro? 
Sim. Até chamei o meu marido, para que visse comigo que aqueles nomes, aquelas personagens não existiam na “Peregrinação”. Aquilo era meu. Fui imediatamente ver o filme e nem lhe sei explicar a sensação que é começar a ver as cenas que eu tinha inventado passadas à tela. As lágrimas caíam-me e, ao mesmo tempo, sentia-me violada.

Se tivesse sido avisada, aceitaria participar no filme? 
Seria uma honra. Eu admirava o João Botelho. Mas assim, senti-me atropelada, porque, basicamente, o João Botelho não tinha filme se cortasse a parte que adaptou do meu romance. São 18 minutos de filme seguidos baseados na minha história. Se dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, imagine a quantidade de imagens que estão naqueles 18 minutos.

O que fez? 
Cheguei à Leya, a editora do meu livro, e apresentei o caso. Eu não queria direitos de autor, não era isso que eu pedia.

O que queria então? 
Queria que me dessem os créditos. O meu nome aparecia no final de toda a ficha técnica, na parte dos agradecimentos, quando, na verdade, o meu livro serve de guião ao filme. Eu não lhe pedi para alterar o filme, porque isso não era possível. Pedi-lhe apenas que, nas entrevistas, dissesse que o meu livro era uma das fontes de inspiração. Nunca fez isso.

E o filme é agora o candidato português ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. 
Eu não deixo esta história morrer precisamente por causa disso. Em março, a Academia Portuguesa de Cinema nomeou o João Botelho para o prémio Sophia de melhor adaptação de uma obra literária, neste caso a “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto. Mas a obra que ele adaptou é “O Corsário do Sete Mares” de Deana Barroqueiro. Escrevi para a Academia, decidi denunciar a história nas redes sociais e a comunicação social acabou por pegar no caso. É que de repente, eu passei a ghostwriter.

Vai a tribunal?
Finalmente a Leya decidiu pegar no caso e acabou de me dizer que sim.

Que conclusões tira desta história?
Conclusões muito tristes. Isto foi uma canalhice, não tem outro nome.

Nada nesse episódio a fez ter vontade de parar de escrever?
Não. Bem, no início sim, eu nem me conseguia concentrar. Mas eu sem escrever morro. E há uma coisa que ninguém me pode tirar, que é a capacidade de criar.

E essa capacidade vai levá-la, em 2019, a lançar para o mercado mais um livro histórico, desta vez sobre cozinha, que sei ser uma das suas muitas paixões. 
Costumo fazer uns jantares temáticas para os meus amigos, nos quais recrio pratos do século XVI ou XVII. Eu até cozinho bem e adoro organizar jantares, mas este não é será um livro de receita, será sim um livro de cozinha. Histórico, claro.

O novo livro "Contos Eróticos do Velho Testamento" vai estar à venda a partir de dia 16 de Novembro por €18,85 

19/09/2018

Tirar a nódoa

Tirar a nódoa


Artigo do jornalista João Gobern sobre o plágio de João Botelho que, agora, terá de tratar deste triste caso com os advogados da editora Leya.

15/09/2018

POESIA, UM DIA - 21 DE SETEMBRO

A minha primeira sessão com os leitores, neste início de ciclo de actividades Outono/Inverno. Se os meus amigos das Beiras estiverem por perto e quiserem conversar comigo, ficarei felicíssima por matar saudades. Em Vila Velha de Ródão, 21 de Setembro, às 15.30.
POESIA, UM DIA - 21 DE SETEMBRO 15H30 - A NATURÁGORA recebe uma conversa com a escritora Deana Barroqueiro intitulada «TRÊS POETAS E UM PREGADOR NA RESTAURAÇÃO DE 1640». Os poetas e o pregador de que nos falará, muito bem como sempre, Deana Barroqueiro são personagens do seu mais recente livro «1640». Trata-se dos poetas Soror Violante do Céu, D. Francisco Manuel de Melo, Brás Garcia de Mascarenhas e do pregador Padre António Vieira. Se gosta de história não pode faltar. Se gosta de poesia e quiser conhecer uma extraordinária comunicadora também não. Entrada Livre Local: Zona de Lazer junto ao cais do Tejo. Uma organização da BMJBM no ano do seu 10º aniversário.

28/08/2018

Festa do Livro em Belém

No dia 31 de Agosto, sexta-feira, a partir das 18 horas, vou estar aqui, nos jardins do Palácio Nacional de Belém, no stand da Leya, para conversar com os leitores que aparecerem. Agora já consigo assinar autógrafos, o que não pude fazer na Feira do Livro de Lisboa, por ter o braço direito partido.

25/08/2018

Repórter TVI: "Compadrio" em Pedrógão

Repórter TVI: "Compadrio" em Pedrógão
22 de Agosto 2018

Uma investigação TVI releva um alegado esquema de compadrio na atribuição de donativos para as vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande. As suspeitas de uso fraudulento de donativos já eram conhecidas, mas agora a investigação da TVI revela que essas fraudes foram cometidas com o consentimento e com a ajuda de poderes públicos locais. O presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande e o então vereador Bruno Gomes sabem, desde o ano passado, da existência de irregularidades no processo que envolveu a atribuição de donativos para a recuperação das casas que arderam no incêndio. Testemunhos inéditos, na primeira pessoa, garantem que tiveram mesmo indicações para adulterar os processos de candidatura, forjando moradas de residência, com a conivência dos poderes públicos locais. "Compadrio" é uma investigação da jornalista Ana Leal para ver na íntegra esta noite no Jornal das 8.


São 36 minutos de boa reportagem que vale a pena ver NESTA PÁGINA

23/08/2018

Al Jazeera corta papel dos muçulmanos na escravatura e culpa portugueses


 Canal do Qatar elimina primeiro episódio de série documental, co-produzida pela RTP e LX Filmes, onde se falava do papel dos muçulmanos no tráfico de escravos. E diz que foram os portugueses a "estabelecer" este comércio.

« Para expandirem a sua riqueza, os portugueses estabeleceram o comércio de escravos, em que África era o centro». É desta forma que o canal de notícias Al Jazeera, do Qatar, anuncia na sua página de Internet o "primeiro episódio" das Rotas da Escravatura, uma série europeia, apoiada por fundos comunitários, de cuja lista de produtores, encabeçada pelo canal francês Arte, fazem parte a RTP e a LX Filmes.

O problema, como confirmou Luís Correia, diretor da LX Filmes, depois de ter sido confrontado pelo DN com esta versão, é que o alinhamento apresentado pelo canal "está alterado, não corresponde ao original". Desde logo por apresentar como primeiro episódio aquele que, na realidade, "é o episódio dois", de uma série de quatro, em que se "conta toda a história da escravatura, desde a antiguidade, passando pelos séculos XIV e XV, em que Portugal esteve mais envolvido", até à abolição. "O que fizeram foi não exibir o episódio um e exibir o episódio dois como se fosse o primeiro", disse.

