30/01/2014

A Cultura da Crise

Assistir à Apresentação do Manifesto Contra a Crise: COMPROMISSO com a CIÊNCIA, a CULTURA e as ARTES em PORTUGAL foi um privilégio e com todo o meu coração desejo que prossiga nos seus objectivos. Horas antes saíra no Diário de Notícias a crónica de Viriato Soromenho-Marques, um dos seus mentores, que aqui vos deixo, para esclarecimento e rogando-vos que participem na luta contra o descalabro de destruição dos valores da nossa civilização que grassa não só em Portugal como no resto da Europa. Este movimento pretende ultrapassar fronteiras e apelar à formação de movimentos similares de cidadania, não vinculados a partidos políticos.
VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES, DN 29-01-2014 

É apresentado hoje (foi apresentado ontem, 29-01-2014) em Lisboa um breve mas esclarecedor Manifesto contra a Crise, assinado por mais de uma centena de subscritores, provenientes dos mais diversos campos da ciência, da cultura e das artes. 

O texto foi escrito ainda antes de se saber a decisão expedita seguida pelo Governo para resolver a desproporção entre o número de investigadores e a escassez orçamental: efectuando o corte mais brutal de bolsas da história da política de ciência em Portugal. 

O mais interessante neste Manifesto consiste em mostrar que só existe hoje uma crise na cultura (do cinema ao teatro, das artes plásticas à pesquisa de ponta) porque existe uma cultura da crise. Os actuais decisores políticos reiteram, noutras roupagens, escolhas que lesaram gravemente o País. 

Tal como no tempo da Inquisição, quando a nossa elite intelectual e comercial foi expulsa por um catolicismo fundamentalista, sem cuidar dos danos para os interesses do País e do império que tal hemorragia iria causar, temos hoje um Governo que saúda a emigração forçada de dezenas de milhares de jovens licenciados, sem avaliar o que significa regredir décadas na criação de uma massa crítica capaz de imaginar e construir novas saídas para a crise nacional. 

O analfabetismo crónico da população portuguesa sempre foi um factor de desvantagem, tanto em relação aos países protestantes como aos católicos. Quarenta anos de democracia quase venceram esse estigma. 

O que não foi possível foi derrubar a iliteracia funcional de uma falsa elite, que dentro do Estado manda sem mérito para tal. Há um relógio invisível que todos os dias avança em direção ao futuro. E sem atrasos. Cada vez nos aproximamos mais do dia em que os que apelam ao êxodo, serão obrigados, também eles, a sair da sua "zona de conforto".

