A minha homenagem a Zeca Afonso: Recordando a canção que ele fez a uma das personagens da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e que também faz parte do meu próximo romance.
A Nau De António Faria
José Afonso
Vai-se a vida e vem a morte
O mal que a todos domina
Reina o comércio da China
Às cavalitas da sorte
Dinheiro seja louvado
A cruz de Cristo nas velas
Soprou o Diabo nelas
Deu à costa um afogado
A guerra é coisa ligeira
Tudo vem do mal de ofício
Não pode haver desperdício
Nesta vida de canseira
Demanda o porto corsário
No caminho faz aguada
Ali findou seu fadário
Morreu de morte matada
A nau de António Faria
Leva no bojo escondida
A cabeça do corsário
Que lhe quis tirar a vida
Aljôfre pérola rama
Eis os pecados do mundo
Assim vai a nau ao fundo
Sem arte honra e fama
Entre cristãos e gentios
em gritos e altos brados
Para ganhar uns cruzados
Lançam-se mil desafios
Em vindo de veniaga
Com a vela solta ao vento
Um mouro é posto a tormento
Por não dizer quem lhe paga
Vou-me à costa à outra banda
Já vejo o rio amarelo
Foi no tempo do farelo
Agora é o rei quem manda
Faz-te à vela marinheiro
Rumo ao reino de Sião
Antes do fim de Janeiro
Hás-de ser meu capitão.
23/02/2012
18/02/2012
Herança de Portugal no Mundo
O meu período preferido da História de Portugal - o Renascimento e os Descobrimentos - e os portuguesas como pioneiros da globalização no Mundo.
Visitei já parte destes monumentos e gostaria de ver os restantes, mas eles são tantos que não terei tempo de vida para o fazer. Aqui têm um vídeo da
Herança dos Portugueses no Mundo
Visitei já parte destes monumentos e gostaria de ver os restantes, mas eles são tantos que não terei tempo de vida para o fazer. Aqui têm um vídeo da
Herança dos Portugueses no Mundo
17/02/2012
Lulas à Coge Çofar
Um novo achado, durante a minha pesquisa, de outro tipo de Ciência - a Culinária: Procurava informações sobre um renegado italiano, convertido ao islamismo, chamado Coge ou Coja Çofar, mercador muito rico e influente junto do sultão Bahadur, que comandou um exército de guzarates e turcos contra os portugueses, no primeiro cerco à fortaleza de Diu, em 1538.
Para meu grande espanto, no blogue Rustythings da bibliotecária Andreia, apareceu-me esta pérola das "Lulas à Coge Cofar", receita retirada do livro "Diu e eu" de Miguel Paiva Couceiro, que, com a autorização da autora do Blogue, vos deixo aqui, se quiserem experimentar durante o fim-de-semana, como nós já fizemos para o almoço de hoje.
Poderá não remontar à época do cerco de Diu, mas é antiga. E asseguro-vos de que é deliciosa! Apenas substituímos o alho em pó (com tantos séculos podia ser indigesto!) por dentes de alho fresco, muito picadinhos.

Lulas à Coge Çofar
(receita adaptada de "Diu e eu", de Miguel Paiva Couceiro)
400 g lulas cortadas em rodelas
1 cebola picada
2 c. sopa de alho picado
Azeite q.b. 1 malagueta
1 lata pequena de tomate pelado (inteiros, aos bocados, o que tiverem à mão)
1 c. chá pimentão doce
Sumo de 1 laranja Sal e pimenta q.b.
Numa frigideira, aquecer o azeite e juntar a cebola picada e o alho. Cozinhar até adquirir uma tonalidade castanha, mexendo constantemente. Adicionar as lulas e deixar cozinhar durante 10 min.
Juntar o tomate, a malagueta, o pimentão doce e o sumo da laranja. Mexer e deixar cozinhar em lume brando, tapando a frigideira. Provar e adicionar sal e pimenta q.b. Servir com arroz branco solto.
Bom apetite!
Rustyboobz - Andreia
Mais uma vez, obrigada, Andreia!
Para meu grande espanto, no blogue Rustythings da bibliotecária Andreia, apareceu-me esta pérola das "Lulas à Coge Cofar", receita retirada do livro "Diu e eu" de Miguel Paiva Couceiro, que, com a autorização da autora do Blogue, vos deixo aqui, se quiserem experimentar durante o fim-de-semana, como nós já fizemos para o almoço de hoje.
Poderá não remontar à época do cerco de Diu, mas é antiga. E asseguro-vos de que é deliciosa! Apenas substituímos o alho em pó (com tantos séculos podia ser indigesto!) por dentes de alho fresco, muito picadinhos.

Lulas à Coge Çofar
(receita adaptada de "Diu e eu", de Miguel Paiva Couceiro)
400 g lulas cortadas em rodelas
1 cebola picada
2 c. sopa de alho picado
Azeite q.b. 1 malagueta
1 lata pequena de tomate pelado (inteiros, aos bocados, o que tiverem à mão)
1 c. chá pimentão doce
Sumo de 1 laranja Sal e pimenta q.b.
Numa frigideira, aquecer o azeite e juntar a cebola picada e o alho. Cozinhar até adquirir uma tonalidade castanha, mexendo constantemente. Adicionar as lulas e deixar cozinhar durante 10 min.
Juntar o tomate, a malagueta, o pimentão doce e o sumo da laranja. Mexer e deixar cozinhar em lume brando, tapando a frigideira. Provar e adicionar sal e pimenta q.b. Servir com arroz branco solto.
Bom apetite!
Rustyboobz - Andreia
Mais uma vez, obrigada, Andreia!
15/02/2012
História, Medicina e Descobrimentos
Mais uma vez, a propósito do "meu" Fernão Mendes Pinto _ que, entre mil outras coisas, se interessava pela medicina exercida em Portugal e no Oriente, a que recorreu muitas vezes, quer como paciente quer como "médico-barbeiro" _, encontrei bases e provas para a minha incondicional admiração pelo o período dos nossos Descobrimentos.
Não se tratou de um período de barbárie (muito menos bárbara do que a dos nossos concorrentes europeus colonialistas) como afirmam os auto-denominados civilizados, dando-nos apenas crédito por alguns conhecimentos da arte de marear _ o que só por ignorância ou má fé poderão afirmar. Os nossos Descobrimentos foram a fonte de inúmeras descobertas e conhecimento prático nos mais diversos ramos das Artes, das Letras e das Ciências, nomedamente na Medicina.
O que me leva e transcrever aqui, para os meus leitores mais curiosos, uns excertos do artigo de João José Cúcio Frada que descobri na Internet e a quem agradeço este magnífico contributo para a nossa percepção de um país moldado por gente de extraordinário valor, que existiu e continuará a existir e a deixar a sua marca no mundo, mesmo quando outras nações maiores lhe roubam a fama, sem todavia lhe poderem tirar o mérito. Vale a pena ler:
História, Medicina e Descobrimentos Portugueses
"As raízes da nossa presença foram ali [no Japão] tão profundas que o investigador holandês Kleiweg de Zwaan, comentá-las-ia desta forma: «Quanto à arte médica, os portugueses fizeram no Japão um trabalho meritório, especialmente como cirurgiões. Por isso, nós compreendemos também a grande estima que os Japoneses tributam a Portugal por esta acção civilizadora. Ela significa para o Japão um louvável trabalho cultural ao serviço da ciência e da humanidade sofredora» (Aires N. de Sousa, ob. cit.).
Na história moderna da cultura e da ciência, fomos pioneiros em múltiplos campos e realizações, mas, por ironias do destino, esses triunfos só muito raramente foram reconhecidos como feitos portugueses. Como diria Carlos França: «Sempre me surpreendeu a ausência de nomes portugueses na História das Ciências Naturais; conhecendo a orientação científica dos nossos descobrimentos, repugnava-me inteiramente admitir que só a estrangeiros se devesse o que veio a saber-se sobre
a História Natural das terras que fomos os primeiros a pisar e a colonizar» (Luís de Pina, As Ciências na História do Império Colonial Português).
A época dos Descobrimentos foi prolífica de descobertas revolucionárias nos domínios da Botânica, da Toxicologia e da Patologia, englobando esta última grande número de
enfermidades exóticas, estudadas actualmente pela Medicina Tropical.
Sobre o Escorbuto, (...) laceração, úlcera da boca, conhecem-se referências muito antigas. Plínio chamava-lhe «stomacaee», Hwakins, «peste do mar», Young «scorbutus nauticus», Good «porphyra nautica». No século XIII, Joinville (integrado no exército de S. Luís, no Egipto), traça pormenorizadamente esta doença.
De um modo idêntico ao de Joinville, João de Barros, no «Roteiro da Viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1499), editado em 1552, descreve-nos o escorbuto que, em mares
tropicais, flagelou impiedosamente os marinheiros portugueses. Ao mesmo tempo Barros aponta também a cura e as melhoras dos que ingeriram laranjas frescas em Mombaça. Todavia, o autor do Roteiro não parece ter ainda uma noção consciente sobre a acção curativa dos citrinos.
Mas, em 1507, um piloto anónimo, referindo-se no seu diário à viagem de Pedr'Álvares Cabral à Índia, indica-nos claramente que, os «refrescos» oferecidos pelo rei de Melinde aos portugueses eram o remédio eficaz contra esta grave carência vitamínica:
«(...) carneiros, galinhas, patos, limões e laranjas, as melhores que há no mundo, e com ellas sararão de escorbuto alguns doentes que tinhamos connosco» (Luís de Pina, Na Rota do Império – a medicina embarcada nos sécs. XVI e XVII).
Não restam dúvidas que este autor anónimo se adiantou a João de Barros em relação ao conhecimento da eficácia dos citrinos na cura do escorbuto.
Incompreensivelmente, na história da ciência, Balduino Ronsseus (1564) é considerado o mais antigo tratadista de escorbuto.
Sobre o béri-béri, muito antes de J. de Bondton ou Bontins (1642), investigador holandês a quem se atribui a prioridade do seu estudo, as descrições dos portugueses fazem série: Gabriel Rebelo (1569), M. Godinho Eredia (1613), Diogo de Couto (1616),
Pedro de Basto e João de Barros, João Ribeiro (1685) e Ferrão de Queirós.
Segundo Silva Carvalho, o próprio Prof. Jeanselme, autoridade neste assunto, reconhece os portugueses como os primeiros a identificar esta entidade nosológica, uma vez que a sua presença nas colónias foi indiscutivelmente anterior à dos
holandeses.