De facto, confirmou também Luís Correia, a Al Jazeera não só suprimiu o primeiro episódio como alterou "o lettering do segundo, que também não é o original", para que o episódio exibido passasse a ser identificado como o primeiro. E sobre o que versava o episódio desaparecido na versão exibida pela televisão do Qatar? De acordo com a apresentação original do documentário, enviada ao DN pelo diretor da LX Filmes, o referido capítulo inaugural, intitulado: "641-1375 - Para Além do Deserto", examina "o processo que levou o Império Muçulmano a tecer de forma duradoura uma imensa rede de tráfico de escravos pela África, Médio Oriente e Ásia". "É esse alinhamento de quatro episódios, que foi já exibido em França e que a RTP tem previsto agendar em breve para emissão, que corresponde ao documentário", acrescenta ao DN Luís Correia, lamentando a opção do canal árabe: "É muito desagradável e triste. Põe problemas para quem vê isto fora de contexto. No documentário, é explícito que há uma lógica de rigor histórico, de compreender a escravatura como um todo", diz.

Infante D. Henrique, o "salteador"

No episódio transmitido no passado dia 16 pela Al Jazeera - canal seguido por largos milhões de espectadores em todo o mundo, sobretudo nos países islâmicos -, a escravatura em África é assim apresentada como uma prática fundada pelos portugueses: "O pequeno Reino foi o primeiro a assaltar a costa de África", é assegurado na narração, acompanhada de imagens de Lisboa, da Costa de Lagos e Sagres e de São Tomé - todas captadas pelas produtoras nacionais que produziram o documentário.

Entre os historiadores ouvidos neste capítulo consta António de Almeida Mendes, da Universidade de Nantes, que descreve Henrique, O Navegador, como tendo sido inicialmente "o líder de um bando de salteadores, de piratas que fazem cativos". O DN perguntou a Almeida Mendes, através do seu endereço de e-mail na universidade francesa, se se revê nas conclusões gerais sobre o papel de Portugal apresentadas pelo documentário, em particular considerando o enquadramento feito pela Al Jazeera. Até ao momento, não obteve resposta.

 Quem não tem dúvidas de que a opção da Al Jazeera "não é inocente" é João Pedro Marques, historiador e romancista especializado na história da escravatura. "É evidente que tem razões ideológicas e políticas. Querem, no fundo, arranjar um bode expiatório: dar a ideia de que os muçulmanos não tiveram intervenção nenhuma neste assunto e colocarem o odioso da questão todo do lado dos europeus", critica. "Isto é um ato de censura e um ato de censura com um objetivo ideológico", acrescenta. "É na altura da expansão muçulmana e da conquista pelos árabes [de novos territórios em África] que o tráfico cresce imenso", conta. "No somatório total deverá ter sido até maior do que o transatlântico".

Sobre o episódio relativo a Portugal e ao tráfico transatlântico, envolvendo o envio para as Américas, ao longo dos séculos, de mais de 10 milhões de escravos africanos, além dos cerca de 1,5 milhões que se estima terem morrido na travessia do Atlântico, o historiador não minimiza o "papel fundador" que os portugueses efectivamente neste tiveram. Mas defende que esse não pode ser dissociado do contexto geopolítico da época, sobretudo a partir da assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494: "É a divisão do mundo entre os países ibéricos, com o beneplácito da Santa Sé, que faz com que Portugal tenha durante 200 anos, até ao século XVII, o usufruto exclusivo do negócio africano, no qual se inclui o tráfico de escravos".

João Pedro Marques tem também dificuldades em aceitar a descrição do papel do Infante D. Henrique feita por Almeida Mendes. "É uma transposição das nossas categorias de avaliação para o século XV, o que não é correto", diz. "Ele é historiador e há termos próprios do século XV para dizer o que as pessoas faziam. Os escudeiros do Infante D. Henrique iam em busca de honra, de façanhas, de cativos, de pessoas que pudessem encontrar. Piratas e salteadores não eram".

A pirataria, recorda, "tinha uma classificação própria". Os homens do Infante D. Henrique, defende, "tinham carta de corso [corsários], o que lhes dava autorização para atacar e capturar. Mas não eram só as pessoas do Infante D. Henrique", acrescenta. "Por toda a Europa e no mundo muçulmano havia coisas equivalentes. Havia uma tradição de corso que os muçulmanos continuaram a praticar até ao século XVIII, XIX. Assaltaram, por exemplo, as costas do Algarve e de outras partes da Europa para capturar escravos até muito tarde".

No entanto, acrescenta ainda, entre os portugueses, "o número de viagens de captura e a prática de desembarque foi limitadíssima. Usou-se nos primeiros contactos mas foi abandonado medida que se foi avançando para o Sul. O desembarque tinha enormes riscos, até do ponto de vista sanitário, devido às doenças", explica, acrescentando que os portugueses encontraram uma alternativa para o tráfico de escravos entre residentes dispostos a fazer negócio. "Acredita-se que os primeiros negros foram provavelmente comprados a uma caravana árabe que seguia para Norte, para o mediterrânico, para a zona de Marrocos".

Tráfico transatlântico começou há 500 anos

De acordo com os relatos históricos, os primeiros cativos africanos chegaram a Portugal em 1441, trazidos ao Infante D. Henrique por Antão Gonçalves e Nuno Tristão. A primeira venda decorreu em Lagos, em 1444, envolvendo 235 homens, mulheres e crianças. A chegada é descrita por Gomes Eanes de Zurara na Crónica da descoberta e conquista da Guiné. O relato, que não esconde o sofrimento evidenciado pelos escravos, é reproduzido no episódio dois da série Rotas da Escravatura.
Mais tarde, Portugal, Espanha e outros países começaram a enviar escravos da metrópole para vários destinos, como as Caraíbas.Já o primeiro transporte de escravos directamente de África para as Américas - como recordou o jornal britânico The Independent foi aprovado há exactamente 500 anos, no dia 18 de Agosto de 1518, pelo rei Carlos I de Espanha. Os primeiros escravos a fazerem esse percurso terão sido obtidos através de um dos entrepostos que os portugueses, já na altura possuíam na costa africana.

28/06/2018

Feitos ao bife (à Stroganov)

Quando um jornalista é culto e se dá ao trabalho de pesquisar e investigar muitos temas além do tema que trata (e este género de jornalista é cada vez mais raro, infelizmente), pode transformar uma crónica sobre futebol numa deliciosa peça literária, que até ensina História. Parabéns, Rui Miguel Tovar, e porei a sua história sobre o Stroganov no meu livro de culinária histórico, se me der autorização.

Feitos ao bife (à Stroganov)
Rui Miguel Tovar
Diário de Notícias

Sepultado em São Petersburgo, o barão Grigori Alexandrovitch Stroganov dá o nome ao bife, com a preciosa ajuda da segunda mulher (Juliana), filha da marquesa de Alorna. O elo português está sempre presente, até um cego vê 


O Mundial já não é o que era? A pergunta nada tem de retórico, juro. Afinal, sempre há equipas sensação nestas andanças futebolísticas de alto gabarito (e faz parte do folclore escrever, no final, sobre todo o tipo de cenários e surpresas, fazer listas com os melhores, os piores, os espantosos, as desgraças, you name it). 
 A ouvir há poucochinho o treinador alemão (a cabeleireira da minha mãe gosta especialmente dele, espero que não seja pelo penteado) referir os erros cometidos com o México e à necessidade - urgência? - de aprender com os desacertos e as escorregadelas, vêm-me à lembrança as conferências de imprensa dadas em catadupa pelos jogadores portugueses. À sacramental pergunta "o que tem a dizer sobre o comportamento da selecção no jogo com Marrocos?", os nossos ladinos rapazes fecham-se em copas e, incapazes de analisarem a situação com frieza, debitam tiradas do género "vencemos, não foi? isso é que importa!". Cá para mim, deviam orgulhar-se da vitória, escusado será dizer, mas ser capazes, ao mesmo tempo, de reconhecer a evidência: temos de jogar melhor, temos equipa para jogar melhor, temos de vencer e convencer. Estamos à beira de fazer história no Mundial de futebol, caramba!

