10/04/2020

A HIPOCRISIA DOS HOLANDESES - «OS LADRÕES DO MAR» - 2

Do meu romance «1640», retirei este excerto em que relato o modo como actuavam os neerlandeses/holandeses, para «criarem riqueza» e construírem os Países Baixos: 



«Mal encomendara a minha alma a Deus, quando o milagre aconteceu, anunciado por brados de alarme no navio dos corsários e toque de retirada. Os assaltantes embainharam as armas e fugiram pela xareta como bugios, abandonando no nosso convés os companheiros feridos. Ainda não havíamos recobrado do espanto, já eles tinham cortado os cabos que os prendiam ao patacho e, de velas desfraldadas, voavam rumo ao Oriente.
A causa da nossa salvação era uma poderosa nau neerlandesa que surgia a barlavento e navegava a todo o pano. Apercebendo-se do nosso estado lastimoso, permitiu a fuga aos homens do Crescente para vir em nosso socorro, dando-nos uma salva de aviso e lançando ao mar esquifes com muitos remadores.
– São gente do estado rebelde da Holanda. Luteranos!
Seis províncias neerlandesas – Holanda, Zelândia, Utreque, Frísia, Groeninghen e Guélria – haviam-se rebelado contra o jugo filipino e declarado independência, tendo feito guerra à Espanha até assinarem a Trégua dos Doze Anos, em 1609.
– Nunca pensei que havia de me alegrar com a vista de hereges – disse o capitão, preparando-se para receber os batéis dos nossos salvadores que não tardaram a acostar-nos.
Ao subirem para o convés, foram saudados com grandes brados de júbilo por quantos ainda se tinham de pé, contudo a nossa alegria foi sol de pouca duração, vendo como os holandeses traziam armas de grande poder de fogo, em vez das ferramentas para o concerto do barco, cercando-nos com um movimento rápido e ameaçador. Os oficiais saudaram o nosso capitão e o renegado espanhol, que lhes servia de língua, trasladou a fala do seu comandante:
– O capitão lamenta os vossos mortos às mãos dos infiéis, porém, sois agora seus prisioneiros e, como tais, deveis entregar-lhe prestes o livro da carregação, o regimento e os demais documentos do navio, assim como a sua carga, com toda a pedraria, ouro e prata que levais arrecadados. Isto se quereis conservar a vossa vida e liberdade.
Um punhado de homens feridos e exaustos, mantidos sob a mira dos mosquetes e arcabuzes, nada podia fazer contra uma horda de hereges bem treinados nas lides do corso, que nos desarmaram num instante.
– Porque vindes, com capa de amizade, atacar-nos traiçoeiramente, estando nós assim desapercebidos e sem defesa? Há doze anos que a vossa nação tem tréguas com a Espanha... – a voz do capitão sevilhano tremia de indignação por se ter fiado na ajuda de corsários da República da Holanda, que eram conhecidos dos marinheiros das outras nações como os “mendigos do mar”, por enriquecerem à custa da pirataria, da fraude e da pilhagem dos navios.
– A “bendita” trégua acabou há dias – informou o renegado, em tom escarninho, perguntando em seguida: – Ninguém vos avisou de que estávamos de novo em guerra?
Mostraram, no entanto, alguma piedade para connosco – ou, talvez temessem represálias, se fossem capturados, pois estávamos muito perto da costa portuguesa –, permitindo-nos cuidar dos feridos e dar fundo aos mortos segundo os ritos da nossa Fé.
O capitão pediu ainda ao comandante corsário que, por sua honra, acautelasse as mulheres que iam a bordo de toda a ofensa e desacato que os seus homens lhes poderiam fazer na cobiça do saque, no que ele acedeu em parte, mandando encerrar numa câmara da popa, com guardas à porta, três donas de qualidade que viajavam com as filhas.
As escravas e algumas mulheres de baixa condição foram deixadas à mercê da chusma herética, apesar das suas súplicas e lágrimas que nos cortavam o coração e, durante muito tempo, acabrunhados de vergonha por não lhes podermos valer, ouvimos os gritos de desespero das infelizes e os risos e doestos dos seus algozes.
Os neerlandeses eram piratas formigueiros, da casta dos que roubam tudo às vítimas, até as roupas que trazem nos corpos, e os seus batéis andaram durante horas num vaivém constante a transportar o rico saque do patacho para a nau. Quando já não tinham mais que carrear, arrastaram-nos de novo para o convés, como reses de abate, onde esperávamos a todo o momento ser passados à espada ou lançados borda fora, amarrados de pés e mãos, um costume muito referido pelos raros sobreviventes dos ataques destes hereges.
– Dai-vos por afortunados – disse-nos o renegado, sempre escarninho e como se nos lesse o pensamento – por o capitão ter boas entranhas, pois em vez de vos lançar ao mar ou de vos deixar arder junto com o patacho, vai dar-vos um batel para chegardes à praia. Ora largai as jóias e pedraria que tendes escondidas nos corpos, como pagamento do transporte.
Quatro rascões de má catadura agarraram-nos e, à força de pancadas e repelões quando lhes resistimos, arrancaram-nos as botas e as roupas, deixando-nos tão nus como quando Deus nos trouxe ao mundo, e fizeram uma busca cuidadosa ao vestuário, arrecadando tudo o que acharam de valor. Sem se darem por satisfeitos, encheram copos de vinho que nos forçaram a beber, para se certificarem de que não tínhamos escondido na boca alguma pedra preciosa ou anel, porém, o pior ainda estava para vir.
– Agora o corpo – ordenou o língua e preveniu com uma risada: – É melhor não resistir se quereis viver.
Gozando com a nossa humilhação e vergonha, os bragantes manietaram-nos, forçando-nos a expor os corpos por onde metiam os dedos com a brutalidade das feras, zombando com chalaças de que não entendíamos as palavras, mas cujos arremedos não nos deixavam dúvidas quanto ao que diziam.
Lançaram-nos de mãos amarradas num batel, apenas com as calças vestidas e trouxeram as mulheres, primeiro as donas nobres com as filhas, só com os vestidos que tinham no corpo, depois as que lhes tinham servido de divertimento e cuja vista fez recrudescer a arruaça dos verdugos e nos trouxe lágrimas de piedade aos olhos pelo estado miserando a que as tinham reduzido.
Vinham rotas e ensanguentadas, umas de olhos mortiços, outras de rostos intumescidos das pancadas, por terem oferecido resistência, outras ainda soluçando e gemendo sem cessar. Foram atiradas para o batel como fardos, que alguns de nós, já libertos das cordas, recebemos nos braços, passando-as com todo o cuidado às corajosas donas que connosco estavam e as recebiam com palavras de conforto. Os corsários levaram o nosso piloto para melhor fazerem a navegação daquela costa, depois de atearem o fogo ao patacho.
À medida que nos afastávamos, com os olhos postos nas chamas que consumiam o nosso barco, suplicávamos em altos brados a Deus para que o esquife onde íamos, assim tão desconcertado e carregado de infelizes, não fosse ao fundo antes de atingir as costas de Setúbal.
Nessa hora de aflição ninguém se deu conta de como as duas formosas moças que, depois de libertadas pelos seus algozes, ainda não haviam dito uma palavra nem vertido uma lágrima, se tinham lançado silenciosamente do batel para desaparecerem no mar da sua vergonha.»