Cientificamente, porém, não nos é reconhecida tal prioridade, e, só por direito moral a poderemos invocar.
O cólera asiático, designado também por morxi, mal gangético, colerica passio, mordexi, hacaiza, sarna castelhana, etc., doença epidémica na Índia, em 1543, é observado e bem descrito por Gaspar Correia e Garcia da Orta. Este último,
de formação médica, retrata-nos a doença de um modo mais correcto e científico.
A descrição da Filaríase e do respectivo tratamento, observada na «Relação do Reino do Congo» (1578-1587), garante ao seu autor, Duarte Lopes, a primazia científica.
Muito antes de Guilherme de Pison (considerado um dos fundadores da Medicina Tropical), António Galvão (1563) e Gabriel Soares de Sousa (1587), dentre outros escritores peninsulares (Gomara, Oviedo, etc.), deixaram-nos minuciosas descrições
sobre a Pulga penetrante (Pulex penetrans), vulgarmente conhecida em Portugal por «matacanha».
Soares de Sousa, sem formação médica ou científi ca,munido apenas de um espírito autodidáctico e arguto, descreve de uma forma eloquente animais e plantas brasileiros e as suas exposições nada ficam a dever às dos naturalistas e zoólogos
setecentistas, como Buffon, Lineu, Abeville e outros.
Aqueles dois autores portugueses quinhentistas informar-nos-iam, ainda sobre uma enfermidade conhecida por «mal-do-bicho ou xeringosa», rectite epidémica gangrenosa, que Aleixo de Abreu viria a descrever pormenorizada e cientifi camente no seu
«Tratado de las siete enfermedades», publicado em 1623.
No domínio do Ofidismo, Fernão Cardim, Gabriel S. de Sousa e José de Anchieta, registariam também inúmeras informações, algumas delas importantes contributos para o
estudo da Imunidade e da Toxicologia. Antecipadando-se a Redi, quase cem anos, apontam claramente a sede do veneno nos ofídeos, localizado num pequeno dente, dentro da boca desses animais.
Anchieta alude mesmo, de uma forma inequívoca, à imunidade conferida por uma primeira mordedura de cobra venenosa. Na medicina, como em outros campos, a acção dos
portugueses dos Descobrimentos foi um rosário incontável de notáveis feitos, inovações e contributos.".
Frada, J.J.C. — História, Medecina e Descobrimentos Portugueses.
Revista ICALP, vol. 18, Dezembro de 1989, 63-73.
Não se tratou de um período de barbárie (muito menos bárbara do que a dos nossos concorrentes europeus colonialistas) como afirmam os auto-denominados civilizados, dando-nos apenas crédito por alguns conhecimentos da arte de marear _ o que só por ignorância ou má fé poderão afirmar. Os nossos Descobrimentos foram a fonte de inúmeras descobertas e conhecimento prático nos mais diversos ramos das Artes, das Letras e das Ciências, nomedamente na Medicina.
O que me leva e transcrever aqui, para os meus leitores mais curiosos, uns excertos do artigo de João José Cúcio Frada que descobri na Internet e a quem agradeço este magnífico contributo para a nossa percepção de um país moldado por gente de extraordinário valor, que existiu e continuará a existir e a deixar a sua marca no mundo, mesmo quando outras nações maiores lhe roubam a fama, sem todavia lhe poderem tirar o mérito. Vale a pena ler:
História, Medicina e Descobrimentos Portugueses
"As raízes da nossa presença foram ali [no Japão] tão profundas que o investigador holandês Kleiweg de Zwaan, comentá-las-ia desta forma: «Quanto à arte médica, os portugueses fizeram no Japão um trabalho meritório, especialmente como cirurgiões. Por isso, nós compreendemos também a grande estima que os Japoneses tributam a Portugal por esta acção civilizadora. Ela significa para o Japão um louvável trabalho cultural ao serviço da ciência e da humanidade sofredora» (Aires N. de Sousa, ob. cit.).
Na história moderna da cultura e da ciência, fomos pioneiros em múltiplos campos e realizações, mas, por ironias do destino, esses triunfos só muito raramente foram reconhecidos como feitos portugueses. Como diria Carlos França: «Sempre me surpreendeu a ausência de nomes portugueses na História das Ciências Naturais; conhecendo a orientação científica dos nossos descobrimentos, repugnava-me inteiramente admitir que só a estrangeiros se devesse o que veio a saber-se sobre
a História Natural das terras que fomos os primeiros a pisar e a colonizar» (Luís de Pina, As Ciências na História do Império Colonial Português).
A época dos Descobrimentos foi prolífica de descobertas revolucionárias nos domínios da Botânica, da Toxicologia e da Patologia, englobando esta última grande número de
enfermidades exóticas, estudadas actualmente pela Medicina Tropical.
Sobre o Escorbuto, (...) laceração, úlcera da boca, conhecem-se referências muito antigas. Plínio chamava-lhe «stomacaee», Hwakins, «peste do mar», Young «scorbutus nauticus», Good «porphyra nautica». No século XIII, Joinville (integrado no exército de S. Luís, no Egipto), traça pormenorizadamente esta doença.
De um modo idêntico ao de Joinville, João de Barros, no «Roteiro da Viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1499), editado em 1552, descreve-nos o escorbuto que, em mares
tropicais, flagelou impiedosamente os marinheiros portugueses. Ao mesmo tempo Barros aponta também a cura e as melhoras dos que ingeriram laranjas frescas em Mombaça. Todavia, o autor do Roteiro não parece ter ainda uma noção consciente sobre a acção curativa dos citrinos.
Mas, em 1507, um piloto anónimo, referindo-se no seu diário à viagem de Pedr'Álvares Cabral à Índia, indica-nos claramente que, os «refrescos» oferecidos pelo rei de Melinde aos portugueses eram o remédio eficaz contra esta grave carência vitamínica:
«(...) carneiros, galinhas, patos, limões e laranjas, as melhores que há no mundo, e com ellas sararão de escorbuto alguns doentes que tinhamos connosco» (Luís de Pina, Na Rota do Império – a medicina embarcada nos sécs. XVI e XVII).
Não restam dúvidas que este autor anónimo se adiantou a João de Barros em relação ao conhecimento da eficácia dos citrinos na cura do escorbuto.
Incompreensivelmente, na história da ciência, Balduino Ronsseus (1564) é considerado o mais antigo tratadista de escorbuto.
Sobre o béri-béri, muito antes de J. de Bondton ou Bontins (1642), investigador holandês a quem se atribui a prioridade do seu estudo, as descrições dos portugueses fazem série: Gabriel Rebelo (1569), M. Godinho Eredia (1613), Diogo de Couto (1616),
Pedro de Basto e João de Barros, João Ribeiro (1685) e Ferrão de Queirós.
Segundo Silva Carvalho, o próprio Prof. Jeanselme, autoridade neste assunto, reconhece os portugueses como os primeiros a identificar esta entidade nosológica, uma vez que a sua presença nas colónias foi indiscutivelmente anterior à dos
holandeses.
Cientificamente, porém, não nos é reconhecida tal prioridade, e, só por direito moral a poderemos invocar.
O cólera asiático, designado também por morxi, mal gangético, colerica passio, mordexi, hacaiza, sarna castelhana, etc., doença epidémica na Índia, em 1543, é observado e bem descrito por Gaspar Correia e Garcia da Orta. Este último,
de formação médica, retrata-nos a doença de um modo mais correcto e científico.
A descrição da Filaríase e do respectivo tratamento, observada na «Relação do Reino do Congo» (1578-1587), garante ao seu autor, Duarte Lopes, a primazia científica.
Muito antes de Guilherme de Pison (considerado um dos fundadores da Medicina Tropical), António Galvão (1563) e Gabriel Soares de Sousa (1587), dentre outros escritores peninsulares (Gomara, Oviedo, etc.), deixaram-nos minuciosas descrições
sobre a Pulga penetrante (Pulex penetrans), vulgarmente conhecida em Portugal por «matacanha».
Soares de Sousa, sem formação médica ou científi ca,munido apenas de um espírito autodidáctico e arguto, descreve de uma forma eloquente animais e plantas brasileiros e as suas exposições nada ficam a dever às dos naturalistas e zoólogos
setecentistas, como Buffon, Lineu, Abeville e outros.
Aqueles dois autores portugueses quinhentistas informar-nos-iam, ainda sobre uma enfermidade conhecida por «mal-do-bicho ou xeringosa», rectite epidémica gangrenosa, que Aleixo de Abreu viria a descrever pormenorizada e cientifi camente no seu
«Tratado de las siete enfermedades», publicado em 1623.
No domínio do Ofidismo, Fernão Cardim, Gabriel S. de Sousa e José de Anchieta, registariam também inúmeras informações, algumas delas importantes contributos para o
estudo da Imunidade e da Toxicologia. Antecipadando-se a Redi, quase cem anos, apontam claramente a sede do veneno nos ofídeos, localizado num pequeno dente, dentro da boca desses animais.
Anchieta alude mesmo, de uma forma inequívoca, à imunidade conferida por uma primeira mordedura de cobra venenosa. Na medicina, como em outros campos, a acção dos
portugueses dos Descobrimentos foi um rosário incontável de notáveis feitos, inovações e contributos.".
Frada, J.J.C. — História, Medecina e Descobrimentos Portugueses.
Revista ICALP, vol. 18, Dezembro de 1989, 63-73.
Os insustentáveis

por BAPTISTA BASTOS
08 Fevereiro 2012
DN OPINIÃO
Aguiar-Branco chegou e disse. Na cara de generais, coronéis e afins, decretou que a tropa, tal como está, é financeiramente insustentável. A afirmação caiu mal, ainda por cima porque pressupunha a redução drástica de efectivos. É um sinal dos tempos. Desde que este Governo ascendeu ao poder, fomos sabendo, com sobressalto e resignação, que a pátria é insustentável. Na saúde, na educação, na assistência social, na justiça, na segurança, nos transportes públicos, na RTP, na RDP, nas pensões e nas reformas, sem a supressão dos subsídios de férias e do décimo segundo mês, com a manutenção da tolerância de ponto no Carnaval, a pátria não consegue sustentar-se a si mesma. Pergunta-se: então, como se aguentou, até agora? Com dívidas, golpadas, ardis e manigâncias?