Caso contrário, estamos feitos ao bife. Tártaro? Antes fosse. É mais bife stroganoff, às tirinhas. Para tal, é preciso sair daqui da Rússia e voltar a Portugal, mais concretamente ao bairro de Alvalade. Sai do metro, ali na praça, do lado do cinema, e segue em frente até virar na primeira à esquerda. Agora sim, podemos conspirar à vontade. Estamos na Marquesa de Alorna. Quem?

Ora aí está. A senhora chama-se Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (futura marquesa de Alorna). Vive 88 anos, uma proeza no século XIX. Nesse considerável hiato temporal, Leonor leva uma vida deveras atribulada. Para abrir o apetite, é feita prisioneira aos 8 anos, juntamente com mãe e avó, no convento de São Félix em Chelas, por ser filha do D. João de Almeida (2.º marquês de Alorna), suspeito do conhecimento do crime dos Távoras. A ira do marquês de Pombal só lhe passa com a subida ao trono de D. Maria I. Aí, Leonor é libertada finalmente em 1777, aos 27 anos. Na prisão, estuda as obras de Rousseau, Voltaire, Montesquieu, Diderot, entre outros, e dedica-se à composição de poesia, que lhe valerá uma obra da sua autoria chamada Poesias de Chelas. Além de escritora, é pintora e tradutora (domina admiravelmente quatro idiomas, com excelência no francês).

Em liberdade, Leonor demora dois anos a encontrar marido e casa-se em 1979 com Karl von Oyenhausen-Gravenburg. Vivem em Viena, por conveniência de trabalho militar do brigadeiro. Lá, consomem o amor com filhos e mais filhos. Ao todo, oito. A terceira é Juliana Maria Louise Sofia Carolina von Oyengauzen, nascida em 1782. Aos 3 anos, estabelece-se em Portugal por força do novo trabalho da mãe como dama de honor de Carlota Joaquina. Tal como Leonor, também Juliana faz-se mulher de letras. Só que sofre um desgosto enorme quando é obrigada a casar-se em 1800 com José Maria de Aires, conde de Ega e recém-empossado embaixador português da corte espanhola em Madrid. É lá que Juliana encontra o verdadeiro amor, o barão Grigori Alexandrovitch Stroganov.

E agora? Grande cambalacho. Indiferente à opinião das pessoas reais ou surreais, Juliana torna-se mesmo amante de Stroganov. Até 1807, altura em que o casal regressa a Portugal, onde o conde de Ega recebe com entusiasmo as tropas de Napoleão e até faz parte do novo governo liderado por Junot, na organização de festas in. Coincidência das coincidências, Juliana encosta-se a Junot e torna-se sua amante oficial. E agora? Grande cambalacho, parte 2. A vida dá muitas voltas e o conde de Ega volta a sair de Portugal, novamente na companhia de Juliana, agora à pressa, até França, devidamente protegido por Napoleão a troco de uma pensão de 60 mil francos por ano.

O dinheiro não é tudo. Pensa Juliana. Em 1811, abandona o conde e corre para os braços de Stroganov, então a curtir o ambiente na Suécia. Dez anos depois, Stroganov é chamado pelo imperador Nicolau para trabalhar em São Petersburgo e faz-se acompanhar por Juliana - além da sua mulher, claro.  E agora? Grande cambalacho, parte 3. A sociedade daqui (de São Petersburgo) vai aos arames com o affaire e Stroganov convive com a crise na boa-vai-ela, sem ligar às coscuvilhices. Quando a mulher morre, em 1824, marca casamento com Juliana em 1827, na cidade de Dresden (capital da Saxónia).

A cerimónia é mal vista pela sociedade. Mais uma vez, Stroganov passa por cima desse pseudo-dilema com uma classe do além, até porque vive feliz com Juliana até ao fim dos seus dias, em 1857. Trinta anos de amor, os últimos cinco a comer bife à Stroganov. Como assim? O barão piora gradualmente de saúde e acaba por cegar. Nesses tempos, Juliana é quem lhe dá de comer e corta-lhe o bife às tirinhas. Lá está, bife à Stroganov. Às tirinhas.

Que é como Portugal joga, sem alma nem nada. Valha-nos São Ronaldo, primeiro, e São Patrício, depois. De resto, uma pobreza franciscana. Excepção feita às bolas paradas. Aí, alto e para o baile: dos quatro golos, um é de penálti, outro de livre directo e mais um de canto curto - em falta, só o frango de De Gea. Falta só um jogo na fase de grupos, o do desempate. Ou vamos (como em 1966, 2006 e 2010) ou já fomos (1986, 2002 e 2014). Com o Irão, basta-nos o empate para seguir em frente. Isto se queremos continuar à Stroganov. Se nos aventurarmos em conciliar vitória com jogo bonito, é um bife tártaro. Precisamos de futebol cru, sem cozinhados nem molhos. Num prato apresentável, de preferência.

20/05/2018

Festival Literário de Bragança

Amanhã, dia 21 de Maio, às 21 horas, vou estar em Bragança, a conversar com os leitores e a ser entrevistada sobre o romance «1640» e outros temas, no Centro de Fotografia Georges Dussaud (CFGD). Aqui fica o programa variadíssimo do Festival Literário de Bragança:

12/05/2018

Museu dos Descobrimentos - Petição

Caros amigos/as Começou agora a circular uma petição para que se crie em Lisboa um Museu dos Descobrimentos, da Expansão e da Portugalidade. É o resultado de um movimento que visa opor-se àqueles que não querem, de forma alguma, que haja um museu designado "das Descobertas" ou "dos Descobrimentos". Os promotores da petição precisam de 5 mil assinaturas. Eu não estou ligado à petição. Ainda assim, chamo-vos a atenção para ela, na convicção de que poderá interessar-vos e de que poderão eventualmente assiná-la. Se forem esses os casos, peço-vos, também, que a façam circular para que este esforço de defesa de visões mais justas e equilibradas da nossa história possa chegar a bom porto.
  Assinar Aqui

01/05/2018

O Vampiro, as Hienas e a Zombie

A minha resposta ao grosseiro artigo que João Botelho escreveu contra mim, desdizendo tudo o que tinha admitido, no ano passado, mas em que me deu mais argumentos a favor do plágio e da minha afirmação de que não leu a Peregrinação, pois insiste em dizer que eu tirei nomes e personagens da obra de Fernão Mendes Pinto, onde elas não estão. Os advogados da sua produtora Ar de Filmes (que em Novembro/Dezembro, admitiram a adaptação de partes do meu romance, que seria publicitada numa cinta para o livro), escreveram-me uma carta cheia de ameaças de tribunais e indemnizações, por estar a difamar a produtora, o que já foi contestado pelos meus advogados, visto, como todos sabem, eu nunca proferi uma palavra contra Ar de Filmes, mas apenas contra o realizador. Portanto, queriam apenas fazer-me calar por medo. Não sou medrosa e nunca me calo quando tenho razão.


