15/03/2020
O COVI-19 E AS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO
Não há nada pior, nem mais perverso, do que inventar teorias da conspiração em tempo de crise grave, como esta que apanhou o mundo desprevenido. Aumentar o "ruído" e o pânico, dizendo que já há muitos mortos que as autoridades não divulgam, é um acto irresponsável, porque contribui apenas para dificultar o trabalho de governantes, pessoal dos serviços de Saúde e de todos os que estão a trabalhar para minorarem e, se possível, porem fim a esta terrível doença. É um acto vergonhoso, senão criminoso!
Enquanto escritora, não posso passar sem as redes sociais, como o Facebook ou o linked-in, por serem o melhor instrumento para comunicar com os meus leitores ou promover as minhas obras. Mas este "instrumento", como qualquer outro, tanto pode ser usado para o bem como para o mal, pois depende do carácter e do estofo moral daqueles que o usam No caso das redes sociais, para muita gente de baixo estofo moral, este instrumento serve, de modo mais ou menos anónimo, como veículo para as suas frustrações, ódios, invejas, que, sem ele, jamais seriam ouvidos.
Enquanto nas minhas páginas e nas dos meus amigos, o convívio é são, inteligente, sensível, solidário e amistoso, causando-me um enorme prazer (fora de qualquer interesse em relação a vendas de livros, não vivo da escrita, vivo para a escrita), se passarmos em revista por outras páginas ao acaso, podemos ver o que de pior há no ser humano, pois é um esgoto a céu aberto. Forjam e propagam mentiras, notícias, fotos e vídeos falsos que enganam as pessoas de bem, acirram ódios e desconfianças sobre aqueles em quem devíamos confiar (e que são enviados por pessoas bem-intencionadas mas crédulas, que acabam por ajudar a propagar esta desgraçada poluição ou vírus).
Circulam por aí vídeos e textos de inúmeros "gurus de meia-tigela", de "cientistas da universidade da vida" a promoverem remédios e tratamentos milagrosos para o Covid-19, como faziam na Idade Média para a Peste Negra, aconselhando as pessoas a desprezarem os avisos e conselhos dos médicos e outros cientistas sérios. Estamos no séc. XXI, no 3º Milénio, temos toda a informação possível, não nos desinfectamos com vinagre, mas com álcool, não curamos pneumonias com chás de ervas, tomamos vacinas que erradicaram doenças de que a humanidade morria aos milhões, voamos em aviões e foguetões, coisa tão sonhada por Leonardo da Vinci no séc. XV.
Por favor, não divulguem essas imbecilidades criminosas, não enviem esses vídeos e textos com curas de perlimpimpim. Deixem os responsáveis dos serviços próprios fazerem o seu trabalho e ajudem-nos, cumprindo as regras, conselhos e ordens que nos dão, para o bem nosso e de todos.
Deana Barroqueiro
14/03/2020
Receitas de cozinha para a quarentena
2 RECEITAS PARA A CLAUSURA
Se tiverem em casa costeletas de porco (ou de vaca), aconselho qualquer destas receitas - a primeira é mais fácil - Pode usar também bifanas
COSTELETAS À SALSICHEIRO
Ingredientes: Costeletas de porco 4; Margarina 2 c. de sopa; Farinha I c. de sopa; Concentrado de tomate 2 c. de sopa; Vinho branco 1,5 dl; Caldo de carne 1,5 dl; Cebola1; Pepinos de conserva 4; mostarda, sal e pimenta.
Preparação: Polvilhe as costeletas com sal grosso e pimenta. Pique a cebola para dentro de um tacho, deixe alourar muito ligeiramente com urna colher de sopa de margarina. Polvilhe com a farinha e mexa para que a cebola fique bem envolvida. Regue com o caldo e o vinho misturados e deixe o molho cozer sobre lume muito brando. Adicione um pouco de mostarda, o concentrado de tomate e os pepinos de conserva muito picadinhos. Conserve quente.
Entretanto derreta a restante margarina numa frigideira, deixando-a aquecer. Introduza as costeletas, deixando-as fritar e alourar bem dum dos lados. Vire-as e deixe alourar do outro lado. Disponha as costeletas num prato de serviço e cubra-as com o molho. Acompanhe com puré de batata.
COSTELETAS PANADAS COM CREME
Ingredientes: Costeletas de vitela ou porco 6; Ovos 2; Farinha qb; Pão ralado qb; Manteiga 100 g. Creme: Farinha 70 g; Manteiga 20 g; Leite 2 dl; Queijo parmesão qb; Gema 1.
Preparação: Bata as costeletas com o maço para as espalmar, e passe-as por um pouco de manteiga na frigideira. Faça o creme, pondo os 20 g. de manteiga num tacho e, quando derreter, junte-lhe farinha, mexa e depois acrescente o leite, mexendo sempre até obter um creme; tire do lume e deite-lhe a gema e o queijo ralado, tempere com sal e pimenta. Deixe arrefecer para engrossar.
