13/02/2020

Programa do Encontro de Escritores Lusófonos

Hoje, dia 13, às 18 h, na Biblioteca Camões - Lisboa: 

Programa
18.00 Recepção aos participantes.
18.15 Sessão de Abertura
Lithales Soares (Biblioteca Camões); Delmar Maia Gonçalves (Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD); Renato Epifânio (Presidente do Movimento Internacional Lusófono - MIL); João Micael (Presidente da Matriz Portuguesa); Roberto Moreno (Presidente da Fundação Geo-Língua - Brasil)

19.00 Painel 1
Deana Barroqueiro (Portugal)
Ernesto Dabo (Guiné-Bissau)
Manuela Gonzaga (Portugal)
Filipa Vera Jardim (Portugal)
Carlota de Barros Cabo Verde)
Rui Maurício (Portugal)
Carlos Reis (Portugal)
Maria Dovigo (Galiza)
Moderação: Delmar Maia Gonçalves (Moçambique)

19.30 Painel 2
Luís Ochoa (Portugal)
Luísa Fresta (Angola)
Regina Correia (Angola)
Francisco Fadul (Guiné-Bissau)
Carlos Carneiro (Portugal)
Conceição Rocha (Portugal)
Susana Bravo (Portugal)
Moderação: Filipa Vera Jardim (Portugal)

 A segunda fase (após a intervenção dos autores convidados) dos debates (1,2) será aberta ao público presente.

20.00 horas Encerramento com um pequeno Cocktail (Cortesia do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora- CEMD)

11/02/2020

Conversa com escritores lusófonos

Na Biblioteca Camões, dia 13, às 18 h. 

Largo do Calhariz, 17 - 1º Esq. Lisboa 

Deana Barroqueiro vai participar neste encontro de escritores da lusofonia em que se falará do LIVRO e da sua circulação. Um tema menos comum que, por isso mesmo, poderá ser interessante. Serão muito bem-vindos à bonita Biblioteca

18/12/2019

Deana Barroqueiro à conversa com Paulo Vahia

Duas horas de amena cavaqueira, em que se falou de tudo, sem papas na língua, dos aspectos pessoais aos temas literários e outros bem mais polémicos.

À conversa na Rádio Movimento

Fechamos a emissão desta terça-feira, dia 17 de Dezembro, com mais uma edição do “Pedra de Toque”, no ar entre as 22h00 e a meia-noite. Paulo Vahia convida a escritora Deana Barroqueiro. Vamos conversar sobre literatura e as histórias que a nossa convidada nos conta nos seus livros. Vamos também abordar as polémicas recentes em torno do seu romance, "O Corsário Dos Sete Mares".
Para ver e ouvir EM DIRECTO, agora em cinco plataformas, nos nossos canais do Facebook, YouTube, Twitch, Twitter e Mixer:
www.facebook.com/radiomovimentopt
www.youtube.com/rmovimentoptonline
www.twitch.tv/radiomovimento
www.twitter.com/radiomovimento1
www.mixer.com/radiomovimento
Ainda podem ouvir-nos, apenas em áudio, no player do nosso renovado site:
www.radiomovimento.pt

30/11/2019

1 de Dezembro de 1640 - Portugal Restaurado

Sucesso da Restauração: 


«Morto o secretário e presa a duquesa no paço, era necessário fazer caucionar a nossa acção pelos três estados. Temíamos que o povo se distanciasse de nós, desconfiado de uma conjura feita por nobres, essa nobreza que o deixara desamparado, aquando dos motins de Évora e Porto, onde tanta da sua boa gente fora justiçada na forca ou condenada às galés. Era urgente trazer para as ruas esse povo, que aos primeiros rumores do golpe se tinha refugiado com medo em suas casas e nas igrejas, levando-o a aclamar Dom João. Dividimo-nos em grupos e fomos percorrer a cidade aos gritos de “Liberdade! Viva El-Rei Dom João, o Quarto!”, a que todos respondiam com muitos “Real, real por El-Rei Dom João, Rei de Portugal!”.

Eu fui, com o meu bando, buscar o senhor Arcebispo de Lisboa, Dom Rodrigo da Cunha, que estava prevenido desde a véspera e saiu logo em procissão com o seu clero, levando um padre na dianteira uma grande cruz alçada, com um Cristo. Soubemos que o Senado da Câmara estava reunido e para lá nos dirigimos, a fim de anunciar que já havia um Rei natural. Encontrámos as portas cerradas por ordem do presidente, que tomara o tumulto por um motim popular e quisera salvaguardar o palácio. Ameaçámos deitar as portas abaixo, mas, mal soube da Restauração, Dom Pedro de Meneses abriu as portas e aclamou El-Rei à janela, dando-me a bandeira da cidade para ser hasteada no Castelo de São Jorge. Podeis imaginar a minha emoção, quando montei a cavalo com ela na mão, seguido por uma multidão que começou a gritar “Milagre! Milagre!”.

A voz de Brás soa emocionada, ao declamar a oitava, contagiando-nos a todos com o seu sentimento: – Chegado em procissão à porta santa / do melhor Português, ergue influído / a vista a um crucifixo com fé tanta, / quanto está de perigos combatido, / pergunta: Se é o Rei que se levanta, / e por ele, ao primeiro prometido? / Em sinal de que o é, descrava um braço, / ditosa procissão, ditoso abraço. 
– Foi assim mesmo, até parece que estiveste lá connosco! – exclama Dom Álvaro, retomando a sua narração:

 «A imagem do Cristo pregado na cruz, com toda aquela agitação, soltara o braço direito e movia a mão um lado para o outro, como a abençoar-nos.
– É um milagre e obra de Deus que tenhamos rei! Viva o nosso Rei Dom João IV», bradava Dom Rodrigo da Cunha, sobre as cabeças da multidão ajoelhada.
Foi uma ajuda verdadeiramente providencial, esta bênção à nossa causa! Em Madrid disseram mais tarde que fora o próprio arcebispo que tinha desprendido o braço da imagem, para comover o povo, até aí irresoluto. Houve, todavia, uma notícia na Gazeta sobre um homem que duvidou deste milagre e a parede, junto da qual conversava com alguns companheiros, mostrando o seu descrédito, caiu-lhe em cima e matou-o.