29/01/2014

O património arquitectónico e artístico goês é riquíssimo

Jornal Ponto Final 28-01-2014
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Arquitecto de profissão, o delegado da Fundação Oriente em Goa encontrou aqui um espólio cultural “fantástico”. Depois de 15 anos no Japão, onde a eficiência era a palavra de ordem, Eduardo Kol de Carvalho fala agora de “uma Ásia completamente diferente”. Da preservação do património à promoção da língua portuguesa, a delegação não tem mãos a medir.
Inês Santinhos Gonçalves, em Goa
- Qual é o maior desafio da Fundação Oriente em Goa?
Eduardo Kol de Carvalho – Estamos de porta aberta desde 1995. Ao longo dos anos a situação mudou, tanto a da Fundação como a da própria Índia. Temos tido diferentes tipos de preocupações, embora algumas permaneçam desde a primeira hora, como é o caso da promoção da língua portuguesa. No início fizemos muita recuperação de património, até porque a Índia não tinha meios e equipas técnicas. Não é o caso hoje em dia, porque eles já têm as suas equipas e presentemente damos mais apoio técnico e tentamos fomentar. Quais são as principais preocupações? É manter este intercâmbio entre Portugal e a Índia, fomentar as relações culturais, trazer artistas portugueses à Índia, apoiar muito as populações locais na área cultural e promover a língua portuguesa.
- Quais são as maiores dificuldades?
E.K.C. – Para já, dificuldades orçamentais. A Índia deu um grande salto e o custo de vida já não é como era no passado, em que o investimento aqui era fácil, qualquer verba se traduzia em resultados palpáveis. Hoje já não é tanto assim. E a Fundação Oriente tem outros projectos, como o Museu do Oriente, e tem de prestar atenção à manutenção e promoção desse instrumento, tendo menos verbas disponíveis para a Índia. Depois, temos de ver que a Índia, e Goa, se move noutro ritmo e eventualmente é isso que nos perturba mais.
- É a Fundação Oriente quem lidera as acções de promoção da língua portuguesa?
E.K.C. – Não. A língua portuguesa está contemplada no programa escolar goês, é uma língua de opção a partir do 8º ano de escolaridade, é a terceira língua de opção, com o francês e o hindi. Depois, no superior, também há português. A Fundação Oriente não tem o monopólio do português no secundário, que tem os seus próprios professores, mas apoiamos muitas das outras escolas que não têm condições para manter um professor de português. Hoje em dia estamos a apoiar 848 estudantes, do 8º ao 12º ano. Temos um trabalho de cooperação muito profícuo com o Instituto Camões. Desde 2010 existe uma associação goesa de professores de português, de que também somos sócios e a quem damos apoio.
- A Fundação Oriente organiza um concurso muito popular em Goa, o “Vem Cantar”.
E.K.C. – Vamos para a 16ª edição, mas não foi uma iniciativa nossa, foi de um college [instituto superior] nos arredores de Margão. Era um bocadinho insipiente mas um dos meus antecessores trouxe-a para o seio da Fundação, sempre em colaboração com este college. Começámos a participar a partir da quarta edição e hoje é uma manifestação cultural em Goa, em torno da língua portuguesa. Porque realmente move a juventude e não só. Tem duas eliminatórias, uma em Pangim, outra em Margão e uma final. Inicialmente havia apenas uma prova, o que quer dizer que o número de participantes aumentou imenso. É um concurso de canção em português, com divisão entre grupos etários, dos mais miúdos até aos adultos, e também entre grupos e solos. No início ainda estavam muito presos às canções que tínhamos deixado aqui em 1961, os temas até se repetiam muito, como ‘Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora’. Entretanto, começámos a organizar workshops de preparação, para apresentar a canção contemporânea em português. Hoje em dia cantam Mariza, por exemplo. O fado está presente mas nem é o prato principal, há músicas de todos os tipos. No ano passado tivemos 52 solos e 33 grupos, o que é um número já fantástico. Na final conseguimos ter uma sala com mais de mil lugares cheia, durante quase cinco horas. É super popular.
- Os participantes dominam todos os português?
E.K.C. – Não, nem todos falam português e alguns dominam mal. Já estive em quatro concursos e já notei uma presença em palco muito diferente, estão muito mais sofisticados e estão a tomar muita atenção à forma como se apresentam.
- É, então, um bom instrumento de promoção da língua?
E.K.C. – Fantástico. Confesso que quando estava a preparar-me para vir para Goa, estava a ler os dossiers da delegação e vi aquilo, “Concurso da canção portuguesa ‘Vem Cantar’”, e pensei “É a primeira coisa com que vou acabar”. Parecia uma coisa muito tosca. Mas realmente é uma acção fantástica, que move imensa gente – são os participantes, os familiares, os amigos, as escolas. Não precisamos de fazer muita promoção.
- Há cooperação entre a delegação da Fundação Oriente em Goa e a delegação em Macau?
E.K.C. – Há diálogo mas não há muita cooperação, o ambiente de trabalho é muito diferente. Temos uma iniciativa, que vai ser agora a 7, 8 e 9 de Fevereiro, que é o Festival de Música do Monte. Tentei trazer grupos de Macau ao festival, a minha colega [Ana Paula Cleto] tentou mover mundos junto das instituições culturais em Macau, mas não se conseguiu.
- Em que consiste o festival?
E.K.C. – Como disse, uma das preocupações da Fundação foi a recuperação de património. O ex-libris desse trabalho foi a recuperação da Capela do Monte, que tem uma posição fantástica, uma vista linda sobre Velha Goa. É um edifício muito interessante histórica e arquitectonicamente, localizado num sítio maravilhoso. Após a conclusão da reparação, um dos meus antecessores teve a excelente ideia de instituir um festival de música. É a uma sexta, sábado e domingo à noite, com música do Oriente e do Ocidente. Trazemos sempre alguém da Europa – acabou de chegar a soprano portuguesa, de um coro italiano, que vem participar. Há vários palcos: a igreja não permite que se cante outra música que não seja música sacra, mas no exterior montamos outros palcos. Montamos o palco das seis da tarde, para se assistir ao pôr-do-sol. Portanto, temos em frente de nós o artista –  normalmente é música ou dança indiana –, a paisagem de velha Goa com as suas igrejas a despontar na floresta de coqueiros e o pôr-do-sol. É realmente um espectáculo lindíssimo, que chama imenso público. Às vezes temos também um terceiro palco, o da noite. E terminamos sempre na capela, com música sacra e coros.
- Faria sentido uma maior aproximação entre Macau e Goa?
E.K.C. – Claro, sem dúvida.
- Nalgum projecto em particular?
E.K.C. – Acho que na área da música, sobretudo. Já houve artistas de Goa que foram cantar a Macau. Até em termos das relações entre a Índia e a China, seria muito recomendável. Mas infelizmente, quer o Governo de Macau, quero o Governo de Goa, se calhar não se aperceberam disso. As relações são um bocadinho frias e ter-nos a nós como interlocutores seria muito útil.
- Como avalia o estado do património em Goa?
E.K.C. – O património arquitectónico e artístico goês é riquíssimo. Ao longo dos 451 anos que estivemos aqui, construímos muito. Tem um património de arquitectura militar, civil, religiosa, tem um património ao nível de altares e púlpitos, de mobiliário de igreja, fantástico. As peças ligadas à arquitectura civil também são fantásticas. Todo o património indo-português é realmente fabuloso. Depois tem uma monção anual devastadora. Não é por acaso que Goa é muito verde e tem água por todos os lados. Durante quatro meses chove 48 horas por dia, como costumo dizer, e com uma intensidade absolutamente inacreditável. Para o património é muito mau, a arquitectura não gosta. Tem de haver um trabalho contínuo de conservação. [E há algum] desleixo em relação ao património arquitectónico, em Portugal isso [também] aconteceu durante algumas décadas.
- Falamos apenas do património cristão?
E.K.C. – Sobretudo. Diz-se que os portugueses destruíram muitos templos e é natural que sim, mas presumo que também não houvesse templos de grande envergadura em Goa.
- Mas quando se fala em trabalhos de preservação, são para todo o património?
E.K.C. – Para todo. Na região de Ponda há uns templos hindus de grande interesse arquitectónico e artístico, existem algumas mesquitas e edifícios históricos classificados e aí não há distinção. Mas, realmente, ressalta o valor da arquitectura militar, religiosa e civil indo-portuguesa. E aí não temos mãos a medir, os recursos são escassos para o valor do património. As populações, com a globalização, perderam um pouco esse instinto de conservação, como aconteceu em Portugal na década de 1960 e 1970. Em Macau, a arquitectura civil não teve a mesma expressão [que em Goa], embora tivesse coisas muito interessantes, quer da arquitectura chinesa, quer da ocidental.
- Esteve 15 anos no Japão como professor e conselheiro cultural da Embaixada de Portugal. Porquê esse interesse pela Ásia?
E.K.C. – Já tenho quase 21 anos de Ásia. Estive um ano no Golfo, um ano na Tailândia, 12 em Tóquio, três em Quioto e três e meio em Goa. Calhou. Sou arquitecto, neste momento não estou a executar arquitectura, mas na arquitectura uma área que sempre me foi cara foi a do património e foi isso que me trouxe à Ásia. Do património à cultura foi um pulo. A experiência no Japão foi muito rica, um bocadinho contrária à da Índia. As coisas funcionam a uma velocidade fantástica, idealiza-se um projecto e amanhã já está concretizado. Há recursos humanos, há recursos materiais. Tive a felicidade de conseguir realizar projectos interessantes e importantes, com a colaboração da área empresarial japonesa e dos municípios. Aqui é uma Ásia completamente diferente, são outros desafios. 
“Importante para Goa, para a lusofonia e para a língua portuguesa” 
- Como olha para os Jogos da Lusofonia?
E.K.C. – A Fundação não colaborou, estou a ver como espectador. Acho que é desafio grande para Goa. Nunca aconteceu nada desta dimensão e estão obviamente orgulhosos disso. Devia ter acontecido em Novembro, as coisas atrasaram-se muito e foi pena, porque teríamos tido mais participações de outros países. Mas acho que é importante para Goa, para a lusofonia e para a promoção da língua portuguesa. Estes acontecimentos são sempre importantes para os países organizadores e vai ser importante para a lusofonia, não pode deixar de o ser. Tenho esperança de que, para já, elimine alguns preconceitos da Administração em relação a Portugal e à língua portuguesa, e depois é a adesão popular.
- Como comenta a posição do chefe de missão de Portugal, que se recusou a falar inglês com os jornalistas indianos?
E.K.C. – Respeito. Eu talvez não o tivesse feito porque haverá jornalistas que não serão sequer de Goa. Percebo que a organização não tenha capacidade para ter intérpretes disponíveis.
- Seria realista esperar que os Jogos tivessem o português como língua de trabalho?
E.K.C. – Deviam ter, mas são só os terceiros Jogos, num país que não é lusófono.

28/01/2014

A "tradição" das praxes universitárias.

Não acredito que jovens generosos e bem formados possam sentir prazer em humilhar outros moços mais novos, inseguros e mais fracos, em privado ou ainda menos em público.

O dux e os demais praxistas encarnam aquilo que há de pior na nossa sociedade - o poder bruto do mais forte ( o governante, o patrão, o dono) sobre o mais fraco ou menos privilegiado (o cidadão, o trabalhador, o escravo). Começa na Escola ou Universidade e continua vida fora nas empresas, nas fábricas, nos escritórios, etc. É de facto uma "tradição", no pior e mais repugnante sentido da palavra: entre aquele que pisa e humilha e o que é pisado e humilhado.