Em 11/04, recebi uma carta dos advogados da Ar de Filmes, produtora do filme Peregrinação, acusando-me de ter proferido contra ela “acusações e imputações falsas” de plágio do romance O Corsário dos Sete Mares, “sem qualquer fundamento”, “causando-lhe danos avultados e pondo em causa o seu bom nome, honra e reputação”. Se não me calasse, recorreriam aos tribunais para serem compensados. Na manhã de 12/04, o “artigo de defesa” do sr. João Botelho (JB) era publicado no PÚBLICO. Timing perfeito: na véspera a produtora silenciava-me com ameaças para que o realizador me pudesse desacreditar sem contraditório.

 Acusei JB de uma adaptação não autorizada de partes do meu romance no seu filme, porque se apresentou como único autor do argumento. Em circunstância alguma, proferi acusações ou imputações contra a Ar de Filmes. Mencionei apenas os seus encontros com a Casa das Letras/Leya, que os contactou, a pedir esclarecimentos. Nestas reuniões, como representante do realizador, a produtora admitiu o plágio, pois só assim se explica ter aceitado que a editora fizesse uma cinta para o livro, referindo a adaptação de episódios do romance.

 A Ar de Filme e JB nunca quiseram ver-me ou falar comigo. Em Dezembro, num e-mail para a editora, pedindo para mo reenviarem, chegou-me uma mensagem jocosa em forma de carta, supostamente do realizador, fazendo mea culpa pelo plágio. Nada que se pareça com a “carta delicada e pessoal que – no puro intuito de usar de boa educação e de respeitar uma eventual susceptibilidade, ainda que descabida, de uma senhora que desconhecia – por gentileza lhe remeti”, que JB menciona no artigo, dando o dito por não dito e, tal como a sua produtora, contradizendo o que haviam acordado e ameaçando-me com tribunais e compensações.

 Ameaçam-me e querem dinheiro porque me queixei do atropelo que fizeram aos meus direitos de autor e propriedade intelectual? Eu, a lesada, nunca pedi qualquer pagamento, apenas exigi que indicassem a obra e a autora, como a ética e a lei obrigam, no filme, DVDs, cartazes, textos e entrevistas. Não o fizeram e julgaram-se a salvo, porque o assunto ficava no segredo dos gabinetes da produtora e da editora.

“Vivemos tempos ruins, os de Trump, os do triunfo das inverdades”, diz JB em sua defesa, atacando-me em termos tão grosseiros que não merecem resposta. Patético esforço de um náufrago que esbraceja para se manter à tona e se afunda mais depressa.

Vivemos num mundo de faz-de-conta, de falsos génios e ídolos de pés de barro, em que alguns se servem de todos os meios, mesmo dos ilícitos, em proveito próprio, vangloriando-se, impunemente, de serem vampiros que sugam o sangue das vítimas e lhes roubam a alma. No caso Deana Barroqueiro versus João Botelho, eu sou a Zombie e o realizador é o Vampiro, pois assim se rotulou, quando admitiu que vampirizou O Corsário dos Sete Mares, fruto do meu sangue, suor e lágrimas de quase cinco anos de investigação e escrita.

 Em 2018, fazendo tábua rasa dos compromissos, JB continuou sem referir o meu livro como uma das fontes do filme, que está a ser exibido para as escolas, apresentando aos alunos muitas cenas de O Corsário dos Sete Mares de Deana Barroqueiro, como sendo da Peregrinação. O que, ao contrário do que dizem alguns comentadores, não é a melhor introdução à leitura da obra de Fernão Mendes Pinto, mas um pastiche enganador e antipedagógico. Como professora de Literatura Portuguesa, com 35 anos de serviço, não me pude calar.

O caso foi noticiado na imprensa de referência (como este jornal), que JB apoda de pasquins e os seus jornalistas de hienas, por terem denunciado o plágio, depois de lerem o e-mail com a sua admissão de culpa. O realizador diz que a acusação de plágio é infundada, mas, segundo a Sociedade Portuguesa de Autores e o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, “comete o crime de contrafacção (vulgarmente designado plágio) quem utilizar, como sendo criação ou prestação sua, obra, prestação de outro artista”; “seja mera reprodução total ou parcial”.

Movo-me no meio académico, por isso, o sr. Botelho faz questão de vincar que, como não conhece a minha obra (e adaptou-a?), ao contrário do que fez com Alexandre O'Neil, a quem pediu para “roubar” (aspas suas) o título de um poema, no meu caso, “não existia a necessidade de pedir qualquer autorização e apenas por princípios de trato dirigi posteriormente à autora uma comunicação”. A quem não tenha o estatuto de um O'Neil, JB já pode roubar (sem aspas, o verbo é dele) livremente, não apenas um título, mas toda ou parte significativa da obra? Se é assim que, em Portugal, se pratica a nobre Arte do Cinema, onde irá ela parar? 

JB tem dito que levou um ano a adaptar a obra de Fernão Mendes Pinto (FMP), mas, ao mesmo tempo, fala das personagens, cenas e tramas de O Corsário dos Sete Mares atribuindo-as à Peregrinação. Se fez o que diz, como pode confundir as duas obras? Por desleixo ou má-fé? Ou, por não ter lido mesmo a Peregrinação, e vendo como o meu romance (recomendado pela Associação de Amizade Portugal-Japão, quando fez pesquisas para o filme) era uma espécie de guião – uma estrutura dramática em sete Actos/Mares, com cenas/capítulos, diálogos, monólogos e flashbacks –, pensando que eu me limitara a travestir os textos de FMP com novas roupagens, para atalhar caminho e poupar tempo, “inspirou-se” nele para o guião?

“Na verdade, o ‘pecado’ por mim cometido foi usar como inspiração uma ínfima e irrelevante parte do livro de Deana Barroqueiro, até agora desconhecido”, afirma JB. Sem acesso ao guião original, para o comparar com o meu romance e a Peregrinação, estou limitada às suas entrevistas e ao filme que vi apenas uma vez, enquanto ele tem acesso a todos os meus textos, que usa agora contra mim.

JB diz que o filme tem 78 cenas e que apenas duas foram “inspiradas” na minha obra. Mas eu provo que, sem as cenas exclusivas do meu livro, este filme não existia. Passo a enunciá-las:

 – Todas as cenas da China com personagens femininas, que JB e a sua produtora admitiram como adaptadas. 1. A filha do monteo a tocar o erhu e a cantar o poema que musicaram; a ensinar FMP a ler; 2. Meng a lavar-lhe as cicatrizes das costas, com uma bacia de água com pétalas de flores; 3. As cenas das prostitutas com os diálogos sobre o Yin e o Yang, no sexo; 4. A menção ao Mercado dos Cavalos Magros, onde se compravam as esposas, etc.

– Na Peregrinação não há violações por António Faria ou outrem, inventei a cena com Pinto num certo contexto da narrativa.

– O episódio da japonesa Wakasa, a minha Madame Butterfly que casa com Pinto, a entrar no barco e a despedir-se dele no alto de um monte, faz parte da história que criei a partir de três crónicas da casa do senhor de Tanegashima (a Tanixumaa de Pinto) que traduzi de um estudo inglês. JB nem o nome da ilha sabe escrever, chama-lhe Tagenashima, que não significa “ilha da Espingarda”, pois já se chamava assim muito antes da chegada dos portugueses com as armas, sendo também o nome de família do seu daimyo Tokitaka. Os mosquetes e arcabuzes chamavam-se Tanegashima teppõ (tubos de fogo de Tanegashima). 