Nesta teoria de "insustentabilidade", os próprios portugueses estão incluídos. O Governo não sabe o que fazer deles, e incita-os a emigrar, com o descaramento de quem é incapaz de solucionar o problema e assim dissimula a sua incompetência política e ética.
Mas as coisas complicam-se. E as decepções vão-se acumulando. A solidariedade parece estar desempregada na Europa. O imigrante é olhado de soslaio. Uma das facetas essenciais do neoliberalismo é reduzir a democracia às funções de "superfície" e estimular o individualismo. O "estrangeiro" é o inimigo. A possibilidade de escolha, apanágio das sociedades democráticas, dissolveu-se: não há oásis; o conceito de pluralidade transformou-se numa hostilidade que ronda a abjecção. O jornalista Noé Monteiro, correspondente na Suíça da RTP, foi o autor, no domingo, p.p., de uma pungente reportagem sobre portugueses que tentaram fugir à fome e à miséria e entraram num outro crisol do inferno. A Suíça, outrora acolhedora, embora áspera e burocrática, ela própria feita de politeísmo de culturas e de valores, é uma incerteza irredutível. O neoliberalismo impôs a normalização das estruturas e dos comportamentos. O mundo, hoje, é um lugar de vazio, de afronta e de desumanização.
Em Portugal, ameaçados pelas contingências de uma filosofia política que alastrou como endemia, os portugueses não sabem que fazer. Aliás, como as hesitações, as derivas e as perplexidades de quem nos governa. Esta gente quer-nos levar para aonde?
Parece que ninguém possui capacidade e talento para enfrentar a realidade circundante. "Todos somos culpados." A frase, utilizada por quem, realmente, é responsável, serve de encobrimento a uma experiência político-económica que deixou a Europa de rastos e promoveu a mediocridade como norma. O surgimento de Merkel e de Sarkozy pertence a essa lógica do absurdo, incapaz de resolver a complexidade criada pela sua própria irracionalidade.
Estamos num ponto da História em que todos somos insustentáveis".
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
09/02/2012
Ainda o (Des)Acordo Ortográfico
Um texto do jornalista Nuno Pacheco, a propósito do tal Acordo que Vasco de Graça Moura erradicou do CCB:
Omens sem H... (e sem espinha!)
Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos.
No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco.
Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje.
Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.
Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio.
O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota.
"É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen?
Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas.
Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita".
Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema.
A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo.
Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas?
Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.
Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.
Por Nuno Pacheco - Jornalista
Omens sem H... (e sem espinha!)
Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos.
No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco.
Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje.
Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.
Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio.
O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota.
"É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen?
Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas.
Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita".
Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema.
A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo.
Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas?
Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.
Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.
Por Nuno Pacheco - Jornalista
07/02/2012
O reverso da medalha: agressão de professores
A indignação, mágoa e frustração dos professores já é difícil de silenciar, como mostra este texto de Maria do Rosário Meireles Cunha:
Um dia cinzento…professor
Hoje o dia amanheceu cinzento e chuvoso…Para muitos mais um dia de inverno! Para mim um dia triste, coberto de indignação, revolta, medo, impotência e desolação.
Ontem, em frente à Escola EB 2/3 Padre António Luís Moreira, nos Carvalhos – Vila Nova de Gaia, um Professor de Matemática, de 63 anos, foi violentamente agredido por três indivíduos de etnia cigana. Não. Não agrediu nenhum aluno. Não foi incorreto com ninguém, nem tão pouco falou mais alto. O exemplo de civismo, educação, correcção e
profissionalismo é a descrição deste nosso colega. Apenas mandou que uma aluna de etnia cigana se retirasse da sala onde entrou sem autorização e sem educação. Motivo este bastante para que a aluna comunicasse com os familiares que de forma selvagem se encarregaram do “ajuste de contas”.
Sou professora e tenho também alunos de etnia cigana. Terei provavelmente princípios de educação e civismo semelhantes aos da maior parte dos professores, como este colega. Corrijo todos os dias os comportamentos e atitudes que considero despropositados. Trato todos os alunos de igual forma tendo como principio a igualdade de que todos falam com a “boca cheia”. Igualdade essa de direitos, mas também de deveres. Sim, porque não pensem que a igualdade só serve para ter direitos! O cumprimento das regras de civismo e respeito também fazem parte. E se um dos meus alunos achar que “cuspir em cima das secretárias” é um direito que ele tem? Isso vai contra o meu entendimento de respeito e educação e, como tal terei de informá-lo da
necessidade de limpar a secretária que é de todos. Se a moda pega, terei com toda a certeza de pedir proteção policial para sair da escola.
Cada vez que tento visualizar a situação de agressão a que foi sujeito este professor, fico completamente de rastos, desmoralizada e sem motivação alguma para continuar a fazer aquilo que escolhi há muitos anos.
E falam-me em revisão curricular??
Podem fazê-las todas e todos os anos! Não é aí que se encontra o “cancro” da Escola/Educação. Podem aumentar as cargas horárias todas que quiserem! Os alunos não vão saber mais por isso. É o mesmo que tentar tratar o doente com a medicação errada.
A indisciplina grassa em grande escala e em percurso crescente na maior parte dos estabelecimentos de ensino do nosso país. É mais ou menos camuflada, numas ou noutras escolas, por interesses vários, desde directores a ministros. Mas está instaurada e cada vez com maior número de aderentes. A nós pouco nos resta fazer. Tentamos de todas as formas, nunca infringindo a lei ou ferindo os tão pregoados direitos do aluno, proteger os poucos que sabem para que serve a Escola, o Professor e a Educação.
Mesmo correndo algum risco de, segundo os entendidos, traumatizar as crianças, ainda elevamos o tom de voz ou castigamos um ou outro aluno, na tentativa, quase inglória, de “salvar” mais um.
Sabendo que a missão primeira de educar compete aos pais e sabendo que poderemos ser verbalmente e fisicamente agredidos, arriscamos e transmitimos sempre que achamos premente, os valores e princípios que os nossos alunos não trazem de casa, corrigimos atitudes, somos pai e mãe sempre que necessário. Recebemos mensagens escritas dos encarregados de educação, revelando uma falta de respeito, educação e
desconhecimento atroz, porque cansamos o seu educando com os trabalhos de casa. Somos ameaçados pelos pais e familiares dos alunos a quem dizemos que é necessário um caderno e uma caneta para escrever e que esse material é muito mais importante numa sala de aula, do que um telemóvel…
E falam-me em revisão curricular??…
Não aguento mais medidas sem sentido e de nenhum efeito. Um médico não receita sem saber qual é o mal de um doente, ou não deveria fazê-lo. Então como se quer tratar a Escola/Educação sem antes perceber, analisar, verificar onde está realmente o grande, imenso problema?
É urgente e inadiável impor a disciplina nas escolas portuguesas.
É urgente e inadiável que se percebam as diferenças de direitos e deveres entre um adulto e uma criança.
É urgente e inadiável que um professor possa ensinar quem quer realmente aprender.
É urgente e inadiável que o medo deixe de ser uma sombra permanente sobre as cabeças dos docentes do nosso país.
É urgente e inadiável que possamos intervir assertivamente e no imediato em situações que estão no limiar do humanamente suportável.
É urgente e inadiável que o respeito e educação que exijo aos meus filhos, possa exigir da mesma forma aos meus alunos.
E falam-me de revisão curricular??
É inadmissível que o professor seja obrigado a engolir os insultos de um aluno que tem mais ou menos a idade dos seus filhos quando em sua casa isso não é minimamente tolerável.
Não pensem que quero “a menina dos cinco olhinhos”. Não. Apenas penso que fomos exactamente para o outro extremo. Quase que me apetece dizer que se vive uma anarquia nas escolas. Gritar fere a sensibilidade das crianças, mas falar baixo não resulta pois estas não sabem estar caladas. Uma bofetada ou puxão de orelhas? Completamente desadequado.
Isso só com os nossos filhos surte efeito. Aos nossos alunos traumatiza e marca para toda a vida. Talvez seja por isso, por tantos traumas destes, que a nossa geração cresceu, formou-se, trabalha e não espera que nenhum subsídio seja criado e nenhuma casa lhe seja oferecida.
Os meus vinte e cinco anos de serviço não me ensinaram a viver uma escola em que importa apenas que as crianças sejam muito felizes e acreditem que a vida é super fácil; que o trabalhar é apenas para os “totós”, pois a preguiça compensa e de uma forma ou de outra todos conseguirão fazer a escola; que independentemente de cumprirmos as
regras teremos sempre direitos; que pudemos ofender de todas as formas possíveis e agredir sempre, pois o pior que poderá acontecer são uns dias de “férias” em casa; que de uma forma ou de outra, a culpa é sempre do professor.
O nosso colega está em casa, depois de uma tarde nas urgências do hospital, com cortes no rosto e muitos hematomas. Tenho o estômago embrulhado e um nó na garganta. Uma vida inteira dedicada a ensinar e a formar um futuro melhor para o nosso país é desta forma agraciada quase no fim da sua carreira. E quem está a ler e a sentir-se da mesma forma que eu perguntará: “ E a escola não age?” E eu digo-vos qual é a
resposta: “Foi fora do recinto escolar.” Gostaram? Conseguem imaginar como será o estado de espírito deste professor de matemática?
Já não falo das marcas físicas e das dores que deve ter, pois foram muitos pontapés e murros covardemente dados por três homens na casa dos vinte anos. Covardemente por serem três a agredirem um senhor de sessenta e três anos. Falo na dor psicológica, uma dor que não passa com analgésicos, que vai lá ficar muito tempo. Será a recordação mais viva que terá da sua longa carreira que está quase no final. Aqui fica a medalha de “cortiça” que recebe pela sua dedicação e entrega à escola e aos alunos.
No final apenas fica o amargo de boca de quem tem consciência de que fez o melhor trabalho que pode, que entregou a melhor parte da sua vida e juventude aos seus alunos, que exerceu com toda a dignidade a sua profissão, respeitando sempre todos, engrandecendo o conhecimento de muitos.
Resta-me dizer que este dia cinzento tem toda a razão de ser e todos os professores se sentirão exactamente neste cinzento que porventura será a cor que melhor define os sentimentos de quem neste momento consegue imaginar-se no lugar deste professor.
Maria do Rosário Meireles Cunha
Professora na Escola EB 2/3 de Olival
Um dia cinzento…professor
Hoje o dia amanheceu cinzento e chuvoso…Para muitos mais um dia de inverno! Para mim um dia triste, coberto de indignação, revolta, medo, impotência e desolação.