Não se pode falar de "integração" (é prostituir uma palavra nobre) nos casos destas praxes, das quais tantos alunos se têm queixado e muitíssimos mais calam e sofrem, desistindo mesmo da universidade.
Integrar é receber com amizade, com respeito com igualdade, com festa sem humilhação, sem cenas degradantes ou repugnantes, sem insultos.

O contrário é covardia, ignorância e baixeza moral, é pura indignidade, o oposto ao que deve ser uma Universidade e do que se espera dos seus professores e estudantes.

Assim, como se pode defender o indefensável?
Deana Barroqueiro
TVI mostra mais documentos que comprovam violência das praxes da Lusófona

Meco: praxes na Lusófona eram violentas

TVI mostra mais documentos que comprovam violência das praxes da Lusófona

A investigação da TVI encontrou documentos que comprovam a violência das praxes da Lusófona. De acordo com os documentos, houve alunos que desistiram do conselho da praxe, alegando esgotamento nervoso e indisponibilidade em fazerem mais sacrifícios. É o que refere um relatório datado de novembro de 2013, ou seja de pouco mais de um mês antes da tragédia do Meco, que fala na desistência de alunos da Lusófona nas praxes académicas.

Ao descontentamento e desconforto entre alunos, patente no relatório, o Conselho Oficial da Praxe Académica (COPA) responde com ameaças aos alunos, alegando que a permanência no curso podia ficar comprometida. Os documentos comprovam que a pressão exercida por parte do COPA, a alunos das praxes, é cada vez maior. A TVI sabe que, nos últimos meses de 2013, o COPA queixava-se de não conseguir angariar mais alunos das praxes e mostrava preocupação por isso mesmo. Tudo isso é evidente em vários relatórios e emails trocados entre o «dux», neste caso João Gouveia, o único sobrevivente da tragédia do Meco, e representantes de vários cursos.

Os documentos a que a TVI teve acesso são todos assinados com nome de código. Todos os relatórios, emails e mensagens de telemóvel são codificados dessa forma.

Os «pastranos» são todos os alunos que estão vinculados à praxe académica com duas matrículas na Universidade Lusófona. Na base da hierarquia estão as «bestas» e «caloiros», seguem-se os «pastranos», «doutores», «veteranos», o «dux» e finalmente o «honoris-dux». Todos os que morreram no Meco eram, na hierarquia das praxes, «doutores», cada um representava um curso. Só o «dux», neste caso João Gouveia, o único sobrevivente, não podia ser praxado.

O vídeo da Reportagem:
http://www.tvi24.iol.pt/503/sociedade/praxes-meco-lusofona-violencia-copa-tvi/1531872-4071.html

Vote for the best European destination - European Best Destinations

Há 2 destinos portugueses nomeados - Porto e Madeira. Podem votar até 12 de Fevereiro, para ajudar o nosso Turismo.


Votar AQUI: 
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Mulheres inspiradoras

LUX WOMAN Fevereiro 2014: Sinto-me muito lisonjeada por ser considerada uma Mulher inspiradora! Muito obrigada, Isabel Canha e Maria Serina, pelo convite para o TEDxBelémWomen! E foi um privilégio estar com  as seis companheiras, essas sim, verdadeiramente inspiradoras!



25/01/2014

No país da ciência, Crato seria Aziz

 Editorial do Público, 25/01/2014

 Com menos investimento diminuem os resultados. Dizer o contrário não resolve o problema
 
A comparação pode parecer exagerada, mas ao ouvir as declarações de Nuno Crato no Parlamento a propósito da situação da ciência é quase impossível não pensar numa das situações mais caricatas da história mundial recente: Tareq Aziz, vice de Saddam, a garantir ao mundo que o regime iraquiano estava intocável e de boa saúde quando já toda a gente sabia (e via, em directo) os bombardeamentos americanos sobre Bagdad. 

Na ciência, o que se passou ontem foi, de certo modo, similar. Enquanto no debate público se avolumam vozes contra os cortes, umas mais agressivas e outras mais cautelosas, e na Universidade de Lisboa uma conferência organizada pela Fundação Manuel dos Santos juntava mais um punhado de vozes críticas ao coro de descontentes, o ministro da Educação e Ciência garantia no Parlamento que o Governo quer ciência “de grande qualidade”, que “o Governo não desinvestiu na ciência e continua a apostar na formação avançada” e que há um “programa de retenção dos melhores dos nossos cientistas e dos melhores investigadores internacionais.” 

Tareq Aziz, se fosse português e a ciência fosse um país, não diria melhor. A diferença, aqui, é que seria ele próprio a comandar os bombardeiros e a dar ordem de bombardeamento. Porque proceder como procede o Governo nesta área, desinvestindo claramente e sugerindo que isso é investir ainda mais, equivale a dizer que estamos mais ricos estando mais pobres, porque aprendemos a viver com a nossa pobreza. 

Não. Se o Governo quer, na verdade, sujeitar a ciência aos cortes anunciados, que afirme isso mesmo e não disfarce com piedosas intenções. Quem aguentou coisas tão graves também aguentará essa. Esqueça, nesse caso, é “a retenção dos melhores” e a “ciência de grande qualidade”, pois não basta desejá-la para ela acontecer. Se o investimento diminuir, os resultados também diminuirão. Dizer o contrário é, como fez Tareq Aziz, iludir sem nenhum proveito.

Falar de ciência, cultura e inovação com cortes em pano de fundo

ANA GERSCHENFELD, Público 25/01/2014

Durante uma conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos em Lisboa, intervenientes criticaram os recentes cortes no financiamento do sistema científico nacional.
 “Não houve por aí um sítio onde o número de estudantes de doutoramento caiu 40%?” A pergunta, irónica, veio do biólogo britânico Paul Nurse, prémio Nobel da Medicina e presidente da Royal Society, durante a palestra, intitulada “Fazer funcionar a ciência”, que proferiu na sexta-feira na Universidade de Lisboa (UL).

Recorde-se que, como se soube há dias, o número de bolsas de doutoramento atribuído pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) sofreu uma queda de 40% em relação ao ano anterior e que o das bolsas de pós-doutoramento diminuiu 65%.

Nurse não foi o primeiro nem o último a referir-se directa e duramente, ao longo de uma conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel do Santos (FFMS) sobre o tema “ciência, cultura e inovação”, aos recentes cortes do financiamento público da ciência em Portugal. 

Logo no início, enquanto dava as boas-vindas aos intervenientes perante uma sala cheia, o reitor da UL, António Cruz Serra, evocou durante alguns minutos “o enorme ataque às universidades e o desinvestimento na ciência”, achando que “as circunstâncias exigiam que fizesse este discurso”. Também o sociólogo António Barreto, presidente da FFMS, argumentou na sua curta intervenção que “embora nada nem ninguém escape aos cortes, o que em certo sentido é justo, a austeridade excessiva pode causar mais estragos do que benefícios”.