Hasteei a bandeira no Castelo de São Jorge, depois de o tomarmos à guarnição espanhola, libertando Matias de Albuquerque e Rodrigo Botelho, conselheiros da Fazenda, que o Secretário ali fizera prender. Também no supremo Senado da Casa da Suplicação, Aires Saldanha e Dom Gastão Coutinho abriram as cadeias e deram liberdade a todos os presos que lá se achavam encarcerados por serem contrários a Castela. Os que, como eu, percorriam a cidade anunciando a boa nova – e também com o fito de impedir quaisquer desmandos do povo –, volveram ao Paço tendo deixado a cidade tão sossegada, como se aquele dia primeiro de Dezembro fosse igual a todos os outros e não o da Restauração de um reino perdido havia sessenta anos.».

 – Também dei conta desse raríssimo sucesso no meu poema: Sobem graças ao Céu enquanto a terra / com lágrimas devotas se regava, / publica-se o milagre, e se desterra / o grão pavor que os peitos ocupava: / troca-se em branda paz a dura guerra, / e qual, se não passara o que passava, / teve Lisboa cheia de alegria, / dous pacíficos Reis em um só dia.

– Por último, nomeámos governadores do reino o arcebispo de Lisboa, o arcebispo de Braga (apesar da sua reconhecida fidelidade a Castela) e o visconde Dom Lourenço de Lima, enquanto Dom João não chegasse a Lisboa. Dez dias mais tarde, criámos um Conselho de Guerra, para estarmos prevenidos e tratarmos da defesa das fronteiras contra a invasão do exército espanhol que o conde-duque não tardaria em ordenar – termina, Dom Álvaro, com um suspiro fatigado, o seu longo relato.

(«1640» - de Deana Barroqueiro)

1640 - Restauração (cont.)

Defenestração de Miguel de Vasconcelos 

– Não duvido de que Deus nos ajudou porque fizemos uma revolta quase sem derramamento de sangue, coisa raríssima que espantou todas as nações da Europa – diz Dom Álvaro, assim que o alvoroço sossega, retomando o fio à sua história. – Não podíamos deixar Miguel de Vasconcelos com vida, mas queríamos evitar mortes desnecessárias. 
« Dom António Telo entrou na Secretaria, a fim de cumprir o juramento que fizera de o matar com as suas próprias mãos, mas não achou rasto dele. Quando se preparava para prosseguir com a busca em outras salas do paço, uma escrava que, se refugiara assustada a um canto, apontou para um armário de papéis contra o qual disparou dois tiros. Ouviu-se uma restolhada e o traidor, perdida toda a arrogância e a tremer de medo, saltou de dentro como uma mola, escancarando as portas, com uma clavina engatilhada, atirando à toa, antes de cair ferido ou moribundo. Muitas mãos apoderaram-se dele e, erguendo-o no ar, defenestraram-no. 

Mal o corpo caiu na praça, a regateira Brígida d’Alfama, à frente de um magote de petintais, agarrou-o pelos cabelos e levou-o de rojo para o meio da turba, que o golpeou com pedras, paus e navalhas, socos e pontapés, rasgando-lhe as roupas para levar mementos, até dele não restar senão uma massa sangrenta sem forma humana. Acabava, de modo ignominioso, o ministro prepotente que tantas vidas pisara e a tantos desdenhara, calcado a pés e cuspido de desprezos, como o mais miserável dos criminosos. Na sua escrivaninha achámos uma carta com uma denúncia da conspiração com os nomes de todos os conjurados, que ele não chegara a ler e, por isso, não tomou medidas para a fazer abortar.». 

– Ele não acreditava numa revolta da nobreza e o golpe apanhou-o desprevenido – zomba Dom Rodrigo. – Da mesma arrogância comungava Olivares, achando que nos podia humilhar à sua guisa. Quando teve notícia de que perdera o reino de Portugal, foi pedir alvíssaras a Dom Filipe pela boa nova, dizendo-lhe: “Tem Vossa Majestade mais um grande Estado, dentro da Espanha, o de Bragança, para possuir ou dar, como for servido”. Queria com isto dizer, que agora já podiam dispor de Portugal como mais uma província ou coutada espanhola, porque os vastíssimos domínios do duque de Bragança passariam para a coroa, por crime de lesa-majestade. Chamaram “rei de um inverno” a Dom João, seguros de que o seu reinado só duraria uns meses. 
– Pelas leis da guerra era forçoso matar a Miguel de Vasconcelos – insiste Dom Álvaro, prosseguindo com a sua narrativa. – Se o deixássemos vivo, haveria de ser causa de maior infelicidade para Portugal, que aquela que já havia causado. 

«Dom Miguel de Almeida e um bom número de companheiros foram pelo interior do paço, em busca de Dona Margarida de Sabóia, achando-a junto a uma janela da Casa da Galé, muito assustada com o tumulto e a rogar ao povo que a socorresse e livrasse das mãos dos amotinados. Afastaram-na da janela com muita cortesia e, com igual decoro, impediram-na de descer para o Terreiro do Paço. 
– Senhores, já estais satisfeitos e vingados com a morte do ministro culpado – arengou ela, recuperando o alento. – Ele foi castigado. Não passe adiante o furor, que não deve entrar em corações tão nobres. Prometo-vos que El-Rei perdoará a todos, vendo a obediência com que respeitais o seu serviço. 
D Sebastião de Matos de Noronha, o arcebispo de Braga, irrompeu na sala a vociferar contra os conjurados. O presidente do Tribunal do Paço era conhecido por ser do partido de Castela e pelo seu génio violento. 
– Peço a Vossa Reverência que se cale – atalhou Dom Miguel, num tom nada respeitoso. – Muito me tem custado livrá-lo da morte, porque os portugueses leais o tomam por traidor e já ontem à noite o queriam matar. 

