24/11/2010

Memórias de Estalo - Epílogo

Também do lado da Porta da Cruz, no Cais do Carvão e no Cais da Madeira, assim como nas Tercenas onde se fabrica a pólvora, dão por findo o trabalho mais três centos d’homens e mulheres, os quais começam a abandonar a Ribeira e nós com eles. A caminho do Hospital, seguimos pela rua da Fancaria e viramos à direita na de Julianes, até à Igreja de Santa Maria de Madanela e depois à esquerda, pela Rua da Correaria, bordeando a Judiaria Grande, cujas portas serão prestes cerradas, e vamos dar ao Convento das Carmelitas, no cruzamento da rua do Quebra-Costas com a dos Torneiros, a qual tomamos a rijo trote, que em Novembro mui prestes cai a noute. Chegados à Igreja de S, Nicolau, minha preciosa Esmeralda, não tem que saber, é sempre a direito pelas ruas das Arcas e da Palha até ao pátio de serventia do Hospital de Todos-os-Santos.

Numa das 3 cozinhas do Hospital que vemos desde o pátio pera onde nosso amo nos carreou, os oficiais de serviço andam mui azafamados na preparação das comidas e mezinhas pera os cerca de cento e quarenta enfermos que tem a seu cargo, pois se acerca a hora da ceia e o enfermeiro-mor tem neles grande vigia, não os deixando lazeirar . Ajudado pelo azemel do Hospital, meu amo não perde tempo em nos atrelar à carrocinha, a mim e à doce Esmeralda, lado a lado, pera minha maior ventura e prazer! Que bem que cheira a jumentita e como busca o calor de meu corpo, no arrepio da noite!

Nosso amo inda s’atarda pera duas canadas de tinto com o azemel e quando sobe pera a carrocinha, tem de ser com muito socorro, que já mal se sustém nas pernas, o que lhe dá grande risa, a ele e a todos os que correm a alá-lo pera riba do banco, onde só com muito trabalho logra manter-se assentado. “Uxtix, ‘Stalo,‘bora p’ra casa, home! Arre, m’nina!” De tão tartamelo nem o meu nome lhe sai escorreito e muito menos o seu famoso estalido de lingua, que faz por soltar, não logrando mais que um triste assopro que sembra deixá-lo sem fôlego. Boto-me a caminho, que me prezo de o saber d’olhos cerrados, sem mister de chibata ou açoute e bastas vezes tenho carreado meu amo adormecido, de Lisboa até Belém.

Agora é seguir a direito, tomando tento nos carreiros, que não hão-de oferecer perigo, pois a noite é de lua cheia, tão clara como se fora dia. Mal sinto o cansaço da jornada que meu coração vai ligeiro como a brisa e o sangue corre quente e grosso no meu corpo. Uma orelha d’Esmeralda roça-me por vezes o pescoço e eu sinto ânsias de zurrar à lua. Meu amo, como que adivinha o meu pensamento e, de lingua inda tartamela, solta em altíssimas vozes os versos da canção: “Mê padre é almocrebo / Vende castanhas e nozes/ Quem quiser casar comego / Alevante-me essas vozes”. Deus o guarde! Amen.


Finis

7 comentários:

Ofélia disse...

Olá Deana
Gostei imenso destas memórias e ficou a apetecer-me dar esta voltinha... uma bocado puxada, mas quem sabe quando o tempo aquecer...
Fantástico seria fazermos um grupo e guiadas pela autora...
Hoje descobri uma verdadeira preciosidade onde até o Estalo aparece. Publiquei no meu blogue
Beijinhos

DEANA BARROQUEIRO disse...

Obrigada minha querida leitora e amiga, não há dúvida de que é uma verdadeira preciosidade! Agradeç o muitíssimo este intercâmbio de descobertas que fazemos. Bem haja, Ofélia-

Jorge Gonçalves disse...

Fechado com chave de ouro, com as ternuras entre o Estalo e a Esmeralda.
A mim, tal como com a Ofelia, tambem me ficou a apetecer dar essa voltinha guiados pela Deana. Talvez o CNC possa organizar...
Parabens Deana por estes capitulos que, numa linguagem da epoca, nos mostrararm a Lisboamdesses tempos!

Ofélia disse...

... e o próximo romance será sobre Fernão Mendes Pinto?

DEANA BARROQUEIRO disse...

Querida Ofélia, mais uma vez obrigada pelas suas visitas ao meu blogue e, sobretudo, pela sua amizade. Acabo de chegar da minha viagem ao Japão, aonde fui no rasto de Fernão Mendes Pinto, do jesuíta Francisco Xavier e de outros muitos que ali ainda são recordados com carinho. Espero, mal me passe o cansaço, dar notícia aos meus leitores de algumas impressões e peripécias da viagem.
Um grande beijo.

DEANA BARROQUEIRO disse...

Caro Jorge, foi um enorme prazer tê-lo a si e à Ana Paula como companheiros de viagem. Amigos do facebook que se tornam amigos pessoais não será raro, mas para mim é sempre uma experiência muito gratificante, como sucedeu também com a Ofélia.
Fico a espera das fotos!
Um beijo para ambos.

Jorge Gonçalves disse...

Quando conseguir por o trabalho em ordem, dedicar-me-ei a seleccionar as fotos do passeio que lhe poderao interessar, Deana.
A Ana Paula Lavado e eu tivemos o imenso prazer de desfrutar da sua simpatia (nao e por acaso que foi eleita ex-aequo como a pessoa mais simpatica do grupo) e carinho, bem como do humor, jovialidade e saber do Joao!