31/03/2020

Ex-ministros denunciam Bolsonaro à OMS por campanha de desinformação ��



Twitter, Facebook e Instagram também apagam publicações de Bolsonaro, mas não apagam as de Trump... PORQUÊ? 


 O Twitter foi a primeira rede social a apagar conteúdos do Presidente do Brasil relacionados com a pandemia da Covid-19. Seguiram-se, nas últimas horas, o Facebook e o Instagram, com o argumento que as regras excluem publicações em que a "desinformação que possa causar danos reais às pessoas".

 Em causa está um novo vídeo de Jair Bolsonaro, no qual o Presidente brasileiro conversa com um vendedor ambulante de Taguatinga, nos arredores de Brasília. “Conversei com as pessoas e elas querem trabalhar. É o que eu disse desde o início. Vamos tomar cuidado, as pessoas com mais de 65 [anos] devem ficar em casa”, bradou Bolsonaro.

 Outra das ideias propaladas pelo Presidente foi a de que a cloroquina, fármaco utilizado para tratar a malária, “está a funcionar em todos os lugares”, algo que ainda carece de validação científica.

 A pandemia da Covid-19 já fez 159 vítimas mortais no Brasil. Há registo de pelo menos 4579 infectados. Ex-ministros da saúde lançaram um manifesto repudiando as declarações de Jair Bolsonaro minimizando a pandemia do novo Coronavírus.

30/03/2020

Confinamento nas "Caravelas de Descobrir"

No meu romance "O Navegador da Passagem" - Bartolomeu Dias (há muito esgotado), descrevo um outro tipo de confinamento, o das caravelas e naus de descobrir, as "gaiolas ou prisões do mar", como eram então chamadas, em que se viajava por mares desconhecidos, por vezes quase uma ano, como na odisseia da descoberta do Cabo das Tormentas/Boa Esperança.
Aqui vos deixo a descrição do que acontecia quando chegavam às costas da Guiné, com as calmarias.

 O Navegador da Passagem:

       «O marinheiro gritou a alta voz a saudação da manhã:
       – São oito horas. Deus nos dê os bons dias. Boa viagem faça a caravela, senhor capitão, mestre e toda a companhia. Ámen.
       Os quartos de vela começavam a ressentir-se com as baixas dos marinheiros e grumetes, aquando da rendição às quatro, oito e doze horas, de manhã e em iguais turnos depois do meio-dia, dividindo-se os homens da tarde em dois grupos que alternavam com as noites, tendo cada tripulante e oficial de servir dois quartos de vela de quatro horas cada um. O pessoal que estava de serviço ao nascer do sol, antes de ser rendido, baldeava as pontes com água do mar, tarefa repetida pelo turno das quatro da tarde, e os que vinham mais frescos punham-se à bomba, para escoar a água que nunca secava e acabava por apodrecer, tornando mais intenso o fedor na caravela.
       Na derrota da Guiné, os alísios do nordeste tinham sido substituídos por uns ventos caprichosos e imprevisíveis que assolaram o mar com tornados e ondas altíssimas, sacudindo os três navios como madeiros à deriva, para logo cessarem tão subitamente como haviam começado. Era todavia um sossego enganador, escondendo perigos invisíveis, com a pequena frota a navegar às cegas através de um denso nevoeiro, imobilizando-se por fim numa grande calmaria, quente como fornalha.
       Bartolomeu Dias achava-se já na amurada do lado da proa, quando Pêro de Alenquer surgira na coberta com um matalote que lhe transportava a caixa do astrolábio e fora postar-se junto ao mastro principal a fim de evitar os balanços da caravela enquanto tomava a altura do sol. Sabia que ele preferia executar aquele trabalho em terra onde era possível manter o aparelho imóvel e obter uma medição mais correcta, mas não fariam escala antes de S. Jorge da Mina e o mar com aquela calma parecia um lago de águas mortas.
(...)