O arcebispo achou prudente obedecer e retirar-se em silêncio para lugar seguro, longe da vista dos homens armado. A duquesa de Mântua, vendo que a tratavam com grande acatamento, retomou a sua sobranceria e as promessas:
 – Eu rogarei a El-Rei Dom Filipe pelo perdão… 
Não chegou a terminar a frase, interrompida por muitas vozes:
 – Já não conhecemos outro rei, senão Dom João IV. 
– Aclamámos ao duque de Bragança por nosso Rei natural. 
– O reino de Portugal está de novo livre e restaurado! 

Dona Margarida enfureceu-se ao ouvi-los e, perdendo o ar conciliatório que usara até àquele momento, insultou-os de modo tão destemperado que Dom Carlos de Noronha lhe disse em voz dura, mais de mando que de cortesia: 
– Rogo a Vossa Alteza que se retire, porque desta sorte posso perder-lhe o respeito!
 – A mim? E como? – desafiou, empertigando-se. 
– Obrigando Vossa Alteza, se não quiser entrar por esta porta, a sair por aquela janela. 
Sentindo na voz de Dom Carlos que este não hesitaria em cumprir a ameaça, a duquesa sufocou os protestos e retirou-se com as suas damas para a capela, não sem antes ter assinado uma ordem ao governador do Castelo, para que não saísse em armas contra os revoltosos. Dom Antão de Almada montou guarda com alguns homens aos seus aposentos, para a impedir de comunicar com Madrid e dar notícia da Restauração. 
(«1640» - Deana Barroqueiro)

«1640» - Preliminares do golpe

Amanhã é o Aniversário da Restauração de 1640. Eis o relato dos preliminares  da revolução pela voz da minha personagem e protagonista dos acontecimentos reais: 

«Quarenta confederados, não muitos para tão difícil empresa, mas assim o exigia o segredo. Cada um de nós tinha às suas ordens um punhado de parentes e amigos leais para levar a bom porto a tarefa que lhe fora destinada, porque se alguém falhasse poderia comprometer toda a missão. Reuníamo-nos, pela calada da noite e no maior segredo, nunca na mesma casa, que mantínhamos às escuras, usando apenas uma sala ou quarto interior; na rua tomávamos as maiores precauções para não levantar suspeitas, indo cada um por sua vez e embuçados, para não sermos reconhecidos. E sempre em pequeno número, para minorar o desastre se fôssemos descobertos, transmitindo em seguida as informações ou ordens aos nossos aliados e restantes conjurados.

O ponto de encontro para o derradeiro lance foi o Terreiro do Paço e a hora aprazada as nove da manhã de Sábado, dia primeiro de Dezembro. O palácio, onde se alojava a Vice-Rainha e Vasconcelos tinha o seu ofício, estava protegido por uma força de alabardeiros alemães e pela guarnição castelhana do forte. Era a cabeça da hidra que precisava de ser decepada, logo de início, conquanto a surpresa jogasse a nosso favor. Esperava-nos a morte, se fôssemos mal sucedidos, e para ela nos preparámos, na véspera, uns fazendo o seu testamento, todos confessando-se e comungado com os padres, nossos companheiros.

Houve momentos de grande emoção, como aquele que presenciei na casa do falecido Luís da Silva, o comendador e alcaide-mor de Seia, quando às sete horas da manhã fui buscar os seus filhos, António e Fernão, porque, sendo assaz moços, iriam comigo para o Terreiro do Paço. Fizeram-me entrar para a capela, onde Dona Mariana de Lencastre, uma fervorosa crente na vinda do Encoberto, com varonil inteireza e procurando manter firmes as mãos que seguravam a espada, armava os dois filhos para a luta que se avizinhava, exortando-os a cumprirem o seu dever, para maior honra dos seus antepassados. Anunciou-me, com muito orgulho, que também havia mulheres patriotas que queriam participar na Restauração da Pátria, mesmo as viúvas como ela e Dona Filipa de Vilhena, a condessa de Atouguia, que na falta do marido, armara igualmente os filhos, Dom Jerónimo e Dom Francisco. Devemos muito a inúmeras mulheres, cujos nomes injustamente esquecemos. Injustiça maior não terem sido cantadas como mereciam, nem terem os seus nomes registados para futura memória, por mais cronistas e poetas da fibra de Brás Garcia».

Que inda tem Portugal tão generosas / matronas, que não somente guardaram / segredo varonil, mas animosas / seus próprios filhos com suas mãos armaram; / imitando as antigas valorosas, / que aos maridos nas guerras ajudaram, / que brotou sempre a planta portuguesa / assombros de valor e de beleza. –  recita o poeta.
– Assim mesmo, Brás, sem tirar nem pôr! Fomos chegando ao Terreiro do Paço, sós ou em pequenos grupos, a pé, a cavalo ou em coches, dispondo-nos em bandos pela praça, em lugares estratégicos, desde o Arco dos Pregos ao do Ouro, de modo a acorrer prestes ao chamado.

«Decididos a arriscar a vida pela mais nobre das empresas, sabíamos o que estava em jogo e como a responsabilidade de muitas vidas pesava nos nossos ombros, por isso o sentimento era de apreensão e temor. O que também deu azo a algumas anedotas, de que não posso deixar de vos dar um exemplo, protagonizado por alguém que todos conhecemos. Quando nos cruzávamos com algum conhecido, para sabermos se era do nosso partido, perguntávamos o santo-e-senha. Ora aconteceu que passou por nós Dom Manuel Pereira da Cunha e parou para nos falar, porém, ao ouvir a pergunta “Quem vive?”, em vez de dar a contra-senha “El-Rei Dom João IV”, respondeu num tom agastado, Quem vive? Vive minha sogra, que por meus pecados ninguém vive mais que ela! O infeliz era malcasado e vivia infernizado pela sogra, embora esperasse dela uma boníssima herança.

