23/12/2015

Artigo do JL: Afonso de Albuquerque - Da realidade à ficção

Saiu hoje, 23 de Dezembro, no JL, o meu artigo sobre a palestra que fiz na Biblioteca Nacional, durante o Colóquio sobre Afonso de Albuquerque. Só lamento que o JL siga o odioso Acordo Ortográfico e me tenham "corrigido" o texto com erros. Caso queiram (e tenham paciência) para ler o texto e não consigam na imagem, deixo-vos aqui a minha versão, anterior ao AO:
«Afonso de Albuquerque - Da realidade à Ficção

Em 16 e 17 de Dezembro, o MIL–Movimento Internacional Lusófono comemorou com a Biblioteca Nacional de Portugal, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, o 500º aniversário da morte de Afonso de Albuquerque (Goa16/12/1515) com o colóquio Afonso de Albuquerque, 500 anos depois: Memória e Materialidade, em que reputados historiadores e especialistas analisaram várias facetas do César do Oriente. Eu fui excepção, convidada por ser escritora com dez romances históricos sobre os Descobrimentos.
Escolhi falar de «Afonso de Albuquerque, da realidade à ficção – A matéria de que são feitos os mitos», a partir da sua presença nas minhas obras como personagem literária ou mito.

Os mitos etno-religiosos primitivos eram o modo como o pensamento inconsciente dos povos representou a natureza e o mundo que os maravilhava e atemorizava, não eram uma mistificação deliberada, um engano conscientemente criado com a intenção de manipular e atingir determinados fins, como veio a acontecer nas civilizações modernas. Sempre que há uma crise de identidade ou se pretende despertar o nacionalismo de um povo, os governantes criam mitos político-heróicos destinados a glorificar uma personalidade ou um grupo, como aconteceu no Estado Novo, com a mitificação dos Descobrimentos e de figuras como Afonso de Albuquerque ou Viriato e os Lusitanos, para servirem de exemplo e inspiração aos soldados que combatiam nas colónias. Instrumentos da ideologia de um falso grande Império Ultramarino Português, tais mitos foram usados até à exaustão por Salazar.

Essa mistificação provocou, após o 25 de Abril, a uma rejeição quase visceral dos Descobrimentos, sendo, até há bem pouco tempo, considerado politicamente incorrecto falar ou escrever sobre este período que é dos mais fascinantes e fecundos da nossa História, a todos os níveis: científico, literário, cultural, artístico, transformador da mentalidade e do saber europeus, dando origem à 1ª globalização da Idade Moderna. Um tabu absurdo, pois um povo não pode nem deve apagar o seu passado, embora desagradável, porque essa irradicação terá graves repercussões no seu presente e também no seu futuro, em termos de identidade e de maturidade, porque só conhecendo e compreendendo os erros evitamos repeti-los.
Para contrariar esta corrente, dediquei-me a recriar a saga da Expansão Portuguesa, cujos actantes se enquadram no cânone dos heróis épicos, reclamando para mim o papel de criadora de mitos literários, porque a literatura sem mitos seria uma arte muito árida, um corpo sem alma.

Mas será aceitável a um romancista efabular sobre um ser real, como Albuquerque e fazer dele um mito literário ou deverá cingir-se às regras da biografia histórica?
Usei de ambos os processos na construção das personagens do mundo virtual da minha escrita, segundo a minha concepção de romance histórico, muito próxima das fontes e de acordo com as características individuais do ser real cuja vida me propus recriar.
Concepção que nada tem a ver com a publicação desenfreada de ficção de baixíssima qualidade com rótulo de romance histórico, cujos autores pecam por um desconhecimento total de História, cometendo imperdoáveis incongruências, anacronismos e erros de palmatória, que prejudicam e aviltam um dos géneros mais nobres e exigentes da literatura.

Embora o romancista não deva estar sujeito ao colete-de-forças de fidelidade às fontes e aos documentos, próprio de quem está a escrever uma tese em História, tem o dever de ser fiel ao período ou época que trata, de usar do maior rigor na contextualização da vida e mentalidade das personagens, da linguagem às acções, nas descrições dos ambientes, lugares, usos, trajos, comidas, profissões ou divertimentos. E, sobretudo, não pode deturpar os factos nem cometer erros fora do tempo e dos costumes, porque se o fizer está a enganar, a trair um leitor que quer conhecer um assunto, mas não tem apetência por ler um tratado de História.
Literatura e História são indissociáveis, sendo o romance histórico, quando feito com seriedade e honestidade intelectual, o mais difícil e trabalhoso de todos os géneros literários, tanto mais que, além de divertir o leitor com uma intriga, deve aportar-lhe uma mais-valia em conhecimento sobre os sucessos de uma dada época.

Afonso de Albuquerque, logo após a sua morte, assume um estatuto de herói mítico, quer nos «Comentários de Afonso de Albuquerque», publicados pelo filho Brás, quer nas «Lendas da Índia», do seu escrivão Gaspar Correia, quer nas crónicas oficiais, ao ser glorificado como o Grande Cruzado (que queria arrasar Meca e roubar o corpo de Maomé), o Capitão-mor que pretendeu fechar os mares, o “Terríbil” Governador e Vice-Rei, que cometeu façanhas guerreiras à altura de um Agamemnon ou de um Alexandre, mas também mostrou traços de um ser humano de excepção, como raramente se encontra entre os detentores do poder.

