25/07/2023

″Os bem-pensantes querem reduzir os Descobrimentos à escravatura, fazendo tábua rasa de tudo o resto″

Entrevista a Deana Barroqueiro para o Diário de Notícias, por Jorge Andrade   25/07/2023

Em 2023, regressou aos escaparates com o romance histórico de reconstituição, Navegador da Passagem, originalmente publicado em 2008. Narrativa que recua ao século XV, à vida e feitos de Bartolomeu Dias. Mote para uma conversa a propósito do "Capitão do Fim" e da sua época.
Franquear a porta da casa da escritora Deana Barroqueiro é enveredar num mundo de artes e artefactos, memórias de viagens e de vida, similar à matéria que a autora entretece nos seus romances históricos de reconstituição. Quinze anos após a publicação do livro Navegador da Passagem, a luso-americana, nascida em 1945 nos Estados Unidos, regressa a uma das suas obras de maior sucesso para nos embrenhar, leitores, nas águas frias de um Atlântico Sul pretérito, o do século XV. Enveredamos num périplo marítimo na senda de Bartolomeu Dias, descobridor da passagem do Cabo da Boa Esperança, elo entre o Atlântico e o Índico. 
"Uma figura praticamente apagada das páginas da História de Portugal, do homem a quem Fernando Pessoa, n"A Mensagem, apelidou de "Capitão do Fim"", como nos recorda a autora de obras como O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto. Licenciada em Filologia Românica, professora de Português aposentada, autora de projetos de teatro e escrita criativa, Deana Barroqueiro também endereça a sua verve a jovens leitores, com uma saga em sete volumes de aventuras escritas à maneira do escritor italiano Emílio Salgari. Presentemente, a escritora tem um livro quase terminado, "uma espécie de prolongamento de O Navegador da Passagem", como nos relata. Um outro título perfila-se, uma "obra que trata dos sucessos da segunda metade do século XVII, sob o ponto vista de um cozinheiro". 
Dos sucessos recentes de Deana Barroqueiro conta-se um dos mais importantes galardões da gastronomia mundial, o Gourmand Best in The World Award, atribuído ao seu tríptico História dos Paladares (Sedução, Perdição, Redenção). 

 O que sentiu quando visitou a África do Sul e esteve próxima do local onde Bartolomeu Dias abriu um novo caminho para as Índias? 

Senti uma enorme emoção, não só no Cabo da Boa Esperança, a que Bartolomeu Dias chamou Cabo das Tormentas, à vista do magnífico promontório, mas também na Aguada do Saldanha (Table Bay), onde foi morto D. Francisco de Almeida, o 1º Vice-Rei da Índia, como ainda no Museu de Bartolomeu Dias, em Mossel Bay, que o navegador nomeou Baía de S. Brás, ao ver a réplica da sua caravela em tamanho real. Foi uma grande viagem cultural/histórica guiada pelo historiador Prof. Dr. João Paulo Oliveira e Costa.
Comoveu-me, estar ali, naquela imensidão, a imaginar como se sentiriam aqueles homens, uns bichos da terra tão pequenos, como disse Camões, metidos numa minúscula caravela, a verem o gigantesco e aterrador promontório, contra o qual se poderiam desfazer, sabendo que tinham achado a passagem entre o Ocidente e o Oriente, unindo as duas metades do mundo, desfazendo mitos e superstições de séculos. 

 Deana Barroqueiro no cabo das Tormentas  ou da Boa Esperança.

Que retrato nos faz de Bartolomeu Dias, um "herói intemporal como "pessoa"", como o descreve ao abrir o seu livro? 

Para criar uma personagem verosímil, recorri ao muito que estudei e conheço da mentalidade e comportamento desses aventureiros, navegadores e espiões, para mostrar como se sentiam, quando tinham merecimento e deviam ser premiados pelos seus serviços, e se viam preteridos, como aconteceu a Bartolomeu Dias, o "Capitão do Fim", como lhe chamou Fernando Pessoa n'A Mensagem. Vi-o como um grande navegador, muito corajoso e leal, com um enorme espírito de sacrifício e grande determinação, capaz de dominar os seus medos para levar a cabo as suas missões, mas, e também, muito amargurado e frustrado. A sua viagem de descobrir foi decerto, para este homem, uma peregrinação interior, uma espécie de viagem iniciática para conhecer os seus limites. É, por isso, exemplar e intemporal.

Em tempos afirmou que o seu livro pode ser visto como uma "metáfora dos portugueses do século XXI". Porquê? 

