25/01/2014

Falar de ciência, cultura e inovação com cortes em pano de fundo

ANA GERSCHENFELD, Público 25/01/2014

Durante uma conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos em Lisboa, intervenientes criticaram os recentes cortes no financiamento do sistema científico nacional.
 “Não houve por aí um sítio onde o número de estudantes de doutoramento caiu 40%?” A pergunta, irónica, veio do biólogo britânico Paul Nurse, prémio Nobel da Medicina e presidente da Royal Society, durante a palestra, intitulada “Fazer funcionar a ciência”, que proferiu na sexta-feira na Universidade de Lisboa (UL).

Recorde-se que, como se soube há dias, o número de bolsas de doutoramento atribuído pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) sofreu uma queda de 40% em relação ao ano anterior e que o das bolsas de pós-doutoramento diminuiu 65%.

Nurse não foi o primeiro nem o último a referir-se directa e duramente, ao longo de uma conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel do Santos (FFMS) sobre o tema “ciência, cultura e inovação”, aos recentes cortes do financiamento público da ciência em Portugal. 

Logo no início, enquanto dava as boas-vindas aos intervenientes perante uma sala cheia, o reitor da UL, António Cruz Serra, evocou durante alguns minutos “o enorme ataque às universidades e o desinvestimento na ciência”, achando que “as circunstâncias exigiam que fizesse este discurso”. Também o sociólogo António Barreto, presidente da FFMS, argumentou na sua curta intervenção que “embora nada nem ninguém escape aos cortes, o que em certo sentido é justo, a austeridade excessiva pode causar mais estragos do que benefícios”.

Mais tarde, Paul Nurse faria notar ainda que “quando se corta do lado das descobertas científicas, rapidamente se perde a inovação a curto prazo”, qualificando quem acredita o contrário de “ingénuo”.

 José Brandão de Brito, do Instituto Superior de Economia e Gestão, foi outro orador que não quis deixar de salientar oportuna a realização da conferência num momento em que a ciência “acaba de receber um enorme e violento golpe – talvez o maior desde que recuperámos a democracia em 1974”.

 Já à margem do evento, Carlos Salema, que foi presidente da JNICT (antecessora da FCT) entre 1989 e 1992, disse ao PÚBLICO que o que está a acontecer é “sobretudo uma alteração profunda” de uma situação que já existia, mas que está agora a ser feita “com pouco cuidado”. “Claro que não concordo!”, exclamou. “Passar de mil bolsas [de doutouramento] para 300!”. 

Graça Carvalho, ex-ministra da Ciência de Durão Barroso e hoje eurodeputada, mostrou-se mais moderada, mas disse-nos, contudo, que o corte “deveria ter sido mais gradual” e que “em altura de crise faz mais sentido continuar com mais bolsas individuais do que ter tantos cursos doutorais”, fazendo referência às novas bolsas criadas pelo Governo em 2012 e que são atribuídas pelas universidades aos seus candidatos a doutoramento. “É mais barato e [as bolsas individuais] chegam mais depressa às pessoas.”

 Elvira Fortunato, da Universidade Nova de Lisboa, desenvolveu há uns anos o primeiro transístor em papel. E a área em que trabalha – engenharia dos materiais – foi considerada pela União Europeia como uma das mais competitivas em Portugal. Porém, também não escapou aos cortes. “Acho que o corte foi muito drástico”, disse-nos. “E foi transversal”, acrescenta – em todas as áreas, de forma indiscriminada. “No ano passado, a área [dos materiais] teve 54 bolsas de doutoramento; este ano foram nove, com a desculpa de que havia os planos [bolsas] doutorais.” Mas essas são ainda menos – apenas seis – o que corresponde a uma quebra de mais de 70%.

Educação, ciência e economia: um ministro pouco sábio

Público

O problema de ligação das empresas com a investigação não se resolve com menos ciência, mas sim com mais ciência.

Vários têm sido, no Governo, os candidatos ao título de campeão da asneira. Rui Machete tem-se esforçado, mas, não querendo ficar atrás dessa figura maior do PSD, um político do CDS, António Pires de Lima, ministro da Economia (dividindo a pasta com Paulo Portas), resolveu entrar na competição quando defendeu há meses a introdução nas escolas básicas e secundárias de uma disciplina obrigatória de Empreendedorismo. A ideia não é só dele: é parte da “Estratégia de Fomento Industrial” aprovada em Conselho de Ministros. A escola, pela voz do ministro da Economia e com a aprovação de todo o Governo, tem de estar ao serviço dos negócios.

Ora isto é um disparate. A escola tem de formar para a vida, transmitindo conhecimentos, moldando atitudes e inculcando valores. E a vida está muito longe de se restringir à gestão de empresas. Pires de Lima, no seu mundo Superbock, acha que a escola tem de formar muitos meninos e meninas para alimentar os quadros empresariais. Olha para uma criança do 1.º ciclo e vê nela um gestor em potência. Não lhe interessa se ela vai dominar o Português, a Matemática ou a Física, para as quais as actuais horas lectivas parecem não chegar: tem é de dominar o Empreendedorismo. Não sabemos que disciplina irá ele extinguir para acrescentar a nova. E falta-nos saber que parte do orçamento do seu ministério irá servir para pagar aos professores de Empreendedorismo, quiçá empresários falidos que ambicionam um emprego escolar. Ou saber se vai apelar aos empresários bem-sucedidos para investirem na contratação de docentes para as nossas escolas.

Não contente com esse disparate, o ministro acrescentou outro há dias. Afirmou que não se pode “alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”. E acrescentou: “Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real. Não chega a transformar o conhecimento em resultados concretos que depois beneficiem a sociedade como um todo.” Ficámos a saber que não é só a Educação que tem de se orientar para as empresas, também a Ciência tem de o fazer. Percebemos agora a razão dos cortes na ciência, com a redução drástica do número de bolsas: os investigadores não estão virados para o mundo das empresas. Estão a estudar linguística, topologia ou óptica quântica, em vez de se virarem para o fomento da indústria cervejeira. O ministro Pires de Lima vê um doutorando e acha um desperdício ele não estar a desenvolver estudos na área do engarrafamento. Ficamos expectantes quanto às verbas que o Ministério da Economia vai proporcionar à ciência aplicada ou os benefícios fiscais que vai conceder aos empresários que contratem cientistas utilitários.

O ministro da Economia pouco sabe de Educação e de Ciência. E, absorto como tem andado nos seus negócios (tanto das empresas como da política, os dois entre nós muito bem misturados), também sabe pouco da vida real. Se soubesse, saberia, por exemplo, o que recordou há semanas no Porto, numa Conferência sobre Ciência e Economia, o físico espanhol Pedro Echenique. Em 1995, quando se discutia nos Estados Unidos uma diminuição do financiamento público à investigação científica, os CEO de 15 das principais empresas de base científico-tecnológica, como a IBM e a General Electric, subscreveram uma carta aberta pedindo o reforço da ciência fundamental. Queriam que o Congresso continuasse o apoio "a um vibrante programa de investigação universitária com visão de futuro".

Acontece que o futuro costuma chegar pela mão de cientistas inovadores, em geral muito longe da “economia real”. Não faltam exemplos. O laser foi inventado há mais de 50 anos, numa equipa de ciência fundamental (ora cá está: a óptica quântica!) que trabalhava nos Bell Labs. Na altura foi chamado uma invenção à procura de aplicações. Hoje é o que se sabe: está por todo o lado, nos cabos ópticos, nos CD, nas cirurgias, no corte de materiais, nas luzes das discotecas e até nas caixas de supermercados, por onde passam os códigos de barras das cervejas. Com a orientação de Pires de Lima jamais teria havido lasers.

