A minha resposta ao grosseiro artigo que João Botelho escreveu contra mim, desdizendo tudo o que tinha admitido, no ano passado, mas em que me deu mais argumentos a favor do plágio e da minha afirmação de que não leu a Peregrinação, pois insiste em dizer que eu tirei nomes e personagens da obra de Fernão Mendes Pinto, onde elas não estão. Os advogados da sua produtora Ar de Filmes (que em Novembro/Dezembro, admitiram a adaptação de partes do meu romance, que seria publicitada numa cinta para o livro), escreveram-me uma carta cheia de ameaças de tribunais e indemnizações, por estar a difamar a produtora, o que já foi contestado pelos meus advogados, visto, como todos sabem, eu nunca proferi uma palavra contra Ar de Filmes, mas apenas contra o realizador. Portanto, queriam apenas fazer-me calar por medo. Não sou medrosa e nunca me calo quando tenho razão.
Em 11/04, recebi uma carta dos advogados da Ar de Filmes, produtora do filme Peregrinação, acusando-me de ter proferido contra ela “acusações e imputações falsas” de plágio do romance O Corsário dos Sete Mares, “sem qualquer fundamento”, “causando-lhe danos avultados e pondo em causa o seu bom nome, honra e reputação”. Se não me calasse, recorreriam aos tribunais para serem compensados. Na manhã de 12/04, o “artigo de defesa” do sr. João Botelho (JB) era publicado no PÚBLICO. Timing perfeito: na véspera a produtora silenciava-me com ameaças para que o realizador me pudesse desacreditar sem contraditório.
Acusei JB de uma adaptação não autorizada de partes do meu romance no seu filme, porque se apresentou como único autor do argumento. Em circunstância alguma, proferi acusações ou imputações contra a Ar de Filmes. Mencionei apenas os seus encontros com a Casa das Letras/Leya, que os contactou, a pedir esclarecimentos. Nestas reuniões, como representante do realizador, a produtora admitiu o plágio, pois só assim se explica ter aceitado que a editora fizesse uma cinta para o livro, referindo a adaptação de episódios do romance.
A Ar de Filme e JB nunca quiseram ver-me ou falar comigo. Em Dezembro, num e-mail para a editora, pedindo para mo reenviarem, chegou-me uma mensagem jocosa em forma de carta, supostamente do realizador, fazendo mea culpa pelo plágio. Nada que se pareça com a “carta delicada e pessoal que – no puro intuito de usar de boa educação e de respeitar uma eventual susceptibilidade, ainda que descabida, de uma senhora que desconhecia – por gentileza lhe remeti”, que JB menciona no artigo, dando o dito por não dito e, tal como a sua produtora, contradizendo o que haviam acordado e ameaçando-me com tribunais e compensações.
Ameaçam-me e querem dinheiro porque me queixei do atropelo que fizeram aos meus direitos de autor e propriedade intelectual? Eu, a lesada, nunca pedi qualquer pagamento, apenas exigi que indicassem a obra e a autora, como a ética e a lei obrigam, no filme, DVDs, cartazes, textos e entrevistas. Não o fizeram e julgaram-se a salvo, porque o assunto ficava no segredo dos gabinetes da produtora e da editora.
“Vivemos tempos ruins, os de Trump, os do triunfo das inverdades”, diz JB em sua defesa, atacando-me em termos tão grosseiros que não merecem resposta. Patético esforço de um náufrago que esbraceja para se manter à tona e se afunda mais depressa.
Vivemos num mundo de faz-de-conta, de falsos génios e ídolos de pés de barro, em que alguns se servem de todos os meios, mesmo dos ilícitos, em proveito próprio, vangloriando-se, impunemente, de serem vampiros que sugam o sangue das vítimas e lhes roubam a alma. No caso Deana Barroqueiro versus João Botelho, eu sou a Zombie e o realizador é o Vampiro, pois assim se rotulou, quando admitiu que vampirizou O Corsário dos Sete Mares, fruto do meu sangue, suor e lágrimas de quase cinco anos de investigação e escrita.
Em 2018, fazendo tábua rasa dos compromissos, JB continuou sem referir o meu livro como uma das fontes do filme, que está a ser exibido para as escolas, apresentando aos alunos muitas cenas de O Corsário dos Sete Mares de Deana Barroqueiro, como sendo da Peregrinação. O que, ao contrário do que dizem alguns comentadores, não é a melhor introdução à leitura da obra de Fernão Mendes Pinto, mas um pastiche enganador e antipedagógico. Como professora de Literatura Portuguesa, com 35 anos de serviço, não me pude calar.
O caso foi noticiado na imprensa de referência (como este jornal), que JB apoda de pasquins e os seus jornalistas de hienas, por terem denunciado o plágio, depois de lerem o e-mail com a sua admissão de culpa. O realizador diz que a acusação de plágio é infundada, mas, segundo a Sociedade Portuguesa de Autores e o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, “comete o crime de contrafacção (vulgarmente designado plágio) quem utilizar, como sendo criação ou prestação sua, obra, prestação de outro artista”; “seja mera reprodução total ou parcial”.
Movo-me no meio académico, por isso, o sr. Botelho faz questão de vincar que, como não conhece a minha obra (e adaptou-a?), ao contrário do que fez com Alexandre O'Neil, a quem pediu para “roubar” (aspas suas) o título de um poema, no meu caso, “não existia a necessidade de pedir qualquer autorização e apenas por princípios de trato dirigi posteriormente à autora uma comunicação”. A quem não tenha o estatuto de um O'Neil, JB já pode roubar (sem aspas, o verbo é dele) livremente, não apenas um título, mas toda ou parte significativa da obra? Se é assim que, em Portugal, se pratica a nobre Arte do Cinema, onde irá ela parar?
JB tem dito que levou um ano a adaptar a obra de Fernão Mendes Pinto (FMP), mas, ao mesmo tempo, fala das personagens, cenas e tramas de O Corsário dos Sete Mares atribuindo-as à Peregrinação. Se fez o que diz, como pode confundir as duas obras? Por desleixo ou má-fé? Ou, por não ter lido mesmo a Peregrinação, e vendo como o meu romance (recomendado pela Associação de Amizade Portugal-Japão, quando fez pesquisas para o filme) era uma espécie de guião – uma estrutura dramática em sete Actos/Mares, com cenas/capítulos, diálogos, monólogos e flashbacks –, pensando que eu me limitara a travestir os textos de FMP com novas roupagens, para atalhar caminho e poupar tempo, “inspirou-se” nele para o guião?
“Na verdade, o ‘pecado’ por mim cometido foi usar como inspiração uma ínfima e irrelevante parte do livro de Deana Barroqueiro, até agora desconhecido”, afirma JB. Sem acesso ao guião original, para o comparar com o meu romance e a Peregrinação, estou limitada às suas entrevistas e ao filme que vi apenas uma vez, enquanto ele tem acesso a todos os meus textos, que usa agora contra mim.