Os homens padeciam do mal das calmarias, como lhe anunciara o barbeiro, uns com febres e outros com bostelas pela testa, moléstia frequente naquela costa. Não era difícil que o mal se pegasse aos matalotes de toda a armada, posto que, durante os períodos de imobilidade da frota, os batéis andavam cá e lá entre os três navios para os homens confraternizarem e tomarem algum desenfadamento. Sem demora mandou aviso a todos os oficiais para lhe virem prestar contas das suas dificuldades e necessidades.
       – Na S. Pantaleão – queixou-se João Infante, muito agastado – a água tem gusanos e fede que nem tapando o nariz se adrega a beber.
       – Ao passar a linha, danou-se grande parte dos alimentos – confirmou Diogo. – Andei com o despenseiro a ver dos estragos e tanto as carnes salgadas como as secas estão corruptas, o azeite, a manteiga, a marmelada e o mel fervem como se estivessem ao fogo, de mesmo fermentaram as passas e os figos que levávamos para os enfermos.
       – E o bichedo que ali se cria, por via da corrupção das viandas com esta calma, é tanto que até parece as pragas do Egipto – acrescentou João Álvares, o mestre da naveta das provisões, apoiando o seu capitão.
       – Nós também não vamos mal servido deles – disse mestre João Grego da S. Pantaleão.
        – Nem nós, tão-pouco! – apressou-se a dizer António Leitão, para mostrar que a nau capitânia não gozava de privilégios especiais ou de melhores grumetes. – E com os homens a adoecerem, uns após outros, não podemos fazer a baldeação e lavagem com vinagre do porão, pois não temos assaz de gente com forças para trazer a carga para a ponte.
       Os porões dos três navios, onde se armazenavam os víveres, principalmente o da naveta pela grande quantidade de alimentos que transportava, em nada se distinguiam já da aterradora ideia que os matalotes faziam das profundezas do inferno e cada descida ao bojo das caravelas era um calvário de sofrimento. As fezes e urina dos coelhos, galinhas e carneiros vivos, metidos em gradados e capoeiras, mas também dos homens que, apesar das proibições, bastas vezes ali se aliviavam, empestavam o ar e serviam de viveiros a enxames de piolhos, pulgas, percevejos, baratas e ratazanas.
       – O guardião só à força de castigos e pancada faz entrar lá os grumetes, para alguma limpeza, pois saem cobertos de bichos e infestam o navio.
       – Água, para lavar roupas, conveses ou porões, só a do mar, mestre Leitão – recomendou Bartolomeu Dias. – Mesmo corrupta, não se pode desperdiçar, pois não sabemos quando chegaremos à Mina para a aguada. »

 Nota: O quarto da alva, das quatro às oito da manhã.
(O Navegador da Passagem - Deana Barroqueiro)

OS CROMOS DO CORONAVÍRUS: KIM JONG-UN

OS CROMOS DO CORONAVÍRUS: KIM JONG-UN

A Coreia do Norte sem coronavírus? Oficialmente, sim. Mas as dúvidas são muitas. Apesar de ser o país mais isolado do mundo, a Coreia do Norte faz fronteira e tem contactos com a China, onde o coronavírus surgiu há cerca de três meses.

O discurso do regime de Pyongyang garante a inexistência de ocorrências. Contudo, as medidas de contenção sugerem que “as autoridades sabem que há casos e que o país corre grandes riscos”, alerta um professor de Estudos Coreanos da Universidade de Londres. Coreia do Norte ainda não registou qualquer caso de infeção com o coronavírus Covid-19, pelo menos a acreditar nas informações oficiais.

A imprensa na vizinha Coreia do Sul e nos EUA tem reportado múltiplas suspeitas de casos, cuja confirmação não seria de estranhar tendo em conta que o país faz fronteira com a China, o epicentro do vírus. Nos últimos dias, as autoridades de Pyongyang selaram fronteiras, fecharam embaixadas, mandaram pessoal diplomático de volta para os seus países, suspenderam o turismo e encerraram muitos locais públicos e todas as escolas.

A revista “Foreign Affairs” escreveu na semana passada que “a Coreia do Norte está extraordinariamente impreparada para uma emergência médica desta magnitude”, com “um sistema de saúde em ruínas” e “sedento de investimento público”. Numa altura em que o número de mortos em todo o mundo ultrapassou os 4.700, a Coreia do Norte “está indiscutivelmente mais vulnerável a um surto viral deste tipo do que qualquer outro país do mundo”, sublinha a publicação num artigo que alude ao “maior teste” que o líder do regime, Kim Jong-un, enfrenta até à data.
(JORNAL EXPRESSO)
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NÚMEROS NEGROS (MENOS NEGROS?)

COVID-19: PORTUGAL HOJE, 30 DE  MARÇO

OS NÚMEROS NEGROS (MENOS NEGROS?)
Nas últimas 24 horas houve mais 21 mortes em Portugal por Covid-19. No total há registo de 140 vítimas mortais, de acordo com o último relatório de situação publicado esta segunda-feira pela DGS, pouco depois das 12.00 h.

 CÔMPUTO GERAL DOS DADOS DISPONIBILIZADOS
Há 6.408 pessoas infectadas e 4.845 aguardam resultados laboratoriais. Houve um aumento de mais 446 casos confirmados face a domingo, o que representa uma variação de 7,5%.
Do total de infectados 571 pessoas estão internadas, das quais 164 nos cuidados intensivos. A grande maioria está a recuperar em casa.

 A região Norte continua a ser a que regista maior número de mortos (74), seguida da região Centro (34) e da região de Lisboa e Vale do Tejo (30) e depois o Algarve, com duas vítimas mortais. Sobre as 140 mortes registadas, 85 tinham mais de 80 anos, 31 tinham idades entre os 70 e os 79 anos, 16 vítimas tinham idades entre os 60 e os 69 anos, seis entre os 50 e os 59 e dois óbitos ocorreram no grupo etário entre os 40 e os 49 anos.