Ainda nos ríamos quando o relógio deu a primeira badalada das nove e João Pinto Ribeiro bradou: Ide então ali, à sala dos tudescos, a tirar um Rei e pôr outro, para logo nos tornarmos para casa! Todos vós, mesmo os que não estivestes presentes, sabeis o que então se passou. Saltámos dos cavalos e coches e corremos para o Paço, onde alguns dos nossos já tinham entrado na sala da guarda real (como se fazia, de ordinário, enquanto se esperava para ser recebido por Vasconcelos) e, em ouvindo o sino, dominaram os archeiros e os guardas tudescos, após uma breve mas renhida luta.

Houve poucos feridos de parte a parte e apenas um morto, o corregedor Francisco Albergaria, que levou dois tiros por ter gritado Viva El-Rei Dom Filipe, em resposta a Dom Miguel de Almeida, que bradava, de espada em punho e com uma força de espantar num ancião de oitenta anos, Liberdade, liberdade! Viva El-Rei Dom João o IV! A multidão ia engrossando na praça: aprendizes, oficiais e mestres de desvairados ofícios, atraídos pelo alvoroço ou convocados pelos Vinte e Quatro dos Mesteres e também pelo Juiz do Povo, gente que o padre Nicolau da Maia trouxera para a nossa causa. Dom Miguel apareceu na varanda e repetiu o grito: Valorosos Lusitanos, viva El-Rei Dom João, o quarto de Portugal, até agora duque de Bragança. Viva! Morram os traidores, que nos arrebataram a liberdade! E o Terreiro do Paço estremeceu com o estrondo dos grandes vivas dados em resposta.»
(Deana Barroqueiro - «1640»)

29/11/2019

Contos Eróticos do Velho Testamento - Cursos e Tese de Doutoramento

Os meus Contos Eróticos do Velho Testamento são objecto de estudo e de Doutoramento na Universidade de Minas Gerais, Brasil. 


Na quinta-feira, 14 de Novembro de 2019 | das 14 às 16h:00 teve lugar no Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, o Curso "Mulheres que Matam" ministrado pela Professora Doutora Lyslei Nascimento, da Universidade Federal de Minas Gerais. 


Ementa: Leitura de alguns contos da coletânea Contos eróticos do Velho Testamento, de Deana Barroqueiro, publicada em 2018. Nessa antologia, a escritora se apropria de episódios, personagens e histórias da Bíblia e as reescreve, ironicamente, a partir de uma atmosfera de sedução e de mistério. Dedicadas a todas as mulheres, maltratadas ou assassinadas, lutadoras e pertinazes, essas narrativas promovem um olhar que retira da mulher a tradicional condição de vítima, alçando-a a uma posição ativa. Nesse sentido, o delito cometido por mulheres parece, também mudar de estatuto. 


Acompanha essa leitura o conto “Emma Zunz”, de Jorge Luis Borges, e os textos teóricos: “Os agentes de Satã: III. A mulher”, de Jean Delumeau, em História do medo no Ocidente, 1993, e “Mulheres que matam”, de Josefina Ludmer, em O corpo do delito: um manual, 2002. 


Programa: 

1 A mulher como agente de Satã: religião, medicina, justiça. 

2 Mulheres e crimes na Bíblia: personagens e histórias quase invisíveis. 


3 Os contos eróticos de Deana Barroqueiro. 


4 Judite: a viúva casta (da Bíblia à Literatura). 


5 Um contraponto: Emma Zunz, de Jorge Luis Borges. 


6 De vítimas a vingadoras: às margens do Éden. 


Bibliografia básica: 

A BÍBLIA de Jerusalém. Judite. Vários tradutores. São Paulo: Paulinas. 1985. 
BARROQUEIRO, Deana. Os langores de Holofernes. In: Contos eróticos do Velho Testamento. Lisboa: Planeta, 2018. 
BORGES, Jorge Luis. Emma Zunz. In:. Jorge Luis Borges: Obras completas. v. 1. Trad. Flávio José Cardozo. São Paulo: Globo, 1998. p. 627-631. (O Aleph, 1949). 
DELUMEAU, Jean. Os agentes de satã: III. A mulher. In: História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 462-522. 
LUDMER, Josefina. Mulheres que matam. In: O corpo do delito: um manual. Trad. Maria Antonieta Pereira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 329-374. 
NASCIMENTO, Lyslei. Mulheres que matam: Judite, crime e redenção. In: JEHA, Julio; JUÁREZ, Laura; 
NASCIMENTO, Lyslei (Org.). Crime e transgressão na literatura na literatura e nas artes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. p. 155-172. Informações: (21) 2221-3138 | gabinete@realgabinete.com.br

26/11/2019

O Museu do Prado Feesteja os seus 200 anos

Quando o Museu do Prado faz anos, a festa é também da rainha portuguesa que o criou: Isabel de Bragança teve uma vida curta e muito infeliz, mas isso não a impediu de criar uma das melhores pinacotecas do mundo. 

(Edição Público Porto19 Nov 2019 Artes - Lucinda Canelas)

Nada mais apropriado do que o museu que deve em boa parte a sua existência a uma mulher celebre o dia exacto do seu 200.º aniversário com uma das suas principais exposições dedicada a duas pintoras, coisa inédita na sua história. Falamos do Museu do Prado, em Madrid, da rainha que o fundou, a portuguesa Isabel de Bragança, e de Sofonisba Anguissola e Lavinia Fontana, duas artistas italianas dos séculos XVI e XVII. Francisco de Goya também lá está (e por direito), numa exposição saída de um projecto mais vasto para o novo catálogo raisonné dos seus desenhos ( fica até 16 de Fevereiro).

Estas são praticamente as últimas propostas de um intenso ano de festa marcado por conferências, restauros e exposições, com destaque para a de Fra Angelico e a que juntou Velázquez, Rembrandt e Vermeer. Foi há precisamente 200 anos que uma colecção destinada à esfera da corte se transformou num importante instrumento de democratização da arte, embrião daquela que viria a ser uma das melhores pinacotecas do mundo, hoje visitada por três milhões de pessoas por ano.