JB diz que o filme tem 78 cenas e que apenas duas foram “inspiradas” na minha obra. Mas eu provo que, sem as cenas exclusivas do meu livro, este filme não existia. Passo a enunciá-las:
– Todas as cenas da China com personagens femininas, que JB e a sua produtora admitiram como adaptadas. 1. A filha do monteo a tocar o erhu e a cantar o poema que musicaram; a ensinar FMP a ler; 2. Meng a lavar-lhe as cicatrizes das costas, com uma bacia de água com pétalas de flores; 3. As cenas das prostitutas com os diálogos sobre o Yin e o Yang, no sexo; 4. A menção ao Mercado dos Cavalos Magros, onde se compravam as esposas, etc.
– Na Peregrinação não há violações por António Faria ou outrem, inventei a cena com Pinto num certo contexto da narrativa.
– O episódio da japonesa Wakasa, a minha Madame Butterfly que casa com Pinto, a entrar no barco e a despedir-se dele no alto de um monte, faz parte da história que criei a partir de três crónicas da casa do senhor de Tanegashima (a Tanixumaa de Pinto) que traduzi de um estudo inglês. JB nem o nome da ilha sabe escrever, chama-lhe Tagenashima, que não significa “ilha da Espingarda”, pois já se chamava assim muito antes da chegada dos portugueses com as armas, sendo também o nome de família do seu daimyo Tokitaka. Os mosquetes e arcabuzes chamavam-se Tanegashima teppõ (tubos de fogo de Tanegashima).
– Não inventei nomes nem personagens no caso de D. Joana da Silva, a mulher adúltera. Ficcionei um escândalo da época, sem relação com FMP, a partir de arquivos e da História da Genealogia.
– Foi JB que referiu numa entrevista o “n.º 9 mágico”, como ideia sua. O número é cabalístico, mágico, da novena cristã e de outras superstições, herdadas da Idade Média. Como Pinto e o seu grupo oscilam entre oito e nove indivíduos e algumas tempestades são de nove dias, transformei-o num leitmotiv do meu romance.
– Das cenas comuns à Peregrinação e ao meu romance, como as da embaixada a Sumatra e da rainha da Etiópia, haverá muito para descobrir, comparando-as. Para JB basta mudar a cena de lugar, ou a personagem, para já não serem criações minhas e passarem a ser dele!
Em todas as suas intervenções JB cometeu erros crassos sobre a obra de Fernão Mendes Pinto, mostrando desconhecê-la. Com o meu romance aprendeu muito, decerto. Valha-nos isso!
01/05/2018
As mentiras de João Botelho
"Uma banana não é uma maçã"
Um artigo de João Botelho no Público, desdizendo o que admitiu no ano passado e defender o indefensável: que não plagiou o meu romance O Corsário dos Sete Mares e dando-me ainda mais argumentos.
Para ler AQUI.
Um artigo de João Botelho no Público, desdizendo o que admitiu no ano passado e defender o indefensável: que não plagiou o meu romance O Corsário dos Sete Mares e dando-me ainda mais argumentos.
Para ler AQUI.
24/04/2018
O plágio do livro de Deana Barroqueiro
O Clarim - Abril 20, 2018 Cultura
A noiva de Fernão Mendes Pinto
Respigo esta semana, e a respeito do
plágio que João Botelho fez da obra de Deana Barroqueiro “O Corsário dos Sete
Mares” no seu mais recente filme “Peregrinação”, um resto de conversa que ficou
por transcrever após uma entrevista feita a essa escritora de romances
históricos aquando da sua participação no festival literário Rota das Letras,
já lá vão alguns anos. Curiosamente, a temática desse resto de conversa diz
respeito a um dos episódios que Botelho incluiu no seu filme como se fizesse
parte do enredo da obra de Fernão Mendes Pinto, quando, na verdade, é uma
ficção de Deana Barroqueiro, se bem que inspirada na tradição oral da região de
Tanegashima.
Confessou-me, na altura, Deana
Barroqueiro, que apenas visita os países que lhe servem de inspiração para as
suas obras uma vez estas concluídas, e isto para «não contaminar com o olhar
actual a realidade da época». Aquando da sua visita a Macau acabara
de ser editado “O Corsário dos Sete Mares” (hoje de novo notícia, devido à
polémica instalada), que nos fala das viagens de Fernão Mendes Pinto, por isso
pudera a autora visitar, «finalmente», o
Japão, palco, como se sabe, de muitas das peripécias do aventureiro de
Montemor-o-Velho.
Em terras do Sol Nascente, Deana e o
marido, inseparável companheiro de viagem, seriam recebidos «com uma imensa simpatia, quase carinho». Lembrava a
escritora «uma cidadezinha perto de Quioto onde há uma família de japoneses
que mantém, numa vivenda de dois andares, situada no centro da cidade, um
pequeno museu ligado aos portugueses». Trata-se de um espaço
recheado com «uma espécie de painéis namban» que de certa forma
continuam «a narrativa dos painéis presentes no Museu de Arte Antiga. Tudo
muito bem arranjado, com aquele brio próprio dos nipónicos». Teve o
casal de portugueses a oportunidade de conhecer a actual proprietária, que
ciosamente dava continuidade à tradição iniciada pelo pai.
Embora haja quem refute a hipótese,
Fernão Mendes Pinto terá sido um dos três primeiros ocidentais, juntamente com
António da Mota e Diogo Zeimoto, a chegar ao arquipélago nipónico, «em 1541 ou 1543», pois ele mesmo o afirma na sua
imortal obra. Terá sido ele também quem ofereceu uma das armas ao daimio de
Tanegashima (Zeimoto ofereceu um outro exemplar), na altura um deslumbrado
jovem de 17 anos. Perdera esse nobre japonês uma série de possessões do seu
domínio a favor do tio que expulsara o pai, «pois este era um tirano»,
ocupando assim o seu lugar. O daimio logo encarregou o seu armeiro-mor de fazer
uma réplica de um mosquete e outra de um arcabuz. Aita – assim se chamava o
armeiro – apenas manufacturava armas brancas, mas atendeu ao pedido do seu
senhor o melhor que pôde. De tal modo ficou o daimio entusiasmado com o produto
final que não o deixava sair do palácio, «pois o considerava tesouro da
família». Contudo, essas armas de fogo tinham um grave defeito: a
culatra não fechava. Confrontado com essa falha, «sentindo-se profundamente
desonrado», Aita estava pronto a fazer haraquiri quando, ao olhar
para a sua jovem filha Wakasa num derradeiro acto de despedida, teve uma ideia
brilhante. Mandá-la-ia de presente ao namban em troca do segredo do fecho da
culatra. Ou seja, se o português casasse com a filha teria de trabalhar com ele
e revelar-lhe esse segredo, assim como o segredo da pólvora.
«A primeira história de amor
entre um ocidental e uma japonesa, surge, assim, no seguimento da introdução
das armas de fogo no Japão pelos portugueses do século XVI»,
concluia Deana Barroqueiro.
Para os habitantes de Tanegashima o dito
namban era o nosso Fernão Mendes Pinto, que acabaria até por casar com a bela
Wakasa. Afirmava Deana Barroqueiro ter lido quatro crónicas da época, «embora traduzidas para Inglês», atestando esse facto.
