24/10/2010

Memórias de Estalo - Capítulo V

O Hospital de Todos-os-Santos

O Hospital de Todos-os-Santos estende-se do Rossio à Betesga, com trinta e quatro arcadas de pedraria e sua abóbada que vai por baixo, de onde parte esta grande Feira, que já está a ferver de uma gente alvorotada e disputando em raivosa grita os preços das fazendas.

Passamos diante do portal mui bem lavrado, com escadaria de dezanove degraus de patamares, que é cousa mui formosa de se ver por não haver outra igual em Lisboa, e paramos na esquina que faz o Rossio com a rua da Betesga, a ala sul do Hospital que abriga o Criandário com suas amas, para as crianças enjeitadas, e a Albergaria para os peregrinos e pedintes.

O porteiro chama o Comprador do Hospital que dá ordens a um mancebilho(1) e a duas moças das cozinhas para descarregarem a carroça, enquanto oferece um pichel de vinho a meu amo e o leva para dentro. Como sempre, vou ter de esperar algum tempo té ele aparecer de olho mais vivo e humor mais prazenteiro.

Sem mexer uma palha, que já fiz a minha obrigação, deixo que as moças me aliviem da carga, e vou mirando alrededor, pois aqui muito se aprende só de olhar as gentes, sendo o bicho homem uma criatura cheia de surpresas. E assim é que, no meio desta azáfama de idas e vindas, vejo uma mulher embiocada a coser-se contra os muros do Hospital, com modos de assustada e um emburilho(2) nos braços, o qual, de passagem, vai deixar escusamente na porta de serventia, para logo fugir trigosa.

Uma sorte de ganido de cainçada pequena parece sair do emburilho, primeiro fraco, mas de seguida tão forte que faz acorrer as moças de dentro do Hospital. “Ai, Jesus, qu’ é outro enjeitadinho!” diz a mocetona, abaixando-se para tomar a criança nos braços, emburilhando-a no mantelote : “Vai chamar uma das amas, Maria. Vai asinha , cachopa, que o anjinho tá a sofrer!” Gente curiosa acerca-se da moça para olhar o enjeitado.

“Más entranhas há-de ter essa madre que tal filho deita fora!” e a mulher cospe para o chão com desprezo. “Ninguém viu a negregada?” pergunta um almotacém , “Botara-lhe eu a mão e logo a fizera arrepender!” Mas tão só eu a vira, a esgueirar-se para a Praça da Palha e a perder-se num mar de gente. “Estas moças d’agora só pensam em amores e folgação e despois… ai, Jesus, qu’emprenhei! e toca a deitar o rebento fora. Deviam ser todas bem açoutadas na picota ”. O almotacém(3) protesta: “E não o são, quando se lhes descobre o rastro?” “Antes fossem garrotadas ou mortas à pedrada, como perras raivosas!”

A Ama surge trigosa e abespinhada: “Melhor fora teres levado o anjinho lá p’ra dentro, que ‘stares pr’aqui no soalheiro com mariolas e mulheres ociosas! Tevessem os homes honra em não abandonar as mulheres à sua desgraça e já isto não acaecera . E não se olvide, menina, que no melhor pano cai a nódoa!” Embalando a criança e murmurando: “Com este, já são cinco esta semana!”, a boa mulher entra no Hospital deixando a metediça a resmonear de despeito.

E, com todo este alvoroto não há uma alma generosa que s'alembre do meu penso, que estou sem comer e beber desde manhãzinha, que a esta hora meu amo já deve estar bem comido e melhor bebido, folgando com as moças da cozinha que, como ele não se cansa de falar, são guapas e faceiras. Porém, como diz o ditado, Em tempo de figos não há aí amigos! É encher a pança, sem olhar a mais ninguém… Se mais depressa falara… melhor m’ aviara! Eis meu bom amo, à porta do Hospital, a desfazer-se em cortesias e agradecimentos e, à bofé de quem sou(4), que traz uma alcofa de comida!


(1) Rapazola.
(2) Embrulho
(3) Inspector de pesos e medidas
(4) Por minha fé! (exclamação).

21/10/2010

As ilustrações das Memórias de Estalo

Caríssimos Leitores

Vem esta prosa a propósito de uma conversa que tive com a leitora e amiga Maria Fernanda Pinto, residente em Paris, sobre as ilustrações de Memórias de Estalo, as quais no texto em papel me serviam de base às "iluminuras" para as letras de início de parágrafos, em que recorri e adaptei iluminuras verdadeiras (de Livros de Horas, por exemplo) ou pormenores de pinturas da época, como os quadros de Bosch.
Maria Fernanda apercebera-se também de que algumas ilustrações retratavam lugares, edifícios ou monumentos que o narrador mencionava durante o seu percurso e que ela desconhecia, sugerindo-me que referisse aos leitores as menos óbvias (o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém não precisam de legenda).
E como, de facto, algumas delas são únicas e podem ter interesse para quem gosta da nossa História, vou repeti-las aqui com uma pequena explicação:

Cap. II - Santos-o-Velho


Nesta pintura - "Os santos mártires Veríssimo, Máxima e Júlia: Desembarque em Lisboa", de Garcia Fernandes (activo 1514-1565), do Museu Carlos Machado -, surge ao fundo o palácio de Santos-o-Velho sendo, segundo creio, a única imagem que temos do edifício original, onde hoje se situa a Embaixada de França que o restaurou.

História das personagens: «O percurso da vida destes mártires, impossível de averiguar com rigor, aparece descrito num códice quatrocentista da Biblioteca Pública de Évora, (cód. CV/1-23d). Segundo a "Legenda", os irmãos lisboneses, Veríssimo, Máxima e Júlia, durante a perseguição de Dioclesiano (imperador romano de 284 a 305 d. C.), apresentaram-se espontaneamente ao executor dos éditos imperiais, confessando a fé cristã. Tentou ele dissuadi-los, com promessas e ameaças e, como nada conseguisse, mandou-os prender. Vitoriosos da prova do cárcere, aplicou-lhes o juiz vários tormentos: açoites, ecúleo, unhas de ferro, lâminas em brasa. Como ainda resistissem, mandou arrastá-los pelas ruas da cidade e, por fim, degolar. Assim alcançaram a palma do martírio a 1º de Outubro de 303 ou 304.
Não contente com o que lhes fizera em vida, perseguiu-os o juiz depois de mortos, ordenando que os cadáveres ficassem insepultos, para servirem de pasto aos cães e às aves. Como as feras os respeitassem, mandou então que os lançassem ao mar com pesadas pedras. Ainda os barqueiros não tinham regressado à praia e já os santos despojos lá se encontravam. Recolheram-nos piedosamente os cristãos e sepultaram-nos no lugar onde depois se erigiu uma Igreja que ainda por memória se chama "dos santos".
Em 1529, a comendadeira D. Ana de Mendonça, mandou colocar as relíquias em cofre de prata, ao lado direito do altar mor, com o epitáfio seguinte: "Sepultura dos santtos martyres S. Verissimo, Santa Maxima & Iulia, filhos de hum senador de Roma, vindos a esta cidade a receber martírio, por revelação do Anjo. Iazem nesta sepultura os seos santos corpos, os quaes há 1350 annos que padecerão & forão trasladados a esta casa onde jazem".
Quanto à naturalidade, nada se costuma afirmar com certeza. Só em época muito recente os hagiólogos os fizeram filhos de um senador romano e os imaginaram em Roma, em colóquio com um anjo que os mandou a Lisboa para confessarem a fé. Esta lenda refletiu-se na iconografia: os três mártires são apresentados em traje e hábito de romeiros, com bordões compridos nas mãos, como pode ver-se num belo conjunto de três imagens, do Século XVII, expostas ao culto na Igreja do extinto Mosteiro de Santos-o-Novo, em Lisboa, que guarda as relíquias dos mártires.»
(Extraído de Hágios da Trindade)

Cap. IV - Da Porta de D. Roque ao Rossio

O Hospital Real de Todos-os-Santos - iniciado por D. João II e continuado por D. Manuel (que lhe ornamentou a porta principal - era considerado um dos mais modernos da Europa e recebia visitas de médicos de todo o mundo. Tinha médico e enfermeiros permanentes e uma ala para doenças venéreas, contraídas nas viagens pelos países exóticos; além de alas separadas para homens e mulheres. Esta fachada era a do Rossio e conjunto de edifícios estendia-se por toda a Praça da Figueira, com jardins de plantas medicinais. Era para ser uma escola de medicina, mas os físicos (teóricos) e os cirurgiões (e barbeiros) que "sujavam as mãos" na prática, não se entenderam e a escola não foi avante. Desapareceu consumido pelas chamas, antes do Terramoto de 1755.