(Deana Barroqueiro - «1640»)
Nota: A capa do livro é uma parte de um quadro que comemora a vitória dos portugueses sobre os holandeses que tentaram ocupar o Brasil.




A HIPOCRISIA DOS HOLANDESES - «OS LADRÕES DO MAR» - 1

 Os holandeses tornaram-se, na União Europeia, os paladinos de uma "moral" intransigente, contra aquilo que consideram "os desmandos dos países do Sul", cujos povos só pensam em gastar o dinheiro do seu PIB e das ajudas da UE em vinho, mulheres e outros prazeres, incluindo os da pandemia do coronavírus.

E os seus governantes dizem que são contidos nos gastos, parcos nos prazeres e que criaram a sua nação e a sua riqueza com trabalho árduo e honesto, portanto, não estão dispostos a serem solidários com os preguiçosos do Sul.

Os holandeses/neerlandeses  ou sofrem de amnésia em relação à sua História ou são pura e simplesmente hipócritas!

Os Países Baixos foram criados à custa dos roubos, matanças e extorsões que os seus corsários e as suas armadas (pretensamente comerciais, mas que eram de guerra) faziam aos povos do Sul, muito em particular aos portugueses e espanhóis, mesmo quando assinavam tréguas ou tratados de paz, que não respeitavam.

Foram conhecidos como os "Ladrões do Mar" e "Piratas Formigueiros", por roubarem tudo o que viam. Perseguiam os navios portugueses e espanhóis, assaltando-os, saqueando-os e queimando-os, com toda a gente lá dentro, conquistando os seus territórios ultramarinos, sobretudo os de Portugal na África e na Ásia, muitos deles construídos de raiz, à custa de muito suor e sangue, e cujos povos eles escravizaram, destruindo-lhes a civilização, como fizeram nas Molucas.
Se quiserem ver como esta gente "trabalhava", leiam o excerto do meu romance «1640», que vos deixo aí acima.

06/04/2020

COVID-19: A "SORTE GRANDE" DOS VIGARISTAS, CORRUPTOS E ATÉ DE ASSASSINOS

Não há mais vida além da covid-19?


Desde Janeiro que não há praticamente notícias sobre outra coisa que não seja o coronavírus e a covid-19. Tudo o mais deixou de existir.

As notícias da doença são repetidas durante 24 h, até à exaustão, em todos os Media, sobretudo em nos canais televisivos, que são o principal meio de acesso à informação dos que estão em quarentena.  Não falam de outra coisa.

Todos os grandes casos de Justiça, da gente corrupta que enriqueceu, roubando o Estado, o povo ou os accionistas dos bancos e empresas, desapareceram por completo dos radares dos Media. Que aconteceu a essa gente? Por onde anda Isabel dos Santos, Ricardo Salgado, Sócrates  e quejandos? Continuam a fazer impunemente lavagem de dinheiro sujo  ou a porem aquele de que se apropriaram fraudulentamente nas off-shores?