Mais tarde, Paul Nurse faria notar ainda que “quando se corta do lado das descobertas científicas, rapidamente se perde a inovação a curto prazo”, qualificando quem acredita o contrário de “ingénuo”.

 José Brandão de Brito, do Instituto Superior de Economia e Gestão, foi outro orador que não quis deixar de salientar oportuna a realização da conferência num momento em que a ciência “acaba de receber um enorme e violento golpe – talvez o maior desde que recuperámos a democracia em 1974”.

 Já à margem do evento, Carlos Salema, que foi presidente da JNICT (antecessora da FCT) entre 1989 e 1992, disse ao PÚBLICO que o que está a acontecer é “sobretudo uma alteração profunda” de uma situação que já existia, mas que está agora a ser feita “com pouco cuidado”. “Claro que não concordo!”, exclamou. “Passar de mil bolsas [de doutouramento] para 300!”. 

Graça Carvalho, ex-ministra da Ciência de Durão Barroso e hoje eurodeputada, mostrou-se mais moderada, mas disse-nos, contudo, que o corte “deveria ter sido mais gradual” e que “em altura de crise faz mais sentido continuar com mais bolsas individuais do que ter tantos cursos doutorais”, fazendo referência às novas bolsas criadas pelo Governo em 2012 e que são atribuídas pelas universidades aos seus candidatos a doutoramento. “É mais barato e [as bolsas individuais] chegam mais depressa às pessoas.”

 Elvira Fortunato, da Universidade Nova de Lisboa, desenvolveu há uns anos o primeiro transístor em papel. E a área em que trabalha – engenharia dos materiais – foi considerada pela União Europeia como uma das mais competitivas em Portugal. Porém, também não escapou aos cortes. “Acho que o corte foi muito drástico”, disse-nos. “E foi transversal”, acrescenta – em todas as áreas, de forma indiscriminada. “No ano passado, a área [dos materiais] teve 54 bolsas de doutoramento; este ano foram nove, com a desculpa de que havia os planos [bolsas] doutorais.” Mas essas são ainda menos – apenas seis – o que corresponde a uma quebra de mais de 70%.

Educação, ciência e economia: um ministro pouco sábio

Público

O problema de ligação das empresas com a investigação não se resolve com menos ciência, mas sim com mais ciência.

Vários têm sido, no Governo, os candidatos ao título de campeão da asneira. Rui Machete tem-se esforçado, mas, não querendo ficar atrás dessa figura maior do PSD, um político do CDS, António Pires de Lima, ministro da Economia (dividindo a pasta com Paulo Portas), resolveu entrar na competição quando defendeu há meses a introdução nas escolas básicas e secundárias de uma disciplina obrigatória de Empreendedorismo. A ideia não é só dele: é parte da “Estratégia de Fomento Industrial” aprovada em Conselho de Ministros. A escola, pela voz do ministro da Economia e com a aprovação de todo o Governo, tem de estar ao serviço dos negócios.

Ora isto é um disparate. A escola tem de formar para a vida, transmitindo conhecimentos, moldando atitudes e inculcando valores. E a vida está muito longe de se restringir à gestão de empresas. Pires de Lima, no seu mundo Superbock, acha que a escola tem de formar muitos meninos e meninas para alimentar os quadros empresariais. Olha para uma criança do 1.º ciclo e vê nela um gestor em potência. Não lhe interessa se ela vai dominar o Português, a Matemática ou a Física, para as quais as actuais horas lectivas parecem não chegar: tem é de dominar o Empreendedorismo. Não sabemos que disciplina irá ele extinguir para acrescentar a nova. E falta-nos saber que parte do orçamento do seu ministério irá servir para pagar aos professores de Empreendedorismo, quiçá empresários falidos que ambicionam um emprego escolar. Ou saber se vai apelar aos empresários bem-sucedidos para investirem na contratação de docentes para as nossas escolas.

Não contente com esse disparate, o ministro acrescentou outro há dias. Afirmou que não se pode “alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”. E acrescentou: “Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real. Não chega a transformar o conhecimento em resultados concretos que depois beneficiem a sociedade como um todo.” Ficámos a saber que não é só a Educação que tem de se orientar para as empresas, também a Ciência tem de o fazer. Percebemos agora a razão dos cortes na ciência, com a redução drástica do número de bolsas: os investigadores não estão virados para o mundo das empresas. Estão a estudar linguística, topologia ou óptica quântica, em vez de se virarem para o fomento da indústria cervejeira. O ministro Pires de Lima vê um doutorando e acha um desperdício ele não estar a desenvolver estudos na área do engarrafamento. Ficamos expectantes quanto às verbas que o Ministério da Economia vai proporcionar à ciência aplicada ou os benefícios fiscais que vai conceder aos empresários que contratem cientistas utilitários.

O ministro da Economia pouco sabe de Educação e de Ciência. E, absorto como tem andado nos seus negócios (tanto das empresas como da política, os dois entre nós muito bem misturados), também sabe pouco da vida real. Se soubesse, saberia, por exemplo, o que recordou há semanas no Porto, numa Conferência sobre Ciência e Economia, o físico espanhol Pedro Echenique. Em 1995, quando se discutia nos Estados Unidos uma diminuição do financiamento público à investigação científica, os CEO de 15 das principais empresas de base científico-tecnológica, como a IBM e a General Electric, subscreveram uma carta aberta pedindo o reforço da ciência fundamental. Queriam que o Congresso continuasse o apoio "a um vibrante programa de investigação universitária com visão de futuro".

Acontece que o futuro costuma chegar pela mão de cientistas inovadores, em geral muito longe da “economia real”. Não faltam exemplos. O laser foi inventado há mais de 50 anos, numa equipa de ciência fundamental (ora cá está: a óptica quântica!) que trabalhava nos Bell Labs. Na altura foi chamado uma invenção à procura de aplicações. Hoje é o que se sabe: está por todo o lado, nos cabos ópticos, nos CD, nas cirurgias, no corte de materiais, nas luzes das discotecas e até nas caixas de supermercados, por onde passam os códigos de barras das cervejas. Com a orientação de Pires de Lima jamais teria havido lasers.

Existe, de facto, em Portugal um problema de ligação das empresas com a investigação. Mas ele não se resolve com a diminuição da investigação fundamental. Não se resolve com menos ciência, mas sim com mais ciência. Precisamos, em particular, que os gestores percebam o valor da ciência, tal como os seus congéneres norte-americanos, e invistam nela, apoiando os programas públicos de ensino avançado e pesquisa, e contratando, com o seu próprio dinheiro, doutores e pós-doutores. Não precisamos de economias na ciência, mas sim de pessoas na economia que apostem na ciência.

Tudo isto é sabido pelo ministro Nuno Crato. Ele não poderá explicar ao seu colega?

Professor universitário, tcarlos@uc.pt

Os golfinhos voltaram ao Tejo ou estão só de passagem?

  Público

Biólogos vão estudar os vários avistamentos destes cetáceos no rio desde meados do século XIX. Número de observações tem aumentado nos últimos anos e os investigadores querem saber porquê.
 