Aliás, os «amores entre Pinto e Wakasa» dariam azo a todo tipo de
literatura: do pequeno poema ao género épico, passando pela literatura de
cordel. Dizia-me Deana Barroqueiro: «Logo a seguir a essas crónicas
apareceram uma série de textos avulsos, contos, peças de teatro, romances,
poemas narrando esse casamento em várias versões, inclusive uma versão em que a
princesa Wakasa engravida e tem um filho, que o namban, entretanto casado no
seu país de origem, virá mais tarde buscar, o que leva a princesa a
suicidar-se. Uma das versões mostra-nos Wakasa no alto de um monte, vendo os
barcos a chegar, suicidando-se de seguida».
Curiosamente, esse é um cenário que lembra em tudo a história de Madame
Butterfly, imortalizada por Puccini na ópera homónima. Não seria a primeira vez
que os estrangeiros, à falta da capacidade nossa ou, quiçá, audácia, se
apropriam de histórias extraordinárias protagonizadas por portuguesas para as
transformar em êxitos de vendas em todo o mundo. O caso mais paradigmático é o
de Robinson Crusoe, obra de Daniel Defoe inspirada na desdita de um degredado
português.
É muito possível, pois, haver entre os
nipónicos descendentes de Fernão Mendes Pinto. Deana não descarta a hipótese: «No meu romance apresento versões possíveis, conseguindo
conciliá-las recorrendo a vários narradores. É muito natural que haja
descendência desse encontro. Na referida literatura de cordel há até uma
gravura com o rosto de Fernão Mendes Pinto, algo que em Portugal não acontece».
Quanto a Wakasa ela é, entre muitas outras coisas, nome de mercearia e marca de
rebuçados e, no centro de Tanegashima, surge em forma de estátua essa filha do
armeiro Aita, elevada à condição de princesa, empunhando um arcabuz.
Joaquim Magalhães de
Castro
23/04/2018
Dia do Livro e dos Direitos de Autor
1 - Hoje, às 18 horas, vou estar na Biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa (Metro Cidade Universitária) para uma conversa sobre livros e o romance histórico.
2 - E às 20.20 horas, na Fnac Colombo, vou ler um dos meus textos, durante uma Maratona de Leitura, feita por escritores, que dura das 16 às 21 horas. Vou ler uma passagem de O Corsário dos Sete Mares, um episódio de Fernão Mendes Pinto na China, em casa do monteo, o capitão que vai levar o aventureiro para cumprir pena na Grande Muralha.
2 - E às 20.20 horas, na Fnac Colombo, vou ler um dos meus textos, durante uma Maratona de Leitura, feita por escritores, que dura das 16 às 21 horas. Vou ler uma passagem de O Corsário dos Sete Mares, um episódio de Fernão Mendes Pinto na China, em casa do monteo, o capitão que vai levar o aventureiro para cumprir pena na Grande Muralha.
Como os hóspedes são estrangeiros e os serões se passam dentro de portas, as donas e donzelas da casa não se escondem deles, sendo ouvintes incansáveis das histórias das suas vidas, dos lugares de onde vêm, das viagens que fizeram ou das nações visitadas. É um mundo novo que se abre ante estas mulheres que nunca saíram da cidade porque, para se deslocarem a mais de trinta léguas de suas casas, os chins necessitam de licença dos mandarins, a qual custa caro, nem sempre é concedida ou tarda muito a chegar.
Vendo o interesse de Fernão por tudo o que o rodeia e também pelos livros que Liu Xugang possui, Zhou, a filha mais velha, faz leituras ao serão da Crónica dos Oitenta Reis da China, das Brochas d’O da Vontade do Filho do Sol (de que ele já ouvira alguns textos ao poeta Lin Dan, o seu companheiro de viagem e de ferros pelo rio Batampina) e da Situação de Todos os Lugares Notáveis do Império da China, respondendo às suas perguntas, uma divertida prática a que se junta o monteo para explicar, com grande gosto e paciência, as partes mais difíceis.
– Vou cantar-vos um tzu antigo, um poema musical de Fan Tchongyen, para alegrar o vosso exílio – diz-lhes Zhou, certa noite, com o doce sorriso que aquece a alma dos exilados.
Celebravam o Duplo Sétimo – o sétimo dia do sétimo mês lunar – em que as meninas, para se tornarem talentosas na arte de bordar, fazem ofertas de frutos e de doces à bodhisattva Guaiyn de mil braços, deusa da misericórdia. A gentil moça toma nas mãos cor de neve o erhu, uma espécie de viola de arco de duas cordas, dedilha-o para avaliar o som e canta:
Insidiosa, todas as noites
A saudade persegue
O espírito do peregrino,
Se não o proteger um suave
Sonho, num sono profundo:
A lua cheia – alto Pavilhão solitário –
“Não te encostes ao balcão!..”
E o vinho, no coração despedaçado,
Transforma-se então em lágrimas
Carregadas de mágoas sem fim.
A sua voz, ao mesmo tempo suave e lastimosa, adoça a alma dos desafortunados estrangeiros, desterrados da pátria e da família. A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida, pensa Fernão ao ouvila com um prazer doloroso, como se nela houvesse incarnado o espírito da sua amada Chu Huyen, quando cantava a sua mágoa pela ausência do noivo a quem fora furtada, enchendo-o de paixão e ciúme.
Acabado o canto, não há um só dos degredados que não tenha os olhos húmidos de lágrimas, por viverem há tanto tempo sem um mimo de mãe, irmã, esposa ou noiva que lhes mitigue o sofrimento. Gaspar de Meireles, cheio de nostalgia, canta-lhes alguns vilancetes, acompanhando-se o melhor que pode com o instrumento chim, em que já tem alguma prática, pelo que todos folgam, aplaudindo muito...
Acabado o canto, não há um só dos degredados que não tenha os olhos húmidos de lágrimas, por viverem há tanto tempo sem um mimo de mãe, irmã, esposa ou noiva que lhes mitigue o sofrimento. Gaspar de Meireles, cheio de nostalgia, canta-lhes alguns vilancetes, acompanhando-se o melhor que pode com o instrumento chim, em que já tem alguma prática, pelo que todos folgam, aplaudindo muito...
22/04/2018
Documentário Luso-Etíope
"Birtukan - Oranges" (Laranjas) foi o nome que os etíopes deram aos Portugueses por terem introduzido na Etiópia as laranjas doces (os etíopes tinham dificuldade em pronunciar o P de Portugal/Português).
A comunidade portuguesa do século XVI formou-se a partir de um núcleo de 200 homens, sobreviventes da hoste de 400 guerreiros de D. Cristóvão da Gama, o filho mais novo de D. Vasco da Gama, que foi auxiliar o Preste João, contra os árabes e lá morreu.
Esses 200 homens, que não puderam regressar a Portugal, casaram com etíopes e criaram uma comunidade católica importantíssima, tendo criado inúmeras igrejas, castelos e outras construções. Parece que os etíopes que deles descendem têm grande orgulho nessa
herança.
Ver mais informações sobre o projecto, em Inglês, aqui:
A comunidade portuguesa do século XVI formou-se a partir de um núcleo de 200 homens, sobreviventes da hoste de 400 guerreiros de D. Cristóvão da Gama, o filho mais novo de D. Vasco da Gama, que foi auxiliar o Preste João, contra os árabes e lá morreu.