Ontem, em frente à Escola EB 2/3 Padre António Luís Moreira, nos Carvalhos – Vila Nova de Gaia, um Professor de Matemática, de 63 anos, foi violentamente agredido por três indivíduos de etnia cigana. Não. Não agrediu nenhum aluno. Não foi incorreto com ninguém, nem tão pouco falou mais alto. O exemplo de civismo, educação, correcção e
profissionalismo é a descrição deste nosso colega. Apenas mandou que uma aluna de etnia cigana se retirasse da sala onde entrou sem autorização e sem educação. Motivo este bastante para que a aluna comunicasse com os familiares que de forma selvagem se encarregaram do “ajuste de contas”.
Sou professora e tenho também alunos de etnia cigana. Terei provavelmente princípios de educação e civismo semelhantes aos da maior parte dos professores, como este colega. Corrijo todos os dias os comportamentos e atitudes que considero despropositados. Trato todos os alunos de igual forma tendo como principio a igualdade de que todos falam com a “boca cheia”. Igualdade essa de direitos, mas também de deveres. Sim, porque não pensem que a igualdade só serve para ter direitos! O cumprimento das regras de civismo e respeito também fazem parte. E se um dos meus alunos achar que “cuspir em cima das secretárias” é um direito que ele tem? Isso vai contra o meu entendimento de respeito e educação e, como tal terei de informá-lo da
necessidade de limpar a secretária que é de todos. Se a moda pega, terei com toda a certeza de pedir proteção policial para sair da escola.
Cada vez que tento visualizar a situação de agressão a que foi sujeito este professor, fico completamente de rastos, desmoralizada e sem motivação alguma para continuar a fazer aquilo que escolhi há muitos anos.
E falam-me em revisão curricular??
Podem fazê-las todas e todos os anos! Não é aí que se encontra o “cancro” da Escola/Educação. Podem aumentar as cargas horárias todas que quiserem! Os alunos não vão saber mais por isso. É o mesmo que tentar tratar o doente com a medicação errada.
A indisciplina grassa em grande escala e em percurso crescente na maior parte dos estabelecimentos de ensino do nosso país. É mais ou menos camuflada, numas ou noutras escolas, por interesses vários, desde directores a ministros. Mas está instaurada e cada vez com maior número de aderentes. A nós pouco nos resta fazer. Tentamos de todas as formas, nunca infringindo a lei ou ferindo os tão pregoados direitos do aluno, proteger os poucos que sabem para que serve a Escola, o Professor e a Educação.
Mesmo correndo algum risco de, segundo os entendidos, traumatizar as crianças, ainda elevamos o tom de voz ou castigamos um ou outro aluno, na tentativa, quase inglória, de “salvar” mais um.
Sabendo que a missão primeira de educar compete aos pais e sabendo que poderemos ser verbalmente e fisicamente agredidos, arriscamos e transmitimos sempre que achamos premente, os valores e princípios que os nossos alunos não trazem de casa, corrigimos atitudes, somos pai e mãe sempre que necessário. Recebemos mensagens escritas dos encarregados de educação, revelando uma falta de respeito, educação e
desconhecimento atroz, porque cansamos o seu educando com os trabalhos de casa. Somos ameaçados pelos pais e familiares dos alunos a quem dizemos que é necessário um caderno e uma caneta para escrever e que esse material é muito mais importante numa sala de aula, do que um telemóvel…
E falam-me em revisão curricular??…
Não aguento mais medidas sem sentido e de nenhum efeito. Um médico não receita sem saber qual é o mal de um doente, ou não deveria fazê-lo. Então como se quer tratar a Escola/Educação sem antes perceber, analisar, verificar onde está realmente o grande, imenso problema?
É urgente e inadiável impor a disciplina nas escolas portuguesas.
É urgente e inadiável que se percebam as diferenças de direitos e deveres entre um adulto e uma criança.
É urgente e inadiável que um professor possa ensinar quem quer realmente aprender.
É urgente e inadiável que o medo deixe de ser uma sombra permanente sobre as cabeças dos docentes do nosso país.
É urgente e inadiável que possamos intervir assertivamente e no imediato em situações que estão no limiar do humanamente suportável.
É urgente e inadiável que o respeito e educação que exijo aos meus filhos, possa exigir da mesma forma aos meus alunos.
E falam-me de revisão curricular??
É inadmissível que o professor seja obrigado a engolir os insultos de um aluno que tem mais ou menos a idade dos seus filhos quando em sua casa isso não é minimamente tolerável.
Não pensem que quero “a menina dos cinco olhinhos”. Não. Apenas penso que fomos exactamente para o outro extremo. Quase que me apetece dizer que se vive uma anarquia nas escolas. Gritar fere a sensibilidade das crianças, mas falar baixo não resulta pois estas não sabem estar caladas. Uma bofetada ou puxão de orelhas? Completamente desadequado.
Isso só com os nossos filhos surte efeito. Aos nossos alunos traumatiza e marca para toda a vida. Talvez seja por isso, por tantos traumas destes, que a nossa geração cresceu, formou-se, trabalha e não espera que nenhum subsídio seja criado e nenhuma casa lhe seja oferecida.
Os meus vinte e cinco anos de serviço não me ensinaram a viver uma escola em que importa apenas que as crianças sejam muito felizes e acreditem que a vida é super fácil; que o trabalhar é apenas para os “totós”, pois a preguiça compensa e de uma forma ou de outra todos conseguirão fazer a escola; que independentemente de cumprirmos as
regras teremos sempre direitos; que pudemos ofender de todas as formas possíveis e agredir sempre, pois o pior que poderá acontecer são uns dias de “férias” em casa; que de uma forma ou de outra, a culpa é sempre do professor.
O nosso colega está em casa, depois de uma tarde nas urgências do hospital, com cortes no rosto e muitos hematomas. Tenho o estômago embrulhado e um nó na garganta. Uma vida inteira dedicada a ensinar e a formar um futuro melhor para o nosso país é desta forma agraciada quase no fim da sua carreira. E quem está a ler e a sentir-se da mesma forma que eu perguntará: “ E a escola não age?” E eu digo-vos qual é a
resposta: “Foi fora do recinto escolar.” Gostaram? Conseguem imaginar como será o estado de espírito deste professor de matemática?
Já não falo das marcas físicas e das dores que deve ter, pois foram muitos pontapés e murros covardemente dados por três homens na casa dos vinte anos. Covardemente por serem três a agredirem um senhor de sessenta e três anos. Falo na dor psicológica, uma dor que não passa com analgésicos, que vai lá ficar muito tempo. Será a recordação mais viva que terá da sua longa carreira que está quase no final. Aqui fica a medalha de “cortiça” que recebe pela sua dedicação e entrega à escola e aos alunos.
No final apenas fica o amargo de boca de quem tem consciência de que fez o melhor trabalho que pode, que entregou a melhor parte da sua vida e juventude aos seus alunos, que exerceu com toda a dignidade a sua profissão, respeitando sempre todos, engrandecendo o conhecimento de muitos.
Resta-me dizer que este dia cinzento tem toda a razão de ser e todos os professores se sentirão exactamente neste cinzento que porventura será a cor que melhor define os sentimentos de quem neste momento consegue imaginar-se no lugar deste professor.
Maria do Rosário Meireles Cunha
Professora na Escola EB 2/3 de Olival
06/02/2012
Os meus romances no Facebook
Descobri, há tempo, que alguém se tinha dado ao trabalho de criar no Facebook páginas dedicadas a três dos meus romances.Foi uma surpresa que me encantou e emocionou muito, visto que, para fazer tal coisa, essa pessoa tinha de ser um(a) leitor(a) apaixonado(o) pela minha obra. Procurei em vão saber quem era esse generoso desconhecido, pois, nas páginas do Facebook, os nomes e as fotos de perfil eram os dos respectivos livros: D. Sebastião e o Vidente, O Navegador da Passagem e O Espião de D. João II.
Este fim-de-semana descobri finalmente a identidade do meu misterioso e devotado Leitor. Aminha fã (pois de uma Leitora se trata) é essa lindíssima moça da foto, chama-se Ana Filipa Santos, e tem (imaginem só, pois custa a crer)... 15 anos!
E ainda se diz que os jovens portugueses não gostam de ler... Ana Santos até pode ser uma excepção _ é-o,sem dúvida, pois os meus livros não são de leitura fácil, quer pela linguagem, quer pelo conteúdo e extensão _, mas são jovens assim que me mantêm a esperança neste país.
Aqui fica o meu público agradecimento a Ana Santos, cuja Página do Facebook, se a quiserem visitar é: http://www.facebook.com/profile.php?id=100000308722822.
Para acederem às Páginas dos meus romances, por ela criadas, basta clicar nos títulos acima indicados para abrir os links.
Bem haja, querida Ana, pelo prazer que me deu!
276 € para desentupir o cano do lava-louça!
Este país está a saque. Da firma "24 horas Alerta" - serralharia, canalizações e Electricidade, vieram a minha casa desentupir um cano do lava-louças e levaram 225 € + 51 € de IVA, por 45m. de trabalho.
Ainda há quem diga que se ganha mal, em Portugal - 275 € para desentupir um cano! Conto-vos este caso para vos prevenir contra estes golpes: Não enfiem o barrete, como nós, peçam sempre orçamento antes, mesmo que precisem de desentupir o cano no próprio dia. E nesta firma, nunca! Foi pura extorsão!
Contactámo-los pelas Páginas Amarelas. Costumamos usar os serviços do ACP, que funcionam bem e se informam depois como decorreu o serviço. Como já do ACP tinham feito o trabalho semelhante por uns 80€, não pedimos orçamento.
Irrita sermos enganados por termos boa fé. Este é o meu aviso para que não caiam no mesmo. E vou participar à DECO.
Ainda há quem diga que se ganha mal, em Portugal - 275 € para desentupir um cano! Conto-vos este caso para vos prevenir contra estes golpes: Não enfiem o barrete, como nós, peçam sempre orçamento antes, mesmo que precisem de desentupir o cano no próprio dia. E nesta firma, nunca! Foi pura extorsão!
Contactámo-los pelas Páginas Amarelas. Costumamos usar os serviços do ACP, que funcionam bem e se informam depois como decorreu o serviço. Como já do ACP tinham feito o trabalho semelhante por uns 80€, não pedimos orçamento.