Existe, de facto, em Portugal um problema de ligação das empresas com a investigação. Mas ele não se resolve com a diminuição da investigação fundamental. Não se resolve com menos ciência, mas sim com mais ciência. Precisamos, em particular, que os gestores percebam o valor da ciência, tal como os seus congéneres norte-americanos, e invistam nela, apoiando os programas públicos de ensino avançado e pesquisa, e contratando, com o seu próprio dinheiro, doutores e pós-doutores. Não precisamos de economias na ciência, mas sim de pessoas na economia que apostem na ciência.

Tudo isto é sabido pelo ministro Nuno Crato. Ele não poderá explicar ao seu colega?

Professor universitário, tcarlos@uc.pt

Os golfinhos voltaram ao Tejo ou estão só de passagem?

  Público

Biólogos vão estudar os vários avistamentos destes cetáceos no rio desde meados do século XIX. Número de observações tem aumentado nos últimos anos e os investigadores querem saber porquê.
 
De cada vez que alguém vê e fotografa golfinhos a nadar no estuário do Tejo, o telemóvel da bióloga Cristina Brito toca. São os jornalistas a quererem saber se, afinal, os golfinhos estão de regresso ao estuário e, se sim, o que os traz de volta. A resposta sai com dúvidas. “Não sabemos muito bem o que dizer porque não há dados muito concretos e científicos”, admite a investigadora.

Perante esta incerteza, e como os avistamentos destes cetáceos no Tejo se multiplicaram nos últimos anos, os investigadores da empresa Escola de Mar e da Associação para as Ciências do Mar (uma organização sem fins lucrativos que promove a investigação do meio marinho, à qual Cristina Brito preside), decidiram mergulhar na história e procurar respostas. Através do projecto “Conservação e golfinhos no estuário do Tejo: realidade, imaginário ou mito?”, vão tentar perceber se os golfinhos estão a voltar a uma antiga área de residência ou se são visitantes ocasionais numa zona onde há hoje mais comida disponível e melhor qualidade ambiental, em resultado das intervenções ao nível do saneamento na área metropolitana de Lisboa.

“Vamos analisar dados históricos desde meados do século XIX, através dos registos dos naturalistas e das notícias de jornais, para perceber se os golfinhos estão a voltar a um ambiente no qual já viveram ou se estão apenas de passagem”, explica Cristina Brito, que coordena o projecto. Numa segunda fase, serão realizadas saídas de campo para “observações de oportunidade”. “Iremos para o estuário com empresas turísticas e que fazem transporte fluvial”, para tentar observar golfinhos, esclarece esta especialista em mamíferos marinhos. Os pescadores e outros utilizadores do estuário também serão ouvidos neste estudo.

Os avistamentos mais recentes são de golfinhos-roazes (Tursiops truncatus), da sub-espécie residente no estuário do Sado, e de golfinhos-comuns (Delphinus delphis), mais frequentes nas zonas costeiras. "Mas há registo de avistamentos até em Vila Franca de Xira", nota a bióloga. A especialista lembra que o número de avistamentos, que parece mais significativo nos últimos "dois ou três anos", pode estar simplesmente relacionado com uma maior atenção dada pela população e pelos próprios meios de comunicação a esta espécie.

Golfinhos toleram poluição

O objectivo, continua a investigadora, é “compilar os diversos registos [de observações] numa escala temporal e perceber se há um padrão que indique eles estão a voltar”. Se esse regresso se confirmar, depois é preciso saber o motivo: será a melhoria da qualidade da água, motivada pelas obras que permitiram, em Janeiro de 2011, deixar de lançar no rio os esgotos de 120 mil habitantes de Lisboa?

“Não é fácil relacionar directamente uma coisa com a outra”, adverte Cristina Brito. Isto porque os golfinhos não são uma espécie indicadora da qualidade da água – toleram facilmente sítios poluídos, já que acumulam a poluição na gordura corporal. No entanto, nota a bióloga, pode haver uma relação indirecta. “Num ecossistema com melhor qualidade há naturalmente mais peixes, o que atrai mais golfinhos.”

O estudo, que já começou no ano passado e deverá estar concluído no final de 2015, tem o apoio do Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa. Mas os investigadores querem também envolver os municípios. As câmaras de Almada e Cascais vão apoiar financeiramente o projecto, as de Alcochete e do Seixal disponibilizam apoio logístico, e outros municípios que fazem fronteira com o maior estuário da Europa Ocidental serão ainda contactados. 

A Câmara de Cascais explica que este apoio está inserido num “esforço” que a autarquia está a fazer desde 2008 com vista à caracterização e monitorização da zona costeira, através do programa Aquasig Cascais.

Durante a investigação, serão apresentadas conclusões provisórias em palestras e em actividades de sensibilização ambiental – outro dos objectivos do projecto.

24/01/2014

Autarquia exige contrapartidas por retirada de fósseis em Porto de Mós


Instituto de Conservação da Natureza e Florestas retirou os vestígios da praia jurássica encontrados numa antiga pedreira, para um estudo mais aprofundado.
A Junta Freguesia de São Bento, concelho de Porto de Mós (distrito de Leiria), onde foram descobertos vestígios de uma praia jurássica, reclama contrapartidas do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que autorizou a retirada de fósseis do local.

 "A junta não admite que esvaziem a freguesia do seu património sem que seja criada uma contrapartida válida. Se os fósseis aqui encontrados são importantes e merecem ser estudados e guardados em locais acessíveis aos investigadores, o local de onde são provenientes também deve ser valorizado", lê-se num comunicado emitido pela junta, citado pela Lusa.  

Os fósseis foram encontrados há alguns meses numa zona de maciço calcário na antiga Pedreira da Ladeira, naquela freguesia, em pleno Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. Perto de 60 fósseis de equinodermes como ouriços-do-mar, estrelas-do-mar e lírios-do-mar, bem como do rasto de ondas e de animais marinhos, que terão cerca de 170 milhões de anos.

O ICNF autorizou a remoção destes fósseis por solicitação do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, justificando a decisão com a necessidade de os salvaguardar da acção humana e meteorológica, dado que podem constituir, do ponto de vista científico, "exemplares-tipo", isto é, exemplares importantes na definição de uma nova espécie ou no "muito melhor" conhecimento das espécies existentes.


Os presidentes da Junta de São Bento e da Câmara de Porto de Mós expressaram "indignação", acusando o instituto de ter agido "à revelia", o que este negou. Desde que a descoberta foi divulgada na comunicação social, o local tem sido visitado por dezenas de pessoas, sobretudo aos fins-de-semana, pelo que os autarcas acreditam que este achado pode ser uma mais-valia para a economia da região. 


 No comunicado da junta, citado pela Lusa, esta apela a que os locais onde estavam os fósseis sejam "preenchidos por réplicas fiéis aos originais", por "respeito pelo local e pela população". Pede também uma intervenção "para potenciar turisticamente a praia jurássica". A junta sugere, ainda, a melhoria das vias de comunicação e a instalação de sinalética, a criação de circuitos de observação dos fósseis no interior da antiga pedreira e a instalação de painéis explicativos. 