E os que fugiram aos impostos, os do futebol, por exemplo, livraram-se das investigações?

A Justiça, deixou de funcionar, com medo do vírus? Se já era lenta antes da pandemia, será que paralisou? Vi e ouvi a Ministra da Justiça (que aprecio) a falar dos presos  que seriam postos em liberdade (com que concordo), mas não lhe ouvi uma única palavra sobre os criminosos de colarinho branco. Aposto que estarão "confinados ao isolamento" nas suas luxuosas moradias com piscina e outras mordomias (pagas com o saque que fizeram durante anos ao país), em quarentena como eu e os meus leitores. Parece-me mais umas férias de luxo e um prémio!

UCRANIANO MORTO À PANCADA, ALEGADAMENTE, POR INSPECTORES DO SEF

Ihor Homenyuk, tinha 40 e poucos anos, casado e com dois filhos 













E não provoca a maior indignação que nenhum governante venha dar uma explicação aos portugueses sobre crimes cometidos por organizações policiais ou militares, como o que alegadamente cometeram três inspectores do SEF - Duarte Laja, Bruno Sousa e Luís Silva - espancando até à morte,  cobardemente,  Ihor Homenyuk, um ucraniano (que estava detido numa sala do aeroporto de Lisboa, sedado e manietado no chão). Estes inspectores gabaram-se do feito dizendo que "já não precisavam de ir ao ginásio", manifestando a impunidade de quem sabe que não tem testemunhas numa época trágica (mas, para seu azar, até houve testemunhas de colegas)?
Esmagaram-lhe o peito e as costas à bastonada, até a vítima não poder respirar e deixaram-no durante longas horas a morrer no chão da sala, até outro inspector o descobrir. E todos os que ouviram os seus gritos e não lhe prestaram auxilio, foram coniventes com o crime. Que foi encoberto por muita gente.
E o inspectores foram enviados para casa, pela sua directora com a pena de não poderem sair de casa? Como nós, em quarentena?

O SEF demorou mais de três horas a comunicar ao MP a morte do cidadão ucraniano nas suas instalações do aeroporto. E levou seis dias a informar a Inspecção-Geral da Administração Interna

Tenho direito a saber por que razão a cadeia de comando do SEF não se pronunciou sobre esta morte. São responsáveis pelo encobrimento de um crime tão repugnante, para mais cometido por forças de segurança que, num estado democrático, têm o dever e obrigação de proteger os cidadãos, mesmo os que possam ter cometido faltas ou mesmo serem criminosos?

Isto faz-me lembrar de um outro crime, que teve lugar há anos, numa esquadra da polícia de má memória, em que os inspectores decapitaram um preso. Julguei que barbaridades destas já não eram possíveis no nosso país.

TENHO DIREITO A UMA EXPLICAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS E QUERO QUE OS CULPADOS SEJAM CASTIGADOS, ASSIM COMO OS SEUS CHEFES, QUE OS ENCOBRIRAM OU NÃO QUISERAM SABER.

03/04/2020

A PANDEMIA É UMA BÊNÇÃO PARA OS NEOLIBERAIS CONVICTOS

HUMOR NEGRO

Não consigo deixar de pensar no regozijo dos neoliberais mais fundamentalistas que passaram os últimos anos a queixarem-se das reformas que os velhos usufruem (esquecendo-se que a maioria de nós descontou durante mais de 35 anos para isso, portanto é dinheiro próprio, não é uma esmola). 

Como a Pandemia tem feito, e continuará a fazer, uma razia nos velhos acima dos sessenta anos, os neoliberais vão ficar com o problema resolvido: a morte dos velhos é o seguro de vida para os jovens executivos, empresários, empreendedores e outros que tais. 

E, se mesmo assim ainda não chegar para lhes assegurar uma vidinha de ricos, podem começar a "despachar" os pais e os avós mais resistentes à pandemia. Tapem-lhes a cara com uma almofada, durante o sono, que a morte se confundirá com a covid-19 e ninguém desconfiará.


02/04/2020

OS CROMOS DO CORONAVÍRUS: NICOLÁS MADURO

Maduro acusa navio cruzeiro português de acto de “terrorismo e pirataria” 

Um barco da Marinha da Venezuela afundou-se após colidir com o cruzeiro de turistas que tinha bandeira portuguesa, Resolute.
O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou o cruzeiro de ter cometido um acto de “terrorismo e pirataria” contra um barco da Marinha venezuelana que se afundou segunda-feira, após uma colisão.
Segundo Maduro, o barco venezuelano foi abalroado “de maneira brutal”. Tratou-se. contudo, de um acidente nas manobras e o navio cruzeiro recolheu todos os 'náufragos".

Maduro instou as autoridades do Curaçau, onde o barco está ancorado, a investigar este “acto de pirataria internacional”.

AS "PÉROLAS" DE MADURO:
«O barco [de bandeira portuguesa] que investiu contra a nossa nave é oito vezes mais pesado, é como se um gigante pugilista de 100 quilogramas agarrasse um menino pugilista e o golpeasse”, frisou.

"Trata-se de um acto de terrorismo e pirataria que há que investigar”, porque “se tivesse sido um barco de turistas não teria tido essa atitude de querer agredir“.