Irrita sermos enganados por termos boa fé. Este é o meu aviso para que não caiam no mesmo. E vou participar à DECO.
04/02/2012
Não posso aceitar este Acordo Ortográfico
Não aceito este Acordo Ortográfico, porque o acho desnecessário - para mais feito em gabinetes, à revelia da maioria dos seus utentes e das instituições que velam por ela -, e me prejudica a escrita e a corrompe, criando a cada passo confusões que chegam a ser absurdas ou mesmo ridículas.
Assinei todas as petições contra, ainda não calei os meus protestos e nunca aceitarei ter os meus livros "emendados", segundo o Acordo. Se me quiserem obrigar a fazê-lo, não voltarei a publicar outro livro no resto da minha vida.
O que me custou mais em todo o processo foi exactamente a falta de amor pela nossa Língua, a qual, sendo a matriz de todas as variantes do Português falado no mundo, os promotores do Acordo dizem querer valorizar, corrompendo-a para a aproximar das ditas variantes, porque é de facto apenas desta subordinação que se trata e não de uma evolução do nosso idioma. É o mundo às avessas
Neste país nunca houve da parte dos governantes qualquer respeito pelos cidadãos, só fingem tê-lo no tempo das eleições, depois "borrifam-se" para o que pensamos ou queremos, porque estão habituados ao nosso conformismo, porque, enquanto povo, nós dobramos a espinha ao poder, não temos orgulho no nosso país, na nossa Língua que é o cerne da nossa identidade, da nossa História ou da nossa Cultura. Por isso temos uma troika estrangeira a estalar o chicote nos nossos lombos.
A nossa Língua evoluía naturalmente, como é próprio de qualquer idioma do mundo. O que se fez foi um "favor" não ao nosso país, mas a outro, uma cedência como muitas mais que os nossos governantes e os seus satélites têm feito, com esse eterno complexo de menoridade (falam com muita bazófia para esconder a insegurança ou a falta de cultura e de competência), dobram a cerviz por sua vez "aos de fora", "aos maiores e mais ricos" e sujeitam-se a acordos que as outras partes depois não respeitam. Já no anterior acordo, o Brasil, depois de o assinar, "borrifou-se" para ele e para nós e continuou a escrever como sempre o fez.
Venderam-nos por pouco e ficaram muito contentinhos! Alguns nem esperaram por a data do desastre. Este malfadado Acordo só entraria em vigor oficialmente em 2014, infelizmente os agentes de cultura, como os Media e as editoras, que deviam acautelar a Língua dos seus jornalistas e escritores, apressaram-se a render-se ao poder e aos interesses (decerto em futuros ganhos, ainda que possam vir a ser apenas fumo...).
Conto com os meus leitores, se gostaram de me ler até hoje, continuarão a ler-me no futuro, embora a "escrever mal e com erros", segundo o novo Acordo Ortográfico. Pelo que, desde já,peço a vossa compreensão e perdão, queridos amigos leitores.
Assinei todas as petições contra, ainda não calei os meus protestos e nunca aceitarei ter os meus livros "emendados", segundo o Acordo. Se me quiserem obrigar a fazê-lo, não voltarei a publicar outro livro no resto da minha vida.
O que me custou mais em todo o processo foi exactamente a falta de amor pela nossa Língua, a qual, sendo a matriz de todas as variantes do Português falado no mundo, os promotores do Acordo dizem querer valorizar, corrompendo-a para a aproximar das ditas variantes, porque é de facto apenas desta subordinação que se trata e não de uma evolução do nosso idioma. É o mundo às avessas
Neste país nunca houve da parte dos governantes qualquer respeito pelos cidadãos, só fingem tê-lo no tempo das eleições, depois "borrifam-se" para o que pensamos ou queremos, porque estão habituados ao nosso conformismo, porque, enquanto povo, nós dobramos a espinha ao poder, não temos orgulho no nosso país, na nossa Língua que é o cerne da nossa identidade, da nossa História ou da nossa Cultura. Por isso temos uma troika estrangeira a estalar o chicote nos nossos lombos.
A nossa Língua evoluía naturalmente, como é próprio de qualquer idioma do mundo. O que se fez foi um "favor" não ao nosso país, mas a outro, uma cedência como muitas mais que os nossos governantes e os seus satélites têm feito, com esse eterno complexo de menoridade (falam com muita bazófia para esconder a insegurança ou a falta de cultura e de competência), dobram a cerviz por sua vez "aos de fora", "aos maiores e mais ricos" e sujeitam-se a acordos que as outras partes depois não respeitam. Já no anterior acordo, o Brasil, depois de o assinar, "borrifou-se" para ele e para nós e continuou a escrever como sempre o fez.
Venderam-nos por pouco e ficaram muito contentinhos! Alguns nem esperaram por a data do desastre. Este malfadado Acordo só entraria em vigor oficialmente em 2014, infelizmente os agentes de cultura, como os Media e as editoras, que deviam acautelar a Língua dos seus jornalistas e escritores, apressaram-se a render-se ao poder e aos interesses (decerto em futuros ganhos, ainda que possam vir a ser apenas fumo...).
Conto com os meus leitores, se gostaram de me ler até hoje, continuarão a ler-me no futuro, embora a "escrever mal e com erros", segundo o novo Acordo Ortográfico. Pelo que, desde já,peço a vossa compreensão e perdão, queridos amigos leitores.
01/02/2012
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
Entre o furacão Katrina e o Buster Keaton, fabulosa animação, um encanto para quem gosta de livros e de Bibliotecas! Para miúdos e graúdos. Não se assustem com os aparentes blackouts, não são falhas do vídeo, são pausas. Um prazer para os olhos. Para ver em ecrã inteiro: por favor não percam!
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore from Moonbot Studios on Vimeo.
30/01/2012
25/01/2012
Maria de Lurdes vai ser julgada
E dizia ela que os professores não prestavam...Citado do SOL:
Maria de Lurdes Rodrigues acaba de ser acusada pelo DIAP de Lisboa do crime de prevaricação, por ter contratado ilicitamente João Pedroso – investigador universitário e irmão do ex-dirigente do PS, Paulo Pedroso – para consultor jurídico do Ministério da educação, entre 2005 e 2007.
Em causa estão contratos no valor global de mais de 300 mil euros feitos pelo gabinete da ex-ministra, por ajuste directo, com o objectivo de João Pedroso elaborar trabalhos de investigação para o Ministério da Educação.
A acusação foi deduzida pelo Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa no passado dia 15. Além de Lurdes Rodrigues, são também arguidos o próprio João Pedroso, e ainda João da Silva Baptista, então secretário-geral do Ministério da Educação, e Maria José Matos Morgado, que era chefe de gabinete da ex-ministra. São todos acusados em co-autoria, do crime de «prevaricação» praticado por titular de cargo político, segundo o despacho de acusação da 9ª Secção do DIAP de Lisboa consultado pelo SOL.
A acusação salienta que os contratos foram feitos com violação das regras do regime da contratação pública para aquisição de bens e serviços. «Tais adjudicações, de acordo com os indícios, não tinham fundamento, traduzindo-se num prejuízo para o erário público, do que os arguidos estavam cientes» - afirma, em comunicado, a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa.
Tribunal enfatiza ligações partidárias
Em causa está o facto de Lurdes Rodrigues, Maria Matos Morgado e João Baptista terem beneficiado patrimonialmente João Pedroso na adjudicação de dois contratos, cujo valor ultrapassou os 300 mil euros, para a elaboração de uma compilação da legislação no domínio da educação – sector no qual João Pedro não tinha experiência.
A imputação de favorecimento deriva do facto de o ajuste directo ser ilegal, pois ultrapassava o montante definido pela lei para essa forma de contratação pública, e pelo incumprimento dos objectivos do primeiro contrato de 2005 – facto que não impediu a adjudicação de um segundo contrato de 260 mil euros em 2007.
Os motivos que levaram a esse benefício não foram totalmente esclarecidos, mas o juiz do TIC salienta, no despacho, «a proximidade política de todos os arguidos – já que apresentam no seu currículo a nomeação de elevadas funções na administração pública, às quais todos acederam por convites de membros de governos sustentados por maiorias do PS, sendo os seus nomes veiculados por ministros, como mostrou Maria Lurdes Rodrigues».
luís.rosa@sol.pt
24/01/2012
A quase clandestinidade da Literatura
Da Mesa-redonda «Balanço Literário da Década», no Centro Nacional de Cultura, uma certeira análise da Literaturada última década, por Ana Marques Gastão:"Passando em revista a paisagem literária do último decénio, é notório o enormíssimo desnível entre quantidade e qualidade. Num tempo em que a interdependência entre cultura e mercado se faz sentir de uma forma cada vez menos ética, o grande volume de títulos publicados sem uma política editorial criteriosa não deixa de ser um sintoma de que a literatura, por assim dizer «séria», se tornou quase clandestina. Enquanto, no domínio da ficção, surgiram algumas obras de relevo que em si encerram um devir objecto estético e/ou intelectual, no campo da poesia, a chuva torrencial de edições trouxe, por um lado – com honrosas e, por vezes, repetitivas excepções –, a maior desatenção por parte dos editores à publicação de livros escritos por poetas seguramente reconhecidos, e, por outro, o surgimento de autores com a chancela de pequenas ou médias casas editoriais que lutam, não sem esforço, pela sobrevivência.
Grave é o perigo que correm os poetas, e muitos ficcionistas, a quem eu chamaria de sempre no campo da edição: são facilmente ignorados. Os jovens, esses, se têm um mínimo de qualidade, vão-se acolhendo nas pequenas editoras ou no mundo da internet, onde proliferam blogues e sites. Nunca foi simples começar, mas o que não se escreve não existe, tal como sublinha Yvette K. Centeno no seu último romance, Do Longe e do Perto – Quase-Diário, é, todavia, necessário que seja dado a ver. Não me parece admissível que autores de prestígio tenham dificuldade em publicar – ou que sejam obrigados a fazê-lo online –, por lhes fecharem portas atrás de portas, tantas vezes depois de terem visto guilhotinar os seus livros, enquanto desfilam nos corredores mediáticos poetas sem poesia dentro, ou poesia sem poetas dentro. Dir-se-ia lamentável que escritores menos celebrados sejam ignorados por viverem fora da cidade dos lobbies instalados e estabelecidos. Se há demarcação cada vez mais difícil de se fazer é a da qualidade, pois a dimensão da crítica literária – que quase não existe na imprensa diária e, por pouco, sobrevive na hebdomadária – perdeu, salvo em diminutos casos, por falta de qualidade e pela exiguidade do espaço que lhe é concedido, o papel que em tempos teve: o de dar a conhecer fundamentada e rigorosamente uma obra, comentando-a.