No vídeo de 2008 a que alude, eu referia-me, por um lado, aos nossos emigrantes, por estar a sair muita gente jovem à procura de melhores condições de emprego e de vida, como vemos agora, quando estamos a perder os portugueses com melhor formação e mais-valia, cuja Educação pagámos todos, mas de cujo trabalho acabam por beneficiar as outras nações. Por outro lado, o livro mostra como o esforço coletivo, a inteligência do povo português e a sua capacidade de adaptação a todas as circunstâncias, mesmo às mais adversas, podem fazer grandes obras, se a isso se propuserem. Mas também mostra como os portugueses com valor e obra importante são muito pouco valorizados no seu próprio país, quer pelos seus concidadãos, quer pelos governantes ou pelos media - naquele tempo, eram os cronistas -, que pouco noticiam as suas obras e êxitos. 

O processo de escrita de um livro traz momentos de angústias e de incertezas. No caso deste Navegador da Passagem que "cabos" teve a Deana Barroqueiro de transpor? 

Em primeiro lugar, a pouca informação que havia sobre Bartolomeu Dias. Depois a própria construção da narrativa que entrelaça a sua viagem de 1487, para a descoberta do cabo (fim) de África, com a viagem da descoberta do Brasil, em 1500, alternando com episódios da sua vida na corte de D. João II e D. Manuel I, assim como algumas memórias de outras viagens que fez.


Em certas passagens do seu livro, despoja a narrativa do heroísmo para se fazer narradora dos padecimentos a bordo das caravelas, as "prisões do mar". Ao revelar-nos estas fraquezas, quer fazer das suas personagens menos heróis e mais homens? 

O herói da Expansão Portuguesa é um herói coletivo, gente anónima, muito semelhante aos nossos emigrantes dos inícios do século XX, que, em condições terríveis e à custa de muito sacrifício, suor, lágrimas e até da própria vida, procuravam um meio para sair da pobreza e ter um futuro melhor, dando o salto para uma aventura nos mares desconhecidos, que acreditavam estar cheios de monstros aterradores, de precipícios onde os barcos se iriam precipitar, ou de sereias que os levariam à loucura e à morte. 
Encontravam, de facto, esses monstros dentro de si mesmos e das caravelas de descobrir, nas calmarias que imobilizavam as Armadas, semanas a fio, e lhes apodreciam a água e os mantimentos; nas doenças como o escorbuto e as pleurisias e pneumonias, ou nos naufrágios, cujos sobreviventes, quando os havia, eram lançados nas praias de terras e continentes desconhecidos, onde acabavam quase sempre mortos de fome e inanição ou às mãos dos povos indígenas. Creio que fui o primeiro escritor português a descrever a vida terrível nestas prisões do mar. 


Para além da óbvia abertura das rotas de navegação ao Índico, contornando África, no que se traduziu para a visão do Mundo e da relação com o Outro, este dobrar do Cabo da Boa Esperança? 

Os Descobrimentos Portugueses - e Espanhóis - com todos os seus defeitos, levaram o conhecimento do Ocidente para o Oriente e vice-versa, fazendo, além disso, a primeira globalização da Época Moderna, que provocou uma espantosa revolução, progresso e trans- formação do mundo, que já não voltou a ser o mesmo, não só a nível das Ciências, mas também das Artes, das Letras, das técnicas e das mentalidades. 
E, acima de tudo, na alimentação e na culinária dos povos contactados, que se enriqueceram com a troca dos produtos (e as receitas dos nossos pratos) que os portugueses levaram da Europa, mas também do Novo Mundo (Brasil), para África e Oriente, e que trouxeram de lá para cá. Portugal estava à frente de todas as nações europeias, no período dos Descobrimentos, com saberes não só teóricos, mas de experiências feitos. Tínhamos os melhores cientistas - geógrafos, astrónomos, cartógrafos, biólogos, físicos [médicos], boticários [farmacêuticos], engenheiros e inventores, construtores de navios, historiadores, letrados, entre outros. 
As suas obras, copiadas pelas nações europeias mais avançadas, desfaziam mitos, superstições e ignorância, consagrados durante toda a Idade Média, abrindo as mentalidades para uma nova era de Conhecimento, apoiado em provas dadas pela experiência de muitos, pela descoberta de mundos e povos desconhecidos, em zonas que se julgavam inabitáveis, pela nova configuração dos continentes, desenhados milha a milha pelos nossos navegadores nas suas cartas de marear, que os espiões estrangeiros procuravam obter a todo o custo.


A bordo seguem quatro escravas da Guiné. Uma delas ganha relevância, a Leonor. Para além da componente histórica, o que nos quer transmitir ao incluir estas mulheres na narrativa? 