"A construção iniciou-se na manhã de 15 de Maio de 1492 com o lançamento da primeira pedra na presença do Rei D. João II, onde actualmente é o largo do Rossio, tendo a obra ficado a cargo do mestre arquitecto Diogo Boitaca sobre projecto de Mateus Fernandes seu sogro, foi inaugurado em 1501 já no reinado de D. Manuel I, o objectivo era juntar num só edifício os pequenos hospitais espalhados por Lisboa, cidade que na altura tinha 60.000 habitantes, que satisfaziam as populações mais pobres da cidade." (Ver mais Aqui)

Por enquanto, caríssimos leitores, estas imagens são as que têm «vidas» mais secretas e interessantes.
E termino com a pergunta de sempre: Quem é o narrador de Memórias de Estalo?

18/10/2010

Memórias de Estalo - Capítulo IV

DA PORTA DE S. ROQUE AO ROSSIO

Vista assim do alto, sem maus cheiros que nos apoquentem, é uma cidade de sonho, iluminada a azul, branco e oiro, com suas desvairadas colinas a imitarem a curva ondeada das marés. Do outro lado do vale, a Mouraria e a Judiaria derramam pela encosta do Castelo a espuma do seu casario branco e cerrado, a fervilhar de vida e de gentes de estranhos trajos e costumes. Lisboa mede três mil e cem passos de comprido, mil e quinhentos de largo e de cerco em roda sete mil passos, sendo toda edificada em lugares altos e baixos, de tal feição que nunca a podemos ver toda duma parte. Do lado do mar tem vinte e duas portas e da parte de terra dezasseis, contando por todo o muro alrededor setenta e sete torres…

Ai, não queres trabalhar, meu tinhoso? Vilão forte, pé dormente, já lá dizia meu padre! Hei-de deixar-te uns dias em jejum, a ver se ficas mais ligeiro”. Desta vez a ponta do chicote morde-me as costelas, a mostrar que meu amo está prestes a perder as estribeiras e a prudência aconselha-me a obedecer: Quem quer fogo busque a lenha, porém eu já não tenho idade para guerras nem revoltas. Lanço-me num passo trigoso encosta abaixo, para o Rossio, embora com cautela, não vão as çapatas escorregar no esterco do caminho. Apesar das mil negras que andam pela cidade com suas canastras a alimpar as ruas, o lixo parece não ter fim, por serem tantas as gentes e as alimárias de transporte, bem como rebanhos de cabras e ovelhas, perros, gatos, porcos, patos e galinhas, todos fazendo seus feitos onde lhes dá a gana. Mea culpa… té eu já me tenho aliviado, embora a contra gosto!

Dos lados do monte de Santa Ana, vem o fedor do açougue duma praça onde se mata e esfola o gado que pasta na encosta e se corta a carniça para vender na cidade. Por aqui já é basto o mosquedo a atazanar homens e bestas, té parece a Rua de Mata Porcos! Pardeus, como as moscas me fazem raivar! Dou-me pressa d’avançar que o Rossio é lá ao fundo e já se ouvem os pregões de “Água fresca! Água fresquinha!” das negras aguadeiras que são mais de mil, vendendo água ao pote e quartas, por toda a cidade. Muitos outros pregões se soltam, a despertar Lisboa do seu sono, cantigas de mulheres cativas e forras a oferecer pelas ruas e às portas das casas, em panelas grandes e muito limpas, aletria, arroz doce e marmelada, frutas secas, cozidas ou frescas. Assim que os meninos as ouvem, se alevantam da cama chorando por dinheiro a seus padres e madres (menos mal que é isso por vezes seus almoços, que pobreza e alegria nunca dormem numa cama). Outras muitas vendem toda a sorte de viandas, peixe e marisco: cuscuz e chícharos , camarões, berbigões e caramujos , cousas tidas em muito apreço pelas gentes da cidade, que tudo compram, pese ieramá a carestia da vida.

Desemboco por fim no Rossio, passado um pouco já do galante Paço dos Estaus, mandado fazer pelo Infante D. Pedro, filho d’El-Rei D. João I, para dar pousada e gasalhado aos príncipes e embaixadores que vêm a Lisboa. Contra o Oriente, está a Igreja de Nossa Senhora da Escada e o Mosteiro de S. Domingos, logo seguido do sumptuoso Hospital de Todos-os-Santos, o nosso destino. O Rossio é um formigueiro de gente, por ser hoje terça-feira – dia da grande Feira da cidade – e só a muito custo rompemos por entre a multidão, seguindo para as arcadas do Hospital onde, depois de deixar a carga à porta das cozinhas, vou poder finalmente beber água do Chafariz, comer alguma cousita e descansar desta minha trabalhosa viagem.

Nota da autora: Ainda não descobriram quem é o narrador? Até agora só Maria Fernanda Pinto andou por perto... quase a chegar lá . Ninguém mais quer dar um palpite?

16/10/2010

O que dizem os meus Leitores

Em tempo de grande actividade editorial e de movimento nas livrarias para o Natal que se aproxima, a Editora Ésquilo está a preparar a 3ª edição de "O Espião de D. João II" e promete ter nas livrarias o meu último livro, "O Romance da Bíblia". Aqui vos deixo as mais recentes opiniões e críticas dos leitores, repescadas na blogosfera:

"E muito obrigado pelos trabalhos literários de investigação que nos têm acrescentado conhecimento sobre o nosso querido Portugal".
Manuel Patarrana - Facebook 23/10/2010


Sobre O Espião de D. João II

"Gosto muito da sua escrita. Projecta quem lê no espaço e no tempo".
"Adorei ler o seu livro Deana! É fascinante. Um abraço".
Gisélia Gracias Ramos Rosa 24/10/2010

"Em O Espião de D. João II, Deana Barroqueiro leva-nos a viajar pelos continentes africano e asiático à boleia de Pêro da Covilhã, na sua demanda pelo caminho das Índias e do Preste João. Esta viagem é repleta de aventuras e percalços prontamente superados pelo protagonista e pelos amigos que vai fazendo ao longo da viagem. Além das aventuras da história, há a aventura para o leitor, deixado em tom de desafio pela autora: a fala do séc. XV, juntando ainda muitas expressões da Beira-Baixa (simpaticamente explicadas em pequenas notas de rodapé).
Na minha opinião, esta ideia da autora de escrever os romances com o português da época, transporta-nos para dentro do livro e leva-nos a imaginar que viajamos no séquito de Pêro da Covilhã. A autora descreve tudo com bastante pormenor, conseguindo a proeza de não tornar a leitura monótona, de tal forma que consegui visualizar os ambientes, perceber os usos e costumes da época.
Como alguém disse na página do Facebook da autora, fiquei “refém do livro” e da escrita (entretanto já li D. Sebastião e o Vidente, comprei O Navegador da Passagem e O Romance da Bíblia está na lista das próximas aquisições).
O "Espião" foi uma lufada de ar fresco, a grande maioria (para não dizer todos) os romances históricos que li, contam a mesma história de Reis e Rainhas e as intrigas das suas cortes. Ainda traz uma "lição" que serve bem para os dias de hoje, o convívio pacífico entre religiões. Do grupo de amigos no nosso espião fazem parte muçulmanos e judeus."
Susana Henriques - rating: ***** 03/09/2010

Goodreads - rating: Susana, Maria e Biblioferreira****+

"Estou a ler o livro ainda e a gostar imenso. A sua escrita é clara, sugestiva e desperta a curiosidade. Ainda mais sabendo que assenta em factos históricos". Gisélia Gracias Ramos Rosa 16/06/2010

"O livro O Espião de D. João II de Deana Barroqueiro, é merecedor de menção no que toca à ficção histórica em língua portuguesa, na actualidade".
Margarida de Castro 05/04/2010