– Não inventei nomes nem personagens no caso de D. Joana da Silva, a mulher adúltera. Ficcionei um escândalo da época, sem relação com FMP, a partir de arquivos e da História da Genealogia.

– Foi JB que referiu numa entrevista o “n.º 9 mágico”, como ideia sua. O número é cabalístico, mágico, da novena cristã e de outras superstições, herdadas da Idade Média. Como Pinto e o seu grupo oscilam entre oito e nove indivíduos e algumas tempestades são de nove dias, transformei-o num leitmotiv do meu romance.

– Das cenas comuns à Peregrinação e ao meu romance, como as da embaixada a Sumatra e da rainha da Etiópia, haverá muito para descobrir, comparando-as. Para JB basta mudar a cena de lugar, ou a personagem, para já não serem criações minhas e passarem a ser dele!

Em todas as suas intervenções JB cometeu erros crassos sobre a obra de Fernão Mendes Pinto, mostrando desconhecê-la. Com o meu romance aprendeu muito, decerto. Valha-nos isso!

As mentiras de João Botelho

"Uma banana não é uma maçã"

Um artigo de João Botelho no Público, desdizendo o que admitiu no ano passado e defender o indefensável: que não plagiou o meu romance O Corsário dos Sete Mares e dando-me ainda mais argumentos.

Para ler AQUI.

24/04/2018

O plágio do livro de Deana Barroqueiro


O Clarim - Abril 20, 2018   Cultura
 Joaquim Magalhães de Castro

A noiva de Fernão Mendes Pinto
Respigo esta semana, e a respeito do plágio que João Botelho fez da obra de Deana Barroqueiro “O Corsário dos Sete Mares” no seu mais recente filme “Peregrinação”, um resto de conversa que ficou por transcrever após uma entrevista feita a essa escritora de romances históricos aquando da sua participação no festival literário Rota das Letras, já lá vão alguns anos. Curiosamente, a temática desse resto de conversa diz respeito a um dos episódios que Botelho incluiu no seu filme como se fizesse parte do enredo da obra de Fernão Mendes Pinto, quando, na verdade, é uma ficção de Deana Barroqueiro, se bem que inspirada na tradição oral da região de Tanegashima.
Confessou-me, na altura, Deana Barroqueiro, que apenas visita os países que lhe servem de inspiração para as suas obras uma vez estas concluídas, e isto para «não contaminar com o olhar actual a realidade da época». Aquando da sua visita a Macau acabara de ser editado “O Corsário dos Sete Mares” (hoje de novo notícia, devido à polémica instalada), que nos fala das viagens de Fernão Mendes Pinto, por isso pudera a autora visitar, «finalmente», o Japão, palco, como se sabe, de muitas das peripécias do aventureiro de Montemor-o-Velho.
Em terras do Sol Nascente, Deana e o marido, inseparável companheiro de viagem, seriam recebidos «com uma imensa simpatia, quase carinho». Lembrava a escritora «uma cidadezinha perto de Quioto onde há uma família de japoneses que mantém, numa vivenda de dois andares, situada no centro da cidade, um pequeno museu ligado aos portugueses». Trata-se de um espaço recheado com «uma espécie de painéis namban» que de certa forma continuam «a narrativa dos painéis presentes no Museu de Arte Antiga. Tudo muito bem arranjado, com aquele brio próprio dos nipónicos». Teve o casal de portugueses a oportunidade de conhecer a actual proprietária, que ciosamente dava continuidade à tradição iniciada pelo pai.
Embora haja quem refute a hipótese, Fernão Mendes Pinto terá sido um dos três primeiros ocidentais, juntamente com António da Mota e Diogo Zeimoto, a chegar ao arquipélago nipónico, «em 1541 ou 1543», pois ele mesmo o afirma na sua imortal obra. Terá sido ele também quem ofereceu uma das armas ao daimio de Tanegashima (Zeimoto ofereceu um outro exemplar), na altura um deslumbrado jovem de 17 anos. Perdera esse nobre japonês uma série de possessões do seu domínio a favor do tio que expulsara o pai, «pois este era um tirano», ocupando assim o seu lugar. O daimio logo encarregou o seu armeiro-mor de fazer uma réplica de um mosquete e outra de um arcabuz. Aita – assim se chamava o armeiro – apenas manufacturava armas brancas, mas atendeu ao pedido do seu senhor o melhor que pôde. De tal modo ficou o daimio entusiasmado com o produto final que não o deixava sair do palácio, «pois o considerava tesouro da família». Contudo, essas armas de fogo tinham um grave defeito: a culatra não fechava. Confrontado com essa falha, «sentindo-se profundamente desonrado», Aita estava pronto a fazer haraquiri quando, ao olhar para a sua jovem filha Wakasa num derradeiro acto de despedida, teve uma ideia brilhante. Mandá-la-ia de presente ao namban em troca do segredo do fecho da culatra. Ou seja, se o português casasse com a filha teria de trabalhar com ele e revelar-lhe esse segredo, assim como o segredo da pólvora.
«A primeira história de amor entre um ocidental e uma japonesa, surge, assim, no seguimento da introdução das armas de fogo no Japão pelos portugueses do século XVI», concluia Deana Barroqueiro.
Para os habitantes de Tanegashima o dito namban era o nosso Fernão Mendes Pinto, que acabaria até por casar com a bela Wakasa. Afirmava Deana Barroqueiro ter lido quatro crónicas da época, «embora traduzidas para Inglês», atestando esse facto. Aliás, os «amores entre Pinto e Wakasa» dariam azo a todo tipo de literatura: do pequeno poema ao género épico, passando pela literatura de cordel. Dizia-me Deana Barroqueiro: «Logo a seguir a essas crónicas apareceram uma série de textos avulsos, contos, peças de teatro, romances, poemas narrando esse casamento em várias versões, inclusive uma versão em que a princesa Wakasa engravida e tem um filho, que o namban, entretanto casado no seu país de origem, virá mais tarde buscar, o que leva a princesa a suicidar-se. Uma das versões mostra-nos Wakasa no alto de um monte, vendo os barcos a chegar, suicidando-se de seguida».
Curiosamente, esse é um cenário que lembra em tudo a história de Madame Butterfly, imortalizada por Puccini na ópera homónima. Não seria a primeira vez que os estrangeiros, à falta da capacidade nossa ou, quiçá, audácia, se apropriam de histórias extraordinárias protagonizadas por portuguesas para as transformar em êxitos de vendas em todo o mundo. O caso mais paradigmático é o de Robinson Crusoe, obra de Daniel Defoe inspirada na desdita de um degredado português.
É muito possível, pois, haver entre os nipónicos descendentes de Fernão Mendes Pinto. Deana não descarta a hipótese: «No meu romance apresento versões possíveis, conseguindo conciliá-las recorrendo a vários narradores. É muito natural que haja descendência desse encontro. Na referida literatura de cordel há até uma gravura com o rosto de Fernão Mendes Pinto, algo que em Portugal não acontece». Quanto a Wakasa ela é, entre muitas outras coisas, nome de mercearia e marca de rebuçados e, no centro de Tanegashima, surge em forma de estátua essa filha do armeiro Aita, elevada à condição de princesa, empunhando um arcabuz.
Joaquim Magalhães de Castro