Ponha as costeletas em cima de uma tábua e cubra-as com uma porção de creme, espalmando-o muito bem com uma espátula untada com óleo. Volte as costeletas para cima de uma tábua polvilhada com uma mistura de pão ralado e farinha, e cubra-as do outro lado com uma camada de creme, como se fez da primeira vez. Embrulhe-as numa boa camada de farinha e pão ralado, passe-as por ovo batido, depois novamente na mistura de pão ralado e frite-as em óleo fervente, mas em lume brando para não as queimar.
BOM PROVEITO!
Se tiverem em casa costeletas de porco (ou de vaca), aconselho qualquer destas receitas - a primeira é mais fácil - Pode usar também bifanas
COSTELETAS À SALSICHEIRO
Ingredientes: Costeletas de porco 4; Margarina 2 c. de sopa; Farinha I c. de sopa; Concentrado de tomate 2 c. de sopa; Vinho branco 1,5 dl; Caldo de carne 1,5 dl; Cebola1; Pepinos de conserva 4; mostarda, sal e pimenta.
Preparação: Polvilhe as costeletas com sal grosso e pimenta. Pique a cebola para dentro de um tacho, deixe alourar muito ligeiramente com urna colher de sopa de margarina. Polvilhe com a farinha e mexa para que a cebola fique bem envolvida. Regue com o caldo e o vinho misturados e deixe o molho cozer sobre lume muito brando. Adicione um pouco de mostarda, o concentrado de tomate e os pepinos de conserva muito picadinhos. Conserve quente.
Entretanto derreta a restante margarina numa frigideira, deixando-a aquecer. Introduza as costeletas, deixando-as fritar e alourar bem dum dos lados. Vire-as e deixe alourar do outro lado. Disponha as costeletas num prato de serviço e cubra-as com o molho. Acompanhe com puré de batata.
COSTELETAS PANADAS COM CREME
Ingredientes: Costeletas de vitela ou porco 6; Ovos 2; Farinha qb; Pão ralado qb; Manteiga 100 g. Creme: Farinha 70 g; Manteiga 20 g; Leite 2 dl; Queijo parmesão qb; Gema 1.
Preparação: Bata as costeletas com o maço para as espalmar, e passe-as por um pouco de manteiga na frigideira. Faça o creme, pondo os 20 g. de manteiga num tacho e, quando derreter, junte-lhe farinha, mexa e depois acrescente o leite, mexendo sempre até obter um creme; tire do lume e deite-lhe a gema e o queijo ralado, tempere com sal e pimenta. Deixe arrefecer para engrossar.
Ponha as costeletas em cima de uma tábua e cubra-as com uma porção de creme, espalmando-o muito bem com uma espátula untada com óleo. Volte as costeletas para cima de uma tábua polvilhada com uma mistura de pão ralado e farinha, e cubra-as do outro lado com uma camada de creme, como se fez da primeira vez. Embrulhe-as numa boa camada de farinha e pão ralado, passe-as por ovo batido, depois novamente na mistura de pão ralado e frite-as em óleo fervente, mas em lume brando para não as queimar.
BOM PROVEITO!
13/03/2020
Enclausurados nas caravelas e naus
Encerrados nas caravelas e naus dos Descobrimentos iam os portugueses, durante meses. Aqui vos deixo um rol de produtos alimentares, que eles levavam para a viagem e que recomendo aos açambarcadores:
Gerido directamente pela coroa, o Complexo Real de Vale de Zebro era constituído por 27 fornos de cozer biscouto, armazéns de trigo, cais de embarque e um moinho de maré de 8 moendas – o Moinho d’ElRei, o maior da região -, além de vastas áreas de pinhal circundante.. A sua instalação deve remontar ao reinado de D. Afonso V, e era comparável a um outro existente em Lisboa, os Fornos da Porta da Cruz. Em conjunto constituíam as duas unidades régias que asseguravam o fabrico de todo o biscoito necessário aos empreendimentos marítimos da expansão e dos descobrimentos. Estas actividades exigiam grandes quantitativos de mão-de-obra.
Nesse contexto, a Coroa recorreu à importação de escravos, empregues quer no Complexo Real, quer como escravos domésticos nas casas senhoriais. Em 1553 a quantidade de escravos era tal, que existia na Igreja de Nª Sª da Graça uma «Confraria do Rosário dos Homens Pretos».
Uma fábrica de biscoutos do século XV
Esta fábrica de biscoitos situava-se nas proximidades do rio, podendo assim dispor de um moinho para a moagem do trigo e junto à mata da Machada, fornecendo lenha para manter os fornos. Os biscoutos (bis significa duas vezes e couto significa cozido) ali confeccionados, em formas de barro com um diâmetro semelhante ao de uma pizza, dariam para conservar durante várias semanas.
O biscoito era a base alimentar das tripulações na época dos Descobrimentos Portugueses. Consistia num pão de farinha de trigo, de forma achatada, cozido no forno duas, três ou mais vezes para ficar duro "duro como corno" e assim durar muito tempo. A ração diária de cada tripulante era de 400 gramas. Como o biscoito estava muito rijo para se comer, mergulhavam-no em água – fazendo uma espécie de açorda – e comiam assim ou acrescido de outros condimentos, quando era possível.