De cada vez que alguém vê e fotografa golfinhos a nadar no estuário do Tejo, o telemóvel da bióloga Cristina Brito toca. São os jornalistas a quererem saber se, afinal, os golfinhos estão de regresso ao estuário e, se sim, o que os traz de volta. A resposta sai com dúvidas. “Não sabemos muito bem o que dizer porque não há dados muito concretos e científicos”, admite a investigadora.

Perante esta incerteza, e como os avistamentos destes cetáceos no Tejo se multiplicaram nos últimos anos, os investigadores da empresa Escola de Mar e da Associação para as Ciências do Mar (uma organização sem fins lucrativos que promove a investigação do meio marinho, à qual Cristina Brito preside), decidiram mergulhar na história e procurar respostas. Através do projecto “Conservação e golfinhos no estuário do Tejo: realidade, imaginário ou mito?”, vão tentar perceber se os golfinhos estão a voltar a uma antiga área de residência ou se são visitantes ocasionais numa zona onde há hoje mais comida disponível e melhor qualidade ambiental, em resultado das intervenções ao nível do saneamento na área metropolitana de Lisboa.

“Vamos analisar dados históricos desde meados do século XIX, através dos registos dos naturalistas e das notícias de jornais, para perceber se os golfinhos estão a voltar a um ambiente no qual já viveram ou se estão apenas de passagem”, explica Cristina Brito, que coordena o projecto. Numa segunda fase, serão realizadas saídas de campo para “observações de oportunidade”. “Iremos para o estuário com empresas turísticas e que fazem transporte fluvial”, para tentar observar golfinhos, esclarece esta especialista em mamíferos marinhos. Os pescadores e outros utilizadores do estuário também serão ouvidos neste estudo.

Os avistamentos mais recentes são de golfinhos-roazes (Tursiops truncatus), da sub-espécie residente no estuário do Sado, e de golfinhos-comuns (Delphinus delphis), mais frequentes nas zonas costeiras. "Mas há registo de avistamentos até em Vila Franca de Xira", nota a bióloga. A especialista lembra que o número de avistamentos, que parece mais significativo nos últimos "dois ou três anos", pode estar simplesmente relacionado com uma maior atenção dada pela população e pelos próprios meios de comunicação a esta espécie.

Golfinhos toleram poluição

O objectivo, continua a investigadora, é “compilar os diversos registos [de observações] numa escala temporal e perceber se há um padrão que indique eles estão a voltar”. Se esse regresso se confirmar, depois é preciso saber o motivo: será a melhoria da qualidade da água, motivada pelas obras que permitiram, em Janeiro de 2011, deixar de lançar no rio os esgotos de 120 mil habitantes de Lisboa?

“Não é fácil relacionar directamente uma coisa com a outra”, adverte Cristina Brito. Isto porque os golfinhos não são uma espécie indicadora da qualidade da água – toleram facilmente sítios poluídos, já que acumulam a poluição na gordura corporal. No entanto, nota a bióloga, pode haver uma relação indirecta. “Num ecossistema com melhor qualidade há naturalmente mais peixes, o que atrai mais golfinhos.”

O estudo, que já começou no ano passado e deverá estar concluído no final de 2015, tem o apoio do Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa. Mas os investigadores querem também envolver os municípios. As câmaras de Almada e Cascais vão apoiar financeiramente o projecto, as de Alcochete e do Seixal disponibilizam apoio logístico, e outros municípios que fazem fronteira com o maior estuário da Europa Ocidental serão ainda contactados. 

A Câmara de Cascais explica que este apoio está inserido num “esforço” que a autarquia está a fazer desde 2008 com vista à caracterização e monitorização da zona costeira, através do programa Aquasig Cascais.

Durante a investigação, serão apresentadas conclusões provisórias em palestras e em actividades de sensibilização ambiental – outro dos objectivos do projecto.

24/01/2014

Autarquia exige contrapartidas por retirada de fósseis em Porto de Mós


Instituto de Conservação da Natureza e Florestas retirou os vestígios da praia jurássica encontrados numa antiga pedreira, para um estudo mais aprofundado.
A Junta Freguesia de São Bento, concelho de Porto de Mós (distrito de Leiria), onde foram descobertos vestígios de uma praia jurássica, reclama contrapartidas do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que autorizou a retirada de fósseis do local.

 "A junta não admite que esvaziem a freguesia do seu património sem que seja criada uma contrapartida válida. Se os fósseis aqui encontrados são importantes e merecem ser estudados e guardados em locais acessíveis aos investigadores, o local de onde são provenientes também deve ser valorizado", lê-se num comunicado emitido pela junta, citado pela Lusa.  

Os fósseis foram encontrados há alguns meses numa zona de maciço calcário na antiga Pedreira da Ladeira, naquela freguesia, em pleno Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. Perto de 60 fósseis de equinodermes como ouriços-do-mar, estrelas-do-mar e lírios-do-mar, bem como do rasto de ondas e de animais marinhos, que terão cerca de 170 milhões de anos.

O ICNF autorizou a remoção destes fósseis por solicitação do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, justificando a decisão com a necessidade de os salvaguardar da acção humana e meteorológica, dado que podem constituir, do ponto de vista científico, "exemplares-tipo", isto é, exemplares importantes na definição de uma nova espécie ou no "muito melhor" conhecimento das espécies existentes.


Os presidentes da Junta de São Bento e da Câmara de Porto de Mós expressaram "indignação", acusando o instituto de ter agido "à revelia", o que este negou. Desde que a descoberta foi divulgada na comunicação social, o local tem sido visitado por dezenas de pessoas, sobretudo aos fins-de-semana, pelo que os autarcas acreditam que este achado pode ser uma mais-valia para a economia da região. 


 No comunicado da junta, citado pela Lusa, esta apela a que os locais onde estavam os fósseis sejam "preenchidos por réplicas fiéis aos originais", por "respeito pelo local e pela população". Pede também uma intervenção "para potenciar turisticamente a praia jurássica". A junta sugere, ainda, a melhoria das vias de comunicação e a instalação de sinalética, a criação de circuitos de observação dos fósseis no interior da antiga pedreira e a instalação de painéis explicativos. 

Apesar de estar indignada pela forma como decorreu a retirada dos fósseis, a junta de freguesia compreende que os vestígios paleontológicos "merecem o estudo de vários especialistas" e admite mesmo que, "para o estudo ser acreditado, seja necessário recolher os fósseis do local de origem". Contudo, o executivo realça não ser "fácil explicar à população" esta situação, que se agrava porque o "local foi esventrado, deixando um vazio para os observadores e um cenário de destruição", acrescentando temer que "possa contribuir para o aparecimento de comportamentos" que coloquem em risco o património, "nomeadamente através da recolha furtiva de fósseis que ainda permanecem no local".

sta semana, o ICNF assegurou que "há todo o interesse em que as réplicas destes fósseis fiquem disponíveis e expostas num espaço que a câmara considere adequado para o efeito", considerando "igualmente relevante" a promoção de parceria com a câmara e a junta "visando a requalificação e musealização do local, no âmbito de um projecto de conservação, valorização e divulgação deste património paleontológico".