Os concelhos onde há mais casos confirmados são o Porto, Lisboa, Vila Nova de Gaia, Maia, Matosinhos, Gondomar e Ovar. É por isso o Norte que continua a registar o maior número de infecções (3.801), seguindo-se a região de Lisboa e Vale do Tejo (1.577 casos), a região Centro (784), o Algarve (116) e o Alentejo (45). Na Madeira há registo de 44 casos e os Açores têm confirmados 41 casos. Há nesta altura 11.482 contactos em vigilância pelas autoridades. Em relação aos casos de infecção, a faixa etária mais afectada é a dos 40 aos 49 anos, seguida dos 50 aos 59, dos 30 aos 39 e dos 60 aos 69 anos.

27/03/2020

OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: BORIS JOHNSON

Das asneiras do Brexit às da infecção colectiva para tornar os ingleses imunes, deu o dito por não dito, mente e desmente-se, sem pingo de vergonha! Foi infectado, por ironia do destino.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está infectado pelo coronavírus, anunciou nesta sexta-feira o próprio no Twitter. Johnson fez o teste depois de ter sintomas leves, já está em isolamento profiláctico e promete continuar a liderar a resposta do Governo durante a crise pandémica de covid-19.

O ministro da Saúde, Matt Hancock, também está infectado. “Desenvolvi nas últimas 24 horas sintomas leves e testei positivo para coronavírus”, escreveu no Twitter o primeiro-ministro. “Estou agora em isolamento, mas continuarei a chefiar a resposta do Governo por vídeo-conferência à medida que combatemos este vírus. Juntos vamos derrotá-lo”.

OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: O Ministro das Finanças Holandês

Em tempo de crise global, em vésperas de uma recessão económica a que ainda ninguém adivinha a dimensão e em plena pandemia em Portugal, “repugnante” não é palavra que se queira ouvir a um primeiro-ministro. Mas assim foi no final da reunião de ontem do Conselho Europeu.

Wopke Hoekstra, ministro das finanças holandês, terá dito esta semana que “a comissão europeia devia investigar países como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus, apesar de a zona euro estar a crescer há sete anos consecutivos”.

E António Costa não gostou de ser confrontado com as declarações. "Esse discurso é repugnante. Ninguém está disponível para ouvir o ministro das Finanças holandês a dizer o que disseram em 2009, 2010, 2011.  Não foi a Espanha que importou o vírus. O vírus atinge a todos por igual. Se algum país da UE acha que resolve o problema deixando o vírus à solta nos outros países, não percebeu bem o que é a UE", disse. Também não percebeu bem o coronavírus.

E o que saiu da reunião entre chefes de governo? Pouco ou nada de conclusivo. Apenas a noção de que quatro países resistem às 'coronabonds' - Holanda, Alemanha, Finlândia e Áustria – e que, eventualmente, mais do que nunca, a desunião entre países europeus pode resultar num desfecho, tragicamente “repugnante”.

(Jornal Expresso)

Palavras de ministro são ″repugnantes″? Governo holandês vai ...

OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: TRUMP


“Para que precisam de 30 mil ventiladores”, pergunta Trump, que duvida do número de infecções nos EUA “Tenho a sensação que em muitas áreas estão a anunciar números maiores do que na realidade vão ser”, disse Trump à Fox News.

Os Estados Unidos tornaram-se, na quinta-feira à noite, o país com maior número de casos registados de covid-19 - neste momento são 85.991 as pessoas infectadas com o novo coronavírus. Porém, pouco depois da divulgação deste dado, o Presidente Donald Trump criticou os governadores dos estados e questionou os pedidos de material médico.

Na entrevista de quinta-feira à noite à Fox, o Presidente dos EUA foi mais longe e duvidou da necessidade desse material. “Eu não acredito que precisem de 40 mil ou 30 mil ventiladores”, afirmou. Uma crítica directa ao governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, que disse que essa era a necessidade deste estado perante o aumento de número de casos e o risco para a vida dos cidadãos.

“Sabem, quando se entra num grande hospital vemos que eles têm dois ventiladores. Agora, de repente, estão a perguntar ‘podemos comprar 30 mil'?”, disse Trump, que foi também duramente criticado por Cuomo pela sua atitude perante a doença que já matou 24.007 pessoas e todo o mundo, e 1178 nos EUA, segundo o mapa interactivo da Universidade Johns Hopkins​.
(Jornal Público)
Trump diz que conclusões de relatório comprovam sua 'total ...

Receita de cozinha para quarentena 5

Bolo Virado de Ananás e Nozes (a minha receita inglesa) 

 Ingredientes: Manteiga 125 g: açúcar 125 g; ovos 2 inteiros; farinha 150 g; fermento em pó 1 colher de chá; leite 3 colheres de sopa; baunilha algumas gotas; nozes e passas a gosto. Para forrar a forma de 20 cm de diâmetro: Açúcar mascavado 50 g; Manteiga 50 g; Ananás ou abacaxi às rodelas, fresco ou de lata. 

Preparação: Prepare a forma com antecedência, derretendo nela a manteiga e espalhando-a pelo fundo, que se cobre com o açúcar mascavado, como um tapete, sobre o qual se dispõem as rodelas do ananás, segundo a imaginação de cada um, meias nozes e passas. 