“Do rol dos mantimentos que recebeu Miguel Luiz Romeu, escrito nos Açores (Angra), datado em 5 de Outubro de 1645”: “Setenta e cinco quintais em arroba de biscoito; vinte e quatro arrobas de bacalhau em duas pipas; setenta e duas arrobas e vinte arráteis de carne em oito barris de seis almudes; seis pipas de vinho da Canárias; um quarto de vinagre; cinquenta cestos de alhos; um cento de cabo de cebola; seis alqueires de lentilhas; um moio de favas”.
Gerido directamente pela coroa, o Complexo Real de Vale de Zebro era constituído por 27 fornos de cozer biscouto, armazéns de trigo, cais de embarque e um moinho de maré de 8 moendas – o Moinho d’ElRei, o maior da região -, além de vastas áreas de pinhal circundante.. A sua instalação deve remontar ao reinado de D. Afonso V, e era comparável a um outro existente em Lisboa, os Fornos da Porta da Cruz. Em conjunto constituíam as duas unidades régias que asseguravam o fabrico de todo o biscoito necessário aos empreendimentos marítimos da expansão e dos descobrimentos. Estas actividades exigiam grandes quantitativos de mão-de-obra.
Nesse contexto, a Coroa recorreu à importação de escravos, empregues quer no Complexo Real, quer como escravos domésticos nas casas senhoriais. Em 1553 a quantidade de escravos era tal, que existia na Igreja de Nª Sª da Graça uma «Confraria do Rosário dos Homens Pretos».
Uma fábrica de biscoutos do século XV
Esta fábrica de biscoitos situava-se nas proximidades do rio, podendo assim dispor de um moinho para a moagem do trigo e junto à mata da Machada, fornecendo lenha para manter os fornos. Os biscoutos (bis significa duas vezes e couto significa cozido) ali confeccionados, em formas de barro com um diâmetro semelhante ao de uma pizza, dariam para conservar durante várias semanas.
O biscoito era a base alimentar das tripulações na época dos Descobrimentos Portugueses. Consistia num pão de farinha de trigo, de forma achatada, cozido no forno duas, três ou mais vezes para ficar duro "duro como corno" e assim durar muito tempo. A ração diária de cada tripulante era de 400 gramas. Como o biscoito estava muito rijo para se comer, mergulhavam-no em água – fazendo uma espécie de açorda – e comiam assim ou acrescido de outros condimentos, quando era possível.
“Do rol dos mantimentos que recebeu Miguel Luiz Romeu, escrito nos Açores (Angra), datado em 5 de Outubro de 1645”: “Setenta e cinco quintais em arroba de biscoito; vinte e quatro arrobas de bacalhau em duas pipas; setenta e duas arrobas e vinte arráteis de carne em oito barris de seis almudes; seis pipas de vinho da Canárias; um quarto de vinagre; cinquenta cestos de alhos; um cento de cabo de cebola; seis alqueires de lentilhas; um moio de favas”.
Receitas de cozinha para a clausura
Para ajudar a ocupar os tempos de clausura, vou passar a deixar-vos aqui algumas receitas, enquanto espero a publicação da minha História dos Paladares. Podem fazer esta Açorda à Italiana com os vossos filhos, porque os produtos usados são fáceis de achar em qualquer cozinha. Aprendi esta receita num Curso de Culinária que fiz aos 16 anos, no Liceu D. Filipa de Lencastre:
AÇORDA ITALIANA
Ingredientes: 1 pão de forma; queijo Gruyère 150 g fatiado; fiambre 150 g em fatias; leite q.b.; ovos inteiros 2; manteiga q.b.; molho de tomate q.b.; nata 100 g.
Preparação: Unte uma forma (de preferência quadrada ou rectangular)e encha-a com fatias de pão de forma untadas de manteiga, alternando com fatias fininhas de queijo e fiambre. A primeira e a última camadas devem ser de pão que se borrifa com leite. Quando a forma estiver cheia, deite-lhe a nata batida com os ovos. Esta mistura deve penetrar bem em todas as fatias de pão. Leve ao forno em banho-maria. Quando estiver bem douradinha, retire do forno, desenforme e sirva coberta com molho de tomate.
Bom proveito!
Nota: Banho-maria é o processo de aquecer ou de cozinhar iguarias delicadas, mantendo o tacho em que se cozinham meio mergulhado dentro ou sobre outro maior com água a ferver levemente, mas de maneira que os fundos não se toquem. Pode pôr-se no forno ou directamente no lume; O mesmo processo pode ser efectuado com água fria, com o intuito de arrefecer os alimentos.
AÇORDA ITALIANA
Ingredientes: 1 pão de forma; queijo Gruyère 150 g fatiado; fiambre 150 g em fatias; leite q.b.; ovos inteiros 2; manteiga q.b.; molho de tomate q.b.; nata 100 g.