O presidente da junta, Luís Cordeiro, disse à Lusa que espera "quanto antes" a execução deste projecto, para evitar o eventual risco de se perder património, manifestando o desejo de que esta seja uma "prioridade" do ICNF.

A nebulosa e os seus facilitadores

por JOSÉ MANUEL PUREZA, 17 Janeiro 2014
JOSÉ MANUEL PUREZA
Robert Cox, académico canadiano da área de Relações Internacionais, sugere que a governação global efectivamente existente tem como protagonista uma rede de contornos difusos, envolvendo empresas, governos, fazedores de opinião e operadores institucionais dos mercados mais influentes em cada momento. Cox chama sugestivamente a essa entidade "a nebulosa", pondo assim em destaque a falta de nitidez da sua institucionalidade e dos seus canais de expressão.

A nebulosa produz pensamento, define padrões de política e recruta os melhores quadros para as pôr em prática. Em bom rigor, os governos nacionais são apenas os intérpretes de fim de linha deste modo de governar o mundo. Com uma influência muito mais forte na fabricação de decisões alinhadas por padrões de alcance internacional está esse grupo estranho que dá pelo nome de "facilitadores". Os facilitadores são os intermediários entre a nebulosa e as instâncias locais de decisão. São tipos cinzentos, que se movem discreta e habilmente nos círculos do poder, fazendo um vaivém permanente entre o mundo dos negócios e o mundo da política, que vêm à boca de cena debitar normas de boa governação carregadas de princípios de ética pública ao mesmo tempo que, na sombra dos seus escritórios, preparam diplomas legislativos destinados a favorecer interesse particulares que lhes pagam principescamente para o efeito. Os facilitadores facilitam, claro. Mas facilitam sempre o mesmo e para os mesmos.

A porosidade entre os negócios e a política tem uma escala nacional conhecida, que nem a institucionalização do lobbying nem a fixação de um período de nojo mínimo conseguirá prevenir. As regras formais valem pouco diante de uma realidade informal feita de cumplicidades fundas traduzidas na defesa de interesses privados através de cargos públicos. Os que passam subitamente do governo onde tiveram a tutela de uma área para um operador privado dessa área são apenas o rosto mais obsceno de uma realidade tentacular muito mais complexa. Na verdade, ao exporem-se de modo tão aberto, esses facilitadores complicam a vida aos seus mentores mais do que facilitam.

Na promiscuidade entre a política e os negócios como no futebol, o campeonato português é subalterno. Há uma champions league com o estrelato político e empresarial - e salarial, já agora...- onde pontuam figuras como Mário Draghi - que ziguezagueou entre o Banco de Itália, o Goldman Sachs e o Banco Central Europeu - Peter Sutherland, com um percurso entre o Royal Bank of Scotland, a Comissão Europeia e o Goldman Sachs - ou Robert Zoellick, que transitou de funções de direção do Goldman Sachs para o Banco Mundial, regressando depois ao Goldman Sachs.

Pelos exemplos dados, salta à vista que o banco Goldman Sachs é um clube dessa champions league que é a nebulosa da governação global. Esse "nicho de um poder mundial não eleito" - como certeiramente o designou Viriato Soromenho Marques - faz da governação global a sua especialização de mercado. Uma governação global feita de bolhas especulativas, de cumplicidade com o falseamento de contas públicas, de promiscuidade entre governos e negócios, de manipulação dos mercados cuja liberdade e transparência apregoa. Foi para esse clube que José Luís Arnaut, deputado do PSD, advogado de várias empresas privatizadas por governos que apoiou politicamente, ex-ministro, foi agora recrutado. No futebol, como na facilitação de um relacionamento "agradável e útil" entre o mundo dos negócios e a política, os clubes da champions estão atentos aos campeonatos distritais. E recrutam quem neles sobressai.

Os anos devastadores do eduquês - outra prova

por GUILHERME VALENTE**, 17 Janeiro 2014

Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. Esta é apenas uma das conclusões do estudo da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano" (notícia no Público de 15/01/14). E, diz ainda o estudo, também menos felizes.
Foi, como se sabe, o que, infelizmente, previmos, que andámos a dizer há mais de vinte anos. Está escrito nos inúmeros artigos que publiquei, registado no meu livro com um título, Os Anos Devastadores do Eduquês*, expressivamente convergente com os resultados do estudo agora divulgado. Quanto mais tempo na escola que temos tido, pior.

As consequências destes anos de domínio da ideologia e das práticas educativas que tenho designado com a palavra "eduquês" eram já bem visíveis para quem pudesse olhar com espírito livre. Desde logo, em várias manifestações na escola, e, depois, na sociedade, da política à economia, manifestações que cada vez são mais impressionantes.
A solidariedade, o seu sentimento e necessidade, a felicidade, seguramente, só podem assentar nos grandes valores e nas manifestações mais elevadas da cultura, do conhecimento, da religião, do altruísmo, da generosidade humanos. Valores, conhecimento e cultura que, pelo contrário, foram desvalorizados, durante todos estes anos, por esta escola, dita moderna, mas pós-moderna, das "ciências" da educação.

Escola dos "chavões" da "aula como continuação do recreio", do "aprender a aprender", do "aprender sem esforço", das avaliações a fingir, cujos resultados, mesmo assim, esconderam ao País enquanto os deixámos; do "ensino centrado no aluno", que, como demonstrámos, não queria dizer "ao serviço do aluno", como devia querer ser, mas sim "o ensino definido pelo aluno", imagine-se. Escola marcada (até David Justino e José Sócrates, registe-se) pela estigmatização do ensino técnico, escola da grande mentira da "inclusão" - como pode ser isso apregoado, quando se foi vendo logo que as crianças mais desfavorecidas fugiam cada vez mais dela?

Aqueles que, durante todos estes anos, ignorando a prova da realidade, teorizaram e impuseram o ensino que temos tido - um ensino que expulsou ou foi desvalorizando a memória, a história, a grande literatura e com ela o ensino da língua e a expressão do pensamento, a filosofia, o conhecimento que conta; um ensino sem exames, sem exigência, sem emulação, sem a valorização do mérito, sem regras; um ensino permissivo, com os jovens abandonados ao "instinto reptiliano", e mesmo, nalgumas situações, encorajados a manifestá--lo - um ensino que, diziam, e continuam a dizer, tornaria os portugueses mais tolerantes, solidários, participativos e cooperantes, criativos e empreendedores, mentiram ou falharam. Aconteceu o contrário. Não tornou os portugueses mais informados, nem mais cultos, como imediatamente se podia ter percebido, mas também não os tornou mais generosos e solidários. O verdadeiro, interiorizado, reflectido conhecimento é gerador de solidariedade, a ignorância é sua inimiga.