Esses 200 homens, que não puderam regressar a Portugal, casaram com etíopes e criaram uma comunidade católica importantíssima, tendo criado inúmeras igrejas, castelos e outras construções. Parece que os etíopes que deles descendem têm grande orgulho nessa
herança.
Ver mais informações sobre o projecto, em Inglês, aqui:
"O Espião de D. João II" num Documentário luso-etíope
Vou participar num documentário luso-etíope, sobre a vida do meu protagonista e da presença dos portugueses naquele país.
"O Espião de D. João II" tem tido muito sucesso. Além das várias edições, com muitos milhares de livros vendidos, também despertou as atenções na própria Etiópia/Abissínia, onde Pêro da Covilhã achou o tão procurado reino do Preste João, tendo ali acabado os seus dias.Yves Stranger, investigador e realizador de documentários, residente na Etiópia e apaixonado pela figura do espião português, acicatado pelo interesse que os etíopes têm pelos vestígios e herança lusa, veio há cerca de 2/3 anos a Portugal para conhecer a terra de Pêro. E quando visitou o Museu da Covilhã, o seu director indicou-me como especialista do tema. Yves Stranger contactou-me, veio a minha casa e falou-me no livro que estava a escrever sobre a presença dos Portugueses na Etiópia e que ia fazer um documentário. Perguntou-me se queria participar no seu projecto, ao qual eu aderi de imediato com imenso prazer.
Agora, que as filmagens estão terminadas, na Etiópia, o realizador vem concluir a parte portuguesa e fazer-me uma longa entrevista sobre o nosso espião e a sua época, fazendo também uma ponte para temas do presente.
O Espião de D. João II traduzido no Egipto
O meu romance O Espião de D. João II, está a ser traduzido, no Egipto, para a língua árabe, por convite da Senhora Embaixadora de Portugal, Dra. Madalena Fisher. O convite foi feito durante um encontro de portugueses a Senhora Embaixadora, quando estive no Egipto, em Março do ano passado. Fiquei felicíssima, como podem imaginar.
07/04/2018
«1640» - Contra o Acordo Ortográfico
No dia 28 de Março passado, participei no 29º Colóquio Internacional da Lusofonia, convidada pela Câmara Municipal de Belmonte, para apresentar o meu novo romance «1640». A minha maior surpresa foi ter verificado, já depois de ter escrito um trabalhoso artigo para as Actas do Colóquio, que os seus organizadores exigiam a todos os participantes que escrevessem segundo o AO, mesmo os daqueles países que não o assinaram, o que é inconcebível. Não podia recusar o compromisso que assumira com a Câmara, por isso adaptei o meu discurso à minha indignação. E deixo-vos aqui os excertos que têm que ver expressamente com o que penso do crime que foi cometido contra a língua escrita que eu amo. Lembro que na sala havia altos responsáveis pela criação do dito AO:
«1640»: Quando a realidade e a lenda se fundem nasce o romance
histórico
Assim, também me espantou que, neste colóquio, que é uma ocasião única para se poder apreciar as variantes tão ricas da portuguesa língua, se tenha imposto essa malfadada uniformização da escrita, que não é outra coisa senão uma canhestra mutilação, a todos os participantes dos países que o recusaram: Não perdem ocasião de impor pela força aquilo que não conseguem com a razão.
Recuso o corte das consoantes mudas que podem não se ouvir, mas falam na escrita com a linguagem dos sinais, mostrando-nos a sua origem e diferenciação, nos seus étimos e raízes. Esse (Des)Acordo nem toma em consideração as variantes dialectais do nosso próprio país, onde há zonas em que a mesma palavra se pronuncia com C e noutras é muda.
Trabalhar a nossa língua em todos os seus registos é um prazer divino e a maior motivação da mi nha escrita. «1640», o meu último romance, levou esse exercício mais longe do que me permiti sonhar. Amo este país e a sua cultura por isso só escrevo romances históricos de temática nacional, a partir das histórias daqueles que souberam criar, desenvolver e manusear a nossa língua com infinita mestria e originalidade, de que nós hoje somos fracos herdeiros. Na minha trilogia dos Descobrimentos – O Navegador da Passagem, O Espião de D. João II e O Corsário dos Sete Mares – recorri ao estilo e linguagem dos cronistas dos séculos XV e XVI, em que a língua ainda se encontrava em processo de desenvolvimento, transbordante de criatividade; em D. Sebastião e o Vidente, mas, sobretudo, no «1640», que aqui venho apresentar, pude gozar com toda a plenitude a volúpia da Língua Portuguesa, que atingiu as maiores alturas no século XVII.
Ao escolher para guias do leitor, quatro dos seus maiores mestres e cultores, fui forçada a meter-me na pele (ou a meter sob a minha pele) o épico Brás Garcia de Mascarenhas, a poetisa lírica Soror Violante do Céu, o maior prosador ibérico seiscentista D. Francisco Manuel de Melo e o pregador António Vieira, que deslumbrava pelo virtuosismo da expressão. Quatro narrações feitas em 1ª pessoa, que constituíram, para a escritora, um tremendo desafio, mas também um prazer sem limites.
O romance está construído como um puzzle ou uma teia de intertextualidades documentais, geográficas, literárias, filosóficas, religiosas, sociais e culturais, para envolver o leitor, de modo a que ele possa sentir o prazer estético da leitura, aprofundando em simultâneo o seu conhecimento da época em que decorre a acção. No século XVI, passada a euforia da grande odisseia dos descobrimentos de outros mundos até então encobertos aos europeus, a crise endémica portuguesa, provocada pelos problemas políticos, económicos e sociais, vai culminar no desastre de Alcácer-Quibir e na posterior anexação de Portugal por Espanha. O romance 1640 reflecte esses tempos de crise e da vida problemática das suas gentes. Sendo obra de ficção, tem como principal objectivo o prazer estético da leitura, por isso o escritor frui de uma liberdade criativa que é negada ao historiador; contudo, enquanto género histórico, o romance exige uma componente de informação e conhecimento da História que o distingue e singulariza em relação a todos os outros tipos de romance. O que, para ser feito com honestidade intelectual e respeito pelo leitor, implica da parte do seu autor um estudo de alguns anos, não só dos factos narrados, mas sobretudo da sua contextualização, nos múltiplos aspectos de cada época e da mentalidade dos seus actantes.
O desastre de Alcácer-Quibir (com que termina o romance D. Sebastião e o Vidente), a crise dinástica, a guerra civil e a anexação do reino por Filipe II de Espanha, numa pretensa União Ibérica, são os antecedentes do romance 1640, em que Portugal foi arrastado para os conflitos do Império espanhol, em particular, da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), uma das mais destrutivas da Europa. A fim de alimentar a guerra em várias frentes, Filipe IV de Espanha e o conde-duque de Olivares, fazendo tábua-rasa dos acordos sobre a autonomia de Portugal, esgotaram os seus recursos humanos e materiais, destruindo a economia e esmagando o povo com impostos, que eram aplicados não em benefício dos portugueses mas dos espanhóis, transformando o reino numa das mais pobres províncias da Península Ibérica.