Apesar de estar indignada pela forma como decorreu a retirada dos fósseis, a junta de freguesia compreende que os vestígios paleontológicos "merecem o estudo de vários especialistas" e admite mesmo que, "para o estudo ser acreditado, seja necessário recolher os fósseis do local de origem". Contudo, o executivo realça não ser "fácil explicar à população" esta situação, que se agrava porque o "local foi esventrado, deixando um vazio para os observadores e um cenário de destruição", acrescentando temer que "possa contribuir para o aparecimento de comportamentos" que coloquem em risco o património, "nomeadamente através da recolha furtiva de fósseis que ainda permanecem no local".

sta semana, o ICNF assegurou que "há todo o interesse em que as réplicas destes fósseis fiquem disponíveis e expostas num espaço que a câmara considere adequado para o efeito", considerando "igualmente relevante" a promoção de parceria com a câmara e a junta "visando a requalificação e musealização do local, no âmbito de um projecto de conservação, valorização e divulgação deste património paleontológico".


O presidente da junta, Luís Cordeiro, disse à Lusa que espera "quanto antes" a execução deste projecto, para evitar o eventual risco de se perder património, manifestando o desejo de que esta seja uma "prioridade" do ICNF.

A nebulosa e os seus facilitadores

por JOSÉ MANUEL PUREZA, 17 Janeiro 2014
JOSÉ MANUEL PUREZA
Robert Cox, académico canadiano da área de Relações Internacionais, sugere que a governação global efectivamente existente tem como protagonista uma rede de contornos difusos, envolvendo empresas, governos, fazedores de opinião e operadores institucionais dos mercados mais influentes em cada momento. Cox chama sugestivamente a essa entidade "a nebulosa", pondo assim em destaque a falta de nitidez da sua institucionalidade e dos seus canais de expressão.

A nebulosa produz pensamento, define padrões de política e recruta os melhores quadros para as pôr em prática. Em bom rigor, os governos nacionais são apenas os intérpretes de fim de linha deste modo de governar o mundo. Com uma influência muito mais forte na fabricação de decisões alinhadas por padrões de alcance internacional está esse grupo estranho que dá pelo nome de "facilitadores". Os facilitadores são os intermediários entre a nebulosa e as instâncias locais de decisão. São tipos cinzentos, que se movem discreta e habilmente nos círculos do poder, fazendo um vaivém permanente entre o mundo dos negócios e o mundo da política, que vêm à boca de cena debitar normas de boa governação carregadas de princípios de ética pública ao mesmo tempo que, na sombra dos seus escritórios, preparam diplomas legislativos destinados a favorecer interesse particulares que lhes pagam principescamente para o efeito. Os facilitadores facilitam, claro. Mas facilitam sempre o mesmo e para os mesmos.

A porosidade entre os negócios e a política tem uma escala nacional conhecida, que nem a institucionalização do lobbying nem a fixação de um período de nojo mínimo conseguirá prevenir. As regras formais valem pouco diante de uma realidade informal feita de cumplicidades fundas traduzidas na defesa de interesses privados através de cargos públicos. Os que passam subitamente do governo onde tiveram a tutela de uma área para um operador privado dessa área são apenas o rosto mais obsceno de uma realidade tentacular muito mais complexa. Na verdade, ao exporem-se de modo tão aberto, esses facilitadores complicam a vida aos seus mentores mais do que facilitam.

Na promiscuidade entre a política e os negócios como no futebol, o campeonato português é subalterno. Há uma champions league com o estrelato político e empresarial - e salarial, já agora...- onde pontuam figuras como Mário Draghi - que ziguezagueou entre o Banco de Itália, o Goldman Sachs e o Banco Central Europeu - Peter Sutherland, com um percurso entre o Royal Bank of Scotland, a Comissão Europeia e o Goldman Sachs - ou Robert Zoellick, que transitou de funções de direção do Goldman Sachs para o Banco Mundial, regressando depois ao Goldman Sachs.

Pelos exemplos dados, salta à vista que o banco Goldman Sachs é um clube dessa champions league que é a nebulosa da governação global. Esse "nicho de um poder mundial não eleito" - como certeiramente o designou Viriato Soromenho Marques - faz da governação global a sua especialização de mercado. Uma governação global feita de bolhas especulativas, de cumplicidade com o falseamento de contas públicas, de promiscuidade entre governos e negócios, de manipulação dos mercados cuja liberdade e transparência apregoa. Foi para esse clube que José Luís Arnaut, deputado do PSD, advogado de várias empresas privatizadas por governos que apoiou politicamente, ex-ministro, foi agora recrutado. No futebol, como na facilitação de um relacionamento "agradável e útil" entre o mundo dos negócios e a política, os clubes da champions estão atentos aos campeonatos distritais. E recrutam quem neles sobressai.

Os anos devastadores do eduquês - outra prova

por GUILHERME VALENTE**, 17 Janeiro 2014

Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. Esta é apenas uma das conclusões do estudo da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano" (notícia no Público de 15/01/14). E, diz ainda o estudo, também menos felizes.
Foi, como se sabe, o que, infelizmente, previmos, que andámos a dizer há mais de vinte anos. Está escrito nos inúmeros artigos que publiquei, registado no meu livro com um título, Os Anos Devastadores do Eduquês*, expressivamente convergente com os resultados do estudo agora divulgado. Quanto mais tempo na escola que temos tido, pior.

As consequências destes anos de domínio da ideologia e das práticas educativas que tenho designado com a palavra "eduquês" eram já bem visíveis para quem pudesse olhar com espírito livre. Desde logo, em várias manifestações na escola, e, depois, na sociedade, da política à economia, manifestações que cada vez são mais impressionantes.
A solidariedade, o seu sentimento e necessidade, a felicidade, seguramente, só podem assentar nos grandes valores e nas manifestações mais elevadas da cultura, do conhecimento, da religião, do altruísmo, da generosidade humanos. Valores, conhecimento e cultura que, pelo contrário, foram desvalorizados, durante todos estes anos, por esta escola, dita moderna, mas pós-moderna, das "ciências" da educação.

Escola dos "chavões" da "aula como continuação do recreio", do "aprender a aprender", do "aprender sem esforço", das avaliações a fingir, cujos resultados, mesmo assim, esconderam ao País enquanto os deixámos; do "ensino centrado no aluno", que, como demonstrámos, não queria dizer "ao serviço do aluno", como devia querer ser, mas sim "o ensino definido pelo aluno", imagine-se. Escola marcada (até David Justino e José Sócrates, registe-se) pela estigmatização do ensino técnico, escola da grande mentira da "inclusão" - como pode ser isso apregoado, quando se foi vendo logo que as crianças mais desfavorecidas fugiam cada vez mais dela?

Aqueles que, durante todos estes anos, ignorando a prova da realidade, teorizaram e impuseram o ensino que temos tido - um ensino que expulsou ou foi desvalorizando a memória, a história, a grande literatura e com ela o ensino da língua e a expressão do pensamento, a filosofia, o conhecimento que conta; um ensino sem exames, sem exigência, sem emulação, sem a valorização do mérito, sem regras; um ensino permissivo, com os jovens abandonados ao "instinto reptiliano", e mesmo, nalgumas situações, encorajados a manifestá--lo - um ensino que, diziam, e continuam a dizer, tornaria os portugueses mais tolerantes, solidários, participativos e cooperantes, criativos e empreendedores, mentiram ou falharam. Aconteceu o contrário. Não tornou os portugueses mais informados, nem mais cultos, como imediatamente se podia ter percebido, mas também não os tornou mais generosos e solidários. O verdadeiro, interiorizado, reflectido conhecimento é gerador de solidariedade, a ignorância é sua inimiga.