Sobre O Romance da Bíblia

"Acabei de ler O Romance da Bíblia, da Deanna Barroqueiro e amei!
A dedicatória conquistou-me logo. Ia em busca de um livro para oferecer a uma amiga pelo aniversário e veio o seu - vezes dois! Porque ofereci um e trouxe outro exemplar para mim. Porque delas também reza a História."
ianita (Paraíso do Inferno)5/08/2010

"O romance é uma reedição de outras duas obras da autora sobre lendas, parábolas e histórias do Antigo Testamento, com as suas personagens sacralizadas, mas escrutinadas do ponto de vista feminino e focando a condição da mulher. Foi esta a razão porque me interessei por ler este livro. Assim, descobri um romance sensual, erótico, poético e muito violento, sobre uma época em que a falta de ética e moral originava um tremendo sofrimento e luta constante pela sobrevivência e integridade. Não é possível o distanciamento, porque existe a clara noção de que não se trata de mera ficção, porque sabemos que esta obra é resultado de uma apurada pesquisa e investigação sobre o que existe documentado. As mulheres eram propriedades, adquiridas por contrato, um bem que se dá, se troca ou se vende, segundo o interesse da família. Não eram consultadas ou ouvidas sobre os seus sentimentos e as suas vontades e o seu destino era consoante outros o designassem. Ora uma maldição, ora uma bênção, conforme a sua beleza, sagacidade, ou sorte. Por tudo isto, penso que este livro é realmente de interesse colectivo. Absolutamente."
Helena (Segredo dos Livros)11/09/2010

"Um galeria de mulheres do Antigo Testamento pintadas com mestria pela autora e que nos dão um retrato diferente daquele que lemos na Bíblia. Uma Sara (mulher de Adão) libidinosa e sedutora, a mulher de Onan cheia de malícia e ardis... para só citar 2 de tantas que a Deana nos traz com outras cores. Gostei muito. Um livro que se lê muito bem, mas que denota um profundo conhecimento da Bíblia e uma exaustiva investigação em textos da época, com a citação de vários poemas encontrados em livros antiquíssimos e de que gostei muito.Recomendadíssimo!"
Maria Afonso (Segredo dos Livros)20/06/2010

"Diz Maria Teresa Horta no prefácio que a Bíblia nos apresenta um “Velho Testamento moralista, repleto de anciãos preguiçosos, libidinosos e lascivos, de brutamentes ignorantes e violadores, convocados por um Deus irado frente à própria incompetência e à própria imagem, segundo a qual teria criado o homem, de quem afinal não gosta e castiga.” É contra esta visão que a autora se insurge, trazendo para a ribalta um lote de mulheres que, ao longo da história do povo judeu, estiveram longe de ser as esposas fiéis, as concubinas dóceis e as escravas submissas."
Sebastião Barata (Segredo dos Livros) 07/06/2010

Nota: Podem ler e ouvir excertos e mais críticas do romance em http://romancedabiblia.blogspot.com/

11/10/2010

Memórias de Estalo - Capítulo III

DA ESPERANÇA A SANTA CATARINA

Com estas remembranças nem dei pela subida empedrada e retorcida junto ao Cruzeiro da Esperança que nos leva do Paço do Duque de Aveiro ao arejado outeiro do Convento de Nossa Senhora da Piedade de Boa Vista, mais conhecido por Santa Maria da Esperança. Casa religiosa de franciscanas, de mui simples aparência, mas mui rica paredes adentro, foi fundada há bem pouco tempo por D. Isabel de Mendanha para aí albergar algumas donas nobres anojadas do mundo e donzelas de bom nome e minguado dote. Aqui há-de meu amo deixar muitos e bons recados dos nossos fradinhos Jerónimos para as dedicadas irmãs e arreceber grande soma de produtos de seus belos vergéis, hortas e vinhas – uma generosa oferenda para levar ao Hospital de Todos os Santos.

Enquanto espero meu amo, vou respirando regalado os bons ares destas ricas lavras de cheirosos frutos e bebo uma pouca d’água fresca no Poço da cerca da Esperança. Não é de espantar que tantas casas de gentes-d’algo se hajam começado a alevantar por estas partes, que seus donos mais não desejam que fugir os ares corruptos das pestes e das sujidades e maus cheiros da cidade, causadores de todas as pragas de rataria, mosquedo, piolhedo e demais bichedo.

Depois da carga aviada, de muitas sombreiradas e outros tantos “Deus vos guarde, minhas santinhas”, de meu amo às boas freirinhas da Esperança, que nos lançam muitas bênçãos de “Ide-vos muito embora, João do Restelo!” e “Que o Senhor vá em vossa companha!” e também: “Olhai, que não vos olvide as cartas para o Prior e para os nossos bons irmãozinhos Jerónimos!”, volvemos à estrada que nos vai levar às Portas de Santa Catarina.

Prestes se faz sentir o cheiro endemoninhado do Poço dos Negros, uma cava ou tranqueira para onde lançam os corpos dos escravos negros que se finaram sem ser baptizados e não têm direito a ser enterrados em chão sagrado. Triste destino, o destas pobres gentes, arrecebendo pior tratamento que perro ou sendeiro, salvo seja! E como a vala está tão cheia que só a muito custo logram cobrir os corpos dos negros, El-Rei ordenou de se abrir outra, aí mais arriba, à qual deram o nome de Poço Novo. Meu amo cobre os narizes e a boca com um suadeiro, mas eu, que o não posso fazer, vou de ventas ao léu e arrecebo em plenos focinhos um fedor tão abominável que me revolve as tripas e me traz amargos à boca e tremeduras de sezões.

Mareado de morte, lanço-me em carreira desenfreada, sem atender aos brados do meu amo, e só paro lá bem no alto, à entrada da Vila Nova de Andrade[1]. “Pardeos, Estalo, ervilhaste[2]?! Que bicho te mordeu, zamguizarro[3], pra assim me deitares a perder?” grita João do Restelo inda mal recobrado do susto e todo em sanha: “Não tardas em levar umas trochadas nesse lombo, para teres tento no serviço”. Encolho-me à passagem do varapau, que me zune rente às orelhas, mas meu amo parece contentar-se só com o ameaço e eu posso apreciar à minha guisa o quão fresca e airosinha é esta novíssima Vila, cercada pelas ricas herdades de Santa Catarina, Moinhos de Vento e S. Roque.

Respiro por ambas as ventas, todo consolado, o ar perfumado destas hortas de semeadura, vinhas e olivais, agora pertença da família Atouguia[4] que as comprou, a dez réis de mel coado, ao riquíssimo astrólogo d’El-Rei D. João II, o judeu Guedelha Palaçano, que de tudo se desfez para poder escapar à Santa Inquisição. O mesmo destino levaram suas herdades do Aterro, da Boa Vista, da Esperança e de S. Bento, que disto muito falam os freires Jerónimos, assaz satisfeitos em ver perseguido a um inimigo de Cristo, para mais enriquecido à conta de feitiços e enganos feitos a bons cristãos.

Vêem-se algumas casinhas, cerca da ermida de Santo António[5] que servem de morada a capitães, mestres, calafates, tudo gente do mar que fez dinheiro no Brasil ou na Índia e tem vindo a subir da Boa Vista para o alto, té à Torre d’Álvaro Paes e sua Porta de S. Roque na muralha d’El-Rei D. Fernando, a 200 passos do Convento da Trindade onde está a Inquisição. Neste cômoro[6] de olivais, depois da peste de 1506, fez-se um grande cemitério com nova ermida a S. Roque, o bom padroeiro dos padecentes da terrível trama[7], a qual está agora a cargo dos Padres da Companhia de Jesus[8].

Pela porta de S. Roque, ou do Condestabre[9] – pois foi Nun’Álvares Pereira quem comprou aos frades da Trindade o olival de baixo para aí fazer o belo Convento do Carmo – passamos a primeira cerca da cidade, sendo meu amo mui bem saudado por um seu primo besteiro, que é guarda da porta e nunca lhe cobra dinheiro da portagem. Do cimo do cômoro afemenço o Rossio com o Paço dos Estaus, a Igreja de S. Domingos e o magnífico Hospital de Todos os Santos que é a cousa mais digna de ser vista na nossa cidade. “Andor, andor, mangano, que se faz tarde! Mal pecado! Que tens tu, que não te mexes?!” Mau grado a grita de meu amo ( sou entirrado como uma mula e faço tão só o que me dá na real gana! ), atardo-me inda um pouco a mirar o precioso coração de Lisboa.