E quanto mais anos neste ensino, pior. Mais instruídos? Mais solidários e empenhados no bem social? Não. Apenas com mais anos na escola errada. Como este estudo da Universidade Católica parece ter já podido verificar. Essa ideologia e essa prática "educativa" roubaram as crianças, deixaram que perdessem os valores tradicionais que transportavam, e que fossem substituídos por uma espécie de lei da selva, que chegou até, de algum modo, a ser valorizada. Violência que tem a expressão mais imediata e visível nas agressões aos professores e entre os alunos, e o seu espaço natural na anomia antieducativa dos hiperestabelecimentos escolares. Violência que cresceu sempre, em número e em grau.

E mesmo que se actuasse já no ensino, num grande movimento nacional que tudo, infelizmente, indica parecer impossível - e ainda que resultados dessa boa mudança logo se manifestassem no ambiente das escolas e no aproveitamento dos alunos, como tenho dito -, a alteração do perfil médio dominante dos portugueses que o tal estudo da Universidade Católica revela, só no longo prazo, como se compreende, se verificaria. E Portugal, entretanto, como se tem visto, irá pagando a factura.
Há de resto muitos outros indicadores desta realidade. Por exemplo, no domínio, determinante, da leitura. A escritora Alice Vieira referiu que há dez anos ia às escolas apresentar e discutir os seus livros com miúdos de 12 anos. Hoje vai à escola apresentar e discutir os mesmos livros... com jovens do 12.º ano!
E é urgente divulgar e pensar uma situação terrível que terá consequências dramáticas para o País: os grandes livros que veiculam o conhecimento universal estão já a deixar de ser publicados em português. Por falta de leitores. De um número mínimo de leitores que viabilize os custos da sua edição.

O que o estudo da Universidade Católica - que é também, curiosamente, uma tese de doutoramento em "ciências" da educação - parece provar é, pois, infelizmente, o que eu sempre disse, e que não era, aliás, difícil de prever.
"Tudo é igual a tudo" é, afinal, a expressão pós-moderna que melhor traduz a ideologia e a pedagogia que também à nossa escola foram impostas durante todos estes anos de devastação. O resultado aí está, documentado agora por um estudo que parece ser insuspeito e merecer, por esta primeira notícia, credibilidade. Mas não era preciso estudo nenhum para o provar, bastaria pensar e, depois, olhar.

Claro que certamente há gente boa e muito boa, como sempre houve e haverá. Tendo havido também bons professores que conseguiram resistir, como sempre aconteceu no passado, há também bons alunos que sobreviveram ao sistema. Instruídos e bem formados... fora dessa escola. Como pode falar-se nas "gerações mais qualificadas que Portugal teve"...

Mas mudar está ao nosso alcance, depende apenas da nossa vontade. O que é preciso primeiro é ver e assumir a verdade.
*Os Anos Devastadores do Eduquês, Lisboa, Presença, 2012

** Editor da Gradiva

23/01/2014

“Os portugueses são apreciados em todo o mundo”

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O site Emprego pelo Mundo divulga em português ofertas de trabalho em diferentes países. Diogo Lino Ribeiro, fundador, cresceu em Macau e estuda na República Checa. O projecto é seguido por mais de 172 mil pessoas no Facebook e recebe em média um milhão de visitas mensais online.
Hélder Beja
As boas ideias às vezes aparecem sem querer. Foi assim com Diogo Lino Ribeiro, jovem de 25 anos que em Fevereiro fundou o site Empregos pelo Mundo (www.empregopelomundo.com). Hoje, o portal recebe largos milhares de visitas todos os dias porque oferece, em português, informação sobre muitos postos de trabalho para aqueles que queiram largar mundo fora.
Diogo Lino Ribeiro, que passou parte da infância e adolescência em Macau, olhou para o desemprego jovem em Portugal, leu o sinais que lhe foram trazidos por um projecto familiar e resolveu avançar. Hoje conta com uma equipa de dez pessoas, divulga milhares de ofertas de emprego e, acredita, ajuda pessoas. Mesmo assim, continua os estudos no Instituto de Química de Praga, na República Checa. Não vê grandes melhorias para os portugueses nos próximos tempos.
- Como surgiu a ideia de criar o site Emprego pelo Mundo?
Diogo Lino Ribeiro – A ideia de criar este grupo de partilha de informações de emprego no estrangeiro e em Portugal, que ganhou visibilidade no Facebook, surgiu a partir de um pedido da minha família, para que colocasse para arrendar, em sites especializados, uma casa localizada em Búzios, no Brasil. Nessa altura, resolvi criar um blogue onde também promovia aquele destino. Inesperadamente, comecei a receber currículos de pessoas que me pediam emprego, pensando que se tratava de um resort ou de uma guest house. Muitos eram jovens que pediam com uma humildade, um desespero e uma vontade de trabalhar que não podiam deixar ninguém indiferente. Como tinha experiência na área da pesquisa, adquirida numa empresa onde trabalhei na República Checa, comecei a publicar no meu blogue oportunidades de emprego. O reconhecimento foi tal que o passo seguinte foi criar o Emprego pelo Mundo.
- Dê-nos alguns números do projecto. Quantas visitas recebe o site em média? E quantas ofertas de trabalho já publicou?
D.L.R. – O portal Emprego Pelo Mundo recebe em média um milhão de visitas e cerca de três milhões de visualizações por mês. Já publicámos milhares de ofertas de emprego dependendo das empresas e das áreas, publicamos cerca de 30 mil oportunidades por mês. Formamos uma equipa de dez jovens que trabalham segmentos de mercado diferentes. Uns mais vocacionados para as ofertas de trabalho individualizadas, outros em ofertas mais gerais que abarcam várias áreas numa só empresa, normalmente multinacionais. Não conseguimos ter uma estimativa das pessoas que já conseguiram oportunidades através do site, mas até hoje e desde que o site está activo já recebemos milhares de agradecimentos.
- Falemos da Ásia. Há muitas ofertas de trabalho para esta zona do globo? É um mercado com potencial para a mão-de-obra lusófona?
D.L.R. – Sendo nós portugueses um povo universalista, com uma história de relacionamento pacífico e mesmo amistoso com todos os povos do mundo, e tendo nós também das melhores universidades europeias que têm formado nas últimas décadas jovens comprovadamente talentosos, reconhecidos em todo o mundo, não será descabido pensar que esses jovens muito qualificados poderão ser uma mais valia, em qualquer parte do mundo e aí também. Basta que lhes sejam oferecidos lugares onde possam não só desenvolver as suas capacidades criativas e o seu talento, como também colaborar através da troca de conhecimentos e visões do mundo, favorecendo a criação de soluções inovadoras e permitindo àqueles que neles confiam o acompanhamento eficaz das mudanças num mundo que anda cada vez mais veloz.
- Concretamente em relação a Macau, há oportunidades para portugueses que podem ser encontradas através do seu site? Alguns exemplos específicos?
D.L.R. – Apresento no meu site um link dedicado completamente a Macau. Como viver e trabalhar aí. Como procurar emprego. Tem sido muito visitado. Como esta crise veio para ficar e há cada vez mais desempregados, os portugueses têm tendência a procurar emprego nos países cujos povos partilharam connosco partes da sua história e que por isso lhes oferecem mais confiança por os julgarem amigos.
- Viveu em Macau. Quer recordações guarda desses tempos? Ainda é um lugar que o atraia, também do ponto de vista profissional?
D.L.R. – Vivi em Macau dos três aos 14 anos. Cresci em Macau. Passei a minha infância a percorrer as suas ruas, a correr para as suas escolas, a casa na Taipa. Os meus amigos de infância são daí, ou passaram por aí e continuam a estabelecer contactos regulares comigo. Macau faz parte de mim, dos meus sonhos, dos meus desejos, das minhas memórias, do meu ser. Será um lugar onde sempre voltarei… onde espero encontrar sempre símbolos dessas vivências que tive. Ou até personalidades que me tornaram feliz em criança pela amizade que me dedicaram. Por exemplo, o Domingos, ex-motorista do meu pai e meu grande amigo, que fazia comigo o totoloto de Hong Kong em sociedade. Mas não sei se voltarei para trabalhar aí. Por enquanto não faz parte dos meus planos. O meu projecto de vida não se encaminha para ser realizado por esses lados. Porém, como se costuma dizer, ‘o futuro a Deus pertence’.
- Considera que, regra geral, os portugueses que trabalham no estrangeiro são apreciados ou nem tanto?
D.L.R. – Acho que os portugueses são apreciados em todo o mundo. Como dizia um escritor inglês, “toda a gente gosta dos portugueses com excepção deles próprios”. Os portugueses são um povo bom, tolerante, com capacidade de se entregar a causas. São um povo leal, solidário e com uma capacidade de sofrimento e de resignação emocionantes. Veja o que está a acontecer nesta crise. As reacções dos portugueses e de outros povos são muito distintas. Só um povo muito bom é capaz de suportar com paciência isto e aguentar tanto sofrimento de modo resignado.
- Qual é o destino preferencial do português qualificado e sem emprego neste momento?
D.L.R. – As preferências dos portugueses são regra geral os países de língua portuguesa. Brasil e Angola têm sido grandes receptores do trabalho dos nossos imigrantes. Mas o maior número de jovens qualificados tem ido para a Europa, com a Alemanha, Noruega, Dinamarca, Inglaterra e Irlanda a aproveitarem esses talentos que Portugal desperdiça neste momento.
- Como olha para a situação actual em Portugal?
D.L.R. – Portugal vive um período muito crítico da sua história e não se vislumbra uma saída para a crise a curto prazo. Não temos indústria, agricultura, pescas. O comércio tornou-se monopólio de poucos. Sinceramente vejo tudo muito mal.
- Acaba por ser também um empreendedor, ao lançar este projecto. O site é já lucrativo para si, que o fundou?
D.L.R. – Para já o site paga-se a si próprio, pago o trabalho dos colaboradores e tenho estado a investir o resto. Vamos apresentar muito em breve uma nova versão mais moderna  e prática que permitirá a empregadores e candidatos funcionalidades que facilitam o recrutamento.