Massa: Bata o açúcar com a manteiga até obter um creme branco e macio. Bata bem os ovos inteiros, à parte, e junte-os à massa, a pouco e pouco, com muito cuidado, batendo sempre energicamente para a massa não talhar (se estiver em perigo, pode misturar um pouco de farinha para unir). Misture na massa, com cuidado, a farinha peneirada com o fermento, alternadamente com o leite a que juntou a baunilha. Acrescente as nozes e passas a gosto. Deite a massa na forma, sobre o tapete de manteiga e açúcar, com muito cuidado, alisando a superfície. 
Leve a cozer em forno moderado (Gás 4 ou 180º), cerca de 40 minutos. Vire-o sobre um prato de serviço, enquanto quente.

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OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: BOLSONARO

"Itália é como Copacabana..." E é gente como esta - Bolsonaro, Trump e afins - que governam milhões de pessoas!

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, comparou Itália a um bairro de Copacabana e desvalorizou a quantidade de mortes que o país europeu tem sofrido devido à pandemia de coronavírus.

Bolsonaro disse, na semana passada e em declarações aos jornalistas, que há um velhinho ou um casal de velhinhos em cada apartamento de Itália e normalizou as mortes que a Covid-19 está a fazer no país.

O presidente brasileiro disse ainda que as mortes no Brasil associadas ao coronavírus estão a atingir pessoas com outras patologias e que não pode haver "histeria" por causa da pandemia.

NOVA PÉROLA DO CROMO BOLSONARO: 
"Brasileiro pula em esgoto e não acontece nada", diz Bolsonaro em alusão a infecção pelo coronavírus.
Para presidente, "muita gente já foi infectada" e por isso, segundo ele, adquiriu anticorpos que ajudam #a não proliferar isso daí". Ele pretende usar hotéis ociosos para isolar idosos.

Vídeos em: https://www.record.pt/multimedia/videos/detalhe/bolsonaro-compara-italia-a-bairro-de-copacabana-e-desvaloriza-mortes-por-coronavirus
e
https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/26/brasileiro-pula-em-esgoto-e-nao-acontece-nada-diz-bolsonaro-em-alusao-a-infeccao-pelo-coronavirus.ghtml

23/03/2020

Camões e a Grande Peste de 1569

O flagelo da Peste Negra era uma constante ameaça dos povos, durante a Idade Média e épocas seguintes. Em 1569, a Grande Peste matou 60.000 pessoas só em Lisboa. Luís de Camões regressou da Índia, nesse ano, um episódio que recrio no meu romance "D. Sebastião e o Vidente", de que transcrevo parte do Cap. 47, para quem tiver paciência de me ler possa ver as semelhanças: 

Cap. 47

      «Quando a nau Santafé surgiu no porto de Cascais, tanto os tripulantes, como os passageiros sentiram o medo nos gestos das gentes que se azafamavam nos cais ou faziam serviço nos botes, que iam e vinham entre os molhes e os navios fundeados ao largo, a transportar mercadorias e viajantes. 
     – Que se passa? – perguntou Luís Vaz aos amigos que encontrou na coberta, debruçados na amurada a falar com os tripulantes de uma barcaça. Trazia ainda o rosto marcado pela dor da inesperada morte do poeta Heitor da Silveira, seu grande amigo e companheiro de viagem, cujo coração não resistira à emoção de avistar a pátria. 
     – É a Peste Grande, pesar do Diabo! – respondeu-lhe Diogo de Couto, o cronista, com uma ruga de profunda preocupação a vincar-lhe a testa. – Matou mais de metade da população de Lisboa! 
Duarte de Abreu acrescentou: 
    – E dizem-nos aqueles dois que é um perigo entrarmos na cidade, pois a pestilência ainda causa mortes. Na zina do furor, ceifou por dia quinhentas a seiscentas pessoas! Deixou de haver sítio e gente para enterrar os mortos. 
     – Mau pecado! Assim, tão cedo não poderei imprimir os meus Lusíadas! – exclamou, com profunda mágoa, fazendo sorrir os companheiros apesar da gravidade da catástrofe. 