Na sua génese está uma princesa portuguesa, Isabel de Bragança (1797-1818), a primeira de nove fi lhos de um casal eternamente desavindo, o rei D. João VI e D. Carlota Joaquina. Para reforçar as alianças entre Portugal e Espanha, a infanta viria a tornar-se mulher de um dos seus tios maternos em 1816. Fernando VII tinha, então, 31 anos, Isabel apenas 19. Pouco tempo depois, engravidou da sua primeira filha, que morreu aos cinco meses, tornando ainda mais difícil a sua vida na capital espanhola. O marido, de “gesto antipático” e “modos camponeses”, conta Marsilio Cassotti no livro Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha, desprezava-a. (Jornal Público)

Embora não fosse feliz no casamento, Isabel terá conseguido levar Fernando VII a investir na criação de um museu, com as centenas de obras que encontrou armazenadas no Mosteiro do Escorial , convencendo o marido a recuperar o degradado edifício do Gabinete de História Natural. Isabel conseguiu o seu intento, mas morreu do seu segundo parto em 1818, um ano antes da inauguração do seu museu.

18/11/2019

«1640»: Ventos de Revolta

CONTINUAÇÃO DA NARRATIVA DA RESTAURAÇÃO: VENTOS DE REVOLTA - narrado por Brás Garcia Mascarenhas no "1640"
«Das insurreições que assolavam o reino, ia-nos chegando notícia, tanto dos motins do Porto e de Coimbra como, em 1638, das alterações de Évora, que deram maior brado devido ao modo brutal como a revolta do Manuelinho foi esmagada e pelo grande número de populares justiçados. Ansiava-se por um Rei português, como proclamava uma das quadras do louco que dera nome à revolta: 
Um Rei novo nascerá, 
que novo nome há-de ter; 
de terra em terra andará. 
Muita gente lhe há-de morrer. 
Crescia o ódio ao Rei estrangeiro e à tríade de ministros traidores, que, como capatazes sabujos, governavam em seu nome, esbulhando Portugal e o nosso Império d’além-mar de homens, recursos e riquezas, para financiar as guerras do Império espanhol. 
O medo não calava as vozes do povo, que fizera canções de esperança das rimas proféticas do Bandarra, o sapateiro de Trancoso morto há quase cem anos. Os versos apontavam para o duque de Bragança, Dom João, que eu vira em menino a jurar fidelidade ao Príncipe Filipe, aquando da visita do pai a Lisboa. 
Também eu sentia um formigueiro de patriótica esperança de libertação, porém, nove anos de constantes combates no Brasil tinham-me deixado farto de guerras, decidido a não me meter em conjuras e a gozar o resto da minha vida no remanso do meu lar. O poeta que há em mim, todavia, não ficou incólume aos fumos da revolta, de que o meu Viriato se fez eco: 
Presságios mil, celestes e terrenos, 
por umas e outras partes repetidos, 
estavam prometendo, quando menos, 
grandes mudanças, reinos divididos 
e como lá dos campos agarenos 
a causa derivou destes perdidos, 
sua restauração tão desejada 
dos campos catalães foi derivada. 
(«Viriato Trágico» - Epopeia de Brás Garcia de Mascarenhas) 

Foi pelo abade Jacinto Freire de Andrade que tomei conhecimento da conjura e golpe que restaurou a Monarquia portuguesa, libertando-nos do jugo espanhol e fazendo girar a meu favor a roda da fortuna, numa inesperada mudança de vida, porque os meus crimes foram amnistiados e eu rendido à liberdade – «águas involtas são voltas de povo, / a que sai todo réu, peixe escondido; / logo saí da Pátria pera a Corte, / onde o caso passava desta sorte.» Cantei o milagroso sucesso, transbordando de entusiasmo patriótico: 
Já o morto valor ressuscitado 
na hora sinalada, oito do dia 
primeiro de Dezembro, ano apontado 
em quarenta, de antiga profecia: 
com a gala encobrindo o peito armado 
de várias partes lento concorria 
ao Paço, como tinha de costume, 
que este desmente, o que se já presume.
(«1640» - Deana Barroqueiro)

«1640» - A Conspiração

CONTINUAÇÃO DA NARRATIVA DA RESTAURAÇÃO

No período que antecedeu a revolução de 1640, os conjurados desesperavam com as hesitações de D. João, o duque de Bragança, em aceitar a coroa e chegaram a ameaça-lo com a escolha do irmão, D. Duarte, ou até com a implantação da República. Assim o relata D. Álvaro de Abranches a D. Francisco Manuel de Melo, quando o visita na prisão: 

«– Dom Duarte de Bragança partilhara da aversão de seu pai ao domínio castelhano, tendo recusado a mão de Dona Maria de Guzmán, a filha do valido, que lhe tomou grande ódio. Exercia grande influência sobre o irmão mais velho e opôs-se ao seu casamento com “uma parenta do Olivares”. Por isso, Dona Luísa não morria de amores pelo cunhado, temendo que o seu Império sobre Dom João fosse maior que o dela. Um desamor agravado com o desrespeito que ele lhe mostrou ao ter conversação pecaminosa com uma das suas açafatas, pelo que forçou o marido a dar casa própria aos cunhados, fora do paço de Vila Viçosa. O Infante morou durante algum tempo com o irmão mais novo, Dom Alexandre, numa quinta cedida por Francisco de Lucena, mas o desejo de buscar fortuna levou-o a partir para Madrid, em 1634, acompanhado de Francisco de Sousa Coutinho… 
– O mais célebre político e diplomático do nosso tempo – interrompo eu, pois nunca é tarde para se fazer justiça e elogiar a quem é merecedor. 
– Sem dúvida! Era já o homem de maior confiança do duque Dom João, que o enviou com o cargo de aposentador-mor do seu irmão, para acomodar os sessenta criados, a livraria, o guarda-roupa, a repostaria, a cozinha, a coudelaria e a escrivaninha, entre outros serviços, com créditos abertos nas maiores cidades de Alemanha, Itália, e França. «Talvez esperasse grandes mercês de Dom Filipe, por ser quem era, ou de uma recomendação para Fernando II, Imperador do Sacro Império e Rei da Hungria, mas nem sequer foi recebido em audiência pelo rei, como era devido a um Grande de Portugal. Sentindo-se pouco estimado e nada favorecido, seguiu para a Alemanha. Quanto às hesitações do duque Dom João, de que falávamos há pouco, após nova visita, e já no auge da desesperação, Pêro de Mendonça atreveu-se mesmo a dizer-lhe que, se o irmão também declinasse a honra e o dever de ser Rei de Portugal, talvez os conjurados não tivessem outro remédio senão a substituir a monarquia por uma república, ao modo de Holanda ou Veneza. 
«– Se nós proclamarmos a República, que partido tomará Vossa Excelência, o de Espanha ou o de Portugal? – perguntou-lhe, olhos nos olhos. 
– O da Pátria, Pêro de Mendonça! – respondeu Dom João de imediato, dando novas esperanças aos patriotas que decidiram agir.». 
(«1640» - Deana Barroqueiro)