Preparação: Unte uma forma (de preferência quadrada ou rectangular)e encha-a com fatias de pão de forma untadas de manteiga, alternando com fatias fininhas de queijo e fiambre. A primeira e a última camadas devem ser de pão que se borrifa com leite. Quando a forma estiver cheia, deite-lhe a nata batida com os ovos. Esta mistura deve penetrar bem em todas as fatias de pão. Leve ao forno em banho-maria. Quando estiver bem douradinha, retire do forno, desenforme e sirva coberta com molho de tomate.
Bom proveito!
Nota: Banho-maria é o processo de aquecer ou de cozinhar iguarias delicadas, mantendo o tacho em que se cozinham meio mergulhado dentro ou sobre outro maior com água a ferver levemente, mas de maneira que os fundos não se toquem. Pode pôr-se no forno ou directamente no lume; O mesmo processo pode ser efectuado com água fria, com o intuito de arrefecer os alimentos.
PORTO EDITORA - ESCOLA VIRTUAL
Sendo o objectivo do encerramento das escolas manter as crianças e os jovens estudantes dentro das suas casas (de contrário será uma medida inútil e só ajudará a disseminar o vírus) a Porto Editora vai prestar uma ajuda, facilitando acesso gratuito à sua escola virtual. Aqui:
https://www.portoeditora.pt/noticias/covid-19-porto-editora-da-acesso-gratuito-a-escola-virtual-para-1-5-milhoes-de-alunos/163426
12/03/2020
COVID-19 A BANHOS EM CARCAVELOS
CELEBRAR O CORONA VÍRUS EM CARCAVELOS E OUTRAS PRAIAS PORTUGUESAS
Ontem, 11 de Março, quando foi declarada a pandemia do Covid-19 e continuavam as recomendações cada vez mais prementes de se evitarem ajuntamentos, com as escolas e empresas a fecharem, para as pessoas se manterem em casa em «distanciamento social», pois o número de casos duplicou, entrando já na 2ª fase de propagação, o que fizeram os lisboetas?
Foram para as praias, aos milhares, gozar o sol e o mar, «protegendo-se» do vírus com protector solar e comendo nos restaurantes apinhados, em alegre companhia. É assim que vai funcionar a quarentena dos portugueses (feita para evitar contágios do próprio e dos outros) que, em vez de ficarem em casa com os filhos, aproveitaram o facto de não irem trabalhar ou de não poderem frequentar as escolas e universidades, para irem conviver com outras centenas de chicos-espertos, nas praias, restaurantes, parques infantis, bares, etc?
Nas próximas semanas, quantas mais cadeias de infecção iremos ter à conta da inconsciência, oportunismo e falta de sentido cívico desta gente? Só porque ainda não morreu ninguém, está tudo bem? Quando houver mortos, a culpa vai ser do Governo e do SNS? Não ir trabalhar, com grande prejuízo das empresas e do Estado, é para ficar em casa, porque isso é um dos meios mais eficazes de evitar o contágio e a propagação da doença.
Por isso se fala no pagamento dos salários às pessoas isoladas. Mas os mesmos que infringiram as regras e aproveitaram as ´férias" inesperadas serão seguramente os primeiros a exigirem aos patrões o pagamento total dos salários pelo sacrifício de terem de ficar fechados em casa.
Dizem que não têm nada que fazer? Eu estou quase sempre em casa e falta-me tempo para tudo o que tenho de fazer... Aproveitem para conviver com os filhos, leiam livros - uma actividade que a maioria dos portugueses há muito deixou de praticar, infelizmente, porque ler bons livros torna-nos mais cultos, mais informados e menos receptivos às falsas notícias e imbecilidades veiculadas nas redes sociais; trabalhem em casa, vejam filmes e documentários, cultivem algum hobby, como cozinhar em família, etc.
Vejam a tragédia de Itália, em que o vírus tomou freio, graças a essa indisciplina e bruteza egoísta tão própria dos povos latinos. Ou será que só com medidas draconianas, como as que foram tomadas na China (em que prendiam ou entaipavam os prevaricadores), para que os portugueses obedeçam às leis e saibam viver em sociedade?
Viver em democracia não é fazer apenas o que nos dá na real gana, borrifando-se para os outros.
07/03/2020
Homenagem à Mulher
05/03/2020
Romance Histórico - Mesa redonda
Na sexta-feira, dia 6, pelas 16 h, no Auditório A14 do Colégio Almeida Negreiros (Campus da Universidade Nova)
Vou participar, com outros escritores, numa mesa-redonda sobre o romance histórico em Portugal: “(Re)Writing Historical Fiction and Fictionalizing History in Portuguese", no âmbito do Congresso Internacional Historical Fiction, Fictional History, and Historical Reality, da Universidade Nova (org. Rogério Miguel Puga).Os títulos estão em inglês, mas a discussão será em português.