*** 
     Afligidos pelo seu sofrimento, haviam-lhe pagado as dívidas, a passagem e o fato para regressar a Lisboa, onde os esperavam a desolação e a morte. Por isso, não era de admirar que o seu primeiro pensamento fosse para Os Lusíadas, único tesouro, salvo a duras penas, durante um naufrágio em que perdera todos os seus bens, incluindo a formosa escrava que lhe adoçava o desterro. O desastre valera-lhe uma acusação de fraude, com o dinheiro dos órfãos, pela qual teria de responder na justiça.
       – Terás de te quedar em Lisboa, apesar da peste, enquanto esperas pelo julgamento – lembrou Couto, preocupado. – Trataremos de mover influências para que se faça depressa justiça e te vejas absolvido e livre de falsas acusações. 
     Uma sombra perpassou pelo rosto do poeta, desfigurado pela perda do olho em Ceuta. 
     – A troco de descansos que esperava, / das capelas de louro que me honrassem, / trabalhos nunca usados me inventaram / com que em tão duro estado me deitaram! 
     Os amigos concordaram em silêncio, admirando a arte com que aquele génio, tão humilhado e desprezado, esculpia os versos atormentados da sua dor. 
     Diogo de Couto despediu-se e partiu para Almeirim, a fim de solicitar a el-rei licença para a nau poder entrar no Tejo e nos portos de Lisboa, encerrados por causa da peste. 
     Recebida a autorização real, o navio lançou âncora ao largo do Cais da Ribeira e os passageiros embarcaram nos escaleres que os levaram para terra. Sem o buliçoso fervilhar dos matalotes, estivadores e mariolas, Luís Vaz teve dificuldade em reconhecer, nos desolados molhes, o porto da capital portuguesa, centro de um riquíssimo comércio e destino final de inúmeros navios da Europa, da Carreira da Índia ou das Terras de Vera Cruz, comummente designadas por Brasil. 
     – Para onde ides agora? – perguntou-lhe Luís da Veiga. – Tendes pousada? 
     – Irei para casa de minha mãe, Ana de Sá. 
     – Acautelai-vos, Luís – falou António Serrão, sabendo que nada fazia recuar o poeta, nem mesmo o medo da morte. – Tratai de vos resguardar dos maus ares desta peste. Lembrai-vos d’Os Lusíadas! 
     Seguido pelo fiel escravo jau, que lhe transportava o modesto fato, Camões dirigiu-se para a sua antiga casa, na Calçada de Santana, atravessando a zona da Ribeira, outrora enxameada de gente – com os seus mercados, as tavernas e hospedarias, as tendas de malcozinhado, onde comera tantas vezes antes da sua partida para a Índia –, agora deserta e sem vida. Nas estreitas ruas e vielas, os prédios silenciosos, sem vizinhas às janelas nem roupas penduradas nas cordas, pareciam ameaçar os raros viandantes com as terríficas cruzes brancas pintadas nas portas, indiciadoras da passagem mortífera do Quarto Cavaleiro do Apocalipse. 
     Um físico, precedido de dois ajudantes empunhando archotes acesos, meteu-se num beco para dar passagem a Camões e poupá-lo ao perigo de contágio, pois a peste manifestava-se agora por outros sintomas mais perigosos do que os bubões, atacando os pulmões e o sangue, propagando-se com a velocidade de um raio. 
     O médico segurava numa das mãos a esponja embebida em vinagre, destinada a purificar o ar que respirava, usava a máscara de bico comprido, cheio de substâncias aromáticas, os vidros redondos sobre os olhos, para evitar a transmissão do mal pelo olhar dos enfermos, a veste violeta e o bastão vermelho de S. Roque que o mostravam à população como Mestre da Peste. O poeta agradeceu e cortejou-o à passagem, sentindo admiração pelo físico que, ao contrário de muitos outros, não fugira da cidade, nem abandonara os doentes à sua sorte. 
     – Luís Vaz, que fazes aqui, nesta terra desventurada? 
     O homem magro, de roupas sujas e desalinhadas, saíra de uma das casas e parara diante dele, olhando-o com espanto. Tinha o rosto macilento, parecendo um morto-vivo, e Camões não o reconheceu. 
     – Sou o Gonçalo Fernandes, o mestre de escrita de Trancoso. Não me reconheces? – Não havia alegria nem calor na sua voz. – Também não é para admirar, com tudo o que passei... 
     Gonçalo Fernandes de Trancoso, o homem que gostava de escrever "histórias de proveito e exemplo"! Nem parecia o mesmo e o poeta mentiu: 
     – Como não havia de te conhecer, homem?! Mas acabo de chegar da Índia e ainda não me recompus do abalo de ver Lisboa em estado de sítio. Graças a Deus que te encontro são e vivo, meu amigo! 
     – Preferia mil vezes a morte ao castigo que Deus me deu! – revoltou-se, e as faces afoguearam-se de vermelho, que as lágrimas grossas depressa descoloriram. – A peste roubou-me em poucos dias uma filha e um filho moços, um neto e, por último, para meu maior desespero, a minha adorada mulher. Vai-te daqui, homem, enquanto é tempo. Eu fico, que ando a buscar a morte. 
     Cheio de mágoa, ficou a vê-lo afastar-se, correndo, com o olhar perdido de um louco. Os sinos dobravam em sinal de luto e só os condenados, com vestes de bocaxim, a arrastar as suas grilhetas, se viam nas ruas transportando em carroças os empestados para o hospital e casas de saúde ou os cadáveres para as enormes valas comuns, onde se chegavam a enterrar sessenta corpos na mesma cova. 
     Tal como acontecera em outros anos de peste negra, estes criminosos, a quem os reis ofereciam o perdão em troca de tão perigoso serviço, não deixariam de se aproveitar da função para assassinar e roubar os moribundos que achassem sozinhos dentro das suas casas. O poeta tapou a boca e o nariz com um lenço, para evitar o cheiro a pestilência e morte, que lhe revolvia as entranhas, entontecendo-o de mareio.»