30/10/2019

«ETIÓPIA» - Fotos

Algumas fotos para despertar o apetite para +Etiópia», o livro de Lisa Vaz, com Prefácio de Deana Barroqueiro sobre o Reino do Preste João.

29/10/2019

Etiópia e os Portugueses

«ETIÓPIA» -  Um livro de fotografia de Lisa Vaz com prefácio de Deana Barroqueiro.


Uma bela prenda para oferecer no Natal.

Para ver uma curta apresentação digital e/ou encomendar a obra por favor clique no link: http://bit.ly/31UuEyT
 (Jorge Pinto Guedes - Editora ALMALUSA)

19/10/2019

«1640», a Catalunha e a Restauração

       No próximo dia 1 de Dezembro, a Restauração da Monarquia que nos tornou de novo independentes do domínio castelhano (ao contrário da Catalunha e de outros movimentos independentistas) faz 379 anos. Como parece que gostaram do tema, deixo-vos aqui mais umas passagens do meu «1640». Quem fala em 1ª pessoa (Eu) é D. Francisco Manuel de Melo, que está preso e recebe a visita de alguns heróis da Restauração:

       «– Abençoada revolta da Catalunha – começa D. Álvaro de Abranches, com uma risada de satisfação, parecendo ler o meu pensamento –, que desviou de nós as atenções de Olivares e do seu exército! Espantou-nos a tardia reacção do conde-duque ao nosso golpe, como se lhe custasse a crer que os portugueses fossem capazes de tamanha ousadia. Essa imprevidência foi-lhe fatal. A res publica, por cá, ia de mal a pior. Eram poucos os que possuíam grossos cabedais, porque quem os tinha já saíra do reino ou empobrecera. Olivares, na sua cegueira, obrigava Portugal a pagar mais dez ou doze tributos do que Castela, encarregando Diogo Soares e Miguel de Vasconcelos de fazerem o trabalho sujo de nos espremer até o tutano.
        – O verdadeiro governador do reino era Soares, esse traidor mal nascido, embora estivesse na secretaria de estado de Madrid! – regouga D. Rodrigo de Castro. – Ele propunha os tributos e os modos para a sua imposição, que o dedicado genro, Miguel de Vasconcelos, fazia executar em Lisboa, no cargo de escrivão da Fazenda.
        – Uma tríade de amanuenses – diz o poeta Brás Garcia de Mascarenhas – que defendia os interesses estrangeiros em prejuízo dos naturais.
        – Só saberá governar bem uma república, quem souber governar bem a sua casa – afirmo-lhe, convicto. – A cidade é uma família grande e a família uma cidade pequena. Toda a governança de uma casa se reduz a dois pontos: pão e pano ou prato e trato. Pelo pão ou prato, se deve entender todos os bens das portas adentro, pelo pano ou trato, todos os bens e cómodos das portas afora. Os estrangeiros levam-nos o ouro e a prata, e deixam-nos em seu lugar bonifrates e cascavéis…
        – A tríade infernal encarniçava-se contra uma nação que já estava empobrecida e endividada – recomeça D. Álvaro. – Os motins rebentavam por todo o reino, como os do Manuelinho de Évora, ou o das Maçarocas no Porto, com magotes de gente nas ruas a exigir em grandes clamores que El-Rei D. Filipe, antes de tirar o pão da boca ao povo de Portugal, emendasse os abusos das doações do nosso património a estrangeiros. Pediam-lhe para reformar a administração de Madrid, cortando nos gastos, como fizera Dom Sebastião, para custear a campanha de África, reduzindo a despesa da sua mesa a vinte cruzados diários. Os fogachos e fumos da revolta foram-se avolumando, anunciando o grande incêndio que não tardaria a lavrar, alimentado pelo sopro nostálgico do Desejado, o Rei salvador por quem todos suspiravam, o Príncipe Encoberto das profecias do Bandarra e de tantos outros videntes.
        – Essas trovas que invocavam o Desejado – diz Brás Garcia – chegaram até à minha recôndita vila de Avô, onde eu me refugiara, influindo também no meu poema "Viriato Trágico", de que vos citarei uma oitava, já que mo haveis pedido: Antigas Profecias, bem que escuras / notadas de prudentes curiosos, / por entre a confusão das desventuras / uns longes transluziam venturosos. / Porém sendo em proféticas figuras / os alvos de acertar dificultosos. / Tendo perto de si o a que atiravam, / como cegos sem luz, todos o erravam.
        Aproveito a interrupção e os aplausos ao poeta, para acrescentar:
        – O triunvirato de escriturários que governava Portugal era de baixo nascimento, pouca qualidade e medíocre saber, não estava à altura de tão difícil empresa. Há homens que medram por tomarem os ofícios que não são seus, outros por fazerem o que não sabem, porque vendem a sua ignorância por mistério. E como ninguém quer mostrar que ignora o que outro mostra que sabe, logo se apressa a aprovar a parvoíce alheia para encobrir a própria!
        – Dizia um cortesão que assim como cada homem, por bom governo de sua casa, devia matar cada ano pelo menos dois porcos, assim, para bom governo da res publica, se devia matar cada ano pelo menos dois vilões ruins dos muitos que nos desgovernam – remata o poeta.
        – Soares tinha tamanho receio do poder do duque de Bragança que disse, despudoradamente e em público, que “El-Rei não seria senhor de Portugal, enquanto a praça de Vila Viçosa se não tornasse um prado sempre verde”, recomendando a destruição da casa ducal.
        – Pois é, as parvoíces são como as almorreimas, em que o perigo está em saírem para fora, quanto melhor não seria se as deixassem ficar no sesso.
        D. Álvaro deixa esmorecer os risos e murmúrios de concordância que a fala de D. Rodrigo provocou e retoma a sua narrativa:
        – O ódio à tríade dos judas era um fogo vivo a atiçar os ânimos dos que ansiavam por um Rei natural, nascido na sua nação, capaz de lhe defender e preservar a independência, assegurando um bom governo e sendo garante do bem-estar e segurança do seu povo. Com a nomeação da duquesa de Mântua, uma estrangeira, para vice-Rainha de Portugal, o conde-duque violou de novo os trata-dos de Filipe I, lançando mais uma acha na fogueira, e a nobreza juntou o seu descontentamento ao do povo. Ora escutai a Brás que pede a palavra.
        – … com tão grande valor, tal ousadia, / que o perigo mortal não considera, / que considerações escrupulosas / nunca geram façanhas generosas. // Luta o valor com mil dificuldades, / a todas derrubando em profecia, / por acabar com mil adversidades, / por desterrar a estranha tirania, / por evitar rendidas dignidades, / por restaurar a antiga Monarquia, / e por não sofrer mais tantos tributos, / que brutos nos deitavam como a brutos.
         – Vejo, pelos aplausos, que a minha sugestão de fazer dialogar a prosa com a poesia é do vosso agrado, portanto, vou prosseguir com o meu relato, rogando ao poeta que me interrompa, sempre que lhe aprouver, com excertos da sua epopeia.