Olivares contou com os serviços de
funcionários portugueses submissos e interesseiros, como Diogo Soares, em
Madrid, e Miguel de Vasconcelos, em Lisboa, os bons alunos do Ministro
estrangeiro, que não só obedeceram às suas directrizes, como foram mais longe
na imposição de sacrifícios aos seus compatriotas, reduzindo-os à miséria e à
fome. Ao estudar a crise social, económica e política de Portugal, nos textos deste
período, foi possível estabelecer um paralelismo entre este triunvirato de
governantes seiscentistas e a Troika que nos veio governar, em 2011, imposta
pelo FMI/instituições europeias, com os seus nefastos resultados.
Nestes períodos de crise, Portugal
procurou uma panaceia ou incentivo contra o pessimismo e a estagnação do país,
na afirmação da sua nacionalidade e identidade colectiva. E nada melhor para
valorizar a nação do que atribuir-lhe origens divinas ou tão antigas, que
remontassem a um tempo anterior à sua criação, legitimando-a. Assim, como
princípio fundador, mais remoto, surge a identificação de Portugal com a
Lusitânia e dos portugueses com os Lusos ou Lusitanos, e consequente
apropriação do herói Viriato e da sua luta pela autonomia do território, como
matriz e origem histórica de Portugal, uma tese veiculada e exaltada pela
Literatura, com expressão máxima nos Lusíadas,
de Luís de Camões, no século XVI, e no Viriato
Trágico, de Brás Garcia Mascarenhas, no XVII.
A reforçar essa legitimidade, uma tese
posterior vai atribuir origem divina à fundação do reino de Portugal, por D.
Afonso Henriques, sacralizada, em 1139, pelo milagre de Ourique, na sua anunciada
visão de Cristo crucificado a prometer-lhe a vitória contra os cinco reis
mouros. Um milagre que o consagra rei, em pleno campo de batalha, e que será descrito
em futuras crónicas, servindo de argumento para a sua legitimação pelo papa. Sobrepondo-se
à valorização política dos dois princípios fundadores, coexistiam três crenças
messiânicas, que indicavam 1666 como o
annus mirabilis: a dos judeus e cristãos-novos para a vinda do seu Messias;
a dos sebastianistas para o regresso d’El-Rei Dom Sebastião; e a dos milenários
à espera da destruição do Turco e da instauração de um Quinto Império, cristão
e universal, que Bandarra mencionava nas suas Trovas.
O povo oprimido começou a ansiar pelo
regresso do rei D. Sebastião, desaparecido sem deixar rasto no campo de batalha
e identificado com o Encoberto das
profecias do sapateiro santo. Uma
crença que foi crescendo, cada vez mais forte, durante o domínio dos três
Filipes, alimentando a esperança do povo português na sua libertação. Padre António Vieira defenderá a deia do Quinto
Império, o Império de Cristo, para um período de mil anos, que terá
Portugal como guia, quando todos os pagãos, judeus e muçulmanos forem convertidos
ao catolicismo, o reino do Deus único e verdadeiro.
O romance 1640, apoiado em inúmeras fontes documentais coevas e actuais,
procura fazer um retrato verosímil do Portugal seiscentista, dos seus conflitos
internos e das suas difíceis relações internacionais, numa luta pela sobrevivência
como nação independente. A acção decorre num período de cinquenta anos
(1617-1667), riquíssimo em acontecimentos, dramas e personagens.
No dia 1 de Dezembro de 1640, os
portugueses dos três Estados – povo, clero e nobreza – soltaram o grito de
liberdade e tomaram o destino do país nas suas mãos, iniciando uma intensa luta
para sair da crise pelos seus próprios meios, num Portugal esgotado e acossado
por nações inimigas – a Espanha e as suas aliadas –, mas também pelas «amigas»,
como a Inglaterra e a França, que impuseram condições esmagadoras em troca da
sua ajuda. Tal como nos nossos dias.
A estrutura formal da obra foi
inspirada na Corte na Aldeia, de
Francisco Rodrigues Lobo, que, ao estilo da época barroca e em total sintonia
com a intriga, recorre aos Diálogos entre várias personagens que discutem,
comentam e problematizam os assuntos mais variados, introduzindo os capítulos
narrativos dos sucessos que mais os marcaram, preocuparam ou divertiram.
Durante a dominação filipina, os
reis e a Corte residiam em Madrid, centro de acção e decisão sobre todos os
assuntos do Império Espanhol e das suas relações com o mundo, mas também um
lugar privilegiado de criação e promoção de progresso, cultura e
entretenimento. Lisboa, a antiga residência da dinastia de Avis, perdeu assim o
seu estatuto de Corte régia, transformando-se em mera capital de província.
Cansada de correr para Espanha, a
mendigar mercês, parte da nobreza de Portugal retirou-se para os seus domínios,
no campo, onde fez florescer as «cortes de aldeia», que procuravam imitar,
segundo o estatuto e as posses dos seus senhores, as Cortes régias, com
mecenato a escritores, músicos e outros artistas. A mais fulgurante, em
dimensão e importância, foi a dos duques de Bragança, em Vila Viçosa, cujo
cerimonial cortês era idêntico ao de Madrid.
Uma
mentalidade barroca que, segundo Vitorino Magalhães Godinho, “anseia pelo
fausto e pela exibição, nos círculos nobres como nos religiosos – uma
religião de exuberância decorativa, aquietando-se nos ritos de subterrâneas
inquietações, satisfazendo-se na exterioridade de uma insatisfeita
interioridade”. Assim, nas
cidades, essa função cultural e intelectual é assumida nos conventos pelas
freiras, cultas e de nobre ascendência, alguns célebres quer pelos seus Outeiros (representações teatrais,
concertos musicais, saraus de poesia e produção literária), quer pelos
escândalos de cariz licencioso das suas religiosas.
Na primeira parte do romance, o
narrador é o poeta Brás Garcia de Mascarenhas, autor do Viriato Trágico, a grande epopeia seiscentista cujo herói é o pastor dos Montes Hermínios, com a sua
luta contra os romanos, que simboliza a revolta dos portugueses contra a
ocupação espanhola. Brás é a personagem de maior relevância, embora desconhecida
dos portugueses, que pretendi resgatar ao limbo do esquecimento, restituindo-a
a um merecido lugar entre os maiores vultos da cultura portuguesa. Nascido em
Avô, amante traído, proscrito e aventureiro, Brás vai conduzir o leitor pelo
dédalo de sucessos anteriores à Restauração, como as guerras do Brasil contra
os holandeses, a sua amizade com António Vieira, as experiências com os índios
e a sua complexa vida amorosa.
Na segunda parte, guia-o Soror
Violante do Céu, desde o convento da Rosa, em Lisboa. Cultora do conceptismo e
cultismo, tanto na poesia de temática religiosa como na de cariz secular/erótico.
Celebrada pelos seus contemporâneos, como a Décima
Musa e a Fénix dos Engenhos
Portugueses, dará a conhecer a situação e vida das mulheres de seiscentos,
enclausuradas sem vocação nos conventos, algumas desde a infância, uma prisão
que, paradoxalmente, era para muitas uma libertação da tirania masculina
castradora, permitindo-lhes estudar e exercer os seus talentos de artistas,
letradas ou cientistas, o que de outro modo lhes era vedado pelos homens, sob o
pretexto de serem intelectualmente inferiores.