Deana Barroqueiro – D. Sebastião e o Vidente


18/03/2020

Receita de Cozinha para Quarentena 4

QUARENTENA COM DOÇURA 
Permite fazer uma parte de véspera e é delicioso! 

Creme fofo de Ananás 

Ingredientes: 
Para o creme: Leite 5 dl; açúcar 200 g; ovos: 3 gemas separadas das 3 claras; farinha Maizena para engrossar 1 c. de sopa; ananás ou abacaxi às rodelas, fresco (ou de lata, mas o fresco fica melhor), escorrido e em pedacinhos; raspa de 1 limão. 
Para o Chantilly: natas 125 g; açúcar em pó (Icing Suggar) 100 g (menos é melhor para a saúde); baunilha umas gotas. 

Preparação do Chantilly: Bata as natas com o açúcar (que deve ir juntando aos poucos) até engrossar e “fazer estrada”, ou seja, riscos no creme, mas com cuidado para não bater demasiado e fazer manteiga). No fim, junte umas gotas de baunilha e ponha no frigorífico. 

Preparação do creme: Pode fazê-lo de véspera e deixar no frigorífico. Num tacho médio, leve a lume brando a mistura do leite com o açúcar, as gemas, a farinha Maizena; vá mexendo sempre até engrossar. Deve ferver suavemente e apenas 2 ou 3 minutos. Tire do fogo e junte raspa de um limão e deixe arrefecer um pouco; deite o creme na taça de vidro onde será servido e meta no frigorífico para ficar bem frio. 
Cerca de meia hora antes de servir, misture no creme, com mil cuidados, as claras batidas em castelo bem firme, espalhando por cima os pedaços do ananás escorridos. Cubra este preparado com as natas batidas com o açúcar (Chantilly) 

Bom proveito!

A Criação do Mundo e os Portugueses

Das "Crónicas de Monções e de Marés:  A Criação do Mundo e os Portugueses  
A "professora-sibila" tem uma visão da criação do Mundo e profetiza o papel dos portugueses e dos Descobrimentos nesse Universo.

O FOGO E A ÁGUA

No início…
…as Moiras, ao fiarem desleixadas o destino da Sibila, emaranharam de nós cegos o fio da sua vida. Para sempre preso ao Tudo e ao Nada, o ser da pitonisa nunca encontrou paz ou equilíbrio, mas viveu cada momento com nervos e linfa de mil vidas. 

À medida que o Tempo ia mordendo de sombra os olhos da Sibila, mais clara e profunda se tornava a visão da sua mente. Via agora para além da realidade próxima e, através da opacidade tranquilizadora dos corpos, penetrara nas fráguas e abismos da alma humana. 

A profetiza abrira a caixa de Pandora e chorava a perda da inocência. De si já nada tinha. Como a esponja do mar, absorvera gotas de memória, espumas de sentir, sal de risos e sargaços de agonia. Quando falava, as palavras já não eram as suas, eram vozes roubadas às divindades mortas e a pitonisa sentia como Cassandra o vazio dos seus oragos. 

Amara o mundo e quisera partilhar com ele o dom da sua visão, mas aos olhos dos outros apenas trazia o estigma da loucura que provocava o riso ou a piedade. Ferida, buscara a solidão do mundo das sombras e, da sua descida aos Infernos, a Sibila renascera como um ser crepuscular, cujas visões pressagiavam Dor e Desastre, pois a luz pura de Apolo cedera lugar à chama negra de Hades . 

O Cabo, batido por ventos e marés, ferido no guincho das gaivotas, era o santuário onde, a cada Poente, a Pitonisa recebia o dom pavoroso da Visão. Quando o sol baixava à linha do horizonte, a Vidente fitava sem pestanejar a bola de fogo cada vez mais próxima, até os olhos se lhe incendiarem de dor. 

Cerradas as pálpebras, a negra película da retina explodia num Caos de cores: os ocres, verdes e castanhos de Terra; os vermelhos, laranjas e amarelos de Fogo; os azuis e cinzas de Água; e a insustentável transparência do Ar fundiam-se, para fluir ou refluir em amálgamas de tons e de matérias. A Fénix renascia das cinzas e o Universo tomava forma aos olhos da Sibila. 

Primeiro separavam-se as duas faces das Trevas do Mundo _ Nyx, a Noite e o irmão Érebo, o escuro Mundo dos Infernos. A Pitonisa via a Noite tornar-se côncava, o óvulo primordial fecundado pela força espiritual de Eros, o Amor, para criar Urano, o Céu infinito, e Geia , a Terra geradora de vida. Depois Urano cobriu Geia para nela gerar os seis pares de Titãs, as forças elementares e naturais do Universo. 

O Titã Oceano, a água primordial que rodeia o Mundo, tomou assento a Oriente, no país vermelho das ilhas da Tarde, para lá das Colunas de Hércules, no Mar Roxo ou além do Golfo Pérsico. Uniu-se a Tétis, a caprichosa energia feminina dos mares do Ocidente, vivendo ambos uma relação de tumultos e reconciliações, salvaguardando a ordem do mundo e preparando as rotas dos mares para futuros navegadores. 