23/04/2018

Dia do Livro e dos Direitos de Autor

1 - Hoje, às 18 horas, vou estar na Biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa (Metro Cidade Universitária) para uma conversa sobre livros e o romance histórico.
2 - E às 20.20 horas, na Fnac Colombo, vou ler um dos meus textos, durante uma Maratona de Leitura, feita por escritores, que dura das 16 às 21 horas. Vou ler uma passagem de O Corsário dos Sete Mares, um episódio de Fernão Mendes Pinto na China, em casa do monteo, o capitão que vai levar o aventureiro para cumprir pena na Grande Muralha. 
Deixo-vos aqui o seu começo (qualquer semelhança cinematográfica é pura coincidência):

       Como os hóspedes são estrangeiros e os serões se passam dentro de portas, as donas e donzelas da casa não se escondem deles, sendo ouvintes incansáveis das histórias das suas vidas, dos lugares de onde vêm, das viagens que fizeram ou das nações visitadas. É um mundo novo que se abre ante estas mulheres que nunca saíram da cidade porque, para se deslocarem a mais de trinta léguas de suas casas, os chins necessitam de licença dos mandarins, a qual custa caro, nem sempre é concedida ou tarda muito a chegar.
       Vendo o interesse de Fernão por tudo o que o rodeia e também pelos livros que Liu Xugang possui, Zhou, a filha mais velha, faz leituras ao serão da Crónica dos Oitenta Reis da China, das Brochas d’O da Vontade do Filho do Sol (de que ele já ouvira alguns textos ao poeta Lin Dan, o seu companheiro de viagem e de ferros pelo rio Batampina) e da Situação de Todos os Lugares Notáveis do Império da China, respondendo às suas perguntas, uma divertida prática a que se junta o monteo para explicar, com grande gosto e paciência, as partes mais difíceis.
       – Vou cantar-vos um tzu antigo, um poema musical de Fan Tchongyen, para alegrar o vosso exílio – diz-lhes Zhou, certa noite, com o doce sorriso que aquece a alma dos exilados.
       Celebravam o Duplo Sétimo – o sétimo dia do sétimo mês lunar – em que as meninas, para se tornarem talentosas na arte de bordar, fazem ofertas de frutos e de doces à bodhisattva Guaiyn de mil braços, deusa da misericórdia. A gentil moça toma nas mãos cor de neve o erhu, uma espécie de viola de arco de duas cordas, dedilha-o para avaliar o som e canta:
Insidiosa, todas as noites
A saudade persegue
O espírito do peregrino,
Se não o proteger um suave
Sonho, num sono profundo:
A lua cheia – alto Pavilhão solitário –
“Não te encostes ao balcão!..”
E o vinho, no coração despedaçado,
Transforma-se então em lágrimas
Carregadas de mágoas sem fim.
       A sua voz, ao mesmo tempo suave e lastimosa, adoça a alma dos desafortunados estrangeiros, desterrados da pátria e da família. A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida, pensa Fernão ao ouvila com um prazer doloroso, como se nela houvesse incarnado o espírito da sua amada Chu Huyen, quando cantava a sua mágoa pela ausência do noivo a quem fora furtada, enchendo-o de paixão e ciúme.
       Acabado o canto, não há um só dos degredados que não tenha os olhos húmidos de lágrimas, por viverem há tanto tempo sem um mimo de mãe, irmã, esposa ou noiva que lhes mitigue o sofrimento. Gaspar de Meireles, cheio de nostalgia, canta-lhes alguns vilancetes, acompanhando-se o melhor que pode com o instrumento chim, em que já tem alguma prática, pelo que todos folgam, aplaudindo muito...


22/04/2018

Documentário Luso-Etíope

"Birtukan - Oranges" (Laranjas) foi o nome que os etíopes deram aos Portugueses por terem introduzido na Etiópia as laranjas doces (os etíopes tinham dificuldade em pronunciar o P de Portugal/Português).

 A comunidade portuguesa do século XVI formou-se a partir de um núcleo de 200 homens, sobreviventes da hoste de 400 guerreiros de D. Cristóvão da Gama, o filho mais novo de D. Vasco da Gama, que foi auxiliar o Preste João, contra os árabes e lá morreu. 

Esses 200 homens, que não puderam regressar a Portugal, casaram com etíopes e criaram uma comunidade católica importantíssima, tendo criado inúmeras igrejas, castelos e outras construções. Parece que os etíopes que deles descendem têm grande orgulho nessa
herança.


Ver mais informações sobre o projecto, em Inglês, aqui:


"O Espião de D. João II" num Documentário luso-etíope

Vou participar num documentário luso-etíope, sobre a vida do meu protagonista e da presença dos portugueses naquele país.

"O Espião de D. João II" tem tido muito sucesso. Além das várias edições, com muitos milhares de livros vendidos, também despertou as atenções na própria Etiópia/Abissínia, onde Pêro da Covilhã achou o tão procurado reino do Preste João, tendo ali acabado os seus dias. 
Yves Stranger, investigador e realizador de documentários, residente na Etiópia e apaixonado pela figura do espião português, acicatado pelo interesse que os etíopes têm pelos vestígios e herança lusa, veio há cerca de 2/3 anos a Portugal para conhecer a terra de Pêro. E quando visitou o Museu da Covilhã, o seu director indicou-me como especialista do tema. Yves Stranger contactou-me, veio a minha casa e falou-me no livro que estava a escrever sobre a presença dos Portugueses na Etiópia e que ia fazer um documentário. Perguntou-me se queria participar no seu projecto, ao qual eu aderi de imediato com imenso prazer.
Agora, que as filmagens estão terminadas, na Etiópia, o realizador vem concluir a parte portuguesa e fazer-me uma longa entrevista sobre o nosso espião e a sua época, fazendo também uma ponte para temas do presente.




O Espião de D. João II traduzido no Egipto

O meu romance O Espião de D. João II, está a ser traduzido, no Egipto, para a língua árabe, por convite da Senhora Embaixadora de Portugal, Dra. Madalena Fisher. O convite foi feito durante um encontro de portugueses a Senhora Embaixadora, quando estive no Egipto, em Março do ano passado. Fiquei felicíssima, como podem imaginar.