Encontro marcado na missa de Pangim

Inês Santinhos Gonçalves - Ponto Final, 22 de Janeiro 2014
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 São “portugueses de Goa”, filhos da terra que nunca saíram do país ou emigrados que regressam religiosamente para férias prolongadas. Encontram-se aos domingos, na Igreja de Pangim, para uma das poucas missas do Estado rezadas em português.
Num primeiro contacto com Goa chega-nos logo uma advertência: por aqui já são poucos e antigos os que sabem português. O concani, a língua local, e o inglês são os idiomas francos, a que se junta o hindi (língua nacional da Índia), perfazendo três línguas oficiais. Mas poucos dias bastam na cidade para o português, ainda que “mascavado”, como alguns o chamam, vir ter connosco.
Como em tudo, a sorte tem o seu papel. Na Igreja da Imaculada Concepção, conhecida simplesmente como Igreja de Pangim, o português toca o sagrado, todos os domingos pelas 10h30. É esta a hora da missa em língua portuguesa, uma das poucas realizadas em todo o Estado de Goa. Fica a cargo do padre António Xavier, que fala um “português mascavado”, avisam-nos mas antes de entrarmos na capela.
Cerca de 30 pessoas assistem à homilia e juntam-se à canção: “Tenho um amigo que me ama, tenho um amigo que me ama, seu nome é Jesus”. Na Imaculada Concepção faz calor e as ventoinhas que pendem do tecto de madeira giram no máximo. “Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo”. Silêncio. As leituras seguem-se, por vezes nítidas ao ouvido habituado a outros sotaques, outras vezes nem tanto.
Num Estado em que o número de pessoas a aprender o idioma não chegará a um milhar, cabe aos mais velhos o exercício da língua e são eles que, ao domingo, não perdem a missa do padre Xavier.
No átrio da Igreja branco-cal, debaixo de um céu azul brilhante, vemos os fieis saírem aos poucos. Dois dedos de conversa com uma pessoa rapidamente se tornam numa reunião – em poucos minutos estamos rodeados por uma dezena de lusófonos.
A missa de domingo funciona como ponto de encontro. “É uma das formas de manter a cultura. Nós, os falantes de língua portuguesa, vamos também para o Clube Vasco da Gama, que é um outro lugar de encontro e lá tomamos bebidas, falamos e cultivamos a língua portuguesa”, conta Messias Pereira.
Como muitos goeses lusófonos, Pereira esteve fora da Índia durante a maior parte da sua vida adulta. Estudou “português clássico” em Portugal – orgulhando-se de, por isso, ter o português mais correcto de Goa – mas uma mudança para a Suíça obrigou-o a dominar o alemão. No entanto, manteve sempre “a ligação à terra e à cultura portuguesa”.
Agora, passa em Goa a maior parte do tempo, só dispensa a época de monções: “Nós, portugueses de Goa, que estamos espalhados pelo mundo inteiro, temos sempre tendência a voltar à nossa terra. E é uma espécie de pequeno convívio que nós temos, vir aqui à igreja matriz de Pangim”.
Também Óscar Monteiro, professor de Português e Economia radicado no Canadá, vai e vem. Viveu em Moçambique, Inglaterra, Portugal, mas regressa sempre a Goa. E agora que as obrigações profissionais o permitem, passa três a cinco meses por ano na cidade-natal. “Nasci cá e gosto disto, gosto de visitar amigos e familiares”, explica. O autor do livro de poesia “Nas asas da palavra” fala de um sentimento de nostalgia e das saudades dos sabores. “Uma coisa que não posso fazer no Canadá é a comida goesa, com os condimentos e assim”, lamenta.
Quando está em Goa, Óscar Monteiro dá frequentemente aulas de Português a convite do Instituto Camões. Apesar de o idioma estar longe de gozar da pujança de outros tempos, continua a marcar presença: “A língua portuguesa é ubíqua, está em todo o lado. Há instituições que zelam pela língua, uma delas é a Fundação Oriente, outra é o Instituto Camões, e também o Consulado Português e uma associação de ‘friendship’ da língua portuguesa. A Fundação Oriente e o consulado criaram aulas de português em várias escolas, como língua estrangeira”.