A Sibila, no seu transe, viu surgir Hélios, o Sol, Selene, a Lua e Eos, a Aurora para iluminar o caminho dos viajantes, mas também Arges, a luz do relâmpago, Esteropes, as nuvens da tempestade e Brontes , o ronco do trovão, para semear de mistério e terror o esteiro dos navegantes. Depois vieram Zeus, Hades e Posídon e jogaram aos dados a partilha do Universo: para Zeus, senhor do raio que fulmina, ficaram o Olimpo e as zonas celestiais; para Hades, senhor do capacete invisível da Morte, as regiões subterrâneas e o reino dos Mortos; a Posídon, senhor do tridente que abala a terra e as águas, coube o domínio dos Mares. 

Cansados da harmonia do Universo, os deuses divertiram-se a criar os homens. Moldaram uma nova raça de criaturas à sua imagem, mas os bonecos de barro, embora animados, não deixaram de ser bonecos e continuaram de barro e a Sibila estremeceu no horror da sua vivência. Mas Prometeu, o mais generoso dos Titãs, roubou a chama divina do Olimpo e deu-a aos homens para que, no futuro, pudessem desafiar os deuses. E os homens dominaram o Fogo e sentiram-se mais perto do Céu, mas os deuses coléricos com a ousadia infligiram à raça humana os mais terríveis castigos, lançando contra ela a fúria dos elementos. 

Agora a Pitonisa tinha olhos de água e espumas, corpo de areia ao sabor de marés e monções, ouvidos de búzio com gritos de gaivotas e gentes. Arrastada pela força das correntes, estranhava aqueles mares escavados de abismo e remorso. Não havia neles o brilho esmeralda do Egeu, o ónix irisado do Jónico, o safira do Adriático ou o lápis-lazúli do Tirreno. Estes eram turvos e espessos como mosto de sargaços, fechando-se em sudários de tons baços de hematite, ágata sombria ou ametista sangrenta. 

Nuvens de tempestade cegavam mar e terra, ondas erguiam-se como penhascos e os ventos contrários lutavam entre si, esgaçando velas e mastros e as vestes da Sibila. Euros lançava do Este uma bafagem maléfica e doentia contra os tornados e furacões com que Noto, o vento Sul, tentava derrubá-lo e Bóreas estendia do Norte os seus dedos de gelo para estrangular na garganta de Zéfiro, o vento do Oeste, a fúria desatada do seu fôlego. 
A Sibila era um escolho no jogo das monções. Búzios sopravam por sobre as ondas o grito prolongado e lúgubre dos seus avisos e medos ancestrais gelaram o coração da Vidente. A água tinha um sabor a sal e sofrimento, cristais de vidas evaporadas, consumidas em sonhos desfeitos, inquietudes de alma e miragens de Infinito. 

A Vidente deixou-se embeber do espírito das águas, memória líquida dos Oceanos, e chamou a si imagens de Argonautas perdidos, de Ulisses astuciosos, de Eneias buscando uma nova pátria, fábulas imortais de glória e castigo. Mas a Visão trouxe-lhe uma multidão anónima de seres partindo em busca das terras do Sonho, do Prazer e da Fama, para percorrer as rotas do Medo, da Dor e da Morte. 

A Sibila sentia-se impregnar de terrores e heroísmos obscuros, devoções sublimes e paixões mesquinhas, humildes e nobres sacrifícios. Peões miseráveis no Xadrez dos deuses, ao sabor do lance e da jogada, sacrificados ao Rei e à Rainha, movidos no interesse do Bispo, derrubados sob as patas do Cavalo ou esmagados nos assaltos à Torre, deixaram não o nome mas a marca das suas vidas, pelos mundos repartidas em sangue, sémen, suor e lágrimas. 

A Sibila mergulhou mais fundo no abismo do Tempo e recordou… 

Deana Barroqueiro. 1998 

(Em 1998, a minha visão piorou, com o descolamento do vítreo e eu tive de exorcizar o meu terror da cegueira e os meus exorcismo e terapias são sempre a escrita) 

Receita de Cozinha para Quarentena 3

QUARENTENA - Receita para os que se amam: 

Bolo de Namorados 
Ingredientes
9 c. de sopa de leite; 9 c. de sopa de açúcar; 9 c. de sopa de farinha; 3 c. de sopa de manteiga; 2 ovos; 1 c. (chá) de fermento. 
Preparação 
Bata muito bem o açúcar com a manteiga, até obter um creme branco; sempre a bater junte-lhe as gemas e o leite aos poucos e com muito cuidado para não talhar (se começar a talhar, junte-lhe um pouco da farinha em continue a bater). Adicione então a farinha peneirada com o fermento e, por fim, as claras batidas em castelo. Leve ao forno em forma bem untada, durante cerca de 25 minutos.

Comam-no namorando!


