10/07/2010

A barbárie do Islão fundamentalista


A morte por apedrejamento

Quando o poder religoso, em mãos de fanáticos, domina o poder político, implanta-se a barbárie e volta-se à Idade Média. Em nome de Deus e de uma falsa moral, os mullahs e imãs do mundo muçulmano fundamentalista - gente sacrílega e ávida de mando - arrogam-se o poder divino de dar vida e morte aos que lhe estão sujeitos, mesmo quando inocentes e, em particular, a mulheres indefesas. Como cidadã do mundo, mulher e escritora, sinto o dever de denunciar a infâmia e o crime. Faço-o nos meus livros. E um dos crimes mais infames do Islão é a morte por apedrejamento de mulheres a quem não é dada a possibilidade de se defenderem, pois os julgamentos não passam de uma farsa obscena (se homens e mulheres são igualmente incriminados por adultério e relações sexuais, porque será que no Irão há 12 mulheres e apenas 3 homens, nas prisões, à espera desta pena de morte?).
Podem ver em pormenor, neste excerto do meu livro "O Espião de D. João II", a morte por lapidação de uma "adúltera", nos finais do Século XV, um modelo de "justiça" posto novamente em prática nos inúmeros países fundamentalistas muçulmanos:


"– É chegada a hora! – anuncia numa voz sem cor. – O Conselho requer a tua presença durante o castigo da adúltera.
O escudeiro (Pêro da Covilhã) faz um esforço para se dominar e as palavras sibilam-lhe de raiva por entre os dentes cerrados:
– Mina Atef não cometeu adultério e eu recuso-me a assistir ao assassínio de uma mulher inocente.
O velho faz um sinal ao mercenário que prontamente se acerca do português.
– A mulher foi julgada e condenada segundo as leis do Mensageiro de Allah (a paz seja com ele) – diz Saed com voz dura. – A lei la Taqrabuz zina ordena ao crente que não chegue sequer próximo do adultério, não precisa de o cometer! Por isso o acto de Mina Atef mereceu o haad , como castigo. E tu tens de assistir ou acabarás por partilhar da sua sorte.

Obedece. Sacode com brusquidão a mão do mercenário que lhe segura o braço e sai da tenda, caminhando entre o imã e o guerreiro para o local do sacrifício. Em volta do buraco, está desenhado um círculo com um raio de cerca de seis passos. Dois imãs verificam as pedras, retirando as que lhes parecem impróprias para o castigo: as muito pequenas por não fazerem dano e as muito grandes pelo risco de a matarem depressa demais.
Enterram as pedras rejeitadas e observam a multidão que se vai juntando na parte exterior do sulco de areia e, num vozear exaltado, abre alas para dar passagem a Pêro e à sua escolta. Os murmúrios cessam de chofre e o silêncio torna-se ameaçador e maligno quando Mina é trazida por dois homens para junto do buraco, dentro do círculo. O rosto da mulher está pálido, vazio de vida e o olhar sem brilho fixa-se nos olhos acesos de revolta do escudeiro que não sabe se é a febre do deserto ou a pedra da Vidente que lhe queima o peito e lhe faz escorrer fios de suor pelo corpo, num arrepio de sezões.

Os dois sacerdotes acercam-se de Mina e atam-lhe as vestes em volta do corpo, imobilizando-a, sem que a mulher emita um protesto ou um gesto de rebeldia, numa aceitação resignada do seu destino ou da vontade de Allah. Os dois coveiros erguem-na como se fora um fardo e metem-na, de pé, dentro do buraco, cobrindo-a até ao peito com areia que calcam em volta.
Os preparativos são, em si mesmos, uma cruel tortura infligida à condenada, como se os seus algozes procurassem causar-lhe, pelo opróbrio e pública humilhação, outra punição antes da morte. A cabeça de Mina, emergindo do solo, como um estranho fruto, é uma visão insuportável. Os seus olhos muito abertos ganham a pouco e pouco a expressão de um pequeno animal acossado, como se o desamparo e a solidão daquele enterramento a fizessem tomar, por fim, consciência da provação que a espera.