“As investigações continuam. As autoridades de Curaçau, em cumprimento dos compromissos internacionais, devem fazer a investigação, informar oficialmente e tomar as providências porque foi um acto de pirataria internacional”. disse Nicolás Maduro.

 NOTA: O navio de turistas foi registado em Portugal, mas não pertence ao nosso país, mas sim ao Canadá e a outro país qualquer.


31/03/2020

Ex-ministros denunciam Bolsonaro à OMS por campanha de desinformação ��



Twitter, Facebook e Instagram também apagam publicações de Bolsonaro, mas não apagam as de Trump... PORQUÊ? 


 O Twitter foi a primeira rede social a apagar conteúdos do Presidente do Brasil relacionados com a pandemia da Covid-19. Seguiram-se, nas últimas horas, o Facebook e o Instagram, com o argumento que as regras excluem publicações em que a "desinformação que possa causar danos reais às pessoas".

 Em causa está um novo vídeo de Jair Bolsonaro, no qual o Presidente brasileiro conversa com um vendedor ambulante de Taguatinga, nos arredores de Brasília. “Conversei com as pessoas e elas querem trabalhar. É o que eu disse desde o início. Vamos tomar cuidado, as pessoas com mais de 65 [anos] devem ficar em casa”, bradou Bolsonaro.

 Outra das ideias propaladas pelo Presidente foi a de que a cloroquina, fármaco utilizado para tratar a malária, “está a funcionar em todos os lugares”, algo que ainda carece de validação científica.

 A pandemia da Covid-19 já fez 159 vítimas mortais no Brasil. Há registo de pelo menos 4579 infectados. Ex-ministros da saúde lançaram um manifesto repudiando as declarações de Jair Bolsonaro minimizando a pandemia do novo Coronavírus.

30/03/2020

Confinamento nas "Caravelas de Descobrir"

No meu romance "O Navegador da Passagem" - Bartolomeu Dias (há muito esgotado), descrevo um outro tipo de confinamento, o das caravelas e naus de descobrir, as "gaiolas ou prisões do mar", como eram então chamadas, em que se viajava por mares desconhecidos, por vezes quase uma ano, como na odisseia da descoberta do Cabo das Tormentas/Boa Esperança.
Aqui vos deixo a descrição do que acontecia quando chegavam às costas da Guiné, com as calmarias.

 O Navegador da Passagem:

       «O marinheiro gritou a alta voz a saudação da manhã:
       – São oito horas. Deus nos dê os bons dias. Boa viagem faça a caravela, senhor capitão, mestre e toda a companhia. Ámen.
       Os quartos de vela começavam a ressentir-se com as baixas dos marinheiros e grumetes, aquando da rendição às quatro, oito e doze horas, de manhã e em iguais turnos depois do meio-dia, dividindo-se os homens da tarde em dois grupos que alternavam com as noites, tendo cada tripulante e oficial de servir dois quartos de vela de quatro horas cada um. O pessoal que estava de serviço ao nascer do sol, antes de ser rendido, baldeava as pontes com água do mar, tarefa repetida pelo turno das quatro da tarde, e os que vinham mais frescos punham-se à bomba, para escoar a água que nunca secava e acabava por apodrecer, tornando mais intenso o fedor na caravela.
       Na derrota da Guiné, os alísios do nordeste tinham sido substituídos por uns ventos caprichosos e imprevisíveis que assolaram o mar com tornados e ondas altíssimas, sacudindo os três navios como madeiros à deriva, para logo cessarem tão subitamente como haviam começado. Era todavia um sossego enganador, escondendo perigos invisíveis, com a pequena frota a navegar às cegas através de um denso nevoeiro, imobilizando-se por fim numa grande calmaria, quente como fornalha.
       Bartolomeu Dias achava-se já na amurada do lado da proa, quando Pêro de Alenquer surgira na coberta com um matalote que lhe transportava a caixa do astrolábio e fora postar-se junto ao mastro principal a fim de evitar os balanços da caravela enquanto tomava a altura do sol. Sabia que ele preferia executar aquele trabalho em terra onde era possível manter o aparelho imóvel e obter uma medição mais correcta, mas não fariam escala antes de S. Jorge da Mina e o mar com aquela calma parecia um lago de águas mortas.
(...)