Esconjuro dos medos

"Crónicas de Monções e de Marés" Neste tempo de doença e morte, cabe bem o meu poema que introduzia os contos dos alunos, ilustrados com pinturas pelos próprios ou por colegas de Artes. Eram 12 contos, de 12 heróis que correspondiam a 12 mitos e 12 desastres ou tragédias:

Lengalenga dos Medos 

Em dias de nevoeiro, 
Em noites de lua cheia, 
Junto ao Cabo Carvoeiro 
As bruxas tecem a teia, 
Ao som do velho pandeiro 
Cantam sua melopeia: 
Doze horas tem o dia, 
Outras doze tem a noite, 
Sol e Lua dão magia, 
Ouro e prata a quem se afoite.
Na gruta medonha e fria 
E entre os monstros se acoite. 
Doze meses tem o ano, 
Zodíaco doze signos, 
Neste mapa portulano 
Doze desastres malignos, 
Doze heróis no Oceano 
Encontraram seus destinos. 
As bruxas vão remexendo 
Num caldeiro a fumegar, 
Suas rezas remoendo 
Maus filtros de enfeitiçar 
Nas mezinhas vão metendo 
Terra, Fogo, Água e Ar. 
Vinte e quatro diabinhos 
(Doze mais doze a somar) 
Fazem feitos tão maninhos 
Nesta gruta de espantar 
Qu’ os pobres dos marujinhos 
Foram todos naufragar. 
Fortes monções vão sofrendo 
Com as marés a voltear 
Doze contos vão tecendo 
Suas mortes d’assombrar 
Tantos mares percorrendo 
Sem um porto onde arribar. 
Outros seis diabos chegam, 
As penas são a dobrar, 
Na caverna todos pintam 
Malefícios de abrasar 
E os que no mar navegam 
Nunca mais se hão-de salvar. 
A Ursa tem sete estrelas, 
Outras cinco o Cruzeiro, 
Indicando duas delas 
Os Pólos, ao marinheiro 
Que de noite espera vê-las 
E seguir o seu roteiro. 
Mas as bruxas fazem meia 
Com feitiços de luar 
E o canto da sereia 
Já se ouve em alto mar, 
Contra os baixios d’areia 
Lá vão as naus soçobrar. 
Tantos homens perdidos 
E donzelas por casar! 
Tantos lares destruídos 
E órfãos para criar, 
Quanta mulher sem marido 
Fica pela vida a chorar! 

Deana Barroqueiro, 1998

ESCRITA CRIATIVA SEM DAR POR ISSO

Há mais de 20 anos, na Escola Secundária Passos Manuel, fiz muitos projectos de escrita com os alunos, de que resultaram várias publicações, entre as quais 2 livros de contos e 2 peças de teatro (autos, à maneira de Gil Vicente, que me permitiam aplicar o programa). 
Então não se falava em escrita criativa, mas era afinal aquilo que eu fazia.

 "Crónicas de Monções e de Marés", uma colectânea de contos escritos pelos alunos, com a minha participação, foi, assim, um projecto que me deu um pretexto para pesquisar novos temas e conceitos, me permitiu passar mais de duas centenas de horas de deleite criativo, partilhando com os alunos o gosto pela escrita e o prazer do texto, mas, além disso, também a capacidade de admirar e procurar a beleza, o simbolismo e a riqueza das palavras, das sonoridades e das imagens de uma língua extraordinária que, por fortuna, é a nossa, em que tudo pode ser dito, da realidade mais simples e concreta, à emoção mais subtil, ou ao pensamento mais transparente ou complexo. 

Que foi uma experiência de enorme impacto para os alunos, não tenho dúvidas, porque eles a definiram assim: 
«Estávamos preparados para seguir o mesmo ritmo monótono de aulas, quando nos propuseram um desafio. Na verdade o desafio de fazer algo diferente dava um brilho aos olhos de cada aluno e um sorriso resplandecente, vindo da professora. Pensávamos que não íamos conseguir, mas, no fundo, todos tínhamos aquela tal esperança. 
Acabou por despertar em nós uma certa curiosidade. De início, achávamos não estar à altura de algo tão grandioso, o tempo surgiu e a caneta não conseguia escrever, por vezes a esperança desaparecia, mas, conforme as ideias iam saindo, tudo ia tomando forma. até que, um dia, não conseguimos parar de escrever. 
O monótono das aulas transformou-se num livro cheio de contos maravilhosos, onde a imaginação não deixou de existir. Quando vimos o resultado final, demo-nos conta de que, o que nos parecia impossível tornara-se numa coisa concreta e educativa. 
Afinal valeu a pena… porque a alma não é pequena!» 
Os autores da Turma do 10º Ano 4A 
30 de Abril de 1998 

Os temas principais estavam ligados à História e à Literatura, narrativas sobre personagens e acontecimentos históricos ou inspiradas em obras literárias do programa. Exploraram também a mitologia clássica e, como este foi um dos temas preferidos, irei "postar" alguns aqui para os partilharem com os vossos filhos, se gostarem, tal como fiz no Facebook, para ajudar a passar algum tempo, durante a quarentena da Covid-19. 
Deana Barroqueiro