A par da ferocidade com que flagelou os mouros, muitas vezes como represália, nele se reconhece o sentido de justiça com que julgou grandes e pequenos por igual; o governante de visão que promoveu os casamentos mistos, dotou as noivas gentias com dinheiro e terras e proibiu o sati, com castigos às famílias que fizessem morrer as viúvas na pira funerária dos maridos; de uma honradez e lealdade inquebrantáveis que lhe trouxeram o ódio dos corruptos, lhe ganharam a admiração de reis e povos, tanto inimigos como aliados, e deram causa a que morresse na pobreza, apesar dos anos passados na Índia e do seu estatuto de Vice-Rei; a sua revolta contra a inveja e as intrigas dos seus pares; o desânimo e frustração pelas contínuas desobediências e traições dos oficiais sob o seu comando que o impediram de conquistar Adem e completar o seu desígnio; o desgosto e a humilhação, sofridos à hora da morte, por, em vez de ser recompensado pelo rei a quem sempre servira fielmente, se ver caído em desgraça, substituído por medíocres corruptos que ele enviara ao reino sob prisão; o reconhecimento póstumo, no pranto e nas honras que lhe fizeram os gentios de Goa após a sua morte.
Igualmente ou todavia mais apaixonante, para um romancista, é o mistério da sua vida familiar e afectiva de que muito pouco se conhece, do filho Brás que teve fora do casamento e legitimou fazendo-o seu herdeiro.

O meu plano de recriação da saga dos Descobrimentos concretizou-se numa trilogia de romances: «O Navegador da Passagem – Bartolomeu Dias», navegações pela costa ocidental de África e Brasil; «O Espião de D. João II –Pêro da Covilhã», viagens pela Arábia, Índia, África Oriental e Preste João; e «O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto», com as suas peregrinações pelo Oriente longínquo. Personagens excepcionais, porém das mais injustiçadas pelos seus compatriotas ou mais esquecidas pela História, que me permitiram dar voz ao marinheiro e aventureiro sem nome capaz de chegar primeiro aonde mais ninguém ousara e de fazer o que antes mais ninguém fizera.

No 3º volume da saga, pude inserir uma micro-narrativa de Afonso de Albuquerque, feita em várias analepses, por diferentes personagens que se cruzam com o andarilho Fernão Mendes Pinto.
No reino do Preste João. Afonso de Albuquerque é evocado pelo feitor Henrique Barbosa, que está a proteger a rainha etíope com um troço de quarenta portugueses. Fala da embaixada de Mateus a Portugal, em 1514, da qual a velha rainha Eleni encarregou Albuquerque que estava na Índia e dos trabalhos por que o Terríbil passou com Lopo Soares de Albergaria, seu inimigo, que o ia substituir, não por merecimento mas por influências.
Durante uma navegação da Arábia ao Malabar, um antigo soldado conta os confrontos de Albuquerque com D. Francisco de Almeida e posteriormente com o “bando de Cochim”, comandado por António Real, o capitão da fortaleza, que não queria ver Cochim substituída por Goa, como capital dos territórios portugueses na Índia. Nos capítulos de Goa, narra-se a conquista da ilha e da protecção que aquele guerreiro tão duro dava às mulheres, libertando as escravas que se faziam cristãs, promovendo os casamentos mistos e distribuindo os melhores cargos e postos da administração aos homens honrados que com elas casassem.

A própria estrutura do romance ajuda à compreensão da personagem, porque cada capítulo começa por um provérbio, seguido de um documento, português ou de qualquer outra nação que tenha a ver com o assunto tratado, sendo usadas cartas de Albuquerque e de António Real a D. Manuel, expondo-lhe a situação, com cuja leitura se pode verificar a inteireza moral do primeiro face à baixeza de vil caluniador do segundo. Ou ainda a sua comovente carta ao rei, ditada à hora da morte.
Ao logo de muitos capítulos o nome de Albuquerque torna-se recorrente, sendo por exemplo recordadas as primeiras embaixadas que ele enviou ao Sião e à China logo após a conquista de Malaca e as várias viagens que ele organizou às ilhas das Especiarias, Banda e Moluco, assim como o naufrágio da Flor de La Mar, à saída de Malaca, em 1511, evocado por Pinto.

A micro-narrativa de Afonso de Albuquerque termina quando, num dos seus aparatosos naufrágios, Fernão Mendes Pinto é feito prisioneiro e condenado a trabalhos forçados na Grande Muralha da China. Em Quansy encontra Vasco Calvo, um português prisioneiro a viver ali há mais de vinte anos, com a sua esposa chinesa e os filhos, que lhe relata a conquista de Goa e Malaca, em que participou juntamente com Fernão de Magalhães e Francisco Serrão.

Sou uma autora que vos confessa ter embarcado também nessa tendência, embora sem intenção mistificadora, para a mitificação dos vultos que admiro, sobretudo quando os comparo com as figuras ditas famosas, da actualidade, que de tão medíocres, poucas ou nenhumas conseguem sequer chegar à altura dos seus coturnos, como diriam as minhas personagens quinhentistas.»

Deana Barroqueiro
(Não escrevo segundo o AO)

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