Notas:
[1] Urbanização das terras de Bartolomeu de Andrade.
[2] Perdeste o siso; endoidaste.
[3] Estouvado, sem tino, doidivanas.
[4] Outra fonte apresenta D. Luís de Ataíde como comprador das quintas.
[5] Ermida dos finais do sec. XV, onde hoje está a Igreja do Loreto.
[6] Talvez na actual Calçada do Combro.
[7] Peste.
[8] Em 1553, no tempo de D. João III, no lugar onde mais tarde será construída a Igreja de S. Roque.
[9] Condestável.

07/10/2010

Broas de Mel (Alvaiade - Castelo Branco)

Atendendo ao sucesso do Bolo de Mel, das terras de Pêro da Covilhã e de Afonso de Paiva, deixo-vos aqui outra receita antiga da família Pires Ribeiro:

Broas de Mel
1 malga (caneca ou taça) de ovos inteiros
1 malga de azeite
1/2 malga de açúcar (a original leva 1 malga, mas ficam muito doces)
3 colheres de sopa, bem cheias, de mel
1 colher de chá de fermento em pó
1 casca de limão
Canela a gosto
3 malgas (cerca de) de farinha de trigo

Bate-se os ovos inteiros com o azeite, o açúcar, o mel, a casca de limão e a canela e, em seguida, mistura-se a farinha com o fermento. Deita-se a massa às colheres em tabuleiros untados com azeite e polvilhados de farinha, deixando uma boa margem entre elas porque crescem bastante (a massa não deve ficar muito corredia, para não se espalhar muito e fazer bolos muito finos, terão de corrigir com a experiência).
Cozem em forno bem quente, previamente aquecido, até crescerem (devem ficar com cerca de 7 cm. de diâmetro e bem douradas, como as da foto que acabei de fazer). São fáceis de preparar e rendem muito.
Bom apetite!

04/10/2010

Memórias de Estalo - Capítulo II

SANTOS-O-VELHO

Asinha galgamos a meia légua que nos separa da porta sul da cidade, com o sol a romper, anunciando que o dia há de ser de truz e Lisboa parece saída de um banho de ouro na rua dos ourives. Como todas as manhãs, por estes caminhos, corre uma bicheza de gentes rumorosas e açodadas que nos fazem atardar o passo.

Muitos são almocreves como meu amo, com suas bestas carregadas de fazenda que vêm vender à cidade, mas há também estrangeiros à cata de fortuna, vendedeiras e oficiais de muitos ofícios que moram fora de portas e vem fazer por sua vida. Há o costumeiro alvoroto à entrada, com muitos empuxões, correrias, grande grita de “À que d’el-rei!” e larga soma de doestos e pragas, quando os soldados e beleguins carregam sobre os ajuntamentos, semeando cacetada de criar bicho. Rompemos por este rio de gente com algum perigo e grandes trabalhos.

“P’ra frente, Estalo!” grita meu amo, exasperado: “Abre-me caminho, home, não sejas cebolo! Uxte, Uxte, sendeiro!”. E aquele seu estalar da língua contra os beiços ressoa no ar como um açoute, fazendo estremecer bestas e gentes que logo se apartam abrindo estrada para a nossa carrocinha.

Por fim, entramos na cidade pelo caminho que leva ao Paço Velho e avivamos o trote que a manhã já rompeu e, por ser a primeira terça feira depois do dia de Todos-os-Santos (um mui solene feriado de procissão e missas de finados, no qual nada se pôde mercar) haverá hoje Grande Feira no Rossio onde se há-de comprar e vender dobrado. Ora aí temos o Paço, mas não vamos parar que não há recado para entregar e de verduras não hão mister, pois têm mui boas e frescas hortas com seu hortelão.

O formosíssimo Paço Real de Santos-o-Velho, assim chamado por nele se haverem guardado os corpos de três Santos Mártires – os irmãos Veríssimo, Máxima e Júlia – do tempo dos Romanos que os perseguiram e mataram com grande crueza. Dá gosto saber todas as histórias da cidade de Lisboa, pois assim, conhecendo-lhe o coração, sempre a vejo com olhos de maior amor. Grande proveito tenho tirado destes meus serviços aos Freires do Mosteiro dos Jerónimos, pois são mui sabedores e sempre andam praticando sobre todas as cousas da vida, do céu e da terra e eu não tenho mais que ouvir e aprender. Assim também ouvi falar que os corpos dos Santinhos já aqui não repousam, pois foram trasladados para Santos-o-Novo, no tempo de D. João II e da piedosa Rainha Dona Leonor, com muita despesa, em devota e solene procissão.

Dizem que foi o primeiro rei de Portugal quem aqui ordenou de fazer uma Igreja, que seu filho, D. Sancho I, doou aos irmãos da Ordem de Santiago para aí fazerem suas casas e viverem com suas mulheres. Quando os Cavaleiros partiram para a guerra contra a Mourama, suas mulheres tomaram a seu cargo o lugar, criando uma casa religiosa, o Mosteiro de Santos, e tomando o nome de Comendadeiras de Santiago.

Há alguns anos (inda eu não nascera) estas Comendadeiras deixaram o Mosteiro indo para a parte oriental da cidade, fundando aí a Casa Religiosa de Santos-o-Novo, onde inda vivem. Então, o rico-homem Fernão Lourenço tomou o sítio de aforamento às ditas freiras, erguendo aqui um maravilhoso paço que El-Rei D. Manuel cobiçou e ao qual deitou a unha, dando-lhe o nome de Paço Real de Santos e usando-o para receber suas magnas embaixadas, como a do Prestes João das Índias que dizem ter sido cousa espantosa de se ver e lhe deu muita fama. E também Mestre Gil Vicente apresentou aqui à mui nobre Rainha Velha D. Leonor e a El-Rei D. Manuel o seu Auto da Fama, no ano de 1510, se me não engana a memória. Agora, El-Rei D. João III fez dele sua residência e aqui passa alguns meses do ano, assistindo à chegada e partida das naus e escutando o Tejo a bater docemente de encontro aos muros do jardim.

(Continua...)

01/10/2010

Surrealismo - Un Cadavre Trop Exquis


Assisti ontem, na Perve Galeria, à inauguração da espantosa exposição das obras de três ícones da pintura surrealista portuguesa: Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles e Benjamim Marques (os dois últimos radicados em França).
Num espaço belíssimo, em pleno coração da Alfama (por favor, não deixem de lhe fazer uma visita!), as obras dos três mestes - pinturas, gravuras, desenhos e esculturas - estabelecem um diálogo de contrastes e harmonias, que só se consegue em sonhos ou pela magia de uma imaginação criativa... como a destes artistas.

No pequeno, mas muito cuidado catálogo, diz-nos Carlos Cabral Nunes, curador da exposição:
"Trata-se, especialmente, de uma mostra que reune, pela primeira vez em Portugal, três importantes Surrealistas portugueses: Cruzeiro Seixas (agora com 90 anos, foi fundador, com Mário Cesariny e demais companheiros, de Os Surrealistas - em 1949 realizam a 1ª exposição), Isabel Meyrelles (responsável, com Natália Correia, do mítico bar Botequim) e Benjamim Marques (membro do Grupo do Café-Gelo, liderado por Cesariny, nos anos 60; representou a França no seu pavilhão na Expo 98)".

Do catálogo, aqui vos deixo ainda algumas frases do texto de Françoise PY, Mestre de Conferências da Universidade de Paris:

Cruzeiro Seixas - Sem Título
Desenhos e guaches "realizados num estado quase alterado que favorece o automatismo. O tipo de desenho muito puro de Cruzeiro Seixas é essencialmente visionário. O seu tipo de traço contínuo junta elementos gráficos com figuras compostas, em metasmorfose perpétua. (...) Essas criaturas míticas, andróides e animais, estão simultaneamente animadas e inanimadas, objectos e biomórficas, originam-se umas às outras, poder-se-ia dizer que tentam povoar um universo que estava vazio".