07/04/2018

«1640» - Contra o Acordo Ortográfico


No dia 28 de Março passado, participei no 29º Colóquio Internacional da Lusofonia, convidada pela Câmara Municipal de Belmonte, para apresentar o meu novo romance «1640». A minha maior surpresa foi ter verificado, já depois de ter escrito um trabalhoso artigo para as Actas do Colóquio, que os seus organizadores exigiam a todos os participantes que escrevessem segundo o AO, mesmo os daqueles países que não o assinaram, o que é inconcebível. Não podia recusar o compromisso que assumira com a Câmara, por isso adaptei o meu discurso à minha indignação. E deixo-vos aqui os excertos que têm que ver expressamente com o que penso do crime que foi cometido contra a língua escrita que eu amo. Lembro que na sala havia altos responsáveis pela criação do dito AO:



«1640»: Quando a realidade e a lenda se fundem nasce o romance histórico

     Impõe-se-me em modo de introdução um esclarecimento: Sou licenciada em Filologia Românica e fui 35 anos, professora de Língua e Literatura Portuguesa, procurando transmitir a alguns milhares de alunos a minha paixão por este património riquíssimo, que é a nossa Língua, a mais viva expressão da alma portuguesa, que não deve ser aviltada ou corrompida. Razão pela qual sou, como tantos milhões de utilizadores desse património precioso, visceralmente contra o famigerado Acordo Ortográfico, feito no segredo de um gabinete e à revelia das instituições e organismos próprios e da maioria dos que dela fazem profissão, um abuso intolerável cometido por alguns iluminados cuja motivação não foi seguramente a valorização da Língua Portuguesa. Os artífices do Aborto Ortográfico mostram que não a amam, mas acham-se donos dela, tendo a arrogância de a quererem impor a um povo inteiro e aos restantes países da Lusofonia, sem atender à maravilhosa riqueza das suas variantes, cujos aportes têm enriquecido o português de Portugal, a língua-mãe, de onde partiram todas as que são hoje aqui faladas e escritas. Rendo as minhas homenagens aos países irmãos que se recusaram a assinar esse inqualificável acordo e espero que nunca o venham a fazer; tal como vi, com amarga ironia, que dos três países assinantes, o Brasil, como sempre, voltou atrás, recusando-se a aplicá-lo. 
     Assim, também me espantou que, neste colóquio, que é uma ocasião única para se poder apreciar as variantes tão ricas da portuguesa língua, se tenha imposto essa malfadada uniformização da escrita, que não é outra coisa senão uma canhestra mutilação, a todos os participantes dos países que o recusaram: Não perdem ocasião de impor pela força aquilo que não conseguem com a razão. 
     Recuso o corte das consoantes mudas que podem não se ouvir, mas falam na escrita com a linguagem dos sinais, mostrando-nos a sua origem e diferenciação, nos seus étimos e raízes. Esse (Des)Acordo nem toma em consideração as variantes dialectais do nosso próprio país, onde há zonas em que a mesma palavra se pronuncia com C e noutras é muda. 