Foram um filão fantástico para poder inventar uma história de paixão, dor e remorso, sem falsear a História, mostrando ao mesmo tempo, a prepotência e injustiça que os poderosos exerciam sobre os mais fracos e indefesos, em particular, a desgraçada condição das mulheres, sem direitos que as protegessem, ainda pior sendo escravas. Essas quatro escravas negras foram enviadas por D. João II para serem lançadas nas terras que fossem descobrindo, porque o rei achava que as mulheres teriam mais sucesso do que os homens, nessas terras. Serviram-me para mostrar a parte mais negra dos Descobrimentos, mas também os costumes dos povos africanos desconhecidos dos portugueses de então, que julgo capazes de encantarem também os leitores de agora. O seu livro também nos traça o ambiente das cortes portuguesas do tempo de D. João II e de D. Manuel I, um mundo que além de todas as maravilhas também se fez de disputas, invejas, intrigas... 
 Em todos os meus romances históricos, do século XV ao XVII, procuro estabelecer pontes do Passado para o nosso Presente, mostrar os defeitos, vícios e virtudes que ainda persistem ou que se perderam. Para mim, a escrita é também uma arma e o escritor deve intervir no mundo em que vive, denunciar injustiças, crimes, falsidades e prepotências, combatendo-as com a palavra e não com a violência e a arruaça. 
A corte, no tempo de D. João II e de D. Manuel I era um vespeiro de invejas e intrigas, entre diversas fações, tal como hoje entre os partidos políticos e outros que competem entre si. Então, quem não pertencesse à grande nobreza, nem tivesse padrinhos e protetores poderosos na esfera do poder, nem fortuna para pagar peitas [subornos] não ia longe. Ninguém queria perder os seus privilégios, a nobreza não trabalhava, vivia dos ofícios e cargos atribuídos pelos reis e da exploração e rendas dos vassalos das suas terras e senhorios, de modo que o povo era quem pagava mais impostos e vivia na miséria, daí preferirem emigrar, embarcando na aventura dos Descobrimentos. Parece algo familiar, não acha? 

Bartolomeu Dias mereceu, na época, o reconhecimento que lhe era devido por parte dos dois reis que serviu? 

Bartolomeu Dias foi muito injustiçado por D. João II e D. Manuel I, a quem serviu com a maior lealdade, mesmo sem deles receber recompensa, de que era merecedor, mais do que qualquer outro, incluindo Vasco da Gama. Ele conhecia o seu valor, tinha sonhos e ambições que procurou concretizar contra tudo e contra todos, levando a cabo missões impossíveis, sem que o seu valor e trabalho fossem reconhecidos. 
Deveria ser ele a comandar a armada que completou a rota para a Índia, porque tinha feito a parte mais difícil do caminho, mas, para ser capitão-mor e ter sob as suas ordens outros fidalgos, teria de ser também fidalgo, teria de ter pelo menos o grau de cavaleiro e ele era apenas escudeiro, só podia ser capitão de navio. 
E o que espanta é nunca lhe terem concedido essa mercê, que até era uma recompensa comum para serviços até menos importantes. D. João II deu o título de cavaleiro a Diogo Cão, além de outras recompensas, crendo que ele tinha dobrado o cabo. Bartolomeu Dias não foi recompensado, quando o fez. Só quando morreu em serviço, D. Manuel deu uma tença aos seus dois filhos. 


"Urge fazer as pazes com determinados aspetos do nosso passado", disse a Deana Barroqueiro numa entrevista ao Clarim, em 2016. A que aspetos se referia? 

Têm-se formado, sobretudo nas redes sociais, centenas de pequenos grupos defensores muitas causas, das mais válidas às mais absurdas, a maioria das quais assentam mais em modas e numa ideia do "politicamente correto" do que em verdadeiro estudo e conhecimento dos assuntos, que querem impor violentamente à maioria dos seus concidadãos, algumas com consequências desastrosas, porque, muitas vezes, os políticos, para não perderem votos ou para não "fazerem ondas", deixam-se manipular e implementam certas ideias aberrantes. 
Os direitos das minorias, que toda a minha vida defendi, não podem, contudo, tornar-se ditaduras que vão contra os direitos da maioria. Começam a aparecer grupos e movimentos, que se auto elegeram como os novos "moralizadores" e censuradores vigilantes da sociedade, que já atacam os direitos fundamentais da maioria dos cidadãos. Começaram já a censurar os livros de escritores mortos, que não podem impedir o ato criminoso. 
Mais perigoso ainda é a vontade de reescrever a História, destruir e apagar a memória do passado, o que é o maior absurdo e o maior desastre para a civilização, porque, sem o conhecimento do nosso Passado coletivo, do bom e do mau que se fez ao longo de milénios, teremos um Presente sem memória, em que os mesmos erros se repetirão e seremos incapazes de projetar um Futuro com valores sólidos e estáveis para as próximas gerações. 
Uma das mais desastrosas consequências desses movimentos foi termos perdido a oportunidade de fazer um grande Museu dos Descobrimentos, da Expansão ou como queiram chamar-lhe, um museu nacional para um dos períodos mais ricos da nossa História, porque os bem-pensantes querem reduzir os Descobrimentos à escravatura, fazendo tábua rasa de tudo o resto. É absurdo julgar o Passado de há 500 anos ou de outras épocas, segundo as nossas conceções morais e políticas do século XXI.