Isabel Meireles

"Isabel Meyrelles encontra soluções inéditas para a oposição entre elementos biomórficos e elementos geométricos. Seios ou uma cara surgem de uma superfície lisa como vidro. Por vezes um objecto concreto (instrumento de música, revólver, degraus de escada) serve de matriz conceptual da obra. A forma de um violancelo inspirou frequentemente os surrealistas pela sua analogia com o corpo da mulher. Isabel Meyrelles insere-se nesta tradição, joga com volumes puros e mostra um corpo feminino coroado com uma cabeça de pássaro".

Benjamim Marques

Benjamim Marques é um grande viajante, herdeiro da tradição dos navegantes portugueses do século dezasseis. (...) As suas telas são cartografias imaginárias onde surgem ilhas míticas, ou constelações, ou planetas - Marte, o vermelho, por exemplo. Toda uma série de trabalhos está consagrada às Galáxias: viagem interior e exploração visionária do infinitamente grande".

EXPOSIÇÃO A NÃO PERDER!

De 30 de Setembro a 30 de Outubro

Perve Galeria - Alfama: Rua das Escolas Gerais, nº 17,19,23 - Lisboa

28/09/2010

Memórias de Estalo - Capítulo I


DE BELÉM A SANTOS-O-VELHO


O breu da noite já se esfuma e não tarda a clarear a manhã. Arrimado ao muro deste grandíssimo Mosteiro de Santa Maria de Belém, no surgidouro[1] do Restelo, vou arrecebendo na carrocinha a carga de verduras e frutas do quintalejo que os bons freires Jerónimos deixam cultivar a meu amo a troco d’alguns serviços e sinto-me entanguecido[2], com os costados húmidos pelo chuvisco geeiro[3] vindo do mar ali tão cerca. O matabicho costumeiro destas albas de Novembro assaz frias soube-me a pouco, à míngua de castanhas, que este ano as geadas foram bastas e nos castanheiros os ouriços não medraram. Ora sus ! Quem muito pede… muito fede. À cautela deixei de banda umas poucas de favas para ir dando algum trabalho às queixadas e entretendo o caminho.
Trigoso[4] vem meu amo e com razão que a jornada até à Ribeira de Lisboa tem a lonjura de três mil passos, muitos por ásperos carreiros, que a direito nos tolhe o mar o caminho e há que entrar na cidade pela porta dos Paços de Santos-o-Velho. “Desenguisa-te, desgorgomilado[5], que quem não trabuca não manduca!” brada-me com fingida sanha, por ser homem d’ ânimo aprazível e faceiro. “Uxte! Uxte! que se faz tarde!” E lá vem o estalido da língua, como só ele sabe fazer, qual estoiro de petardo no silêncio da alvorada, não havendo mula ou jumento, por mais entirrado[6] que seja, que ao ouvi-lo não se meta a caminho, tão esforçado, como se disso dependesse a salvação de sua vida. Rompemos, pois, num passo vivo que a carrocinha não vai cheia e os mercaderes não esperam, pois lá diz o dito que "quem não parece[7], esquece".
Ladeando o muro, e muito antesde dobrar a quina do Mosteiro, afemenço[8] o vulto da Torre de S. Vicente a que chamam de Belém, toda em pedra de cantaria. Tem quatro pisos, mas é tão formosa e airosa que parece mais pequena, feita assim, sobre rochas, mar dentro. Guarda o Mosteiro e o porto de Lisboa, sempre de vigia à passagem estreita, para que nenhuma nau se possa acercar sem seu consentimento.
Agora, no lusco-fusco da alba, abre os olhos e a boca em jeito de sono ou pasmo, mas nada lhe passa desapercebido.

A frontaria do Mosteiro de Santa Maria de Belém alteia-se negra e temerosa, pois a hora é de avantesmas e de maus encontros e, a pesar do varapau do meu amo e da sua sobeja Tamanho do tipo de letraarte de varejar um terreiro de malandrins, um arrepio de medo eriça-me os pelos do toutiço. “Toma-me tento ao caminho, ó malparido, que a carroça vai de banda!”, brada-me iroso do meu tropeço, que tão pouco lhe praz a escurana e o que ela pode esconder.

A porta travessa, virada para o Tejo, é a mais formosa e melhor lavrada do Mosteiro, abrindo para uma comprida e galante varanda de pedra talhada, de longo do caminho público até ao cabo[9] de todos os jardins e casas do convento. Tendo as gentes passo[10] às suas arcadas, estas oferecem guarida e pousada, durante a noite, a grande soma de matelotes[11] e forasteiros que saem das naus surtas aqui no cais. De dia, é um ferver de vida com as idas e vindas dos mercadores no concerto de seus tratos de especiarias, ricos panos e pedraria da Índia ou de escravos da Guiné.

El-Rei D. Manuel começou de fazer este Mosteiro no ano de 1499 – no lugar de uma ermida do Infante D. Anrique[12] a Nossa Senhora da Estrela –, para celebrar a chegada de D. Vasco da Gama, depois de descoberta a derrota para a Índia. Espantoso feito, sem dúvida, que deu causa a muitas das fortunas, mas também das grandes misérias, do presente! Não poupou El-Rei Venturoso despesas para a edificação deste maravilhoso templo que ele elegeu para jazigo de sua sepultura, mas que não viu acabado por se ter, primeiro que ele, acabado sua vida. Agora seu filho, El-Rei D. João III, o está acrescentando e levando a cabo, como se pode ver pelos estaleiros (a esta hora sem viv’alma).

Na porta travessa que está contra a praia, por ser a mais principal em vista, mandou El-Rei D. Manuel pôr a imagem do Infante D. Anrique, como primeiro fundador desta casa, sobre a coluna do meio, armado com sua cota de armas e a espada nua na mão, alevantada para riba, em sinal de vencedor, que é cousa maravilhosa de se ver! Inda andam nas bocas do povo as trovas de Resende feitas à memória de D. Manuel:

“Rei e Príncipe seviu
De Castela, e lá andou,
Di a pouco descobriu
A Índia, e a tomou,
Como todo o mundo ouviu,
Tomando reinos, e terras
Por mui guerreadas guerras,
Ganhando toda a riqueza
Do Soldam e de Veneza,
Subjugando mares, serras.

Vimos-lhe fazer Bethleem
Com a gram torre no mar,
As casas do almazem
Com armaria sem par
Fez só el Rei que Deos tem:
Vimos seu edificar,
No Reino fazer alçar
Paços, igrejas, mosteiros,
Grandes povos, cavaleiros,
Vi o reino renovar” .

Mas o grandíssimo Mosteiro lá ficou para trás, apequenando-seapequenando-se na lonjura do caminho, e corremos já meia légua por campos e pastos, entre quintas de ricas casas de lavoura. Os vergéis são bastos e a fruta cheirosa, de criar apetites e saliva na gorgomileira. De todas as vezes que aqui passo, aboco uma maçã e a vou roendo e masticando com demoradas delícias, porém, hoje, não me sorriu a Fortuna, que meu amo nos desviou na pressa de ganhar caminho e cruzamos terras de pastos rasos e ralos do retouçar continuado de muitos rebanhos de cabras e ovelhas, que tudo engolem e nem os talos deixam. Arranco, de passagem, uma verdurita que lhes escapou e a vou mordiscando, que não há melhor cousa para refresco da boca e do bafo que um ramito verde acabadinho de colher! E, como soe dizer-se, "segundo são os tempos… assim hão de ser os tentos." Paciência, pois, e toca a andar!

(Continua...)

[1] Encoradouro.
[2] Tolhido de frio, enregelado.
[3] De geada, de gelo.
[4] Apressado.
[5] Desembaraça-te, comilão!
[6] Teimoso.
[7] Aparece
[8] Avisto.
[9] Extremo.
[10] Acesso, passagem.
[11] Marinheiros.
[12] Infante D. Henrique, filho de D. João I e impulsionador dos Descobrimentos.