E quanto mais anos neste ensino, pior. Mais instruídos? Mais solidários e empenhados no bem social? Não. Apenas com mais anos na escola errada. Como este estudo da Universidade Católica parece ter já podido verificar. Essa ideologia e essa prática "educativa" roubaram as crianças, deixaram que perdessem os valores tradicionais que transportavam, e que fossem substituídos por uma espécie de lei da selva, que chegou até, de algum modo, a ser valorizada. Violência que tem a expressão mais imediata e visível nas agressões aos professores e entre os alunos, e o seu espaço natural na anomia antieducativa dos hiperestabelecimentos escolares. Violência que cresceu sempre, em número e em grau.

E mesmo que se actuasse já no ensino, num grande movimento nacional que tudo, infelizmente, indica parecer impossível - e ainda que resultados dessa boa mudança logo se manifestassem no ambiente das escolas e no aproveitamento dos alunos, como tenho dito -, a alteração do perfil médio dominante dos portugueses que o tal estudo da Universidade Católica revela, só no longo prazo, como se compreende, se verificaria. E Portugal, entretanto, como se tem visto, irá pagando a factura.
Há de resto muitos outros indicadores desta realidade. Por exemplo, no domínio, determinante, da leitura. A escritora Alice Vieira referiu que há dez anos ia às escolas apresentar e discutir os seus livros com miúdos de 12 anos. Hoje vai à escola apresentar e discutir os mesmos livros... com jovens do 12.º ano!
E é urgente divulgar e pensar uma situação terrível que terá consequências dramáticas para o País: os grandes livros que veiculam o conhecimento universal estão já a deixar de ser publicados em português. Por falta de leitores. De um número mínimo de leitores que viabilize os custos da sua edição.

O que o estudo da Universidade Católica - que é também, curiosamente, uma tese de doutoramento em "ciências" da educação - parece provar é, pois, infelizmente, o que eu sempre disse, e que não era, aliás, difícil de prever.
"Tudo é igual a tudo" é, afinal, a expressão pós-moderna que melhor traduz a ideologia e a pedagogia que também à nossa escola foram impostas durante todos estes anos de devastação. O resultado aí está, documentado agora por um estudo que parece ser insuspeito e merecer, por esta primeira notícia, credibilidade. Mas não era preciso estudo nenhum para o provar, bastaria pensar e, depois, olhar.

Claro que certamente há gente boa e muito boa, como sempre houve e haverá. Tendo havido também bons professores que conseguiram resistir, como sempre aconteceu no passado, há também bons alunos que sobreviveram ao sistema. Instruídos e bem formados... fora dessa escola. Como pode falar-se nas "gerações mais qualificadas que Portugal teve"...

Mas mudar está ao nosso alcance, depende apenas da nossa vontade. O que é preciso primeiro é ver e assumir a verdade.
*Os Anos Devastadores do Eduquês, Lisboa, Presença, 2012

** Editor da Gradiva

23/01/2014

“Os portugueses são apreciados em todo o mundo”

 DSC_0582







O site Emprego pelo Mundo divulga em português ofertas de trabalho em diferentes países. Diogo Lino Ribeiro, fundador, cresceu em Macau e estuda na República Checa. O projecto é seguido por mais de 172 mil pessoas no Facebook e recebe em média um milhão de visitas mensais online.
Hélder Beja
As boas ideias às vezes aparecem sem querer. Foi assim com Diogo Lino Ribeiro, jovem de 25 anos que em Fevereiro fundou o site Empregos pelo Mundo (www.empregopelomundo.com). Hoje, o portal recebe largos milhares de visitas todos os dias porque oferece, em português, informação sobre muitos postos de trabalho para aqueles que queiram largar mundo fora.
Diogo Lino Ribeiro, que passou parte da infância e adolescência em Macau, olhou para o desemprego jovem em Portugal, leu o sinais que lhe foram trazidos por um projecto familiar e resolveu avançar. Hoje conta com uma equipa de dez pessoas, divulga milhares de ofertas de emprego e, acredita, ajuda pessoas. Mesmo assim, continua os estudos no Instituto de Química de Praga, na República Checa. Não vê grandes melhorias para os portugueses nos próximos tempos.
- Como surgiu a ideia de criar o site Emprego pelo Mundo?
Diogo Lino Ribeiro – A ideia de criar este grupo de partilha de informações de emprego no estrangeiro e em Portugal, que ganhou visibilidade no Facebook, surgiu a partir de um pedido da minha família, para que colocasse para arrendar, em sites especializados, uma casa localizada em Búzios, no Brasil. Nessa altura, resolvi criar um blogue onde também promovia aquele destino. Inesperadamente, comecei a receber currículos de pessoas que me pediam emprego, pensando que se tratava de um resort ou de uma guest house. Muitos eram jovens que pediam com uma humildade, um desespero e uma vontade de trabalhar que não podiam deixar ninguém indiferente. Como tinha experiência na área da pesquisa, adquirida numa empresa onde trabalhei na República Checa, comecei a publicar no meu blogue oportunidades de emprego. O reconhecimento foi tal que o passo seguinte foi criar o Emprego pelo Mundo.
- Dê-nos alguns números do projecto. Quantas visitas recebe o site em média? E quantas ofertas de trabalho já publicou?
D.L.R. – O portal Emprego Pelo Mundo recebe em média um milhão de visitas e cerca de três milhões de visualizações por mês. Já publicámos milhares de ofertas de emprego dependendo das empresas e das áreas, publicamos cerca de 30 mil oportunidades por mês. Formamos uma equipa de dez jovens que trabalham segmentos de mercado diferentes. Uns mais vocacionados para as ofertas de trabalho individualizadas, outros em ofertas mais gerais que abarcam várias áreas numa só empresa, normalmente multinacionais. Não conseguimos ter uma estimativa das pessoas que já conseguiram oportunidades através do site, mas até hoje e desde que o site está activo já recebemos milhares de agradecimentos.
- Falemos da Ásia. Há muitas ofertas de trabalho para esta zona do globo? É um mercado com potencial para a mão-de-obra lusófona?
D.L.R. – Sendo nós portugueses um povo universalista, com uma história de relacionamento pacífico e mesmo amistoso com todos os povos do mundo, e tendo nós também das melhores universidades europeias que têm formado nas últimas décadas jovens comprovadamente talentosos, reconhecidos em todo o mundo, não será descabido pensar que esses jovens muito qualificados poderão ser uma mais valia, em qualquer parte do mundo e aí também. Basta que lhes sejam oferecidos lugares onde possam não só desenvolver as suas capacidades criativas e o seu talento, como também colaborar através da troca de conhecimentos e visões do mundo, favorecendo a criação de soluções inovadoras e permitindo àqueles que neles confiam o acompanhamento eficaz das mudanças num mundo que anda cada vez mais veloz.
- Concretamente em relação a Macau, há oportunidades para portugueses que podem ser encontradas através do seu site? Alguns exemplos específicos?
D.L.R. – Apresento no meu site um link dedicado completamente a Macau. Como viver e trabalhar aí. Como procurar emprego. Tem sido muito visitado. Como esta crise veio para ficar e há cada vez mais desempregados, os portugueses têm tendência a procurar emprego nos países cujos povos partilharam connosco partes da sua história e que por isso lhes oferecem mais confiança por os julgarem amigos.
- Viveu em Macau. Quer recordações guarda desses tempos? Ainda é um lugar que o atraia, também do ponto de vista profissional?
D.L.R. – Vivi em Macau dos três aos 14 anos. Cresci em Macau. Passei a minha infância a percorrer as suas ruas, a correr para as suas escolas, a casa na Taipa. Os meus amigos de infância são daí, ou passaram por aí e continuam a estabelecer contactos regulares comigo. Macau faz parte de mim, dos meus sonhos, dos meus desejos, das minhas memórias, do meu ser. Será um lugar onde sempre voltarei… onde espero encontrar sempre símbolos dessas vivências que tive. Ou até personalidades que me tornaram feliz em criança pela amizade que me dedicaram. Por exemplo, o Domingos, ex-motorista do meu pai e meu grande amigo, que fazia comigo o totoloto de Hong Kong em sociedade. Mas não sei se voltarei para trabalhar aí. Por enquanto não faz parte dos meus planos. O meu projecto de vida não se encaminha para ser realizado por esses lados. Porém, como se costuma dizer, ‘o futuro a Deus pertence’.
- Considera que, regra geral, os portugueses que trabalham no estrangeiro são apreciados ou nem tanto?
D.L.R. – Acho que os portugueses são apreciados em todo o mundo. Como dizia um escritor inglês, “toda a gente gosta dos portugueses com excepção deles próprios”. Os portugueses são um povo bom, tolerante, com capacidade de se entregar a causas. São um povo leal, solidário e com uma capacidade de sofrimento e de resignação emocionantes. Veja o que está a acontecer nesta crise. As reacções dos portugueses e de outros povos são muito distintas. Só um povo muito bom é capaz de suportar com paciência isto e aguentar tanto sofrimento de modo resignado.
- Qual é o destino preferencial do português qualificado e sem emprego neste momento?
D.L.R. – As preferências dos portugueses são regra geral os países de língua portuguesa. Brasil e Angola têm sido grandes receptores do trabalho dos nossos imigrantes. Mas o maior número de jovens qualificados tem ido para a Europa, com a Alemanha, Noruega, Dinamarca, Inglaterra e Irlanda a aproveitarem esses talentos que Portugal desperdiça neste momento.
- Como olha para a situação actual em Portugal?
D.L.R. – Portugal vive um período muito crítico da sua história e não se vislumbra uma saída para a crise a curto prazo. Não temos indústria, agricultura, pescas. O comércio tornou-se monopólio de poucos. Sinceramente vejo tudo muito mal.
- Acaba por ser também um empreendedor, ao lançar este projecto. O site é já lucrativo para si, que o fundou?
D.L.R. – Para já o site paga-se a si próprio, pago o trabalho dos colaboradores e tenho estado a investir o resto. Vamos apresentar muito em breve uma nova versão mais moderna  e prática que permitirá a empregadores e candidatos funcionalidades que facilitam o recrutamento.