Os homens padeciam do mal das calmarias, como lhe anunciara o barbeiro, uns com febres e outros com bostelas pela testa, moléstia frequente naquela costa. Não era difícil que o mal se pegasse aos matalotes de toda a armada, posto que, durante os períodos de imobilidade da frota, os batéis andavam cá e lá entre os três navios para os homens confraternizarem e tomarem algum desenfadamento. Sem demora mandou aviso a todos os oficiais para lhe virem prestar contas das suas dificuldades e necessidades.
       – Na S. Pantaleão – queixou-se João Infante, muito agastado – a água tem gusanos e fede que nem tapando o nariz se adrega a beber.
       – Ao passar a linha, danou-se grande parte dos alimentos – confirmou Diogo. – Andei com o despenseiro a ver dos estragos e tanto as carnes salgadas como as secas estão corruptas, o azeite, a manteiga, a marmelada e o mel fervem como se estivessem ao fogo, de mesmo fermentaram as passas e os figos que levávamos para os enfermos.
       – E o bichedo que ali se cria, por via da corrupção das viandas com esta calma, é tanto que até parece as pragas do Egipto – acrescentou João Álvares, o mestre da naveta das provisões, apoiando o seu capitão.
       – Nós também não vamos mal servido deles – disse mestre João Grego da S. Pantaleão.
        – Nem nós, tão-pouco! – apressou-se a dizer António Leitão, para mostrar que a nau capitânia não gozava de privilégios especiais ou de melhores grumetes. – E com os homens a adoecerem, uns após outros, não podemos fazer a baldeação e lavagem com vinagre do porão, pois não temos assaz de gente com forças para trazer a carga para a ponte.
       Os porões dos três navios, onde se armazenavam os víveres, principalmente o da naveta pela grande quantidade de alimentos que transportava, em nada se distinguiam já da aterradora ideia que os matalotes faziam das profundezas do inferno e cada descida ao bojo das caravelas era um calvário de sofrimento. As fezes e urina dos coelhos, galinhas e carneiros vivos, metidos em gradados e capoeiras, mas também dos homens que, apesar das proibições, bastas vezes ali se aliviavam, empestavam o ar e serviam de viveiros a enxames de piolhos, pulgas, percevejos, baratas e ratazanas.
       – O guardião só à força de castigos e pancada faz entrar lá os grumetes, para alguma limpeza, pois saem cobertos de bichos e infestam o navio.
       – Água, para lavar roupas, conveses ou porões, só a do mar, mestre Leitão – recomendou Bartolomeu Dias. – Mesmo corrupta, não se pode desperdiçar, pois não sabemos quando chegaremos à Mina para a aguada. »

 Nota: O quarto da alva, das quatro às oito da manhã.
(O Navegador da Passagem - Deana Barroqueiro)

OS CROMOS DO CORONAVÍRUS: KIM JONG-UN

OS CROMOS DO CORONAVÍRUS: KIM JONG-UN

A Coreia do Norte sem coronavírus? Oficialmente, sim. Mas as dúvidas são muitas. Apesar de ser o país mais isolado do mundo, a Coreia do Norte faz fronteira e tem contactos com a China, onde o coronavírus surgiu há cerca de três meses.

O discurso do regime de Pyongyang garante a inexistência de ocorrências. Contudo, as medidas de contenção sugerem que “as autoridades sabem que há casos e que o país corre grandes riscos”, alerta um professor de Estudos Coreanos da Universidade de Londres. Coreia do Norte ainda não registou qualquer caso de infeção com o coronavírus Covid-19, pelo menos a acreditar nas informações oficiais.

A imprensa na vizinha Coreia do Sul e nos EUA tem reportado múltiplas suspeitas de casos, cuja confirmação não seria de estranhar tendo em conta que o país faz fronteira com a China, o epicentro do vírus. Nos últimos dias, as autoridades de Pyongyang selaram fronteiras, fecharam embaixadas, mandaram pessoal diplomático de volta para os seus países, suspenderam o turismo e encerraram muitos locais públicos e todas as escolas.

A revista “Foreign Affairs” escreveu na semana passada que “a Coreia do Norte está extraordinariamente impreparada para uma emergência médica desta magnitude”, com “um sistema de saúde em ruínas” e “sedento de investimento público”. Numa altura em que o número de mortos em todo o mundo ultrapassou os 4.700, a Coreia do Norte “está indiscutivelmente mais vulnerável a um surto viral deste tipo do que qualquer outro país do mundo”, sublinha a publicação num artigo que alude ao “maior teste” que o líder do regime, Kim Jong-un, enfrenta até à data.
(JORNAL EXPRESSO)
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NÚMEROS NEGROS (MENOS NEGROS?)

COVID-19: PORTUGAL HOJE, 30 DE  MARÇO

OS NÚMEROS NEGROS (MENOS NEGROS?)
Nas últimas 24 horas houve mais 21 mortes em Portugal por Covid-19. No total há registo de 140 vítimas mortais, de acordo com o último relatório de situação publicado esta segunda-feira pela DGS, pouco depois das 12.00 h.

 CÔMPUTO GERAL DOS DADOS DISPONIBILIZADOS
Há 6.408 pessoas infectadas e 4.845 aguardam resultados laboratoriais. Houve um aumento de mais 446 casos confirmados face a domingo, o que representa uma variação de 7,5%.
Do total de infectados 571 pessoas estão internadas, das quais 164 nos cuidados intensivos. A grande maioria está a recuperar em casa.

 A região Norte continua a ser a que regista maior número de mortos (74), seguida da região Centro (34) e da região de Lisboa e Vale do Tejo (30) e depois o Algarve, com duas vítimas mortais. Sobre as 140 mortes registadas, 85 tinham mais de 80 anos, 31 tinham idades entre os 70 e os 79 anos, 16 vítimas tinham idades entre os 60 e os 69 anos, seis entre os 50 e os 59 e dois óbitos ocorreram no grupo etário entre os 40 e os 49 anos.