Bolo de Mel - o maná dos meus heróis

Nas apresentações mais informais dos meus romances, na Fnac ou no Centro nacional de Cultura, para evocar o "espírito de época", tenho oferecido aos meus amigos um Bolo de Mel, de Castelo Branco - receita antiquíssima da família de meu marido - que (quase poderia jurá-lo, sem receio de mentir), deve ter feito parte da dieta de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, um manjar delicioso pelo qual os dois heróis devem ter suspirado, nos momentos de maior saudade e privações, durante as suas andanças pelo Oriente.
Algumas leitoras pediram-me a receita, por isso aqui fica, com umas "dicas" para o bom sucesso:

Bolo de Mel

2 dls de mel
2 dls de azeite
Meia chávena de açúcar
200 g de farinha (com 1 c. de chá de fermento)
6 ovos
1 casca de limão
Canela (pó) a gosto

Bate-se as 6 gemas com o açúcar, o mel, o azeite, a casca de limão e canela (1 c. de chá), até ficar um creme grosso, quase branco.
Junta-se as claras batidas em castelo forte, alternando com a farinha, a que se adicionou o fermento.
Deita-se numa forma grande, com buraco, untada e polvilhada de farinha. Vai a cozer em forno quente (a 180 graus) durante 30 m., baixa-se então um pouco a temperatura (dependerá do forno) e deixa-se cozer ainda cerca de 20 m.
Cresce muito. Deixar-se arrefecer um pouco para desenformar.

Bom apetite!

27/09/2010

Memórias de Estalo - Crónica de uma Lisboa desaparecida


PRÓLOGO


os mui insignes Leitores da nobilíssima Nação de Portugal, venho submeter esta obra, fruito de aturado estudo e dos bons ensinamentos que tenho recebido, com muita humildade e gratidão, de tantos e tão grandes Mestres, vivos ou já desaparecidos desta Terra, cujas obras foram feitas com grandíssimo custo e sacrifício de seu parco descanso e lazer, a fim de acrescentar e creditar nossos saberes, pera melhor proveito de todos aqueles que acham prazer nas histórias antigas de sua cidade e de seus heróis.
Obrinha miúda e de mui pouca valia, estas memórias de um rústico peregrino, fruto tão só de um saber de experiências feito e de muito amor por uma cidade sofrida, como as gentes que nela vivem e ganham sua soldada com o suor de seu corpo, cidade de coração valoroso, capaz de renascer das chamas, dos terramotos, dos dilúvios ou maremotos (procedam eles da natureza ou do mesmo homem), prestes a chorar de alegria ou a rir entre lágrimas…

cronista desta viagem por Lisboa, em um tempo doutros tempos, é um estranho sujeito: português sem o ser, fazendo parte da sua cidade, embora dela excluído, dando-lhe toda uma vida de duro labor, mas sem dela receber gratidão ou reconhecimento como um ser capaz de sentir, sofrer e amar.
Olhar diferente, o desta criatura sem estudos, mas a viver em soledade meditativa, no retiro de um Mosteiro, ouvindo as historias e emborilhadas dos fradinhos Jerónimos e tudo gravando em sua prodigiosa memória. Essa atenção ao que o cerca e o amor por uma cidade em crescimento, toda cheia de cousas e gentes estranhas nunca antes vistas e capazes de espantar o mundo, são aquilo com que vai entretendo o seu espírito durante o longo percurso de sua jornada.

ão se deve esperar, pois, deste Cronista, a prosa elaborada de um João de Barros, mas tão só a de um Fernão Lopes, Gil Vicente ou Gaspar Correa, naquilo que há de mais popular em suas linguagens, das quais, na traslação destas memórias, não deixei de cometer erros e usar algumas variantes.

Vale.

No Outono do presente ano da graça do Senhor .

Galerias Romanas da Rua da Prata

Vou morrer sem as ver!

Há anos que tento, em vão, visitar estas catacumbas da Rua das Prata, mas, mesmo indo de manhã, as bichas são imensas, o que implica estar horas de pé, a avançar a passo de caracol, provação impossível para a minha idade e péssimo estado da minha ossatura.
Abriu durante três dias - sexta, sábado e domingo passados - mas, antes do meio-dia de Sábado já tinham fechado a fila, que chegava ao Rossio, embora a última visita fosse às 17.30 h. Eu e o meu marido desistimos, com um sentimento de grande frustração. Morreremos sem as ver...

Abre apenas uma vez por ano. Bem sei que é tarefa difícil, permitir o acesso ao local, porque é necessária a intervenção dos bombeiros que têm de esgotar a água que invade todo aquele espaço. Mas, não seria possível mostrá-las, ao menos duas vezes ao ano?
Podiam cobrar bilhete, como em qualquer museu ou local arqueológico, permitindo a mais portugueses e a muitos estrangeiros, que não se importariam de pagar, visitá-las.

Para nos consolarmos da nossa frustração, fomos dar um passeio por essa bela colina de Lisboa que vai da Igreja da Madalena até à Sé, de que tanto tenho falado nos meus romances. Visitei de novo a Igreja da Madalena, passei pela Rua das Pedras Negras onde vivia o astrónomo e físico de D. João II, D. Rodrigo, dito das Pedras Negras, em cuja casa Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva estudaram os mapas e itinerários para a sua viagem à Etiópia e Índia.

Espreitámos as escavações do Teatro Romano, que me pareceram estar no mesmo estado (parado) de há alguns anos. Há tanto dinheiro para construção de "elefantes brancos" como estádios de futebol desnecessários (que têm de ser demolidos, poucos anos depois da sua inauguração, por estarem às moscas e darem prejuizo) e para preciosidades do nosso património cultural, que poderiam gerar grandes receitas no turismo, não se consegue financiamento. Políticos incultos e medíocres fazem o país e a população à sua própria (estreitíssima) medida.

Terminámos o nosso passeio nos claustros da Sé, que nunca deixam de me impressionar pela sua beleza, apesar das escavações das ruínas arqueológicas, escondidas no solo deste país que é riquíssimo em memórias de todas as épocas e que devia ser um dos mais notáveis da Europa em vez de vir na sua cauda.

Deste passeio me veio o desejo de vos dar o meu conto "Memórias de Estalo" que aqui postarei em breve, se vir que há interesse da parte dos meus leitores .
Com um beijo fraterno
Deana

26/09/2010

Uma oferta de Outono...

Este ano, o meu livro novo - O Romance da Bíblia - saiu mais cedo, no início do Verão, por isso não terei outra novidade no Natal.

Assim, como me sinto em falta para com os meus Leitores - que me acarinham muito e animam a escrever -, gostaria de lhes oferecer um conto inédito que fiz, há uns anos, como um "fac-simile" de uma crónica antiga. Terá de ser postado em capítulos, porque é extenso e ilustrado.

"Memórias de Estalo" é uma crónica da Lisboa do Século XVI, cujo narrador faz uma longa jornada, através de lugares que ainda hoje existem e também de outros, muitos, que se perderam no desgaste do tempo e na incúria dos homens. Descrevendo o que vê e relembrando histórias.

Posso esperar que me escrevam a dar-me as vossas impressões, à medida que forem lendo? Gostaria de vos desafiar a fazerem o perfil físico e psicológico desse narrador, ao longo da narrativa, antes que ele (ou ela) vos seja revelado nos capítulos finais da história. E de o dizerem em comentários aos capítulos.

Os poucos amigos que conhecem este texto estão proibidos de revelar a identidade do cronista - e, desde já, vos aviso que não sou eu!

Começarei com o Prólogo e o primeiro capítulo das "Memórias de Estalo", já esta semana, se os meus amigos mostrarem interesse em os ler.

Um grande abraço para todos
Deana

25/09/2010

Obrigada, Bibliofiliacos!!!

Hoje (é já ontem) tive a agradável surpresa de ler uma crítica muito original ao meu D. Sebastião e o Vidente, no blogue Bibliofiliacos, cujos autores são insaciáveis devoradores de livros e excelentes divulgadores das obras de inúmeros escritores.

Conheci o seu trabalho devido a um episódio trágico-cómico, a que me referi no ano passado e volto a contar agora:
Ao publicar o meu "Espião de D. João II", sem ter qualquer culpa ou má intenção e longe de ter cometido crime de plágio, adiantei-me a um dos autores do blogue (Diogo) e "roubei-lhe" a personagem e a história que ele estava a escrever. O modo como expôs a sua frustração numa postagem do Bibliofilíacos era de um humor irresistível e eu tratei de fazer "mea culpa" e de lhe pedir perdão, que ele aceitou com a generosidade de um Príncipe. Assim nasceu a nossa amizade.