Pêro cerra os dentes, com repulsa e remorso. Era ele que devia estar ali, em vez de Mina, já que fora ele o causador da sua desgraça. Talvez até lograsse escapar. Saed dissera-lhe que a lei da Shariah concedia a liberdade ao condenado que, durante o castigo, se soltasse do buraco e fugisse. E um homem tinha mais vantagens do que uma mulher, posto que, enquanto ela era enterrada até ao pescoço, o homem era-o apenas até à cintura, podendo assim libertar-se com mais facilidade se fosse forte e ágil. Mina não tem salvação.
– Que os parentes do ofendido atirem as primeiras pedras – ordena o imã mais velho para a turba que segura nas mãos impacientes as pedras que apanhara no monte e acrescenta num tom de melopeia: – Allah hu Akbar!

É o sinal. Homens, mulheres e crianças começam a entoar em coro Allah hu Akbar! Allah hu Akbar! O irmão do ofendido, com os pés a tocarem o risco na areia, inclina o corpo e, visando a cabeça da cunhada, lança a primeira pedra e falha. A seu lado, a esposa mais velha de Ahmed Atef solta uma exclamação de despeito e arremessa com fúria um calhau de arestas cortantes que acerta em cheio na fronte de Mina, com um ruído surdo, seguido de um grito lancinante que parece sair das entranhas da terra. O sangue borbulha da ferida e escorre pelo rosto contorcido de dor.
– Allah hu Akbar! Allah hu Akbar! – a melopeia do coro sobe de tom, fervorosa.
Duas pedras falham o alvo e duas rasgam-lhe os lábios e o sangue salta de mistura com os dentes que Mina cospe por entre gritos e súplicas, enquanto forceja em vão por se libertar da prisão de areia que lentamente se tinge de vermelho:
– Perdão! Perdão! Allah amerceia-te de mim!
Pêro balbucia em português:
– Jesus Cristo! Virgem Maria! Tende piedade dela!
Na sua perturbação, só se dá conta de que orara a Cristo e à Virgem, quando a seu lado o imã Saed, ensurdecido pelo cântico, lhe pede para repetir a sua fala. O escudeiro empalidece de agonia. O mais pequeno incidente que o denuncie como cristão dar-lhe-á morte imediata esfandangado por aquela horda sedenta de sangue.

Os gritos de Mina enfraquecem, mudando-se em gemidos e num cuinchar abafado. Já não é possível reconhecer uma cabeça humana naquela massa palpitante e ensanguentada que oscila de um lado para o outro, para trás e para a frente, sob o impacto dos golpes. O olho direito foi arrancado e pende do buraco da órbita como um sinal esbranquiçado numa pasta de sangue, pele e ossos esmagados, de onde desapareceram os contornos do rosto. As pedras que continuam a cair sobre a pecadora já não fazem o ruído surdo do início, têm agora o som líquido dos seixos que, nas suas brincadeiras de comparar pontarias, os rapazes atiram à água dos rios e lagos.

O suplício eterniza-se e o corpo do espião treme ora de calor, ora de frio e um suor pegajoso ensopa-lhe as roupas e só a duras penas consegue dominar os vómitos que lhe sobem à boca, como uma maré azeda. A massa sangrenta parece ter diminuído de tamanho, já quase não faz relevo no tapete vermelho de areia molhada. Já não há movimento, nem sequer um tremor ou arrepio. Nenhum som. Só um cheiro quente e peganhento de uma vida que se escoa em dor e solidão. As pedras caem sempre e o grito de “Allah hu Akbar!” – Deus é grande! – continua incansável a subir aos céus para chegar aos ouvidos divinos. O mareio traz-lhe novamente à boca um cuspo ácido e amargo e o escudeiro sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés e tomba desacordado, meio sufocado pelo vómito".

2 comentários:

Ana C. Nunes disse...

A descrição da cena está absolutamente grotesca, mas infelizmente realista (e muito bem escrita).
Este acto, assim como muitos outros ainda hoje praticados, são de uma desumanidade incalculável e não há lógica que os explique ou justifique.
Porém acredito que há muitos que não falam o seu descontentamento com estes actos por medo.

Clube dos Poetas Vivos disse...

Permiti-me divulgar este Livro no CPV, pela importância que se reveste na actualidade.
Um abraço