Os concelhos onde há mais casos confirmados são o Porto, Lisboa, Vila Nova de Gaia, Maia, Matosinhos, Gondomar e Ovar. É por isso o Norte que continua a registar o maior número de infecções (3.801), seguindo-se a região de Lisboa e Vale do Tejo (1.577 casos), a região Centro (784), o Algarve (116) e o Alentejo (45). Na Madeira há registo de 44 casos e os Açores têm confirmados 41 casos. Há nesta altura 11.482 contactos em vigilância pelas autoridades. Em relação aos casos de infecção, a faixa etária mais afectada é a dos 40 aos 49 anos, seguida dos 50 aos 59, dos 30 aos 39 e dos 60 aos 69 anos.

27/03/2020

OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: BORIS JOHNSON

Das asneiras do Brexit às da infecção colectiva para tornar os ingleses imunes, deu o dito por não dito, mente e desmente-se, sem pingo de vergonha! Foi infectado, por ironia do destino.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está infectado pelo coronavírus, anunciou nesta sexta-feira o próprio no Twitter. Johnson fez o teste depois de ter sintomas leves, já está em isolamento profiláctico e promete continuar a liderar a resposta do Governo durante a crise pandémica de covid-19.

O ministro da Saúde, Matt Hancock, também está infectado. “Desenvolvi nas últimas 24 horas sintomas leves e testei positivo para coronavírus”, escreveu no Twitter o primeiro-ministro. “Estou agora em isolamento, mas continuarei a chefiar a resposta do Governo por vídeo-conferência à medida que combatemos este vírus. Juntos vamos derrotá-lo”.

OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: O Ministro das Finanças Holandês

Em tempo de crise global, em vésperas de uma recessão económica a que ainda ninguém adivinha a dimensão e em plena pandemia em Portugal, “repugnante” não é palavra que se queira ouvir a um primeiro-ministro. Mas assim foi no final da reunião de ontem do Conselho Europeu.

Wopke Hoekstra, ministro das finanças holandês, terá dito esta semana que “a comissão europeia devia investigar países como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus, apesar de a zona euro estar a crescer há sete anos consecutivos”.

E António Costa não gostou de ser confrontado com as declarações. "Esse discurso é repugnante. Ninguém está disponível para ouvir o ministro das Finanças holandês a dizer o que disseram em 2009, 2010, 2011.  Não foi a Espanha que importou o vírus. O vírus atinge a todos por igual. Se algum país da UE acha que resolve o problema deixando o vírus à solta nos outros países, não percebeu bem o que é a UE", disse. Também não percebeu bem o coronavírus.

E o que saiu da reunião entre chefes de governo? Pouco ou nada de conclusivo. Apenas a noção de que quatro países resistem às 'coronabonds' - Holanda, Alemanha, Finlândia e Áustria – e que, eventualmente, mais do que nunca, a desunião entre países europeus pode resultar num desfecho, tragicamente “repugnante”.

(Jornal Expresso)

Palavras de ministro são ″repugnantes″? Governo holandês vai ...

OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: TRUMP


“Para que precisam de 30 mil ventiladores”, pergunta Trump, que duvida do número de infecções nos EUA “Tenho a sensação que em muitas áreas estão a anunciar números maiores do que na realidade vão ser”, disse Trump à Fox News.

Os Estados Unidos tornaram-se, na quinta-feira à noite, o país com maior número de casos registados de covid-19 - neste momento são 85.991 as pessoas infectadas com o novo coronavírus. Porém, pouco depois da divulgação deste dado, o Presidente Donald Trump criticou os governadores dos estados e questionou os pedidos de material médico.

Na entrevista de quinta-feira à noite à Fox, o Presidente dos EUA foi mais longe e duvidou da necessidade desse material. “Eu não acredito que precisem de 40 mil ou 30 mil ventiladores”, afirmou. Uma crítica directa ao governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, que disse que essa era a necessidade deste estado perante o aumento de número de casos e o risco para a vida dos cidadãos.

“Sabem, quando se entra num grande hospital vemos que eles têm dois ventiladores. Agora, de repente, estão a perguntar ‘podemos comprar 30 mil'?”, disse Trump, que foi também duramente criticado por Cuomo pela sua atitude perante a doença que já matou 24.007 pessoas e todo o mundo, e 1178 nos EUA, segundo o mapa interactivo da Universidade Johns Hopkins​.
(Jornal Público)
Trump diz que conclusões de relatório comprovam sua 'total ...

Receita de cozinha para quarentena 5

Bolo Virado de Ananás e Nozes (a minha receita inglesa) 

 Ingredientes: Manteiga 125 g: açúcar 125 g; ovos 2 inteiros; farinha 150 g; fermento em pó 1 colher de chá; leite 3 colheres de sopa; baunilha algumas gotas; nozes e passas a gosto. Para forrar a forma de 20 cm de diâmetro: Açúcar mascavado 50 g; Manteiga 50 g; Ananás ou abacaxi às rodelas, fresco ou de lata. 

Preparação: Prepare a forma com antecedência, derretendo nela a manteiga e espalhando-a pelo fundo, que se cobre com o açúcar mascavado, como um tapete, sobre o qual se dispõem as rodelas do ananás, segundo a imaginação de cada um, meias nozes e passas. 