13/02/2020
Programa do Encontro de Escritores Lusófonos
Hoje, dia 13, às 18 h, na Biblioteca Camões - Lisboa:
Programa
18.00 Recepção aos participantes.
18.15 Sessão de Abertura
Lithales Soares (Biblioteca Camões); Delmar Maia Gonçalves (Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD); Renato Epifânio (Presidente do Movimento Internacional Lusófono - MIL); João Micael (Presidente da Matriz Portuguesa); Roberto Moreno (Presidente da Fundação Geo-Língua - Brasil)
19.00 Painel 1
Deana Barroqueiro (Portugal)
Ernesto Dabo (Guiné-Bissau)
Manuela Gonzaga (Portugal)
Filipa Vera Jardim (Portugal)
Carlota de Barros Cabo Verde)
Rui Maurício (Portugal)
Carlos Reis (Portugal)
Maria Dovigo (Galiza)
Moderação: Delmar Maia Gonçalves (Moçambique)
19.30 Painel 2
Luís Ochoa (Portugal)
Luísa Fresta (Angola)
Regina Correia (Angola)
Francisco Fadul (Guiné-Bissau)
Carlos Carneiro (Portugal)
Conceição Rocha (Portugal)
Susana Bravo (Portugal)
Moderação: Filipa Vera Jardim (Portugal)
A segunda fase (após a intervenção dos autores convidados) dos debates (1,2) será aberta ao público presente.
20.00 horas Encerramento com um pequeno Cocktail (Cortesia do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora- CEMD)
Programa
18.00 Recepção aos participantes.
18.15 Sessão de Abertura
Lithales Soares (Biblioteca Camões); Delmar Maia Gonçalves (Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD); Renato Epifânio (Presidente do Movimento Internacional Lusófono - MIL); João Micael (Presidente da Matriz Portuguesa); Roberto Moreno (Presidente da Fundação Geo-Língua - Brasil)
19.00 Painel 1
Deana Barroqueiro (Portugal)
Ernesto Dabo (Guiné-Bissau)
Manuela Gonzaga (Portugal)
Filipa Vera Jardim (Portugal)
Carlota de Barros Cabo Verde)
Rui Maurício (Portugal)
Carlos Reis (Portugal)
Maria Dovigo (Galiza)
Moderação: Delmar Maia Gonçalves (Moçambique)
19.30 Painel 2
Luís Ochoa (Portugal)
Luísa Fresta (Angola)
Regina Correia (Angola)
Francisco Fadul (Guiné-Bissau)
Carlos Carneiro (Portugal)
Conceição Rocha (Portugal)
Susana Bravo (Portugal)
Moderação: Filipa Vera Jardim (Portugal)
A segunda fase (após a intervenção dos autores convidados) dos debates (1,2) será aberta ao público presente.
20.00 horas Encerramento com um pequeno Cocktail (Cortesia do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora- CEMD)
11/02/2020
Conversa com escritores lusófonos
Na Biblioteca Camões, dia 13, às 18 h.
Largo do Calhariz, 17 - 1º Esq. LisboaDeana Barroqueiro vai participar neste encontro de escritores da lusofonia em que se falará do LIVRO e da sua circulação. Um tema menos comum que, por isso mesmo, poderá ser interessante. Serão muito bem-vindos à bonita Biblioteca
18/12/2019
Deana Barroqueiro à conversa com Paulo Vahia
Duas horas de amena cavaqueira, em que se falou de tudo, sem papas na língua, dos aspectos pessoais aos temas literários e outros bem mais polémicos.
À conversa na Rádio Movimento
Fechamos a emissão desta terça-feira, dia 17 de Dezembro, com mais uma edição do “Pedra de Toque”, no ar entre as 22h00 e a meia-noite. Paulo Vahia convida a escritora Deana Barroqueiro. Vamos conversar sobre literatura e as histórias que a nossa convidada nos conta nos seus livros. Vamos também abordar as polémicas recentes em torno do seu romance, "O Corsário Dos Sete Mares".
Para ver e ouvir EM DIRECTO, agora em cinco plataformas, nos nossos canais do Facebook, YouTube, Twitch, Twitter e Mixer:
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Ainda podem ouvir-nos, apenas em áudio, no player do nosso renovado site:
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30/11/2019
1 de Dezembro de 1640 - Portugal Restaurado
Sucesso da Restauração:
«Morto o secretário e presa a duquesa no paço, era necessário fazer caucionar a nossa acção pelos três estados. Temíamos que o povo se distanciasse de nós, desconfiado de uma conjura feita por nobres, essa nobreza que o deixara desamparado, aquando dos motins de Évora e Porto, onde tanta da sua boa gente fora justiçada na forca ou condenada às galés. Era urgente trazer para as ruas esse povo, que aos primeiros rumores do golpe se tinha refugiado com medo em suas casas e nas igrejas, levando-o a aclamar Dom João. Dividimo-nos em grupos e fomos percorrer a cidade aos gritos de “Liberdade! Viva El-Rei Dom João, o Quarto!”, a que todos respondiam com muitos “Real, real por El-Rei Dom João, Rei de Portugal!”.