Encontro marcado na missa de Pangim

Inês Santinhos Gonçalves - Ponto Final, 22 de Janeiro 2014
 IMG_2567
 São “portugueses de Goa”, filhos da terra que nunca saíram do país ou emigrados que regressam religiosamente para férias prolongadas. Encontram-se aos domingos, na Igreja de Pangim, para uma das poucas missas do Estado rezadas em português.
Num primeiro contacto com Goa chega-nos logo uma advertência: por aqui já são poucos e antigos os que sabem português. O concani, a língua local, e o inglês são os idiomas francos, a que se junta o hindi (língua nacional da Índia), perfazendo três línguas oficiais. Mas poucos dias bastam na cidade para o português, ainda que “mascavado”, como alguns o chamam, vir ter connosco.
Como em tudo, a sorte tem o seu papel. Na Igreja da Imaculada Concepção, conhecida simplesmente como Igreja de Pangim, o português toca o sagrado, todos os domingos pelas 10h30. É esta a hora da missa em língua portuguesa, uma das poucas realizadas em todo o Estado de Goa. Fica a cargo do padre António Xavier, que fala um “português mascavado”, avisam-nos mas antes de entrarmos na capela.
Cerca de 30 pessoas assistem à homilia e juntam-se à canção: “Tenho um amigo que me ama, tenho um amigo que me ama, seu nome é Jesus”. Na Imaculada Concepção faz calor e as ventoinhas que pendem do tecto de madeira giram no máximo. “Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo”. Silêncio. As leituras seguem-se, por vezes nítidas ao ouvido habituado a outros sotaques, outras vezes nem tanto.
Num Estado em que o número de pessoas a aprender o idioma não chegará a um milhar, cabe aos mais velhos o exercício da língua e são eles que, ao domingo, não perdem a missa do padre Xavier.
No átrio da Igreja branco-cal, debaixo de um céu azul brilhante, vemos os fieis saírem aos poucos. Dois dedos de conversa com uma pessoa rapidamente se tornam numa reunião – em poucos minutos estamos rodeados por uma dezena de lusófonos.
A missa de domingo funciona como ponto de encontro. “É uma das formas de manter a cultura. Nós, os falantes de língua portuguesa, vamos também para o Clube Vasco da Gama, que é um outro lugar de encontro e lá tomamos bebidas, falamos e cultivamos a língua portuguesa”, conta Messias Pereira.
Como muitos goeses lusófonos, Pereira esteve fora da Índia durante a maior parte da sua vida adulta. Estudou “português clássico” em Portugal – orgulhando-se de, por isso, ter o português mais correcto de Goa – mas uma mudança para a Suíça obrigou-o a dominar o alemão. No entanto, manteve sempre “a ligação à terra e à cultura portuguesa”.
Agora, passa em Goa a maior parte do tempo, só dispensa a época de monções: “Nós, portugueses de Goa, que estamos espalhados pelo mundo inteiro, temos sempre tendência a voltar à nossa terra. E é uma espécie de pequeno convívio que nós temos, vir aqui à igreja matriz de Pangim”.
Também Óscar Monteiro, professor de Português e Economia radicado no Canadá, vai e vem. Viveu em Moçambique, Inglaterra, Portugal, mas regressa sempre a Goa. E agora que as obrigações profissionais o permitem, passa três a cinco meses por ano na cidade-natal. “Nasci cá e gosto disto, gosto de visitar amigos e familiares”, explica. O autor do livro de poesia “Nas asas da palavra” fala de um sentimento de nostalgia e das saudades dos sabores. “Uma coisa que não posso fazer no Canadá é a comida goesa, com os condimentos e assim”, lamenta.
Quando está em Goa, Óscar Monteiro dá frequentemente aulas de Português a convite do Instituto Camões. Apesar de o idioma estar longe de gozar da pujança de outros tempos, continua a marcar presença: “A língua portuguesa é ubíqua, está em todo o lado. Há instituições que zelam pela língua, uma delas é a Fundação Oriente, outra é o Instituto Camões, e também o Consulado Português e uma associação de ‘friendship’ da língua portuguesa. A Fundação Oriente e o consulado criaram aulas de português em várias escolas, como língua estrangeira”.