No atropelo do que se vai editando, sabemos que se tornou bem difícil encontrar numa estante a obra que o leitor pretende, já que as livrarias se tornaram em supermercados de aeroporto com pessoal de atendimento pouco especializado. A tríade edição/distribuição/mundo livreiro deixou de funcionar convenientemente e há livros que nem hipóteses têm de chegar aos consumidores a não ser via internet, o que é eficiente e veloz, mas, por vezes, tão abstruso como o papel sem lápis: o comprador não vê nem folheia o objecto que adquire. O ensaísmo e a literatura não-light assumem hoje, por outro lado, um lugar de invisibilidade, enquanto novos autores de qualidade são escondidos em espaços quase marginais. Vai sobrevivendo a cultura-espectáculo alimentada pela publicação excessiva na área do entretenimento que ultrapassa em muito o que se faz, em vários segmentos da edição, no resto da Europa em crise, mas nesse aspecto mais civilizada.
Registo, no entanto, o surgimento na década anterior de Obras Reunidas assinadas por poetas a quem a história da literatura muito deve como é o caso, entre outros, de Ana Luísa Amaral, António Osório, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Eugénio de Andrade, Fernando Echevarría, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Herberto Helder, Luís Miguel Nava, João Rui de Sousa, Mário Cesariny (os poemas maiores), Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Ruy Belo e Sophia de Mello Breyner Andresen. Trata-se de matéria essencial para o leitor, mas também para o investigador e historiador da literatura. Destaque-se o esforço que se fez no campo do ensaio literário (nas suas extensões e ligações a outros ramos do saber), onde a língua portuguesa imaginativamente floresce. Assistiu-se, por outro lado, neste decénio, a uma certa recuperação da memorialística, mesmo no âmbito da ficção, da diarística e da crónica. As insufladas e excessivas edições na área da literatura para a infância e juventude – nem sempre de qualidade –, trouxeram poucos mas significativos escritores, bem como jovens ilustradores de traço original.
Tudo isto poderia constituir uma amálgama de lugares-comuns se não se fixassem alguns traços da paisagem literária portuguesa recente: é notório, a meu ver, que as «sereias» – entendidas estas enquanto força de ruptura no movimento da linguagem e do pensamento – estão a ser silenciadas pelo poder da tecnocracia, do mercantilismo, dos hipermercados do vazio. Não sei se Ulisses as terá vencido, mas digamos que o facilitismo de que se veste o comboio da cultura – suportado, de forma ética e humanamente reprovadora, pelos jornais – tem contribuído para o seu descrédito, o que não significa que se defenda uma imprensa elitista, mas mais abrangente e sobretudo exigente. O ecrã da história – como se lhe referiu Braudillard, move-se ao mesmo ritmo que os fenómenos naturais; a sua construção é irremediavelmente inseparável do saber que pode ser transmitido em todos os domínios de forma clara, democrática, mas não mediocrizante.
Digamos que a essência da Literatura, transformadora do tempo num espaço imaginário (o espaço das imagens), tem vindo a ser lentamente esvaziada de ideias; sem elas, que mundo estamos a construir? Perdeu-se o trilho do segredo aliado à paciência, ao rigor e à sedução do desconhecido, sendo notória, por outro lado, uma ténue tendência para a abordagem de temas em que a espiritualidade ganha um espaço interessante, por vezes de linhagem filosófica. Tornou-se, entretanto, evidente a descolagem da narrativa de temáticas identitariamente apegadas a Portugal enquanto a investigação histórica se foi alargando a um ritmo imprevisível; o movimento da escrita impregna-se hoje de marcas mais universais, ainda que estas surjam como cintilações solitárias ou vibrações.
A experiência de um tempo/espaço imaginários e de pensar o real passou, no entanto, de forma mais evidente, para o domínio da ensaística. Nesse campo, encontramos excelentes escritores, sabendo nós que os ficcionistas de ideias, os da sombra da passagem, da transfiguração metafórica, do símbolo e da alegoria, do sublime e do grotesco, do impulso que vai do figurativo ao abstracto, do movimento laborioso da palavra, vão emergindo cada vez menos, dando lugar ao bem-fazer das telenovelas pseudoliterárias.
Que podemos desejar para os próximos dez anos? Uma literatura não colada a uma multidão mimética que transporta os erros de uma política de educação que ainda não conseguiu – talvez por uma não aposta numa séria formação dos professores e pela manutenção de currículos absurdos – ensinar a ler. Surdos e cegos das essências, mesmo das mais simples, vamos criando monstros activos regidos pela padronização da cultura, pela sobrevalorização do lucro e pela ausência de valores. Seria bom se não fossemos nem centauros da ignorância nem cidadãos apáticos. Sons quase palavra ou linguagem quase-cifrão não geram pensamento nem criatividade, apenas subalternizam o mais nobre fundo do ser humano.
Ana Marques Gastão
Ver mais em: Mesa-redonda «Balanço Literário da Década», CNC, 15-12-2011.
10/01/2012
Um dos livros da sua vida (cont.)
Que o autor do blogue SATANHOCO (agora devidamente identificado) me perdoe a indiscrição que cometo ao transcrever a sua mensagem - e que também os meus restantes amigos/leitores me desculpem o narcisismo e a publicidade -, mas é muito difícil para um autor ficar insensível ou fingir indiferença perante um cumprimento feito a uma obra sua.
Eu confesso-vos, aqui e agora, que me derreto de felicidade, mesmo quando sei que esses elogios prestam mais justiça à gente generosa que os faz do que ao próprio elogiado.
Mas é tão gostoso! Creio poder afirmar com toda a verdade que sinto o mesmo prazer de uma mãe a quem gabam o filho, mesmo que lhe conheça os defeitos ou as falhas.
Assim, queridos amigos, aceitem com um sorriso de condescendência partilhar comigo deste meu prazer, tanto mais que os meus romances só existem porque vocês existem, pois eu nunca poderia escrever só para mim ou "para a gaveta".
Eu sempre escreverei para os meus leitores, sejam eles poucos ou muitos, tanto faz, mas sempre gente de carne e osso, com um espírito em sintonia com o meu e o mesmo amor pela língua portuguesa e pela nossa cultura.
Por isso, meu caro A.A.F., do blogue SATANHOCO, receba de novo a minha gratidão, por este afago ainda mais aveludado ao meu ego, e perdoe-me a indiscrição com a mesma generosidade com que me elogia.
Minha cara Deana:
Agradeço a gentileza que teve em enviar-me o "mail" abaixo reproduzido. É para mim, anónimo que sou, uma honra ser contemplado com uma mensagem duma pessoa que é uma das minhas romancistas preferidas e que entrono como "catedrática da pena".
O comentário que fiz sobre o seu livro é genuino correspondendo, em toda a sua linha, ao que eu penso do mesmo. E muito à vontade estou para o fazer porque não a conheço.
A senhora pode orgulhar-se (entre outras coisas certamente) de que, algures por aí, este seu livro faz parte do núcleo duro da minha biblioteca pessoal; daqueles livros que eu nunca me desfarei e que me acompanharão sempre até ao fim. Tal como "O navegador da passagem".
Desejando-lhe as maiores felicidades pessoais para si e para os seus, e ficando a aguardar o lançamento doutra "olímpica piscina literária" sua onde eu possa mergulhar os meus olhos e nadar o meu cérebro aceite, respeitosamente, os meus cumprimentos.
A.A.F.
Terça, 10-01-2012, 18:33
Eu confesso-vos, aqui e agora, que me derreto de felicidade, mesmo quando sei que esses elogios prestam mais justiça à gente generosa que os faz do que ao próprio elogiado.
Mas é tão gostoso! Creio poder afirmar com toda a verdade que sinto o mesmo prazer de uma mãe a quem gabam o filho, mesmo que lhe conheça os defeitos ou as falhas.
Assim, queridos amigos, aceitem com um sorriso de condescendência partilhar comigo deste meu prazer, tanto mais que os meus romances só existem porque vocês existem, pois eu nunca poderia escrever só para mim ou "para a gaveta".
Eu sempre escreverei para os meus leitores, sejam eles poucos ou muitos, tanto faz, mas sempre gente de carne e osso, com um espírito em sintonia com o meu e o mesmo amor pela língua portuguesa e pela nossa cultura.
Por isso, meu caro A.A.F., do blogue SATANHOCO, receba de novo a minha gratidão, por este afago ainda mais aveludado ao meu ego, e perdoe-me a indiscrição com a mesma generosidade com que me elogia.
Minha cara Deana:
Agradeço a gentileza que teve em enviar-me o "mail" abaixo reproduzido. É para mim, anónimo que sou, uma honra ser contemplado com uma mensagem duma pessoa que é uma das minhas romancistas preferidas e que entrono como "catedrática da pena".
O comentário que fiz sobre o seu livro é genuino correspondendo, em toda a sua linha, ao que eu penso do mesmo. E muito à vontade estou para o fazer porque não a conheço.
A senhora pode orgulhar-se (entre outras coisas certamente) de que, algures por aí, este seu livro faz parte do núcleo duro da minha biblioteca pessoal; daqueles livros que eu nunca me desfarei e que me acompanharão sempre até ao fim. Tal como "O navegador da passagem".
Desejando-lhe as maiores felicidades pessoais para si e para os seus, e ficando a aguardar o lançamento doutra "olímpica piscina literária" sua onde eu possa mergulhar os meus olhos e nadar o meu cérebro aceite, respeitosamente, os meus cumprimentos.
A.A.F.
Terça, 10-01-2012, 18:33
09/01/2012
Um belo pedido de desculpa
Para os meus amigos que devem um pedido de desculpa à namorada, à amiga ou à esposa e para as minhas amigas, em nome dos que as magoaram de alguma maneira. Para as boas relações entre os sexos. Cliquem aqui e divirtam-se
Um dos livros da sua vida
Nem todos os escritores se podem gabar de terem escrito um romance que se tornou na obra ou numa das obras da vida de um leitor. Eu acabo de ter esse privilégio e estou literalmente a estoirar de prazer e gratidão. Bem haja, querido leitor, que apenas conheço pelo nome do blogue SATANHOCO!