É um privilégio ter uma crítica de qualquer destes autores que são também escritores: Mr. Nonsense, diogo, deuS, Bybloz ou César. Assim aqui deixo as palavras de Mr. Nonsense ao meu D. Sebastião e o Vidente, que agradeço com muito carinho e emoção:


Mais um livro de uma senhora que só há pouco tempo descobri e cujo talento admiro muito.

Um pequeno aparte:
Todos os dias faço cerca de vinte e cinco quilómetros de autocarro para regressar a casa. Vinte e cinco quilómetros que se arrastam por quase uma hora com paragens “em todas as estações e apeadeiros”.
Costumo aproveitar essa hora para ler. Tranquilamente, deitando de vez em quando um olhar para fora para não deixar passar a minha saída.
E o último livro que li foi este “D. Sebastião e o Vidente”.
Acho que a melhor crítica que posso fazer a este livro é a seguinte:
Já por duas vezes ia falhando a minha paragem por ir tão embrenhado na leitura. A autora consegue a incrível proeza de nos colocar no centro da acção, de nos fazer sentir transportados aos anos e acontecimentos do reinado de D. Sebastião.
É verdade que o livro já tem uns anos (não muitos é de 2006) e por isso provavelmente vão ter sorte se o encontrarem – é um mal frequente nas nossas livrarias só se interessarem pelos últimos lançamentos – mas se o encontrarem não percam a oportunidade de o comprar e de o ler naturalmente…

São muitas páginas… São. É verdade (640) mas lêem-se de um fôlego tal é a capacidade da autora de nos cativar e prender quer aos acontecimentos quer aos personagens…
É creio eu tempo de dar voz aos autores que escrevem bem em português e que vão sendo esquecidos ou ostracizados ou simplesmente ignorados. E esta autora merece muito mais crédito e atenção do que lhe tem sido concedido.
Sim devemos apoiar os grandes nomes da nossa literatura mas não o podemos fazer à custa daqueles que livro após livro nos vão presenteando com verdadeiras pérolas (ou neste caso um colar de pérolas)...



Obrigada, Mr. Nonsense!
Para maior prazer e divertimento meu, a postagem crítica tinha vários comentários cheios de humor, que quem quiser bisbilhotar pode fazê-lo AQUI

04/09/2010

O Puzzle do Leitor


Neste momento, estou com dois livros "em construção", um com cerca de 100 páginas, que comecei depois de ter terminado "O Romance da Bíblia", e outro, que já convive comigo há alguns anos e tem 250 páginas. É um velho hábito meu ter duas obras em conversa ou em confronto uma com a outra, para não bloquear ou enjoar o tema. Não vou revelar o nome dos respectivos heróis (portugueses, claro, embora de duas épocas diferentes!), porque, tal como disse a um dos meus leitores no Facebook, as obras podem ficar pelo caminho, pois nem sempre conseguimos fazer o que desejamos. No meu caso, é a escrita que me comanda e não o contrário.

Escolhi dedicar-me ao romance que se "impôs" posteriormente (apesar de estar mais atrasado do que o outro) e terminá-lo primeiro, por tratar da expansão portuguesa no Extremo Oriente, a parte dos Descobrimentos que ainda me falta narrar, para que os meus leitores possam ficar com uma perspectiva global, assaz aprofundada da saga das Descobertas e do seu contexto temporal e espacial.
Espero concluí-lo em 2011 e posso garantir-vos, desde já, que herói é tão fascinante quão empolgantes são os sucessos que presenciou ou de que foi protagonista!

Disse-vos, num dos textos desta Conversa (gostaria muito que me deixassem aqui mais comentários, para o convívio não se reduzir a um mero monólogo e podermos estabelecer um verdadeiro diálogo), que construía os meus romances como um puzzle, mas deveria ter dito melhor: como peças de um puzzle que o leitor das minhas obras irá construindo a partir da sua própria leitura. Encaixando as peças segundo o seu conhecimento do tema, ora detectando as pistas que o narrador lhes dá e as suas
"piscadelas de olho" cúmplices que remetem para uma abundante intertextualidade (não só de obras escritas, mas também de intertextos culturais, sociais, geográficos e todos os que contribuem em qualquer época para a vida dos povos), ora seguindo o percurso de algumas personagens que se passeiam por mais de um romance, tal como era possível encontrá-las em companhia umas das outras, nas naus ou nas caravanas das viagens por terra e por mar.
Enquanto autora, é esse o meu desafio ao leitor. E, para meu imenso prazer, tenho recebido retorno, com generosidade!

Quanto ao segundo livro, que está mais adiantado mas tão cedo não será terminado, vai na continuidade do D. Sebastião e o Vidente, já no Século XVII. Nele se atam algumas pontas que ficaram soltas naquele romance, devido à obrigatória economia narrativa num livro com mais de 600 páginas.
É uma obra de difícil construção e um desafio maior ao leitor, por isso me há-de levar ainda muito tempo de investigação detectivesca e de escrita feita com prazer, suor e lágrimas.

01/09/2010

O que dizem os meus leitores...


Quero registar aqui, neste blogue de Conversa com os meus Leitores, alguns exemplos de críticas e opiniões que me chegaram por e-mail, foram deixadas no Facebook ou apareceram em blogues. É o pretexto para expressar a minha gratidão, não só aos seus autores, mas a todos os que me têm escrito, ao longo destes dez anos de publicações, e aos que me seguem neste espaço de convívio. Espero que me perdoem a indiscrição de as tornar públicas!

Se nenhuma das mensagens aqui transcritas é negativa, não foi por eu as ter descartado - apenas tive a sorte de não ter recebido nenhuma! Ora vejam se não tenho razão para estar grata, "derretida" e com o ego "em alta":

"Olá Deana! Acabei de ler hoje "O Espião de D. João II". Fiquei completamente refém do livro enquanto não o acabei! Há agora em mim uma certa revolta devido ao destino de Pêro da Covilhã (não podemos mudar a História!) e uma espécie de vazio... Como aquele que se instala quando temos por companhia constante alguém que muito amamos e mimamos e que depois nos deixa... Até sinto alguma resistência para iniciar outro dos seus romances, talvez "D. Sebastão e a Vidente". Preciso de fazer o luto... Gostei do seu texto na Conversa com os Leitores no seu blogue, sobre a forma como cria os seus romances. Um abraço!"
Paula Aguiar
31/08/2010

"O Navegador da Passagem foi o primeiro livro da Deana que tive o prazer de ler.
Para mim, quando desconheço um autor e a sua obra, além do nome do livro, na escolha de uma compra pesa também o grafismo da capa, a qualidade do material e (obviamente) algumas linhas que consiga ler em jeito de teste.
O Navegador da Passagem prendeu-me logo desde o momento em que o vi.
O Espião de D. João II veio como consequência imediata da leitura do livro anterior, porque um autor que consegue descrever daquela forma romanceada e muito viva um pedaço tão importante da nossa história, tem imediatamente direito à minha melhor atenção!
Este segundo livro, mesmo depois do enorme agrado na leitura do anterior, proporcionou-me longos momentos de enorme prazer literário, numa história que me agarrou desde a primeira linha!
É sublime!!! Tal como já antes afirmei, daria "pano para mangas" se fosse conhecido em Hollywood!"
Paulo Franco Henriques
25/08

Não sei se foi por ter sido o primeiro livro que li, mas de facto o D. Sebastião teve um impacto enorme sobre mim... e arredores. Mas o vício manteve-se totalmente tanto no Navegador como no Espião!
José Nuno Pimentel
20/8

Deana adorei o seu livro D. Sebastião e o Vidente, demonstra realmente que é uma escritora que sabe envolver e cativar deixo-lhe um apelo porque não mais um livro ou até mais... sobre outras individualidades epicas que fazem parte da nossa história. Candida Costa
19/8

D. Deana, andei à procura do livro "O Espião de D. João II" e quase que tive uma depressão! Está esgotado nas quatro livrarias dos quatro shoppings aqui da zona! Com tanta afluência ainda fiquei com mais apetite de o ler.
Diana Carvalho
18/8

