14/03/2010

A propósito do assédio ("bullying")

Agradeço profundamente aos que se deram ao trabalho de me ler e de deixar os seus comentários ao meu texto, tanto aqui como no blogue "Sorumbático". Foi para proporcionar essa troca de ideias com os meus leitores ou outros cibernautas que eu quis ter, além da minha página de escritora, este blogue.

Não pretendo ser "modeladora de opiniões" (já os há em demasia e não tenho formação para tão difícil empresa). Escrevo apenas sobre o que conheço ou o que observo, em particular, sobre o que me alegra ou me desgosta além do razoável e não suporto ver gente humilhada ou subjugada a qualquer tipo de poder.

Reajo instintivamente, à ameaça ou intimidação e contra-ataco, mesmo sabendo o perigo que corro. Não se trata de bravura, mas desse "Síndrome de Joana d'Arc" que me impele a lutar contra a injustiça. Desde menina.

Por isso, também tinha dificuldade em aceitar que um professor - sobretudo um homem, porque a matilha dos opressores escolhe habitualmente professoras muito jovens ou idosas, por serem presa fácil -, não conseguisse controlar uma turma e se deixasse abater, ao ponto de cair em tal depressão que necessitasse de tratamento psiquiátrico ou o pudesse levar ao desespero do suicídio, como confessou o colega na sua nota de despedida.

Contudo, ao longo dos últimos anos, fui vendo aumentar a indisciplina e diminuir a capacidade das escolas e os seus instrumentos para a conter, por obra e graça das directivas e reformas do M.E. O sentimento de impunidade e do "vale-tudo" tornou-se regra entre os estudantes e ai daqueles que se tornem seus alvos e não reajam ou não consigam impor-se-lhes. Há os que o conseguem, com mais ou menos luta; outros, para sobreviverem, "fazem o jogo" dos alunos, deixando-os "à solta"; os mais fracos e sensíveis são triturados.
Assisti, apesar da ajuda que colegas e membros do Conselho Directivo lhes prestasvam, à destruição de alguns colegas (homens e mulheres) que tinham vindo para o ensino cheios de esperança e de desejo de se fazerem bons profissionais. Não lhes deram essa oportunidade.

Cada vez há mais casos de professores com problemas de depressão, há artigos, relatórios e estatísticas sobre isso, mas também sei que só quem tenha um contacto próximo com a comunidade escolar conseguirá perceber a gravidade do problema. Daí que a situação se tenha vindo a agravar a passos de gigante. Sem a solidariedade e a compreensão dos seus pares e da sociedade, o indivíduo fica isolado, vulnerável e indefeso.

Em que outra profissão, um trabalhador (e a classe dos professores é aquela cujos membros têm mais habilitações académicas e profissionais, actualmente já todos têm Licenciaturas e muitos o Mestrado) está sujeito a sofrer, diariamente e durante seis ou oito horas seguidas, o desgate de vagas sucessivas, de 25/30 crianças e adolescentes "apenas" barulhentos e desatentos, embora simpáticos (no melhor cenário) ou indiciplinados, violentos e grosseiros (nos piores casos)?

Por que razão não tem o professor o direito, como qualquer outro profissional em contacto com o público, de se recusar a dar aulas a uma turma de alunos que o ofendem e humilham, que se estão nas tintas para o que ele lhes quer ensinar e lhe fazem a vida negra?
Não pode, porque, se se recusar, fica sujeito a um processo disciplinar, com consequências gravíssimas. Só poderá libertar-se abandonando o ensino, se tiver outros meios de subsistência ou se estiver disposto aos riscos de mudar de vida, a meio da carreira, para começar de novo, depois de ter passado os seus melhores anos como professor.

Muitas vezes os colegas e a direcção da escola não sabem do seu sofrimento porque os visados não contam o que se passa, por vergonha (vejam a entrevista no link do post anterior, embora não seja sobre a escola, refere inúmeros casos patéticos de suicídio devido ao assédio), o que os leva a isolar-se cada vez mais. Tal como acontece com os alunos vítimas de assédio (prefiro a palavra portuguesa ao "bullying") dos colegas mais velhos ou mais fortes, quase sempre em bando.

Há uns anos, eu aconselhava a minha profissão aos mais jovens, agora digo a todos para a evitarem, tal como aconselhava a frequentar a escola pública e, agora, aconselho a privada, não por terem melhores professores, mas porque aí os pais pagam balúrdios de propinas e obrigam os filhos a comportarem-se bem e a estudarem, para que eles não sejam recusados ou expulsos por essas escolas. As públicas são praticamente gratuitas e, mesmo com cadastro, um aluno não pode ser recusado e é quase impossível expulsá-lo.