Na terceira parte, os conflitos de
ordem militar serão relatados por D. Francisco Manuel de Melo, o grande
prosador e poeta do século. Na prisão da Torre, este Fidalgo de Dom, aparentado
com a Casa de Bragança, militar e marinheiro, foi vítima de uma Justiça
corrupta (um traço comum às quatro personagens) que o condenou a doze anos de
prisão e ao exílio no Brasil. O seu testemunho permite tomar conhecimento da
intrincada rede de conspirações, espionagem e traições com que Portugal e D.
João IV se debateram para ganhar a liberdade.
Na quarta parte, o leitor é levado pelas
palavras e reflexões do jesuíta António Vieira, o mais brilhante pensador e
pregador de todos os tempos, que o guiará pelos meandros da diplomacia nacional
e internacional, em que D. João IV se vai empenhar num dificílimo jogo de
custosas alianças, para que Portugal possa recuperar o seu estatuto de nação
independente. No cárcere da Inquisição, entre 1663 e 1667, ano em que termina o
romance, Padre António Vieira, relembrando a sua vida passada, dará conta dos
mais significativos sucessos em que participou até à crise política interna, do
reinado de D. Afonso VI.
A complexidade do assunto a tratar implicou
o estudo de uma infinidade de temas, porque só no cruzamento de saberes se pode
alcançar o multifacetado conhecimento de uma época, um trabalho que se arrastou
por treze anos de investigação, embora alternando a sua escrita com a da
trilogia dos Descobrimentos.
1640 é uma data fulcral da nossa
História, que mudou o destino da nação, pois, sem a Restauração, Portugal não
seria o mesmo e talvez não passássemos hoje de uma pobre província espanhola, a
falar um dialecto e a sonhar com a independência, como a Catalunha, cuja
revolta ajudou então à nossa libertação. Assim como, sem a Expansão Marítima
Portuguesa, ou seja, sem os Descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI, os
países da Lusofonia não existiriam como tal, nem falariam a Língua Portuguesa
em todos os seus ricos matizes e este Colóquio não teria razão para existir. Deo gratias, por isso não ter
acontecido.
01/04/2018
NO JORNAL HOJE MACAU
Cinema
João Botelho
assume plágio de romance histórico no filme “A Peregrinação”
ANDREIA
SOFIA SILVA - 29 MAR 2018
O cineasta João Botelho assumiu o plágio do livro “O
Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto”, na escrita do argumento do
filme “A Peregrinação”, rodado parcialmente em Macau. A autora da obra, Deana
Barroqueiro, não esconde a revolta e denunciou o caso na sua página pessoal
do Facebook
Afinal, o cineasta português João
Botelho não escreveu o argumento do seu filme “A Peregrinação” com base na obra
original do escritor Fernão Mendes Pinto, mas sim a partir do romance histórico
de Deana Barroqueiro, intitulado “O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes
Pinto”. O filme foi parcialmente filmado em Macau e ambos os autores estiveram
presentes no território a convite do festival literário Rota das Letras.
Foi a própria autora que fez a denúncia
do caso na sua página pessoal de Facebook, depois de ter recebido uma carta de
João Botelho, também endereçada à sua editora, Casa das Letras/Leya.
Na missiva, o cineasta explicou que
tentou, durante meses, contactar Deana Barroqueiro, mas que nunca conseguiu.
“Sou o autor do filme “A Peregrinação” e durante meses, nesta ‘arte de vampiro’
que é afinal o cinema, li, consultei, adaptei e reescrevi cenas para a minha
curta adaptação da vida e do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto. Na
verdade, o seu romance, o Corsário dos Sete Mares, foi forte inspiração para
algumas cenas do filme, as da China”, pode ler-se.
Botelho adiantou ainda que pensou que a
autora estaria nos Estados Unidos, pois tentou “contactar a editora e não
conseguiu à primeira nem à segunda”. “É evidente que devia ter insistido três,
quatro vezes. Mas meteu-se a produção – trabalhosa, longa e difícil. Tive o
cuidado de colocar em primeiro lugar nos agradecimentos, no genérico final do
filme, o seu nome. É pouco, eu sei. Eu e o produtor aceitamos a sugestão da sua
editora para colocar uma cinta com os dizeres: ‘Inclui episódios adaptados do
romance O Corsário dos Sete Mares’. Perdoe-me”, conclui a carta.
Na sua resposta, que também partilhou no
Facebook, Deana Barroqueiro não escondeu a indignação. “A sua justificação de
que não me conseguiu contactar nem à editora Leya é inverosímil, bastava que
algum dos seus ajudantes pusesse o meu nome no Google e acharia diversos meios
para o fazer – sou figura pública, tenho blogues, várias páginas no Facebook,
e-mails e telefones e passo meses sem sair de casa, a escrever; do mesmo modo,
a Leya não é uma editora de vão de escada, que não atende o telefone.”
Uma das mais conhecidas autoras de
romance histórico em Portugal defendeu ainda, na sua resposta, que o
cumprimento dos direitos de autor nem sempre é cumprido no seu país. “João
Botelho, se eu vivesse na América, o senhor não se atreveria a usar a minha
obra do modo como o fez, porque lá os direitos de autor são sagrados. Em
Portugal, as leis existem, mas só são cumpridas por alguns.”
Deana Barroqueiro confessou ainda ter
tido conhecimento da situação de plágio depois de ter sido avisada por leitores
mais atentos. “Fui alertada por leitores que comentaram a ‘adaptação
cinematográfica do Corsário dos Sete Mares’, convencidos de que o realizador
usara o meu romance e que eu sabia. Perplexa, fui pesquisar na internet. O
primeiro texto/entrevista que li foi o de Nuno Pacheco, no Ípsilon. E passei da
admiração ao pasmo. O senhor fala das personagens que eu inventei no meu
romance, como se fossem da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. E refere como
fontes a obra do próprio aventureiro, as canções do Fausto e a adaptação do
Aquilino, de onde tirou a conhecida e rebatida ideia do alter ego de Fernão,
sem nunca mencionar o meu livro, que tantas personagens e ideias lhe deu.”
A autora viu o filme e gostou “bastante”
dele, mas viu nele todo o romance que escreveu. “Fiquei com a sensação de que o
senhor seguiu mais de perto o guião do meu romance (porque de um guião se
trata) do que o da Peregrinação, que é confuso e de tal maneira intrincado, que
me levou muitíssimo tempo a destrinçar.”
CENAS DA CHINA COPIADAS
Segundo as declarações do cineastas, as
partes do romance histórico que mais usou no filme são as que dizem respeito à
China. A respostas da escritora nessa matéria é peremptória. “Sabe bem que não
foram apenas as cenas da China que adaptou do meu romance ou nas quais se
inspirou, João Botelho. A japonesa Wakasa também não existe na Peregrinação,
foi com muita pesquisa que encontrei a história e as crónicas japonesas,
ficcionei o seu casamento com Fernão, fazendo dela uma espécie de Madame
Butterfly.”
A autora dá ainda outros exemplos de
plágio. “A ‘Senhora’ adúltera foi também uma ficção minha a partir de um crime
do tempo, que encontrei num arquivo e numa genealogia. Até o ‘número mágico
nove’, de que fala nas entrevistas, é o leit-motiv do meu livro. Assim, é de
facto muitíssimo pouco o seu reconhecimento.”