Sri Lanka longe da CPLP

2 sri lanka
 Entre os participantes dos Jogos da Lusofonia, aquele que aparenta ser mais distante da realidade lusófona é o Sri Lanka, onde o português não é língua oficial, existindo apenas um crioulo, ou o “Indo-português do Sri Lanka”, falado por uma minoria. De acordo com o um jornalista da VFM Radio, a emissora pública do país, a entrada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como membro observador, não tem sido discutida, pelo menos na esfera pública.
No entanto, quando questionado sobre se o Sri Lanka se sente parte do mundo lusófono, Supun Hettiarachchi responde sem hesitação: “Claro”. O jornalista lembra a passagem dos portugueses pelo país, entre 1506 e 1658, liderados por Francisco de Almeida, época em que dominaram o território e levaram a cabo campanhas de evangelização.
Além da herança edificada, ficaram desse tempo apelidos como Almeida da Silva ou Salgado, e também palavras do quotidiano. “Dizemos ‘almari’ para armário, ‘spiritale’ para hospital, são palavras que vêm do português”, explica Hettiarachchi.
Apesar deste legado, e de um sentimento de pertença ao que se chama a lusofonia, a integração na CPLP, como membro observador, não tem estado em discussão. “Não faço ideia, nunca ouvi falar disso. Nunca ouvi essa discussão nos meios de comunicação, na minha rádio nunca passámos [notícias]”, conta o jornalista, que nunca visitou nenhum país de expressão portuguesa.
A sua presença como jornalista nos Jogos é justificada, em parte, pela vontade de promover o desporto cingalês. “A maioria das pessoas conhece o Sri Lanka como um país jogador de críquete, temos de publicitar outros desportos”, explica. Hettiarachchi lembra as medalha de prata e bronze que o país já conquistou no torneio por equipas do ténis de mesa feminino e masculino, respectivamente.
O jornalista espera mais distinções: “Temos uma equipa de atletismo forte. Temos de dar essas notícias aos cingaleses. Por isso, o meu editor pediu-me para vir, já que sou jornalista de desporto na rádio”.
Aos 24 anos, Hettiarachchi faz um balanço positivo da evolução do jornalismo no Sri Lanka. “Se precisarmos de saber algo de um ministro ou de outro dirigente, podemos ligar-lhes directamente. Temos liberdade e algumas infra-estruturas”, garante. I.S.G.

Artur Lopes recusa falar inglês nos Jogos da Lusofonia, em Goa


JANEIRO 22, 2014
2 artur lopes











O chefe de missão de Portugal, Artur Lopes, recusou dar entrevistas aos jornais indianos, exigindo que lhe falassem em português. Pelo menos dois jornalistas queixaram-se do sucedido. No início da semana, Lopes lançou duras críticas à organização dos Jogos da Lusofonia e ao facto de o português não ser o idioma-rei. Oficialmente estão a ser utilizadas três línguas: o português, o inglês e o concani. No entanto, a comunicação com o staff da organização, maioritariamente indiano, é sempre feita em inglês.
Ajit John, repórter para do jornal The Goan, tentou abordar Artur Lopes na segunda-feira, para uma pequena entrevista. “Ele disse-me ‘Isto são os Jogos da Lusofonia, a língua dos Jogos é o português, tem de falar comigo em português. Se o fizer falo consigo’. Depois virou as costas e foi-se embora”, descreve. O jornalista assegura ter recebido uma resposta semelhante do presidente do comité olímpico português, José Manuel Constantino.
O mesmo aconteceu com o jornalista Mihir Vasavda, do Indian Express, que tentou falar com Lopes durante a cerimónia de abertura para recolher algumas declarações sobre a delegação portuguesa e a importância dos Jogos da Lusofonia. “Abordei-o em inglês e ele começou a falar comigo em português, durante uns dois minutos. Notava-se que estava chateado mas eu não sabia porquê”, conta. A resposta que Lopes lhe deu, depois, em inglês foi semelhante à que deu a Ajit John: “Isto são os Jogos da Lusofonia, só falo em português, peça ao seu jornal para mandar alguém que saiba falar em português”.
A reacção causou espanto a Mihir Vasavda, que trabalha para um jornal nacional indiano. “Disse-lhe que o país não fala todo português, os portugueses só estiveram em Goa mas ele respondeu-me apenas ‘O problema não é meu, só vou falar português’”, relata o jornalista.
A surpresa é partilhada por Ajit John: “Está no nosso país e o português não é uma língua comummente falada aqui. É estar a pedir sarilhos”.
Contactado pelo PONTO FINAL, Artur Lopes começou por responder apenas: “Como é que se chamam os Jogos? Pronto, tenho dito”. Confirmando que não quis falar em inglês com os jornalistas, o chefe de missão da delegação portuguesa salientou que a lusofonia “tem que ver com tradição, história e cultura”. “Não podemos estar nuns Jogos da Lusofonia como se estivéssemos nos Jogos da Commonwealth. Foi por isto que Portugal lutou pela lusofonia”, explicou.
No domingo, num jantar organizado pela delegação portuguesa – onde também estava presente o secretário de Estado do Desporto e Juventude, Emídio Guerreiro – Artur Lopes manifestou o seu desagrado com a questão da língua. “Sendo que se tratam dos Jogos da Lusofonia não entendemos que a primeira língua a falar-se não seja o português, com uma tradução para inglês. Aqui é o inglês e às vezes tem tradução para português. Bati o pé, acho mal, não estou nada satisfeito, isso é bastante negativo”, disse aos jornalistas. I.S.G.

Goa abre as portas à Lusofonia

por Inês Santinhos Gonçalves - Ponto Final, 20 de Janeiro 2014

3 goa 
Os Jogos da Lusofonia 2014 arrancaram este fim-de-semana, com Macau em alta representação – a delegação do território é a segunda maior, apenas ultrapassada pela de Goa, orgulhosa anfitriã. Na cerimónia de abertura, o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, deixou elogios e manifestou satisfação por ver “o sonho de Goa concretizado”. Espera medalhas no wushu e no judo, mas teme os resultados dos desportos colectivos. 

A 3ª edição dos Jogos da Lusofonia deu o pontapé de saída no sábado, em Goa, com uma cerimónia em grande estilo. Apesar das críticas à organização do evento, o estádio Fatorda, remodelado para os Jogos, esteve lotado e nas bancadas não faltou entusiasmo. A delegação de Macau entrou em sexto lugar no recinto, com uma comitiva largamente superior à maioria – mas ainda assim inferior à de Goa. Nas bancadas, de bandeira com a flor de lótus na mão, estavam personalidades conhecidas do território, como o secretário Cheong U e o presidente do Instituto do Desporto, José Tavares.

A chegada ao estádio Fatorda confirmou as suspeitas de desorganização que vinham a ser levantadas nos meses antecedentes ao evento. Às portas de Margão, onde o estádio está localizado, o trânsito já se revelava entupido e o acesso às portas de entrada teve de ser feito a pé, com os veículos privados a serem obrigados a ficar a mais de 500 metros de distância. Em torno do estádio ainda muita terra batida, pó, e falta de sinalização. Alguma confusão e estruturas de suporte deficitárias foram compensadas pelo staff solícito e simpático, do qual fazem parte cerca de dois mil voluntários.

Apesar de um entusiasmo moderado nas ruas, o estádio encheu as bancadas com cerca de 19 mil espectadores, que não pouparam nas palmas e nos assobios. A cerimónia arrancou, como não poderia deixar de ser, com fogo-de-artifício e música. Portugal foi a primeira das 12 equipas a entrar no recinto e Macau avançou em sexto lugar, com delegação, a segunda maior dos Jogos, a fazer-se notar. Nada, no entanto, comparável, à comitiva goesa, com 200 atletas, que recebeu uma ovação redobrada.