     Trabalhar a nossa língua em todos os seus registos é um prazer divino e a maior motivação da mi  nha escrita. «1640», o meu último romance, levou esse exercício mais longe do que me permiti sonhar. Amo este país e a sua cultura por isso só escrevo romances históricos de temática nacional, a partir das histórias daqueles que souberam criar, desenvolver e manusear a nossa língua com infinita mestria e originalidade, de que nós hoje somos fracos herdeiros. Na minha trilogia dos Descobrimentos – O Navegador da Passagem, O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares – recorri ao estilo e linguagem dos cronistas dos séculos XV e XVI, em que a língua ainda se encontrava em processo de desenvolvimento, transbordante de criatividade; em D. Sebastião e o Vidente, mas, sobretudo, no «1640», que aqui venho apresentar, pude gozar com toda a plenitude a volúpia da Língua Portuguesa, que atingiu as maiores alturas no século XVII. 
     Ao escolher para guias do leitor, quatro dos seus maiores mestres e cultores, fui forçada a meter-me na pele (ou a meter sob a minha pele) o épico Brás Garcia de Mascarenhas, a poetisa lírica Soror Violante do Céu, o maior prosador ibérico seiscentista D. Francisco Manuel de Melo e o pregador António Vieira, que deslumbrava pelo virtuosismo da expressão. Quatro narrações feitas em 1ª pessoa, que constituíram, para a escritora, um tremendo desafio, mas também um prazer sem limites.  
      O romance está construído como um puzzle ou uma teia de intertextualidades documentais, geográficas, literárias, filosóficas, religiosas, sociais e culturais, para envolver o leitor, de modo a que ele possa sentir o prazer estético da leitura, aprofundando em simultâneo o seu conhecimento da época em que decorre a acção. No século XVI, passada a euforia da grande odisseia dos descobrimentos de outros mundos até então encobertos aos europeus, a crise endémica portuguesa, provocada pelos problemas políticos, económicos e sociais, vai culminar no desastre de Alcácer-Quibir e na posterior anexação de Portugal por Espanha. O romance 1640 reflecte esses tempos de crise e da vida problemática das suas gentes. Sendo obra de ficção, tem como principal objectivo o prazer estético da leitura, por isso o escritor frui de uma liberdade criativa que é negada ao historiador; contudo, enquanto género histórico, o romance exige uma componente de informação e conhecimento da História que o distingue e singulariza em relação a todos os outros tipos de romance. O que, para ser feito com honestidade intelectual e respeito pelo leitor, implica da parte do seu autor um estudo de alguns anos, não só dos factos narrados, mas sobretudo da sua contextualização, nos múltiplos aspectos de cada época e da mentalidade dos seus actantes. 
O desastre de Alcácer-Quibir (com que termina o romance D. Sebastião e o Vidente), a crise dinástica, a guerra civil e a anexação do reino por Filipe II de Espanha, numa pretensa União Ibérica, são os antecedentes do romance 1640, em que Portugal foi arrastado para os conflitos do Império espanhol, em particular, da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), uma das mais destrutivas da Europa. A fim de alimentar a guerra em várias frentes, Filipe IV de Espanha e o conde-duque de Olivares, fazendo tábua-rasa dos acordos sobre a autonomia de Portugal, esgotaram os seus recursos humanos e materiais, destruindo a economia e esmagando o povo com impostos, que eram aplicados não em benefício dos portugueses mas dos espanhóis, transformando o reino numa das mais pobres províncias da Península Ibérica.
Olivares contou com os serviços de funcionários portugueses submissos e interesseiros, como Diogo Soares, em Madrid, e Miguel de Vasconcelos, em Lisboa, os bons alunos do Ministro estrangeiro, que não só obedeceram às suas directrizes, como foram mais longe na imposição de sacrifícios aos seus compatriotas, reduzindo-os à miséria e à fome. Ao estudar a crise social, económica e política de Portugal, nos textos deste período, foi possível estabelecer um paralelismo entre este triunvirato de governantes seiscentistas e a Troika que nos veio governar, em 2011, imposta pelo FMI/instituições europeias, com os seus nefastos resultados.
Nestes períodos de crise, Portugal procurou uma panaceia ou incentivo contra o pessimismo e a estagnação do país, na afirmação da sua nacionalidade e identidade colectiva. E nada melhor para valorizar a nação do que atribuir-lhe origens divinas ou tão antigas, que remontassem a um tempo anterior à sua criação, legitimando-a. Assim, como princípio fundador, mais remoto, surge a identificação de Portugal com a Lusitânia e dos portugueses com os Lusos ou Lusitanos, e consequente apropriação do herói Viriato e da sua luta pela autonomia do território, como matriz e origem histórica de Portugal, uma tese veiculada e exaltada pela Literatura, com expressão máxima nos Lusíadas, de Luís de Camões, no século XVI, e no Viriato Trágico, de Brás Garcia Mascarenhas, no XVII.
A reforçar essa legitimidade, uma tese posterior vai atribuir origem divina à fundação do reino de Portugal, por D. Afonso Henriques, sacralizada, em 1139, pelo milagre de Ourique, na sua anunciada visão de Cristo crucificado a prometer-lhe a vitória contra os cinco reis mouros. Um milagre que o consagra rei, em pleno campo de batalha, e que será descrito em futuras crónicas, servindo de argumento para a sua legitimação pelo papa. Sobrepondo-se à valorização política dos dois princípios fundadores, coexistiam três crenças messiânicas, que indicavam 1666 como o annus mirabilis: a dos judeus e cristãos-novos para a vinda do seu Messias; a dos sebastianistas para o regresso d’El-Rei Dom Sebastião; e a dos milenários à espera da destruição do Turco e da instauração de um Quinto Império, cristão e universal, que Bandarra mencionava nas suas Trovas.
O povo oprimido começou a ansiar pelo regresso do rei D. Sebastião, desaparecido sem deixar rasto no campo de batalha e identificado com o Encoberto das profecias do sapateiro santo. Uma crença que foi crescendo, cada vez mais forte, durante o domínio dos três Filipes, alimentando a esperança do povo português na sua libertação. Padre António Vieira defenderá a deia do Quinto Império, o  Império de Cristo, para um período de mil anos, que terá Portugal como guia, quando todos os pagãos, judeus e muçulmanos forem convertidos ao catolicismo, o reino do Deus único e verdadeiro.
O romance 1640, apoiado em inúmeras fontes documentais coevas e actuais, procura fazer um retrato verosímil do Portugal seiscentista, dos seus conflitos internos e das suas difíceis relações internacionais, numa luta pela sobrevivência como nação independente. A acção decorre num período de cinquenta anos (1617-1667), riquíssimo em acontecimentos, dramas e personagens.
No dia 1 de Dezembro de 1640, os portugueses dos três Estados – povo, clero e nobreza – soltaram o grito de liberdade e tomaram o destino do país nas suas mãos, iniciando uma intensa luta para sair da crise pelos seus próprios meios, num Portugal esgotado e acossado por nações inimigas – a Espanha e as suas aliadas –, mas também pelas «amigas», como a Inglaterra e a França, que impuseram condições esmagadoras em troca da sua ajuda. Tal como nos nossos dias.
A estrutura formal da obra foi inspirada na Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo, que, ao estilo da época barroca e em total sintonia com a intriga, recorre aos Diálogos entre várias personagens que discutem, comentam e problematizam os assuntos mais variados, introduzindo os capítulos narrativos dos sucessos que mais os marcaram, preocuparam ou divertiram.
Durante a dominação filipina, os reis e a Corte residiam em Madrid, centro de acção e decisão sobre todos os assuntos do Império Espanhol e das suas relações com o mundo, mas também um lugar privilegiado de criação e promoção de progresso, cultura e entretenimento. Lisboa, a antiga residência da dinastia de Avis, perdeu assim o seu estatuto de Corte régia, transformando-se em mera capital de província.
Cansada de correr para Espanha, a mendigar mercês, parte da nobreza de Portugal retirou-se para os seus domínios, no campo, onde fez florescer as «cortes de aldeia», que procuravam imitar, segundo o estatuto e as posses dos seus senhores, as Cortes régias, com mecenato a escritores, músicos e outros artistas. A mais fulgurante, em dimensão e importância, foi a dos duques de Bragança, em Vila Viçosa, cujo cerimonial cortês era idêntico ao de Madrid.
Uma mentalidade barroca que, segundo Vitorino Magalhães Godinho, “anseia pelo fausto e pela exibição, nos círculos nobres como nos religiosos – uma religião de exuberância decorativa, aquietando-se nos ritos de subterrâneas inquietações, satisfazendo-se na exterioridade de uma insatisfeita interioridade”. Assim, nas cidades, essa função cultural e intelectual é assumida nos conventos pelas freiras, cultas e de nobre ascendência, alguns célebres quer pelos seus Outeiros (representações teatrais, concertos musicais, saraus de poesia e produção literária), quer pelos escândalos de cariz licencioso das suas religiosas.
Na primeira parte do romance, o narrador é o poeta Brás Garcia de Mascarenhas, autor do Viriato Trágico, a grande epopeia seiscentista cujo herói é o pastor dos Montes Hermínios, com a sua luta contra os romanos, que simboliza a revolta dos portugueses contra a ocupação espanhola. Brás é a personagem de maior relevância, embora desconhecida dos portugueses, que pretendi resgatar ao limbo do esquecimento, restituindo-a a um merecido lugar entre os maiores vultos da cultura portuguesa. Nascido em Avô, amante traído, proscrito e aventureiro, Brás vai conduzir o leitor pelo dédalo de sucessos anteriores à Restauração, como as guerras do Brasil contra os holandeses, a sua amizade com António Vieira, as experiências com os índios e a sua complexa vida amorosa.
Na segunda parte, guia-o Soror Violante do Céu, desde o convento da Rosa, em Lisboa. Cultora do conceptismo e cultismo, tanto na poesia de temática religiosa como na de cariz secular/erótico. Celebrada pelos seus contemporâneos, como a Décima Musa e a Fénix dos Engenhos Portugueses, dará a conhecer a situação e vida das mulheres de seiscentos, enclausuradas sem vocação nos conventos, algumas desde a infância, uma prisão que, paradoxalmente, era para muitas uma libertação da tirania masculina castradora, permitindo-lhes estudar e exercer os seus talentos de artistas, letradas ou cientistas, o que de outro modo lhes era vedado pelos homens, sob o pretexto de serem intelectualmente inferiores.
Na terceira parte, os conflitos de ordem militar serão relatados por D. Francisco Manuel de Melo, o grande prosador e poeta do século. Na prisão da Torre, este Fidalgo de Dom, aparentado com a Casa de Bragança, militar e marinheiro, foi vítima de uma Justiça corrupta (um traço comum às quatro personagens) que o condenou a doze anos de prisão e ao exílio no Brasil. O seu testemunho permite tomar conhecimento da intrincada rede de conspirações, espionagem e traições com que Portugal e D. João IV se debateram para ganhar a liberdade.
Na quarta parte, o leitor é levado pelas palavras e reflexões do jesuíta António Vieira, o mais brilhante pensador e pregador de todos os tempos, que o guiará pelos meandros da diplomacia nacional e internacional, em que D. João IV se vai empenhar num dificílimo jogo de custosas alianças, para que Portugal possa recuperar o seu estatuto de nação independente. No cárcere da Inquisição, entre 1663 e 1667, ano em que termina o romance, Padre António Vieira, relembrando a sua vida passada, dará conta dos mais significativos sucessos em que participou até à crise política interna, do reinado de D. Afonso VI.
A complexidade do assunto a tratar implicou o estudo de uma infinidade de temas, porque só no cruzamento de saberes se pode alcançar o multifacetado conhecimento de uma época, um trabalho que se arrastou por treze anos de investigação, embora alternando a sua escrita com a da trilogia dos Descobrimentos.
1640 é uma data fulcral da nossa História, que mudou o destino da nação, pois, sem a Restauração, Portugal não seria o mesmo e talvez não passássemos hoje de uma pobre província espanhola, a falar um dialecto e a sonhar com a independência, como a Catalunha, cuja revolta ajudou então à nossa libertação. Assim como, sem a Expansão Marítima Portuguesa, ou seja, sem os Descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI, os países da Lusofonia não existiriam como tal, nem falariam a Língua Portuguesa em todos os seus ricos matizes e este Colóquio não teria razão para existir. Deo gratias, por isso não ter acontecido.