Deana Barroqueiro é, sem dúvida, um nome incontornável da Literatura Portuguesa.
Especializada em romance histórico, as suas obras constituem marcos extremamente significativos das letras portuguesas.
Obras de grande densidade e, consequentemente, de leitura não muito fácil, são absolutamente indispensáveis à biblioteca de todos os portugueses.
Tendo já podido apreciar os excelentes três primeiros, vou começar a leitura do último, logo que o carteiro mo traga, já que o encomendei.
Deixe que lhe sugira que os não perca. Dão trabalho, mas vale bem a pena o esforço. Deana Barroqueiro é uma mulher de garra e que sabe bem o que faz e por que o faz. Preencheu muito bem e por mérito próprio um vazio imenso que existia na literatura portuguesa. Em boa hora.
Ruben Valle Santos
Blogue O Homem, produto de si próprio
http://ruvasa2a.blogspot.com
14/08

As letras fluem…
…encantadas das suas mãos e se agrupam como que por magia, transformando-se em belos livros.
Prazer enorme em ser teu amigo
Saudades
Victor Jerónimo
2/7

Tenho guardadas muitíssimas outras mensagens que me alegram a alma e me dão a motivação necessária para continuar a escrever, as quais só não transcrevo aqui por receio de fazer o texto demasiado longo, mas que agradeço com todo o meu coração. Bem hajam, queridos amigos!

27/08/2010

Cada romance é como um puzzle


Nas minhas conversas com os leitores, é muito frequente surgirem perguntas sobre a motivação e o processo de conceber um romance. Sendo a escrita de um livro de ficção um acto criativo, cada autor terá decerto um modo próprio de o fazer. Assim, só posso falar da minha experiência.

A motivação para a criação de romances históricos surgiu há quase duas décadas (quando em Portugal muito poucos autores se dedicavam a este tipo de obra literária), com o desejo de dar a conhecer aos portugueses uma época espantosa da nossa História e da nossa Literatura - assim como nos restantes domínios da Cultura e da Ciência -, que foi o período dos Descobrimentos, tão injustamente remetidos a um patético tabu, em que era intelectual e politicamente incorrecto dizer-se bem dessa nossa expansão pioneira pelo mundo, durante os Séculos XIV, XV e XVI.

Uma atitude muito portuguesa, essa de desprezar o que é nosso! Tão contrária ao orgulho mostrado por outras nações que nos foram no encalço, para aprenderem connosco e nos roubarem depois, apoderando-se pela força das armas das nossas fortalezas e feitorias, praticando a sua expansão com a ocupação de mundos e de povos descobertos por nós, os quais, durante séculos e até ao início do Séc. XX, escravizaram e exterminaram com muito maior violência e frieza do que as exercidas pelos portugueses nessa época em si mesma brutal e bárbara (basta lembrar os Ingleses na Austrália, um entre muitos exemplos das nações europeias, para já não falar das de outras áreas geográficas).

Não eram, todavia, os feitos militares que me fascinavam neste período, eram sobretudo os heróis da extraordinária saga das Descobertas: navegadores e exploradores aventurando-se, antes de qualquer outra gente, em viagens impossíveis por mar e por terra; sábios descobridores dos astros, dos ventos, das correntes e das rotas marítimas que desenharam cada curva, linha ou ponto dos mapas do mundo moderno; estudiosos dos segredos da natureza, fazendo as primeiras descrições científicas modernas das drogas e das artes de curar os enfermos. E, acima de todos estes, os escritores - poetas e prosadores - com o espírito aberto do Renascimento, capazes de captarem em obras originalíssimas, de prosa e verso, esses mundos novos, essa surpresa contínua e maravilhada da descoberta do Outro, com as suas diferenças e semelhanças. Mundos até então encobertos, onde o insólito e o inexplicável podiam causar um terror supersticioso ou mesmo a morte, sem todavia lograrem destruir a curiosidade e o desejo de saber mais e de ir sempre mais longe.

É esse espírito, essa visão muito particular dos novos mundos (quase sempre fruto de vivências e experiências) e essas obras que eu quero dar a conhecer aos leitores, em cujos genes seguramente ainda perdura a marca desses homens que, na maioria dos casos, nem sequer têm os seus nomes impressos nos arquivos da História, embora tenham ajudado a construir as nossas vidas e o nosso futuro.

Existem muitas definições e teorias sobre o que é ou deve ser um romance histórico, se deve manter-se fiel à verdade das fontes e dos factos que narra, fazendo uma reconstituição rigorosa da época ou se, pelo contrário, sendo uma obra de ficção, o seu autor tem liberdade para reinventar a história a seu bel-prazer, sem as algemas da fidelidade histórica. Entre estes dois extremos creio que caberão todos os romances até hoje publicados.

Talvez por defeito de formação, porque me fiz como sou na convivência dos grandes mestres da Literatura portugueses e estrangeiros, confesso-me, em parte, herdeira de Alexandre Herculano e da sua concepção de romance histórico. Considero que este tipo de romance deve dar ao leitor algo mais do que uma intriga, um enredo; ele é um meio privilegiado para a partilha de conhecimentos, fruto das pesquisas do escritor sobre determinado acontecimento ou personagem da História.

Por estas razões, não só procuro manter-me fiel aos acontecimentos, como tento recriar os ambientes, temporais e espaciais, com grande pormenor (por vezes quase obsessivo, reconheço), porque quero fazer o leitor viajar no tempo até essa época, para ver o que lhe é descrito através do olhar das personagens e as ouça falar com a voz que lhes é própria.

Por outro lado, a minha formação em Literatura e o conhecimento das obras e dos autores deste período, levam-me a construir cada romance segundo os modelos e recursos narrativos que então vigoravam, como por exemplo, quando dou particular relevo ao papel do narrador-comentador e ao entrelaçamento das vidas das duas personagens em capítulos curtos, no D. Sebastião e o Vidente, ou escolho a estrutura de romance de cavalaria e busca do Graal para O Espião de D. João II cujo herói é o errante e solitário cavaleiro Pêro da Covilhã (à procura do mítico Preste João), ou ainda o labirinto das viagens e recordações de Bartolomeu Dias em O Navegador da Passagem, cujo contexto é a intrincada rede de jogos políticos de D. João II e D. Manuel.

25/08/2010

D. João II e "O Navegador da Passagem"


Ganhei um grande número de novos leitores graças ao título do meu romance O Espião de D. João II, por nele vir explícito o nome daquele que é considerado, se não o melhor, pelo menos um dos melhores reis da História de Portugal, e que ultimamente tem despertado muito interesse nos portugueses que gostam de conhecer a sua História.

Contudo, o meu romance que trata em pormenor da vida e obra deste rei é não "O Espião de D. João II", mas O Navegador da Passagem, porque o seu reinado serve de contextualização às viagens do grande Navegador Bartolomeu Dias (outra personalidade portuguesa extraordinária e quase ignorada). Neste romance, são descritos os dramas pessoais do Príncipe Perfeito, os seus empreendimentos, as conspirações de que foi vítima ou que urdiu, a sua política de grande visão e a rede de de espiões e de relações internacionais (incluindo algumas personagens e episódios espantosos pouco conhecidos que tive a sorte de descobrir nas minhas pesquisas em obras de autores coevos).

Nas conversas que tenho tido com esses novos leitores, procuro informá-los de que em O Espião de D. João II - que se seguiu a O Navegador da Passagem -, procurei complementar a informação deste reinado, desenvolvendo, a propósito das viagens de Pêro da Covilhã (outro herói também injustiçado, por ignorado), o sonho do Príncipe Perfeito, uma espécie de busca do Graal a que devotou muitos anos da sua vida: a descoberta do Preste João e também da rota das especiarias da Índia.

A escolha de um título, por estranho que pareça, pode ajudar a determinar o sucesso ou o insucesso de um livro, atraindo os leitores ou afastando-os. Creio que isso aconteceu, de certo modo, com O Navegador da Passagem, um título que achei poético e capaz de sintetizar o conteúdo do romance. Todavia, creio que o facto de não nomear Bartolomeu Dias ou el-rei D. João II - o que não quis fazer por me parecer demasiado óbvio - deve ter funcionado um pouco contra esta obra, em relação aos novos leitores.

Talvez me engane, no entanto julgo pertinente deixar aqui este esclarecimento.