16/01/2010

Os números da Escrita

Leio, com um sorriso, as notícias do confronto entre as editoras Gradiva e Bertrand pelo lugar cimeiro de vendas dos seus "bestsellers", respectivamente, Fúria Divina, de José Rodrigues dos Santos e O Símbolo Perdido, de Dan Brown.

Os dois romances invadiram o mercado, disputando os melhores lugares nas livrarias e grandes superfícies (pagos pelas editoras), em pilhas e pirâmides que sufocavam as obras dos escritores não mediáticos. Em Outubro e Novembro entraram e mantiveram-se sempre no topo das vendas, em Dezembro já se amontoavam em pilhas mais ou menos imutáveis, escoando-se devagarinho.

A propósito deste sucesso, lembro-me de ter tido, na semana do Natal, no dia 21, uma experiência simultaneamente exultante e decepcionante: em todas as livrarias e espaços de venda de livros do Centro Comercial do Colombo não havia à venda UM ÚNICO exemplar do meu romance O Espião de D. João II. Resposta dos respectivos funcionários: tinham-se vendido todos e estavam pedidos mais para depois do Natal!


Seria intencional? Teriam as livrarias encomendado exemplares a mais dos bestsellers e, agora, procuravam "empurrá-los", junto com outros excedentes, aos compradores natalícios dos últimos dias que, pressionados pela necessidade, acabariam por levar estes em vez dos livros que buscavam?

Conheço mal a obra dos dois autores da disputa. Apenas li do americano O Código Da Vinci, que considerei um bom policial até ao último terço do livro, "atamancado" pelo autor, de qualquer maneira, talvez devido à dificuldade de dar um final verosímil a uma teoria fantasiosa que ele pretendia fazer passar por verdade histórica e assente em pesquisa de documentação séria, quando afinal partiu de textos apócrifos que a crítica esclarecida e os próprios autores dos textos falsos desmantelaram.

No entanto, como a receita pegou, Dan Brown passou a repeti-la nas obras seguintes (sobre isto falou Helena Barbas, na Fnac, como se pode ver no post Partilha com os Leitores), desmotivando-me da sua leitura, tal como a quase metade dos seus leitores, pelos números que foram fornecidos pelo DN e pelos comentários que tenho lido nos blogues.

Comprei o último livro de José Rodrigues dos Santos, mais para o ler como documento jornalístico do que como obra literária (que ainda não sei se é), dado que, por formação e experiência profissional de crítica de texto literário verso outros registos, não posso deixar de ver as diferenças entre eles, classificá-los e apreciá-los de modos distintos. Se Fúria Divina tiver qualidade literária, darei por bem empregue o tempo que roubei ao meu próprio trabalho para o ler e ficarei feliz por o seu autor ter batido Dan Brown.

Todavia, parece-me haver cada vez mais escrita jornalística (boa e má, como em todos os outros géneros) e menos Literatura. Autores que conseguem escrever muito e muito depressa, publicar grandes livros sobre os temas "na berra", com garantida visibilidade nos Media, impressionam-me, mas fazem-me desconfiar.

Talvez porque, como autora, além de procurar contar bem uma história e do cuidado com o pormenor na descrição dos ambientes - que é caraterística indispensável ao romance histórico -, sofro obsessivamente com a linguagem, a escolha e variedade do vocabulário, os diferentes tipos de registo e discurso, de acordo com as personagens e, sobretudo, a própria construção e estrutura do romance, a fim de não me repetir.
Procuro, assim, dar ao leitor algo de diferente, em cada livro, que é o meu modo de lhe agradecer a fidelidade com que me premeia. Mas isto dificilmente se consegue sem se empregar muito do nosso tempo, uma quase exclusiva dedicação, imenso trabalho e espírito de sacrifício.

Produtos instantâneos ou semi-instantâneos devem ser reservados ao domínio da culinária e doçaria, como os pudins Nestlé e as gelatinas Royal, porém, mesmo aí, eu não faço cedências e a minha cozinha há-de ser sempre feita de raiz, lenta, apurada e de cunho tradicional, mesmo que seja para um número restrito de comensais.

5 comentários:

M. disse...

Pois, essa fast-literatura é tipo a vacina da gripe: agora, há que escoar...
Bjs,
M.

DEANA BARROQUEIRO disse...

Pelos vistos, cara amiga, gostamos ambas de boa Literatura e boa Cozinha! Obrigada pelo seu comentário.
Bjs
D

M. disse...

Deana, sou eu, a Madalena Ribeiro (do hi5 ;))
Bjs,
Madalena (estava distraída e assinei M.)

DEANA BARROQUEIRO disse...

Ah! Não te associei ao site com as receitas estupendas d' A Panificadora Ribeiro!
Parabéns por ele.

Margarida disse...

bem me lembro da tua cozinha, na casa da linha: faz parte dos slides que conservo na memória ( e na barriga!) genuína! Margarida_Bee