Eis o comentário que pôs na sua sugestão de Leituras:
"O espião de D.João II" de Deana Barroqueiro (Ésquilo, Lisboa, 2009, 527 págs.) é o melhor romance histórico que já li sobre a vida de Pêro da Covilhã. Assente numa abundante bibliografia, utilizando vocábulos da época em que os factos ocorreram, ricamente descritivo dos vários aspectos vivenciais da altura, com uma narrativa bem sequenciada e empolgante é, para mim, um dos livros da minha vida. Do melhor que já se escreveu sobre esta personagem lendária.
Satanhoto, 3 de Janeiro de 2012
Obrigada, caríssimo Leitor.
Eis o comentário que pôs na sua sugestão de Leituras:
"O espião de D.João II" de Deana Barroqueiro (Ésquilo, Lisboa, 2009, 527 págs.) é o melhor romance histórico que já li sobre a vida de Pêro da Covilhã. Assente numa abundante bibliografia, utilizando vocábulos da época em que os factos ocorreram, ricamente descritivo dos vários aspectos vivenciais da altura, com uma narrativa bem sequenciada e empolgante é, para mim, um dos livros da minha vida. Do melhor que já se escreveu sobre esta personagem lendária.
Satanhoto, 3 de Janeiro de 2012
Obrigada, caríssimo Leitor.
04/01/2012
O défice orçamental fictício de 2011
Um governo e uma "troika" estrangeira, cegos pela ideologia neoliberal, querem destruir a economia e a sociedade portuguesa - um estudo pelo economista Eugénio Rosa. RESUMO DESTE ESTUDO
Tal como aconteceu com Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal dos EUA, cuja cegueira ideológica neoliberal o impediu de tomar medidas que evitassem a crise iniciada em 2007, também em Portugal a cegueira ideológica neoliberal que domina Passos Coelho e o ministro das Finanças está a impedi-los de ver que estão a destruir o país. A política de austeridade, assente na ideologia neoliberal, tem como objectivo garantir o pagamento aos credores, que são os grandes grupos financeiros, como afirma o Nobel da economia Joseph Stiglitz. E isto mesmo que seja à custa da destruição da economia e da sociedade.
Apesar da falência de milhares de empresas e do aumento brutal do desemprego e da pobreza em Portugal em 2011, o objectivo de redução do défice para 5,9% não foi atingido porque era irrealista. O défice orçamental de 5,9% em 2011, anunciado triunfalmente pelo governo e pela "troika" estrangeira, não é real. É sim um défice fictício, já que só foi conseguido com a utilização de uma parte dos activos dos fundos pensões dos bancários. O verdadeiro défice de 2011 foi de 7,5% do PIB, o que corresponde a 12.737,5 milhões €. E em 2012, o governo e a "troika" pretendem reduzir o défice orçamental para 4,5%, ou seja, para 7.556,9 milhões €, o que significa uma diminuição de 40,7% (-5.180 milhões €). A redução do défice nesta dimensão, quando Portugal já se encontra em plena recessão económica, só poderá determinar mais destruição da economia, a falência de milhares de empresas, o aumento brutal do desemprego, a generalização da pobreza e da miséria, e sacrifícios enormes para a maioria dos portugueses. É um objectivo que, se for concretizado, só poderá levar o país a um grande retrocesso económico e social.
É urgente reagir ao estado de choque causado pela intervenção estrangeira, e exigir um período mais alargado para fazer a consolidação orçamental, pois quanto maior for o prazo menor será a destruição da economia e da sociedade portuguesa. A análise das medidas para 2012 constantes do Memorando revisto em Dezembro de 2011, à margem da Assembleia da República, entre o governo e a "troika" estrangeira, confirma o carácter irrealista e desumano daquilo que o governo e "troika" pretendem impor aos portugueses em 2012. Governo e "troika" tencionam reduzir os salários do sector público em, pelo menos, 3.000 milhões €, o que vai determinar uma degradação, por falta de pessoal e desmotivação, de serviços públicos essenciais à população (educação, saúde, segurança social, justiça, etc); diminuir as despesas com pensões em 1.260 milhões € o que vai lançar muitos milhares de pensionistas na pobreza; cortar 1000 milhões € nas despesas públicas com a saúde e 380 milhões € nas despesas com educação, o que levará a uma grande degradação dos serviços públicos de saúde e de educação; reduzir o investimento público em 200 milhões €, o que contribuirá para que não se crie emprego; baixar em 100 milhões € as transferências do OE destinadas a prestações sociais, o que fará aumentar a pobreza e a miséria; reduzir as transferências para as Autarquias em 175 milhões € e cortar mais 130 milhões € despesas pública por aumento da eficiência, embora não diga onde e como, etc, etc.
Estes cortes na despesa pública com efeitos negativos nas condições de vida dos portugueses são realizados simultaneamente com um aumento brutal dos impostos em 3.040 milhões €, sendo 2.040 milhões € só no IVA; 265 milhões € no IRS; 180 milhões € em impostos sobre o consumo; 50 milhões € no IMI, etc. Portanto, por um lado, reduz significativamente as despesas públicas com efeitos grandes nas condições de vida dos portugueses (saúde, educação, assim como as prestações sociais destinadas a combater a pobreza e a fome) e, por outro lado, aumenta brutalmente os impostos e apropria-se dos subsídios de férias e do Natal, reduzindo os rendimentos nominais dos portugueses. E tudo isto para garantir os pagamentos aos credores, que são grupos económicos e financeiros. Se juntarmos as privatizações a preço de saldo das partes de capital de empresas estratégicas que eram ainda detidas pelo Estado, entregando o seu controlo a grupos económicos estrangeiros; o aumento do horário semanal de trabalho em 2,5 horas, a redução de dias de férias e de feriados o que, somado, corresponde a mais um mês de trabalho anual gratuito (uma espécie de imposto pago aos patrões com trabalho gratuito, à semelhança de corveia que existiu na Idade Média prestada em trabalho gratuito pelos servos ao senhor feudal), associado à liberalização das rendas, à redução das indemnizações por despedimento e do subsidio de desemprego, ao aumento de preços, etc, pode-se dizer que se está perante um verdadeiro programa de destruição da economia e da sociedade em Portugal.
Como escreveu Naomi Klein em " A doutrina do choque – a ascensão do capitalismo de desastre ", este programa ultraliberal do FMI-BCE-CE, decalcado na escola de Chicago de Friedman, só é possível implementar quando um país está em estado de choque, provocado por uma situação anormal, como foi aquela que levou ao pedido de resgate. E é ainda mais grave quando existe um governo cego pela ideologia neoliberal e uns media que difundem na opinião pública uma mensagem de submissão, de inevitabilidade, de que a única solução é cumprir as imposições da "troika" estrangeira, é ser "bom aluno" como alguns sem dignidade e sem pudor dizem mesmo.
28 de Dezembro 2011
Ver todo o artigo AQUI
03/01/2012
O Navegador da Passagem no Facebook
Alguém me criou uma Página no facebook sobre o meu romance de Bartolomeu Dias, "O Navegador da Passagem". Para mostrar a minha gratidão, vou deixando lá informações que ajudem a completar a leitura, só lamento não poder ou não saber pôr lá albuns de fotos, como as do lançamento. Para ver aqui:O Navegador da Passagem
31/12/2011
Interditar a educação às mulheres
Impedir a educação das mulheres, para melhor as subjugar, fechando-lhes as escolas e não as deixando sequer aprender a ler, é uma norma nos países fundamentalistas islâmicos. A Hoshyar Foundation foi criada para combater a iliteracia. Para ajudar basta passar o vídeo e partilhá-lo com os amigos.
25/12/2011
11111 - Resultado do Sorteio
A Capicua 11111 chegou às 19.55.51, do dia 25 de Dezembro de 2011, Dia de Natal. Conheçam os felizes contemplados e os seus comentários. Agradeço a todos os que participaram neste passatempo e mostraram curiosidade pelo meu trabalho,. Fiquei deliciada com os vossos comentários. Bem hajam. Para ver em 11111 - Resultado do Sorteio.
Ainda o Sorteio
Feliz Natal! Feliz Natal! Feliz Natal! Tenho pena de não ter chegado à Capicua dos 111111 visitantes ontem - ainda faltam 33 -, mas entre hoje e amanhã já devo fazer o sorteio e oferecer os dois livros. Ainda estão a tempo de concorrer com o vosso comentário e escolha da obra. Aqui: http://deanabarroqueiro.blogspot.com/2011/12/quase-11111-visitantes-sorteio-de-livro.html
24/12/2011
Bom Natal e melhor Ano Novo

Feliz Natal e um Ano de 2012 mais luminoso e sereno, para todos os meus amigos, virtuais e reais, antigos e recentes, que têm passado por este blogue e me têm acarinhado com tanta amizade. Quero-vos todos felizes, nem que seja por pequenas coisas, embora desejando que vos aconteçam grandes coisas.
Foto "Árvore de Livros" retirada da Internet
23/12/2011
Faltam 111 para os 11111 do Sorteio
Faltam 111 visitas para a capicua 11111, do sorteio dos livros! Toca a visitar a Página antes do Natal! Em Deana Barroqueiro
22/12/2011
A Solução Final
Os nossos governantes reconhecem a sua incompetência para resolver as dificuldades do país, pois não vêem outra solução que não seja mandar os jovens emigrarem para a África e o Brasil; ou promover o desemprego, sacar os subsídios e as reformas miseráveis aos que trabalham para o Estado; aumentar os custos da saúde, diminuir as ajudas às famílias e subir os impostos (faltando a todos os compromissos que tinham assumido com o seu eleitorado - e o "outro" é que era mentiroso?) e, depois de tudos isto, ameaçam ainda com mais medidas de austeridade.Em vez de nos condenarem a uma espécie de morte lenta em campo de concentração, talvez seja melhor pensarem numa "Solução Final" (já outros o fizeram ao longo da História) e dar um rápido sumiço aos que estão a mais na República Portuguesa - a começar pelo meu grupo etário, o dos reformados, que tanto ensombra e desagrada aos jovens governantes; os doentes crónicos e deficientes, os que não querem trabalhar e todos aqueles que querem trabalhar mas não acham onde. Os que já são velhos para que os empreguem e, ao mesmo tempo, demasiado novos para se reformarem.
Mas tenham cuidado em não se desembaraçarem aqueles "velhos" que cuidam dos pais idosos e também dos filhos de 20,30 e até de 40 anos que não acham emprego. É que estes até podem fazer falta...