Massa: Bata o açúcar com a manteiga até obter um creme branco e macio. Bata bem os ovos inteiros, à parte, e junte-os à massa, a pouco e pouco, com muito cuidado, batendo sempre energicamente para a massa não talhar (se estiver em perigo, pode misturar um pouco de farinha para unir). Misture na massa, com cuidado, a farinha peneirada com o fermento, alternadamente com o leite a que juntou a baunilha. Acrescente as nozes e passas a gosto. Deite a massa na forma, sobre o tapete de manteiga e açúcar, com muito cuidado, alisando a superfície. 
Leve a cozer em forno moderado (Gás 4 ou 180º), cerca de 40 minutos. Vire-o sobre um prato de serviço, enquanto quente.

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OS «CROMOS» DO CORONAVÍRUS: BOLSONARO

"Itália é como Copacabana..." E é gente como esta - Bolsonaro, Trump e afins - que governam milhões de pessoas!

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, comparou Itália a um bairro de Copacabana e desvalorizou a quantidade de mortes que o país europeu tem sofrido devido à pandemia de coronavírus.

Bolsonaro disse, na semana passada e em declarações aos jornalistas, que há um velhinho ou um casal de velhinhos em cada apartamento de Itália e normalizou as mortes que a Covid-19 está a fazer no país.

O presidente brasileiro disse ainda que as mortes no Brasil associadas ao coronavírus estão a atingir pessoas com outras patologias e que não pode haver "histeria" por causa da pandemia.

NOVA PÉROLA DO CROMO BOLSONARO: 
"Brasileiro pula em esgoto e não acontece nada", diz Bolsonaro em alusão a infecção pelo coronavírus.
Para presidente, "muita gente já foi infectada" e por isso, segundo ele, adquiriu anticorpos que ajudam #a não proliferar isso daí". Ele pretende usar hotéis ociosos para isolar idosos.

Vídeos em: https://www.record.pt/multimedia/videos/detalhe/bolsonaro-compara-italia-a-bairro-de-copacabana-e-desvaloriza-mortes-por-coronavirus
e
https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/26/brasileiro-pula-em-esgoto-e-nao-acontece-nada-diz-bolsonaro-em-alusao-a-infeccao-pelo-coronavirus.ghtml

23/03/2020

Camões e a Grande Peste de 1569

O flagelo da Peste Negra era uma constante ameaça dos povos, durante a Idade Média e épocas seguintes. Em 1569, a Grande Peste matou 60.000 pessoas só em Lisboa. Luís de Camões regressou da Índia, nesse ano, um episódio que recrio no meu romance "D. Sebastião e o Vidente", de que transcrevo parte do Cap. 47, para quem tiver paciência de me ler possa ver as semelhanças: 

Cap. 47

      «Quando a nau Santafé surgiu no porto de Cascais, tanto os tripulantes, como os passageiros sentiram o medo nos gestos das gentes que se azafamavam nos cais ou faziam serviço nos botes, que iam e vinham entre os molhes e os navios fundeados ao largo, a transportar mercadorias e viajantes. 
     – Que se passa? – perguntou Luís Vaz aos amigos que encontrou na coberta, debruçados na amurada a falar com os tripulantes de uma barcaça. Trazia ainda o rosto marcado pela dor da inesperada morte do poeta Heitor da Silveira, seu grande amigo e companheiro de viagem, cujo coração não resistira à emoção de avistar a pátria. 
     – É a Peste Grande, pesar do Diabo! – respondeu-lhe Diogo de Couto, o cronista, com uma ruga de profunda preocupação a vincar-lhe a testa. – Matou mais de metade da população de Lisboa! 
Duarte de Abreu acrescentou: 
    – E dizem-nos aqueles dois que é um perigo entrarmos na cidade, pois a pestilência ainda causa mortes. Na zina do furor, ceifou por dia quinhentas a seiscentas pessoas! Deixou de haver sítio e gente para enterrar os mortos. 
     – Mau pecado! Assim, tão cedo não poderei imprimir os meus Lusíadas! – exclamou, com profunda mágoa, fazendo sorrir os companheiros apesar da gravidade da catástrofe. 