        «Quando o duque de Bragança foi a Almada e passou o rio para visitar e prestar homenagem à vice-Rainha, foi aclamado como legítimo herdeiro da monarquia pelo povo e por muitos nobres que acudiram a vê-lo, com tamanho alvoroço que o marquês de la Puebla, pressentindo o perigo naquelas aclamações, desabafou com azedume: Para que tiran el duque de su tapada y le muestran a los Portuguezes? Dexenle estar en su rincón.
        D. João mostrava-se relutante em aceitar a coroa, tendo a sua Corte em Vila Viçosa e levando uma mimosa vida, de muita abastança e prudência. Para manter as boas graças de Madrid, casara nesse ano com Dona Luísa de Gusmão, um matrimónio cozinhado por Olivares, por ela ser filha dos duques de Medina-Sidónia, ainda seus parentes, a fim de melhor sujeitar ao seu poder a casa de Bragança.
        Contra todas as presciências do valido, o tiro saiu-lhe pela culatra. A nova duquesa, de vinte anos (menos nove que o marido), formosa, sobre o moreno e de olhos grandes, era também descendente dos Reis de Portugal, D. João I e D. Fernando e, segundo consta, um escravo mouro da casa de seus pais, com fumos de nigromante, vaticinara-lhe à nascença – Domingo, dia 13 de Outubro de 1613 – que haveria de ser rainha, uma profecia que todos levaram à conta de inzonas do perjuro para receber alvíssaras.
        Relembrando, com algum espanto, esta lenda do seu nascimento, a duquesa escolheu sem hesitar o partido da Restauração, vencendo a tibieza do marido, com uma varonil declaração: – Ainda que a morte seja a consequência da Coroa, tenho por mais acertado morrer reinando que acabar servindo. De mais todos os vaticínios seguram a empresa, por conseguinte, somente a dilação de vos coroardes pode ser prejudicial.
        A meu ver, o que levou D. João a decidir-se foi a determinação dos confederados em escolher o seu irmão D. Duarte para Rei de Portugal, se ele continuasse timorato. Já em Novembro de 1638, depois das alterações de Évora…»
     
       – Estava eu de novo preso em Lisboa… – murmuro, a meia voz, logo arrependido da interrupção.
        D. Álvaro não parece incomodado e, fazendo-me um aceno de compreensão, prossegue:
        – Em Junho desse ano, o Infante pedira licença ao Imperador Fernando III, em cujo exército servia, para vir a Portugal tratar da herança que seu irmão Alexandre lhe deixara, a qual incluía três comendas da Ordem de Cristo.

        «D. António de Mascarenhas, que começara a perder a esperança de conquistar o duque de Bragança para a nossa causa, farto de o ouvir dar a mesma resposta de que “ainda não havia ocasião”, foi ver D. Duarte à quinta da Cotovia, onde ele se refugiara e evitava visitas, antes da sua partida para o Sacro Império. Buscou por todos os meios convencê-lo a ficar em Portugal, insistindo em como a sua experiência militar e política seria sem preço para o movimento. Afiançou-lhe a lealdade do numeroso grupo de fidalgos, que esperava a sua ajuda para pôr a coroa na cabeça do irmão. O Príncipe disse-lhe também que ainda não chegara a hora da Restauração.
        Não querendo desistir da sua preciosa ajuda, os conjurados enviaram-lhe Jorge de Melo com uma proposta, feita em veementes palavras: Senhor, donde se vai, quando o Reino está lutando com as ondas de um pego de contínuas vexações? E quando El-Rei de Castela nos quer aniquilar e reduzir à mesma infelicidade da Galiza? O duque é o legítimo Rei de Portugal; se ele não quiser aceitar o ceptro, aceite-o Vossa Excelência, que nós saberemos sacrificar a vida em sua defesa. O senhor Infante respondeu-lhe: Deixai essa empresa nas mãos de Deus, que haverá de a resolver a contento dos portugueses. Juro-vos que, quando esse momento chegar, virei de donde quer que me ache e não vos faltarei com o meu amparo.
        Não o pôde fazer, como sabeis (e perdoai-me por me adiantar na história), porque D. Filipe e Olivares, temendo que a sua experiência de grande comandante militar fosse de muito proveito a Portugal e prejuízo a Espanha, assim que souberam da Restauração, fizeram com que o Imperador da Alemanha o prendesse e vergonhosamente lho vendesse, como se fora um escravo, para ser encarcerado nas masmorras do castelo de Milão, sem esperança de liberdade. Na falta de provas contra D. Duarte, o conde-duque recorreu à calúnia, dizendo que era pública voz e fama que ele não somente era cúmplice do irmão rebelde, mas autor da rebelião.».
        – São preciosas as notícias que me dá – interrompo de novo, muito alvoroçado com o rumo da conversa, que vinha ao encontro da minha curiosidade há muito insatisfeita, por me achar na prisão –, porque tenho entre mãos uns rascunhos sobre a sua vida que vou escrevendo ao sabor do que fui ouvindo, quer no meu Tácito Português, um opúsculo com os ditos e feitos d’El-Rei, quer em folhetos como o Elogio ao senhor Infante D. Duarte irmão do sereníssimo Rei D. João IV, quando segunda vez se preparava para a jornada da Alemanha, precisamente sobre esse sucesso. Na década de 30 todos os que servíamos nos exércitos de Filipe, conhecíamos os seus feitos de ar-mas, contra os exércitos da Suécia e da França. Rogo-lhe novamente perdão, D. Álvaro, por mais esta interrupção, testemunha do meu grande interesse e desejo que se detenha nos pormenores de maior significado da história.
        Aproveitando a pausa, o poeta recita:
        – Arde o desejo por chegar a efeito, / que bem se infere, bem, ou bem se entende / quão grande coração arde no peito / do grão-duque, pois tal empresa empreende. / Mas ele, e cada qual no brando leito / donde o conselho ao valor repreende, / inquietos sentem, sem dar tréguas aos olhos / lençóis de espinhos e colchões de abrolhos.
(Deana Barroqueiro - «1640»)