Eu fui, com o meu bando, buscar o senhor Arcebispo de Lisboa, Dom Rodrigo da Cunha, que estava prevenido desde a véspera e saiu logo em procissão com o seu clero, levando um padre na dianteira uma grande cruz alçada, com um Cristo. Soubemos que o Senado da Câmara estava reunido e para lá nos dirigimos, a fim de anunciar que já havia um Rei natural. Encontrámos as portas cerradas por ordem do presidente, que tomara o tumulto por um motim popular e quisera salvaguardar o palácio. Ameaçámos deitar as portas abaixo, mas, mal soube da Restauração, Dom Pedro de Meneses abriu as portas e aclamou El-Rei à janela, dando-me a bandeira da cidade para ser hasteada no Castelo de São Jorge. Podeis imaginar a minha emoção, quando montei a cavalo com ela na mão, seguido por uma multidão que começou a gritar “Milagre! Milagre!”.
A voz de Brás soa emocionada, ao declamar a oitava, contagiando-nos a todos com o seu sentimento: – Chegado em procissão à porta santa / do melhor Português, ergue influído / a vista a um crucifixo com fé tanta, / quanto está de perigos combatido, / pergunta: Se é o Rei que se levanta, / e por ele, ao primeiro prometido? / Em sinal de que o é, descrava um braço, / ditosa procissão, ditoso abraço.
– Foi assim mesmo, até parece que estiveste lá connosco! – exclama Dom Álvaro, retomando a sua narração:
«A imagem do Cristo pregado na cruz, com toda aquela agitação, soltara o braço direito e movia a mão um lado para o outro, como a abençoar-nos.
– É um milagre e obra de Deus que tenhamos rei! Viva o nosso Rei Dom João IV», bradava Dom Rodrigo da Cunha, sobre as cabeças da multidão ajoelhada.
Foi uma ajuda verdadeiramente providencial, esta bênção à nossa causa! Em Madrid disseram mais tarde que fora o próprio arcebispo que tinha desprendido o braço da imagem, para comover o povo, até aí irresoluto. Houve, todavia, uma notícia na Gazeta sobre um homem que duvidou deste milagre e a parede, junto da qual conversava com alguns companheiros, mostrando o seu descrédito, caiu-lhe em cima e matou-o.
Hasteei a bandeira no Castelo de São Jorge, depois de o tomarmos à guarnição espanhola, libertando Matias de Albuquerque e Rodrigo Botelho, conselheiros da Fazenda, que o Secretário ali fizera prender. Também no supremo Senado da Casa da Suplicação, Aires Saldanha e Dom Gastão Coutinho abriram as cadeias e deram liberdade a todos os presos que lá se achavam encarcerados por serem contrários a Castela. Os que, como eu, percorriam a cidade anunciando a boa nova – e também com o fito de impedir quaisquer desmandos do povo –, volveram ao Paço tendo deixado a cidade tão sossegada, como se aquele dia primeiro de Dezembro fosse igual a todos os outros e não o da Restauração de um reino perdido havia sessenta anos.».
– Também dei conta desse raríssimo sucesso no meu poema: Sobem graças ao Céu enquanto a terra / com lágrimas devotas se regava, / publica-se o milagre, e se desterra / o grão pavor que os peitos ocupava: / troca-se em branda paz a dura guerra, / e qual, se não passara o que passava, / teve Lisboa cheia de alegria, / dous pacíficos Reis em um só dia.
– Por último, nomeámos governadores do reino o arcebispo de Lisboa, o arcebispo de Braga (apesar da sua reconhecida fidelidade a Castela) e o visconde Dom Lourenço de Lima, enquanto Dom João não chegasse a Lisboa. Dez dias mais tarde, criámos um Conselho de Guerra, para estarmos prevenidos e tratarmos da defesa das fronteiras contra a invasão do exército espanhol que o conde-duque não tardaria em ordenar – termina, Dom Álvaro, com um suspiro fatigado, o seu longo relato.
(«1640» - de Deana Barroqueiro)
1640 - Restauração (cont.)
Defenestração de Miguel de Vasconcelos
– Não duvido de que Deus nos ajudou porque fizemos uma revolta quase sem derramamento de sangue, coisa raríssima que espantou todas as nações da Europa – diz Dom Álvaro, assim que o alvoroço sossega, retomando o fio à sua história. – Não podíamos deixar Miguel de Vasconcelos com vida, mas queríamos evitar mortes desnecessárias.« Dom António Telo entrou na Secretaria, a fim de cumprir o juramento que fizera de o matar com as suas próprias mãos, mas não achou rasto dele. Quando se preparava para prosseguir com a busca em outras salas do paço, uma escrava que, se refugiara assustada a um canto, apontou para um armário de papéis contra o qual disparou dois tiros. Ouviu-se uma restolhada e o traidor, perdida toda a arrogância e a tremer de medo, saltou de dentro como uma mola, escancarando as portas, com uma clavina engatilhada, atirando à toa, antes de cair ferido ou moribundo. Muitas mãos apoderaram-se dele e, erguendo-o no ar, defenestraram-no.