Ausentes estiveram a delegação do Brasil e da Guiné Equatorial, cujos atletas chegarão apenas nos próximos dias. O galo Jojo, a mascote dos Jogos, circulou pela arena, enquanto as equipas eram apresentadas em três línguas: português, inglês e concani, a língua franca de Goa.

 Keshav Chandra, presidente-executivo do comité organizador dos Jogos da Lusofonia, fez um discurso, em português, sobre a importância de “mostrar ao mundo o desempenho, responsabilidade, profissionalismo e amor ao desporto” dos atletas em competição. “É a vossa oportunidade de fazer a diferença”, lançou aos cerca de 800 desportistas. E piscou o olho à questão da organização: “Estou feliz por partilhar convosco infra-estruturas de nível internacional”.

Para o secretário de Macau para os Assuntos Sociais e Cultura, há elogios a fazer, apesar de admitir fragilidades: “Sabemos que houve um pouco de dificuldade, até adiaram a data, mas o importante é que conseguiram resolver os problemas para ter o sonho de Goa concretizado. Não é nada fácil. Gostaria de dar os parabéns à organização de Goa”.

Cheong U, que no intervalo se juntou a alguns convidados ilustres para provar especialidades indianas como chamuças e quiches vegetarianas, lembrou que os Jogos da Lusofonia têm para Macau “um significado muito especial”. A realização da primeira edição implicou um largo investimento “para a criação de uma rede de equipamento e espaços desportivos de modo a atingir o nível, pelo menos, regional”.

Para o secretário, esse investimento teve frutos para o desporto na RAEM, com uma renovada cooperação comas associações locais para incentivar o chamado “desporto para todos”. “O Governo presta subsídio às escolas para abrirem o equipamento desportivo à população. Está a resultar bem”, defendeu. O Executivo continua também a trabalhar para resolver a falta de instalações desportivas, garantiu Cheong U. E deu um exemplo: “Uma notícia boa é que vai começar a funcionar já o novo campo [desportivo] da universidade da Taipa, com um campo de futebol, pista de atletismo e um pavilhão desportivo. Segundo a informação que a universidade transmitiu, vão tentar abri-lo, não só para a universidade mas também para população”.

Quanto ao desporto de competição, onde Macau tem ainda muito pouca expressão, o secretário é menos optimista. “Sabemos que não podemos investir em tudo. Temos de estabelecer uma estratégia adaptada a Macau. A natação, o wushu e o judo são modalidades que estão a começar a elevar o nível. Mas quanto à bola grande, o futebol e o basquetebol, é muito difícil”, admitiu.

Apesar das dificuldades, Cheong U está confiante que Macau conquistará medalhas no wushu e no judo. No entanto, “o mais importante”, diz, “é a oportunidade de os atletas terem um momento para mostrarem todo o esforço, [resultado] de tanto tempo de prática” e também a oportunidade “para fazerem amizade com os atletas de outros países”.

A geração que se segue 

O optimismo de José Tavares era ainda superior ao de Cheong U. O presidente do Instituto do Desporto acredita que a prestação de Macau vai ser “muito melhor que na edição passada”, já que Macau veio para Goa “com uma comitiva em força”. “Penso que vamos ter mais medalhas. Penso que no wushu vamos levar quase as medalhas todas”, afirmou. A convicção não é abalada pelo facto de a equipa ser toda nova – de tal modo que não foi possível destacar um nome mais forte: “Posso garantir que têm capacidade de arrancar muitas medalhas. É a hora exacta de dar uma oportunidade para se estrearem nestas competições. O nosso campeão vai ter de se retirar, já tem 27 ou 28 anos”.

Tavares não ignora “uma certa desorganização” e admite a falta de espaço para treinos [ver entrevista na página ao lado], mas assegura que os atletas de Macau treinaram em casa de modo a compensar a falta de oportunidade em Goa. “Viemos mesmo à hora para não termos a preocupação dos treinos”, apontou.

“Penso que a desorganização tem que ver com o pouco espaço de tempo que tiveram para limar as arestas. Quando vim cá em Abril isto estava um caos e ninguém acreditava que podia receber os Jogos. Mas eu sabia que iam conseguir”, manifestou o dirigente. Apesar disso, “vê-se um grande empenhamento por parte da organização em todos os aspectos”, o que merece elogio, na opinião de Tavares.

 Portugal prejudicado 

Elogios foram também deixados pelo secretário de Estado do Desporto e Juventude português, Emídio Guerreiro. “Há um grande investimento, uma presença enorme nas ruas da cidade. Ao contrário do que podia ter transparecido, com os problemas do adiamento dos jogos, nota-se aqui um grande compromisso do Governo de Goa na realização destes jogos”, comentou. Guerreiro salientou as várias infra-estruturas erguidas especialmente para os Jogos – dois estádios totalmente renovados e quatro construídos de raiz. “Há muitas infra-estruturas novas, algumas ainda estão em fase de acabamento mas sente-se uma presença dos Jogos na cidade, o que é bastante positivo”, apontou.

Ainda assim, o atraso na realização do certame, que inicialmente se iria realizar em Novembro de 2013, prejudicou significativamente a participação portuguesa: “Não trazemos muitas das equipas que costumamos trazer. É evidente que esta mudança de calendário prejudicou a possibilidade de algumas equipas e alguns atletas estarem presentes. Mas temos uma boa representação e estamos expectantes que vamos vencer bastantes medalhas.

Guerreiro alertou ainda para a importância de uma calendarização cuidada: “Acho que para o futuro é preciso pensar em acomodar isto melhor com a própria realização dos Jogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Há uma confluência que penso que não é positiva do ponto de vista da coordenação e qualidade desportiva”.

Saramago deixa de ser publicado pela Caminho

por Ricardo Simões Ferreira - DN


Saramago deixa de ser publicado pela Caminho
A Editorial Caminho informou hoje que não chegou a acordo com as herdeiras de José Saramago, para continuar a publicar a obra do Nobel da Literatura, e a família procura agora nova editora, adiantou à Lusa fonte da Fundação.

"As herdeiras de José Saramago e a Editorial Caminho informam que não foi possível chegar a acordo sobre as condições contratuais que permitiriam continuar a publicar, nesta editora, a obra do escritor", lê-se no comunicado assinado pelas herdeiras do escritor, a viúva, Pilar del Rio, e a filha, Violante Saramago Matos, e ainda por Tiago Morais Sarmento e Zeferino Coelho, da Editorial Caminho.

"Cessa por isso, nesta data, a parceria iniciada há 35 anos, com a publicação de 'A Noite' (1979)", remata o comunicado enviado à agência Lusa.

Em declarações à Lusa, fonte da Fundação, falando em nome das duas herdeiras do escritor, garantiu que a obra do José Saramago "não vai ficar sem editor em Portugal": "Estamos à procura de uma nova editora", acrescentou.

José Saramago, falecido em junho de 2010 na ilha espanhola de Lanzarote, publicou praticamente toda a sua obra na Editorial Caminho, incluindo "Memorial do Convento" e "O ano da morte de Ricardo Reis", que fazem parte dos programas curriculares do ensino secundário, e o romance "Claraboia", editado em 2011.

Miró/BPN - Mais um atentado ao património pelos vendilhões do país

 Depois de Miró, outras obras do BPN estão a ser inventariadas para serem vendidas
Parlamento vota esta sexta-feira resoluções do PS e do PCP que pedem que o leilão seja suspenso. PS pede ainda que se inicie com "urgência" processo de inventariação e classificação das obras mas cancelar o leilão não é uma hipótese para a maioria.