Além disso, “não há nenhuma namorada ou
amante de Pinto na sua obra, só existem no meu romance (exceptuando a rainha da
Etiópia)”, sendo que “a violação da chinesa, por António de Faria, não existe
de todo na Peregrinação”.
Deana Barroqueiro escreveu também que
criou a personagem da amante chinesa, “assim como o nome Meng e os seus
amores”. “Inventei-os a partir da menção feita por Pinto aos filhos do
português Vasco Calvo – ‘dois meninos e duas moças’ -, no cap. 116 da sua
Peregrinação. Ora, a cena que se vê no filme de ‘Meng’ com uma bacia de água
perfumada de flores, a lavar as cicatrizes que Pinto tem nas costas, das
chicotadas na prisão, é um dos episódios do meu romance que considero melhor
conseguidos. A diferença é que João Botelho coloca a cena em Pequim e não na
aldeia onde vão viver os portugueses junto à muralha da China, como condenados
a trabalhos forçados”, escreveu ainda a autora, que deu outros exemplos.
O caso já gerou reacções nas redes
sociais, nomeadamente do escritor Rui Zink, que também esteve no festival
literário Rota das Letras. “Por que motivo os gajos que fazem filmes são amiúde
tão desrespeitadores para com quem escreve os livros que, ora com autorização,
ora surripiando, vampirizam?”, questionou.
“Curiosamente, no teatro acontece menos.
Há um desejo de apropriação (já vi cartazes de peças sem nome do autor, e
faz-me espécie a moda dos «a partir de», e uma cultura do DJ quase como quase
verdadeiro compositor das musiquetas que ‘sampla’) mas é em menor grau. No caso
do cinema, o abuso torna-se tão natural como, em tempos idos, o realizador
casar com a estrela do filme. É chato”, escreveu ainda Zink.
O HM tentou chegar à fala com a autora,
mas até ao fecho da edição não foi possível estabelecer contacto. Nos prémios
Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, o filme “Peregrinação” foi um dos
nomeados em várias categorias, incluindo a de melhor argumento.
NO PÚBLICO
Peregrinação:
João Botelho acusado de adaptar romance sem autorização
Deana
Barroqueiro, a autora de O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto, garante
que o realizador retirou do seu livro várias personagens e cenas que aparecem
no filme em que conta a história do célebre explorador português do
século XVI sem que ela ou a sua editora soubessem que o ia fazer. A
escritora pondera processar o cineasta.
30
de Março de 2018, 17:12
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Deana Barroqueiro, a autora de O Corsário dos Sete
Mares – Fernão Mendes Pinto, está indignada. Na quinta-feira, o
jornal Hoje Macau tornou públicas as acusações que a
escritora fez ao realizador João Botelho na sua página no Facebook. Barroqueiro
garante que o cineasta que em 2017 estreou Peregrinação,
filme em que diz adaptar a obra homónima do explorador do século XVI que
é o mais célebre dos títulos da literatura de viagens portuguesa, usou, sem a
sua autorização, alguns personagens e episódios que não constam do original,
mas do romance que a escritora lançou em 2012, na Casa das Letras (chancela do
grupo LeYa).
“É mesmo uma adaptação só que o João Botelho esqueceu-se
de falar comigo ou com a editora”, disse Deana Barroqueiro ao PÚBLICO esta
sexta-feira, acrescentando ainda, como fizera já por escrito na rede social,
que, em momento algum, o realizador terá reconhecido publicamente que o seu
livro fora uma das fontes de Peregrinação.
Foi quando os leitores de O Corsário dos Sete Mares começaram
a dizer-lhe que o livro era melhor do que o filme e que o seu nome aparecia na
ficha técnica, nos agradecimentos, que tomou conhecimento do que se passava,
conta. Até aí não tinha visto Peregrinação.
Resolveu então, e antes de se sentar numa sala de cinema, ler as entrevistas
que Botelho dera a propósito do filme e começou a constatar que o cineasta
atribuía cenas e personagens que ela criara à obra escrita por Fernão Mendes
Pinto e que falava de outras fontes, sem nunca tocar no seu nome: “Ele menciona
o Aquilino Ribeiro, menciona o Fausto e não faz uma referência ao meu livro
nunca, em nenhuma entrevista, em nenhum artigo.”
Para tornar mais claro até que ponto o seu romance é
importante para a Peregrinação de Botelho, a autora exemplifica –
Meng, a amante chinesa que aparece em muitas das fotografias de promoção do
filme a lavar as cicatrizes das costas de Fernão Mendes Pinto, é uma criação
sua, só que Barroqueiro coloca a cena numa aldeia junto à Muralha da China e
Botelho transporta-a para Pequim. "Eu estava a assistir ao filme e a ver
as minhas cenas com os pormenores todos. Quase que estaria encantada se não
estivesse tão indignada. Senti-me violada.”
João Botelho e o produtor de Peregrinação, Alexandre
Oliveira, não estão disponíveis para prestar declarações, mas a Ar de Filmes
fez chegar ao PÚBLICO por email o seguinte esclarecimento: “Na
construção do guião João Botelho inspirou-se em variadíssimos ensaios e
referências à obra de Fernão Mendes Pinto. Um deles, efectivamente, foi um
livro de Deana Barroqueiro, fonte de inspiração para duas ou três cenas dos
episódios na China.”
Barroqueiro contesta, abertamente, esta leitura redutora
que a produtora faz das cenas adaptadas do seu romance e elenca vários
exemplos, muitos deles também referidos na sua página no Facebook, cenas que
resultaram de cinco anos de investigação: o amor e o desejo não correspondidos
de Fernão Mendes Pinto por uma chinesa que os companheiros tinham comprado; a
filha do capitão que o ensina e ler mandarim; as cenas com as prostitutas, que
permitiram “criar episódios cómicos”; a cortesã que fala sobre “o Yin e o Yang
no sexo” a Cristóvão Borralho; as referências à rua dos cavalos magros, que era
onde se iam comprar as concubinas e as esposas na China; ou o adultério de
Joana Aires da Silva com Manuel Freire, que a escritora foi buscar a outras
fontes da época, que dão conta de um escândalo semelhante. “Ele fez uma
adaptação não autorizada porque não pediu a ninguém”, defende. “As únicas cenas
que não estão no meu livro e estão no filme são as da morte do Pinto com a
família porque, no meu romance, fiquei com o Pinto no Oriente, em 1577/1578.
Também não está a cena das mantas a voarem. São as únicas, porque as de lutas
também lá estão.”
Antes das filmagens, continua a mesma nota breve da Ar de
Filmes, a produtora tentou contactar a escritora, “mas a verdade é que não
foi possível”: “Houve o cuidado de mencionar o nome da autora em primeiro lugar
nos agradecimentos do filme e, posteriormente, a produtora foi contactada pela
editora do livro em questão para que, em forma de retribuição, fosse possível
utilizar imagens do filme para promover a nova edição, ao que simpaticamente
acedeu. Sobre o assunto não faremos mais comentários."