Mal o corpo caiu na praça, a regateira Brígida d’Alfama, à frente de um magote de petintais, agarrou-o pelos cabelos e levou-o de rojo para o meio da turba, que o golpeou com pedras, paus e navalhas, socos e pontapés, rasgando-lhe as roupas para levar mementos, até dele não restar senão uma massa sangrenta sem forma humana. Acabava, de modo ignominioso, o ministro prepotente que tantas vidas pisara e a tantos desdenhara, calcado a pés e cuspido de desprezos, como o mais miserável dos criminosos. Na sua escrivaninha achámos uma carta com uma denúncia da conspiração com os nomes de todos os conjurados, que ele não chegara a ler e, por isso, não tomou medidas para a fazer abortar.».
– Ele não acreditava numa revolta da nobreza e o golpe apanhou-o desprevenido – zomba Dom Rodrigo. – Da mesma arrogância comungava Olivares, achando que nos podia humilhar à sua guisa. Quando teve notícia de que perdera o reino de Portugal, foi pedir alvíssaras a Dom Filipe pela boa nova, dizendo-lhe: “Tem Vossa Majestade mais um grande Estado, dentro da Espanha, o de Bragança, para possuir ou dar, como for servido”. Queria com isto dizer, que agora já podiam dispor de Portugal como mais uma província ou coutada espanhola, porque os vastíssimos domínios do duque de Bragança passariam para a coroa, por crime de lesa-majestade. Chamaram “rei de um inverno” a Dom João, seguros de que o seu reinado só duraria uns meses.
– Pelas leis da guerra era forçoso matar a Miguel de Vasconcelos – insiste Dom Álvaro, prosseguindo com a sua narrativa. – Se o deixássemos vivo, haveria de ser causa de maior infelicidade para Portugal, que aquela que já havia causado.
«Dom Miguel de Almeida e um bom número de companheiros foram pelo interior do paço, em busca de Dona Margarida de Sabóia, achando-a junto a uma janela da Casa da Galé, muito assustada com o tumulto e a rogar ao povo que a socorresse e livrasse das mãos dos amotinados. Afastaram-na da janela com muita cortesia e, com igual decoro, impediram-na de descer para o Terreiro do Paço.
– Senhores, já estais satisfeitos e vingados com a morte do ministro culpado – arengou ela, recuperando o alento. – Ele foi castigado. Não passe adiante o furor, que não deve entrar em corações tão nobres. Prometo-vos que El-Rei perdoará a todos, vendo a obediência com que respeitais o seu serviço.
D Sebastião de Matos de Noronha, o arcebispo de Braga, irrompeu na sala a vociferar contra os conjurados. O presidente do Tribunal do Paço era conhecido por ser do partido de Castela e pelo seu génio violento.
– Peço a Vossa Reverência que se cale – atalhou Dom Miguel, num tom nada respeitoso. – Muito me tem custado livrá-lo da morte, porque os portugueses leais o tomam por traidor e já ontem à noite o queriam matar.
O arcebispo achou prudente obedecer e retirar-se em silêncio para lugar seguro, longe da vista dos homens armado. A duquesa de Mântua, vendo que a tratavam com grande acatamento, retomou a sua sobranceria e as promessas:
– Eu rogarei a El-Rei Dom Filipe pelo perdão…
Não chegou a terminar a frase, interrompida por muitas vozes:
– Já não conhecemos outro rei, senão Dom João IV.
– Aclamámos ao duque de Bragança por nosso Rei natural.
– O reino de Portugal está de novo livre e restaurado!
Dona Margarida enfureceu-se ao ouvi-los e, perdendo o ar conciliatório que usara até àquele momento, insultou-os de modo tão destemperado que Dom Carlos de Noronha lhe disse em voz dura, mais de mando que de cortesia:
– Rogo a Vossa Alteza que se retire, porque desta sorte posso perder-lhe o respeito!
– A mim? E como? – desafiou, empertigando-se.
– Obrigando Vossa Alteza, se não quiser entrar por esta porta, a sair por aquela janela.
Sentindo na voz de Dom Carlos que este não hesitaria em cumprir a ameaça, a duquesa sufocou os protestos e retirou-se com as suas damas para a capela, não sem antes ter assinado uma ordem ao governador do Castelo, para que não saísse em armas contra os revoltosos. Dom Antão de Almada montou guarda com alguns homens aos seus aposentos, para a impedir de comunicar com Madrid e dar notícia da Restauração.
(«1640» - Deana Barroqueiro)
«1640» - Preliminares do golpe
Amanhã é o Aniversário da Restauração de 1640. Eis o relato dos preliminares da revolução pela voz da minha personagem e protagonista dos acontecimentos reais:
«Quarenta confederados, não muitos para tão difícil empresa, mas assim o exigia o segredo. Cada um de nós tinha às suas ordens um punhado de parentes e amigos leais para levar a bom porto a tarefa que lhe fora destinada, porque se alguém falhasse poderia comprometer toda a missão. Reuníamo-nos, pela calada da noite e no maior segredo, nunca na mesma casa, que mantínhamos às escuras, usando apenas uma sala ou quarto interior; na rua tomávamos as maiores precauções para não levantar suspeitas, indo cada um por sua vez e embuçados, para não sermos reconhecidos. E sempre em pequeno número, para minorar o desastre se fôssemos descobertos, transmitindo em seguida as informações ou ordens aos nossos aliados e restantes conjurados.O ponto de encontro para o derradeiro lance foi o Terreiro do Paço e a hora aprazada as nove da manhã de Sábado, dia primeiro de Dezembro. O palácio, onde se alojava a Vice-Rainha e Vasconcelos tinha o seu ofício, estava protegido por uma força de alabardeiros alemães e pela guarnição castelhana do forte. Era a cabeça da hidra que precisava de ser decepada, logo de início, conquanto a surpresa jogasse a nosso favor. Esperava-nos a morte, se fôssemos mal sucedidos, e para ela nos preparámos, na véspera, uns fazendo o seu testamento, todos confessando-se e comungado com os padres, nossos companheiros.