Tive, durante cerca de 30 anos, a paixão do ensino, nos últimos anos perdi-a quase por completo. Aposentei-me por antecipação e com penalizações. Retomei a escrita, senti-me renascer e voltei a ser feliz. Mesmo assim ainda fui a muitas escolas falar aos alunos, porque sentia-lhes a falta. Tenho uma grande capacidade de comunicação e sempre captei a atenção dos jovens com as minhas histórias.

Agora, já nem isso se consegue. Não voltarei a perder o meu tempo e as energias a ir às escolas falar para uma massa barulhente e grosseira (a última sessão foi numa das boas escolas de Lisboa, só com Secundário e num bairro tradicionalmente rico), que só ali está para "se baldar às aulas" e, apesar da vigilância dos professores, faz tudo para estragar a conversa que alguns alunos ainda interessados procuram manter.

Quando se passar a responsabilizar os pais pelo abandono e mau comportamento dos filhos, talvez as coisas mudem.

9 comentários:

Rogério Pereira disse...

Minha Cara, eles baldam-se às aulas, V baldou-se-lhes... A vida é dura e eu não julgo niguém, nem sequer os pais que abandonam os filhos!

Entre dois caminhos, um é mais recomendável que outro. Pode ver isso no meu blog de ontem, sem preconceitos entre nos links (não precisa comentar)

DEANA BARROQUEIRO disse...

Caro Rogério

Baldei-me mesmo e - o que em mim é espantoso - sem remorsos, antes com imensíssimo alívio, por me sentir completamente inútil no ensino.
Pelo menos com a escrita, mesmo durante os primeiros anos em que não ganhava para o papel e para o computador, senti que estava a contribuir mais para o país, com as minhas obras, "ensinando" muito mais gente do que na escola.
Com os livros, em vez de me cuspirem ou chamarem nomes (como vi fazer a um director na escola por um puto de 11 anos), sinto-me acarinhada e apreciada pelo meu trabalho.
Não consegui responder-lhe no seu blogue, que visitei ontem, por ter tido imensas dificuldades em aceder a essa Página.
Um abraço

Rogério Pereira disse...

Deana, vou espiar o seu "Espião..." Dir-lhe-ei, depois, se posso contar consigo nesta minha teimosa mania de querer mudar o mundo.
Abraços

regina disse...

Deana
Cara Deana
Felicito-a por este seu texto e por muitos ouros que aqui tenho lido.
Aposentei-me não por causa dos alunos mas pelos desmandos da política educativa de MLR que tão mal tratou os professores deixando marcas, algumas das quais serão proventura irreparáveis. A própris indisciplina crescente que, obviamente tem muito a ver com a família, foi fomentada pela política de total desresponsabilização dos alunos.
È perfeitamente surrealista que um aluno totalmente desinteressado não seja responsabilizado pelo seu insucesso e toda a responsabilidade recaia sobre a o professor a ponto de ter que preparar provas (testes, ou quaisquer outras) até conseguir o sucesso (virtual) dos alunos.
Um beijinho
Regina Gouveia

regina disse...

Deana
Cara Deana
Felicito-a por este seu texto e por muitos ouros que aqui tenho lido.
Aposentei-me não por causa dos alunos mas pelos desmandos da política educativa de MLR que tão mal tratou os professores deixando marcas, algumas das quais serão proventura irreparáveis. A própris indisciplina crescente que, obviamente tem muito a ver com a família, foi fomentada pela política de total desresponsabilização dos alunos.
È perfeitamente surrealista que um aluno totalmente desinteressado não seja responsabilizado pelo seu insucesso e toda a responsabilidade recaia sobre a o professor a ponto de ter que preparar provas (testes, ou quaisquer outras) até conseguir o sucesso (virtual) dos alunos.
Um beijinho
Regina Gouveia

regina disse...

Cara Deana
Felicito-a por este seu texto e por muitos outros que aqui tenho lido.
Aposentei-me não por causa dos alunos mas pelos desmandos da política educativa de MLR que tão mal tratou os professores deixando marcas, algumas das quais serão proventura irreparáveis. A própris indisciplina crescente que, obviamente tem muito a ver com a família, foi fomentada pela política de total desresponsabilização dos alunos.
È perfeitamente surrealista que um aluno totalmente desinteressado não seja responsabilizado pelo seu insucesso e toda a responsabilidade recaia sobre a o professor a ponto de ter que preparar provas (testes, ou quaisquer outras) até conseguir o sucesso (virtual) dos alunos.
Um beijinho
Regina Gouveia

DEANA BARROQUEIRO disse...

Obrigada, querida Regina.
Conheço a sua entrega ao ensino e aos seus alunos, por isso é bom ter aqui o seu testemunho.
Bem haja!
Um beijo de muita amizade.

ellen disse...

Concordo totalmente com a sua ultima frase!!!...ela é a chave do cerne da questão.

Cheguei aqui pelo Blog da Céu Vieira.

Beijinho

DEANA BARROQUEIRO disse...

Obrigada Ellen, pelo seu interesse.
Já fui espreitar os vossos blogues!
Um beijo