De acordo com a autora, durante este processo, Botelho
ter-lhe-á escrito uma carta, que a sua produtora lhe fez chegar através da
LeYa. Nela o realizador assume ter-se inspirado no romance de Barroqueiro e diz
ter tentado contactá-la antes, sem ter insistido o que devia. “Sou o autor do
filme Peregrinação e durante meses nesta ‘arte de vampiro’ que é
afinal o cinema, li, consultei, adaptei e reescrevi cenas para a minha curta
adaptação da vida e do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto. Na verdade o
seu livro O Corsário dos Sete Mares foi forte inspiração para algumas
cenas do filme, as da China”, diz-lhe o realizador que já adaptou ao cinema
obras de Fernando Pessoa e de Eça de Queirós, numa carta que começa com uma
admissão de culpa – “escrevo-lhe para reparar um mal e, ao mesmo tempo,
agradecer tardiamente um bem” – e termina com um pedido de desculpas:
“Perdoe-me”.
Da editora de Barroqueiro, os comentários à situação por
ela denunciada também chegaram por email, via direcção de comunicação: “A
LeYa e a Casa das Letras colocaram-se, naturalmente, ao lado da autora Deana
Barroqueiro desde que, há alguns meses, foram detectadas evidentes semelhanças
entre o filme e o livro O Corsário dos Sete Mares. Essa posição
mantém-se.”
A LeYa não menciona qualquer possibilidade de vir a
avançar com um processo judicial no domínio dos direitos de autor, mas a
escritora não se coíbe de o fazer: “Não sei se no cinema se considera plágio
quando se pega numa grossa parte de um livro e se aplica como guião de um
filme… […] Mas eu estou muito indignada e sinto-me injustiçada. Levei cinco
anos a fazer investigação, ponho tudo na bibliografia - tenho uma bibliografia
extensíssima - e depois vem alguém que se apodera da minha obra e que nem a
menciona? Eu não admito isto e, se a LeYa não for para o tribunal, vou eu.”
Deana Barroqueiro, que tem uma já longa carreira como
professora, teme ainda que o filme e o que sobre ele disse Botelho, misturando
o original de Mendes Pinto com aquilo que saiu do seu romance, possam vir a dar
origem a equívocos perigosos: “O [crítico de cinema] João Lopes disse que o
filme é muito didáctico para ir para as escolas e é isso que eu, com 35 anos de
ensino, me recuso a aceitar. As minhas cenas, que são imensas, vão passar nas
escolas como se fossem do Fernão Mendes Pinto? Não pode ser.”
Editado em 2012, O Corsário dos Sete Mares vendeu
até hoje, segundo a editora, cerca de 2500 exemplares.
Notícia actualizada às 18h30 para acrescentar a tomada de
posição da Casa das Letras/LeYa, editora de O Corsário dos Sete Mares, e
outras declarações de Deana Barroqueiro.
NO OBSERVADOR
João Botelho acusado de adaptação não autorizada.
Filme é “presente envenenado”, acusa escritora
30/3/2018, 18:53416
por bruno horta
Realizador diz que adaptou
"Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, mas Deana Barroqueiro
contesta. “Fiquei siderada, era o meu romance plasmado na tela." Botelho e
a produtora admitem inspiração.
De repente, alguma coisa não batia certo. Em novembro do ano passado, Deana Barroqueiro começou a receber mensagens de leitores que lhe falavam do novo filme de João Botelho. A película tinha-se estreado no primeiro dia daquele mês e os leitores diziam-lhe, através do Facebook, que se tratava de uma versão do romance que a escritora tinha publicado alguns anos antes. Mas ela não sabia de nada.
Começou a pesquisar na internet, encontrou entrevistas e artigos sobre o filme e verificou que o realizador afirmava ter feito uma versão da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto – o mesmo livro que a inspirou na escrita do romance O Corsário dos Sete Mares, de 2012. Ficou espantada. Decidiu ir a uma sala de cinema na zona de Alvalade, em Lisboa, para ver o filme com os próprios olhos. E gostou pouco do que viu.
“Fiquei siderada, era o meu romance plasmado na tela. Senti-me espantada e ao mesmo tempo violada. Aquilo foi um presente envenenado”, classifica Deana Barroqueiro, em conversa com o Observador.
Tenho uma escrita bastante visual e os pormenores que dou no meu livro, as expressões que uso, as personagens, está tudo no filme do Botelho. Ele até segue a ordem dos capítulos do meu livro. Não copiou uma uma pequena coisa. Sem o meu livro, aquele filme não existia.”
“Peregrinação”, de João Botelho, foi financiado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual, através de um concurso a que o realizador se candidatou em 2015 com um pedido de 600 mil euros. Também a RTP, a Câmara de Lisboa e Câmara de Almada contribuíram para o financiamento. A obra integra uma sequência que João Botelho tem dedicado à literatura portuguesa, iniciada em 2001 com uma adaptação de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, a que se seguiram versões de obras de Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa e Eça de Queirós.
Em abril do ano passado, o realizador explicou à Agência Lusa que o filme “não é” a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, mas apenas uma parte. “Como se fosse uma introdução à leitura” da obra impressa pela primeira vez em 1614.
Os documentos distribuídos à imprensa quando da estreia incluem um texto de Botelho onde este explica: “Aceitei de Aquilino Ribeiro a ideia genial e tão justa cinematograficamente de que o corsário António Faria é um heterónimo de Fernão Mendes Pinto. E roubei a Fausto, com a devida autorização, os originais de ‘Por Este Rio Acima’, que o Luís Bragança Gil e o Daniel Bernardes transformaram em polifonias para voz.” O livro de Deana Barroqueiro não é referido.
A autora, de 72 anos, é conhecida por escrever romances históricos, sendo um dos mais conhecidos D. Sebastião e o Vidente, publicado em 2006 pela Porto Editora e do qual se venderam mais de 18 mil exemplares, dizem os números oficiais. Filha de portugueses, nasceu nos EUA, em New Haven, estado do Connecticut, e vive em Portugal desde os dois anos. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora de português e de literatura no Liceu Passos Manuel e publica regularmente desde a década de 90.
Ao escrever O Corsário dos Sete Mares quis afastar-se do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto e romancear cenários, pessoas e situações.
Li quatro vezes a ‘Peregrinação’ de uma ponta à outra para fazer o terceiro volume da minha saga sobre os Descobrimentos. As cenas que o João Botelho filmou não existem na ‘Peregrinação’, simplesmente não existem. As cenas com prostitutas, a amante, o casamento. É inegável que as foi buscar ao meu livro, mas agora apresenta-as como se fossem de Fernão Mendes Pinto. A Meng foi uma personagem inventada por mim e no filme do Botelho também há uma Meng [interpretada pela atriz Jani Zhao]. ”
A autora entende que o realizador não pode descrever o filme como uma adaptação do livro do século XVII e que deveria ter incluído na ficha técnica uma referência explícita a O Corsário dos Sete Mares”. Acredita que a película “pode induzir em erro” o público, desde logo os estudantes – até porque o filme foi recomendado pela Direção-Geral da Educação.
Não quero dinheiro, estou-me nas tintas para os direitos de autor. Vivo para a escrita, não vivo da escrita. Bastava-me que ele tivesse referido que adaptou o meu romance”, sublinha.
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