17/10/2019

«1640»: A Restauração e a revolta da Catalunha

Caros amigos e amigas:

       Não tenho o costume de recomendar a compra dos meus livros, mas os sucessos violentos em Espanha, com ao catalães revoltados a exigirem a autodeterminação e a independência (como têm feito incessantemente ao longo dos séculos), sujeitos a grande repressão, mostram como o meu romance «1640» está actualizadíssimo.
       Foi, em grande parte, graças à revolta da Catalunha que Portugal ganhou a sua independência com a Restauração da Monarquia Portuguesa, em 1640, libertando-se do jugo castelhano que durava há já 60 anos e nos deixava na miséria.
       O meu romance está construído segundo o modelo seiscentista de diálogos entre as personagens históricas e os seus relatos dos sucessos em que participaram ou assistiram e assenta em rigorosa investigação.
       Os narradores da Restauração são o poeta aventureiro Brás Garcia de Mascarenhas (que escreveu o poema épico "Viriato Trágico"), a professa e poetiza Soror Violante do Céu, o fidalgo prosador Dom Francisco Manuel de Melo (que redigiu a história das lutas da Catalunha, em que participou do lado castelhano) e o pregador Padre António Vieira.
       Deixo-vos aqui um excerto do romance em que é introduzido o tema da Catalunha. Se gostarem, porei outros. O relato é feito por Dom Francisco Manuel de Melo:

        «– Dou-vos, então, o mote popular, para que o gloseis: El año de quarenta – Castilha se lamenta; el de quarenta y uno – en Portugal Castellano ninguno; el de quarenta y dos – Castilla, vete com Diós. El de quarenta y três – en Castilla Rey Portuguez.
       – Do ano 40 posso dar-vos minuciosa conta, por ter participado, desde a primeira hora, nos sucessos que tanta paixão causaram a Castela – apressa-se a dizer Dom Álvaro.
        Deixo escapar um queixume de amargura:
       – Nessa hora, eu estava a ser um dos algozes do suplício dos catalães, enquanto mestre-de-campo ao serviço de Dom Filipe, como era exigido a todo o fidalgo e oficial do Império. El-Rei tinha-me concedido o honroso cargo de assistir ao general Dom Pedro Fajardo, marquês de Los Veles, que não tinha experiência da guerra, portanto, nenhuma decisão se tomava sem meu consentimento e os oficiais tinham ordens para me obedecer em tudo o que eu mandasse. Estando eu acostumado a ser logo preso nas mudanças de reinos, e de Estados, não estranhei que o mesmo correio que levou ao exército da Catalunha a notícia de que Portugal se livrara do jugo castelhano, trouxesse também uma ordem para me prenderem e levarem em ferros para Madrid (sem companheiros nem criados, como competia ao meu posto, antes desprovido de tudo como um vulgar criminoso), acusado de ser do partido de Dom João de Bragança. Em Madrid o desconcerto era total: no Sábado, primeiro de Dezembro, a coroa de Espanha perdera o reino de Portugal e na sexta-feira, 7 de Dezembro, perdera o principado de Catalunha. Filipe IV perdera dois reinos numa semana, sem guerra ou batalha!
       – O que mais me espantou, na governação de Olivares e de Filipe – pontua o abade, quando afrouxam os risos da assistência, provocados pelas minhas palavras –, foi o seu profundo desconhecimento da alma dos povos que sujeitavam, fossem lusos, neerlandeses, catalães ou outros, menosprezando a sua isenção e esmagando os seus sentimentos de orgulho nacional.
       – A arrogante Castela fez, contra as nações mais fracas que queria subjugar, uma guerra tão crua que poucas semelhantes viram os tempos. Começou em 1634 e vai ainda em aumento a febre da sua dominação.
       – Por cá – volve-me Azevedo –, Miguel de Vasconcelos e Diogo Soares, os seus leais “capatazes”, asseguravam-lhes a nossa submissão, fomentando esse mundo de ilusões em que viviam. Quando este despótico triunvirato despertou da sua fantasia já era demasiado tarde.
       – Apesar de se intitular Rei de Portugal, Filipe IV nunca se dignou a visitar-nos – exclamou Dom Rodrigo, com um risinho de mofa. – Por essas e outras razões, os portugueses, afrontados, passaram a coroa da cabeça dos Reis hispanos para a de um Rei natural. »
(Deana Barroqueiro - «1640» - Ed. Casa das Letras, 2017)