*** 
     Afligidos pelo seu sofrimento, haviam-lhe pagado as dívidas, a passagem e o fato para regressar a Lisboa, onde os esperavam a desolação e a morte. Por isso, não era de admirar que o seu primeiro pensamento fosse para Os Lusíadas, único tesouro, salvo a duras penas, durante um naufrágio em que perdera todos os seus bens, incluindo a formosa escrava que lhe adoçava o desterro. O desastre valera-lhe uma acusação de fraude, com o dinheiro dos órfãos, pela qual teria de responder na justiça.
       – Terás de te quedar em Lisboa, apesar da peste, enquanto esperas pelo julgamento – lembrou Couto, preocupado. – Trataremos de mover influências para que se faça depressa justiça e te vejas absolvido e livre de falsas acusações. 
     Uma sombra perpassou pelo rosto do poeta, desfigurado pela perda do olho em Ceuta. 
     – A troco de descansos que esperava, / das capelas de louro que me honrassem, / trabalhos nunca usados me inventaram / com que em tão duro estado me deitaram! 
     Os amigos concordaram em silêncio, admirando a arte com que aquele génio, tão humilhado e desprezado, esculpia os versos atormentados da sua dor. 
     Diogo de Couto despediu-se e partiu para Almeirim, a fim de solicitar a el-rei licença para a nau poder entrar no Tejo e nos portos de Lisboa, encerrados por causa da peste. 
     Recebida a autorização real, o navio lançou âncora ao largo do Cais da Ribeira e os passageiros embarcaram nos escaleres que os levaram para terra. Sem o buliçoso fervilhar dos matalotes, estivadores e mariolas, Luís Vaz teve dificuldade em reconhecer, nos desolados molhes, o porto da capital portuguesa, centro de um riquíssimo comércio e destino final de inúmeros navios da Europa, da Carreira da Índia ou das Terras de Vera Cruz, comummente designadas por Brasil. 
     – Para onde ides agora? – perguntou-lhe Luís da Veiga. – Tendes pousada? 
     – Irei para casa de minha mãe, Ana de Sá. 
     – Acautelai-vos, Luís – falou António Serrão, sabendo que nada fazia recuar o poeta, nem mesmo o medo da morte. – Tratai de vos resguardar dos maus ares desta peste. Lembrai-vos d’Os Lusíadas! 
     Seguido pelo fiel escravo jau, que lhe transportava o modesto fato, Camões dirigiu-se para a sua antiga casa, na Calçada de Santana, atravessando a zona da Ribeira, outrora enxameada de gente – com os seus mercados, as tavernas e hospedarias, as tendas de malcozinhado, onde comera tantas vezes antes da sua partida para a Índia –, agora deserta e sem vida. Nas estreitas ruas e vielas, os prédios silenciosos, sem vizinhas às janelas nem roupas penduradas nas cordas, pareciam ameaçar os raros viandantes com as terríficas cruzes brancas pintadas nas portas, indiciadoras da passagem mortífera do Quarto Cavaleiro do Apocalipse. 
     Um físico, precedido de dois ajudantes empunhando archotes acesos, meteu-se num beco para dar passagem a Camões e poupá-lo ao perigo de contágio, pois a peste manifestava-se agora por outros sintomas mais perigosos do que os bubões, atacando os pulmões e o sangue, propagando-se com a velocidade de um raio. 
     O médico segurava numa das mãos a esponja embebida em vinagre, destinada a purificar o ar que respirava, usava a máscara de bico comprido, cheio de substâncias aromáticas, os vidros redondos sobre os olhos, para evitar a transmissão do mal pelo olhar dos enfermos, a veste violeta e o bastão vermelho de S. Roque que o mostravam à população como Mestre da Peste. O poeta agradeceu e cortejou-o à passagem, sentindo admiração pelo físico que, ao contrário de muitos outros, não fugira da cidade, nem abandonara os doentes à sua sorte. 
     – Luís Vaz, que fazes aqui, nesta terra desventurada? 
     O homem magro, de roupas sujas e desalinhadas, saíra de uma das casas e parara diante dele, olhando-o com espanto. Tinha o rosto macilento, parecendo um morto-vivo, e Camões não o reconheceu. 
     – Sou o Gonçalo Fernandes, o mestre de escrita de Trancoso. Não me reconheces? – Não havia alegria nem calor na sua voz. – Também não é para admirar, com tudo o que passei... 
     Gonçalo Fernandes de Trancoso, o homem que gostava de escrever "histórias de proveito e exemplo"! Nem parecia o mesmo e o poeta mentiu: 
     – Como não havia de te conhecer, homem?! Mas acabo de chegar da Índia e ainda não me recompus do abalo de ver Lisboa em estado de sítio. Graças a Deus que te encontro são e vivo, meu amigo! 
     – Preferia mil vezes a morte ao castigo que Deus me deu! – revoltou-se, e as faces afoguearam-se de vermelho, que as lágrimas grossas depressa descoloriram. – A peste roubou-me em poucos dias uma filha e um filho moços, um neto e, por último, para meu maior desespero, a minha adorada mulher. Vai-te daqui, homem, enquanto é tempo. Eu fico, que ando a buscar a morte. 
     Cheio de mágoa, ficou a vê-lo afastar-se, correndo, com o olhar perdido de um louco. Os sinos dobravam em sinal de luto e só os condenados, com vestes de bocaxim, a arrastar as suas grilhetas, se viam nas ruas transportando em carroças os empestados para o hospital e casas de saúde ou os cadáveres para as enormes valas comuns, onde se chegavam a enterrar sessenta corpos na mesma cova. 
     Tal como acontecera em outros anos de peste negra, estes criminosos, a quem os reis ofereciam o perdão em troca de tão perigoso serviço, não deixariam de se aproveitar da função para assassinar e roubar os moribundos que achassem sozinhos dentro das suas casas. O poeta tapou a boca e o nariz com um lenço, para evitar o cheiro a pestilência e morte, que lhe revolvia as entranhas, entontecendo-o de mareio.»

Deana Barroqueiro – D. Sebastião e o Vidente