A Troika e a Sra. Angela Merkel e uma entidade abstracta Toda-Poderosa chamada Mercado decidiram que este país é uma espécie de quinta arruínada (apesar do seu historial de muitos séculos), um lixo que, com a sua pobreza, a preguiça e os gastos desmedidos dos seus habitantes, polui e sobrecarrega a trabalhadora, produtiva e rica Europa do Norte e do Centro. Então, embora sem legitimidade para o fazerem, depois de ajudarem a empenhar a dita "quintarola" com juros de agiotas e negócios ruinosos destinados a afundarem-na, servem-se agora dos seus governantes subservientes, medíocres e incompetentes, como seus capatazes, os quais, sob as suas ordens, estalam os chicotes nos lombos da população.
De colonizadores passámos a colonizados, voltámos a ser os índios e os cafres marginais para uma Europa arrogante, governada por políticos igualmente medíocres, incapazes de concertarem uma soluçao para o seu descalabro. Já ganhávamos menos, tínhamos pior poder de compra e menos oportunidades de um futuro risonho do que todos os países da Europa rica, a começar pela nossa vizinha Espanha. Porém, neste momento, para eles já não somos sequer uma nação independente, somos pobres de pedir, lixo de que gostariam de se livrar. E os nossos governantes aceitam este tratamento, abanando a cauda e lambendo a mão que os maltrata. E são mais troikistas do que a Troika, no esmagamrento dos seus compatriotas, decerto para ficarem bem na fotorafia, ao lado dos "poderosos" credores. Mas, façam o que fizerem, continuamos a ser lixo e a estar no fim dos rankings.
Decerto que se cometeram erros, nesta terra, se desperdiçou muito dinheiro, se entrou num regime de esquemas e golpaças, mas o exemplo vinha de cima, de quem nos governava, da corrupção camuflada ou às claras, das várias clientelas políticas que nos governaram alternadamente ou associadas, e se governavam em vez de governarem o país.
Assim, para endireitar as Finanças que os mesmos, sempre os mesmos, ajudaram a entortar, há que poupar dinheiro a qualquer custo. Em vez de o fazerem com programas pensados para serem sustentáveis a longo prazo e relançarem a economia, sem descurarem a justiça social, optam pela solução mais fácil e primária: o saque aos ordenados, às pensões, às ajudas dos custos de saúde e da família daqueles que descontaram toda a vida para essas reformas, para a doença, para a educação dos filhos e que pagam sempre todas as crises.
Desemprego e perda de direitos - não de privilégios, que esses não devem existir -, empobrecimento da população, fazendo dos pobres miseráveiis e da classe média os novos pobres, convertendo os trabalhadores em escravos do patronato, amansados pelo medo do chicote e de se verem na rua, será essa a solução para recuperar a economia do país? Ou para haver uma minoria de gente cada vez mais rica à custa da miséria do resto da população?
19/12/2011
O Acordo Tortográfico
O Acordo Tortográfico
por Miguel Esteves Cardoso, 1986
(É longo mas vale a pena ler)
Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Príncipe, de Angola, do Brasil e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronunciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristóvão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.
A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a lusofonia funciona com mais de cem milhões. Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos na África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhomguenses, umbandinos e macuas. Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e excitante língua, que poderá passar a chamar-se o brutoguês.
Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia a língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brutoguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto. As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito da cacografia. Dantes, cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.
As ortografias tupis e crioulas, macumhenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por letras tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «CUF-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a Dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia», para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer desacentuadamente «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» é mesmo assim, nua e crua.
Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos Portugueses, caso o Acordo seja aprovado: «A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileiria, com a ajuda entreistorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirreta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas.
«No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula.» A escrever «O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não e sobreumano»? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar?)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?
Os Portugueses, no fundo, assinaram um Pacto Ortográfico que soube a Pato. Ninguém imagina os Espanhóis, os Franceses ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima dos misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.
A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade própria. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça, como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem de estupidez que pretender que todos aqueles que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. É ridículo, é anticultural e é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.
Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada à atenção, dirá «Tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem os cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»
A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrespeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira deles é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os Brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos. E não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.
Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tigela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses, armados em donos de uma língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto ao Governo – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote de lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («Tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé») e de inadmissível sobranceria cultural («Tudo vale, mas nós é que temos de dar o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe».
Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas realmente sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar a política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste mesmo momento, muitos Portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater esta inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização.
O Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa é uma pequena instituição nobre dos nossos dias, hoje ameaçada de perder três acentos de uma só penada pseudo-legislativa. Por trás das indicações úteis do Prontuário estão os labores recentes de grandes heróis nacionais como o Professor Rebelo Gonçalves e o Professor Gonçalves Viana. Os dois mais importantes livros do primeiro (o Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa e o Vocabulário da Língua Portuguesa), bem assim como as obras anteriores do segundo (a Ortografia Nacional e o Vocabulário Ortográfico e Remissivo) são peças fundamentais de qualquer biblioteca.
Dos dois autores do Prontuário, Magnus Bergström e Neves Reis, é o primeiro o mais misterioso. Circulam a respeito dele lendas importantes. Para uns, será um sábio islandês, isolado nalguma remota ilha polar, estudando afoitamente o emprego do hífen e as razões que levaram os gramáticos portugueses a abolir o trema. Para outros, Magnus Bergström é o pseudónimo de algum ilustre estudioso português, ansioso por não ver o seu nome académico associado a um mero prontuário.
Seja como for, o Prontuário editado pela Editorial Notícias tem conseguido levar a melhor sobre os rivais, num campo onde os Portugueses sempre foram bons e aplicados. Quando aparecer, o Prontuário Tortográfico e Guia do Linguajar Brutoguês, o nosso Prontuário acentuadamente nosso há-de lhe limpar sumariamente o sebo.
(Miguel Esteves Cardoso)
Subscrevo todo este texto. E também não dispenso o Prontuário de Magnus Bergstrom e Neves Reis, que sempre me tirou qualquer dúvida de ortografia.
Espero não estar a violar os direitos de autor por transcrever o artigo que me enviaram por e-mail. Se o fiz, peço desculpa.
por Miguel Esteves Cardoso, 1986
(É longo mas vale a pena ler)
Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Príncipe, de Angola, do Brasil e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronunciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristóvão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.
A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a lusofonia funciona com mais de cem milhões. Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos na África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhomguenses, umbandinos e macuas. Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e excitante língua, que poderá passar a chamar-se o brutoguês.
Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia a língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brutoguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto. As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito da cacografia. Dantes, cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.
As ortografias tupis e crioulas, macumhenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por letras tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «CUF-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a Dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia», para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer desacentuadamente «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» é mesmo assim, nua e crua.
Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos Portugueses, caso o Acordo seja aprovado: «A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileiria, com a ajuda entreistorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirreta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas.
«No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula.» A escrever «O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não e sobreumano»? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar?)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?
Os Portugueses, no fundo, assinaram um Pacto Ortográfico que soube a Pato. Ninguém imagina os Espanhóis, os Franceses ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima dos misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.
A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade própria. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça, como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem de estupidez que pretender que todos aqueles que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. É ridículo, é anticultural e é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.
Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada à atenção, dirá «Tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem os cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»
A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrespeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira deles é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os Brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos. E não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.
Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tigela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses, armados em donos de uma língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto ao Governo – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote de lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («Tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé») e de inadmissível sobranceria cultural («Tudo vale, mas nós é que temos de dar o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe».
Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas realmente sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar a política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste mesmo momento, muitos Portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater esta inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização.
O Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa é uma pequena instituição nobre dos nossos dias, hoje ameaçada de perder três acentos de uma só penada pseudo-legislativa. Por trás das indicações úteis do Prontuário estão os labores recentes de grandes heróis nacionais como o Professor Rebelo Gonçalves e o Professor Gonçalves Viana. Os dois mais importantes livros do primeiro (o Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa e o Vocabulário da Língua Portuguesa), bem assim como as obras anteriores do segundo (a Ortografia Nacional e o Vocabulário Ortográfico e Remissivo) são peças fundamentais de qualquer biblioteca.
Dos dois autores do Prontuário, Magnus Bergström e Neves Reis, é o primeiro o mais misterioso. Circulam a respeito dele lendas importantes. Para uns, será um sábio islandês, isolado nalguma remota ilha polar, estudando afoitamente o emprego do hífen e as razões que levaram os gramáticos portugueses a abolir o trema. Para outros, Magnus Bergström é o pseudónimo de algum ilustre estudioso português, ansioso por não ver o seu nome académico associado a um mero prontuário.
Seja como for, o Prontuário editado pela Editorial Notícias tem conseguido levar a melhor sobre os rivais, num campo onde os Portugueses sempre foram bons e aplicados. Quando aparecer, o Prontuário Tortográfico e Guia do Linguajar Brutoguês, o nosso Prontuário acentuadamente nosso há-de lhe limpar sumariamente o sebo.
(Miguel Esteves Cardoso)
Subscrevo todo este texto. E também não dispenso o Prontuário de Magnus Bergstrom e Neves Reis, que sempre me tirou qualquer dúvida de ortografia.
Espero não estar a violar os direitos de autor por transcrever o artigo que me enviaram por e-mail. Se o fiz, peço desculpa.
17/12/2011
Cesaria Evora - Sobras di distino
Despeço-me com saudade de Cesária de Évora, sem vontade de a deixar partir. Ficam-nos as Sobras do Destino, ingrato, e um poema que não retrata apenas Cabo Verde, mas também o nosso futuro.
16/12/2011
Capicua dos 11111 visitantes: Sorteio
11/12/2011
Sorteio de Livro(s)

Caros Amigos Leitores
O número de visitantes aproxima-se a passos largos da mágica capicua 11111 e eu gostaria de a atingir ou mesmo ultrapassar este mês de Dezembro, pelo Natal ou no fim do ano de 2011. Já que não posso apresentar uma nova obra, gostaria de sortear entre os amigos que visitarem a Página Deana Barroqueiro, um (ou dois, se o número de comentários o justificar) dos meus livros, como oferta pessoal, à escolha do contemplado (tal como fiz para este blogue).
Para se habilitarem ao sorteio, terão de visitar a página para escolher o livro que desejariam ter e postar um comentário com a indicação do título e a razão da vossa escolha, aqui: Quase 11111 visitantes: Sorteio de livro.
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