Houve momentos de grande emoção, como aquele que presenciei na casa do falecido Luís da Silva, o comendador e alcaide-mor de Seia, quando às sete horas da manhã fui buscar os seus filhos, António e Fernão, porque, sendo assaz moços, iriam comigo para o Terreiro do Paço. Fizeram-me entrar para a capela, onde Dona Mariana de Lencastre, uma fervorosa crente na vinda do Encoberto, com varonil inteireza e procurando manter firmes as mãos que seguravam a espada, armava os dois filhos para a luta que se avizinhava, exortando-os a cumprirem o seu dever, para maior honra dos seus antepassados. Anunciou-me, com muito orgulho, que também havia mulheres patriotas que queriam participar na Restauração da Pátria, mesmo as viúvas como ela e Dona Filipa de Vilhena, a condessa de Atouguia, que na falta do marido, armara igualmente os filhos, Dom Jerónimo e Dom Francisco. Devemos muito a inúmeras mulheres, cujos nomes injustamente esquecemos. Injustiça maior não terem sido cantadas como mereciam, nem terem os seus nomes registados para futura memória, por mais cronistas e poetas da fibra de Brás Garcia».
– Que inda tem Portugal tão generosas / matronas, que não somente guardaram / segredo varonil, mas animosas / seus próprios filhos com suas mãos armaram; / imitando as antigas valorosas, / que aos maridos nas guerras ajudaram, / que brotou sempre a planta portuguesa / assombros de valor e de beleza. – recita o poeta.
– Assim mesmo, Brás, sem tirar nem pôr! Fomos chegando ao Terreiro do Paço, sós ou em pequenos grupos, a pé, a cavalo ou em coches, dispondo-nos em bandos pela praça, em lugares estratégicos, desde o Arco dos Pregos ao do Ouro, de modo a acorrer prestes ao chamado.
«Decididos a arriscar a vida pela mais nobre das empresas, sabíamos o que estava em jogo e como a responsabilidade de muitas vidas pesava nos nossos ombros, por isso o sentimento era de apreensão e temor. O que também deu azo a algumas anedotas, de que não posso deixar de vos dar um exemplo, protagonizado por alguém que todos conhecemos. Quando nos cruzávamos com algum conhecido, para sabermos se era do nosso partido, perguntávamos o santo-e-senha. Ora aconteceu que passou por nós Dom Manuel Pereira da Cunha e parou para nos falar, porém, ao ouvir a pergunta “Quem vive?”, em vez de dar a contra-senha “El-Rei Dom João IV”, respondeu num tom agastado, Quem vive? Vive minha sogra, que por meus pecados ninguém vive mais que ela! O infeliz era malcasado e vivia infernizado pela sogra, embora esperasse dela uma boníssima herança.
Ainda nos ríamos quando o relógio deu a primeira badalada das nove e João Pinto Ribeiro bradou: Ide então ali, à sala dos tudescos, a tirar um Rei e pôr outro, para logo nos tornarmos para casa! Todos vós, mesmo os que não estivestes presentes, sabeis o que então se passou. Saltámos dos cavalos e coches e corremos para o Paço, onde alguns dos nossos já tinham entrado na sala da guarda real (como se fazia, de ordinário, enquanto se esperava para ser recebido por Vasconcelos) e, em ouvindo o sino, dominaram os archeiros e os guardas tudescos, após uma breve mas renhida luta.
Houve poucos feridos de parte a parte e apenas um morto, o corregedor Francisco Albergaria, que levou dois tiros por ter gritado Viva El-Rei Dom Filipe, em resposta a Dom Miguel de Almeida, que bradava, de espada em punho e com uma força de espantar num ancião de oitenta anos, Liberdade, liberdade! Viva El-Rei Dom João o IV! A multidão ia engrossando na praça: aprendizes, oficiais e mestres de desvairados ofícios, atraídos pelo alvoroço ou convocados pelos Vinte e Quatro dos Mesteres e também pelo Juiz do Povo, gente que o padre Nicolau da Maia trouxera para a nossa causa. Dom Miguel apareceu na varanda e repetiu o grito: Valorosos Lusitanos, viva El-Rei Dom João, o quarto de Portugal, até agora duque de Bragança. Viva! Morram os traidores, que nos arrebataram a liberdade! E o Terreiro do Paço estremeceu com o estrondo dos grandes vivas dados em resposta.»
(Deana Barroqueiro - «1640»)
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