Além dos 85 trabalhos de Juan Miró (1893-1983), que vão a leilão em Londres nos dias 4 e 5 de Fevereiro, o Estado português vai vender também outras obras de arte herdadas do Banco Português de Negócios (BPN).

As obras estão neste momento a ser inventariadas para “oportunamente ser lançado um procedimento de alienação”. A informação foi dada ao PÚBLICO por Francisco Nogueira Leite, presidente da Parvalorem, sociedade criada no âmbito do Ministério das Finanças para recuperar créditos do BPN. Nogueira Leite não esclareceu, no entanto, que obras são estas.

Esta semana na Comissão de Educação, Ciência e Cultura a dúvida já tinha sido levantada pelos deputados da oposição, que esta sexta-feira levam a votação na Assembleia da República duas resoluções, do PS e do PCP, a pedir a suspensão do leilão das 85 obras de arte do pintor espanhol, com o argumento de que representa uma mais-valia para o país. O PÚBLICO apurou, no entanto, que a maioria PSD/CDS votará contra estas resoluções, não estando sequer a ser estudada a hipótese de o leilão da Christie’s vir a ser anulado.

O deputado do PCP Miguel Tiago e a deputada do PS Inês de Medeiros dirigiram críticas duras à opção do Governo de vender esta colecção, temendo que no futuro outras obras nas mãos do Estado desde a nacionalização do BPN pudessem seguir o mesmo caminho. Obras essas que não se sabe ao certo quais são, como apontou Inês de Medeiros, criticando a falta de registos sobre este assunto.

Questionado pelo PÚBLICO, sobre que outras obras existem na mesma situação que estas de Miró, Nogueira Leite limitou-se a responder que o “restante espólio encontra-se a ser inventariado”.

“Eles têm outras obras, algumas serão melhores e mais interessantes do que outras, mas não sei ao certo que obras são essas”, diz ao PÚBLICO Pedro Lapa, director do Museu Colecção Berardo, em Lisboa, e que chegou a ser desafiado por José Oliveira Costa quando ainda estava na direcção do Museu do Chiado para organizar uma exposição de Miró. A exposição nunca chegou a acontecer porque “as coisas no BPN complicaram-se”. Mas o curador lembra-se de quando o banqueiro frequentava as galerias e as exposições. “Ele gostava de arte, sei que comprava mas não sei se a título pessoal ou se para o banco”, continua Lapa, para quem estas obras que agora estão a ser inventariadas “serão muito boas mas não tão importantes como Miró”.

“Joan Miró é um dos maiores artistas do século XX”, destaca o director do Museu Colecção Berardo, lembrando que o interesse do mercado da arte nos trabalhos do catalão “é imenso”. “Neste momento os mercados tradicionais não estão afectados por esta crise e temos ainda a entrada de outros coleccionadores que vêm do Médio Oriente, da China e da Rússia”, explica Pedro Lapa, destacando “o poder de compra arrasador” e “o interesse óbvio em integrar nas suas colecções estes nomes imprescindíveis para o panorama da arte moderna do século XX como é o caso de Miró”.

É por isso que diz que é de lamentar a decisão de vender estas obras que deviam ser, segundo Pedro Lapa, integradas em colecções do Estado e ser mostradas ao público. Mas o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, já fez saber que esta “não é uma prioridade”. “Há uma ausência de uma política patrimonial estruturada relativamente à contemporaneidade, à arte moderna”, acusa o director artístico, notando a “ausência de uma reflexão estruturada sobre o que é que se quer fazer, que colecções, como é que se constitui património e de que forma é que se organiza e se mostra esse património”.

PS pede classificação de Miró 

É por isso que anteontem Gabriela Canavilhas, deputada do PS, enviou um requerimento à directora-geral do Património Cultural, Isabel Cordeiro, com conhecimento para Barreto Xavier e para a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, que tem estado à frente deste processo, a pedir que se inicie “com urgência” o processo de inventariação e classificação destas 85 obras de Miró, com as quais o Estado espera arrecadar cerca de 35 milhões de euros. O objectivo, como a própria explicou ao PÚBLICO, é que se consiga proteger as obras, evitando o leilão.

No requerimento, o grupo parlamentar do PS lembra que de acordo com a Lei de Bases do Património Cultural o Estado tem “responsabilidades inequívocas na salvaguarda e valorização do património cultural”, defendendo que a partir do momento em que o Estado herdou a colecção, todas as obras de arte passaram a ser património público. “Mostra-se incontestável a necessidade de proceder a abertura do procedimento administrativo conducente a inventariação e eventual classificação do fundo Miró”, lê-se no requerimento.

“Tudo depende do que a diretora da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) decidir fazer”, diz a deputada socialista, que exige que a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) clarifique a sua posição em relação a este assunto. “Se se der seguimento ao requerimento, o leilão tem de ser cancelado porque os bens em processo de inventariação e classificação, mesmo que não venham a ser classificados, não podem ser alienados até o processo ficar concluído”, explica Canavilhas, para quem se isto não acontecer é sinal de que se está a “contornar a lei e a afirmar publicamente que se pretende deixar alienar bens públicos sem sequer os inventariar”.

A assessora de Isabel Cordeiro disse que o requerimento do PS ainda não deu entrada na DGPC. O PÚBLICO questionou ainda a SEC e o Ministério das Finanças, mas até ao fecho da edição não obteve quaisquer respostas. Para os partidos de oposição é de lamentar também que estas obras nunca tenham sido expostas. Na comissão de terça-feira o tema gerou contestação com Inês Teotónio Pereira, deputada do CDS, a explicar que “se estas obras nunca foram mostradas não foi por uma opção política mas sim por uma impossibilidade jurídica”. Impossibilidade essa que, segundo Francisco Nogueira Leite, se deve ao facto de só em Dezembro de 2012 ter sido “juridicamente assumida a titularidade das obras”. “Não foi possível equacionar a realização de uma exposição pública pois não faria sentido o Estado expor obras que não eram da sua propriedade plena”, explicou ao PÚBLICO o presidente da Parvalorem.

Covões quis fazer exposição 

 Antes disso, Álvaro Covões, o director da promotora Everything is New, quis fazer uma exposição com as obras de Miró mas a ideia acabou por ficar adiada quando ao lançar o desafio ao então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, este lhe pediu primeiro apoio para produzir a exposição de Joana Vasconcelos.

“É uma coincidência, acabámos por estar envolvidos na exposição da Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda e na do Museu do Prado no Museu de Arte Antiga porque no princípio de tudo pensámos em fazer uma exposição com os quadros do Miró”, conta o promotor, responsável por financiar em grande parte as exposições da Ajuda e do MNAA, lembrando que foi em Julho de 2012 quando ouviu a intenção de vender a colecção que teve a ideia de primeiro mostrar as obras ao público. “Disse ao secretário de Estado da altura que era engraçadíssimo fazer uma exposição com aquilo que estava fechado num cofre, ele disse que era fantástico mas que antes precisava de alguém que o ajudasse a viabilizar a exposição da Joana Vasconcelos”, explica Covões, lamentando que em Portugal “as pessoas acordem tarde para os acontecimentos”.

“O anúncio da venda já tem um tempo, eu tentei reagir na altura mas pelos vistos fui o único, agora em cima do leilão é mais difícil”, continua o promotor, lamentando também a venda das obras. “Eu preferia que o Estado ficasse com a colecção, não me importo de pagar mais um euro de impostos para que se possa ficar com este património.”